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História

Brás, um retrato do Brasil

História de: Solange Tavares Policarpo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/08/2003

Sinopse

Solange nasceu em uma família conturbada. Assim, tornou-se independente muito cedo, aos nove anos já trabalhava durante o dia e estudava durante a noite. A sua vida no bairro, marcada pelos "espetáculos" de seu pai, quando alcoolizado, torna-se uma vida bastante solitária. Relembra a construção da estação Brás do Metrô, que aconteceu em uma parte rua em que morava, como um acontecimento marcante: a obra trouxe ratos, pó e outras dificuldades para dentro de casa. Todavia, Solange buscou desde pequena apoio, indo à igreja sozinha, fazendo catequese e primeira comunhão. Na idade adulta, virou professora e começou a frequentar um centro espírita, no qual tornou-se dirigente de um curso para iniciantes. Seu grande sonho é conseguir se livrar das amarras que o trauma da doença do pai te deixou, e ser feliz. 

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História completa

P/1 - Solange, por favor, repete para nós o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R - É Solange Tavares Policarpo, nasci em São Paulo no bairro da Lapa em 19 de setembro de 1960.

 

P/1 - E do seu pai, o nome dos dois... Dos pais, nome, data e local de nascimento.

 

R - Meu pai é Álvaro Policarpo, nasceu dia 29 de dezembro de 1933. Minha mãe... Ele nasceu aqui no Brás. A minha mãe é Nair Tavares Policarpo, nasceu na Lapa em 30 de agosto de 1934.

 

P/1 - E os avós maternos?

 

R - Eu só conheço os nomes deles...

 

P/1 - Pode ser.

 

R - Duarte Tavares e Maria das Flores Tavares.

 

P/1 - E os paternos.

 

R - Francisco Policarpo e Francisca Rafaíne Policarpo.

 

P/1 - Você sabe a origem da sua família?

 

R - Olha, é uma mistura de português com italiano.

 

P/2 - Você sabe da onde eles vieram de Portugal e da Itália?

 

R - Olha, o meu avô, pai da minha mãe nasceu atrás... Chama-se Calábria?

 

P/2 - É.

 

R - É, Calábria. Então, meu avô materno nasceu atrás dos montes da Calábria, que falam, né? E o meu avô paterno já não sei, mas ele nasceu, mais assim, no centro da Itália e depois ele veio para cá. Mas, eles vieram pequenos, eu não sei.

P/2 - Entendi.

R - Mas, a origem é, no caso, italiana misturado com português.

P/2 - O seu pai nasceu aonde?

R - Aqui no bairro do Brás.

P/2 - Ah, no bairro do Brás.

R - É, porque... Não, desculpe... É isso. O pai dele que nasceu na Itália praticamente e veio pequeno para cá. Antigamente, não tinha hospitais, eu acho. Eles fizeram... Eram parteiras, né? Que faziam os partos, então, ele nasceu em casa. Ele não nasceu no hospital como eu e meu irmão.

P/1 - Você sabe a história de como é que seus avós europeus chegaram no Brasil? O seus pais não contavam essas histórias?

R - Não, porque o meu pai nunca foi, assim, ligado a isso, sabe? Ele foi criado, assim, praticamente, vamos dizer... Só a minha tia que era mais, assim, dondoca, porque a minha avó dava mais atenção. O meu pai foi, mais assim... Largado, vai, na época, né? Então, ele nunca foi, uma pessoa que a própria minha avó, parou para conversar com ele, explicar as coisas para ele. Então, ele sempre foi praticamente largado.

P/2 - Ele era filho mais novo?

R - Ele era mais velho.

P/2 - Mais velho.

R - A minha tia é mais nova, mas sempre a mãe quando tem um xodó mais pela filha, vai mais, né? E depois, o meu pai sempre... Começou depois de velho, não foi tão já. Ele começou a se envolver com pessoas que levaram ele totalmente à bebida. Aí, já, a família, tanto a minha avó como a minha tia sempre discriminavam o meu pai, sabe? Eu, minha mãe e meu irmão, praticamente, que aguentamos tudo... Vamos dizer assim, o rojão da própria família, porque o meu avô, minha avó nunca ligaram, não. Nunca foram de dar aquele apoio, sabe? Falar “filho, não faz isso”. Vamos procurar levá-lo no médico, em uma clínica para curar, né? Nunca foram disso. A família era eu, minha mãe, meu irmão e só, né? O resto era a crítica.

P/2 -  E a família materna? Os avós maternos, você chegou a conhecer?

R - Não, só o meu avô, mas muito assim... Como eu era pequenininha, eu frequentava... Eles me levavam muito para passear porque, antigamente, tinha aquele Aero Willys que falava, o  carro. Então, fui a única que participou nesse momento do meu avô, mas depois, ele faleceu logo... Então, eu não sei.

P/2 - E aonde vocês passeavam, você lembra?

R - Olha, eu vinha muito aqui no Fórum, porque ele foi casado e, depois, a mulher dele se separou... Ele se juntou com outra mulher e essa mulher queria porque queria todos os bens dele. Mas, na época, eles não casaram de papel passado. Só...

P/2 - Chantagem.

R - Chantagem. Então, ela brigava porque eles tiveram filho, um tal de Gumercindo. Eu não conheço. Aí, eu vinha muito no Fórum da Praça João Mendes, na época. Então, eu sempre freqüentava com o meu avô, o Fórum da João Mendes. Era sagrado. A gente ia uma vez por semana, ou de quinze em quinze dias, uma coisa assim. Mas, eu sempre vinha. Agora que mudou muito o Fórum. Antigamente, a gente só podia vir de saia, ou de vestido. Agora não. Agora pode ir de calça comprida, ou de tênis, que seja. Mas antigamente era aquela rigidez. Então, eu sempre freqüentava mais aí com ele. Porque ele tinha esse problema da justiça com o filho.

P/1 -   E a atividade dos seus pais, como é que era?

R - O meu pai sempre trabalhou em frigorífico como ajudante. Foi nessa fase que começou a pegar o vício da bebida, do alcoolismo. Porque ele trabalhava em frigorífico, e também... Aquela câmara fria, quando saía... Então, eles falavam assim: “Vamos tomar uma caninha.” Como eles falam, né? Então, por isso que ele entrou nisso. Foi nessa que ele começou, porque o meu pai sempre só bebeu refrigerante. Então, aí começou... Aí vinha. Depois, ele teve um problema de espinha devido a esse trabalho dele. Foi feito uma operação espiritualmente. Depois, não deu certo. Ele fez uma operação na Santa Casa de Misericórdia, na rua Santa Cecília... Perto da Santa Cecília, por ali. Aí, ele fez e depois, só continuou... Então ele se aposentou logo, porque a própria firma aposentou ele por invalidez. Mas, o meu pai era sempre forte. Não parecia que ele tinha o vício da bebida, sabe? Tão mais forte que ali... Você vê que ele era troncudo. Sabe aquele italianão troncudo...

P/ 1- Ele começou a ficar viciado, ele tinha mais ou menos... Em que ano? Quantos anos?

R - Eu tinha na época... Uns sete anos de idade. Ele já era... Quando eu tinha sete anos, ele já tinha o vício da bebida, mas não tanto agravante como foi passando os anos. Mas, isso eu lembro bem porque eu morava na Pompéia, na casa do meu tio, quando ele fez o primeiro espetáculo... Assim, do descontrole dele, né? Aí, ele fez aquele espetáculo que a gente precisou...Ele quebrava copo, ele quebrava prato, quebrava tudo. Nossa! Olha, eu não gosto de falar muito porque, daqui a pouco, você começa ficar chorando, né? Porque não foi fácil. Porque você enfrenta uma coisa e depois vem aquela... Ai, é difícil.

P/1 - Você tinha só sete anos?

R - Só sete anos.

P/1 - Mas você... Ele sempre trabalhou no frigorífico?

R - Não, não. Depois que ele operou, ele não trabalhou nunca mais. Ele só ficou aposentado com cento e... Na época era... Vamos dizer, era em cruzeiros, eu não lembro...

P/1 - Era cruzeiros, vai?

R - Mas não valia muito. Mas ele se aposentou... Então, como eu comecei a trabalhar cedo, eu não comecei a ser registrada logo porque na época, eu fui registrada quando eu tinha... Eu acho que dez anos de idade que eu fui registrada nesta primeira firma mecânica, Continental, na qual a minha tia trabalhava junto comigo. Então, quando eu tinha nove anos, mais ou menos, que eu comecei a ser registrada. Na época podia, agora já não. Aos nove anos de idade, eu já comecei a trabalhar junto com a minha tia. Só depois de alguns anos que foi registrada.

P/1 - O que você fazia com nove anos?

R - Antes, eu...

P/1 - Com nove anos, trabalhava em que?

R - Junto com a minha tia. Ela me ensinava o serviço. Me ensinava a arquivar os papéis importantes, a datilografar. Ela me pagou um curso de datilografia, de telex na época que existia, tudo... Mas, foi muito pouco.

P/2 - Como é o nome da sua tia?

R - Elza Tavares Nash.

P/1 - E você trabalhava... O horário era o dia inteiro?

R - O dia inteiro. Desde às 8:00 até às 17:00 e estudava à noite.

P/2 - Com nove anos?

R- É.

P/2 - Com quantos anos?

R - Nove.

P/2 - Com nove anos já estudava à noite?

R - Já. Na época podia. Agora mudou tudo.

P/2 - E onde era essa escola?

P/2 - Ah é. Nessa época você já estava morando no Brás?

R- Já, morava.

P/2 - Com quantos anos você mudou da Lapa e veio para o Brás?

R - Olha... Então, quando eu completei oito anos e meio, eu vim para cá, para o Brás. Só que foi interessante. Eu estava na terceira série do ano primário, lá no colégio na Pompéia. Como aquela época o ensino era muito forte, eu não conseguia acompanhar, aí o que eles fizeram? Me retrocederam. Eu tive que fazer o primeiro ano de novo, segundo e terceiro. Então eu perdi três anos do meu estudo. Com nove anos eu já estava na terceira série, mas como eu não conseguia acompanhar, eles falaram: “Você volta”. Eles faziam esse tipo de... Do ensino voltar atrás, que nem caranguejo, vamos dizer assim. Só que agora não. Agora, você passa sem saber quase nada.

