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História

Cinema, guerrilha e política

História de: Hildebrando Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Hildebrando nasceu em Uruçuí, com 10 anos se mudou para Xambioá. Os primeiros anos em Xambioá não foram fáceis, a família passou fome e muita dificuldade. Nessa história, Hildebrando relembra os cinemas que fazia em casa, a Guerrilha do Araguaia e a relação com o exército, que durante esse período se instalou na cidade. Relembra também o acidente que o fez perder um braço e as disputas políticas da cidade.

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História completa

P/1 – Hildebrando, a gente vai começar a entrevista. Você pode falar o seu nome todo?

 

R – O meu nome é Hildebrando Rocha. Nasci no Piauí, cidade de Uruçuí. Tenho 59 anos, nasci em 1959, no dia quatro de junho. Vim pra Xambioá em 1970, me considero filho de Xambioá.

 

P/1 – E você viveu 14 anos praticamente na sua cidade natal.

 

R – Não, na minha cidade natal eu vim embora para aqui com dez anos de idade.

 

P/1 – Dez.

 

R – Cidade natal. É, cheguei aqui em 1970, com dez anos de idade.

 

P/1 – Certo, com dez anos. E você passou praticamente a sua infância naquela cidade.

 

R – É, a minha infância foi lá. Adolescência já aqui em Xambioá, né?

 

P/1 – Que lembranças você tem da sua infância?

 

R – Ah, brincadeira de menino mesmo, brincando de carrinho, jogando peteca, brincando de baladeira, passarinhando.

 

P/1 – O que é baladeira?

 

R – Baladeira é estilingue. Alguns estados chamam estilingue, lá no nosso estado chama baladeira, que é atirar pedra em passarinho.

 

P/1 – Como era o lugar que você morava?

 

R – Uruçuí, na beira do rio Parnaíba. Rio Parnaíba, na margem do rio, do outro lado chama-se Benedito Leite, Maranhão.

 

P/1 – E dava pra nadar nesse rio?

 

R – Dava, cansei de atravessar o rio nadando (risos). De menino sabe como é as coisas, menino gosta de aventura, né?

 

P/1 – E teve alguma história desse rio que você até hoje lembra?

 

R – Tenho. Meu irmão que morreu afogado lá, morreu e viveu, né? Nós estávamos pescando e ele banhando lá no remanso caiu. A gente sentiu falta dele, achou que ele tinha ido embora pra casa, né? Mas ele não tinha ido embora pra casa. Aí a gente descendo pescando, inclusive estava eu, meu irmão, o finado Salmeiron, a gente estava pescando quando a gente vai descendo, a gente estava pescando na beira do cais e vai descendo o rio caçando um lugar melhor, né? E lá embaixo, mais ou menos distante de 500 metros, a gente parou, tinha um rapaz que buscava água no jumento com aquelas duas ancras do lado – você conhece ancra, né? Duas ancras. Então ele estava apanhando a água ali com o jumentinho, ele entrava uma parte do jumento da água, aí ele afogava as ancras, enchia e saía. E nossos anzóis estavam enganchando frequentemente, sabe? O meu, o do Salmeiron, do Juvenal que era o gerente do banco que estava pescando com nós, o gerente do banco de Uruçuí, a gente estava pescando com ele. E os anzóis só enganchando e a gente pediu ao Juvenal, esse rapaz do jumentinho, que tirasse aquele trem que estava enganchando lá, a gente via que era uma palha. E não era nada de palha, era a cabeça do meu irmão lá no remanso, o cabelo dele ficava fazendo aquele redemoinho, né? E quando ele pegou lá que levantou: “Não, é um menino”. E era meu irmão que estava afogado, tinha morrido afogado. Ele pegou ele e entregou pro meu irmão Salmeiron. Quando o meu irmão pegou ele, ele soltou ele assim, altura mais ou menos da altura dele, jogou ele no chão desesperado. “Meu irmão morreu! Meu irmão está morto! Meu irmão está morto!”. Ficou todo mundo desesperado. Eu não gosto de contar isso porque eu fico um pouco emocionado, sabe? Mas é a realidade que eu estou contando. Então ele ficou morto, o gerente pegou, o seu Juvenal, um cara muito experiente, era o gerente do Banco do Brasil lá. Levou ele até o posto de saúde, nesse tempo não tinha hospital lá, tinha um posto de saúde. Levou ele lá, examinaram ele e disseram: “Não, aqui está morto”. Só o coração estava batendo, né? Mas o seu Juvenal, um cara muito experiente pegou ele lá das mãos dos agentes de saúde, baixou a cabeça dele e começou a sair água e lama. Nesse tempo o rio estava na cheia, foi tempo de inverno, estava enchendo o rio e a água fica muito barrenta, então ele bebeu muita água. E ele botou aquela água pra fora quando ele baixou a cabeça dele, ele começou a vomitar aquela água, descendo água com lama, né? E ficou. Mas só que ele não normalizou, continuou só o coração batendo. Levamos pra casa e a gente: “Não temos como fazer nada, só se levar pra Floriano”, fica distante 60 léguas – lá nós chamamos légua, né? Sessenta léguas pra Floriano, de Uruçuí até lá. E a gente, nesse tempo fraco de condição, a gente ficou com ele lá e a gente colocou lá no quarto, em cima de uma cama esperando viver ou morrer. E o pessoal lá de sentinela, os vizinhos todos de sentinela lá observando. Quando foi cinco horas da manhã todo mundo dormiu, quando alguém acordou não viu ninguém na cama onde ele estava deitado. Aí: “Oxente, cadê o menino?”, o Valdeon era o meu irmão mais novo. “Cadê o Valdeon? Sumiu”. Todo mundo desesperado, saímos procurando para um canto e outro, aí nós achamos ele lá na igreja. Chegou lá ele estava lá na porta da igreja: “Rapaz, nós estamos te procurando, o que foi rapaz?" "Não, eu perdi meu dinheiro, deixei aqui na igreja”. Ele estava com uns trocados no bolso, aí disse que tinha perdido na igreja. Aí todo mundo, mobilizou a cidade todinha. E todo mundo, era aquela multidão de gente levando ele, todo mundo pra casa. E aquele dia que era tristeza se transformou em festa, né? E ele ressuscitou aquele dia, dia de sábado de aleluia. E a gente ficou muito feliz e essa é a história dele que aconteceu.

 

P/1 – Nossa! Interessante ele dizer que perdeu dinheiro na igreja, né?

 

R – Ele perdeu dinheiro na igreja. Eu acho que o espírito dele andou vagando por aí, não sei, a gente não entende nada dessas coisas espirituais, mas alguma coisa existe que tem relação com as coisas espirituais, né? Né não? É.

 

P/1 – Que lembranças você tem do seu pai ou da sua mãe?

 

R – Ah, meu pai era um homem bom demais pros filhos. Tem o carrancismo dele, né? Naquele tempo o carrancismo dominava. Papai tinha um carrancismo absurdo, mas ele era muito amoroso com os filhos, só não demonstrava que tinha amor pelos filhos. O negócio dele era dizer as coisas muito duras pra gente, mas quando a coisa era do lado emocional, ele às vezes até chorava. Mas era um homem muito bom, era sapateiro, meu pai foi sapateiro, foi barbeiro. Hoje chama cabeleireiro, mas antigamente a gente chamava de barbeiro porque fazia barba e cabelo. Então muito bom, meu pai sofreu muito com uma deficiência numa perna, ele não queria amputar a perna e era um problema de trombose na perna dele, então não queria amputar, ele sofreu muito até o dia dele morrer. Ele viveu até os seus 78 anos de idade, morreu por coincidência do destino mesmo, né?

