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Chopp espanhol

História de: Venerando Rodrigues Quinhones
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2005

Sinopse

Vinda da Espanha aos dez anos, fugindo da guerra. Primeiro trabalho com 15 anos em restaurantes. Trabalho em escritório e estudos à noite. Casamento e lua de mel com os pais. Bar Santa Mônica e Restaurante Capri. Restaurante ao Chopp Gonzaga. Comércio antigo e o porto. Descrição do balcão com banqueta. O segredo do molho para churrasco. Trabalho ao lado do filho e as entregas em domicílio. Os cinemas em Santos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Venerando Rodrigues Quinhones, nasci na Espanha, em Oviedo, nas Astúrias, no dia 08 de maio de 1915.

FAMÍLIA
Meu pai se chamava José Rodrigues y Rodrigues e minha mãe, Lilia Quinhones. Ele trabalhava em minas de carvão Nós somos cinco, eu sou o do meio, sou o terceiro. Eram dois na frente e dois atrás, cinco. Eu tinha cinco irmãos: um vendia pão e depois aprendeu a ser barbeiro; outro irmão estudou contabilidade e abriu um escritório de contabilidade, que até hoje está na Humanitária, eles fizeram uma sociedade e ficaram lá; tinha outro irmão, o mais velho, que entrou numa bomboniere - antigamente, os cinemas tinham bombonier - e ele comprou cinco: comprou a do Guarani, do Paramount, na esquina da Rua São Leopoldo, no Campo Grande, no Marapé e do Cine Coliseu, na Rua Amador Bueno: tinha oito bombonier; outro irmão, aprendeu mecânica e foi ser mecânico da American Coffee, uma grande firma de café. Nós éramos cinco irmãos, nunca ninguém foi empregado a não ser eu. Eu fui o único que foi empregado, todo mundo foi se arrumando.

CASAMENTO
Quando eu estava no V. Carvalho de Oliveira e Cia, eu estava namorando a minha patroa e casei. Eu namorei ela um ano mais ou menos e depois separamos. Eu a conheci porque ela morava perto de casa. Depois brigamos, separamos mais de um ano. Ela casou, teve um filho e o filho morreu. O marido dela caiu do bonde e morreu também. Ela ficou viúva. Aí depois de um mais ou menos um ano, encontrei com ela, conversamos e acabei casando com ela. Ela era brasileira. O problema todo do casamento era minha mãe que não concordava. Porque minha mãe tinha quatro filhos casados. Então eu casei já velho, casei com 33 anos, e minha mãe achava que eu devia casar com uma moça de véu. Todos os outros casaram com as de véu, ela como era viúva... Bom, mas fui levando, casei, fui fazer a lua-de-mel em São Lourenço e levei meus pais. Fiz as pazes e foi tudo bem, fui muito feliz, tive um filho. Ia fazer 50 anos de casado quando ela faleceu, vê quanto tempo Faltavam 3 meses para 50 anos. Fui casado com ela 49 anos. Ela me ajudou muito, ela foi muito companheira. Trabalhava no escritório. O gerente do escritório foi meu padrinho de casamento.

FAMÍLIA
Filho e Netos O Zé tem três filhos, tem um casal de gêmeos e tem o primeiro, o Tiago. O primeiro está se formando em Informática. A menina está fazendo Turismo, está faltando um ano. Estuda em São Paulo, mora lá e só vem fim de semana. Muita ativa ela, ela foi para Madrid sozinha, não tem problema. Ela foi fazer um teste pela Varig, em Madri. Teve seis vezes em Madri, por conta da Varig. Fez um teste lá, passou e está aguardando. Ela tem a vaga, mas está aguardando porque para ocupar a vaga agora ela tinha que trancar a faculdade. Ela preferiu trancar o serviço da Varig e acabar a faculdade, depois ela vai trabalhar.

CASA
Localização e descrição Eu fui morar na Rua Clemente Pereira. Meu irmão, esse que era contador, tinha um chalé que estava abandonado. Ele falou: "Se você quiser morar lá, você faz uma pintura, uma reforma." Eu fiz uma reforma, uma pintura, ficou bonito, ficou um doce." Era chalé de madeira. Aí nesse meio tempo, como o V. Carvalho não quis aumentar nada, eu falei que ia sair.

IMIGRAÇÃO
Eu cheguei aqui, no Brasil, no dia 3 de março de 1925. Vim com 10 anos. A viagem foi triste porque nós viemos com passagem paga, mas viemos de terceira classe. No navio, era o terceiro piso, lá embaixo. Então nós saímos do porto das Astúrias, Gijón até o Rio de Janeiro; foram 27 dias debaixo dágua. Nós chegamos no Rio de Janeiro, nós desembarcamos, mandaram a gente desembarcar. Nós tínhamos passagem paga até Santos. Nós não sabíamos, mandaram a gente desembarcar, nós desembarcamos, viemos pela Central do Brasil, pela São Paulo Railway e pela barca até o Guarujá. Depois pegamos a Maria Fumaça e de lá fomos a pé até a Praia do Tombo.. Fomos morar na Praia do Tombo: meu tio tinha uma vacaria e fomos morar lá com ele. Ele foi nos buscar lá. Eu cheguei no Rio e fiquei admirado porque vi tanta gente negra. Pensei que era tudo gente que trabalhava em mina de carvão. Eu não sabia que existia gente negra, eu tinha 10 anos. Viemos por causa da guerra das Canárias. A Espanha estava brigando com a Inglaterra por causa das Ilhas das Canárias e todos os filhos que estavam chegando a idade do serviço militar iam para lá e não voltavam. Minha mãe pensando que tinha cinco filhos, cinco homens, ela pegou e veio embora para o Brasil. Minha mãe era uma heroína, nós éramos sete filhos pequenos, pela Central do Brasil. Imagine que situação. Meu pai não queria vir. Ele deixou duas casas na Espanha: a casa de inverno e a casa de verão. A casa de inverno ele deixou para as irmãs morarem lá tomando conta da casa. A casa de inverno é uma casa feita de pedra, toda de pedra, tem porão, tem estábulo feito de pedra onde as vacas ficam no inverno, porque as vacas não podem sair para fora porque não tem pasto, a neve tampa tudo. Então as vacas ficavam ali, de manhã levava feno para elas, água, a gente tira leite. Ficavam ali 6 meses. Depois elas voltam para o pasto. Nós estávamos bem na Espanha, por causa da guerra que nós viemos. Para nós foi bom vir para o Brasil. Para meu pai não foi bom porque ele estava sempre foi doente. Chegou aqui e pegou a maleita; ficou muito ruim, muito doente até mais ou menos 1935. Ele foi no médico e o médico disse que ele estava tuberculoso. Naquele tempo tuberculose era como câncer hoje, precisava separar comida, separar colher, tudo isso. Mas depois meu pai foi indo, melhorou, arrumou emprego na Companhia Telefônica. Até se aposentou pela Companhia Telefônica. Ele sofreu muito com as maleitas, foi uma vítima.