P/2 - Que horas você entrava?

R - Eu entrava às 19:00 e saía às 23:00. Antigamente funcionava esse horário. Das 19:00 às 23:00, mas depois mudou muito.

P/1 - E como é que você voltava para casa a essa hora da noite?

R - A minha mãe vinha me buscar. A minha mãe vinha me buscar... Ou, às vezes, ela me tirava da escola porque o meu pai já estava naquele estado, assim... Do alcoolismo, né? Brigando com o meu irmão, batendo... Então, ela vinha me tirar da escola para eu dar apoio a ela.

P/1 - Então, como era a vida na sua casa, assim de infância?

R - Uh, aí a senhora me pegou. Não foi muito... (pequena pausa) Um negócio que eu não quero lembrar não. (choro) Não tinha amigo porque o meu pai, como ele vivia nesse tipo, eu me afastava das pessoas. Tanto amigos como amigas, né? Então, eu nunca... Para falar a verdade, eu tive uma festa de 15 anos, mas não deu certo. Justo nesse dia, o meu pai também estava embriagado, o meu tio não tirou foto nenhuma. A única coisa que eu tenho, que foi a única coisa que eu ganhei de presente, foi um cartão de toda a minha família reunida. Só isso.

P/1 - E o seu irmão? Como é que ele ficava no meio disso tudo?

R - O meu irmão tem problema mental, né?

P/1 - Ele é mais novo que você?

R - Ele tem trinta e oito anos. Eu tenho quarenta. Ele tem trinta e sete. E ele teve na época... Quando ele tinha seis anos de idade, ele teve febre do sarampo e o médico pensava que era uma gripe comum e deu uma injeção para cortar a febre. Era febre de sarampo. Então, deu um choque, tipo anafilático... Vamos dizer assim, choque anafilático, eu não lembro o nome. Então, ele ficou desacordado três horas. Nessa hora que ele ficou desacordado, o cérebro dele atrasou em três horas. Então, a mente do meu irmão é de um garoto de doze, treze anos ainda. Mas, ele tem uma idade cronológica já de trinta e oito. Ele tem, de vez em quando, ataque epilético, entendeu? E o meu pai só vinha em cima dele, batia nele, ou batia na minha mãe. Em mim, ele tentava me agredir... Lógico, ele já quebrou o meu braço, quebrou o meu relógio, tudo, mas eu era mais forte do que ele. Já coloquei meu pai várias vezes... Vamos dizer assim, na cadeia vai, só para a gente ter um pouco de sossego. Mas quando o meu pai vinha daquele jeito embriagado, a gente ficava na rua até três, quatro horas da manhã. E a minha tia morando aí do lado. Eu moro no cento e noventa e seis e a minha tia mora no duzentos e oito da mesma rua. Eu moro na cento e noventa e seis... É a mesma casa que eu morei, eu voltei e morei de novo. Por isso que é uma coisa do destino, né? E minha tia, quando o meu pai vinha daquele jeito, brigando, quebrando, ela nunca chegou a falar: “O, Nair vem aqui para dentro da minha casa.” Nunca, nunca, nunca, nunca. Ficava na rua. Antigamente, as casas aqui no Brás tinham aquelas janelonas, sabe? Então, a gente deixava a janela aberta porque a gente entrava pela janela. Porque o meu pai trancava a gente para a rua. Porque a gente fugia. Eu vou ficar lá dentro para o meu pai matar a gente? Ou, porque o meu pai... Eu não sei, como eu sou espírita , a gente vê que quando a pessoa toma a pinga, assim no caso, onde a pessoa tem sangue fraco, parece que aqueles espíritos sem luz tomam mais a pessoa. Então, o meu pai se transformava, praticamente, em um demônio, vamos dizer, porque ele se transformava, ele ficava forte. Ele já era forte porque o italianos são fortes, são troncudos, então ele se transformava... Ele tinha o que sessenta quilos  na época, ele dobrava o peso, dobrava a força porque eles têm uma força tremenda. A minha vida não foi fácil não. Comecei a trabalhar cedo, enfrentar todo esse problema...

P/1 - E a sua mãe, como ela ficava nessa situação? Como é que ela era?

R - Olha, a minha mãe é uma pessoa muito sofrida, então...

P/1 - Mas, ela fazia o que na época?

R - Ela foi do lar, né? Quem trabalhou, quem trabalha até hoje, quem sustenta tudo sou eu porque o meu pai nunca foi de chegar e... Ele queria até as coisas, não sabia como, mas ele queria.

P/2 - E aí você começou a trabalhar com nove anos e ia de manhã até o final da tarde. E aí você voltava para casa para ir para escola.

R - Isso. Porque como eu trabalhava no Jaraguá, para mim poder entrar aqui às 19:00, a minha tia me liberava umas 16:30, 17:00.

P/2 - E como é que você ia e voltava do trabalho?

R - Na época, só usava ônibus porque não tinha metrô. Porque, antigamente, quando eu morava nessa rua, era rua sem saída. Tinha vila um e vila dois. Como a Professor Batista também. Era as duas ruas sem saída antigamente. Depois que veio o metrô, aí que desapropriou as duas vilas, mas enquanto isso, eu só usava ônibus.

P/1 - Como era a vida nessas vilas?

R - Era assim, a minha rua era só residência na época. Tinha uma rixa porque o pessoal do fundo, como a gente falava “do fundo,” eles não se misturavam...Vamos dizer, com a plebe, a parte da frente, porque eles achavam que a gente era um lixo, vai? Porque lá, eles viviam em um luxo só, então era dividido assim; a rua até aqui era um tipo de vida, daqui para cá era os ricos, vamos dizer. E aqui era a plebe.

P/2 - Na mesma rua?

R - Na mesma rua tinha essa discriminação. Eles discriminavam. Quando tinha festa lá, eles fechavam a rua para o pessoal daqui não invadir ali...

P/1 - Isso era em que rua?

R - Melo Barreto.

P/1 - Se eu entendi, essa rua não existe mais?

R - Não, a Melo Barreto existe, mas como veio a desapropriação, como o metrô veio para passar, para construir, então, eles tiraram essas duas vilas.

P/2 - Tiraram as casas.

R - Isso. Aí, na época eles reformaram tudo e o Metrô só pagou o terreno. Muita gente faleceu de tanto desgosto porque eles falavam: “Vão melhorar, né?” É lógico, é automático, estava na lógica que só vale o terreno, não vale o luxo que tinha na época.

P/1 - Que luxo era esse?

R - Eles colocavam as coisas assim, paredes com azulejo tudo desenhadinho. Na época, eles faziam isso.

P/1 - Tudo bem, mas conta como é que era?

R - Era interessante, assim, teve umas boas épocas, mas mesmo assim... Que nem, o pessoal se unia, a Vila um com a Vila dois para melhorarem as fachadas das casas. Se um colocava o azulejo rosa, o outro não colocava rosa. Colocava azul, ou pintava, ou punha aqueles caquinhos, lã de vidro, até puseram lã de vidro para poder valorizar as casas sabendo que o Metrô iria comprar. Mas o Metrô pagou só o terreno da casa.

P/1 - Mas, eles já fizeram as reformas para pensar que...

R - O Metrô ia pagar tudo aquilo, entendeu? Só que eles caíram do cavalo que sempre... Gente, usa a lógica, sempre foi, sempre será o terreno. Então, muitas dessas pessoas entraram com uma ação contra o Metrô, mas o Metrô ganhou, não foram eles. Tiveram pessoas que faleceram por causa disso porque acharam um absurdo que só ganharem aquilo, se tinham gastado uma fortuna. Mas aí acabou. Como o Metrô passou, perdeu a Vila um e a Vila dois da Melo Barreto e a Vila um e a Vila dois também da Professor Batista que são duas ruas paralelas.

P/2 - A casa em que você morava foi também desapropriada?

R - Não, não porque eu moro bem na metade da rua. O que foi desapropriado foi o final da rua.

P/1 - Que eram as casas de mais luxo.

R - Mais luxo.

P/1 - Mas, antes deles fazerem as tais reformas para valorizar aqui o metrô, já eram mais de luxo as casas?

R - Sim, sempre eram, né?

P/1 - Como é isso? Qual é a diferença para dizer que era de luxo e não de luxo?

R - Que nem, eles tinham mais poder, eles trabalhavam melhor. Alguns ali, provavelmente, tinham... Eu não lembro, mas alguns deles deviam ter empresas, já eram donos de empresas.

P/1 - Mas, enfim, talvez perguntar de um outro jeito. Quais eram os sinais de riqueza que tinha no fundo da rua que não tinha na frente? Você lembra?

P/2 - Se as casas eram mais bonitas...

R - Mais bonitas, maiores, tinham casas ali que completavam três quartos, sala, cozinha, enquanto as outras de cá sempre foram sala, cozinha e banheiro, e um quintalzinho de nada. Agora, as do fundo não. As do fundo, tinham algumas que faziam até sobrado, de dois andares. Entendeu? Então, fica nessa diferenciação do antigamente, né?

P/1 - E esse pessoal lá do fundo tinha carro ou não?

R - Tinham sim. Sempre tinha o carro do ano, sabe? Na época, né? Quando os outros da frente só tinham aqueles fusquinhas, como antigamente era, que agora não existem mais, ou um ou outro, os de lá já tinham o carro do ano praticamente. Mas aí depois acabou...

P/1 - E esse pessoal tinha mais ou menos que profissão? Eles eram empresários, eram empregados?

R - Alguns eram empresários. A maior parte era empresário na época, né? E como então quase ficava... Eu trabalhava muito, eu trabalhava fora, eu não ficava muito com eles. E depois, eu tinha o problema do meu pai. Eu já não queria... Eu já fazia espetáculo, ficava chato, né? Porque o pessoal ficava zombando da cara da gente, como ficam, né? Falavam: “Olha, seu pai é bêbado, seu pai é isso, seu pai é aquilo.” Sempre, até hoje, com as pessoas. Você pode perceber. Mas...

P/2 - Solange, que ano foi isso? Da desapropriação lá das casas?

R - Quando o metrô foi construído, não lembro. Faz 25 anos que o metrô já existe, né? Ai, agora eu não sei a data certa. Quando o Metrô veio com o projeto, já vieram com a demolição rápido porque eles construíram em fração de meses. Foi uma construção rápida, né?