 

P/1 – Você aprendeu alguma coisa dessa parte, ou como sapateiro ou como barbeiro com ele?

 

R – Não, eu fui muito incutido com a parte mecânica, eletricidade. Inclusive hoje eu sou mecânico, sou técnico mecânico, sou eletricista instalador e sou eletricista de automóveis.

 

P/1- Mas essa parte ele não fazia.

 

R – Não, essa parte ele não fazia, não.

 

P/1 – Quantos irmãos vocês são?

 

R – Nove. Quatro homens e cinco mulheres.

 

P/1 – E da sua mãe, que lembranças você tem?

 

R – Minha mãe foi uma mulher muito trabalhadora. A gente veio do Piauí pra cá, foi muito atribulada a nossa viagem. A gente veio de ônibus até Carolina do Maranhão e de lá a gente veio numa gaiola de transportar animais. Chegamos aqui, de lá até aqui gastamos dois dias pra chegar aqui, a estrada muito ruim. Então foi muito sofrimento. A minha mãe sempre foi uma guerreira. Meu pai adoeceu, o serviço dele era aquele, barbeiro. Ele deixou de ser barbeiro e foi ser sapateiro, consertando sandália e colocando sola em sapato, aquela coisa e foi levando a vida. Minha mãe foi trabalhar aqui no mercado, no restaurante.

 

P/1 – Aqui já.

 

R – Aqui em Xambioá. Pra ajudar no dia a dia, a necessidade da gente porque a gente era muito irmão, mas só tinha dois que eram mais, tinham a idade de 16, 18 anos e já ajudavam um pouquinho também, mas não era o suficiente. Então minha mãe trabalhou muito anos naquele mercado municipal aqui em Xambioá vendendo comida, comida caseira. E aí foi que ela deu o estudo pra nós, os que queriam estudar ela manteve, igual meu irmão, o Salmeiron, mais velho, estudou em Teresina. Minha irmã Zenilde estudou também, ela só não foi em Teresina, estudou em Araguaína, ajudou muito nós aqui. Ela foi um esteio grande, minha irmã e meu irmão também foram um esteio muito grande pra nós, ajudaram muito meu pai e minha mãe. A gente era menor, não tinha nenhum tipo de atividade a fazer pra ganhar seu dinheirinho, mas eles eram quase maiores de idade, já tinham outra formação diferente.

 

P/1 – Essa viagem que vocês fizeram, ela não foi pelo rio?

 

R – Não. A situação, a gente era até bem de vida lá, a gente tinha hotel, tinha um comércio muito grande, a gente veio à falência de tudo isso aí e meu pai opinou ir embora. Alguém falou pra ele que tinha um lugar muito bom aqui no estado do Goiás, que naquele tempo aqui era Goiás, inclusive eu tinha um parente aqui. Esse parente dele convidou ele, foi o meu tio Zé Monteiro que convidou ele e ele arribou com a família de lá pra cá. A gente inclusive ficou aqui em Xambioá na casa dele por uns 15 dias, morou aqui na beira do rio por uns nove dias também. Mas a condição fraca, não podia pagar aluguel. Teve uma pessoa daqui de Xambioá, um prefeito, antigamente ele era prefeito aqui, o seu João Saraiva dos Santos, ele procurou minha mãe se ela queria. Não, não foi ele, perdão. O senhor João Saraiva foi uma outra história. Foi o seu Horácio Maranhão, que ele tem uma terra aqui depois do cemitério, do outro lado do cemitério, procurou se ela queria morar lá, tinha umas casas, tinha um pessoal dele que morava lá, amigo dele que estava lá. E lá tinha algumas casinhas, era de palha, fraquinha, mas a boa vontade dele serviu muito. A gente foi pra lá, a gente não tinha costume em viver assim no mato, tal. E a situação nossa era muito triste, que lá comemos até mambira, mambira é um lapixó que o povo chama, né? (risos)

 

P/1 – Qual que é?

 

R – Lapixó.

 

P/1 – O que é lapixó? (risos)

 

P/2 – Tamanduá. Tamanduá-mirim

 

R – Lapixó chama mambira, chama... então a gente comeu aquele trem lá. Minha mãe foi quebrar coco, nunca tinha quebrado coco na vida e aprendeu a quebrar coco. E pra dar o sustento pra nós. E meu pai foi fazer fumo de corda com meu tio Zé Monteiro, ele vinha de lá do fundo do cemitério pra lá todos os dias pra casa do meu tio fazer aqueles fumos de trança lá pra vender, trabalhando com meu tio lá. E a gente ficou lá, levou aquela vida naquele lugar.

 

P/1 – Você falou que vocês tinham um hotel.

 

R – Tinha, hotel lá em Uruçuí.

 

P/1 – Quando criança o seu lugar de moradia era perto do rio.

 

R – Era perto do rio, é.

 

P/1 – E tinha o hotel.

 

R – Tinha o hotel.

 

P/1 – Que lembranças você tem dessa época? Do hotel?

 

R – Tenho lembrança que a gente vivia bem, tinha tudo o que queria, tinha alimentação boa, tinha tudo. Vestia do jeito que queria. Minha mãe era muito cuidadosa com isso, a gente frequentava a igreja também, ela tinha muito cuidado, a gente ir pra igreja. E sempre estava bem arrumado pra participar das coisas na cidade.

 

P/1 – Quando você chegou aqui qual foi sua impressão, sua sensação?

 

R – Era menino, quando eu vi o rio eu achei que já estava na minha cidade de novo (risos). É (risos). Achei que já estava na minha cidade, eu vi o rio só mais largo, mas me deu muita alegria de ver isso aqui.

 

P/1 – Você falou que a viagem, eu perguntei se foi pelo rio e você disse que não.

 

R – Não. Não foi pelo rio, nós viemos de ônibus, atravessamos o rio Tocantins em Carolina do Maranhão. De lá viemos numa gaiola até Xambioá, gaiola de transportar animal.

 

P/1 – Como é que foi essa viagem nessa gaiola? Vinha no meio dos bichos?

 

R – Não, essa só as fezes do animal tinha dentro, mas muito cheiro ruim. Mas quando você está precisando das coisas, menino não enxerga nada dessas coisas, mas a minha mãe chorava dia e noite dentro do carro, meu pai conformando ela, aquele negócio, difícil, né? Estou até um pouco emocionado (risos).

 

P/1 – É, foi um momento intenso, né?

 

P/2 – A questão do teu pai confortar, consolar sua mãe significa que ela veio contra a vontade?

 

R – Não. Eles eram muito unidos, papai e mamãe eram, tudo o que ele fazia ele combinava com minha mãe, tudo era bem combinado, combinava e funcionava, né? Mesmo que ela estava contrariada com alguma coisa mas nunca demonstrou pra nós. A primeira via que nós chegamos é Araguaína, nós passamos dois meses em Araguaína.

 

P/1 – Passaram lá os primeiros dois meses?

 

R – Dois meses em Araguaína, sofrendo muito, passando fome, né? Eu e meus irmãos íamos ali por Lontra pescar cará e iú nós matávamos de flecha, igual índio. E vendíamos, vendíamos o cará, vendíamos o iú pra gente comprar o arroz. O que sobrava a gente comia, os peixes mais ruins que não dava pra vender a gente comia com arroz. Minha mãe chorava dia e noite.

 

P/1 – Ela ficou triste com a situação, né?

 

R – Ficou. Ela perdeu 29 quilos durante dois meses.

