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Camponesa militante

História de: Tudy (Beatriz Maria Alfonsa Noceti)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2007

Sinopse

Em seu depoimento, Beatriz Maria – conhecida como Tudy – conta sobre sua origem em uma família de produtores rurais católicos, cuja religiosidade influenciou-a a se envolver no movimento rural ligado à igreja católica. A partir daí iniciou-se como militante em grupos de jovens rurais, até que se aprofundou e começou a trabalhar com mulheres rurais e foi educadora das mesmas sobre seus direitos, etc. Fala sobre as injustiças, as prisões e desaparecimentos durante a Ditadura Militar argentina; as influências de revoluções em outros países que repercutiram na juventude. A criação das Ligas Agrárias Campesinas com as reinvindicações dos camponeses argentinos por melhores condições de vida. Conta sobre ter conhecido outros países da América Latina através da Rede LAC e seus encontros, entrando em contato com diversas realidades rurais do continente.

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História completa

P - Estamos fazendo o trabalho a que nos havíamos comprometido em São Paulo: realizar a entrevista da nossa companheira aqui na Argentina. Estou por entrevistar Beatriz Maria Alfonsa Noceti, que, para nós, é Tudy. Ela vive na cidade autônoma de Buenos Aires, na nossa querida Argentina. 

R - Meu nome é Maria Cristina Juárez e sou trabalhadora rural. 

 

P - Você pode nos dizer o seu nome, Tudy?

R - Meu nome é Beatriz Noceti, mas me chamam Tudy, como diz a Cristina. Já me perguntaram muitas vezes por que me chamam Tudy. Realmente, não sei. Porque desde que tenho consciência, me chamam Tudy. Minha família, meus irmãos, meus amigos, todos me chamam Tudy. O nome do meu pai é Luis Noceti e o nome da minha mãe é Sara Vivanco; eles estão lá em cima, no céu, me ajudando na vida. Meus avós paternos se chamavam Domingo e Magdalena; Carlos e Sara eram meus avós maternos. Qual é a origem da família da minha mãe? (pensando) A família da minha mãe era da província de Entre Rios, na Argentina; sempre viveram no campo, mas estavam também, bastante ligados com a cidade de Buenos Aires, porque minha mãe se educou e morou com a avó em Buenos Aires.

P - E os seus pais, eles contaram para você alguma coisa deles? Como eles se conheceram?

R - Eles se conheceram porque minha mãe e as irmãs do meu pai foram colegas de colégio e havia amizade entre as famílias.

P - Ah…

R - Os meus avós maternos moravam em Entre Rios e os meus avós paternos moravam em Buenos Aires... Como foi a infância da minha mãe?

P - Isso.

R - A minha mãe, eu acho, teve uma infância triste, porque sua mãe, Sara, morreu quando ela tinha um ano; então, ela viveu muito tempo com a sua avó – minha bisavó, que era adorável. E o meu avô, depois de um tempo, casou com a irmã de Sara, que se chamava Ernestina.

P - Isso foi o que eles contaram do que foi a infância deles?

R - Claro. Meus avós, depois, tiveram mais cinco filhas e um filho homem, meus tios. Sempre consideraram minha mãe como irmã; foram educados com muito carinho. Por parte do meu pai, a família era da cidade de Buenos Aires, mas tinha uma terra na província de Buenos Aires.

P - Eles eram produtores?

R - Eles eram produtores rurais. Meu pai também estudou, foi engenheiro agrônomo e, depois que se formou, foi a trabalhar na terra.

P - Pela sua profissão?

R - Pela sua profissão foi trabalhar na terra.

P - O que eles contaram do seu nascimento?

R - Foi na cidade de Buenos Aires e acho que nasci normalmente, não sei muito. (risos) Acho que não houve problema. Fui a quarta entre seis irmãos; tinha duas irmãs mais velhas, um homem, e depois era eu, depois tinha outro irmão homem e a menor, outra mulher. E a minha casa…

P - Como era a sua casa?

R - Eu morei no campo até os 12 anos. Na província de Buenos Aires. Era uma casa grande…

P - Você consegue se lembrar?

R - Tenho lembranças muito lindas, de brincar muito com os meus irmãos homens, que eram os mais próximos em idade – eu estava no meio –, de fazer cavalinhos de bambu…

P - E a brincadeira de que você mais se lembra é o cavalinho?