P/2 - Você lembra disso, das imagens da demolição e construção?

R - Olha, vieram aquelas máquinas enormes... Não sei o nome daquilo... Com aquela bolona pendurada, quebrando, né? Lógico, fechou-se a nossa rua para ninguém se machucar, puseram tapume, tudo, aí vieram aquelas máquinas, começam a derrubar, tudo.

P/2 - Da sua casa dava para ver?

R - Dava porque... Até meu irmão ficava lá de perto olhando. Como meu irmão tem esse problema mental, ele achava que podia ficar tudo, olhando tudo. Então meu irmão assistiu assim a desapropriação mesmo porque eu, como eu trabalhava, eu só via assim, no caso, de final de semana, que eles trabalhavam também de final de semana para poder agilizar bem a construção, né?

P/2 - Sábado e domingo?

R - Ah?

P/2 - Sábado e domingo?

R - Era mais sábado do que domingo. Agora, quando era término da obra, eles ficavam mais assim sábado e domingo fixo mesmo. Mas, no começo era só mais o sábado.

P/1 - Então, começou, primeiro veio uma papelada? Como é que é? Explica bem isso.

R - Primeiro, acho que vem a notificação que haveria a possibilidade do Brás ter uma estação. Aí, eles vieram com papéis para uma enquete, né? Ofereceram tanto pelo terreno. Não sei porque, como a minha casa não pegou, só pegou a parte do fundo, então acho que eles vieram com uma notificação, alguma coisa, para falar com eles. Aí, depois, entre eles... Alguns não queriam aceitar a quantia que o Metrô pagasse. Entraram em ação, mas só que não ganharam.

P/2 - Ninguém ganhou?

R - Eu acredito que não. Mas não dá porque eles queriam um luxo de todo aquele dinheiro que eles gastaram para...

P/2 - Para reformar.

R - Para reformar as casas, pensando que ia ter valor. E eles não. Aqui no Brás, infelizmente, não vale o que você põe de luxo, e sim o terreno. Que nem na minha casa, se eu quiser vendê-la, eu vou vendê-la pelo terreno que tem, não pela fachada dela.

P/1 - A casa não valeria, nem hoje?

R - Não, não vale. Não porque eles são terrenos, são pequenos, né?

P/1 - Bom, isso para efeito de metrô, mas se for um negócio...

R - Não, qualquer um, qualquer coisa, agora somente vale o terreno. Eu tentei vender as minhas duas casas, que a minha mãe queria sair daqui...

P/1 - Por que são velhas, é isso?

R - São, são. É de 1903, ou nem isso. Que é bem antiga. Essas minhas casas são doação da minha bisavó. Da minha bisavó, que era avó do meu pai.

P/1 - Bom, daí então, o pessoal reclamou, alguns morreram e tal, daí construíram o tapume...

R - Isso, aí veio a máquina... Aí, depois construíram...

P/1 - E foi muito barulho para derrubar?

R - Ah, fazia, né?

P/1 - Muito pó? Como é que era?

R - Ah, vinha... Os tijolos de antigamente eram bem mais fortes do que os de agora. Então, vinha aquele “pózão” branco para toda a casa da gente. Tudo bem, a gente tinha que limpar, varria todo o final de tarde porque de manhã não adiantava limpar a casa. Só podia limpar no finalzinho da tarde para recolher todo aquele pó. Ah, ficou um bom tempo. Não lembro quanto, mas... A construção toda, né?

P/1 - Mas, e aquele monte de operário, circulava ali pela sua rua? Como é que era?

R - Não, não circulavam porque eles trancaram, né? Fecharam para poder recolher as...

P/1 - Durante as etapas da construção porque demoliram, muito bem. Aí, deve ter arrebentado encanamento...

R - Ah, foi tudo.

P/1 - Você sentiu falta de abastecimento de luz e água?

R -  Eles faziam assim, um tipo de rodízio, vai? Um dia com água, dois não, um com água...Porque para poder mexer nas...

P/1 - E a luz, a força? Também tinha rodízio?

R - Eu não me lembro. Eu lembro da água porque eu gostava muito de tomar banho. A minha mãe sempre falava: “ Cuidado a água, cuidado a água.” Agora, a questão da luz, eu não lembro, realmente eu não lembro.

P/2 - Solange, não teve nessa época da demolição, não teve ratos assim, problemas com ratos?

R - Teve. Teve porque depois, em uma época, a prefeitura veio distribuindo aquele pozinho para colocarmos dentro da nossa casa. Aquele pozinho contra rato, porque é lógico, houve a demolição... E também, teve uma época que chovia muito em São Paulo e dava enchente. Quando dava enchente, os ratos vinham, né? Porque é lógico, eles tinham...

P/2 - Montoeira.

R - Montoeira. Então, como vai evacuar toda aquela área...

P/1 - Quer dizer, teve enchente durante a construção do Metrô?

R - Teve um mês de água muito forte e acabou tendo enchentes. Até a minha rua, na época, tinha. Mas depois que ficou todo prontinho o Metrô, tudo, aí pararam as enchentes. Mas, antes tinha.

P/2 - E como é que era? Os ratos chegavam a entrar dentro de casa?

R - Não, não chegavam a entrar...

P/2 - Só na rua.

R - Só na rua. Agora, a minha casa está aterrada, mas antigamente tinha o porão. Muitas casas eram de porão, como tem em muitas casas, mas como as duas minhas eu aterrei, não teve problema. Mas, antigamente, eles entravam pelo fundo do porão porque...

P/1 - Você aterrou os seus dois porões?

R - Eu aterrei os dois porões. Mas, tem gente que ainda tem os porões e a gente vê até hoje, o rato... Porque o rato é um negócio assim, né? Para passar por aqueles buraquinhos. O rato se estica... Teve nessa época, até a prefeitura... Não era aqui ainda, era em outro lugar, deu para nós aqueles pozinhos para a gente jogar, né?

P/2 - Distribuiu de graça?

R - Porque estava demais. Porque como teve aquela desapropriação, aí eles invadiram.

P/1 - Você viu rato morto? Deu certo?

R - Deu, aí deu. Aí, depois que, achava que não estava dando certo, contratou...

P/2 - Desra...

R - Desra... Desra... Ai.

P/1 - Desratização.

P/2 - Desratização

R - Eh, nominho.

P/1 - Mas aí pagaram?

R - Aí cada um pagou o seu.

P/1 - Ah, o seu.

R - Porque a prefeitura fez a sua parte. Se ainda continuava, cada um depois fez a sua.

P/2 - Você teve que fazer na sua casa?

R - Não fiz porque a minha como tinha porão, então eles ficaram...

P/1 - Agora onde era o fundo da rua, a tal história que você estava contando, que parte do Metrô ficou lá, ou ficou só a subterrânea? Por exemplo, ali onde derrubaram as casas de luxo, tem alguma coisa do Metrô construída?

R - Eu não sei se esses prédios fazem parte da associação do Metrô. Construíram os prédios...

P/1 - Os da COHAB?

R - Não, não é COHAB. É particular. Eu não sei, COHAB não é.

P/2 - Depois, a gente vai ver.

R- Eu não sei. Esses prédios foram construídos naquele vazio que ficou.

P/1 - Ah, exatamente, digamos que no fim da tua rua, construíram esses prédios?

R - É. Que nem, aqui está a Melo Barreto, tem os prédios daqui que dão no sentido da rua Piratininga. Tem o prédio que dá no sentido da Caetano Pinto, que aqui é a Campos Sales. É Campos Sales? Não, Campos Sales não. Prudente de Morais, eu não sei o nome dessa... Porque continua e aqui tem a Campos Sales onde construíram todos esses prédios aí. Eu não sei quem é que construiu, se foi uma obra associada ao Metrô, ou... Por causa, eles pegaram todas para fazer o trilho, né? Bem dizendo, né?

P/1 - E quando eles estavam fazendo as obras, como é que era o transporte nesse bairro?

R - Olha, nós sempre só usávamos ônibus, né? Eram ônibus antigos, o elétrico que era o azul e branco, na época do Jânio Quadros. Então, a gente só usava esses ônibus. Depois, o Jânio Quadros resolveu pintar de vermelho. Eu ainda peguei um pouco dessa época, eu lembro. Então a gente usava mais o ônibus.

P/1 - Houve alterações de rota de transporte? Por exemplo, você estava acostumada com o ônibus que vinha por aqui, daí passou por ali?

R - Não porque como não foi... Não mexeram na avenida Rangel Pestana, então o fluxo era o mesmo, né? Como a nossa rua não tinha saída e a da Professor Batista não tinha, então não houve alteração, porque eles vinham da Rangel e entravam na Piratininga. Agora sim, passam pela minha rua os carros. Quando a Piratininga está lotada, está congestionada, eles entram pela minha rua para cortar caminho. Agora sim, tem mais movimento porque a minha rua ficou sem... Rua com saída, menos a Professor, né? A Professor, você só pode contornar e sair para frente. Agora, a minha não. A minha só é mão única, mas sentido Piratininga.

P/1 - E você se lembra,  quanto anos ficou a bagunça lá perto da sua casa?

R - Ah, foi o período da construção...

P/1 - Não lembra, mais ou menos, quantos anos?

R - Quantos anos não.

P/2 - Mas, teve a impressão que foi rápido pelo o que você falou?

R - Sim porque olha, nós saímos daqui... Quando nós saímos daqui em 1983, o Metrô já estava funcionando à década.

P/2 - Solange, eu queria voltar lá para onde você tinha 8 anos que você estava contando a história da mudança da Lapa para o Brás. Primeiro assim, por que vocês fizeram essa mudança de lá para cá?

R - Porque o meu tio, eu morava... A minha tia casa lá na Pompéia, morava na frente e tinha essa casa no fundo, então, a minha tia para ajudar, tanto a minha mãe e eu, ela falou: “Vamos morar juntos com a gente.” Então nós mudamos para lá. Mas o meu pai começou a fazer os espetáculos. Beber muito, xingar. O meu tio era daqueles espanhóis que não aceitam, assim... Vamos dizer, não queria que tivesse vexame perante a família. Sabe aqueles espanhóis que a família tem que ser sempre certinha, de não cometer nenhum erro. Então, ele falou: “Então, vocês saiam.” Nessa época nós saímos e voltamos para a nossa casa. Nós não pagávamos aluguel lá. Então, viemos para cá. Voltamos para a nossa origem. Aí, ele começou...