 

P/1 – Nesses dois meses!?

 

R – Foi.

 

P/1 – Hildebrando, vocês ficaram lá que seria a primeira tentativa.

 

R – Foi. Depois esse parente nosso convidou pra gente vir pra cá, né? Aqui onde a gente sofreu bastante mas a gente tinha uma alegria muito grande só em estar na beira desse rio aqui a gente não passava tanta fome porque a gente pescada, pegava o peixinho, comia. E lá tinha a casa, até pra falar a verdade lá quando a gente morava em Uruçuí, nem feijão a gente comia: “Não, não gosto de feijão”. E aqui a gente comia feijão com farinha, comia tudo (risos).

 

P/1 – Qual o nome do seu pai completo?

 

R – Mariano José da Rocha.

 

P/1 – E da sua mãe?

 

R – Joana Moreira Rocha.

 

P/1 – Ela é viva?

 

R – Não, faleceu tem muitos anos. Ela faleceu em 1980 e meu pai faleceu em 1990.

 

P/1 – Você chegou a frequentar escola?

 

R – Frequentei sim. Eu fiz até o quarto ano, chama primário, né? Até a admissão. Naquele tempo pra sair do quarto ano a gente tinha que passar pela admissão pra ir pro ginásio, eu fiz até admissão.

 

P/1 – Você estudou onde, aqui ou lá na sua cidade?

 

R – Eu estudei lá como criança e aqui estudei como adolescente.

 

P/1 – Que escola, você lembra o nome?

 

R – Escola municipal São Judas Tadeu. Estudei na escola José Bonifácio e estudei na Paróquia São Miguel.

 

P/1 – E dessas escolas, como é que você lembra delas?

 

R – Muito boas. As professoras muito competentes. Eu classifico como todas são boas, municipal, estadual.

 

P/1 – Mas que lembrança? Você tem alguma lembrança da escola daquela época?

 

P/2 – Alguma fato marcante.

 

R – Da escola? (silêncio)

 

P/2 – Danação de menino.

 

R – Não, eu era muito traquino, eu fazia muita coisa errada.

 

P/1 – Então conta alguma (risos). Ele está escolhendo qual delas.

 

R – Não, mas eu... A danação era o que todo menino faz. É brincar, jogar pedra, era querer namorar as meninas (risos).

 

P/1 – Na escola já.

 

R – Na escola, é, aquele negócio. Criança não sabe: “É, meu namorado”, aquele negócio. Eu tinha aquela curtição com as meninas.

 

P/1 – Tinha alguém especial que aconteceu alguma coisa pra contar aqui pra gente?

 

R – Essa história vamos deixar passar (risos). Não, deixa passar isso daí.

 

P/1 – Teve algum professor ou professora que foi mais, de certa forma, especial pra você?

 

R – Tinha. Especial assim, como professora?

 

P/1 – É.

 

R – A dona Nilza, foi uma grande professora. A dona Nilza, esposa do seu James aqui da cidade. E tem uma professora que me marcou muito também, eu não sei o sobrenome dela mas chamava Toinha, Toinha do seu Roque, que morava ali, abaixo da ladeira da igreja, me marcou muito, uma professora muito bacana. A dona Anália também foi uma professora muito boa.

 

P/1 – Essa Toinha marcou por quê?

 

R – É porque era boa demais, era conselheira, sabe? Ela era uma pessoa que a gente fazia tanta danação e ela não brigava, ela só chamava nós, abraçava, beijava e a gente terminava ficando bom com aquilo, sabe? Ela não brigava, era coisa boa demais. Então eu acho que o melhor jeito de se tratar um aluno é com carinho. Porque se, como é que diz? Se você tratar com ignorância o aluno ele se revolta. É como tem uma passagem na bíblia que diz assim, na bíblia sagrada diz assim: “Não irrite seu filho para que ele não se revolte contra você”. Essa professora fazia de acordo com a bíblia sagrada, a dona Toinha. A dona Nilza também, era um pouco agitada mas era uma grande professora. A pessoa que não aprendesse com ela não aprendia com ninguém, a dona Nilza.

 

P/1 – Na sua juventude agora, já que você falou que namorava bastante. Não, preferiu pular essa parte (risos), você tinha amigos? Como é que vocês se divertiam?

 

R – Ah, aqui nós nos divertíamos muito, de várias maneiras. Eu gostava de jogar bola, eu gostava de passarinhar, passarinhar é aquilo que eu te falei com estilingue, jogava pedra de badogue.

 

P/1 – O que é badogue?

 

R – Badogue é um arco com cordão que você coloca pedra nele e joga. Ele é igual uma flecha, ele não tem a flecha, mas tem a pedra, você coloca a pedra e puxa ele e joga. Você tem que treinar bastante pra alcançar o alvo. Então eu brinquei muito com aquilo. Eu tinha uma coisa que eu fazia também desde criança, por isso que eu incuti com a eletricidade, mecânica, eu fabricava, eu fazia filme, eu fazia os desenhos, aqueles desenhos de livrinho, eu pegava e recortava eles.

 

P/1 – De gibi?

 

R – De gibi. Recortava eles com a gilete. E o que eu fazia? Colocava o foquinho de uma lanterna aqui, eu fazia a maquinazinha como se fosse e eu fazia, eu ficava de trás dele, colocava uma tela com um pano e aí colocava o papel na frente, o desenho e saía lá na tela e o pessoal ficava lá no outro lado da tela assistindo. Passava filme de desenho animado, fazia vários filmes, era muito criativo com essas coisas. Aí fui tomando gosto com aquilo, de fazer, mexer com eletricidade, fazia os ventiladorzinhos, fazia de motor de radiola, né? Pegava o motor de radiola e fazia uma paletazinha ali, não ventava quase nada, mas pelo menos ficava rodando igual cinema, a gente via antigamente, e deixava um monte de motorzinho com as paletinhas rodando, tudo tocado à pilha de lanterna. Eu fazia um caixote de pilha, pelo menos com umas 20 pilhas assim, aí ligava aquilo tudo lá, era o foquinho da camerazinha, né, era as lâmpadas, fica tudo ligado nele aqui, tudo funcionando. E eu ganhava dinheiro com aquilo. Aqui já foi, até o prefeito foi assistir, o finado Manuel Dias, Nonato Carlos, ele eu tenho ainda como testemunha pra contar isso daí, o Donato Carlos, que ele está vivo até hoje, né? Se alguém quiser procurar ele pode procurar que foi verdade isso aí.

 

P/1 – E você era rapaz?

 

R – Não, eu tinha uma média de 13 pra 14 anos de idade.

 

P/1 – E fazia na sua casa?

 

R – Fazia na minha casa, era.

 

P/1 – E eles iam assistir?

 

R – Iam assistir. Até o prefeito foi lá assistir, o finado Manuel Dias, o Donato Carlos, um monte de gente foi assistir. E aí a meninada ia e eu ganhava meus trocadinhos com aquilo ali. Eu fazia a casinha bem feitinha, toda forrada de papelão assim (risos).

 

P/1 – O pessoal entrava ali?

 

R – Entrava, tinha cortina, tinha tudo, as cadeirinhas feitas de banquinho, arrumadinho (risos). Eu desenhava, gostava muito de desenhar, fazia o desenho desses helicópteros aqui no tempo da guerrilha que tinha aqui, eu fazia esses desenhos dele passava na tela, fazia tudo. Era um tempo que eu vivi, foi um dos momentos muito bons da minha vida esse daí.

 

P/1 – E você tinha alguma ideia? De onde você tirava essas ideias?

