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História de: Antonio de Amicis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/09/2018

Sinopse

Um vilarejo na Itália, a guerra no Egito, a lavoura cafeeira no interior de São Paulo e até um período como servente de pedreiro no Canadá: Antonio de Amicis já passou por muitos lugares e fez muitas coisas na vida. Nesta entrevista, feita em 2005, Antonio de Amicis nos conta vários episódios de sua vida, antes e depois de vir morar no Brasil.    

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História completa

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia, senhora.

 

P/1 – Eu gostaria que o senhor me dissesse o seu nome, local e a data do seu nascimento.

 

R – Antonio de Amicis. O local do meu nascimento é Vicoli, Provinci Pescari [Província de Pescara], Itália.

 

P/1 – Eu gostaria que você me contasse o nome dos seus pais e dos seus avós.

 

R – Dos meus avós eu conheci só o avô da minha mãe. O pai do meu pai eu não conheci.

 

P/1 – O pai da sua mãe?

 

R – É, o pai da minha mãe se chamava Carmine di Vita.

 

P/1 – E qual era o nome dos seus pais?

 

R – Do meu pai era Alessandro de Amicis e de minha mamma - desculpa, eu misturo [com] italiano - de minha mãe é Anna Domenica di Vita.

 

P/1 – Qual era a atividade profissional dos seus pais?

 

R – Eram agricultores.

 

P/1 –  O que eles cultivavam?

 

R – Praticamente um pouquinho de tudo: cultivavam trigo, milho, batata, tomate, que lá é pomodoro e (pependon?), todas as hortaliças até hoje são cultivadas ali.

 

P/1 – E qual é a origem do nome da sua família?

 

R – Origine? Quando estava na guerra, a origem nossa eles falavam que era francesa, mas não é francesa, não. Ele saiu da… Se não me engano, se não me falha a memória, perto de Veneza, de uma cidade de lá; origem do sobrenome de Amicis”.

 

P/1 – De Amicis.

 

R – É.

 

P/1 – E o senhor não tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos são?

 

R – Bom, vivos tem só dois. Estão no Canadá.

 

P/1 – Certo, mas quantos?

 

R – Nós éramos sete irmãos. Cinco homens e duas mulheres.

 

P/1 – E quais são os que estão vivos?

 

R – Tem mia sorella que está em Itália. De Amicis são Giovanina e dopo c’é  due fratelli [depois há dois irmãos] que estão em Canadá que são più picolli di me [menores que eu].

 

P/1 – Fratelli quer dizer irmão?

 

R – Irmãos. Que estão em Canadá.

 

P/1 – Mais novos que o senhor?

 

R – São mais novos que eu.

 

P/1 – Então o senhor...

 

R – Um se chama Atílio de Amicis e Gabriele de Amicis.

 

P/1 – E esses são seus irmãos? Fratelli é irmão?

 

R – Fratelli é irmão.

 

P/1 – Então descreva pra mim a rua e o bairro em que o senhor morava quando era criança. Como era? Como era a sua infância lá?

 

R – A infância era que a mattina...

 

P/1 – Mattina, manhã.

 

R – De manhã cedo precisava levantar e às vezes não tinha nem água pra poder se lavar direitinho. Precisava levar a pastar os carneiros...

 

P/1 – Não tinha nem o quê?

 

R – Água.

 

P/1 – Não tinha?

 

R – Tinha muito pouco.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não tinha quase torneira, vamos dizer, encanada. Essas coisas, não tinha.

 

P/1 – Sei. Não tinha muita água, aí o senhor tinha que ir aonde?

 

R – Precisava, depois ia pastar o carneiro; ia pra casa pegar um pedacinho de pão meio correndo, não tinha o café como tinha aqui. Tomar um café ou tomar um chocolate, isso não tinha quando eu trabalhava lá. Um pedacinho de pão na ida, se não um golinho de ______  em cima e correr à escola.

Eu me lembro muito bem até hoje que a minha professora lá falava: “Vamos ver quem tem a mão mais comprida, ‘mais grande’. Quando punha a mão em cima da carteira: “Sua mão está suja. Vá lá na bica de acqua”. Quando estava na escola: “Vá lá na bica da acqua e vá lavar as mãos”, isso me lembro como se fosse ontem.

 

P/1 – Mas ela sabia, ela não dava uma bronca, dava? Era uma bronca, isso?

 

R – Não, mais ou menos, porque naquele tempo os professores… Qualquer coisinha pegava uma régua de madeira - madeira maciça, não era de ‘coisa’ -  e dava três na minha mão, dois na de outro. Se estava com tempo de frio, fazia frio mesmo, doía mesmo. Não se brigava, não era brincadeira. Era assim naquele tempo.

 

P/1 – E como era a casa da sua infância?

 

R – A casa não era, enfim… A casa era mais ou menos confortável. Não tinha.. Tinha sala. Lá nós tínhamos dois quartos: num quarto estavam minha mãe e meu pai, tinha outro quarto que tinha as minhas irmãs e pra cima lá, no... Como se diz, embaixo do telhado, dormia eu com dois de meus irmãos. Essa era a casa.

 

P/1 – Um quarto era a sua mãe e seu pai...

 

R – O quarto da minha mãe e do meu pai era até bonzinho, não era até, assim...

 

P/1 – E onde dormiam suas irmãs?

 

R – Minhas irmãs dormiam num outro quartinho pertinho assim da minha mãe e do meu pai.

 

P/1 – E vocês?

 

R – Di sopra [acima] tinha os quartos, mas precisava subir uma escadinha lá, embaixo do forro, vamos dizer.

 

P/1 – Dormiam todos... Quantos dormiam lá?

 

R – Três.

 

P/1 – Três... E quais eram suas brincadeiras favoritas?

 

R – Brincadeira favorita? Eu gostava de… Quando, acho que tinha uns dez anos mais ou menos, eu gostava de coelho. Tinha um vizinho nosso que falava assim: “Eu vou te dar dois coelhos, caçados, e você...” Aí procurava uma grutinha pra poder guardar os coelhos. Meu pai me mandou arrancar erva do meio da vinha – vinha é de onde vem a uva...

 

P/1 – Eu sei. Os seus pais eram donos de terra?

 

R – Eram.

 

P/1 – Grande, pequena?

 

R – Não eram grandes, não, mas dava pra nós vivermos “bonzinho”, vamos dizer. Não tinha dinheiro naquele tempo. Em 1930, por exemplo, era a crise pior que tinha na Europa e também nos Estados Unidos, quando os Estados Unidos passaram pela pior coisa do tempo, em 1929 e 1930.

Eu fiquei com a picareta lá na rocha, fazendo uma grutinha, punha os coelhos, mas meu pai tinha mandado eu arrancar o capim no meio da vinha. Quando ele chegou, falou: “Você não foi lá?” Aí eu voltei, mas eu... Ele me deu uma surra, meu pai, porque não tinha continuado a arrancar o matinho do meio da vinha e fui fazer isso aí. Essa era a brincadeira. Até que eu saí de casa e fui andar uns oito, dez quilômetros da minha casa, para a casa da minha tia, que era irmã de minha mãe. Eu fui lá.

 

P/1 – Saiu de casa porque apanhou?

 

R – Saí de casa porque o meu pai me deu aquela surra.

 

P/1 – E aí?

 

R – Quando cheguei lá a minha tia, que também faleceu, falou: “Ai, o que aconteceu? Está passando mal a minha mãe, a sua avó?” Eu disse que não. “O que veio fazer aqui?”, “Porque vou trabalhar lá com o situando que está aqui na frente. Ele planta melancia, essas coisas. Eu vou lá.” “Então você fugiu de casa?” “É, mais ou menos” eu falei.

Ela saiu e foi avisar um carteiro que da nossa [cidade], de Vicoli a Catignano, buscava a correspondência. Ela avisou ao carteiro: “Avise lá que Antonio está aqui.” Essa é a história.

 

P/1 – Mas e aí?

 

R – E aí? Fiquei dois, três dias lá, aí passou um compadre nosso e falou: “Vamos voltar pra casa, vamos...” e me trouxe à casa.

 

P/1 – E aí?

 

R – Fiquei embaixo de um pé de figo assim, meio escondido. Depois, parece que eles tinham… Fiquei escutando até que minha mãe e meu pai foram dormir, e eu entrei na casa.

 

P/1 – E aí?

 

R – Depois passou isso aí, depois voltou.

 

P/1 – Não entendi: eles foram dormir, aí o senhor entrou na casa...

 

R – Entrei na casa.

 

P/1 – E no dia seguinte?

 

R – No dia seguinte eu procurava andar de um lado pro outro e não me encontrar na frente do meu pai.

 

P/1 – E como é que quebrou o gelo?

 

R – Devagarzinho vai... Como se diz? O gelo quebrou e voltou tudo ao normal.

 

P/1 – Ele pediu desculpas?

 

R – Desculpa? Naquele tempo pedia desculpa? Não existia desculpa naquele tempo. Então é essa a história que nós tínhamos.

 

P/1 –  Sua mãe ficou preocupada de o senhor ter fugido?