P/2 - Mas, você nunca tinha morado aqui? Quem já tinha morado era o seu pai?

R - Não. Era o meu pai. Então, nós voltamos, eu vim para cá com nove anos e aí...

P/2 - E você lembra da mudança? Do transporte da mudança dos móveis...

R - É, eram uns móveis antigos. Quem fez até a minha... Todas as mudanças foi o meu primo porque o meu primo tinha, na época, caminhão. Aqueles caminhões grandes. Então foi ele que sempre fez as nossas mudanças, tanto daqui para a Parada, do Brás, da Vila Pompéia para cá. Todas elas foi o meu primo que fez. Então, eu lembrava assim. Os móveis são antigos. Agora que eu comecei a comprar móveis mais modernos porque o dinheirinho começou a sobrar um pouquinho. Mas na época não dava, né? Porque se o meu pai recebia um pouquinho da aposentadoria, ele gastava tudo na bebida. Chegava o décimo terceiro, o meu pai também gastava tudo em bebida. Não pagava para a gente, sabe? Mas ele queria as coisas. Chegava no natal ele queria peru, queria pernil, queria tudo aquelas coisas, mas ele não queria saber de onde saísse, né? Se era eu que tinha que colocar.

P/2 - E você, como é que foi, para você mudar de bairro? Você gostava da idéia de vir para o Brás? Sair da Lapa para vir para o Brás?

R - Olha, quando eu saí da Vila Pompéia com sete anos, eu vim para cá... Minto, desculpa. Com nove anos... Não, nove anos eu já trabalhava. Eu estava aqui já. Então entre os sete anos, oito, eu tive uma vidinha assim... Não digo boa, boa. O meu pai não fazia tantos espetáculos como quando nós viemos para cá. Aqui para cá que ele fazia mais espetáculos. Então dos meus nove anos até quando eu tive 23 anos me marcou muito que o meu pai fazia espetáculo, tudo. Aí, quando eu fiz 23 anos, nós saímos daqui do Brás e fomos lá para a Parada de Taipas. Lá na Parada de Taipas ele se envolveu mais ainda com pessoas que não devia. Aquelas bebedeiras mais fortes, porque lá praticamente é um retiro de tudo aqui de São Paulo, sabe? Era a estrada velha de Campinas, a Raimundo Pereira Magalhães, só... A estrada da morte, vamos dizer assim. Agora melhorou muito, mas na época, quando eu vivia lá, era uma estrada pequena. Os ônibus corriam, corriam, que nem não sei o que, né? Eu falava “meu Deus do céu, onde eu vim parar?”

P/2 - Mas, descreve um pouco essa casa?

R - Lá da Parada?

P/2 - Não, daqui.

R - Daqui?

P/2 - É. Essa que quando você tinha oito anos que você veio para cá e você morou até os 23 anos.

R - A casa... Praticamente, eu vivia mais fora porque eu trabalhava já, entendeu? Eu sempre trabalhei. Eu trabalhava lá com a minha tia. Depois eu mudei. Eu trabalhei aqui na própria Melo Barreto, no escritório. Aí, eu tinha mais oportunidade de perceber quando o meu pai vinha vindo do fogo porque tinha dia que ele vinha fazendo espetáculo na rua, gritando, sabe? Falando palavrões, tudo. Como eu estava no escritório, eu percebia. Então qualquer coisa eu saía do escritório. Como o meu patrão conhecia o problema, ele deixava, para eu ver o que estava acontecendo em casa, tudo, sabe?

P/2 - E a vizinhança, como é que ficava com essa história? Eles eram solidários...

R - A mulher de frente, a dona Salvadora era e não era. Só que ela era engraçada. Ela também tinha um irmão que era alcoólatra e acabou morrendo. Tinha um irmão que era excepcional também, que acabou morrendo. Tinha umas irmãs que não eram flor que se cheire. Mas sempre acabava criticando a gente, chamava até a polícia para o meu pai. Porque o meu pai sempre tinha rixa com ela porque o filho dela é policial. Ele era investigador, tudo, né? Então, sempre tinha assim esse confronto. Então, ele xingava, brigava, tudo, né? Agora, só tive uma vizinha mesmo... Eu não lembro o nome dela... Eu acho que era dona Sofia, não lembro. Que ajudava mais a gente. Quando o meu pai vinha do fogo, ele colocava a gente para a rua, ela dava a guarita para a gente porque a minha própria tia nunca deu. Entendeu?

P/2 - Você estava contando que a sua mãe sempre buscava você lá na Romão Puiggari?

R - Sempre. O meu pai pegava o meu irmão pelo pescoço, de tanto estrangular ele. Para matar, vamos dizer assim. Então, eu como era mais forte praticamente... A senhora acredita que o meu pai cismava com roupa vermelha? Eu não podia usar. Aí que eu usava mais. Eu também sou pirracenta. Eu sou boa, tudo, mas só que...

P/1 - Você entrava em confronto.

R - Nossa, sempre entrei. Sempre entrei.

P/2 - E o teu pai nunca chegou a ir te buscar no Romão? Era só a sua mãe?

R - Só a minha mãe.

P/2 - E como é que era no Romão, estudar a noite lá? Quem era o público lá da escola?

R - Na minha época sempre foi bom, sabe? Hoje, vamos dizer assim...

P/2 - Só adolescentes? Adultos, ou adolescentes?

R - Adolescente. Era mais adolescente que não tinha tanto...Não tinha a idade defasada.

P/2 - Entendi.

P/1 - Era quase uma dureza?

R - É, tipo de uma dureza.

P/1 - Só que do primário.

R - Do primário. É. Mas, aí, eu fiz o primário. Terminei o primário, fiz o ginásio lá no São Paulo. Aqui o Romão Puiggari na época era só da primeira à quarta série. Desculpa, desculpa. Era da primeira à oitava série. Aí, na quinta série, eu resolvi ir para o São Paulo.

P/2 - Onde era?

R - Na rua da Figueira, número 500.

P/2 - Aqui no Brás?

R - Isso. Tudo aqui no Brás.

P/2 - Sei. É colégio público?

R - Tudo foi público. Aí, eu estudei no São Paulo a quinta e a sexta série. Depois, tiraram a quinta... Vamos dizer assim, o fundamental que é da quinta à oitava do São Paulo. Aí, eu transferi tudo para o Romão. Aí, eu voltei para o Romão de novo. Aí, eu fiz a sétima e a oitava. Porque o São Paulo continua... Não sei hoje, se tem ginásio e colegial, mas na época que eu estudei só tinha o colegial lá. Então o ensino primário era aqui, o ginásio também no Romão e lá só o segundo grau que eu estudei. Agora, eu não sei como é que está porque aí depois eu me formei e fui para outras escolas.

P/2 - O que você mais gostava da escola?

R - Olha, para falar a verdade, eu gostava dos amigos. Como eu não tinha fora, então eu tinha os meus amigos lá dentro. Mas eu não contava a minha vida, entendeu? Mas pelo menos, eu tinha amizades. eu conversava, brincava. Porque eu não tinha isso fora e dentro da minha casa. Então era isso que eu tinha mais. E também nessa época  eu comecei a freqüentar muito essa igreja. Então, a minha vida era assim; do trabalho para a escola, de sábado e domingo na igreja.

P/2 - Qual igreja?

R - Aqui, do Bom Jesus do Brás.

P/2 - E como é que era? Quem ia?

R - Eu ia sozinha.

P/2 - Sozinha.

R - Sempre fui para a igreja, sempre sozinha.

P/1 - Assistia a missa?

R - Assistia a missa. Depois, eu fiz parte do grupo de jovens. Fiz a comunhão, fiz a crisma. A crisma eu nem fiz aqui, fiz lá na Parada de Taipas. Fui catequista. Eu peguei a minha vida, como eu tive esses tipos de problemas, eu me envolvi com isso, entendeu?

P/2 - A sua mãe era religiosa?

R - A minha mãe é católica, mas não frequenta como eu frequento, entendeu?

P/2 - Entendi. E como era o grupo de jovens, as atividades?

R - Olha, tinha retiro espiritual.

P/2 - É, para onde vocês iam?

R - Como eu freqüentava lá na Parada de Taipas, nós íamos lá muito para... Ai, como é o nome daquela igreja? Nossa Senhora da... Três vezes Maria, ou Roberto Munhoz, uma coisa... Do lado do Jaraguá, não tem a igreja do Jaraguá. No Jaraguá tem uma igreja. Depois, tinha uma... Tem um tipo de um... Eu não lembro o nome, se é retiro que chama... É do padre José Maria Borges. Ele sempre não vem com uma Santa na mão?

P/2 - Não conheço, mas...

E - É, então eu freqüentava muito ali. A gente fazia muito retiro para aquele lado, do lado do Jaraguá.

P/2 - E ia um grupo de jovens do Brás para lá?

R - Não de lá mesmo. E frequentava lá na Parada. Aqui, eu frequentei muito pouco porque depois, eu mudei para lá. Eu frequentei mais a igreja de lá da Parada do que para cá.

P/2 - Mas, a primeira comunhão, você fez aqui na Bom Jesus?

R - Fiz aqui na Bom Jesus do Brás.

P/2 - E como é que foi a primeira comunhão?

R - Olha, a minha comunhão era assim; tinha um livrinho vermelho escrito Primeiro Catecismo. Então, a gente respondia o que era Deus, ou quais eram os mandamentos da igreja, quais eram os mandamentos do homem, o por que você ia e por que não. Mas era um livro que nós seguíamos junto com a Bíblia. Só que aí não tinha sala como agora tem o Centro Comunitário. Aí, não, era só uma igreja. Dentro da igreja, a gente se ajoelhava no próprio banco. No banco não tem aquela madeira...

P/1 - Genuflexório.

R - Eu não sei o nome daquela madeira.

P/2 - Como é que chama?

P/1 - Genuflexório.

R - Isso. Então, nós sentávamos ali e escrevíamos em cima do banco, entendeu? A minha turma era pequena. Acho que tinha...

P/1 - Escrevia ajoelhado?