BAIXADA SANTISTA
Descrição da Cidade do Guarujá- anos 20 Meu tio tinha uma vacaria e um bananal, não tinha mais nada. No Guarujá não tinha casa nenhuma, era tudo bananal. Tinham umas dez famílias só. Tinha a Família Gonzalez, esse que foi prefeito, que foi preso. Depois nós ficamos no Guarujá. Eu fiquei até 1930.

EDUCAÇÃO
Escola e curso Eu fui na escola só aqui; eu fui na escola já tarde. Fui na escola porque tinha obrigação de estudar para poder trabalhar. Eu fiz escola noturna. Depois que eu entrei na V. Carvalho de Oliveira e Cia. é que comecei a estudar. Era em Santos, a São Luis, na Avenida Pinheiro Machado. Fazia o primário. Eu só fiz o primário e depois veio o comércio. Não podia fazer mais porque eu tinha que trabalhar. Fiz só o primário e acabou. Como trabalhava na firma de café V. Carvalho de Oliveira e Cia., eu tinha interesse em trabalhar no escritório. Então eu saia da V. Carvalho de Oliveira e Cia., às 6.00 horas da tarde e ia correndo até a Praça Mauá para entrar na Remington, para estudar datilografia, das 6.00 às 6.30. Depois, pegava o reboque do bonde 17, pagava um tostão, ia para casa, comia, ia para a escola lá na Avenida Pinheiro Machado esquina da Rua João Caetano. Lá eu estudava até 11.00 horas da noite. Isso foi até terminar o primário. Então eu fazia a datilografia. Fiz o curso em três meses porque no escritório eu também batia, de manhã, antes do pessoal chegar, mas era difícil porque a máquina do escritório você tocava e o carrinho corria e na Remington tinha um trabalho para puxar

TRABALHO
Primeiras atividades Quando eu cheguei, ajudava meu tio a entregar leite. Meu tio tinha uma carroça e entregava leite no Guarujá. Inclusive nós entregávamos leite para Santos Dumont que morava no Guarujá. Depois, eu trabalhava aqui em Santos, vendia pão, vendia laranja. Naquele tempo vendia-se pão quente, de tarde, com saco nas costas, todo mundo comprava pão quente, vendia laranja no campo do Santos Futebol Clube. O muro era baixo. Até que arrumei emprego na Rua Tuiuti. Ali eu trabalhei uns dois ou três anos, depois eu passei para outro bar também na rua Tuiuti porque estavam pagando mais.

PERSONALIDADE
Santos Dumont Não lembro de Santos Dumont porque eu não vi ele lá. A gente entregava o leite cedo. Eu sabia que ele era o tal Santos Dumont, que tinha inventado a aviação e tinha muita revista jogada na área, Estado de São Paulo, Fanfula, esses jornais antigos. Ele vivia numa casa perto da praia, uma bonita casa. Ele faleceu em 1928.

MIGRAÇÃO
Mudança do Guarujá para Santos Depois vim do Guarujá, em 1930, para morar no bar. Eu morava nos fundos, numa tarimba qualquer. Depois tinha outro bar, Bar-restaurante da Praia que chamava, Abel e me ofereceu mais dinheiro. Eu passei para lá. Foi até uma briga. Eu passei para outra casa para trabalhar lá.

COMÉRCIO
Descrição do bar Naquele tempo o bar servia café, cachaça, comida, feijão, arroz, que nem hoje. Feijão e arroz a mil réis. Eu trabalhei com um espanhol e aí ele vendeu. Eu fiquei com um espanhol que veio da Argentina, era mais inteligente, e lançou um prato: arroz, feijão, pedaço de carne, pedaço de toucinho ou lingüiça a mil réis. Um pão um tostão. Ajuntou gente, mas ajuntou gente, aí não dava nem conta de tanta gente. Lançou aquele prato de comida, todo mundo vinha comer, aquele pessoal que trabalhava no cais. Naquele tempo depois estourou a estiva, não tinha a Estiva, só tinha Docas.

PORTO
Sistema de Trabalho - anos 30 Estiva era para trabalhar a bordo. Naquele tempo quem fazia todo o serviço era a Docas. Existiam dois inspetores na Companhia: o primeiro era do armazém número 1 ao número 5 e o segundo inspetor, que era o Sr. Euládio, ficava do armazém 6 ao 12. Não tinha mais armazéns: depois é que fizeram. Até o armazém 5, o diretor era o Sr. Eduardo, até ele queria que eu fosse trabalhar nas Docas e eu não quis. Isso foi em 1930, quando passou por aqui, Getúlio Vargas indo para o Rio de Janeiro, com as tropas; levava a bordo a Miss Brasil Iolanda Pereira de Souza. Eu fui lá ver. Eu tinha trânsito junto ao cais. Eu fui ver ela a bordo lá. Muito bonita ela, estava sentada com Getúlio Vargas. Ela ia para Nova York, ia embarcar no Rio. Ela ia entrar no concurso, na época que ela foi Miss Brasil, Miss Mundial me parece, muito bonita ela. Primeiro Emprego Eu trabalhei na rua Tuiuti, número 99, num bar chamado Lumancia. Trabalhei uns três anos com um senhor espanhol, depois eu mudei para um outro bar que pagava mais. Depois eu passei para outro bar, Bar-Restaurante da praia, também dormia lá. Não tinha condição de ir para casa, ganhava 90 mil réis. Passei para o outro bar para ganhar 100 mil réis. Eu levava 100 mil réis para minha mãe, já era uma ajuda, naquele tempo. Aí minha irmã se casou e o marido dela me arrumou para trabalhar num armazém de café. Aí fui trabalhar no armazém de café da Xavier da Silveira