 

R – É, ela ficou, mas com o tempo todo mundo precisava correr, corre pra trabalhar... Aqui em São Paulo corro no escritório, corro pra cá, corro pra... A outra trabalha numa fábrica, tem que correr. E eles naquele ________: tem aquelas galinhas, os pintinhos, os carneirinhos. Precisava correr pra cá e pra lá, então não tem tempo pra dizer: “Estou sossegado”. O sossego deles naquele tempo era, depois que almoça, ficar uma meia hora, uma hora descansando.

Nós trabalhamos até a idade quando eu fui servir o exército, fui à guerra. Eu saí da minha cidade e fui para [a região de] Marche, [na cidade de] Ascoli Piceno, pegamos lá, agora ele disse...

 

P/1 – Desculpa, onde é que o senhor... O senhor está falando da guerra já?

 

R – É, de quando fui na guerra.

 

P/1 - Espere, me conte um dia cotidiano da sua casa. Não chegue na guerra ainda, vamos ficar ainda na sua casa de infância. Como é que...

 

R – Bom...

 

P/1 – ...Um dia tradicional.

 

R – Um dia tradicional lá é...

 

P/1 – Um dia de festa.

 

R – É, um dia de festa. Já emendo quando é dia do Natal, da Páscoa. O Natal era mais “coiso” que a Páscoa. Meu pai, meus sete irmãos, meu pai e minha mãe. Não se comia, nem experimentava a comida se não estivessem todos sentados na mesa. Meu pai estava sentado na cabeceira da mesa e falava: “Falta o Cigano” ou outro meu irmão ou minha irmã. “Até que estejam todos aqui ninguém come”. Nem experimentar, ninguém comia.

 

P/1 – Podia falar ou não podia falar?

 

R – Podia falar, mas meu pai falava: “Agora fica quieto, não vamos falar nada e esperar todo mundo chegar aqui.” Às vezes ele puxava até a oração antes de comer.

 

P/1 – E fazia a oração antes de comer? Quem fazia a oração, seu pai?

 

R – É, meu pai começava a oração, ou minha mãe, e nós precisávamos responder.

 

P/1 – E sempre isso? Sempre tinha oração antes de comer?

 

R – Não era sempre, mas tinha um dia mais apropriado, assim mais “coiso” em que se fazia. Por exemplo, na novena de Natal nós fazíamos sempre.

 

P/1 – Sei.

 

R – Ele rezava o terço, falava sempre, e nós precisávamos acompanhar.

 

P/1 – E como era o domingo?

 

R – Domingo ia à missa.

 

P/1 – A igreja era longe, perto?

 

R – A igreja era a três quilômetros, mais ou menos.

 

P/1 – E vocês iam como? A pé?

 

R – A pé. Às vezes embaixo da chuva, às vezes estava caindo neve.

 

P/1 – Mas ia mesmo assim, mesmo com chuva?

 

R – Mesmo assim porque, às vezes... Eu me lembro uma vez que no fim do ano passou um vizinho nosso lá, acho que tinha uns quarenta centímetros de neve, e nós fomos lá.

 

P/1 – Pra onde, pra igreja?

 

R – Pra igreja. Naquele tempo a missa era à meia-noite.

 

P/1 – Isso no Natal?

 

R – No fim do ano.

 

P/1 – Isso foi pra Missa do Galo.

 

R – Missa do Galo.

 

P/1 – Entendi. Mas e aos domingos? Vocês também iam todo domingo?

 

R – Praticamente, minha mãe todo domingo ia na missa.

 

P/1 – Seu pai ia também?

 

R – É, ia.

 

P/1 – E como era pro senhor, vocês irem à missa no domingo?

 

R – É, a missa era... Acabava a missa, a gente dizia: “Bom, agora vamos tomar um café, vamos à sorveteria tomar um...” Saía da missa, cada um ia pra casa e almoçava e depois trabalhava numa coisa ou outra. Sempre tinha uma coisa ou outra pra fazer.

 

P/1 – Não tinha um dia de folga?

 

R – Descanso? Não, não (risos). Lá era de domingo a segunda e de segunda a domingo, direto.

 

P/1 – Como e quando o senhor iniciou os seus estudos?

 

R – Acho que eu tinha uns sete anos quando fui ao primeiro ano de estudos. E eu fiz ao terceiro ano, só.

 

P/1 – Mas quem levou à escola? O senhor lembra quem o levou, como foi?

 

R – A pé, ninguém levava.

 

P/1 – O senhor tinha sete anos e a sua mãe… Como foi?

 

R – É, minha mãe... Quando nasceu o último meu irmão, eu precisei chamar a minha avó, a mãe de minha mãe. Eu estava a mais ou menos dois quilômetros, eu tinha sete anos e fui chamar a minha avó pra ela vir perto da minha mãe, que ela estava tendo o neném.

 

P/1 – O senhor é o mais velho então?

 

R – Não, eu tenho… Tinha o meu irmão mais velho, que é de 1912. Depois tenho uma irmã que é de 1914, depois o outro irmão que é de 1918, eu de 1922, e eu tenho outra irmã que ainda está viva lá na Itália, [de]1924. Depois tenho dois irmãos que estão no Canadá, de 1926 e o outro de 1929. Questo de 1929, quando nasceu eu fui chamar a minha avó, porque lá não era como é hoje, que qualquer coisinha precisava correr no hospital, na parteira. Lá, ás vezes, se não dava, nascia até no meio do campo.

 

P/1 – Entendi. O senhor que foi chamar sua avó?

 

R – Eu chamei a minha avó.

 

P/1 – E o senhor lembra como foi esse dia?

 

R – É, eu fui chamá-la antes, me lembro. Eu encontrei a polícia italiana lá, que [se] chamam carabinieri. Eu tinha sete anos, ele passou a mão na minha cabeça. Eu fiquei tão assustado quando eu passei por ele, correndo; fui pro lado onde estava a casa de minha avó chamá-la.

 

P/1 – Eles passaram a mão na sua cabeça, o senhor ficou com medo e saiu correndo?

 

R – Exato. É, porque era “a polícia, a polícia”, “carabinieri, carabinieri”.

 

P/1 – E qual lembrança o senhor tem do período escolar? Tem alguma? O senhor já contou, na realidade.

 

R – Bem, período escolar... Lá tinha duas professoras. Uma dava aula do primeiro ano e segundo, a outra dava aula do terceiro e quarto ano. Duas salas, uma perto da outra.

Eu me lembro uma vez, uma dessas professoras, não sei o que aconteceu, mas faltou uma e veio um mestre, um professor. Este professor, em vez de ficar conosco...  [Era] tempo de frio, não tinha calafetação lá na escola, nós precisávamos levar um feixinho de lenha pra poder acender a lareira pra esquentar um pouco. E a molecada começou a fazer barulho lá dentro. Voltou o professor, que tinha ido conversar com a outra professora, que era uma moça, bonita ainda. Ele veio e [disse]: “Cinco daqui, cinco de lá”, dez [palmadas] na mão. Não podia nem falar nada, porque naquele tempo se fosse falar pro meu pai e pra minha mãe eles iam perguntar: “Porque te bateram?” “Ah, assim, assim...” “Fez muito bem!” Não é como hoje que “Ele me bateu!” e correm na polícia, vão buscar a professora e é presa, não.

 

P/1 – E isso de alguma forma influenciou na sua atividade profissional, essa educação, seus estudos?

 

R – Não, não é que influenciou. A única coisa é que depois… Eu era o mais novo da classe e tinha o mais velho; não prestava muita atenção no que eu falava a professora. Ela um dia veio, eu não estava no lugar onde está a carteira - não gosto de ficar perto da professora, nós ficamos ali atrás. Ela veio lá falar: “Vocês são dois, dois ‘asni’” [asnos], falou pra mim e pro outro. O outro é mais velho, tinha dois anos mais velho, ainda está vivo lá na Itália. Ela me falou também isso: “Se um dia você precisar de mim, de algumas coisas, não me procure, porque não aceito [dar] nada que você vai procurar.” De fato, quando eu precisava ir servir o Exército tinha um amigo nosso que era o major lá do Exército, e ele falou “Olha, se você tivesse o certificado, a certidão da quinta série, você podia entrar na Polícia Federal...”, que se chama Finanza na Itália. “Você ia pra Finanza e não ia em primeira linha na guerra. Vá, vê se arruma [com] a professora que deu aula pra você.” Eu fui lá. Quando eu cheguei na casa dela eu falei: “Professora, é assim, assim..” “Agora veio aqui! Nada disso!” Ela falou: “Não vou nada, não quero nem saber de você. Você, quando estava lá na escola ficava brincando, não estudava. Agora... Lembra que eu te falei?” E falou, de fato.

 

P/1 – Ela não ajudou?

 

R – Não. E assim eu parti e fui pra guerra. Eu fui, eu fiz... Partimos em janeiro de 1942; em julho do mesmo ano nós saímos da cidade onde estávamos servindo o Exército, transferidos de um batalhão, de um regimento pra outro. Ficamos um pouco de tempo perto de Roma e de Roma, de trem, nós passamos para Bolonha, Veneza… Não, não chegou nem em Veneza, passou o trem, acho que em cima, um pouco; passamos pela Iugoslávia, descemos pra todos os outros paisinhos lá, Hungria, Bulgária, que estavam todos dominados pela tropa de Hitler e fomos até a Grécia. Na Grécia ficamos dez dias, pertinho de Atenas, e de lá pegamos um avião que nos levou à Tripolitânia, região de Trípoli, na Líbia. De lá saímos de caminhão e fomos até o Egito. De lá, da Líbia ao Egito, tem uma encosta ao lado, acho que tem uns dez, dois quilômetros de estrada, e lá era onde o avião inglês atacava a tropa italiana quando descia lá. De lá nós fomos até a guerra.