R - Não, sentávamos ali. Não, sentávamos e escrevíamos em cima do banco porque antigamente não tinha...

P/2 - Sentava no lugar de ajoelhar e escrevia em cima do banco.

R - Isso. Porque antigamente não tinha um centro comunitário como existe agora, com as salas, com as cadeiras, mesinhas redondas, né? Então, eu fiz assim, a minha comunhão foi assim.

P/2 - E no dia da comunhão, teve que ter roupa especial...

R - Teve, roupa de freira, né? Agora não. Agora é calça jeans e camisa branca ou de manga, ou vestidinho branco. Que nem, agora houve muita mudança, né? Mas, na minha época... Esse vestido não era meu. Era da vizinha, que ela fez primeiro do que eu, aí ela emprestou para mim. Mas era de freira antigamente. Só que é engraçado; um dia antes da comunhão, ai meu Deus do céu... O meu pai já aprontou tudo! Não podia falar palavrão na época. Tinha que se confessar tudo. Aí, no mesmo dia eu acabei falando. E eu saindo do confessionário, heim? Falei, “Virgem Maria, vou comungar amanhã e estou com palavreado.” Na época a gente era assim, né? Agora não, agora mudou tudo, né? Vai do seu respeito, dentro de si. Se você está falando aquele palavrão na hora da sua ira, não é para ninguém, é para você desabafar.

P/1 - Mas, isso é da sua formação espírita, que você tem, e não da católica.

R - É.

P/1 - Pensar assim.

R - Entendeu. Mas só que na época, eu fui direcionada só ao catolicismo. Só assim. Depois, eu comecei a abrir.. Apesar que eu frequento a igreja católica junto. Eu frequento a 3 de Outubro, mas eu frequento a católica. Eu vou ajudar o padre, eu sou assim sabe. Eu gosto. Eu me sinto bem. Pelo menos, eu acho que isso que deu um pouco de força para eu enfrentar todo esse meu barco. Mas eu penso o seguinte, Deus dá fardo para aquele que pode carregar. Se ele não tem... Se ele não fosse descarregar essas coisas, ele não tinha me dado. Porque ele sabe que eu tenho força para enfrentar tudo. Mas só que chega uma hora, eu falo “Pô, pelo amor de Deus, será que não pode amenizar um pouquinho.” Porque é tanta coisa, tanta coisa. Mas, tudo bem, né?

P/2 - Ô Solange, mas não tinha assim, divertimento, de vez em quando não saía com os amigos e...

R - Não porque eu tinha vergonha.

P/2 - Sei.

R - Por causa do problema do meu pai, eu tinha vergonha. Então nunca deixei me envolver. Eu mesmo me... Eu afastei. Não foi tanto eu não ter. Eu me afastei. Até hoje eu sou assim. Se eu tenho algum lugar é a questão da escola, sabe? Eu me envolvo muito com os meus alunos, com algumas coisas. Que nem agora, quarta-feira agora teve um desafio escolar no SESC Itaquera. Então, eu me envolvi com esse tipo de atividade dos meu alunos. Mas, eu não consegui me libertar, Que nem, faz o que? Vai fazer cinco anos que o meu pai faleceu. Eu ainda não consegui me libertar da raiz que ele deixou, entendeu?

P/1 - Ele faleceu do que mesmo?

R - Ele teve... Nós não sabíamos, mas ele estava com câncer nos rins devido a bebedeira e a próstata que também estourou. Mas meu pai morreu de edema pulmonar e estava com câncer nos rins do lado esquerdo.

P/2 - Você estava contando de uma a atividade no SESC Itaquera, você vai sempre com seus alunos lá?

R - Que nem, como eu freqüentava outra escola desde 1987, da outra escola eu também fazia parte. Então, eu sempre frequentei.

P/2 - Você fazia parte do SESC Itaquera?

R - Do SESC Itaquera porque é o desafio escolar. É assim, o Estadão, ele vai para as escolas, certo? Então, esse desafio envolve noventa escolas estaduais. Noventa escolas ao todo, tanto particulares como as estaduais. Então, em três dias de setembro, ou de outubro, qualquer dia que o SESC acha que convém, reúne as escolas. Então, noventa, trinta, sessenta, noventa, são trinta por dia. Então, tem assim; parte de natação, esportiva, recreação para os professores. Os professores também participam de provas. Eu gosto, sempre gostei.

P/2 - Faz quanto tempo que você vai nessas provas de Itaquera?

R - Olha, desde de quando o Estadão começou ir nas escolas. Parece que foi em 1992. Desde 1991, 1992.

P/2 - O Estadão o que é?

R - O Estado de São Paulo.

P/2 - O jornal?

R - O jornal O Estado de São Paulo.

P/2 - Ele que promove essa...

R - Esse evento. Que nem, esse ano o tema foi cidadania. O ano passado foi a paz porque estava muito violento o mundo. Então, cada ano eles fazem uma coisa que, nós professores, temos que trabalhar com os alunos.

P/2 - E é sempre no SESC Itaquera?

R - Sempre no SESC Itaquera. Ou em setembro. Que nem, esse ano foi agora em setembro. Terminou ontem. Dia 29 agora, são as premiações para saber quem... Qual foi a escola classificada. Sempre aqui na zona leste ganha a Filomena Matarazzo, não sei se você já ouviu falar na escola?

P/2 - Eu não conheço.

R - Ela sempre ganha todos os anos primeiro lugar no SESC Itaquera.

P/2 - E como é que vocês vão até lá com as crianças?

R - A gente aluga ônibus, né? Que nem, essa escola que eu estou, foram alugados cinco ônibus. Levamos duzentas e poucas pessoas. A outra escola que eu trabalhava, o Alexandre, nós levamos sete, oito, quase dez ônibus. Porque é segundo grau. É mais amadurecido. Agora, o primeiro grau que é o ensino fundamental, a gente tem um pouquinho de receio. Tem mais cuidado, né?

P/1 - Tem um detalhe que me escapou, essa escola que você trabalha hoje e a outra, elas são do estado?

R - São todas do Estado.

P/1 - Não são da prefeitura?

R - São do Mário Covas. Tudo Mário Covas.

P/2 - E como é o SESC Itaquera? Dá uma descrição para a gente. Você acha... As crianças gostam?

R - Ah, elas adoram. Porque é um campo, é um dia descontraído. E como fez sol,  foram para a piscina, porque a piscina tem aquele toboágua. Aqueles canos. As crianças se divertiam. Eu deixo largado assim, mas sempre de olho para afastar quando há briga. Porque, infelizmente, mistura com outras crianças que a gente não sabe qual é a educação, qual é o limite dos outros. Então, a gente sempre fica de olho, mas é gostoso. Pelo menos eu tento sair um pouquinho desse meu marasmo que eu mesmo criei.

P/1 - Os seu alunos são, em geral, desse bairro mesmo?

R - Não.

P/1 - Não?

R - Eu não dou aula aqui. Eu não conheço. Meus alunos são da Vila Romana mesmo. De favela, eu tenho aluno de favela. Tenho aluno que mora em Pirituba, em Jabaquara, em todas essas redondezas. E onde eu trabalhava no Alexandre, os meus alunos eram todos de Pirituba para lá. Santana do Parnaíba, Taboão da Serra, eram todos de lá. Eu não conheço os adolescentes daqui. Eu moro aqui, só que como eu trabalho para o outro lado, eu só conheço mais os adolescentes de lá do que daqui.

P/2 - E você vai do que para o seu trabalho?

R - Eu vou de metrô e ônibus. Eu pego o metrô às cinco e quarenta, vou até a Barra Funda. Da Barra Funda, eu tomo ônibus para a escola. Na volta, eu venho até... Ou eu venho a pé, porque a escola fica entre metade do caminho da estação. Como eu quero andar, às vezes, eu estou tão cansada dos alunos me tirararem do sério, que eu quero andar. Eu venho da rua Tibério até a Barra Funda a pé. Acabo economizando uma condução, mas numa boa. Porque às sete o metrô vem lotado e você já nem entra. Então, eu vou devagar. Eu pego metrô e ônibus.

P/1 - Você lembra a primeira vez que você pegou o metrô?

R - Olha, a primeira vez que eu peguei o metrô era... Eu não sei o que eu fui fazer. Mas foi emocionante porque eu nunca tinha entrado.

P/2 - Ah é. O que você sentiu?

R - Nossa, eu falei “nossa!” Porque o trem... O trem chacoalha, chacoalha muito. O metrô é bem plano. Sabe aquela coisa assim, ficar contente com uma coisa, quase um brinquedo que você está tendo na sua mão? É uma sensação diferente. Era uma sensação boa na época. Estava eu, a minha mãe, minha tia e parece que o meu irmão.

P/2 - E você era novinha?

R - Eu era nova. Eu tinha o que? O metrô foi quando? Eu era uma adolescente de dezesseis, quinze anos, mais ou menos. Eu não me lembro.

P/2 - Foi no Brás ou foi em outra?

R - Foi aqui.

P/2 - Foi aqui?

R - Foi aqui mesmo. Eu estou queimada de tanto que o braço...

P/2 - E você lembra do dia da inauguração do metrô aqui?

R - Não, não lembro porque eu não participei. Eu só acabei andando. Mas foi emocionante porque você via que andava rápido. Tinha gente que achava que eu era boba porque eu falava “nossa!” Mas eu gosto. Foi gostoso. E agora eu estou careca de andar. Lógico, houve uma evolução na máquina, né?

P/2 - Todo dia, você anda?

R - Todo dia. Ou vou com Milênio, ou vou com o antigo. Porque agora tem um novo trem, o Novo Milênio, um novo trem.

P/2 - Conta como é que é? Qual é a diferença?

R - O trem, o antigo tem mais espaço para você sentar. O Milênio não. Tem mais espaço para você ficar de pé porque praticamente não precisa sentar tanto. Porque, principalmente em uma estação do metrô, chegam as seis horas e é um caos, né? De tanta gente. Então, eu acho que é por isso que eles pensaram na... Não na comodidade do pessoal sentar, sim na comodidade do pessoal vir viajar, né? Então, por isso que o Milênio é espaçoso para as pessoas ficarem mais acomodadas em pé, não sentadas. Os antigos ao contrário. O antigo é mais para você se acomodar mais sentado do que em pé.

P/2 - E qual que você acha que é melhor?