SACARIA
Sacaria para Café Eu era apartador de sacos. A firma era Horácio Pagano e Irmãos Zancaner. Eram dois apartadores: eu e outro rapaz. Era só para separar os sacos. Os sacos vinham e tinham que voltar para Mirassol, Araraquara, para o interior. Tinha que esvaziar o conteúdo. Esvaziava, fazia aquelas pilhas grandes, troca de qualidades do café: primeira, segunda, terceira. Depois misturava tudo e fazia uma só. Os sacos eram separados, cada saco tinha sua marca. Separava, pesava, enfiava 50, amarrava, marcava, voltava para lá. Eu fiquei quase dois anos lá, depois as duas firmas separaram. Horácio Pagano ficou na Rua Xavier da Silveira e Irmãos Zancaner foram para o armazém 16. Eu fui com eles, fui sorteado para os Irmãos Zancaner. No armazém 16, ficamos pouco tempo, depois fomos para a Rua Marques de Herval, ali do lado da Igreja Santo Antonio, no Valongo. Lá eu fiquei uns três anos também, depois a firma acabou fechando e nesse meio tempo arrumei um emprego para trabalhar na V. Carvalho de Oliveira e Cia, na Rua do Comércio, para fazer limpeza num escritório. Eu fazia limpeza e fui acumulando cargos: já me mandavam fazer café. Fazia café, servia na gerência, servia no escritório, ficava por aí. Eu estava acumulando três cargos: fazia café, limpeza, e depois eu ia ao correio. Tinha que ir duas vezes por dia no correio. Então eu fazia limpeza, depois fazia café e depois ia ao correio de manhã. Depois, de tarde, eu ia fazer bancos. Depois que eu entrei na datilografia, o rapaz que trabalhava lá ficou ruim da vista e eles perguntaram pra mim se eu sabia escrever a máquina: mandaram eu fazer um teste, eu fiz e eles gostaram. Eu fazia todos os envelopes para as correspondências para o interior, porque tinha uma porção de fregueses no interior. O rapaz me passava os endereços e eu passava o endereço para o envelope e depois para a correspondência no envelope. Depois ainda tinha que levar no correio. Mas o ordenado era sempre o mesmo. Eu falei com o gerente o Sr. Virgilio, que veio do norte, que eu precisava de aumento. Ele falou que não podia dar. Já quando eu entrei para fazer limpeza, eu fazia limpeza, passava cera e passava escovão. Aquele desgraçado daquele escovão Eu pedi uma enceradeira elétrica e não quiseram dar; diziam que era luxo.

LAZER
Santos - Cinemas nos anos 50 Não tinha outra coisa a não ser o cinema. Naquele tempo era só o cinema. Esse Guarani era muito freqüentado. Era teatro também. O Coliseu era teatro também. O Coliseu foi uma pena ter abandonado ele. O Coliseu era o cartão de visita de Santos.

COTIDIANO
Atividade extra no abrigo de cegos Quando eu trabalhei no V. Carvalho de Oliveira e Cia, eu morava no Campo Grande e em frente tinha um abrigo de cegos. Então, como eu não trabalhava nem de sábado nem de domingo, no domingo eu levava os cegos na feira, com carrinho. E depois eu ia para o abrigo fazer recibos, eles tinham uma porção de associados que contribuíam para o abrigo. Eu fazia os recibos e depois eles distribuíam lá e recebiam o dinheiro. Ao meio dia eu ia buscar eles na feira outra vez.

COMÉRCIO
Feira-livre A feira é a mesma coisa de hoje, frutas, verduras. Ficava na Avenida Francisco Glicério, sempre foi lá. Até hoje; era, no domingo. COMÉRCIO Comércio atacadista Tinha casas de atacado em Santos: a Vicente J. Tavares, a Souza Santos, na Praça da República, tinha o Vallejo, que existe até hoje. Depois a Vicente J. Tavares abriu a Mercearia Natal que tinha o atacado na São Francisco e o varejo na Amador Bueno; tinha a Alves de Azevedo. Esses eram grandes atacados. COMÉRCIO Lojas e bares de Santos Tinham grandes firmas aqui em Santos: a Martins Ferreira, a Costilhas, que era uma loja de móveis finos, a Leoneza, na Praça Rui Barbosa - ia da Rua João Pessoa até a Rua General Câmara -, era um bar, tomo mundo tomava café ali, todo mundo sentado, tinha um cobrador que ia cobrando nas mesas; o Café Paulista que ainda hoje existe; a Galeria Paulista, pegado à Igreja do Rosário; em frente à Igreja tinha o Cinema Paramount e do outro lado era o Café Paris. Acabou tudo. Produtos Vendia bacalhau, arroz, feijão, carne seca, essas coisas. Bebidas estrangeiras, por exemplo, eram vendidas nos Irmãos Vallejo.

TRABALHO
Montagem do negócio próprio Saí da empresa de café e comprei uma leiteria no Campo Grande, na Rua Duque de Caxias com a Rua Visconde de Cairú. Uma leiteria com leite e sorvete. Eu e um meu irmão, que foi barbeiro, trabalhamos lá muito tempo. Nós fazíamos o sorvete. O sorvete era de frutas, não é que nem hoje que tem drogas. Se quisesse fazer de abacaxi, pegava o abacaxi e cortava e fazia. Era difícil, era feito a mão, muito trabalho. Estive lá uns quatro ou cinco anos. Lá no Sr. Zé. Mas ali do lado tinha um sapateiro, o sapateiro mudou, então abri uma mercearia ao lado. Aí foi o meu mal. Pusemos os outros irmãos na sociedade, mas não deu certo, para três não dava. Acabou separando e eu acabei falindo. COMÉRCIO Dificuldades Tivemos que entregar a casa para o dono, para o rapaz. E o rapaz não se dava com os pais e ele morava numa pensão. Ele trabalhava na cidade. Eu morava ao lado e tinha que mudar, então eu fiz uma proposta para o Mário: eu dava almoço para ele em troca do aluguel. Eu fiquei sem nada. A patroa vendia roupa mas não dava para pagar o aluguel. Eu fiz essa proposta para ele dele almoçar comigo em troca do aluguel. Fiquei um ano lá morando.