 

R – Eu acho que isso vem de berço porque eu sempre fui incutido com as coisas elétricas. Eu via assim funcionando e eu tinha curiosidade de, eu via o ventilador funcionando, quando eu via um quebrado eu abria ele pra ver o que tinha dentro, tudo ali. Por que faz funcionar isso aqui, por quê? E aí você tem que entender por que funciona. O de radiola mesmo, tem um cara que colaborou muito comigo, o senhor Raimundo da eletrônica, ele sempre deixava, me dava um motorzinho de radiola: “Olha, isso aqui funciona por isso e por isso. Isso aqui é assim, assim”, então eu fui tomando gosto com aquilo. E foi bom demais, uma coisa que eu brinquei muito com isso aí. Hoje eu sou eletricista, instalador, sou eletricista de automóveis, sou mecânico. Então é uma coisa que eu faço porque eu gosto mesmo.

 

P/1 – Dizem que já teve um cinema aqui. Teve?

 

R – Teve.

 

P/1 – Você lembra?

 

R – Cinema do... Lembro, assisti muitos filmes lá. Cinema do seu Manuel Matos.

 

P/1 – Como é que apareceu esse cinema aqui na cidade?

 

R – Esse cinema, eu não lembro como apareceu, eu sei que quando eu cheguei aqui em Xambioá já existia ele, já existia o cinema do seu Manuel Matos. A gente ia assistir, era um... a gente assistia muito filme de faroeste, até eu lembro dos filmes tudinhos. Filmes de faroeste, do Django, que tinha o bandidão Fernando Sancho (risos). Fernando Sancho que era um bandidão, né? Naquele filme até filme de sexo já passava, é, só para maiores de 21 anos naquele tempo (risos), criança não podia passar nem perto.

 

P/1 – Aí vocês não podiam entrar.

 

R – Aí a gente não podia, não, não tinha como entrar. Mas é aqueles filmes de Maciste passou muito na tela. Os Gladiadores, tudo isso passava na tela lá e era novidade pra nós, enchia o cinema.

 

P/1 – Pagava?

 

R – Pagava.

 

P/1 – Dava pra ir quantas vezes?

 

R – Pra ir como assim, quantas vezes?

 

P/1 – Vocês conseguiam ir quantas vezes no cinema?

 

R – A gente só ia mesmo no final de semana. A gente atacava os pais da gente pedindo dinheiro, eles brigavam com a gente mas, de tanto chorar, pedir, eles davam um dinheirinho pra gente e a gente ia assistir o filme lá (risos).

 

P/1 – Você lembra quando acabou o cinema?

 

R – A época eu não lembro, não, mas foi muito triste pra nós quando acabou. Porque aí já veio a televisão, começou a televisão. Mas ele acabou antes de chegar a televisão pra cá, muito antes. Eu mesmo fiquei triste com aquilo, gostava muito, parou aquele trem, parou de funcionar. E logo veio a televisão também, foi esquecendo também daqueles momentos.

 

P/1 – Você lembra da sua primeira namorada?

 

R – Eu não vou falar porque a minha mulher é muito ciumenta, se eu falar dela, Ave Maria, aí vai ter (risos).

 

P/1 – Então como você conheceu sua esposa?

 

R – A minha esposa veio do Maranhão pra cá, eu já morava aqui. Eu conheci ela num baile chamado Banzeiro. Eu era muito novinho mas eu era raparigueiro demais, sabe? Mas aí, até minha mãe brigava porque eu não caçava uma namorada. E eu nunca gostei. Nesse tempo namorar era só namorar mesmo, não tinha esse negócio de outras coisas diferentes, não. Aí eu gostava mais dos cabarés, desculpa eu falar isso daí. Mas então quando ela pintou na minha vida, aí eu peguei amor por ela e decidi me casar com ela.

 

P/1 – Mas onde você conheceu?

 

R – Conheci lá no Banzeiro, uma boate que tinha aqui.

 

P/1 – Isso, mas como foi? Você lembra?

 

R – Lembro. Ela estava com a minha irmã nesse dia. Ela já era apaixonada por mim, sempre minha mãe dizia e eu todo tempo por fora, eu não gostava de moça não, nesse tempo tudo era moça (risos). Eu gostava mais da coisa diferente. Aí foi quando eu namorei com ela esse dia lá e eu todo por fora, eu não gostava muito. Mas um dia ela fez uma festa na casa dela, eu fui convidado pra essa festa lá. Fizeram um banquete muito grande, era carne de porco, carne de gado assada, era tanta coisa boa lá e eu fui pra lá nesse dia. E  quando chegou lá ela estava tão bonita, vestidão bacana, estava bem vestida ela. E ela chegou, não faltava nada na mesa onde eu estava, tudo ia pra lá, não faltava cerveja, não faltava nada. E ela em cima tentando. O que mais me comoveu foi quando um dos rapazes que estava na mesa com a gente, ele agarrou no vestido dela assim: “Vamos dançar?”, agarrou assim e puxou assim e quebrou essa alça. Ela:  “Me respeita, cabra”. Ela xingou ele na hora assim, ela pegou uma garrafa pra arriar nele e em vez dela arriar a garrafa ela jogou ele pro outro lado do muro assim (risos).

 

P/1 – Ela?

 

R – Ela pegou pra arriar nele. E eu e um outro companheiro pegamos ele e jogamos pro outro lado do muro, ele caiu do outro lado. De lá ele foi embora. E nesse dia eu peguei amor por ela, eu disse: “Olha, essa mulher me serve” (risos). Estamos até hoje, 34 anos juntos.

 

P/1 – Como ela chama?

 

R – Generosa Maria da Cruz Rocha.

 

P/1 – Vocês tiveram filhos?

 

R – Temos quatro filhos.

 

P/1 – Fala o nome deles, o primeiro nome.

 

R – Jardel Rocha, Gardel Rocha, Jaqueline Miriam da Cruz Rocha e Joana Rocha, é um filho adotivo que eu tenho.

 

P/1 – João?

 

R – Joana.

 

P/1 – Joana.

 

R – Joana da Cruz Rocha. É o amor da minha vida ela.

 

P/1 – Quem?

 

R – A minha filha adotiva, eu gosto muito dela, Ave Maria.

 

P/2 – O seu filho mais velho hoje é candidato.

 

R – É. Ele é presidente da Câmara aqui e é candidato hoje.

 

P/1 – Como vereador.

 

R – Vereador.

 

P/1 – E vocês casaram assim...

 

R – Casamos no padre e no civil.

 

P/1 – E teve alguma comemoração?

 

R – Fizemos sim uma comemoração.

 

P/1 – Você lembra desse dia?

 

R – Lembro. Nesse dia, naquele tempo os pais tinham que, quando a gente casava com uma moça, ele tinha que esperar sete dias pra entregar a moça pra gente, né? Aí como eu tinha casado naquele dia, o pessoal tudo naquela festa lá e eu disse: “E aí, como é que nós vamos fazer?”, a casa já tinha lá. Não tinha colocado nem as portas nela, nem a janela, tinha botado só uns plásticos nela lá assim, mas os trens já estavam tudo dentro lá. Eu disse: “Vamos fugir! Já estamos casados mesmo”, e vazei com ela. E o pessoal tudo procurando na festa e nada. Foram lá na casa e nós nos escondemos debaixo da cama (risos), eu e ela. E o pessoal falando: “Não tá aqui, não”. E aí ninguém achou e nós passamos a noite todinha. No outro dia o pai dela foi lá, me chamou a atenção e disse: “Rapazzz, o que é, como você faz uma coisa dessa rapaz? Você pegar minha filha e levar? Na nossa cultura a gente entrega com sete dias e você fazer uma coisa dessas, você não esperou eu te entregar minha filha”. Eu disse: “Não, seu Zé, me desculpa, mas não dava mais assim, não. Eu sou muito apaixonado por ela e não dava pra esperar mais. Você me desculpa, me perdoa”. Ele saiu até insatisfeito, mas depois ele entendeu, né? E foi um grande sogro, um cara bom demais pra mim, minha sogra. Eu não tive esse problema com sogro e nem com sogra, foram bons demais pra mim.