R - Entre outros. A gente também brincava de bolinha. Eu gostava muito das brincadeiras com os garotos, gostava de estar com eles, ou seja que brinquei muito pouco com as bonecas (risos), não me lembro de ter tido bonecas, mas sim de ter brincado com as bolinhas, com os cavalinhos e, também, com os carrinhos. Era bastante companheira dos meus irmãos homens. E, depois, a primeira parte da escola foi ali mesmo, no campo. Fui até a quarta série e, depois, já vim para Buenos Aires; para mim, foi muito difícil a nova realidade.

P - Você lembra dessa escola? Era uma escola pública?

R - Era uma escola pública que tinha aí no povoado, ficava perto do campo onde eu morava. Alguma comida que eu gostava? Acho que quando era pequena o que eu mais gostava era carne. Bife com batatas fritas e ovos fritos.

P - Essa era a comida que você mais gostava?

R - Era a comida que eu mais gostava.

P - Era sua mãe que preparava a comida?

R - Não, tinha uma pessoa que nos ajudava. Eu tenho que dizer que nunca passei necessidades; na minha casa, a vida era austera, mas nunca nos faltou nada.

P - Sei, sei.

R - Na minha juventude, estudei em Buenos Aires. Morava em Buenos Aires com minha mãe e meus irmãos. Meu pai viajava, porque ele trabalhava na terra e viajava para nos ver.

P - Você lembra alguma coisa da sua juventude? As festas, por exemplo, como eram?

R - Como nós éramos muitos irmãos e nessa época era costume fazer reuniões e festas em casa: a gente se reunia com os amigos, nos reuníamos muito nas casas. Nos divertíamos muito.

P - O que você usava para se vestir?

R - Era uma roupa bastante tradicional, não como agora.

P - E músicas... Você dançava? Você lembra?

R - Eu gostava muito de dançar, como qualquer jovem e, nessa época, a gente gostava dos boleros, que agora voltaram a estar na moda. Também se dançava foxtrot, boleros e, também, música brasileira, que nós gostávamos muito.

P - E você tinha alguma vocação por algo...pintar? Você gostava de pintar?

R - Eu comecei a pintar aos 18 anos e, depois, deixei, porque depois veio uma etapa da minha vida em que... Bom, tenho que dizer que minha família era cristã, minha mãe era muito cristã e sempre nos transmitiu todo um sentido de solidariedade e de comprometimento com tudo. Então, sentíamos que éramos um pouco responsáveis por construir um mundo melhor; ela dizia com outras palavras, mas no fundo nos inculcou que tínhamos uma responsabilidade que tínhamos que levar adiante na vida. E eu me vinculo com trabalhos no meio rural, começo a trabalhar no Movimento Rural, que era um movimento especializado da Ação Católica. E aí, eu me relaciono muito mais com o campo.

P - Que meio rural era?