RESTAURANTE
Sociedade no Restaurante Santa Mônica Depois eu fui procurar emprego, fui encontrar o que foi meu sócio no Chopps, o Belmiro, estava montado o restaurante Santa Mônica, no Canal 1 com a praia. Estava lá montado, eu fui lá pedir emprego, ele me deu emprego lá. O Santa Mônica, ainda está lá. Eu fui pedir emprego. Ele falou: "Emprego não, você era patrão agora você vai ser empregado?" Eu respondi: "A situação é essa, que vai fazer, tem que enfrentar." E ele propôs: "Se você puder arrumar um dinheiro, você entra de sócio comigo." Eu arrumei 250 contos em cinco açougueiros, 50 em cada açougue, e entrei de sócio. Ali continuamos trabalhando. No Santa Mônica eu trabalhei cinco anos, de 1955 a 1960. Aí depois nós compramos a outra loja do Trabulsi... Os clientes eram pedreiros, pintores, tinha muita obra na praia. Não tinha almoço, era só lanches. Café, leite, bebidas, caipirinha, cerveja. Eu entrei lá com 250 contos e ele avaliou a casa em 1 milhão e 100. Ele falou, você me dá 250 e fica me devendo 850. Ele falou para eu fazer um contrato particular. Fiz um contrato particular e fiquei devendo 800. Pensei: "Nunca mais vou pagar essa dívida". Mas aí eu falei: "Eu só vou dar esse dinheiro para você, mas eu preciso de 15 mil réis por mês para pagar 5 de aluguel e 10 para pagar os juros desse dinheiro emprestado. Aí ele falou uma coisa que sempre calou na minha cabeça: "Você não vai tirar dinheiro nenhum, você vai tirar dinheiro que precisa, porque isso aqui não é para nem um dia, nem para dois. Você vai trabalhar, vamos trabalhar... Depois que você acabar de pagar, o teu irmão vem aqui, aí nós vamos fazer um contrato social." Mas depois, no calor muito forte no mês de janeiro, e só naquele mês eu fiz uma retirada de 580 contos, mais da metade do que eu devia. Vendia muito sorvete. Não tinha sorvete em Santos, só tinha sorvete Kibon. Então vendia muito sorvete, e o sorvete dá 500%, dá mais que a cachaça. Daí quando eu acabei de pagar, ele chamou o meu irmão e fizemos um contrato social e fiquei com ele 24 anos. Trabalhando eu e ele. Isso foi em 1955 a 60. Em 1960, nós compramos a loja do Capri, na rua Cyra com a Avenida Presidente Wilson e lá montamos o restaurante; vendemos o Santa Mônica para podermos montar o Capri. Capri precisava de muito dinheiro porque era muito grande, só fora tinham 24 mesas, 8 mesas dentro e tinha quatro box. Era muito bonito. Era restaurante, aí já tinha peixe, arroz, diferente. Tinha, aí já tinha mesa, toalha, garçon. Aí era restaurante, o Santa Mônica era lanches. Lanches em pé, mas era lanches. No Capri era restaurante, pusemos pizza porque naquele tempo não havia pizza. Trouxemos a pizza de São Paulo, aí foi um estouro, foi um sucesso. Ficava na praia, Rua Cyra, número 161, está lá até hoje. No bairro do José Menino. Esquina da Rua Cyra com praia, está lá até hoje. Agora é Esfiha, uma porcaria. Tiraram as mesas, fecharam. Brigaram porque quando nós montamos o Capri, nós pusemos 24 mesas de um dia para a noite porque o construtor não deixava por mesa, ele achava que aquele terreno era do condomínio. O Trabulsi ia para São Paulo na sexta-feira. De sexta-feira à segunda nós pusemos 24 mesas cravadas no chão, de cimento armado. Quando ele chegou foi uma briga com o meu sócio, chamou a polícia, foi o diabo, mas as mesas estão cravadas, ficaram cravadas. O Belmiro falou para ele: " Olha Sr. Bassin, o senhor não se incomode que eu falo com os condôminos". Porque a entrada era pela Rua Cyra, não tinha nada com a parte da frente. Mas Sr. Bassin achava que aquilo era dos condôminos porque iam fazer um parque para as crianças ali e o Belmiro falou: "O senhor acha que eu vou deixar por um parque na frente do meu bar?" Deixa para lá que eu falo com os condôminos. Aí nós inauguramos, foi uma inauguração fantástica, muitas autoridades, Dom Idílio, o bispo de Santos foi desatar a fita, o chefe dos bombeiros, o delegado, só abrimos para as autoridades. Depois abrimos para o público. A especialidade era peixe. Eu tinha um cozinheiro muito bom. Nós ficamos um ano e pouco porque era muito serviço. Uma noite fizeram uma coisa lá horrorosa. Estava lotado lá fora. Encheram um saco plástico de cocô com água e jogaram lá de cima, não sei como que foi. A sorte que não quebrou prato nenhum, mas foi cocô para todo lado, freguês, tudo. Chamamos a polícia mas não adiantou nada. Fechamos as portas, recolhemos tudo para lavar, ficamos das 9.00 horas até as 2.00 horas da manhã lavando e arrumando para poder deixar que o cheiro desaparecesse para o dia seguinte poder abrir a casa. Foi tudo, as coisas passam. Ficou muito serviço, 22 empregados, não dava, precisava ter o departamento pessoal, não dava para dois sócios. Abria às 6.00 horas, tinha café. Às 6.00 horas chegava, tinha pão de ontem, punha 20 pães no forno para esquentar, os baianos começavam a chegar para tomar café, pingado. Eram 30 - 50 pingados com pão com manteiga. Naquele tempo não tinha margarina era manteiga, e pão quente. Era que nem macaco quando vê banana. Quer dizer, nunca sobrava pão. Punha no forno pão de ontem, saia tudo. Depois vinha o almoço e a noite era pizza, até 2.00 horas da manhã, todo dia, não dava. Nós ficamos um ano e tanto lá depois...