 

P/1 – Mas onde era a guerra?

 

R – Lá no Egito.

 

P/1 – Eu sei, mas o senhor foi lutar lá?

 

R – Fui.

 

P/1 – Que idade o senhor tinha quando foi pra guerra?

 

R – Vinte anos.

 

P/1 – Vamos voltar só um pouquinho...

 

R – Eu era de 1922, sou de 1922. Eu saí em janeiro; quando eu saí, [quando] me mandaram servir ao Exército, não tinha vinte anos.

 

P/1 – Vamos só voltar um pouquinho antes de o senhor servir o Exército, na sua adolescência. Namoro, o senhor tinha um grupo de amigos? Quem eram?

 

R – É, amigos tinha...

 

P/1 – Na adolescência, já. Não era mais criança.

 

R – Tinha, por exemplo, a mulher do meu primo. Ela falava sempre pra mim: “Você precisava casar com a Nina. Ela tem uma casinha, tem um pouco de terra e você não precisa... Você vai morar com ela.” Eu até namorei um pouquinho...

 

P/1 – Quem?

 

R – ...Uma moça lá.

 

P/1 – Você se casou com ela?

 

R – Não. Depois eu casei com essa com quem eu fiquei até três anos atrás, quatro anos atrás. Ela faleceu.

 

P/1 – E como o senhor costumava se divertir com seus amigos?

 

R – Divertir? Às vezes no domingo à tarde, à tardezinha, andava a [ia] jogar bocha.

 

P/1 – Onde? Lá em Vicoli?

 

R – Lá em Vicoli. Ou jogava baralho. Se jogava, um quarto de um litro de vinho e uma sodinha se misturava; o que perdia pagava o quarto de vinho. Era sempre quatro pessoas: dois ganhavam e dois perdiam. Seja quando jogava baralho ou quando jogava bocha.

 

P/1 – E quem perdia pagava o vinho, é isso?

 

R – Os dois que perdiam precisavam pagar o vinho.

 

P/1 – E vocês tinham...  O senhor ia em baile, lanchonete, tinha cinema?

 

R – Olha, eu nunca tive aquela paixão de ir ao baile. Lanchonete também não tinha lá, não tinha naquele tempo.

 

P/1 – E tinha cinema?

 

R – Não.

 

P/1 – E lanchonete, tinha?

 

R – Não, não tinha não.

 

P/1 – Só o campo de bocha?

 

R – É, campo de bocha... Na estrada nós jogávamos, nem o campo tinha.

 

P/1 – E como eram as paqueras?

 

R – Ah, as paqueras, cê namorava… Naquele tempo não era…

 

P/1 – Como o senhor via as pessoas? Como é que o senhor paquerou, conheceu a sua esposa, por exemplo?

 

R – Eu a conheci porque ela tem uma prima, que faleceu agora. Ela falou “A Maria, essa é a mais bonita que tem lá. Vê se você consegue se entrosar com ela.” Assim a conheci. Meu irmão mais velho do que eu era muito amigo do meu cunhado, do irmão da minha esposa. E assim, entrando assim, começamos a namorar.

 

P/1 – Começaram a namorar?

 

R – A namorar.

 

P/1 – E como é que foi isso?

 

R – É, como que foi...

 

P/1 – O senhor foi pedir permissão, como era naquela época?

 

R – Não. Eu primeiro falei com ela. Namoramos meio escondidinho. Depois o pai e a mãe ficaram sabendo. Quando ela vinha à missa, na saída da missa eu a acompanhava pra lá em cima. Ia a pé, não tinha que ir de carro, de ônibus, não tinha nada. Eram três, quatro quilômetros. Às vezes precisava passar… Tinha um riozinho que às vezes vinha aquela chuva. No riozinho não dava nem pra passar e não tinha ponte, não tinha nada lá. Tinha uma tábua pra passar em cima e se um escorregava já...

 

P/1 – Quer dizer que o senhor paquerava na missa? Conhecia as meninas na missa?

 

R – Na missa não, depois da missa.

 

P/1 – Sim, depois da missa?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor continuou indo à missa na adolescência?

 

R – Sim.

 

P/1 – E aí vocês viam as meninas na missa, então?

 

R – É, na missa.

 

P/1 – Qual foi o seu primeiro namoro foi com a dona Maria, então?

 

R – Mais sério foi com a dona Maria, sim.

 

P/1 – Como foi o seu primeiro namoro? Conte pra mim.

 

R – É, como foi...

 

P/1 – Como foi que o senhor conheceu, quem era...

 

R – Eu conheci...

 

P/1 – ...Onde era?

 

R – Eu conheci… Ela era de Vicoli, mesma coisa, só que eu morava de um lado e ela do outro, vamos dizer. Era a mesma Prefeitura, o mesmo Município, só que da minha casa até a casa dela tinha uns quatro ou cinco quilômetros.

 

P/1 – Essa era a dona Maria. Não?

 

R – Essa era a dona Maria.

 

P/1 – O que era um namoro mais sério e o que era um namoro menos sério naquela época?

 

R – Naquela época você não podia nem pegar na mão da moça que já: “Ei! Ei! Peraí!”, entende? Quando eu, depois, estava namorando a minha esposa era debulhar o milho na casa do... Se usava assim naquele tempo, dentro da casa do meu sogro. De repente apagou a luz e eu alcancei com a mão, pra pegar a mão da minha namorada. A luz voltou. Todo mundo [disse]: “Aham, te pegamos em flagrante!”, como dizem aqui. Sabiam que eu estava pegando a mão da Maria.

 

P/1 – Quando o senhor ia namorar na casa dela o senhor ficava fazendo trabalhos também lá?

 

R – Não [eram] trabalhos, era até, vamos dizer, como uma espécie de divertimento porque os que gostavam de dançar - e eu nunca gostei - acabavam de debulhar o milho, davam uma limpadinha. Tinha uma sanfona que tocavam lá e se dançava.

 

P/1 – Isso era na casa da dona Maria?

 

R – Na casa de dona Maria. Podia ser na casa de dona Maria como podia ser na casa de outro, porque não era... Uma vez a gente estava na casa de dona Maria, outra vez a gente estava na casa de uma outra vizinha, assim era feito.

 

P/1 – Quem é que fazia comida depois do milho debulhado?

 

R – Comida? Era sempre à noite.

 

P/1 – Mas que tipo de comida?

 

R – O tipo de comida? Debulhava o milho...

 

P/1 – O que eu quero entender é o seguinte: o senhor falou que debulhava o milho...

 

R – É.

 

P/1 – E isso variava de casa pra casa, podia ser... mas era sempre pra debulhar o milho e depois dançar, não é isso?

 

R – Exato.

 

P/1 – E aí reunia várias pessoas pra ajudar a debulhar esse milho.

 

R – Exato, isso mesmo.

 

P/1 – Era porque eles iam moer, secar o milho?

 

R – Primeiro precisava secar o milho, depois levar pro moinho, moer, e fazer farinha de milho.

 

P/1 – A debulhagem do milho era sempre feita desse jeito, pelos jovens?

 

R – Exato, a maioria. Tinham uns velhos que trabalhavam lá.

 

P/1 – Sim, mais pela comunidade.

 

R – É.

 

P/1 – Então cada vez que a casa precisava de farinha chamava todo mundo pra ir lá, pra...

 

R – Não, o milho era debulhado uma vez por ano.

 

P/1 – Era debulhado uma vez por ano...

 

R – É, porque a colheita do milho era em setembro mais ou menos e se debulhava. Cada mulher amarrava uma atrás da outra as espigas de milho. Ficavam penduradas no solo e secavam. Depois que secava ainda tinha outro trabalhinho pra fazer, depois é que veio a maquininha: pegava em cima de uma enxada e debulhava o milho no chão, depois catava, limpava, deixava pra fora, pra secar bem, e depois levava pro moinho.

 

P/1 – Então em setembro tinha essas festas...

 

R – Exato.

 

P/1 – E numa dessas festas apagou a luz e o senhor tentou pegar a mão dela?

 

R – Exato.

 

P/1 – Agora eu entendi.

 

R – É, é...

 

P/1 – O senhor conheceu a dona Maria e se casou com ela logo em seguida?

 

R – Não. Eu fui...

 

P/1 – Quanto tempo o senhor namorou com ela?

 

R – Quanto tempo? Namorei com ela um pouco de tempo, mas não muito porque depois eu fui servir o Exército. Depois fui pra guerra. Depois fui pra um campo de concentração; foram trinta e seis meses, três anos e meio.

 

P/1 – O senhor podia se corresponder com ela?