R - Eu morei no campo, mas através do Movimento Rural me relacionei com outra realidade do campo, com as províncias mais pobres e com o setor do campo mais empobrecido e abandonado. No Brasil se chamava JAC (Juventude Agrária Católica) e na Argentina era Movimento Rural. Desenvolveu uma tarefa muito importante. Era um movimento especializado, que se dedicou a promover grupos de jovens no meio rural e a refletir sobre a situação deles. E a partir daí foi se aprofundando. Tivemos anos muito interessantes: a igreja dos anos 70, o Concílio Vaticano II, a Cúpula de Medellín, a reunião dos bispos argentinos, que finalizaram com o Documento de San Miguel, adaptando as Conclusões de Medellín à realidade do nosso país. A nível político, na Argentina, que vivia entre ditaduras e golpes de Estado, se lutava pela volta de Perón, a revolução cubana, o Che, o maio francês…todos esses fatos tinham uma grande repercussão na juventude. O compromisso que sentíamos era o da mudança de estruturas; analisava-se qual era a situação e o que podíamos fazer para mudar essa injustiça. E nisso, nós trabalhamos muitíssimo com todas as denúncias que a igreja fazia das injustiças e com os membros do movimento rural. Um dos objetivos do Movimento Rural era que os próprios camponeses se encarregassem da organização. E foi assim que, do Movimento Rural, surgiram os dirigentes que criaram, depois, as Ligas Agrárias Campesinas, que tiveram um grande peso no Nordeste do país. Em todas as seis províncias do Nordeste estavam organizadas as Ligas Agrárias Campesinas. Foram feitos comícios com mais de 10 mil camponeses e as reivindicações que eles demandavam tinham a ver com os preços dos produtos, com a terra, com os créditos etc. O movimento rural tinha dado muita capacitação e a maioria dos dirigentes que surgiram para as ligas eram do movimento rural. E isso marcou muito o comprometimento deles, porque eram daí, se sentiam protagonistas, mas com uma responsabilidade muito grande de construir um mundo mais humano, mais cristão e mais solidário. Nos anos 73, 74 e 75 já começa uma forte repressão contra os dirigentes e as organizações campesinas que iam ampliando sua influência e seu peso em toda a zona rural, principalmente em todo o Nordeste, mas também no Noroeste. E, com o golpe militar, a maioria dos dirigentes são presos, ou são desaparecidos. Nessa etapa, tivemos que nos guardar bastante. Eu abri uma loja na costa, zona turística, com outra companheira, porque estavam procurando todos nós, direta ou indiretamente. Então, ficamos aí trabalhando um tempo, até passar essa etapa tão dura. Na época das Ligas Agrárias, já tínhamos começado a trabalhar com as mulheres; tinham sido feitas duas reuniões com todas as representantes dos grupos, das organizações do Nordeste. Participaram em torno de 60 mulheres. Elas diziam que as organizações campesinas, as Ligas Agrárias de cada província, não levavam em conta a realidade da mulher campesina, porque as reuniões eram feitas à noite e só eram tratados temas produtivos. Já eram os anos 70, eram os anos em que o movimento de libertação feminina, surgido na Europa e nos EUA, começava a ser conhecido e despertava muito interesse e curiosidade. Então, a influência deles foi muito importante, porque já se começou a analisar qual era a situação das mulheres campesinas em separado da situação do campesinato, especificamente a situação da mulher campesina. Então, surgiram todas as críticas nascidas do machismo e de uma sociedade totalmente patriarcal. O desafio era grande, foi uma época muito linda. O primeiro encontro de mulheres campesinas das Ligas Agrárias foi no ano 72 e, já em 74, começou uma repressão muito forte contra todas as organizações populares. Sindicatos, cooperativas, etc. Em 76, foi o golpe militar.

P - O golpe...

R - E, bom, em todos esses anos, a única coisa que tentamos foi sobreviver. Cuidar de nós e cuidar dos companheiros. Foi nessa época que voltei a pintar e continuo fazendo isso ainda agora; me ajudou muito poder me conectar com outra forma de trabalho criativo. Quando começa a democracia, no ano 83, tentamos, timidamente, começar a fazer contato com quem a gente sabia que existia, porque muitos companheiros tinham sido perseguidos, outros tinham desaparecido e outros tinham precisado ir para o exílio. E assim, se passaram esses anos até o ano 89, que fizemos um encontro. Criamos o CEPRU, Centro de Promoção Rural. Convocamos ex-dirigentes do Movimento Rural, companheiras e companheiros, para ver o que era das nossas vidas e o que estávamos fazendo. E daí, fizemos contato com gente de diferentes províncias e tentamos ver o que estava fazendo cada um. E desde então já ficamos com a ideia de que tínhamos que trabalhar com as mulheres. Começamos a ver um jeito para continuar com essa proposta. Nessa etapa, eu tinha começado a trabalhar em uma organização que era a contrapartida de um organismo da Holanda que se chamava Cebemo, que depois se chamou Bilance, e tentamos promover que nos projetos fosse levada em conta a presença da mulher, a participação da mulher.

P - E, quando você diz “a presença da mulher”, havia algo diferenciando mulher urbana e mulher rural?

R - Eu trabalhava com mulheres rurais.

P - Rurais...

R - E quando nós fazemos o primeiro encontro, convocamos partindo do CEPRU, mulheres rurais. Eram mulheres de organizações incipientes, de grupos... Quase não havia organização.

P - Esta vocação sua, tinha um forte apoio da sua mãe, não é?

R - Eu diria para você que minha mãe sempre me apoiou. E quando digo que era a ovelha negra da família, é porque, de certa forma, eu me comprometi com um setor ao qual eu não pertencia, mas minha mãe sempre me apoiou. A minha família me apoiou. Talvez não compartilhasse completamente a minha opção, mas não se opôs, me apoiou. Nunca tive problemas com minha família. E eu, evidentemente, estava contra o setor ao que eu pertencia, porque percebia que, se a gente quer conseguir a justiça, a igualdade e a participação de todos, há estruturas que precisam ser modificadas totalmente...e continuamos trabalhando para isso.