SANTOS
Temporada Na temporada era mais. Na temporada nem dava vencimento, sempre tinha gente. A temporada é janeiro, fevereiro e até março. Teve uma ocasião que o carnaval foi no dia 14 de março, o carnaval significava fim da temporada. Quanto mais longe ia o carnaval, a temporada demorava mais.

COMÉRCIO
Encerramento do Negócio Depois nós vendemos lá, precisava no mínimo quatro sócios para tocar aquilo. Precisava um sócio só para o departamento pessoal, eram 22 empregados, 22 problemas: um sai mais tarde, outro sai mais cedo, outro vem menos, outro brigou, outro falou isso, outro escondeu o sapato do outro... Numa terça feira de carnaval, meu sócio saiu e me deixou sozinho, com duas caixas. Quase fiquei louco também. Fechei às 2.00 horas da manhã, no outro dia só abrimos de tarde, aí ele chegou. Ele já chegou com a proposta, nem deixou eu perguntar o que tinha havido: "Eu venho para vender minha parte, se você quiser ficar com ela você fica, me paga o aluguel, eu não quero mais, não estou para ficar louco." Falou assim mesmo. "Como vai vender, eu não vou querer ficar aqui também. Eu vou também. Vamos por a venda e vamos para outro lado." Aí pusemos a venda por 10 mil reais, naquela ocasião, vendemos para três espanhóis e saímos. Ficamos parados um ano, propositadamente. Estávamos esgotados de tanto serviço.

RESTAURANTE
Cotidiano no restaurante O restaurante dá muito trabalho, naquele tempo, hoje também. Você vê que só português e espanhol trabalham em restaurante. Outra gente não agüenta esse troço. Hoje já não tem quase, já não existe mais, acabaram todos. Aqui em Santos antigamente tinham umas 10 adegas, que eram restaurantes: a Adega Central, a Adega do Doro, Adega Rio de Janeiro, Adega Pimenta, uma porção de adegas aqui em Santos, acabou tudo também.

RESTAURANTE
Restaurante atual - Chopp do Gonzaga Nos foi oferecida a loja do Chopp do Gonzaga. Essa loja estava fechada há dois anos, não abria nada lá porque quem perguntava, falavam "não pode abrir bar aí". Eles não queriam porque era a entrada do prédio. A entrada social. Mas o construtor fez uma atrapalhada e aquilo virou loja. Tanto que virou loja que ele conseguiu até o "habite-se". Fez dois banheiros, pela lei municipal era obrigado ter dois banheiros. Estava tudo legalizado. Meu sócio foi lá e falou para o síndico que queria a convenção. Eles arrumaram a convenção e naquele tempo a Avenida Ana Costa era social, não tinha negócio nenhum, só tinha cinemas, o resto não tinha bar nenhum, nada disso. Tinha confeitaria do lado ali, a Viena. Como não dizia nada na convenção, na convenção só dizia que não podia abrir casa de carnes, nem casa de peixe nem suas congêneres. Então bar podia abrir. Fizemos o negócio, compramos a loja. Estava abandonada, suja, feia pra burro. Nós abrimos a porta e fomos logo fazer a cozinha. Logo veio a polícia, intimação da polícia municipal, que não podia abrir negócio. "Como não pode abrir negócio?" Aí, o montador era de São Paulo, o Sr. Olímpio, ele pegou o fiscal. Esse montador estava fazendo a cozinha, trouxe o pessoal de São Paulo para fazer a cozinha, já estava fazendo. Aí foi embargado pela prefeitura. Mas veio o fiscal e o Sr. Olímpio falou para o fiscal: "você toma nota das multas, todo dia aí e depois no final eles vão recolher o total." E foi assim, depois abriu e acabou. Aí começou a briga, eu e o condomínio, por causa da chaminé.

COMÉRCIO
Nós fomos até São Paulo em busca de um negócio que não tivesse em Santos. A loja era pequena, uma coisa que não tivesse. Achamos que churrasco daria certo em Santos, porque não tinha. Nós vimos diversas churrascarias. Nós tínhamos que ver uma churrascaria pequena, do tamanho do Chopp para poder montar igual. E foi o que fizemos. Mas então nós tivemos que arrumar uma atração. O Sr. Olímpio falou: "Vamos almoçar no Guaciara que eu me dou muito lá com o dono, vamos ver se ele vai dar uma receita do molho deles. O molho deles é imbatível". Fomos lá, almoçamos, ele nos apresentou, ficamos muito amigos, deu o segredo do molho e deu o churrasqueiro para ensinar como fazia. Ele mandou o churrasqueiro para ensinar o meu churrasqueiro como se cortava a carne, como temperava, como fazia o molho, tudo, tudo. Aí nós começamos e montamos o Chopp, mas pusemos tomada nas paredes todas, pusemos uma no canto para a máquina de café, porque nós íamos tentar o churrasco, se não desse certo íamos montar um botequim de cachaça e café com leite e vender. Naquele tempo era fácil vender, tinha muito corretor. Tinha um espanhol, Sr. Plácido que vendia e comprava bares. Ele vendia os bares, o sujeito ia trabalhando e pagando para ele. Tenho um irmão, esse que é barbeiro, tem um bar no canal 4, comprou do Sr. Plácido, foi ele quem financiou. Ele comprava o bar, entregava e depois pagava por mês para ele. Sr. Plácido, já faleceu. Aí, nós começamos a trabalhar com negócio de churrasco, muito fraco. Primeiro dia um, segundo dia, dois. Aí eu comecei a fazer pizza. Aí a pizza estava dando certo. Foi indo, indo, eu tive que tirar a pizza porque tive que optar pela pizza ou pelo churrasco. Eu achava que era melhor o churrasco porque estava pipocando pizzaria por todo lugar. Eu tinha uma pizza lá chamada brotinho, era individual. Vendia que não tinha igual, mas teve que tirar, porque ia atrapalhar o churrasco. Foi bom tirar porque o churrasco começou a evoluir. Abrimos em 1962, no dia 03 de fevereiro. Quando abriu aquilo foi um sucesso, depois tinha fila dia e noite.

