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História

Cenas da vida de Lecão

História de: Alexsander Costa Magalona (Lecão)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/10/2012

Sinopse

Lecão teve uma infância pobre. Ele é filho de uma mãe batalhadora que criou os filhos sozinha. Ingressou no AfroReggae ainda menino, tocando repique e, posteriormente, assumiu o cargo de vocalista do Afro Samba. Ele conta do massacre do Vigário Geral no início da década de 1090, fala sobre os amigos que perdeu, a seleção para a minissérie Suburbia e da emoção de sua mãe ao saber do resultado. Lecão também fala de Lulu, o personagem que interpreta.

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História completa

Meu pai já é falecido e minha mãe sempre trabalhou pras pessoas. Uma longa história, tipo lavando roupa pra poder sustentar nós de casa. Minha mãe não teve estudo e nunca trabalhou de carteira assinada, sempre lavando a roupa aqui, lavando a louça pra alguém, carregando balde d’água pra poder ganhar um dinheiro e poder sustentar meus irmãos. A gente morava num barraco, e quando o sol batia dava pra ver que era os pedacinhos de sol, que era tudo esburacado. E a minha mãe sempre foi batalhadora pra poder sustentar a gente. Já comeu farinha com açúcar e água, pão com água e angu todo dia, pra não deixar eles passarem fome. Eu sempre fui uma pessoa tranquila, sem arrumar problema, sem briga.

E minha mãe é uma pessoa muito preocupada com os filhos e tal. Qualquer coisinha ela se preocupa. Ela não deixava muito eu ficar na rua brincando, então eu não sei rodar pião, jogar bola de gude, eu não jogo futebol, não solto pipa. Porque se eu aparecesse com um pião em casa minha mãe dizia: “Larga isso aí que é perigoso, você vai rodar, pode pegar no vidro da casa dos outros e eu não tenho dinheiro pra pagar”. Eu andava com um grupo e tal, mas sempre perto do portão de casa. Quando eles cismavam de ir pra outros lugares eu: “Vou não, mano, por causa da minha mãe”. Eu comecei a estudar na escolinha que se diz particular, era uma pessoa conhecida da gente, que é a tia Maria e é bem amiga. Comecei a estudar lá primeiro e aprendi muita coisa. Já na escola eu dava uma aprontada de leve, mas nunca vacilei pra diretora chamar minha mãe. Sempre fui responsável. Eu zoava, mas na minha.

Eu estudei, mas na verdade eu nunca gostei de estudar, pra ser sincero, mas eu terminei. Lá no AfroReggae eles não deixam ficar sem estudar, tem que terminar, então eu tava muito empolgado, queria saber só de música, fazer show, fui reprovado, mas depois eu pensei bem e tive que estudar, tive que terminar e terminei. Na verdade o AfroReggae foi pra Vigário em 1993. Já existia em 1992, só que não tinha música, era AfroReggae Notícia, era um jornal e eles tinha um baile funk.

E logo após, em 93, aconteceu a chacina de Vigário. Eu tinha cinco anos e eu não lembro de muita coisa, só que tinha um corpo quase na esquina da minha rua. E o AfroReggae foi pra Vigário em 93, e conforme o clima tava tenso, a ideia de fazer ali pra poder distrair um pouco os moradores. E eu sempre falava: “Nunca vou entrar no AfroReggae”, porque eles ficavam batucando. Eu falava: “Isso aí é coisa de macumba, não vou entrar não, tá maluco, tá amarrado em nome de Jesus”. E aí o Anderson Sá, que é vocalista, me convidou pra fazer oficina de capoeira.

Na verdade minha mãe falou com ele porque ela queria ocupar o meu tempo. Eu sempre gostei de cantar, mas eu nunca me considerava como vocalista. E antigamente eu imitava muito o vocalista da banda AfroReggae, que é o LG. Teve uma época que eu tava imitando tanto, que ele é meio gordinho, tem um dente separado, e eu pegava uma parada pra separar o dente. Quando eu fui cantar samba, cantava igual. Os cara falavam: “Aqui você é o Lecão, você não é o LG”.

Eu fui achando o meu caminho, e hoje eu posso dizer que eu sou o Lecão, hoje eu tenho minha personalidade. Eu trabalhei com a trupe de teatro como músico, mas ao mesmo tempo eu era meio que ator, tinha que fazer parte das cenas. Não fiz um curso de teatro, mas eu fiz uma oficina pro Cidade de Deus. Não fiz o filme, mas eu fiz a oficina. Isso me ajudou pra caramba. Na verdade o teatro, a música, dança, se transforma em um só. Um ajuda o outro.

É aquela sincronia toda. Quando começou os ensaios do Suburbia, minha mãe: “Vai pra onde?”, “Vou na cidade resolver um negócio”. Eu só gosto de falar quando tá tudo certo. Depois falei pra minha mãe: “Eu to indo ensaiar”, “Ensaiar aonde?”, “Eu to indo lá em Jacarepaguá ensaiar, eu passei no teste”, “Teste de quê? Tu não me fala nada, não sei o que, be be be”, “Passei no teste, vou fazer uma minissérie, uma participação”

O olho dela já começou a encher d’água. “Isso aí, meu filho, segue o seu caminho, be be be, que Deus te ajude”. Aí já dá vontade de chorar também. Às vezes eu sou muito durão, eu fico controlando. Eu gosto de chorar sozinho, sei lá, ir pro quarto, botar uma música e chorar sozinho. Lembrar das coisas, coisas boas, coisas ruins. Na série eu sou o Lulu, cantor de funk, e dança também junto com a Jéssica e o Dudu. Eu acho que tem a ver o personagem, que eu to com esse lance de favela. Eu moro aqui, o baile é no final daquele muro, então já convivi com esse lance de baile. Meus irmãos sempre foram pra baile funk.

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