P - Você gostaria de nos contar mais alguma coisa?

R - Acho que em toda essa etapa eu não queria me casar. Agora eu estou casada, mas já casei grande, porque todos esses anos foram de muito comprometimento; eu queria ser livre. Eu tinha seis irmãos, todos os meus irmãos eram casados, com seis filhos, sete filhos, e eu não queria repetir essa história. Estava comprometida com uma coisa mais social; então, não queria que cortassem as minhas asas. E como na etapa do movimento eu vivia viajando, praticamente não estava em casa, estava no Nordeste, estava em qualquer lugar, dando cursos, porque trabalhamos muito fazendo capacitação. Então, o casamento era uma coisa que eu tinha postergado na minha vida.

P - Não era prioridade.

R - Não era prioridade. Mas, veja como são as coisas da vida, em todo esse caminho, trabalhamos junto com todos os companheiros do movimento rural e, em todos os cursos de capacitação, tínhamos o apoio de diversas pessoas... e entre estas pessoas estava Alberto Sily, que era sacerdote jesuíta e era assessor do Movimento Rural, especializado em toda a área social, econômica e na Doutrina Social. Ele trabalhou muito, também, com as Ligas, assessorando e capacitando. Em toda essa etapa, éramos muito amigos, muito companheiros. Tanto é assim, que foram quase 15 anos trabalhando em muitas ocasiões, juntos. Alberto foi Diretor do CIAS, que era o Centro de Investigação e Ação Social da Argentina. Começou a ver dificuldades com o envolvimento de alguns e o não envolvimento de outros. E, bom, na etapa, de 76, 77, 78, levam muitos dos nossos companheiros presos e a gente se apoiava mutuamente. Ele estava em Santa Fé; levavam camponeses para as cadeias dessa província e Alberto visitava os presos. A gente se comunicava muito, porque estávamos bastante sem saber o que fazer diante de toda essa situação, e acho que aí foi acontecendo um encontro que, bom, depois se concretizou no ano 83, com toda a chegada da democracia. (risos). Foi muito lindo, foi realmente como o fecho de ouro de um encontro de muitos anos…

P - Que bonito!

R - E desde então estamos juntos e temos sido muito felizes. Somos, hoje em dia, muito felizes.

P - Que lindo! O movimento de mulheres que você mencionou, como você começa a pô-lo em prática?

R - Acho que já disse alguma coisa antes… Nos anos 70, na Argentina, foi muito forte o efeito de tudo o que estava acontecendo na Europa e nos Estados Unidos nos movimentos de mulheres. E foi um impacto forte, porque, para nós que estávamos ainda em uma etapa em que não percebíamos qual era a situação das mulheres, todas as manifestações que elas faziam, de reclamações da injustiça que havia com as mulheres, principalmente com relação ao lugar que a sociedade dava para elas e ao lugar que elas tinham na relação homem-mulher, isso teve muito impacto. Nos cursos e nos encontros, começou a aparecer esse tema. Muito timidamente, mas, começou a aparecer. E também surgiu a necessidade de aprofundar no tema, e então, a gente começou. A temática do corpo e tudo isso era uma coisa que tinha sido totalmente tabu. O movimento rural era um movimento que vinha da ação católica e a igreja, realmente, nunca se caracterizou por dar informação sobre o corpo. Então, o importante para a mulher era chegar ao casamento virgem; todo o mundo sabia o que era ser virgem, mas ninguém sabia por que tinha que chegar virgem, não havia nenhuma informação. A mulher chegava como um anjinho, você tinha que chegar sem saber absolutamente nada do que sabia o homem. Foi aí que começou uma rebelião. Na verdade, você percebia que era uma imposição o fato de não ter informação e ter que aceitar que tudo era como o outro dizia e não como…

P - Tomar isso como um mandato e não como uma decisão de cada uma...

R - Claro, começamos a aprofundar isso. Teve um momento muito violento em que as mulheres, ao tomarem consciência, ficavam com tanta raiva de se verem tão submetidas que parecia uma guerra dos sexos. A dupla moral. Nos anos 70, o confronto foi ainda mais forte, porque com a tomada de consciência, sentiam muita raiva e enfrentavam seus companheiros, seus maridos...porque, realmente, eram muito machistas, principalmente no meio rural. Em todos os lugares os homens são machistas.