PRODUTOS
Qualidade dos produtos Só uso duas carnes, o contra filé e o filé mignon. Tem lombo, tem frango, mas carnes só as duas. Não pode ter muita carne porque diversifica o negócio. Então começou. O Chopp é Antártica. Eu sou cliente da Antártica desde 1945, quando eu tinha a leiteria Ita, no Campo Grande. Eu vendia cerveja lá e já era Antártica. E até hoje eu sou Antártica. Mas agora com a fusão Antártica com a Brahma, a gente perde todos os direitos. Agora hoje não é ninguém. A gente é um comerciante como outro qualquer, tem o mesmo valor.

CLIENTES
Primeiros clientes Freguês eram os que vinham. Naquele lugar no Gonzaga, não era gente de pequeno valor, pessoal que ia ao cinema. E comércio, churrasco era muito mais barato, essas coisas. Foi pegando, pegando, e estamos lá até hoje. Os clientes vinham depois do cinema, antes do cinema, tinha fila, o pessoal reclamava que tinha que ter casa grande para não ter que esperar. O pessoal que ficava esperando ficava nas banquetas. Pegou. Não tinha mesa, era na banqueta ou no balcão. Mas tinha muita fila, muita fila. Se abrisse uma casa grande, ia acontecer a mesma coisa que aconteceu no Capri, em primeiro lugar eu tenho que arrumar estacionamento, em segundo lugar tenho que admitir mais uns dez empregados.

RESTAURANTE
Dias de movimento Tem dia que é melhor no almoço que no jantar. Agora o que está salvando a situação são as entregas. Agora nós estamos fazendo entregas. Sábado tem dois motoqueiros e domingo tem três. Agora domingo foi um "pega pra capar", me atrapalhou, foram 60 viagens, num período de três horas e mais o salão cheio. Aos domingos, atendo mais de 150 pessoas. Domingo é o dia mais forte mas sábado também trabalha bem. Durante a semana é muito fraco. Agora está horrível porque o poder aquisitivo está ruim, o povo não tem dinheiro. Meu prato é caro. Eu estou entre a cruz e a espada, eu não posso abaixar. Minha qualidade, em Santos não tem igual. Eu não posso abaixar e o pessoal não pode ir porque não tem dinheiro. Tem estacionamento ao lado do Banco do Brasil, mas é pago. É uma hora e meia para cada freguês. Dá para comer, tomar um cafezinho. Mas agora está fraco, vamos levando.

FUNCIONÁRIOS
Empregados Tenho oito empregados, por causa do horário. Tem um que entra às 8.00 horas e vai até as 16.00, entra outro as 16.00 e vai até a meia-noite. Dois na cozinha e dois na copa. SERVIÇOS Serviço de Entregas Esse trabalho começou faz um ano, mais ou menos. Entrega até São Vicente. O motoqueiro cobra 10%. Ele corre a cidade toda e vai até São Vicente. O serviço é rápido, o motoqueiro está lá na porta, a gente fecha a caixa, amarra porque o durex não pega por causa do calor, então amarra com barbante. Amarra a caixa, chama o motoqueiro e cinco minutos chega na casa do freguês, quente. Domingo demora um pouco mais, quando tem muito fluxo, com três motoqueiros não dá. Mas não chega frio não. Nesse ponto não tenho reclamação. Tenho reclamação que ás vezes falta a farofa, alguém que pediu 2 molhos. Manda o motoqueiro passar lá e deixar e pronto. Não tem tido problemas.

EMBALAGEM
Eu tenho uma caixa, eu mandei fazer uma caixa própria para isso, com divisões. Tem três divisões: carne, batata e farofa. E fora da caixa vai o pote de molho fechado. Essa menina estava desempregada, a Kátia, e ela ofereceu que queria fazer uma caixa para servir churrasco para fora. Nós entramos em contato, fez umas. Eu falei para ela: "Eu queria uma caixa, ela tem que ser forrada por dentro e por fora porque leva churrasco e essas coisas." Aí ela inventou essa caixa e ficou muito bonita, muito bonita mesmo. Eu quero uma caixa que chegue na casa do freguês, ele não tenha que tirar para por num prato, eu quero que a caixa chegue na casa do freguês, ele ponha no meio da mesa e o freguês se serve, da caixa para o prato. E ela fez, ficou muito bonita. Mantém o calor da comida.

PROPAGANDA
A situação está tão ruim que a gente não tem nem condições para fazer uma propaganda. Agora tem que fazer uma propaganda na televisão. E é caro. Nunca fiz propaganda É o freguês que fala. O freguês ganha um cardápio, que eu mandei fazer, vai um cardápio na caixa, isso vai muito para fora. Levei lá para o Bonde Turístico, mas vem muita gente de fora, de São Paulo, muita gente. Há pouco tempo veio um casal do Ceará com um mapa, a Avenida Ana Costa, cheia de coqueiro, depois tem uma roda Praça Independência, depois tem um X com uma seta, 512. Foi alguém que veio e indicou para eles. Por enquanto não notei mudança depois da propaganda no bonde. Acho que precisava levar para apartamentos, colocar debaixo da porta. Tem muita gente que nem sabe que tem entregas. Muita gente que vai lá "Ah, eu não sabia que vocês entregavam", aí que falta um pouco de propaganda. Mas não precisa ser propaganda cara, fazer alguns folhetos e entregar nos apartamentos já ajuda. Santos tem muito apartamento, tem muita gente aqui em Santos, que quer comer do Chopp do Gonzaga.

PRODUTOS
Segredo do molho O molho é segredo, eu nem sei... Vão 14 ervas. É muito difícil de fazer, mesmo que a pessoa queira fazer em casa não pode porque leva muito... tem que ser feito em grande quantidade e é para todo o dia, não pode deixar para amanhã. Eu não posso contar. Isso é segredo de estado. Todo mundo quer saber o segredo do molho, Os ingredientes são salsa, cebolinha, louro, orégano, sal temperado. Eu faço um sal que eu tempero a carne. Todas essas ervas eu deixo secar, depois eu trituro elas com a faca, e depois ponho no sal. Faz vinte quilos de sal com aquele molho. O sal fica quatro dias fechado, depois pode começar a usar. O sal eu dou para a senhora. Faz o churrasco em casa com o sal. Não vai tomate. Tomate azeda. Vai óleo, vinagre, limão. O líquido é esse. Mas não pode fazer em casa. Só uso ervas frescas. O louro por exemplo, pode ser seco, mas para picar é perigoso, ele conforme pica com a faca ele vai nos olhos, é perigoso. À tarde, quando não tem serviço, a gente pica o louro com cuidado para ficar que nem farinha. O mais difícil é o louro.