 

R – Era difícil porque… Em inglês sim, mas se você mandasse dizer “Aqui dão cinquenta gramas de pão por dia, só”, os ingleses viam as cartas que você escrevia. Eu não ia pra frente pegar cartas lá, ia no lixo. Se você falasse: “Aqui nós estamos como reis! Comer, beber, dormir é uma maravilha!” aquela carta ia, porque era uma propaganda para os ingleses, chegava lá na Itália.

Lá tinha alguns guardas, os soldados. Não podíamos ir pra cá e pra lá que eles estavam sempre em cima de nós. Eles falavam: “Olha, eu tenho meu irmão que está lá na Itália, está preso. Todo domingo vão as italianas que são mães: vão levar pão, levar cigarros. Mas eu não posso fazer isso com vocês. Não posso e não vou fazer mesmo!” Ele falava assim quando nós estávamos no campo de concentração. Depois que eu voltei, até peguei uma gastrite que quase morro lá. Quando voltei eu precisava tomar leite...

 

P/1 – Do quê?

 

R – Leite.

 

P/1 – De leite.

 

R – É. E a minha esposa, quando viu que eu estava com aquela gastrite, não queria mais namorar comigo.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, porque ela falou: “Você está doente. Não, não.” Mas eu fiz o convite e depois nos casamos.

 

P/1 – Com quantos anos o senhor voltou?

 

R – Quando eu voltei eu tinha… Depois de quatro anos, praticamente.

 

P/1 – Ela ficou lhe esperando todo esse tempo?

 

R – Ficou esperando, o que podia fazer? Ela precisava esperar.

 

P/1 – Podia arrumar outro namorado e se casar.

 

R – Bom, de fato eu acho que ela pensou algumas coisas, mas eu tinha um amigo, um compadre nosso. Ele não usava nem faca nem revólver, mas os braços. Ele falava: “Se a Maria pensar em namorar algum rapaz nós vamos dar uma surra nele. Eu vou dar uma surra, você não! Eu dou uma surra nele e ele nunca mais aparece naquela região.” Ele era de outra cidadezinha.

 

P/1 – Esse seu colega estava na guerra com o senhor?

 

R – Não. Ele morava perto de nós.

 

P/1 – Ele não foi servir o Exército?

 

R – Não, isso foi depois que nós voltamos do Exército. .

 

P/1 – Quando ela pensou em acabar com o senhor, ele falou isso.

 

R – É. E essa é a história.

 

P/1 – O senhor se lembra do dia do seu casamento?

 

R – Eu? Sim. 24 de outubro.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Nós fizemos na casa dela, à pé, não é? Daqueles que... Nós fomos lá...

 

P/1 – Foi na casa dela ou foi na igreja?

 

R – Na igreja.

 

P/1 – Como foi? O senhor se arrumou? Conte pra mim: o senhor estava animado?

 

R – É, aquela vontade de casar. Naquele tempo lá precisava, não é que o mundo ia de carro. Eu fui a pé, eu e meus parentes, meu pai… Minha mãe eu acho que foi, não me lembro direito...

 

P/1 – Não tinha charrete?

 

R – Que charrete? Não tinha nada, era a pé! A pé e tinha uma estradinha meio vagabunda e de lá se ia... A mesma estrada que eu acabei de falar, que enchia o rio e a gente podia escorregar.

 

P/1 – Quando o senhor chegou da guerra, como foi chegar lá na Itália?

 

R – Quando cheguei na guerra...

 

P/1 – Chegou da guerra.

 

R – Olhe, (risos) pra dizer a verdade, ontem foi aniversário: eu cheguei na minha casa em 13 de maio de 1946. Cheguei em casa, passou – porque não tinha ônibus, não tinha nada – um caminhão velho levando todos aqueles que estavam presos. Passamos perto de casa e eu passei pelo meio do campo de trigo. Era 13, 14 de maio. O trigo era pra ser ao menos um meio metro alto e ele era uns vinte, 25 centímetros. Eu falei: “Que miserável, aquilo”.

Bom, eu fui pra casa. Cheguei e eles não sabiam que eu voltava. Eles cortaram uma fatia de pão preto, aí eu falei: “Larguei o campo de concentração, agora volto aqui e [vejo] esta miséria.” Meu pai e minha mãe falaram: “Aqui não tem trigo. O ano passado entrou só um pouquinho.” Naquele tempo, se você fazia, vamos dizer assim, vinte sacos de trigo, quinze você era obrigado a dar para o governo. Ele te pagava alguma coisa, mas sua obrigação era dar pra ele. Era o racionamento, que eles falavam. Todo pão, aquilo que estava na cidade dava pra comprar duzentos gramas de pão por dia. Comia aquilo lá e acabou. Só no dia seguinte. Assim com o macarrão etc. É essa a história.

Eu cheguei e no primeiro dia fiquei até assustado quando vi que tinha aquelas coisas, [que todo mundo estava] sem comer.

 

P/1 – Como foi a sua volta?

 

R – Nós saímos de Porto Said, um piccolo porto que fica lá no Egito, para voltar para a Itália. Fomos parar em Nápoles com um navio italiano meio vagabundo e voltamos de Nápoles. É lógico que quando saímos de lá, [pensamos] : ”Acabou, vamos voltar”, mas não pensava que voltando à Itália… Essas coisas estariam bem melhor do que pensávamos, não? E lá [estava] um pouquinho castigado do tempo, da seca… Não tinha trigo, tinha um pouquinho, mas muito pouco de batata, hortaliças, essas coisas.

Logo depois da guerra não tinha nada lá, esse foi o problema que aconteceu. Só depois acho que começamos aquela luta: trabalhar, trabalhar até quando eu me casei.

 

P/1– E quando o senhor reviu a sua esposa? Como foi?

 

R – Quando eu revi a minha esposa... Eu estava mal na gastrite, ela quase me jogou pra escanteio, né?

 

P/1 – Mas como foi esse momento? Ela foi lhe visitar? O senhor foi à casa dela?

 

R – Não. Eu fui a casa dela, porque lá não se gostava que a namorada fosse à casa do...

 

P/1 – O senhor foi à casa dela. E aí?

R – Tinha o irmão dela, nós saímos juntos na guerra. Estávamos juntos, depois fomos separados quando estávamos num campo de concentração. O irmão dela ficou de um lado e eu fui do outro.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Eu cheguei alguns dias, não sei, acho que quinze dias antes que o meu cunhado. Então, ela queria saber do meu cunhado, como estava.

E como eu ia saber? Eu não sabia. “Ele ficou de um lado, ele está lá no Canal de Suez, ficou lá.” Eu fui pertinho de Alexandria, voltei no lugar onde eu tinha passado à guerra. Nós voltamos.

Essa é a história da guerra. Ela no comecinho não queria mais, mas depois devagarzinho se amansou e [a relação] foi pra frente.

 

P/1– Ah! Ela não queria mais?

 

R– É. Quase não queria porque dizia que eu estava doente.

 

P/1 – E aí era fácil pro senhor conseguir tomar leite? Como é que era?   

 

R– Não era difícil. Por exemplo, eu não podia tomar um copo de vinho, não podia isso e outro, mas um pouco. Todo mundo tinha um pouquinho de vinho e umas coisas. Durou um pouco [de] tempo, mas depois eu voltei ao normal. Dou graças a Deus. Nunca tive uma operação, até hoje, de nada.

 

P/1 – E como era o seu dia-a-dia de casado? Quando o senhor se casou, como foi?

 

R – Ah! O dia-a-dia de casado? Foi maravilhoso. Aquele tempo se usava lá na nossa terra... Tinha alguns que tinham bastante dinheiro, podia alugar algum restaurante. Mas lá se usava... Na própria casa, que existe até hoje, foram preparadas as mesas lá dentro, as cadeiras, um banquinho com uma tábua em cima. E se uniu lá com setenta, oitenta pessoas lá.

 

P/1 – Esse foi o dia do casamento? Da festa?

 

R – Dia do casamento. Com a festa. O único que… Queria vir o padre da igreja, eu falei “Hoje não!” porque dizem que os padres levam a má sorte. “Você pode vir domingo que vem, mas hoje não.” “Mas eu queria...” “Hoje, não, Salvatore.” Ele se chamava Salvatore. “Então, Salvatore, hoje você não vai” .

 

P/1 – E ele ficou chateado?

 

R– Ficou, mas no domingo depois ele veio e pronto, acabou. No dia seguinte nós fomos pra lua de mel. Meu pai já tinha começado a colheita da uva e nós fomos preparar o vinho, eu com a minha mulher.

 

P/1 – Era lua de mel?

 

R – É, a lua de mel era essa aí. (risos) A preparar o vinho, pertinho da nossa casa.

 

P/1 – Não entendi. Como era?

 

R – Pertinho da nossa casa, pra baixo da nossa casa tinha a vinha. Tinha um pessoal que colhia uva e trazia em casa...

P/1 – Sim.

 

R – E não precisava cortar lá, não tinha nem máquina.

 

P/1 – Tinham que pisar.

 

R – Exato. Pisar com o pé. Eu nunca esqueço que meu pai queria que nós fervêssemos um pouquinho de vinho. Quando você acaba de pisar, precisava fermentar um pouco, ferver.  E nós ficamos fazendo isso. Eu com a minha mulher.

 

P/1 – E essa foi a lua de mel?