P - A informação chega menos no meio rural...

R - Era muito mais difícil, por causa do isolamento e da solidão que se vive. Então, para que as mulheres possam fazer uma rebelião nas suas casas, não é tão simples. Ou seja, que começamos a ver que também é a mulher que transmite a claudicação e o machismo para seus filhos. Começa dizendo o que devem fazer as meninas, o que devem fazer os homens, quais são as responsabilidades dentro do lar, de uns e de outros e, também, do marido e da mulher. E fomos analisando todas essas coisas, como era o dia da mulher camponesa, e fomos fazendo um caminho para tomar consciência de que a realidade não era tão assim como nos tinham contado, que nós tínhamos que repensar a situação da mulher, porque tínhamos tornado isso natural e aceitado que sempre havia sido assim. O tema do trabalho, “a mulher ajuda”, nos levou a refletir sobre o trabalho da mulher e a dar valor a ele. O tema da violência também começou a ser analisado, porque se dizia que era bastante normal, que se o homem se embebedava, e às vezes era violento, isso era aceito quase como normal. Então, começamos a analisar se isto é normal ou se há que lutar para que se modifique. E acho que tudo isso foi um processo que foi levando para uma tomada de consciência, e também à busca de estratégias para levar adiante não um confronto, mas uma forma de relacionamento que permita modificar essa situação.

P - As mulheres rurais deixaram algum aprendizado para você? Você aprendeu alguma coisa?

R - Sem nenhuma dúvida. Nós, dentro do movimento rural, é isto que quero resgatar, trabalhamos sempre com uma metodologia, que era ver, julgar e agir. Ou seja, nós víamos a situação, julgávamos à luz do evangelho e agíamos em conseqüência. Por outro lado, também como metodologia, sempre partíamos do que sabe o outro. Então, também no trabalho com as mulheres camponesas, sempre tentávamos partir do que sabe a mulher camponesa. Que sabe muitas coisas e a gente dá muitíssimo valor a tudo o que ela sabe, apesar do pouco valor que elas mesmas se dão. Acho que eu aprendi muito, porque a gente pode saber teoricamente muitas coisas, mas aprendi da prática, de como encontrar estratégias para superar situações. Porque a gente não pode dar receitas de como superar situações. Então, as mulheres foram mostrando quais são as estratégias para superar as situações, como encontravam soluções entre elas ou como iam buscando soluções para as situações que viviam. Tanto no âmbito da casa, como no âmbito da organização, nos diversos âmbitos nos quais elas viviam. O que nós tentávamos pensar era como superar essas situações. Mas nunca impondo uma linha, senão questionando, para que não fossem aceitas situações de injustiça como normais, mas também percebendo que é um caminho longo que é preciso ir percorrendo e que todas as mulheres partem de um lugar diferente; e que é preciso respeitar esse processo que é necessário fazer para modificar situações.

P - Você acha que há coisas que nos unem como rurais e urbanas?

R - Eu acho que toda a problemática da mulher é igual em todos os setores sociais. A problemática da desigualdade é igual, a da violência. Tem seus matizes culturais, mas na cidade tem a mesma violência. O que acontece é que também não há consciência de que existe desigualdade, de que há violência. Há violência no trabalho, injustiça na remuneração, um montão de situações com relação a isto. Há discriminação. Só agora foi aprovada uma lei na Argentina, o protocolo de CEDAW, que nos outros países já havia sido protocolizada há muitos anos. A Argentina tem leis bastante avançadas, mas isso não quer dizer que elas são cumpridas. Há uma oposição muito forte de parte da Igreja em todos os temas sobre saúde reprodutiva e aborto. Ela pressiona constantemente o poder político. Então, é um longo caminho que está sendo percorrido, que está custando muito para nós, mas, mesmo assim, há avanços. Voltando à sua pergunta, acho que a única possibilidade de fazermos um caminho juntas é reconhecer todo o valor que tem a mulher camponesa e todas as coisas que nós também recebemos delas. Acho que é muito mais o que temos recebido delas do que o que nós conseguimos dar.

P - E como foi que você iniciou seu contato com a Rede LAC? O que você pode nos dizer sobre isto?