RESTAURANTE
Cardápio do restaurante Tem lombo, tem frango, tem lingüiça. Os acompanhamentos são arroz, batata frita e farofa. Salada é o molho de cebola. O freguês chega e já pede o molho.

COMÉRCIO
Relacionamento com o sócio e continuidade do negócio Belmiro foi meu sócio durante 24 anos. Tivemos três casas: Santa Mônica, Capri e esse aqui o Chopp. Aí ele faleceu e ficou eu e o Zé. O Zé é meu filho e já está lá há uns 20 anos. Ele se adaptou bem, hoje ele toma conta com o filho, meu neto.

LAZER
Viagem Eu fui à Espanha em 1982, mas não fui na minha terra porque era muito longe. Eu fui numa excursão e para eu ir na minha terra eu perdia Portugal e só ia encontrar a excursão na Itália. Então eu preferi. Se eu fosse na minha terra, não ia conhecer ninguém... 50 anos

COMÉRCIO
Formas de pagamento O serviço que faz hoje, fazia antigamente, a mesma coisa. Antigamente era duplicata. Hoje é cada um para si e Deus para todos. Não há mais aquela confiança comercial, mesmo as firmas grandes, que davam no fim de ano, chaveiros, um brinde, hoje não dão mais nada.

ATENDIMENTO
Bolacha do Chopp A bolacha do Chopp antigamente era muito boa, era grossa. Hoje a bolacha é um papel. E para dar é difícil, tem que pedir uns três meses antes para dar uma caixa. Antigamente davam a vontade, hoje não dão mais nada. Primeiro dava para guardar, porque dava para trabalhar com uma bolacha dois ou três dias, agora não dá, usou o primeiro dia, joga fora. Aí pede mais. A única coisa que a Antártica está dando é isso, bolacha. Mas é muito ordinária, não vale nada. Mas não tem outra coisa, vai se levando.

COMÉRCIO
Transformações no comércio Mudou, mudou muito. O trabalho é praticamente o mesmo, não houve mudanças, houve mudança no dinheiro. O dinheiro foi enfraquecendo, enfraquecendo e hoje não há mais dinheiro. Antigamente a gente fazia negócio, comprava e vendia, independente do bar, a gente comprava um apartamento, vendia, mudava do apartamento para outro. Hoje não.

FUNCIONÁRIOS
Relacionamento com empregados Sinceramente, não sou patrão. Eu gosto dos empregados. Eu dou toda liberdade aos empregados para que ele de o retorno ao patrão, porque se a gente for: eu sou o patrão, você tem que obedecer, é pior. Você não pode beber a guaraná se não vai ter que pagar, aí ele vai beber escondido. Então dou liberdade aos empregados. Eles não abusam pelo fato deles terem a liberdade. É uma questão psicológica. Se a gente dá liberdade para o empregado ele acaba nem pegando o que não quer. No almoço eles bebem chopp, outro, guaraná, cada dia eles pegam o que querem. Isso é livre. Tanto que eles gostam de mim. Tenho oito. Eu tenho empregado que era o cozinheiro, que faleceu há pouco tempo, 36 anos comigo. Ele faleceu bobamente. Se aborreceu lá com o filho e caiu. Eu tenho um empregado que era ajudante dele, está com 25 anos já, agora é o chefe. Eles que tem a chave. Eu não tenho chave da casa. Quando eu chego primeiro que eles, eu espero eles para abrir.

HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO
Abre 8.00 horas para entrar os empregados e as mercadorias. Mercadoria até meio dia só. Funciona direto. Às quatro horas é a mesma coisa que ao meio dia. Durante a semana às vezes tem duas entregas, nenhuma, quatro, de noite tem cinco ou seis. Acho que falta um pouco de propaganda.

PRODUTOS
Compras Eu faço as compras. Até meio-dia são feitas as entregas. Depois não deixo entrar porque é muito apertado e fica chato entrar mercadoria e o freguês sentado. Ao meio dia começa o serviço, e vai até meia noite.

CLIENTES
Clientes de outras localidades Vem muita gente de fora. Todo dia tem gente de São Paulo. Gente de São Paulo, que vem aqui a negócios, Chopp do Gonzaga. Tem muita gente que vem do Guarujá, passa pelo Chopp, almoça e depois vai para o Guarujá. Tem muita gente que vai para o Guarujá para São Paulo, passa no Chopp almoça e vai para São Paulo.

PRODUTOS
Fornecedores Eu trabalho com dois frigoríficos grandes: com a Perdigão, com a Multicarnes e a Mar Frio, são frigoríficos grandes e eles fornecem, problema é pagamento só. Hoje eles dão sete dias, sete dias não dá para nada. Sete dias vence, uma semana não dá para nada. A gente também paga juros de banco.

LAZER
Atividades de lazer Quando minha senhora era viva, eu saia, ia ao cinema, ia passear. Mas depois que ela faleceu eu não saio mais de casa. Ia no futebol, jogava também. Joguei futebol de praia, naquele tempo tinha clube de praia, campeonato, joguei. Participava de campeonato. Eu tenho uma carta em casa, uma carta feita pelo jornal A Tribuna me elogiando, eu jogava bem.