 

R – Essa a lua de mel. Eu fiquei trabalhando. Pro nosso casamento, não existia lua de mel nenhuma.

 

P/1–Mas vocês bebiam do vinho? Conte, como era?

 

R – O vinho podia tomar, sim.

 

P/1 – E o que aconteceu? O senhor está com um pequeno sorriso nos lábios. Conte para nós?

R – (risos) Do casamento?

 

P/1 – É. Como era o dia-a-dia? Você foi logo trabalhar?

 

R – Exato.

 

P/1 – E onde vocês foram morar?

 

R – Em uma casa perto, que até hoje está lá pertinho. Eu estou dormindo lá e vou levar esta aqui no mesmo quarto [de] quando eu casei, onde nasceu meu primeiro filho, que já faleceu. Na mesma casa, no mesmo quarto.

 

P/1 – Então descreva pra mim, como foi ser pai?

 

R – É...

 

P/1 – Quantos filhos o senhor teve?

 

R – Três.

 

P/1 – Como era o nome deles?

 

R – Um era Fernando e nasceu lá na Itália. Agora em outubro vai fazer dois anos que faleceu. E depois tem o outro que nasceu aqui, o mais velho que o Alexandre, chama-se Carlos.

 

P/1 – Carlos.

 

R – E depois nasceu esse aqui. Esse aqui tem a diferença do Alexandre [de] um ano e meio, mais ou menos.

 

P/1– Nasceu aqui?

 

R – Nasceram aqui os dois. Aqui em São Paulo, em Santo André.

 

P/1 – Em Santo André?

 

R – É.

 

P/1 – E se tornar pai mudou de alguma forma o seu jeito de pensar?

 

R – Por exemplo, logo depois que nós chegamos aqui...

 

P/1 – O senhor se casou e teve o seu primeiro filho na Itália. Quando foi que o senhor resolveu vir?

 

R – Eu me casei em 48. Meu primeiro filho nasceu em 49, em treze de outubro de 49.

 

P/1 – Certo. E aí o senhor vem pro...

 

R– É. Tinha uma família que tinha vindo aqui pro Brasil, está na Bahia até hoje. “Ah! Vem pra cá, vem pra cá” e eu não queria. Meu pai não era rico, mas vítima... Nunca sofremos sem comer. A alimentação nós tínhamos sempre, mas meu pai não queria que eu fosse pro Brasil.

 

P/1 – Não queria?

 

R – Não queria, absolutamente. O outro meu irmão, que é mais novo do que eu e está ainda no Canadá, saiu dez dias depois de mim, mas eu preparei as papeladas lá na Itália. Tem uma corporativa que não sabia se nós viríamos aqui para o Brasil [ou] se íamos para a Venezuela. Mas depois era pro Brasil, tanto que quando viemos pro Brasil mandaram trazer até lanterna a querosene. Eu não sabia que íamos morar no interior, no meio dos cafezais, e que não tinha luz, não tinha nada. Não sabia isso quando chegamos lá.

 

P/1 – E já tinha luz em de Amici?

 

R – Na nossa casa não tinha ainda. Não tinha porque o prefeito, como se dizia à italiana, era um menefreghista, que não se interessou. Porque me lembro quando eu tinha nove, dez anos, passou [a ter luz elétrica] na casa de meu tio. Pra chegar em nossa casa era pertinho, era um quilômetro, mas ninguém se interessou em [levar]...  “Vamos expandir esta luz elétrica.” Ninguém. Não tem luz, nem água encanada.

 

P/1 – Mas porque o senhor resolveu sair da Itália e vir pro Brasil?

 

R – Eu vim com aquela coisa na cabeça: “Ah! Vamos pro Brasil, vamos pro Brasil”. Vim pro Brasil.

P/1 – Mas tinha alguma necessidade?

 

R – Não. Necessidade mesmo, como eu estava falando… Meu pai não tinha dinheiro, mas pra viver, eu podia ficar na Itália. Tinha um amigo meu engenheiro, ele falava pra mim “Oh, senhor de Amicis! Não vá pro Brasil, não. Meus amigos que estão no Brasil não voltaram.” Ele me falou até onde eles ficaram [por] pouco tempo, em Curitiba. Diz o pessoal lá: “Os fazendeiros à noite se vestem de calça branca, camisa branca e frango com os cafés, cafezal, toma café e tudo. O operário que fica na lavoura não pode sair de lá.” Ele disse: “Não sou maltratado, mas também não sou bem tratado.” Ele falou: “Não vai, não vai.” Ele até me prometeu… Ele tinha uma sobrinha que era diretora de uma banca [banco] lá em Pescara, perto de nós. E eu te faço um empréstimo, metade parece que depois no outro mês, se pagava. “E por você, posso liquidar por trinta anos. Você vai comprar um alqueire de terra aqui pra plantar pêssego - pertinho de Pescara tinha ainda terras vazias - pra plantar pêssego aqui. De fim de semana com o alqueire de terra dá pra viver, [pra] cinco pessoas andarem de gravata.” Ele me falava isso, mas depois eu falava: “Ah! Agora eu estou com vontade de vir pro Brasil” e aí vim pro Brasil.

 

P/1 – E como foi?

 

R – Não foi muito bom.

 

P/1 – Onde é que o senhor chegou?

 

R – A minha mulher, quando saímos de lá, em dois de julho de 1952, já estava meio... Teve uma hemorragia, ela perdeu o neném. Eu fui ao médico. Fico até emocionado quando eu conto essas coisas. Eu fui ao médico e falei: “Doutor, é assim, assim.” Ele me falou: “Eu vou dar algum remédio pra você. Se você conseguir chegar ao navio, lá não tem hospital, mas tem uma enfermaria muito boa.” Agora você tem que fazer… Nós íamos da nossa cidade passar por Milão, que dá uns seiscentos quilômetros, depois por rua, cem quilômetros de estrada de ferro. E quando chegou ao meio da estrada, [ela] já: “Estou [me] sentindo mal”. Eu falei: “Olha! Calma. Daqui a pouco nós chegamos em Milão”.

 

P/1 – Ela estava grávida?

 

R – Estava, mas estava perdendo. Ela teve a hemorragia e estava perdendo o neném. Tarde, cheguei a Milão.

 

P/1 – Com quantos meses ela estava?

 

R – Acho que com dois meses, dois meses e pouco.

P/1 – O senhor não precisa falar disso se não quiser. Enfim, estava chegando a Milão, e aí?

 

R – Pegamos o trem, né? Acho que nem descemos do trem, no mesmo vagão descemos e peguei [o trem para] Gênova, descendo. Voghera, que é uma cidade que está a um cem quilômetros de Milão e Gênova fica [a] cem quilômetros.

“O trem está saindo.” Eu falei: “Aaaaah!” Nós descemos do trem eu e a minha mulher, meu filho que tem dois anos saiu junto com o meu cunhado... (suspiro)

 

P/1 – O senhor quer parar?

 

R – Junto com o meu cunhado, e esses dois que estão em Campinas hoje, que é primo da minha mulher, e uma prima da minha mulher. Eles foram pra Gênova e nós ficamos no hospital de Voghera. Foi tão rápido que acho que nem demorou cinco minutos; chegou uma ambulância, chegou lá, carregou e levou pro hospital. E eu estava torcendo, estava esperando lá. No dia seguinte os três saíram de Gênova, passamos por Nápoles, de navio, e de lá viemos pro Brasil. Sorte minha que a minha mulher não teve febre nenhuma. O arrestiamento, como se diz no hospital.

No dia seguinte ele liberou a minha mulher, nós pegamos o trem e descemos pra Gênova. Quando chegamos em Gênova, o diretor do hospital não havia lá. Tem um médico, que era o diretor do navio. O médico estava no navio e me falou: “Você é louco!” (pausa) “Vai levar a sua mulher para Brasil, nas condições que ela está!” “Diz o que é que eu posso fazer, doutor?” “Precisava pensar primeiro, agora o que vai fazer?”

É isso aí. Mas chegamos aqui em São Paulo, [no] dia 19 de julho. Chegamos em Santos, de Santos viemos pra São Paulo.

P/1 – Quanto tempo demorou a viagem?

 

R – Dezesseis dias de viagem.

 

P/1 – Mas ela começou a sangrar por causa da viagem?

 

R – Não.

 

P/1– Já estava...?

 

R – Já estava um pouquinho de ‘coisa’. E depois a gente ficou… Chegamos aqui, mas pra trabalhar lá na colheita de café. Eu não sabia que ia trabalhar num cafezal.

 

P/1 – Não sabia?

 

R –  Não sabia.

 

P/1 – E aí?

 

R – Chegamos lá e o fazendeiro prometeu tantas coisas, depois não cumpriu. Ele falou pra nós… Quem falou pra nós foi um visconde de Campinas, que dominava a região lá de Bauru. Ele falou: “Vocês vão lá, tem casas novas pra vocês.” De fato tinham feito umas casinhas novas, sem fornada. “E vai ter água encanada, luz elétrica. Até o fim do ano você vai ter...”, mas era ainda o mês de julho. “Você vai receber 35 cruzeiros por dia e mais um tanto de cada saco de café que você colhe.” Colher o café não tinha prática porque colhia azeitona, oliva. Abanar o café ninguém sabia.

