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História

Capoeira carioca

História de: José Barbosa da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/07/2007

Sinopse

Em sua entrevista, José Barbosa da Silva, um dos mais respeitados mestres capoeiristas do Brasil, detalha ricamente, como alguém que viveu este universo, todo o processo de legitimação de uma luta que sofreu muito preconceito e por muito tempo foi marginalizada. Sua narrativa também traz uma visão bastante clara e poética sobre todo o ritual que envolve a prática deste esporte e desta cultura tão marcadamente atrativa quanto possivelmente perigosa. Nos conta sobre sua família e sua trajetória na infância de Recife, São Paulo até o Rio de Janeiro, onde se alistou para a aeronáutica. Aborda seus primeiros empregos e sua paixão pelo futebol, mas principalmente a capoeira. 

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História completa

Barbosa da Silva. Nasci em Recife, em 1 de novembro de 1945. Meus pais são nordestinos. A mamãe nasceu em Paraíba, e meu pai em São Lourenço da Mata, em Pernambuco. Ela era dona de casa e meu pai, funcionário da prefeitura de Recife. Diz ela que ele passava com os cavalos, e ela no rio espiava e acabaram tendo só onze filhos. Todo dia tinha briga mas era bom. É briga amável, porque a gente tinha muito a fazer. Papai parado, mamãe no rio e a gente pegando cabra. Eu que era o primeiro, que mais sofri, plantando arroz para os outros, para levar qualquer coisa para a casa.

Eu fiquei lá em Recife até treze anos. Depois fui pra São Paulo. Não saía da casa da minha tia. Com quinze anos, eu fugi e vim parar no Rio de Janeiro. Fugi porque eu jogava muita bola, queria jogar bola de dia de sábado e de domingo e ela não deixava. Até hoje ainda jogo. Trabalhava para minha tia, que tinha uma pensão. Ela foi me dando e eu fui guardando. Não gastava nada. O meu problema com ela era sábado e domingo, para jogar minha bola, que ela não deixava.

Minha tia me botou no colégio. Aí viu um estágio na padaria, até chegar a tapeçaria em Copacabana, fui office boy, e de lá para o quartel. Quando eu completei 17 anos, me alistei na aeronáutica. Na polícia da aeronáutica. E da aeronáutica para a capoeira. A capoeira é outra atividade diversa aqui, ali, acolá. No quartel eu fiquei dois anos. Mas fiquei mais dois anos, em outra situação, no quartel. Você não pode saber, nem precisa saber.

Trabalhei cinco anos com papel de parede. Fui instrutor de capoeira. Vai fazer 40 anos, filho. Quer dizer, na capoeira com a minha associação. Associação de Capoeira Zum Zum Zum. A associação foi fundada em 1970. Só que ainda era final de AI 5, e não deixava nenhuma associação ser fundada. E quando se pergunta para mim assim: a capoeira tem 400 anos, como foi o caso lá na ___, dia 14 de abril que o mestre afirmou, com o auditório quase sempre todo lotado, aquilo me aborreceu porque esse mestre tem três faculdades, três ou quatro. Duas eu conheço, ainda é capitão do Corveta e eu não estou aqui para falar muita coisa. Então eu deixei o momento exato, quando ele acabou de almoçar eu puxei pelo pescoço. Eu digo: “Meu mestre, quantos anos o senhor falou que a capoeira tem no Brasil?” “400 anos.” “Se fosse outra pessoa até sim, mas você não. Capoeira é milenar, rapaz. Veio com todo mundo. A capoeira tem 25 anos.”

Há seis anos atrás, para sete, já tinha meu grupo, Grupo de Capoeira Regional. Olha, a capoeira, ela teve os marginais, os assaltantes, salteadores, estupradores, assassinos. Ela ajudou o Brasil na guerra do Paraguai, contra os alemães. Vindo esses todos presos da Ilha de Fernando de Noronha, de Recife, quando na época era o capitão que tomava conta do presídio. E chamou os presos, capitão Noronha, e disse: “Vocês todos aqui, o Brasil está em guerra, eu vou fazer um negócio com vocês. Vocês vão à guerra”. E na época era obrigado. “Se a gente for vitorioso, estão todos livres. Se o Brasil perder a guerra, dobra a pena”. Tem sempre um chefe no grupo, que chamou os presos, os colegas dele e falou: “Vamos arriscar”. E nós vencemos a Segunda Guerra Mundial, está certo? Estou supervisionando três professores no Projeto Griô, em Duque de Caxias. Um lá e dois na FeoDuque.