FAMÍLIA
Doença da esposa Depois que minha senhora faleceu, eu perdi o pique, faltavam três meses para fazer 50 anos de casado, já tinha até programado de ir a Bahia. Eu tinha ido a Bahia quando fiz 25 anos, eu queria voltar a Nossa Senhora, não deu. Três meses ela morreu estupidamente, morreu, nunca pensei que ia acontecer isso. O culpado foram os médicos, foi incapacidade dos médicos. Ela teve uma espécie de tremedeira, eu chamei o Sancor: "Vou dar uma injeção nela, ela vai descansar, ela está nervosa e tal." Mas eu telefonei para o médico dela que era o Dr. Ricardo, filho do Dr. Jair de Oliveira Freitas. Ela era cliente do Dr. Jair, o Dr. Jair faleceu, ficou o Dr. Ricardo. Telefonei para ele e ele mandou ir para a Beneficência. A ambulância do Sancor estava lá e levaram ela. Teve oito dias lá e não melhorava, teve uma reunião de médicos para verificar a situação dela. "Não tem problema de nada, D. Rita a semana que vem vai embora", levaram aquilo em banho-maria e uma tarde eu estou com ela, ela estava meio dormindo, eu belisquei ela, chamei nada. Sai correndo, chamei o médico de plantão: "A Dona Rita está em coma, vocês não vêem isso aí?" foi correndo lá, veio a maca, foi para a UTI. Foi para a UTI e acabou, a gente não vê nada, não tem com quem falar e acabou falecendo estupidamente. Ela também sofreu muito. Eu fiz nela três operações: primeira coisa que eu fiz foi operação da vista porque ela era estrábica, depois os seios dela eram muito grandes, operou os seios; depois ela fez uma operação na barriga, uma operação violenta, 23 pontos na barriga, ela queria fazer porque estava com a barriga grande, também fez. Ela era muito corajosa. Se falasse que a operação tinha que ser hoje, ela falava já. Ela não tinha medo, ela não deixava para amanhã. Muito cuidadosa, muito limpa, muito limpa, muito limpa. Tomava seu banho todo dia, sempre perfumada. Foi uma pena. Eu perdi o pique. Fez seis anos agora.

CASA
Residência atual Eu moro no Parque Balneário, hoje, não faria mais isso. Eu financiei pelo Banco Itaú. Paguei. Depois teve um tempo que estava para terminar o prazo o Itaú me chamou se eu queria liquidar, aí eu liquidei. Hoje eu moro lá. É um apartamento, em frente ao mar, no Parque Balneário, na esquina. Moro com meu filho, com minha nora; me dou muito bem com eles, eles me adoram. Eu estou muito bem, tenho meu quarto separado, tenho minha televisão, telefone, não falta nada. Só que não tenho vontade de sair.

COTIDIANO
Hábitos Antigamente, quando eu trabalhava a noite, tem gente que trabalha num bar, sai e vai beber noutro bar, contar vantagem. Eu nunca tive esse costume. Eu não sou homem de sair do bar e ir tomar um chopp noutro bar. Eu saio do serviço e vou para casa. Em casa, falava com a patroa, via televisão, saíamos, tinha aniversário de alguma pessoa. Agora perdi o pique de tudo. As família não se comunicam mais porque ela, a D. Rita, era muito extrovertida, muito animada. Vou à praia todo domingo, sábado, faço uma caminhada, até a Ponta da Praia, ando 10 km. Ir a praia higieniza tudo, vê tudo, vê seios de fora, seios de dentro, vê jovem, vê velho, seios caídos, seios em pé, vê de tudo.

LAZER
Pesca Nunca gostei de pescar. Eu tive uma experiência uma vez, não quero nem ver o mar. Eu fui pescar com uma turma, eu era solteiro nessa ocasião, pegamos os picarés, redes, levamos cachaça, groselha, mortadela e fomos para a Praia Grande. Chegamos lá, tem o que chamam calão - que é um pau para pegar a rede e ir por dentro. Falaram "Quem vai por dentro?" "Vou eu." Eu era o mais pequeno da turma e fui por dentro, peguei o calão e fui andando, fui andando, no escuro, era meia noite. Quando a água estava por aqui, veio uma onda e eu perdi o calão, perdi o pau. Comecei a me debater, começou a entrar água na boca, e peguei o calão e vim embora, nunca mais. Tinha que ser eu, o mais pequeno para pegar o calão de dentro? Eu também não sabia o que estava fazendo. Agora eu tenho ojeriza de mar.

AVALIAÇÃO
Avaliação da vida Não mudaria nada, na minha vida. Eu Graças a Deus sempre tive boa saúde, nunca me faltou nada; fui muito bem casado, minha companheira foi fora de série. Tudo que eu desejei, eu tive. Eu sempre trabalhei, nunca tive férias, sempre trabalhando. A gente que trabalha nunca teve tempo de ver outras coisas. A única coisa que eu tive é que eu fiz parte do Sindicato e viajei muito. Fui do Sindicato dos Hotéis e Restaurantes.

LAZER
Viagens Fui a Bahia três vezes, fui a Pernambuco duas vezes, fui ao Ceará, fui a Natal. Fui a Belém do Pará, lá comi uma sopa chamada tacacá, num carrinho. Perguntaram para mim: "O senhor quer quente ou frio?" "Eu quero frio". É um negócio que eles põe a sopa numa tigela e depois eles põem um negócio dentro, eu não quis, não sabia o que era. A patroa não quis, eu não sei como lava aquilo. A tigela era uma colher de pau, não sei se para cada pessoa é uma colher, ou se eles limpam, a mesma colher. A patroa não quis, nesse ponto a patroa era muito escrupulosa, não era qualquer coisa que ela comia. Viajei muito com ela, fui à Europa: Espanha, Portugal, Itália, Inglaterra, França. Na França eu fui naquele Cabaré que tem lá o Moulin Rouge e tem outro. Eu tive também naquele que tem figuras, o Museu de Cera, em Londres. Como a gente fazia parte do sindicato, nós tínhamos 50% de desconto, então saía barato.

PRÊMIO
Eu ganhei uma viagem para a Europa mas eu não fiz. Eu preferi em dinheiro. Naquela época era muito dinheiro, parece 2.500 reais, cruzeiros, sei lá, mas era muito dinheiro na ocasião, eu tive medo de trazer o dinheiro no bolso, então eu abri uma conta e através do banco eu recebi aqui.

AVALIAÇÃO
Depoimento Achei ótimo, fui muito bem recebido, só tenho que agradecer. Muito obrigado pela oportunidade que vocês me deram. Muito obrigado.

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