 

P/1 – Abanar?

 

R – É, então...   

 

P/1 – Peneirar?

 

R – Peneirar. Veio um neto italiano que era de Bolonha os avós. E falou pra mim: “Seu Antonio, vamos fazer uma coisa: você fica amontoando o seu e o meu café e eu abano atrás, o seu e o meu”. Eu reclamava com o administrador, tinha um guarda lá, um negrinho que enchia: “Se você não encher o saco, você não ganha nada”. Eu falava: “Eu ganho 35 cruzeiros por dia.” E ele falou: “Não, você não ganha.” “Eu ganho!” E aquela discussão.

Depois de três pra quatro dias, chegou o filho do fazendeiro e um advogado que falava um pouco de italiano. “Quem é de Amicis?” “Sou eu!” “Ah! É você que reclama sempre?” “Eu estou reclamando do que é justo. Seu pai prometeu que pagaria 35 cruzeiros por dia e o guarda aqui falou que não paga. Falou que se eu não encher o saco de café...” “Você faz as contas, faz as contas aqui…” “Mas se não enche o saco de café não ganho nada. Você prometeu para o consulado que pagava 35 cruzeiros por dia e não está pagando.” “Mas só você quer reclamar!” “Se o outro quer se jogar no poço, se joga, mas eu não vou me jogar dentro do poço. Eu reclamo o meu direito.”

 

P/1 – E aí?

 

R – E assim... Depois de a gente já ter discutido um pouco lá. Eu tinha um contrato firmado de julho até novembro. Em novembro precisava ou assinar ou sair da fazenda. Em outubro saiu um vizinho que tinha um sítio do lado de lá, ele falou pra mim... Conhecia a mãe desse senhor, que era italiana mesmo. Ele falava: “Se você conseguir trabalhar com a gente, eu vou pagar as três sacos que ele dá.” O Ataliba, que era o fazendeiro.

 

P/1 – Então o senhor chegou em julho e saiu em outubro de lá?

 

R – É. No comecinho de outubro. Depois ele não queria me pagar tudo que me devia.

 

P/1 – Pagou?

 

R– Eu falava: “Bom, eu vou ficar aqui” porque tinha um missionário da cidade [que] falava: “Você não tira nada de dentro de casa. Se você põe as coisas pra fora, eles fecham a porta e você não entra mais. Não tire nada de dentro até que eles te paguem; se eles te pagarem, você tira.” E assim foi.

Eu estava trabalhando no sítio do vizinho e dormia lá. [Diziam:] “Você tem que esvaziar a casa porque vai chegar outro imigrante italiano.”  De fato chegaram. Chegou uma família que morava perto da minha esposa, da Maria, [de onde ela] morava. A Maria fez até um jantar pra eles quando chegaram. Eles jantaram na nossa casa, mas lá era a casa do fazendeiro, depois de ter mudado. O fazendeiro não queria nem que o situando entrasse com a carroça lá pra buscar o quarto e cozinha que a gente tinha. A porcaria que tinha era nossa e não queria que entrassem lá. Então eu sempre batia. “Você não deixa eu entrar e sair? Eu vou ficar lá, quero ver como você vai fazer.” Assim ele me liberou, o fazendeiro, e acabou de me pagar. Fui morar na casa onde estava situando, mas não gostava do terreno.

 

P/1 – Era uma situação melhor? Como era?

 

R– Era melhor. O fazendeiro… Podia [sair] só no sábado, acho que era nem no sábado, era no domingo, não me lembro direito. Era uma vez por semana, só se estiver morrendo podia ir durante a semana. O outro não, o outro falou pra mim: “Eu vou te dar uma charrete - não é uma charrete, uma carroça. Uma carroça com burro, você pode pegar quando quiser. Vou te dar uma vaca de leite - você de manhã tira o leite por sua conta. Só que você pode andar na cidade quando quiser, quando quiser pode ir.” Eram quatro, cinco quilômetros. E falou pra mim: “Só que tem uma coisa: obrigação de fazer, tem que cumprir. Vocês são cinco pessoas, tem dez mil pés de café pra tratar, “carpinhar”, colher o café etc. Eu não vou fiscalizar, mas de vez em quando eu pego o cavalo e vou dar uma passadinha com o cavalo, pra ver se você fez ou não fez.”

Eu fiquei tão amigo, como [se] ele fosse um parente meu, até hoje. Depois eu e a Maria fomos até padrinhos de casamento do filho. Ele tem um filho que mora lá em Santo André. Como se diz...  Aqui em São Paulo, aquele tratamento de água?

 

P/1 – Sabesp.  

 

R – A Sabesp. Ele trabalha na Sabesp, é um engenheiro lá. Quando ele casou o filho dele, eu fui o padrinho, e a Maria [foi] madrinha no civil.

 

P/1 –  Quanto tempo você ficou trabalhando lá?

 

R – Lá eu fiquei menos de dois anos. Depois todo mundo foi embora de lá.

 

P/1 – Por que?

 

R– Trabalhei na lavoura lá. O fazendeiro fazia isso com a gente, depois eu fui situando, mas o fazendeiro não deixava eu plantar um pé de banana, não deixava eu plantar nada, nada. Acho que tinha dez mil metros de terra ou mais... Uns cem mil que tinha lá. Não tinha um pé de banana.

 

P/1 – Mas por que?

 

R – Ele não deixava plantar pra ninguém, nem pra nós, nem pros brasileiros que estavam lá. Ele não deixava.

 

P/1 – Eu entendi, mas porque o senhor saiu de lá?

 

R – Porque eu saí de lá e fui morar com outro? Porque o outro ao menos tinha banana, tinha laranja. Esse tinha até um moinho pra moer o trigo. Um queria fazer... Como dizem os italianos? A polenta, ele tinha. O moinho virava a água devagarzinho...

 

P/1 – Como o senhor conheceu os outros? Eles iam à fazenda convidar, vocês ficavam sabendo?

 

R – O outro que estava lá, o nosso patrício?

 

P/1 – O do moinho.

R – Ah! O do moinho [conheci] porque tinha um sítio e era o dono.

O irmão dele falou pra mim: “Se você não quer ficar mais na fazenda, vamos ver na imigração em São Paulo se você pode passar...” Eu não sabia que não podia ir trabalhar na cidade, só na lavoura. Podia de um fazendeiro para outro porque ninguém podia obrigar a gente: “Não, você não pode sair daqui”. Fui lá trabalhar pro situando: plantei milho, criei porcos, tinha um monte de galinha, que quando fomos embora vendemos, e juntamos um bom dinheiro pra voltar pra cidade.

 

P/1 – Como foi a decisão de vir pra cidade? O senhor já podia vir pra cidade? Onde essa lei tinha caído?

 

R – Podia vir porque parece que um ano, dois anos depois não o governo brasileiro não obrigava mais você a ter que ficar na lavoura. Podia escolher, você podia até trabalhar em uma indústria que arrumava.

 

P/1 – Aí o senhor veio pra cidade. Pra onde foi?

 

R – Eu fui para Campinas. Quando cheguei lá o consulado falou pra mim: “Você tem que voltar na fazenda outra vez.” Eu falei: “Doutor, eu não. Eu não volto pra fazenda.” “Não, você vai ver lá...” Me deu até passagem para lá perto de Campinas, numa cidadezinha lá perto, tinha a fazenda Pimenta. Fui lá e dei uma olhadinha. Falei: “Maria, não...” Nesse meio-tempo o governo italiano disse que quem quisesse voltar, não só aqueles que estavam no Brasil, mas todos os imigrantes podiam voltar pra Itália e não precisava pagar nada por navio, era de graça.

 

P/1 – E aí?

 

R – Eu falei pro cônsul lá em Campinas (ainda era o visconde): “Já que eu não posso trabalhar na cidade, que com o que eu ganho não dá pra pagar o aluguel, não dá pra comprar comida e eu tenho mulher e um filho, então me prepare os documentos que eu vou voltar pra Itália.” “Não. Pra Itália não pode voltar.” “Como não posso voltar?” “Tem uma lei, não pode voltar pra Itália. Isso é verdade, tem essa lei que não pode voltar.” Só que nós não queríamos porque se voltassem todos os imigrantes pra Itália não iam dar um amparo pra gente. Então o governo procurava parar de onde estava, como aconteceu na Argentina dois, três anos atrás, pra quem estava na Argentina e queria voltar pra Itália. Assim, o governo italiano diz: “Não, você fica aí, que eu vou dar uma aposentadoria pra vocês” e foi isso.  E nós ficamos lá. Depois eu fui trabalhar...

 

P/1– Não puderam voltar pra Itália, então?

 

R – Não, fiquei lá porque comecei a trabalhar em uma limpadora que era de dois sócios italianos. Conheciam nossa região, lá onde morávamos, em Pescara, Vicoli. E eu, o que fiz? Um dia eu fui na Light em Campinas, na Eletropaulo. E a  ______ dele estava na porta do prédio. Era um prédio enorme, nós estávamos limpando lá e ele falou: “Onde você foi? Cinco minutos de atraso. Você não sabe nem falar o português. Foi lá fazer o que?” “Bem, eu não sei, eu entendi bem aquilo lá.”