R - No ano 90, convocaram para um Encontro Latino-americano Feminista e eu pedi aos organizadores da Argentina que participassem mulheres campesinas. Eles me disseram que não havia espaço para elas, mas, mesmo assim, eu fui. Bom, não tinha nenhuma representação de mulheres campesinas da Argentina. Havia de todos os setores sociais: de empresárias, de profissionais, de todo tipo de mulheres, mas não havia mulheres campesinas. Mas tinha uma oficina da mulher rural. E foi aí que eu encontrei com as companheiras tão queridas, que hoje continuam estando na Rede, e com a Vanete, que foi realmente uma pessoa que abriu enormemente a minha cabeça, com seus pontos de vista, com seu comprometimento e com sua força para levar adiante a proposta. Porque, na verdade, nós éramos um grupo bastante pequeno, as que estávamos nessa oficina. E ela levou adiante a Oficina da Mulher Rural e saímos todas com o compromisso de fazer a consulta nos nossos países de se queríamos participar de um Encontro Latino-americano de Mulheres Rurais.

P - E nesses anos você foi se envolvendo mais com a Rede?

R - Bom, eu voltei de San Bernardo realmente com o compromisso de fazer uma consulta nas organizações da Argentina. Então, a partir do CEPRU, começamos a entrar em contato com diversas organizações, incipientes, que não eram só de mulheres, mas organizações rurais que estavam começando a surgir. Porque na Argentina, até conseguir reorganizar tudo demorou muito, porque a ditadura deixou 30 mil desaparecidos, destruiu todas as organizações, ou seja que todas as organizações que tinham sido muito fortes ficaram destruídas... e não somente destruídas, mas isso deixou as pessoas com muito medo. Então, levantar esse processo foi muito lento, foi difícil.
P - Mas fizemos essa consulta; realizamos, na província de Formosa, um encontro e todas responderam que sim, que íamos participar desse encontro Latino-americano que seria realizado no ano 95. E aí começamos um contato estreito com a Rede. Então, começou a organização; e daí vem o nosso grande agradecimento ao Brasil, porque o Brasil já vinha com uma experiência muito grande de organização e de trabalho com as mulheres. E, realmente, a contribuição que fizeram para poder preparar o encontro latino-americano foi fantástica. Mandaram muito material para que trabalhássemos com os grupos. Nem todos os países puderam responder, mas acho que nós fizemos um bom trabalho na Argentina, tentando envolver todos os grupos com os quais tivéssemos algum contato, trabalhando com todo esse material.

P - Quando você diz Brasil, quer dizer a Rede, não?

R - Claro... Ficou combinado que seria feito um encontro de preparação e que tinha que ir também uma camponesa. Eu tinha ficado como responsável. Primeiro, a gente fez uma consulta para ver quem ia. Foi escolhida uma garota de Formosa, que depois não pôde ir porque ficou grávida, tinha dificuldades, e eu fui escolhida como técnica. Então, propuseram Cristina Juárez, campesina de Tucumán que vinha trabalhando não especificamente com mulheres, mas com uma cooperativa rural e que tinha experiência de organização e, bom, a gente partiu lá para o primeiro encontro. Era um grande desafio, mas com muita vontade de que se tornasse realidade o Encontro Latino-americano de Mulheres Trabalhadoras Rurais.

P - Há alguma coisa que tenha marcado você, muito pontualmente, do primeiro encontro? Alguma coisa que você lembre até hoje?

R - Me marcou muito, por um lado, que nós percebemos que a América Latina é muito mais complexa do que nós conhecíamos. Você se encontra com culturas muito diferentes na maioria dos países e se encontra com que nós, a Argentina, somos um país proporcionalmente com muito menos população campesina e aborígine, e que os outros países têm muito mais população aborígine. O Brasil também tem uma diferença, mas os outros países, os da costa andina, têm muito mais população aborígine. Mas você também percebe que as problemáticas são parecidas. Ou seja, que há diferenças, talvez étnicas. Me lembro de uma coisa que chamava a atenção: o pessoal não considerava as uruguaias como camponesas, porque tinham um tipo louro, mais como gringas. Nós conhecemos essa realidade na Argentina, porque é similar à da província de Entre Rios e outras províncias do Nordeste, onde tem havido muita imigração gringa; mas a Argentina também tem toda a zona Noroeste, que tem características diferentes, é mais aborígine, com similitudes com a população da Bolívia e da costa andina. Mas, o concreto é que são camponeses, produtores, pequenos produtores...e tão pobres quanto os morenos. Outra realidade que me marcou muito foi o sofrimento das campesinas da Colômbia, no meio da violência da guerra interna; e, também, a coragem das mulheres cocaleras bolivianas, na sua longa e sofrida marcha em direção à La Paz. Acho que o trabalho de preparação foi um trabalho muito sério e com muita responsabilidade. E, depois, o encontro foi adiado, porque primeiro ia ser em 95, e em 1995 foi realizado o Encontro Internacional da Mulher, em Beijing, e por isso foi adiado. E, em 96, foi realizado o 1º ENLAC, que foi maravilhoso, porque acho que foi aberta uma possibilidade de intercâmbio, de conhecimento, de abrir, de identificação [e] problemática da América Latina, da gente se conhecer cara-a-cara, conhecer as lutas…