 

P/1 – E de trabalho, Hildebrando? Depois dessa fase, inclusive do cinema que você fazia.

 

R – É, do cinema eu comecei... meu cunhado tinha um jipe velho e eu incuti de sempre ir pra casa dele lá pra ver se dirigia esse jipe, fazia alguma coisa. E eu terminei aprendendo a dirigir nesse jipe, entendeu? E aí, dirigindo por ali não muito bom, mas já estava dirigindo. Quando uma pessoa me convidou pra ir pro Pará, nesse tempo o Pará era muito violento, até hoje é violento mas está mais moderado, né? Então eu fui pro Pará puxar castanha em um jipe, castanha do pará. Eu trazia dez sacos de castanha aqui na beira do rio, na _0:33:09_ vinha da Sobra de Terra, hoje chama Piçarra a cidade, mas nesse tempo chamava Sobra de Terra. Eu carregava esse jipe lá e trazia pra beira do rio, na _0:33:20_, cheio de castanha. E de lá o barco pegava e trazia pra cá, pros armazéns. Nessa idade eu já estava com 12, 13 anos mais ou menos, estava fazendo isso.

 

P/1 – De idade!? Treze anos?

 

R – De idade! É, fazendo isso aí, o jipão, um jipe velho. E daí eu comecei também, depois eu passei para um caminhão a gasolina puxando castanha também, puxava da Fazenda São José, uma fazenda que tem depois da Piçarra, eu não sei a quilometragem, mas acho que da Piçarra lá dá uns 50 quilômetros mais ou menos. Aí comecei puxando também castanha nesse caminhão. E levei minha vida assim e saí a adolescência lá trabalhando dentro do Pará.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou nesse trabalho?

 

R – Eu fiquei lá... quer ver? Lá eu fiquei até 1976, 1977 eu fui pra Araguaína estudar no Senai, foi quando eu aprendi. Quer dizer, eu já tinha um começozinho de mexer com eletricidade, fiz o curso lá do Senai em Araguaína, fiz um curso de eletricidade, de instalador, fiz um curso de instalação hidráulica, fiz outro de técnico em mecânica e fiz um prevenção de acidentes, lá no Senai. E dei aula lá por 15 dias porque o professor adoeceu, viajou e eu fiquei dando aula por 15 dias dentro do Senai lá.

 

P/1 – Você estava já...

 

R – No lugar dele, dando a instrução pro pessoal.

 

P/1 – Mas você ainda estava trabalhando com transporte?

 

R – Ainda estava trabalhando com transporte.

 

P/1 – E fez os cursos.

 

R – E fiz, aí fiquei nas duas coisas. Continuei, depois saí de lá e fui trabalhar com caminhão de novo no Pará, puxando madeira. E fiquei lá, puxei madeira até 1982.

 

P/1 – No Pará?

 

R – No Pará. Aí abandonei o serviço de puxar madeira com caminhão e vim trabalhar aqui numa serraria como mecânico, na serraria do senhor Nelsi. Ele vendeu pra Dínamo, uma empresa de Belém e eu fiquei trabalhando com eles na serraria como mecânico.

 

P/1 – Aí já voltou pra Xambioá?

 

R – Não, já estava aqui em Xambioá.

 

P/1 – Mas você falou que trabalhava no Pará.

 

R – É, no Pará. Quando eu saí de lá eu já vim pra cá, pra trabalhar aqui.

 

P/1 – Mas o Senai você fez lá?

 

R – O Senai eu fiz em Araguaína.

 

P/1 – Araguaína é Tocantins?

 

P/2 – É.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – É Tocantins.

 

P/1 – E você veio pra cá já trabalhando como mecânico.

 

R – Eu vim pra cá e não era o mecânico ainda profissional, aí voltei novamente pro Senai pra fazer outro curso de técnico em mecânica, mas eu já tinha um conhecimentozinho, né? E eu trabalhando muito curioso, eu queria ver as coisas, o motor do carro eu olhava ele e não entendia, mas eu ia abrir pra ver o que era, montava de novo, aquele negócio, até que fui me aperfeiçoando mais, né? Hoje eu me considero um mecânico, eu faço tudo em motor, faço tudo em câmbio, diferencial, tudo eu sei fazer, né? E na parte elétrica eu faço até a instalação elétrica toda de um veículo eu sei fazer.

 

P/1 – Olha só! Mas foi aprendendo muito assim de...

 

R – É, eu fiz o curso, mas na realidade eu aprendi a fazer isso aí praticando.

 

PAUSA

 

P/1 – Nós estávamos falando que você trabalhou com transporte e depois a mecânica.

 

R – Depois a mecânica.

 

P/1 – Você trabalha com mecânica até hoje.

 

R – Até hoje, é.

 

P/1 – E nessa fase de transporte você fez transporte de alguém ou de alguma coisa que marcou esse momento pra você?

 

R – Olha, transporte de passageiro, quando a gente vinha com umas carradas de castanha, pessoal vinha, a gente não podia deixar na estrada, né? Correndo um grande risco, mas a gente trazia em cima da carga, na madeira mesmo, a gente trazia também em cima da carga de madeira, que é muito arriscado. Mas a necessidade daquele povo é tão grande que a gente tinha que fazer das tripas coração por eles, sabendo que corria um grande risco, né, transportar passageiro em cima de carga. Mas a gente, doía o coração ver uma pessoa daquela precisando andar quase 70 quilômetros a pé ou nas costas de um animal, a gente passava com um carro por eles e não levar. Pra mim era uma tristeza muito grande, aquilo eu nem dormia de noite se eu não fizesse aquilo.

 

P/1 – Até que idade mais ou menos você trabalhou com transporte, Hildebrando?

 

R – Digo agorinha pra você. Com transporte de caminhão eu trabalhei...

 

P/1 – Até que idade sua?

 

R – Até que idade. Quer ver... Até 21 anos. Não, 23 anos, até 23 anos eu trabalhei com transporte.

 

P/1 – Você nasceu em que ano?

 

R – Eu nasci no dia quatro de junho de 1959.

 

P/1 – Então na época que teve a guerrilha aqui você trabalhava com o quê?

 

R – Nesse tempo era aquele negócio, como eu falei pra você, eu brincava de filme, aquele negócio, nesse tempo eu já fazia isso, aqueles filmezinhos aqui, brincadeira de menino, né? Eu fazia. Aí nesse tempo eu já era engraxate também, eu engraxava sapato, ajuda no dia a dia, nas despesas da gente. Eu ia engraxar sapato naquela praça do mercado e de lá eu ia até pra base do exército engraxar os sapatos dos soldados lá, sabe? Que começou aquela guerrilha aqui em 1972 pra 73 eu comecei fazendo isso, ia engraxar o sapato daquele pessoal ali e ganhava uns troquinhos. Quando eles não tinham dinheiro davam aqueles fogãozinhos com uma pastazinha dentro, a gente pegava ele, acendia o fogo e brincava com aquilo. Eles davam um monte de coisinha pra gente. Davam alimentos, aquelas latas, não sei se era feijoada o negócio que a gente comia tudo enlatado, bom demais aquelas coisas (risos). A gente ganhava muito aquilo ali lá na base. Quando alguém tinha trocado eles davam um trocadinho, quando não dava, dava um fogãozinho, dava aqueles enlatados pra gente comer, a gente gostava demais daquilo.