R - Olha, eu gosto mais do Milênio. O Milênio tem mais ventilação. Porque é uma nova tecnologia, estrutura nova. Eu acho que eles tem que passar por uma experiência. Que nem, eles viram certas falhas do antigo, então fizeram um pouquinho mais. Pode ser que venha surgir um outro depois do Milênio com uma estrutura melhor, cada vez mais, né? Mas porque o outro é mais claro, a luminosidade do Milênio é mais forte do que do antigo. Tem mais ventilação. Quando a gente percebe quando lota muito o milênio, eles dão mais o ar. Agora, o outro já nem tanto. Ou é para que o sistema, não sei como é construído.

P/2 - Solange, você que pega metrô aqui todo dia, eu queria que você me respondesse uma pergunta, se você souber dizer isso, você já observou isso; qual é o perfil dos usuários do metrô do Brás?

R - Antes da integração com o trem, eram umas pessoas assim mais... Vamos dizer assim, eu não quero discriminar, mas mais qualificadas, vai? Agora não. Tem muita mistura. Agora está com muita mistura de nordestino, paraibano, cearense. Então, pessoas muito afastadas do próprio bairro em si. Eles vêm com aquela brutalidade, com aquela... Vai ele primeiro. Por isso que, às vezes, eu deixo todo mundo ir, para depois eu passar. Porque eles não são assim calmos que nem a gente. Quem é usuário do metrô, a gente percebe pelo andar, pela educação. Agora, eles não. Eles vão assim a Deus dará.

P/2 - Essas pessoas estão indo para o trem?

R - Estão indo para o trem. Quando não tinha integração, éramos nós, assim do bairro. Pessoas mais adequadas, vamos dizer assim. Agora não. Como veio toda essa mistura, ficou totalmente...

P/1 - A quanto tempo que está integrada ao trem, você lembra?

R - Ah, começou agora. Três meses atrás. Antes não tinha. E praticamente, o metrô antes... dentro do próprio vagão era mais limpo do que agora. Agora, o, povão não está nem aí. Joga, ele pensa que é igual ao trem que tem para jogar lixo, pode jogar tudo. Outro dia, eu fiquei doida da vida com uma mulher; ela chupando mexerica e jogando tudo no chão. Quase que eu falei assim para ela: “Minha senhora, por que a senhora não traz uma sacolinha, chupa a mexerica e coloca na sacolinha e depois a senhora joga no lixo?” Não, ela jogava tudo no chão. Eu vou falar.

P/2 - Dentro do vagão?

R - Dentro do vagão do metrô.

P/2 - Nossa.

R - Para você ver, eu tenho medo de falar porque a gente não sabe o temperamento da pessoa. Porque hoje em dia está assim, você fala alguma coisa, você já leva bala, né? Está assim hoje. Você quer consertar, eles não olham para esse lado. Eles olham que você está criticando só. Eles não vêem que é para o bem deles, para a higiene deles. Eles não enxergam esse lado. O que eles enxergam? Que você está fazendo pouco caso deles. Sei lá. Então, já vem logo para matar, né? Eu já não falo nada. Fazer o que? Eu acho que está errado, mas...

P/2 - Ô Solange, no metrô, você vê que há um respeito ao lugar do idoso e da mãe com criança de colo?

R - Não, não tem. Porque tem gente que finge, senta naqueles banquinhos cinzas. Pessoas jovens, assim que nem eu, ou qualquer outra pessoa. Finge que está dormindo. Eu não. Eu mesmo sento naquele banco, que às vezes, eu estou cansada, eu falo: “Deixa eu sentar aqui.” Mas se eu vejo que chega alguém idoso, eu levanto automaticamente.

P/1 - Mas isso, você se refere a linha do Brás para...

R - Qualquer linha. Pode ser norte-sul, ou a linha verde, ou a linha vermelha. Qual a outra linha, a linha azul, né? Qualquer uma. Não tem mais aquele respeito por aquele banco cinza, não. Acabou. Sabe aquela lei “do dente por dente, olho, por olho.” Voltou de novo. Sabe por que? O pessoal só está na parte da ganância, do dinheiro. Eles não estão mais no amor ao próximo. Nem amor a eles mesmos não tem mais. Que nem a gente, eu... É até difícil porque a gente combate, combate, combate e não resolve nada. Então, por isso, eles não têm respeito pelos idosos, nem pelo pessoal gestante, nada.

P/2 - No Brás tem muitos idosos que tomam o metrô?

R - No horário que eu vou, não tem muito, porque eu pego às cinco e quarenta e quando eu volto também não tem. Então, eu não sei os intervalos porque quando eu pego, eu fico o dia inteiro fora... Eu entro às sete na escola, saio às seis da tarde, então não... De sábado e domingo é muito difícil para eu sair, então... Mas a maior parte não tem respeito não. O que deve pegar é por aqui mesmo, pessoal que mora há muito tempo, Mas tem alguns velhinhos que não gostam, eu acho, de andar de metrô não. Eu nunca vejo.

P/2 - A sua mãe usa metrô?

R - A minha mãe usa para ir para a casa da minha tia. A minha tia mora lá em Pirituba, então pega sim.

P/2 - Que trajeto, ela...

R - Aqui da Barra Funda, ou da Marechal Deodoro. Dali, ela pega um ônibus.

P/2 - E o seu irmão? Você traz ele ao metrô?

R - Não.

P/2 - Ele vem sozinho?

R - Ele vem sozinho.

P/2 - Ele anda?

R - Ele anda. A gente não gosta muito que ele saía sozinho porque ele não tem noção do perigo. Como uma pessoa que tem problema, ele não sabe que essa pessoa de...

P/2 - Mal intencionada.

R - Ele não tem esse jogo de cintura. A gente fica atrás dele. Como o meu pai nunca foi um pai de sentar e falar: “Você é homem, tem que fazer isso, aquilo e aquele outro.” Sempre foi eu ou a minha mãe que sempre orientamos o meu irmão. Então, o meu irmão só tem eu e a minha mãe, porque o resto da família ele não quer nem saber. Até me entenda Deus que me perdoe, até no enterro do meu pai... O meu pai está enterrado no Araçá que é a campa da família Policarpo. A minha tia tinha uma tia dela de 33 anos, era até solteira... Para nós tirarmos, eu tive que pagar tudo. A minha tia sempre questionava: “Mas quem vai pagar?” Eu falei: “Sou eu que vou pagar. Não precisa ficar com medo, não vai sair nada do seu dinheiro.” Até no enterro do meu pai, ela fez tão pouco caso. Eu agi tão desesperada que o meu pai morreu justo no dia 23 de dezembro. Ele morreu dia 23 de dezembro de 1995. Ele foi enterrado dia 24, véspera do natal. Eu já não gostava do natal porque... Nunca em casa, a senhora acredita que até hoje, não tem bebida alcoólica porque nunca tive a intenção de ter, por causa do meu pai, tudo, desse vício. No próprio enterro do meu pai, ela nunca... Ela podia ter ajudado a gente, tudo. Que nada. Ela não queria nem saber. Deixou tudo na minha mão. Mas a minha tia nunca foi de dar um apoio. Agora, depois que ela ficou doente, teve conjuntivite, precisou da gente para a gente pingar o remedinho. Mas Deus escreve certo com linhas tortas. Se você fez alguma coisa hoje, hoje mesmo você paga. Você não vai pagar em nenhum lugar. É aqui mesmo porque aqui é o teu meio de provas e aspirações. Se você faz o bem, você sempre vai colher o bem. Agora, se você faz o mal, sempre vai colher o mal. Infelizmente. Mas você tenta fazer o que? O bem, né? Para poder prosperar.

P/2 - Você começou no espiritismo aqui no bairro?

R - Não.

P/2 - Aonde foi?

R - Lá na... Eu trabalhava na... Eu morava lá na Parada de Taipas... Eu dava aula. Aí, tinha uma das alunas minhas, a Vera, que mora no Fiat Lux, que é um bairro de Pirituba, ela me falava sempre do Espírito 3 de Outubro, que ela frequentava. Ela falava: “Por que você não vai lá?” Tenta ir lá para você equilibrar o teu organismo, para você ter força. Eu falei: “Tá.” Em uma quarta-feira à tarde, na época eu não dava aula à tarde, eu só dava aula de manhã, aí eu fui. Aí fui, comecei lá no curso básico, frequentado, tomando paz e gostei. Aí, fui indo. Então, desde 1993, eu estou indo.

P/2 - Você nunca foi em algum centro aqui?

R - Não, daqui eu não conheço. Daqui, eu não conheço. Eu só conheço de lá do 3 de Outubro. Eu freqüentava o centro do João que ele é pai de umbanda, então ele tinha um centro. Eu sempre ia para tomar um paz, tudo, junto com a minha amiga. Mas, nunca freqüentei do lado de cá, eu não conheço ninguém. Lógico, eu conheço a federação espírita que faz parte da associação da onde eu estou. Que a federação espírita é a que ramifica outros lugares.

P/2 - E onde fica?

R - Aqui na Maria Paula. Daí que você tem a construção dos outros centros com o mesmo intuito, com a mesma filosofia de estudo. Então eu estou lá desde 1993, fiz o básico, fiz o primeiro ano, fiz o segundo, o terceiro e quarto e agora sou dirigente do curso. Eu sou substituta de dirigente porque são três pessoas que ficam; uma pessoa mais experiente que a gente, para a gente poder aprender. Esse ano, eu estava no básico, mas como houve uma mudança na escola da remoção de professores, eu tive que mudar o meu curso para sábado à tarde que é o terceiro ano. Então, houve uma mudança tremenda.

P/1 - Embora você não tenha vivido muito aqui, você via ou ia em alguma festa do bairro?

R - Olha, freqüentava muito a festa do Bom Jesus do Brás, que eles faziam festa, a quermesse, tem a Casaluce que faz quermesse. Eu freqüento essas festas mais de igreja porque o próprio bairro... As próprias pessoas daqui não se interessam em fazer, né?

P/1 - Essa da igreja, qual é a igreja?

R - Tem o Bom Jesus do Brás e a Nossa Senhora de Casaluce.

P/1 - Como é a de Bom Jesus do Brás?