P - Você também teve participação no 2º ENLAC que foi realizado?

R - Quando eu voltei do primeiro encontro, continuamos trabalhando a partir do CEPRU - Centro de Promoção Rural - que procurava a capacitação integral da mulher trabalhadora rural e fortalecer suas organizações. Esse processo do CEPRU começou no ano 91 e continua até hoje, fazendo dois encontros anuais. E nesses encontros sempre havia uma revisão do que vinha sendo feito em cada grupo e nas organizações campesinas, que tinham ido se consolidando através dos anos, e onde a temática sempre correspondia à problemáticas das mulheres campesinas. E dentro dessas temáticas estava a articulação com outras organizações e com a Rede LAC. Nesse caminho, nós percorremos uma grande quantidade de temas, até alguns relacionados mais com a vida pessoal. Os temas da sexualidade, violência, leis e tudo o que tem a ver com possibilitar que a mulher possa decidir sua vida. Demos muita importância a esses temas, porque eles têm a ver com que a mulher possa se sentir independente e autônoma nas suas decisões. E depois, todos os temas relacionados com a organização, a situação do país, a economia; a gente tentava dar uma boa informação dos planos sociais, o que eles significavam; tudo era discutido para ajudar a ter mais esclarecimento, e as camponesas contribuíam muito. Contribuíam sobre economia, sobre os planos, sobre a necessidade de fazer outras coisas, sobre a necessidade de apoios que elas não recebiam em relação às necessidades que haviam. A injustiça do sistema. E as organizações mergulhadas nessa realidade do país; também víamos a inserção da Argentina na América Latina, no mundo. O que acontece no resto da América e do mundo, o que é a Alca, o que é o Mercosul, o que são os tratados de livre comércio. Acho que tentamos ir vendo todos esses temas e aprofundando nos encontros.


P - Informação que existe, mas que não conhecemos como campesinas, como rurais. Neste contexto, digamos, qual é o futuro que você vê para a Rede LAC?

R - Eu acho que a Rede LAC é um espaço que tem um grande mérito; acho, também, que cada campesina que participa de um ENLAC vem com outra cabeça. Já vem depois de ter descoberto muitas coisas. Agora eu adoraria ser a entrevistadora, porque gostaria de perguntar. Perguntar para a Cristina e para a Maria Elena o que aconteceu com elas nos Encontros. Mas acho que tudo o que se trabalha aí e tudo o que se discute, abre um panorama que é impossível que possa aparecer no seu grupo, ou na sua província, ou em um encontro nacional no seu país. Então, ver todas essas nuances de realidades e descobrir que sempre há alguma coisa que está acima de todos esses países, que vamos chamar de capitalismo, imperialismo, neoliberalismo, o nome que a gente quiser dar, mas que sempre há alguma coisa que está lá em cima e que esmaga os povos...e acho que isto, em um encontro dessa dimensão é onde dá para ver mais claro. Porque estão todos os povos clamando para que se transformem as estruturas, porque tem que haver uma mudança para que a justiça possa ser possível para todos. Então, acho que esse espaço é fundamental, como é fundamental a contribuição que devem fazer as mulheres para que a mudança aconteça também no Sistema de Gênero. Acho que ainda falta aos países, para darem resposta à Rede LAC, terem mais recursos, ou mais difusão, ou mais… Há uma coisa que eu ainda não entendo direito, mas acho que é, sobretudo na Argentina, ter mais recursos; não sei se nos outros países ocorre a mesma coisa. Estando no CEPRU, tínhamos pouquíssimos recursos e, junto com a secretaria de agricultura, a partir do Plano Social Agropecuário, com o qual nós articulamos todos estes encontros e todos estes grupos, também tem uma série de limitações, como organismo oficial. Então, acho que está nos faltando alguma coisa que o Brasil tem através dos sindicatos e dessas organizações fortes que nós ainda não temos, ou seja, que transmitir a informação ainda é bastante difícil para a Argentina. Na Argentina, depois de um longo processo que surgiu a partir do CEPRU, as campesinas construíram o MUCAAR, que é o Movimento das Mulheres Campesinas e Aborígenes Argentinas. É um movimento a nível nacional com uma intenção esplêndida, eu acho, de futuro, mas ainda sem recursos para poder realizar sua atividade como organização. E acho que isso precisa ser pensado, porque é fundamental possibilitar comunicação, informação, encontros. Capacidade há, mas não há recursos para realizar isso. E, bom, não ter nada, nem uma secretária, é uma dificuldade que devem superar.