 

P/2 – Era o pagamento.

 

R – Era o pagamento (risos).

 

P/1 – E você tem alguma lembrança dessa época da guerrilha, coisa que você via ou ouvia?

 

R – Olha, no tempo da guerrilha eu vi muita coisa, me lembra muita coisa que eu achava uma tristeza muito grande, porque aquele povo passava. Pra nós naquele tempo o que eles passavam pra gente é que ali era bandido, terrorista, mas a gente tinha pouco conhecimento daquele caso que acontecia, chamava de terrorista, de bandido. Então pra nós, como a gente assistia aqueles filmes de faroeste, aqueles negócios ali, a gente achava que era uma grande vantagem o cara estar matando, estar prendendo daquela forma ali, pra nós era uma coisa muito comum, pra mim mesmo, eu achava muito comum aquilo ali.

 

P/1 – O exército que falava?

 

R – O exército falava: “Ele é bandido”. Dizia que era bandido e bandido tinha que ser tratado daquela forma ali, né? Só que assim, quando chegava com aqueles, eu chamo terrorista porque lá eles chamavam de terrorista. Quando eles chegavam com os terroristas preso ou morto eles chegavam com helicóptero e aterrissavam lá na base. O que estava morto a gente não chegava a ver, só via quando saía daqueles plásticos pretos, dali ele tomava um outro caminho com eles lá. E eu cheguei a ver um que chegou morto, ele não aterrissou no lugar que sempre aterrissava, ele aterrissou na frente, pro lado do rio. E aí eles trancaram nós dentro de um galpão lá, era um galpão de madeira coberto de palha, ele trancou nós dentro desse galpão, sabe? E nesse tempo era o engraxate, eu e o Carlinhos, o Carlinhos era um menino que tinha aqui, o Carlinhos da dona Odoxa, mora na Sapolândia. Aí, quando ele trancou nós, como era de madeira, fica muito aquela fresta na madeira, né? E a gente subia e olhava lá de cima, eu vi quando o helicóptero baixou e tirou aquele pacote preto de lá e soltou no chão, o pessoal tudo ali apressado por aquele negócio ali. E tinha uma cova lá perto. Eu disse: “Olha, trouxeram o terrorista morto”. Aí a gente não se comovia muito porque estava vivendo aquela realidade ali, sabe? Eles falavam que era bandido, aquele negócio, a gente ouvia como via no filme, né, aquela coisa. Só que dali eu não lembro se enterraram ele lá ou se tomou outro destino com aquele pacote preto lá. E os que vinham vivos, eu cheguei a ver, eles traziam ele e colocavam dentro de um buraco com a grade em cima e ele ficava lá que nem porco lá dentro daquele buraco. O cara todo barbudo. Cheguei a ver lá, eu um dia fui mais uns meninos andando por lá, nós saímos escondidos e vimos eles lá dentro, tudo magro, velho, tudo acabado. Magro, velho, o cara olhava pra gente, tão penoso assim. Mas a gente, menino, via aquilo e achava que: “Ah, esse merece mesmo isso aí”. Mas a realidade não é isso, hoje a gente já sabe o que custou praquele povo ali, né? E via também quando eles terminavam de comer, todo soldado comia, terminava de almoçar, aquele resto de comida eles juntavam dentro de uma bacia assim, chegava lá e jogava lá dentro daquela grade e saía catando aquelas coisas e comendo aqueles trens lá dentro. E a gente via aquilo ali, mas menino, nem com dó ficava, né, porque a gente via nos filmes, via aquele trem lá.

 

P/1 – Onde era a base deles?

 

R – A base era no aeroporto aqui, ao lado do aeroporto assim.

 

P/1 – Perto do rio?

 

R – Perto do rio, é.

 

P/2 – Depois da balsa ali, 200 metros, né?

 

R – Não dá 200 metros, não, dá uns 100 metros mais ou menos do rio, da base pra lá.

 

P/2 – Não, digo do porto da balsa pra lá.

 

R – Ah, dá uns 300 metros. Do porto da balsa vai dar uns 300 metros.

 

P/1 – E esse buraco era na areia, no rio?

 

R – Era no chão. Lugar de cascalho, eles faziam o buraco e colocavam os presos lá dentro, os terroristas. Colocavam lá dentro e tinha uma grade por cima lá. O tratamento deles era aquele, era passar fome, eles botavam só resto de comida pra eles, não botavam comida boa que nem eles comiam lá, não. Jogavam lá o resto de comida e eles ficavam catando e comendo aquilo ali.

 

P/1 – E você chegou a ouvir alguma história naquela época de pessoas que falavam outras coisas sobre eles? Ou era sempre essa mesma versão?

 

R – Era, mas depois a gente era novo demais, eu não tinha muito conhecimento com as coisas assim, mas é o que dizia que eles. Depois de muito tempo, depois da guerrilha a gente ficou sabendo que esse povo, realmente brasileiro eram eles, eles queriam a democracia e estavam fazendo tudo pra existir a democracia no país, né? E foram tratados daquela forma, como bandido, terrorista. E eles estavam lutando pelo bem do país, aquele povo ali. A gente comove um pouquinho com a história deles lá porque a gente fez parte daquilo assim no dia a dia e achava que eram animais, aquele negócio todo. Então ali tinha pessoa boa, tinha médico, ali tinha professora, tinha muitos formados ali, era em Medicina, era engenheiro, engenheiro civil. Então tinha muita gente boa, muita gente de alto nível ali, sabe? Só que era um povo que queria a democracia do país. Então aconteceu aquilo com aquele povo ali. Eu lembro deles, alguns deles ali que eles se hospedaram no hotel da dona Rosinha, aqui na beira do rio. Eu lembro que eles gostavam de jogar bola ali na beira do rio.  Osvaldão era um negão bem fortão, do pezão, mais ou menos uns 50 de pé ele tinha, bem altão ele. Ele era um cara que parecia que tinha depressão, o jeito dele assim, era um cara que parece que era deprimido, ele gostava de ficar na parede, encostado na parede do hotel olhando os caras jogarem, bem quietão mesmo. Ele não dizia nada, não falava nada, não gritava. Não tinha alegria com ele, não. Era um cara assim. Eu sempre observava aquele negócio sobre as coisas. Osvaldão, chamava Osvaldo, eu não lembro o sobrenome dele.

 

P/1 – Mas você sabia que ele era também da guerrilha?

 

R – Era da guerrilha. Ele era um dos mais famosos aqui, que eles diziam que era o mais perigoso que tinha aqui, Osvaldão, Paulo, a Dina. A Dina era uma mulher.

 

P/1 – Mas eles ficavam ali antes do exército chegar.

 

R – Antes do exército chegar. E quando começou o movimento eles, aí vou parar, né? De lá veio a perseguição do exército aí. Lá dentro eu não sei o que se passou, só sei que morreram muitos, dos que vinham vivos, se escapou, escapou muito pouco daqueles. Vinha vivo, mas morria depois, matava. Eu não sei onde que eles matavam. Aqueles vivos, que eles traziam vivos dali, desapareciam de lá e eles levavam não sei pra onde, não sei o que fazia com eles, não. De lá daquele buraco eles levavam algum canto. Os que vinham mortos, enterrava ali, enterrava no cemitério. Eu cheguei a ver uma moça baleada, pegou um tiro assim no peito, que a gente enxergava o pulmão dela nas costas. Ficou bem na porta da delegacia ali. Todo mundo viu, o pessoal de Xambioá todo foi ver essa mulher lá.