R - Na época que eu frequentava tudo: pega a imagem, coloca em cima de um corpo... De um caminhão do corpo de bombeiros totalmente aberto e enfeita o caminhão e percorre pelas ruas do bairro como procissão. Ele no meio e a procissão das pessoas ao lado com velas. E vai rezando, cantando, fazendo o terço, mais pelas redondezas.

P/1 - Que dia é, você sabe?

R - Foi agora, teve no mês de agosto que é o dia dele mesmo e de vez em quando tem uma festividade da própria igreja, como esse ano é jubilar, então, eles têm uma determinada data para fazer essas coisas.

P/1 - Qual é a data de agosto que é o do Dia do Santo?

R - Foi dia 13 de agosto.

P/1 - Dia 3?

R - Todo dia 13 de cada mês, eles benzem a garganta porque ele é o protetor da garganta, o bom Jesus do Brás.

P/2 - Ah é?

R - É. Então, tem essa tradição. Todo dia 13 de cada mês tem missa da garganta.

P/2 - E aí, como é que é que faz?

R - É uma missa comum e depois benze a garganta do fiéis que estão presentes. Então, tem missa o dia inteiro...

P/1 - E vai muita gente?

R - Olha, eu não sei porque eu frequento mais a Casaluce, mas como a igreja está sendo reformada para ser tombada... Porque ela nunca foi tombada. Agora, ela está sendo reformada, então, eu acho que o pessoal não tem ido muito. Porque ela está feia...A atual Rangel Pestana é a grandona, que fica bem assim no centrão dela. Em frente quase a escola.

P/2 – Uma igreja bem antiga?

R – Bem antiga. Ela está sendo reformada para ser tombada, né? Porque ela não foi ainda. Então... Está custando, demorando, porque eu acho que vai muito dinheiro, estão restaurando todas as imagens. Ela é muito bonita, a igreja, né? As noivas gostam de casar por causa da escada, né? Tem escada e o pessoal gosta de por tudo... Agora, a Casaluce é mais simples, uma igreja mais moderna, mas não... Eu frequento mais aquela do que essa daqui. Eu gosto.

P/2 – Solange, falando de casamento, você tem namorado?

R – Ah, tenho e não tenho. (risos) Tenho, mas... Sabe, eu falo assim, eu brinco com ele, falo “eu sou viúva de um namorado vivo” porque ele vive mais para o trabalho do que para mim. É sábado, domingo, sábado, domingo, sábado, domingo, segunda, terça e quarta, sábado e domingo, só para o trabalho.

P/2 – O que ele faz?

R – Ele é técnico eletrônico. Ele tem uma firma de concerto eletrônico e a mãe dele tem uma firma de bordado, tudo, mas só que ele vive mais trabalhando do que comigo. Então, a gente só se fala mais pelo telefone, no celular dele que eu consigo ainda ligar. Ainda eu que ligo porque ele mesmo não me procura.

P/1 – Ele mora no bairro?

R – Ele mora no Tatuapé.

P/2 – Tatuapé.

R – Mas ele tem o pai dele que tem um açougue aqui no Brás.

P/2 – Ah, é? Aonde é?

R – Na Caetano Pinto.

P/2 – Ah, a Caetano Pinto é a rua da Casaluce?

R – Isso, é da Casaluce, que a Casaluce é aqui no finalzinho da Caetano Pinto com a Visconde de Parnaíba.

P/2 – E faz tempo que o pai dele tem açougue aqui no bairro?

R – Sim, ele é fundador, praticamente, do estabelecimento aqui. Bem antigo ele é. Só que depois, como houve o progresso dos outros açougues, então, ele ficou mais assim afastado porque o pessoal quase... O pessoal, hoje em dia, vai mais pela modernidade, coisa de microondas vai, vamos dizer assim. Não comem aquela carne de cozinhar na panela ou fazer bife assado, carne assada. Agora, todo mundo pensa na praticidade. Então... Que nem, tem um outro açougue na própria avenida que tem mais coisas, né? Não é que nem o dele, só ficou naquela coisinha, naquele mundinho. Na época, foi bom, mas depois acabou o pessoal evoluindo, aí pegou uma outra.

P/2 – E as festas italianas? Você conhece?

R – Oh, tem a do Bexiga, tem a da Achiropita... A da Achiropita é a do Bexiga, né?

P/2 – É.

R – Eu faço confusão. Tem a de São Vito, que tem, tem a da Casaluce.

P/2 – Você já foi na de São Vito, que é aqui no Brás?

R – Vou. Eu não vou todas as vezes, eu vou um dia só porque haja dinheiro também, né?

P/2 – É.

P/1 – É uma semana a de São Vito?

R – É quase um mês, né? Tanto a da Casaluce como a da São Vito é quase um mês.

P/1 – São Genaro também?

R – Também. A Casaluce começa em maio. Acabando em maio, vem para o São Vito que é em junho. Acabando em junho, vai para a Achiropita que é em julho, né? Então, eles fazem uma associação para o pessoal não... Se tiver todas elas ao mesmo tempo, ninguém vai em nada. Então, eles fazem essa separação.

P/1 – E a de São Genaro é em setembro?

R – É. É agora. Já foi, né?

P/2 – Está sendo.

R – É, está sendo. Você acredita que naquela lá eu nunca fui.

P/2 – Ah, é?

R – Naquela nunca fui. Só via pela televisão.

P/1 – Como é o nome daquela?

P/2 – São Genaro.

R – Naquela nunca fui.

P/2 – Eles falam que é do Brás, mas é da Moóca.

R – É da Moóca. Essa daí eu nunca fui, nem naquela da Achiropita.  

P/2 – São Genaro.

R – Nem da Achiropita.

P/2 – Na televisão, aparece que é no Brás.

R – É, mas não é, é na Moóca. É aqui no finalzinho aqui. Essa aí também nunca fui...

P/1 – É no limítrofe.

R – É, só.

P/1 – Acho que uma rua de limítrofe.

R – É. Nessa daí eu nunca fui, nem da Achiropita. Só mais a que eu frequento é a da Casaluce e da São Vito. Mas não é sempre porque, infelizmente, tem muita mistura e eles se envolvem... Como tem à vontade a droga, a bebida, então já arranja toda uma encrenca. Então, a gente já não gosta muito.

P/2 – Nessas festas?

R – Ah, porque as pessoas já vão totalmente drogadas, vamos dizer assim, já vão embebedadas. Porque hoje em dia a droga está fácil, o alcoolismo também, então já vai, né?

P/2 – Escuta, o que você mais gosta, o que você menos gosta nesse bairro do Brás?

R – Olha, eu gostaria mesmo que o Brás, aqui a estação, não estou falando da Estação da Luz, a estação do metrô, evoluísse como as outras. Aqui não evolui em nada. Aqui parou no tempo e no espaço. Que nem, o Tatuapé evoluiu. O shopping Tatuapé é perto do metrô. As outras estações... Anália Franco está perto do metrô...

P/1 – Tatuapé. Não é tão perto.

R – Mas, é quase. Mas, já tem um outro shopping. Aqui nada. Aqui só ficou esse Cetrem e S.O.S. Adolescente, agora. Só tem isso. Então, sei lá, eu não gostei por causa disso. O Brás, óh, não evoluiu nada. Ou as pessoas não deixam ou não têm muito poder aquisitivo para investirem aqui. Agora, o que eu gosto daqui é a condução e o metrô, que agora melhorou bem do que antigamente era. Antigamente era precária a condução aqui. Agora, melhorou muito. E que ficou tudo perto. Se você precisa de uma farmácia, tem uma farmácia, se você precisa ir em um mercado, tem um mercado, precisa de madeira, de ponta a ponta, couro, ponta a ponta, bancos também têm muitos. Então, eu gosto nesse sentido. Agora, a questão de diversão não tem nada.

P/2 – Falta mais é lazer, você acha?

R – Aqui falta, bastante.

P/1 – Você vai em cinema aqui no bairro?

R – Aqui não tem cinema.

P/1 – Não tem mais?

R – Tinha, tinha, mas só que faz tempo que faliu. Aquele... Era Cine Piratininga, aquele do lado do Colégio Romão Puiggari, mas... Muito tempo!

P/1 – E agora não sobrou nada?

R – Agora virou estacionamento. Antigamente, era local das prostitutas. Há alguns anos... Agora vira e mexe tem uma ou outra prostituta no bairro, porque antigamente o bairro era cheio de prostituta, né? Aqui era muito... Aqui era o foco das prostitutas antigamente. Agora acabou. Deve ter uma ou outra, mas isso é tarde da noite, que a gente nem vê. Mas...

P/1 – Quer dizer que no Brás não sobrou cinema, nem teatro, nada?

R – Nada, nada, nada. Só sobraram as construções aqui nos prédios. Como aqui o pessoal tem carro, então, eles vão embora ou vão viajar ou vão para o Centro da cidade ou têm vídeo em casa, porque hoje em dia a pessoa tem vídeo, passa um filme em casa. Para que? Também a senhora viu, vai no cinema para ser morto que nem aquele estudante lá. Ah, tenha dó também! No Morumbi ainda, né? No shopping famoso. Então, também você tem isso. O problema é que o povo está muito, assim, está vivendo muita violência e está se retraindo, está ficando mais dentro de casa porque eles falam assim: “Em casa eu tenho mais segurança do que na rua.” Então... Aqui mesmo não tem diversão nenhuma. Não tem. Uma pena.

P/2 – Solange, desde que você está morando aqui no bairro, você identifica, assim, uma mudança na iluminação ou você acha que foi sempre igual a iluminação do bairro?

R – Não, antigamente era aquela... Sabe aquele... Não lembro o nome daquele... Era um poste assim, com aquele biquinho, que saia as três luzinhas assim. Eu não sei o nome daquilo. Então, era dessa forma, daquele de biquinho que saia três luzes, depois que mudou para a luz de mercúrio. Antigamente, era aquelas lâmpadas comuns. Agora, colocaram todo um mercúrio que vem...

P/1 – Eram os postes antigos?

R – Isso, antigos, o bairro todo. Agora... Depois, mudou para luz de mercúrio. Ficou até hoje. Essas têm mais resistência, não queimam quase. Tem assim, às vezes problemas da própria Eletropaulo que, às vezes, tem que fazer uma manutenção e desliga, mas o resto não. Mas, a questão disso só vejo assim, veio só essa mudança; tiraram os postes e puseram a luz de mercúrio.