Atualmente, eu estou tomando lição só de um. Porque essa questão, que me fez essa pergunta, eu no dia 14 chamei vários mestres lá e disse: “Vamos botar uma coisa chamado Liga do (Cacheese?).” “Ah, eu estudo, não tenho tempo”. Outro: “Ah, não sei quê.” É difícil, porque nem todos têm condução própria. Por exemplo, a Silvia mora em São Gonçalo, e vai sabe para onde? Para Nova Iguaçu, anda um bom pedaço. De ônibus vai gastar umas três, quatro conduções. Fica difícil se reunir pelo menos uma vez por semana. E é complicado, porque, às vezes, no sábado o professor tinha marcado uma reunião. Então fura. O outro marcou para ir jogar futebol. É complicado. É muito complicado. Agora tudo isso tem que levar tempo. Não é de um dia para o outro. Mas nós vamos conseguir, através dos dois meninos, estamos brigando por isso. Não é briga de soco, é briga histórica, porque não tem. E tem umas federações aí que estão precisando ser repassadas, puxada a orelha. Umas.

Há o ritmo lento da Angola. Do ritmo mais corridinho, regional São Bento. Mais para lá, aí vai entrando, e pá, e pá. E tem dois votos na capoeira, aliás, desculpa, dois ritmos, que não pode sair, a cavalaria. E o que é cavalaria? Era na época da escravidão, na senzala, quando o capoeira morria, eles faziam algum tipo de fúnebre, que era enterrar. Era eles que enterravam os irmãos de cor, vindo da... de onde mesmo? Da África, certo? Isso. Seguiu o tempo e quando esses mesmos carambolas, que começou a aparecer soldado e polícia. Então o feitor contratou esse capitão da mata e o capitão do mato. Um pegava o capoeira nas matas, mas sabia jogar as pernas, porque tinha aprendido na senzala. E o outro era bem bonzinho, igual vocês dois, pegava o chicote para bater no co-irmão. Bondade danada, não é? E esse não pode sair. A cavalaria que avisava, eu vou cantar uma. Pum, pum tchi, pum. Jogo encerrava e eles começavam a brincar de angola. “Nós estamos brincando de angola”. O macaco, que era o senhor do mato olhava, olhava, não tinha ninguém sangrando. Mas isso era para enganar o feitor e o capitão da mata, até eles tomarem o rumo da liberdade. E até hoje não conseguiram. E eu gostaria que tivesse um mestre espertão para discutir essa questão comigo. E ele sabe quem é. Vou contar a história da capoeira de Duque de Caxias para vocês não ficarem... A gente acabava de botar o ritmo, vinha um moço furava o bumbo, identificava o povo, sessenta por cento não tinha documento. Hoje é muito óbvio que a gente saía na rua e não tenha documento assinado, porque o Brasil não tem emprego. E os empregos que tem é muito curto. Quer dizer, tem uma vaga em Caxias que a gente coloca ela sábado, às oito horas, vai até onze, meia noite, não passa um mosquito para mexer. E um dia questionaram, para que essa capoeira do mestre Levi esteja assim, eu tomei muita borrachada da polícia. É verdade. É verdade. E até hoje, não vai mudar muito. Agora tem professor de capoeira da cor, que está com duas faculdades. Medicina, às vezes, advocacia, letras, fisioterapia. Que as duas eram as que eu falei, advogado para defender, e terapia para consertar o teu osso, osso dos irmãozinhos que não podem pagar quinhentos reais para consertar uma perna em três meses. Mas no jogo da capoeira é resistência, porque se tu ficar jogando pensando nela, daqui a pouco tu vai para o hospital de braço quebrado ou pelo menos meia dúzia desses dentes bonitos.

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