 

P/1 – Que chegou assim.

 

R – Que chegou assim. Então era uma coisa muito triste. Aqui tinha, eu não lembro quantos soldados tinha, mas acho que chegou a ter oito mil soldados aqui dentro. E a ignorância era muito grande dos soldados aqui dentro, dos comandantes, tratavam o povo aqui muito mal, sabe? Se via uma pessoa parada na porta da casa, eles pegavam ele e levavam pro aeroporto pra capinar o campo, roçar o campo com facão. Tirava o cabo do facão e dava pra ele roçar o campo. O campo do aeroporto, nesse tempo a gente chamava campo. O pessoal ficava roçando lá com facão que as mãos comiam tudo, ficava tudo em calo a mão das pessoas.

 

P/1 – Mas eles falavam por que eles faziam isso?

 

R – Porque diz que malandro tinha que fazer aquilo, tinha que ajudar a fazer alguma coisa. Aí quando a pessoa estava parada na porta de alguma casa ali, ninguém era pra sair fora. Eles tinham até um alto-falante na praça do mercado. Eu cheguei a ver, minha mãe tinha um restaurante no mercado e eu cheguei a ver eles dizendo essa frase que eu nunca esqueci: “Atenção pais de família: segure suas porcas que meus porcos estão soltos”. Dizia desse jeito. E aí logo vinha aquela multidão de soldados na rua caçando lugar pra ir beber, brincar, aquele negócio. Chegou a dar briga aqui dentro da cidade, eles brigaram aí num clube chamado Associação, foi um tiroteio danado. As paredes do mercado, aquelas paredes da casa ficaram tudo rendada de bala ali. Mas nenhum dos rapazes foi baleado, que era morador aqui da cidade, Francisco Evelin, Moacir Mineiro e vários outros. Chamava Antônio Trapaiado que era cunhado do Chico Evelin. Tudo estava na briga. Eles bateram nos soldados demais nesse dia. E bala comendo naquelas paredes lá, ficou tudo rendado de bala, mas nenhum foi ferido. Depois foram chamados na base, o coronel deu uma lição neles lá, mas não prenderam também, mandaram embora depois. O que eu fiquei sabendo foi isso.

 

P/1 – E nessa época que eles ficavam na rua, você falou Osvaldão, Dina. Dina?

 

R – É, quando eles estavam aqui eles não saíam pra rua assim não, ficavam só lá no hotel.

 

P/1 – E eles ficavam direto aqui ou eles iam e vinham?

 

R – Eu não lembro se eles iam lá e vinham, só lembro quando eles estavam lá, eu lembro, eu era menino, eu gostava de brincar de bola também e aí eles brincavam de bola lá e esse Osvaldão ficava, ele e mais outro ficava ali observando os outros jogarem. Esse Osvaldão era tranquilo demais, negão, igual falei, tipo depressão, ele estava assim, uma pessoa quando está de depressão. É um cara que era, acho que imaginava muito, sei lá, uma coisa assim. Algum problema ele tinha. Eu sei que para o exército brasileiro naquele tempo era um dos mais perigosos que tinha ali. Disseram que ele praticou guerra em Israel, aquele lugar pra lá.

 

P/1 – E daqui de moradores da cidade ninguém se feriu.

 

R – Não, daqui da cidade, assim, eles batiam às vezes nas pessoas. Inclusive um tio meu bateram muito nele, pegaram ele aí. Naquele tempo ele dava o tranco aqui e ninguém podia sair e o que vinha era investigado. Meu irmão mesmo foi um que estava estudando em Teresina, eles pegaram ele em Peritoró, no Maranhão e prenderam. Prendeu ele lá como terrorista, ele ficou quase dois meses preso lá em Peritoró, no Maranhão.

 

P/1 – Mas por quê?

 

R – E sem nós sabermos de nada, sem família saber de nada. Porque naquele tempo toda pessoa que vinha dessa área aqui, eles tinham investigação em tudo quanto era canto do país. Vinha da área aqui eles prendiam lá e ia saber investigar a vida todinha, quem era, quem não era. Então meu irmão foi um dos que sofreu nas mãos deles aí. Não apanhou, não, mas ficou preso quase dois meses lá em Peritoró, no Maranhão. Meu tio apanhou muito aqui também. Teve pessoas que...

 

P/1 – Seu tio apanhou por quê?

 

R – Apanhou porque teve um roubo nos correios e meu tio era muito amigo do chefe dos correios. Era meu tio, o Raimundo, irmão da dona Cecília que era dona do hotel aí, e o Miguel. O Miguel, um rapaz que morou muito tempo com seu finado Severino. Essas pessoas foram presas e apanharam muito. Meu tio, botaram a corda no pescoço dele e deixaram ele pendurado com a corda no pescoço quase 12 horas, só com a ponta dos dedos triscado no chão. Quando ele saiu de lá, que viu que ele não devia nada no caso, minha mãe cuidou dele quase dois meses, todo arrebentado, quebrado, costela, tudo e minha mãe tratou ele com remédio do mato, com gervão, mastruz, um monte de coisa, beberagem dando pra ele.

 

P/1 – Isso tudo nessa fase do exército?

 

R – Nessa fase do exército. Inclusive hoje, como já teve tantas indenizações aí, pra muita gente já teve indenização das pessoas que sofreram na guerrilha, esse tio meu podia ser indenizado porque foi um dos caras que sofreu muito, apanhou muito aí no tempo. Aqui tinha não era só o exército não, aqui tinha polícia civil, tinha polícia militar, tinha polícia federal, tinha tudo aqui nesse tempo aqui. E quando chegavam os comboios do exército aqui era uma fila de carro, começava da baixa fria até chegar aqui na beira do rio. Só carro de guerra, de transportar os soldados. Deixou a cidade aterrorizada aqui, o povo tinha medo de sair, tinha medo de ir trabalhar e não voltar mais, muita gente sofreu.

 

P/1 – Você quer perguntar alguma coisa sobre isso?

 

P/2 – Pode deixar, no final eu pergunto porque eu acho que tem muito mais interesse de perguntar o que vem de fora, tem mais curiosidade, fique à vontade.

 

P/1 – Mas tem alguma coisa que passou batido pra mim e você sabe, pode perguntar.

 

P/2 – Tá, tudo bem.

 

P/1 – A gente está falando se tem uma pergunta que ele podia fazer.

 

P/3 – (fala baixo algo sobre bombas).

 

P/2 – Bombas.

 

P/1 – Hildebrando, nós estávamos conversando antes de começar a entrevista e você falou dos helicópteros e das bombas. Conta um pouco sobre isso.

 

R – Olha, sobre os helicópteros aí, que a gente presenciava, tinha os helicópteros que transportavam os soldados para os setores de combate. Eu não sei se é porque tinha o pessoal que ele procurava lá ou se era pra exibir, ele dava muito tiro em cima dessa Serra das Andorinhas, de frente onde nós estamos aqui. Muito tiro, tinha uns aviõezinhos chamados Paquera, que eles davam pirueta no ar assim e chamava aqueles, tchoin, em cima daquela serra ali, jogando lá em cima da serra. Acho que era mais pra intimidar porque o que eles procuravam estava muito mais longe do que a serra lá, mas acho que fazia aquilo pra intimidar ou se tinha esse pessoal lá, eu não sei.