P/1 – Você não vai a bailes de clubes aqui no bairro?

R – Não porque eu não sei... Eu não sei dançar. Eu nunca gostei. Olha, para falar a verdade, eu freqüentei uma vez só o União Fraterna, lá na Guaicurus, quando a minha tia era viva. Agora a minha tia já faleceu faz tempo. Eu freqüentava um Baile da Saudade, que era o nome, né? E ainda é o nome. Mas aqui no bairro não tem nada. Daqui, eu não freqüentei nada. Daqui. Não, freqüentava assim... Só freqüento a igreja, as festividades daqui. O resto, não tem diversão aqui.

P/1 – Se você pudesse sugerir para alguém fazer mudanças no bairro, que mudanças você sugeriria?

R – Olha, eu gostaria que saísse o Cetrem daqui e colocasse um shopping pelo menos aqui no bairro.

P/2 – Você acha que um shopping ia fazer...

R – É, porque o shopping tem cinema, você pode conhecer amigos novos. Tirando essa...

P/2 – Então, você estava falando das sugestões de mudança para o bairro que era o shopping e para tirar o Cetrem. Por que tirar o Cetrem? O que é o Cetrem? Explica para a gente.

R – Olha, o que eu entendo por Cetrem é um lugar onde aloja essas pessoas que vivem na rua. Não é isso? Que dão só banho, comida e um cobertor para eles dormirem nessas noites. Depois, seis horas, provavelmente, eles estão todos na rua, né? Seria bom se colocassem pelo menos um shopping aqui, para melhorar um pouco o bairro, porque o bairro está morto. Falaram que vinham para cá os camelôs, né? Por isso que construíram essas marquises numeradas aí. Não vieram.

P/1 – Aqui embaixo, nesta praça que parece um cemitério de...

R – Falaram que iam ser alojados os camelôs.

P/1 – Mas fizeram para isso?

R – Fizeram para isso. O Pitta gastou o maior dinheiro para pôr os camelôs... Lembra, na época, não estava aquela briga entre a Prefeitura e os presidentes do camelô para sair tanto do...

P/2 – Largo da Concórdia.

R – Largo da Concórdia e Largo 13 de Maio, uma coisa assim, não sei. E teria que vir para cá. Então, eles não quiseram ficar ai. Isso ai ficou abandonado.

P/2 – Quem não quis?

R – Os próprios...

P/2 – Camelôs.

R – Camelôs, os presidentes. Lógico, vão tirar de um lugar bom. Ali, lá é o comércio do Brás. Ali tem a rua Oriente, Maria Marcolina. Então, eles têm uma competição, né? Passa muita gente. Aqui não vai passar quase ninguém. Quem vai passar aqui? E quem está habituado só a ir lá, vai só lá. Já aproveita. Que nem, lá tem a Maria Marcolina, a rua Oriente, então, os camelôs já estão ali. A pessoa, automaticamente, vai passar por eles. Então, passando por eles, vão comprar alguma coisa. Agora, aqui, vão vir para cá? Não vai ter fluxo. Até a pessoa se habituar, eles: “ah, não vou mais”.

P/2 – Solange, você faz compras desse comércio do Brás de roupas?

R – Olha, às vezes sim, às vezes... Ah, quando eu tenho um dinheirinho sobrando eu vou comprar sim. Compro calça jeans, calcinha, sutiã, né?

P/1 – Que rua que você faz as suas compras?

R – Na Maria Marcolina com a Oriente, que eu gosto mais. É que é onde eu acho a roupa para mim porque eu sou meia gordinha, né? Acho tamanho grande porque o resto é tudo pequenininho, aí não dá, né?

P/2 – E tem uma loja específica que você compra mais?

R – Não.

P/2 – É mais naquele pedaço. Várias lojas.

R – É, naquele pedaço. É, loja.

P/2 – E os comerciantes são de que origem, de que nacionalidade? Os comerciantes dessas lojas de roupa?

R – A maior parte é judeu. Tem judeu, tem italiano, tem japonês... Japonês? Orientais, né? Orientais. Agora, tem mais assim... Portugueses. Mas, não assim praticamente o brasileiro em si. É que já vem enraizado de longe. A maior parte são... Principalmente no Bom Retiro, ali. Também são mais judeus, também ali no Bom Retiro.

P/2 – E aqui no Brás, a gente ouviu dizer que tem muito coreano, e agora muito boliviano e paraguaio. Você já identificou essas pessoas por aqui?

R – Ah, já, porque de manhãzinha, quando eu venho pegar o metrô, eles estão todos aqui na rodinha vendendo cigarro. E são mais os bolivianos que estão porque eu acho que eles vão para o Paraguai, que é mais barato, então eles trazem para cá. Então, são essas pessoas que eu vejo mais.

P/2 – Ah, eles ficam na rua?

R – Ficam na rua. Ah, os orientais... Os japoneses, orientais, por causa da Liberdade, né? Ali também, a Liberdade, virou o foco dos japoneses. Olha, bem ou mal, o Brasil... A questão do Brasil, acho que o Brasil é o país que mais abrange todos esses tipos de raça. Não tem uma discriminação. Qualquer uma, está sempre aqui, o Brasil está sempre ajudando. O bairro do Brás também, vira e mexe... Aqui misturou muito. Misturou raça baiana, raça do Ceará, pernambucano. Só que o problema é que o pessoal lá do Norte, eles vêm aqui para São Paulo pensando que aqui está nadando no dinheiro. Aqui é uma terra de você batalhar por aquelas coisas. Eles acham que aqui está tudo bem. Às vezes, não. Quando eles vêm para cá, eles sofrem muito. Porque eles não estão preparados para aquela agitação nossa. Eu sou daqui e eu gosto daqui. Eu nasci aqui. Então eu já acostumei com a vida corriqueira daqui. Agora, eles já não. Eles acham que é bem... Eles acham que saindo de lá o professor do primário já pode vir aqui e dar uma aula. E não é assim, aqui é diferente. Para você dar uma aula você tem que fazer ginásio... Primário, o ginásio, colegial, faculdade. Não é um curso profissionalizante lá no Norte, no Nordeste, ele já pode vir aqui lecionar. Não é assim. Lá sim porque lá é uma cidade pequena, são poucos habitantes. Então, estão acostumados com aquela vidinha. Aqui já não. Então, tem muita mistura. E o pessoal acaba discriminando muito, né?

P/1 – Você, por um acaso, acha que o bairro regrediu, no bairro do Brás?

R – Eu acredito que sim, que eu não vi evolução nenhuma. Olha, eu saí um pouco daqui, né? Voltei, continuou a mesma coisa.

P/1 – Não progrediu.

R – Não. Olha, eu saí na época do metrô, tá? O metrô...

P/1 – Não foi para trás, por exemplo?

R – Não, não foi nem para frente nem para trás. Estacionou. Acomodou, vamos dizer assim. Porque a única coisa bonita que teve agora foi a Prefeitura que fizeram lá o Palácio da Indústria, que o prefeito fica ai direto. Só! Que agora... Antigamente era a Comgás, que era o gás de rua, foi desapropriado e construíram a Prefeitura. Só isso! Do resto, continua a mesma coisa.

P/2 – Não tem algum parque aqui no Brás?

R – Não, não tem. Nada.

P/1 – Uma praça de lazer?

R – Nada.

P/2 – Piscina, lugar para nadar? Nada?

R – Nada. Quem quiser tem que ficar sócio deste SESC Itaquera ou SESC Belém ou, não sei se é Carrão, tem um parque lá. Só, porque aqui mesmo...

P/1 - Não tem praça, que as mães levam as crianças?

R – Não, não tem. Tinha que ter, né? Que antigamente tinha aquele coreto...

P/1 – Aqui tinha coreto?

R – Não, eu estou falando que aqui tinha que ter aquele coreto para o pessoal da banda tocar, fazer uma serenata. Para a gente sentar ali, para conversar. Não tem nada aqui. Desde a época que eu fui embora aqui. Depois, eu voltei, continuou a mesma coisa. Não melhorou nada.

P/2 – A vida religiosa no bairro parece bastante forte?

R – Aqui é forte, a religião aqui é. Aqui pega muito por causa dos italianos. Porque ainda existem os italianos, que ficam fazendo muito nesse sentido. Mas, do resto, acabou.

P/1 – E os espanhóis, você sabe alguma coisa? Como é essa história dos espanhóis?

R – Olha... Olha, eu só tive uma amiga que os tios dela eram espanhóis, depois mudaram daqui, foram para o Butantã e nunca mais tive contato. Mas, na época... Eles são mais trabalhadores do que, praticamente, os brasileiros, né? Mas, não tive muito contato não.

P/2 – Solange, a gente está encaminhando já para o final da entrevista, queria te perguntar que experiências que você acumulou na sua vida que você gostaria de deixar registrada?

R – Experiência?

P/2 – Experiência de vida ou experiência no bairro, o que você achar que você deve registrar, que você quer.

R – Ah, o mínimo com experiência foi a minha... Praticamente a minha vida profissional que eu sempre procuro me atualizar bem, sempre eu consigo capacitação, apesar que eu vejo muito desinteresse pelos adolescentes. Não só do bairro, no geral, em si, está totalmente, eles estão totalmente sem limite, sem uma orientação. Então, a minha experiência é essa, como professora, tá? O que... Eu gosto daquilo que eu faço. Eu fico tão chateada pelo desinteresse das pessoas, da falta de amor, sabe? Eu acho que eles são todos direcionados a alguma coisa, a algo. Mas, eu vejo a minha experiência como professora. Eu sempre estou indo atrás de capacitação para evoluir na minha experiência profissional. Agora, a questão da vida, acho que tenho que ter força, fé e coragem para enfrentar todos esses obstáculos que ainda virão ou vai vir. Não sei, deixa na mão de Deus.

P/2 – E qual o sonho que você gostaria de realizar?

R – Ah, sonho? Depois de 40 anos ter sonho? É muito difícil, né? (risos) Aos 40 anos eu ter um sonho? Ah, eu queria ser feliz. Acho que pelo menos isso.

P/1 – Mas, isso é...

R – Não é tão difícil. (risos)

P/2 – Está bom. Então, a gente agradece a entrevista, está bom? Então, muito obrigada.

R – De nada.

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