 

P/1 – Eu o que?

 

R – Eu tinha falado com o homem da Light, lá em Campinas e nós nos entendemos. Eu entendi o que ele me falou. E o cara, o dono da limpadora, falou: “Você não sabe falar português, como é que falou com o cara? Da próxima vez, te mando embora.”

Depois disso, nós trabalhamos pouco tempo lá. Tinha um italiano em Campinas e falou: “Eu vou comprar uma máquina pra você pra limpar assoalho.” De fato, esse velhinho comprou uma máquina para nós, pra correr e arrumar um serviço pra cá, pra lá, e depois montamos a limpadora. De Campinas fomos pra Santo André, e de Santo André até hoje.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – Até hoje existe a limpadora. Está em meu nome.

 

P/1 – E quem cuida?

 

R – Mas quem está tocando é meu filho.

 

P/1 – Ah! Entendi.  

 

R – Só que agora quase fechou as portas porque diz que não tem tempo pra cuidar de tudo isso. Depois a madeira, aprendemos a colocar muito taco nas casas, não só em apartamento. Hoje mudou, é carpete, essa coisa toda. A única coisa que pode se fazer é dar uma limpada nos azulejos, vidros, essas coisas. Foi isso aí, e hoje eu estou aqui.

Depois de doze anos voltei pra Itália. Um amigo meu que é gerente de um banco, ele falou: “Eu vou te ajudar não com dinheiro, não financeiramente. Você tem que voltar a ver a sua mãe.”

Em 1963, esse aqui foi pra Itália. Ele falou pra mim… Um amigo meu mesmo, né? Gerente de um banco de Santo André, ele falou pra mim: “Antonio, eu vou a Roma, quer ir pra Roma um dia? Quem sabe podia até ver a sua mãe e o seu pai? Quando tempo de trem vai?” “De trem ia [durar] quatro horas, mais ou menos.” Ele pegou um trem que parava - o trem local, como diz lá na Itália. Ele parava em toda estação, demora umas cinco horas e pouco. Quando ele voltou da Itália pra aqui, falou: “Se eu te encontrasse lá em Pescara, quando eu cheguei lá, que demorou mais [de] cinco horas, eu te matava! Eu [ia] pra cadeia, mas você morria na hora.” “Ah! Tá bom, né?”

 

P/1 – Por que?

 

R - Porque demorou muito. Depois pegou um táxi pra chegar à minha casa e estava [acontecendo] uma corrida de bicicleta, então precisava desviar. Por isso o táxi demorou mais ainda. Ele falou: “Agora você tem que voltar lá”, aí eu voltei. Depois disso, voltei no ano seguinte, em 64, e encontrei minha irmã que estava no Canadá. Ele me falou: “Vem pro Canadá. Quanto você ganha lá?” “Eu ganho tanto...” “Ah! Lá no Canadá você pode ganhar cem dólares por dia.” Fiquei animado. Em 65 comecei essa prática de ir pro Canadá, meu outro irmão fez o ato de chamada e em 66 eu fui pra lá. Fiquei dois anos no Canadá.

 

P/1 – O senhor e quem?

 

R – Eu, a minha esposa e três filhos.

 

P/1 – E aí?

 

R – Eles aprenderam bem. Pra mim não foi grande vantagem, mas para ela, para os três... Eles sabiam um pouquinho do inglês, mas pouco. Aprenderam inglês corretamente. Eles não ficaram dois anos, mas um ano e meio, mais ou menos. Eu fiquei dois anos lá. Depois voltei pro Brasil, recomecei porque tinha vendido tudo aqui, largado tudo aqui. Era começar do zero e ir pra frente.

 

P/1 – O que aconteceu no Canadá? Como foi?

 

R – Eu fui trabalhar como servente de pedreiro.

 

P/1 – E aí?

 

R – E aí? Porque lá era bom. O Canadá e os Estados Unidos são a mesma coisa: é bom que vá uma pessoa só, faz um pouquinho de economia e dá pra fazer dinheiro. Ir pra lá com uma família que tem quatro filhos, o que você ganha você gasta quase tudo: paga aluguel, compra isso, compra aquilo, mantimentos...

 

P /1 – E os filhos não trabalhavam? Não, porque eram pequenos...

 

R – Não. O Alexandre estava com onze, doze anos. O outro tinha treze, quatorze anos, o outro tinha dezessete.

 

P/1 – E porque vocês resolveram voltar pro Brasil?

 

R – Porque achava as coisas mais fáceis aqui. Eu trabalhava como servente de pedreiro. Até nos últimos dias que eu estava lá, ele mandava colocar cinco sacos de cimento em um carrinho. E eu me lembrava que aqui um servente de pedreiro coloca meio saco de cimento no carrinho.

Eu falava: “Mr._____” - era o dono - “o carrinho vai quebrar.” “Ah, Toni, five bags.” “Mas ele quebra.” “Tomorrow morning, two ___ bars, novinho eu vou trazer”. Quando eu voltei [pro Brasil], ele falou: “Toni, in three months you’ll come back.”Maybe. Pode ser que sim, pode ser que não.”

De fato eu não voltei, fiquei aqui. Aqui são mais fáceis as coisas, entende? Essa [foi] a história.

 

P/1 – Quando o senhor voltou o que aconteceu?

 

R – Comecei de novo porque tinha vendido tudo. Recomprei aquelas máquinas devagarzinho. Trabalhei noite e dia até chegar… Nós chegamos até trinta, quarenta empregados. Só aqui na Editora Abril em São Paulo nós tínhamos vinte empregados fazendo a limpeza e manutenção nos prédios.

 

P/1 – Era uma empresa de limpeza, então?

 

R – É. Uma empresa de limpeza.

P/1 – Como era Santo André na época em que o senhor foi morar lá?  

 

R – Na época que eu fui morar lá... Até anteontem eu estava falando para o meu neto, o filho do Alexandre. Lá não tinha um prédio, só um do INPS que tinha sete andares. Não tinha mais nenhum prédio. Quando chegamos lá, isso foi no fim de 53, bem no finzinho. Em 54, 55 fizeram uns prediozinhos de três andares, o térreo no meio, o outro em cima. Esse foi o mais alto que fizeram com o tempo.

 

P/1 – O senhor foi morar primeiro em Campinas, depois em Santo André?

 

R – É. Morei em Campinas pouco tempo, depois vim pra Santo André.

 

P/1 – O senhor vinha pra São Paulo? Como foi quando o senhor chegou a São Paulo, o senhor se lembra?

 

R – Quando cheguei em São Paulo, no comecinho não, mas depois eu conhecia aqui todos os lugares. Eu conhecia tudo por aqui, a Vila Madalena. Daqui tem uma saída que vai até a Lapa, não? Aqui tinha algumas casinhas, uns sobradinhos, mas tinha mansões aqui no meio, não sei se ainda existem aquelas casas grandes. Nós trabalhávamos nessas casas, lixando assoalho, fazendo limpeza, essas coisas.

 

P/1 – Como foi a sua primeira casa no Brasil? Não a da fazenda, mas a sua primeira casa na cidade?

 

R– (risos) Minha primeira casa na cidade? Fomos morar em Campinas, em umas casinhas. Acho que foram as primeiras casinhas que fizeram naquele tempo. Tinha quatro casinhas. Tinha um banheirinho só, precisava esperar um sair. Não estava dentro da casinha, estava fora, o banheirinho. E [tinha que] esperar sair um pra depois entrar outro. Tinha um tanque só, que me lembro bem, pra três casas. Precisava esperar um [terminar] pra o outro depois lavar [a roupa].

P/1 – E de quem eram essas casas?

 

R – Ah! Disso eu não me lembro. Sei que um dia, um senhor de Campinas faleceu, agora em... Eu fui até ao enterro dele.

Em Campinas tinha uma senhora que eu conheci quando fui comprar um envelope. Ela trabalhava na papelaria, essa senhora. Eu pedi em italiano uma busta [envelope] grande pra mandar documento - isso foi no comecinho mesmo - para o meu irmão no Canadá. E as moças que estavam no balcão não sabiam o que era busta, então chamaram essa senhora, que falava um italiano quase correto. “De onde você vem?” “De Santa Croce ----” “Ah, a cidade onde eu nasci. Tenho tios, tem meu irmão lá.” Fizemos amizade. Quando a gente estava morando em Campinas, ela não ia nem almoçar porque era lá perto a casa dela, morava com a mãe e o pai, pra procurar alguma coisa pra nós. Uma casinha mais barata e um trabalho, tanto que uma noite tinha arrumado um serviço num moinho [para] carregar saco de farinha na cabeça. Depois se encolhia a cabeça e fazia como __________ com o pescoço.

De manhã levantei, acendi… Naquele tempo o fio pendurado no meio da casinha, apertava embaixo [para acender a luz], deu um curto-circuito. Ela tinha arrumado também para arrumar camisa pra minha mulher. Ela tinha uma máquina [de costura], não trouxemos a máquina da Itália. Quando ela foi acender, caiu faísca da luz em cima e queimou as camisas. Começou até a chorar. Falei: “Não chora, vamos ver o que vai acontecer agora. Vamos procurar a Dona Ida.”