P - É uma dificuldade. Quando você começava seus relatos, na sua fita, você dizia que está aposentada (risos). Para nós, sentimos que você está ativa, sempre. Mas, sim, nós gostaríamos que você deixasse sua mensagem para as mulheres rurais, diante da Rede, para o futuro. Com a sua experiência, seria muito importante para nós escutar você, que você deixasse sua mensagem.

R - Eu sempre confiei muito na mulher campesina. Acho que tem uma coragem...um impulso, mas acho que tem que se decidir a mais, estou convencida, no sentido de que tem que aspirar, liderar um movimento que realmente tenha peso na Argentina, porque acho que há capacidade e precisa ter vontade. E para conseguir isto, elas têm que se desvencilhar, é preciso se desvencilhar de muitas coisas, e acho que tem que ter confiança, e se apoiar, se gostar muito entre elas e respeitar aquelas que estão nas organizações. Se apoiar muito, porque o que destrói as organizações é a crítica. A crítica é positiva sempre que a gente faça para construir e faça diretamente. Então, eu tenho todo o direito de criticar e de dizer tudo o que eu acho, mas sempre apostando em que isso vai servir para construir alguma coisa e não para que se transforme em uma fofoca. E acho que isto eu aprendi da Vanete. A Vanete sempre diz o que tem que dizer, mas sempre aposta em construir, em que dá para superar isso. E eu acho que vocês, se querem a minha opinião, acho que é fundamental que pensem em uma organização maior. Que pensem que na Argentina é possível ter uma organização forte, mas vocês têm que bater, têm que ter recursos, comunicação e precisam se convencer de que vocês são capazes de levar adiante a organização. Para começar, podem fazer alguma coisa que não seja perfeita, se faz caminho ao andar; há muita gente que apoia vocês neste momento. Mas vocês têm que começar a dizer o que querem desta organização, qual é a maneira de levar ela adiante, e acho que há muitas mulheres que estão esperando que vocês convoquem para poderem sair das situações em que estão. Então, acho que é uma grande responsabilidade que vocês digam sim. Há tanto trabalho por fazer, há tanto sofrimento na mulher rural, há tanto sofrimento e tanto esquecimento, que temos que nos mexer. E eu sei que só de palavra é muito fácil de dizer, que depois, nos fatos, é complicado, mas é preciso encontrar a maneira e vocês têm que procurá-la e que bater em portas. Acho que essa é a única forma, porque é assim que as coisas têm sido feitas. Sempre foram feitas assim.

P - Para terminar esta entrevista, se podemos chamá-la assim... Queria dizer obrigada, porque você nos presenteou com o seu interior, com seu trabalho. Foi um prazer compartilhar com você e estou certa de que isto vai ser transmitido. Muito obrigada, Tudy, para nós.

R - Queria dizer mais uma coisa. Quero, também, fazer chegar o meu carinho a todas as companheiras da Rede LAC, que foi tão importante para mim também, porque acho que todas vivemos esse desafio grande do primeiro Encontro, e acho que foi muito rico para todas. Então, lembranças com muito carinho para Vanete, Kika, Betty, Nazaré, Margarida, Fátima... Bom, para todas aquelas que eu conheci, eu quero que chegue o meu carinho e o meu reconhecimento. Eu aprendi muito com todas elas e também com as companheiras com as quais estou conversando. (risos)

P - Bom, para nós, trabalhadoras rurais, estar com Tudy é sempre um prazer e uma grande alegria. O reconhecimento que ela tem para conosco, o que ela nos ensina, tudo o que ela nos dá cada vez que estamos com ela; obrigada, Tudy, para nós, da Argentina.

R - Muito obrigada.

 

[Fim do depoimento.]

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