Fui à loja e falei: “Dona Ida…” “Você não foi trabalhar?” “Aconteceu assim, assim.” “Eu vou falar com a dona da camisaria. Ela vai dar outras.”

Fui no dia seguinte ao moinho trabalhar e falaram: ”No seu lugar já pusemos outro.”

De lá ela me arrumou outro serviço num curtume. Quando cheguei lá perto… Me lembrei de quando a gente estava no Egito e via aquelas crianças com a boca em volta cheia de moscas, em volta dos olhos cheio de moscas. Era um mosquiteiro perto do curtume! Pensei: “Acho que vou voltar pra Itália.” Voltei e falei para a Dona Ida: “Lá não dá pra trabalhar, não. Eu não consigo trabalhar lá. Eu me lembro que na guerra, quando estávamos presos no campo de concentração, a gente via aquela gente assim. Não tenho coragem de trabalhar lá.”  Ela falou: “Calma, Antonio. Calma que eu vou te arrumar serviço.” Essa mulher me ajudou, até hoje pra nós é como se ela fosse uma irmã. Ela ficou viúva algum tempo atrás e brincando comigo me falou… Foi ano passado. “Se eu fosse um pouco mais nova, eu me casava com você.” “Tanto faz, você mais velha não faz mal.” Brincou comigo até o dia do Natal e depois do Natal faleceu. Eu estava aqui e fui lá ao enterro dela, a Dona Ida.

Essa é a história de Campinas. De lá mudamos para uma casinha um pouco melhor, mas no comecinho foi duro. Quando entrava alguém que eu conhecia na papelaria “Você não tem uma casinha pra alugar? Tem que ser boazinha e barata porque eu não tenho dinheiro.” Essa é a história. (emocionado)

 

P/1 - Se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o senhor mudaria?

 

R - Da minha vida? Hoje talvez… Não é fácil mudar. A minha mulher morreu de câncer. Nos últimos dias ela falou pra mim: “Antonio, eu te deixo. Eu vou morrer. Você tem a tua estrada pra percorrer. Uma é voltar à Itália” - estávamos na Itália. Saímos da Itália e chegamos no aeroporto de Guarulhos, nos despedimos dos filhos, dos netos. Antes de chegar a São Caetano já estava em coma. Se foi.

Ela disse: “Você vai pra Itália, lá você tem sua irmã, tem seu cunhado, sua cunhada, além dos primos, sobrinhos etc. Se não, tem que ficar aqui no Brasil, mas tem que ir a Vinhedo, na casa de repouso das freiras e ficar lá até morrer.

Tentei ir lá. Lá tem uma freira que falou pra mim: “A diretora é tão boazinha que dorme comigo.” Mas tinha outra que me disse: “Antonio, não é lugar pra você aqui dentro, você tem que arrumar alguém fora daqui. Eu vou te arrumar… Tem a minha prima em Santa Catarina, ela não é casada, tem uns 70, 71 anos. Se quer, eu vou falar com ela.

 

P/1 - Pra que?

 

R - Eu precisava casar de novo porque eu não podia ficar sozinho, entende? Depois encontrei essa senhora aqui…

 

P/1 - Como ela se chama?

 

R - Aristedina.

 

P/1 - E como o senhor a conheceu?

 

R - Foi outra mulher, outra viúva, que talvez eu até tivesse ficado com ela, mas a minha irmã lá da Itália ficou sabendo que ela gostava só do dinheirinho. Quando ela ficou aqui um tempinho comigo - ela ficou quase dois meses - ela ia ao supermercado e comprava coisas que não era necessário comprar. [Comprava] pra ela. Quando passava no caixa, eu pagava as coisas dela. Às vezes eu falava: “Marilena, aqui tem coisas que você comprou que não servem pra nada.” “Mas esse é bom.” “É bom pra você porque eu pago, não é você que paga.”

Fui à Bahia, em Salvador, duas vezes. Ela queria que eu fosse a Salvador. “Marilena, não vou a Salvador. Fale por telefone o que você quero e eu te respondo.” “Você tem que vir aqui.” “Não vou. Vamos fazer uma coisa: metade da estrada cada um. Vamos nos encontrar em Belo Horizonte.” Ela veio de lá, estava em Vitória da Conquista e eu saí daqui.

 

P/1 - E aí?

 

R - Encontrei com ela e ela me fala: “Você me empresta dinheiro pra passagem pra Itália?” Falei: “Marilena, eu não tenho banco da Itália aqui. Não posso emprestar. Faz quatro anos que você diz que pode ir pra Itália...” O marido era italiano e [ela] arrumou logo que casou a cidadania italiana, o passaporte, só não tem residência italiana.   

 

P/1  - E não tem dinheiro também.

 

R - Ela gasta, não tem dinheiro. Eu disse: “Se você economizar dez reais por mês, já teria dinheiro suficiente pra comprar a passagem.” Ela faz quatro, cinco anos… você perdeu a pensão da itália. era mais fácil do que hoje. cada ano que passa mais difícil fica. aqui, lá, no mundo inteiro.

Você podia pegar a pensão do seu marido e ter uma vida boa. Ele era… Como a Polícia Federal daqui.  

 

P/1 - Ela não pode mais?

 

R - Não pode porque caiu agora essa lei na Itália. Bastava pagar por um ano para ter direito, até 90. Antes de 90 eu a conheci lá na Bahia. Fui à casa do cunhado dela. Ela tinha estado junto com uns homens, mas nem se interessou pela conversa porque tinha um dinheirinho. Começou tarde. Quando fizeram o requerimento, era já [em] 91, já tinha mudado na Itália. Precisava… Faz uns dois anos fui atrás pra ver a pensão dela, como estava. Dizem que se tivesse pago mais um ano no Brasil, ele teria direito à pensão na Itália. Agora acho que não tem mais nada a fazer.

Ela me mandou ir lá e quando me pediu [dinheiro emprestado] eu falei: “Pode esquecer.” Até começamos a brigar na rua. Quando chegamos à rodoviária de Belo Horizonte…

 

P/1 - O senhor?

 

R - Eu, ela e a minha futura esposa. Eu discutindo com ela, passei e ela [a futura esposa] estava sentada com aquelas mulheres, estavam fumando. Eu olhei pra ela, ela olhou pra mim. Tornei a olhar, olhou outra vez. “Agora quero saber o que esta senhora está querendo dizer”. Fiquei perto dela, tinha um lugar pra sentar na rodoviária. Disse: “Posso me sentar aqui?” [Ela respondeu:] “Sim, só que eu estou fumando.” “Pode continuar fumando.” “Quem é aquela senhora, é sua esposa?” “Não, eu sou viúvo. Era uma senhora que...” (faz sinal de que não importa)

A primeira palavra que ela me disse, que me tocou o coração, foi: “Você é viúvo. Eu também sou viúva.” Até perguntou: “Desde quando você é viúvo?” “Faz três anos em janeiro.” “Eu vou fazer quatro anos em agosto. Nós estamos em uma certa idade, precisamos _____ um com o outro. Você precisa de uma outra pessoa e eu preciso de uma outra pessoa.” Fiquei meio assim... Depois chegou a outra viúva, a baiana. Ela cedeu a cadeira que tinha uma bolsa, tirou e [a baiana se sentou] virada de costas para a Aristedina, mas ela se sentou de frente pra mim. Parece que me fez a fotografia do pé até a cabeça. “Você quando chegou em Belo Horizonte estava com uma calça assim, um sapato assim…” Assim nos conhecemos. Conversamos talvez por vinte minutos, não foi nem meia hora. Ela parece que estava interessada, pensei: “Vou tentar”.

Saí da Itália, voltei pra cá. Voltei porque era aniversário do meu neto, o filho do Alessandro, e por causa dela. Falei para os meus parentes… Todos eles me falaram: “Vê se traz uma brasileira aqui porque assim não pode ficar mais, você não pode ficar sozinho. Precisa de companhia.” Estou levando…

 

P/1 - Mas ela está pagando a passagem dela?

 

R - A filha dela pagou. O genro.

 

P/1 - É uma experiência. E tem alguma coisa que o senhor queira acrescentar, uma mensagem que o senhor queira dizer?       

 

R - a mensagem que eu posso te dizer,. pros meus filhos, meus netos… Um filho não está muito bem de relação comigo. O outro não, qualquer coisa que eu digo… “Pai, se quiser voltar pra cá, só me telefonar que eu compro a passagem.” Quando eu falei que voltava, ele quis comprar, mas eu já tinha comprado na Itália. Comprei para um mês, sexta-feira que vem tenho que ir embora, senão a passagem...  

 

P/1 - Tem alguma coisa além que o senhor gostaria de falar?  

 

R - Fico muito agradecido de vocês, infinitamente… Falei pro Alexandre: ”Que me importa isso de entrevista?” Minha futura esposa disse: “Não é nada do que você está pensando, vamos lá.” E ele me trouxe aqui. Mas eu fico muito agradecido da sua gentileza, do  moço aí. Infinitamente agradecido.

 

P/1 - Obrigado. Também agradeço muito sua presença.

 

R - Como dizem em italiano, grazie tanto.

 

P/1 - Prego. [De nada]                    

 

                       



                           

   

         

 

  










                                   





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