 

P/1 – E eles atiravam com o quê?

 

R – Atiravam. Eles tinham, debaixo das asas dos aviõezinhos chamados Paquera tinha um, hoje a gente chama de míssel, não sei como chamava aquilo, se era bomba ou o que era nesse tempo, mas hoje a gente chama de míssel, né? Eles soltavam aquelas bombinhas, aqueles mísseis lá da asa do avião e jogavam. Batia assim e você via subir a fumaça.

 

P/1 – Aqui na frente?

 

R – Aqui na Serra das Andorinhas, é.

 

P/1 – Mas vocês sabiam que eles estavam mais pra longe.

 

R – É, sabia que eles estavam por aqui por perto, mas eles estavam mais longe, o pessoal, eu acho que estava mais longe. Porque quando ele saía a gente via quando os aviões saíam na direção, era de vários lados, saía em direção a São Domingo, pra Caiano, praqueles lados de cima, aqui pra baixo, vários lugares eles saíam. Saíam de barco também, o barco tudo cheio de soldado, nós chamamos aqui de voadeira, outros chamam lancha, saíam tudo cheio de soldado aí pra baixo.

 

P/1 – Tá certo. E você disse que sofreu um acidente, Hildebrando.

 

R – Foi. Esse acidente.

 

P/1 – Você quer falar isso ou não?

 

R – Não tem problema, eu falo. Esse acidente, como eu falei pra você quando eu era menino eu gostava muito de brincar de baladeira, caçar, aquele negócio. E quando eu me tornei adulto eu comecei a tomar gosto com arma também, arma de fogo. Eu estava passarinhando, fui matar um tucano, que isso aqui hoje é proibido por lei, a pessoa não pode nem comentar o negócio que eu estou comentando porque foi uma coisa passada, jamais faço uma coisa dessas mais, entendeu? E matar as aves, hoje eu zelo por isso aí. As aves, eu gosto delas, dos animais, tudo. Então, eu fui matar esse tucano e eu atirei nele e ele não caiu em cima de uma árvore. Eu coloquei outro cartucho e ele caiu, já estava baleado na asa e eu esqueci o cartucho na espingarda e armada. E aí naquele movimento ali meu irmão veio com os meninos dele, os meninos dele eram todos pequenos assim. Tinha o Júnior, o Beto e o Ramon. Um com dois anos, outro com três e outro com quatro. Quando meu irmão veio lá, o tucano lá no chão, eles tinham passado uma cerca de arame assim e aí foi lá, os meninos tudo alegre, meninos pequenos, viam o bichão do bicão. Aí eu peguei aquele bicho lá na mão e ele gritando com a asa quebrada. E meu irmão: “Rapaz, tu matou o bichinho, rapaz? Não faz uma coisa dessa não” “Não, rapaz, já está feito, agora não tem mais jeito, vamos ver se nós trata dele pra criar ele ali. Depois a gente solta ele, vamos fazer isso daí”. Na passagem do arame ainda coloquei a espingarda nas costas dele, armada, e com o dedo dentro do gatilho. “Ôpa, para com essa brincadeira de arma, rapaz! Que é isso? Faz isso não”. Eu fui pra dentro de casa com a arma carregada, fui lá pro terreiro, coloquei a espingarda assim no chão, o cabo dela. Tinha um banquinho, eu coloquei o pé em cima e coloquei o cano dela debaixo do queixo aqui. Aí tirei daqui, coloquei debaixo do braço, nesse aqui. Nada de imaginar que aquele trem podia sair qualquer coisa dali, achando que não estava armado, né? Foi quando eu coloquei o braço no cano assim e segurei a arma assim. E o tucano gritando os outros lá, com o grito desse que estava aqui baleado, os outros ficaram rodeando assim a casa. E eu lá na expectativa que eles viessem para eu dar outro tiro neles. Foi quando eu coloquei o braço em cima do cano e os meninos estavam brincando assim, os três meninos, meus sobrinhos. Aí um mais novinho saiu de lá, dois anos de idade. Saiu de lá, tã tã, daí acocou aqui perto de mim, olhou pra mim, olhei pra ele, como queria dizer alguma coisa, né? Colocou o dedo lá no gatilho e apertou o dedo. Eu estava com o braço em cima. Aí veio a minha ruína, né? Porque acabou com metade da minha vida nesse tempo porque rapaz novo como eu estava, trabalhando pra produzir alguma coisa, pra ter um futuro melhor, perdi o braço. Eu fiquei baleado.

 

P/2 – Já era casado?

 

R – Já casado, com dois anos de casado, por falta de, nem digo por falta de sorte, por sorte nós demos conta de chegar até aqui em Xambioá, que quando eu vim de lá pra essa fazenda, pra chácara, nós atolamos duas vezes e daqui pra lá nós não atolamos nenhuma, foi a minha sorte. Cheguei quase morto, vista não tinha mais, não tinha mais... acabou tudo. Cheguei lá, precisa do sangue pra sobreviver. Meu sangue é B negativo, sangue difícil. E aí doutor Ademar, um médico competente aí, doutor Ademar, ele disse: “Nós vamos ter que dar jeito de arrumar sangue lá em Araguaína porque senão ele não escapa”. E eu ouvindo tudinho, eu não enxergava, mas ouvia aquilo ali. Aí foi quando conseguiram um sangue com duas pessoas: o Piauí, é um rapaz, um mecânico que tem aqui, que o sangue dele deu compatível com o meu e um rapaz, muito amigo meu, chamado Nicanor. Aí arrumaram esse sangue, aplicaram aqui e nós fomos numa Veraneio, um carro da Chevrolet, foi pra Araguaína, gastamos quatro horas de viagem daqui pra lá, que nesse tempo não tinha asfalto, era só estrada de chão e muito ruim. Quem me levou foi o pai daquela moça que me trouxe aqui, a Marivalda, o pai dela chamava Zé Borges, que me levou pra Araguaína. Eu praticamente estava todo podre, me deu uma infecção muito perigosa chamada gangrena gasosa. Quando eu cheguei lá os médicos não tiveram outra opção a não ser amputar. Mas não podia amputar naquela hora porque tinha que aplicar mais sangue. Então onde arruinou mais ainda aquilo pra mim, né? Porque sem o sangue não podia operar e o caso estava só se agravando, estava apodrecendo o braço todinho. E eu posso contar a história toda? Pode contar, né?

 

P/1 – Sim.

 

R – Pois é. Aí foi quando eu lá precisando desse sangue, minha esposa grávida do segundo filho, andando de bicicleta em Araguaína procurando sangue pra todo lado. Foi no quartel, o quartel esse dia estava em recesso, foi o dia que o Tancredo Neves tinha morrido. Então naquele dia aqueles aduladores estavam tudo de folga, aí não conseguiu. Como eu tinha feito uma caridade pra um pessoal que estava viajando, uma semana antes eu vi um pessoal aqui na ladeira do dois, vocês não conhecem mas o rapaz aqui conhece, eles estavam numa caminhonete F100, nesse tempo era mais a gasolina do que a óleo, não tinha a óleo, era gasolina. E aí esse rapaz estava no prego com a família dele lá, eu como mecânico parei, eu estava indo pra Araguaína com meu irmão, estava bem arrumado, roupa branca e tudo. Aí eu parei: “Meu irmão, para aí, vamos dar uma olhada o que esse povo tem aí” “Não, rapaz, vamos embora, a gente tem que chegar com hora, senão acha o banco fechado, não acha o banco aberto. Faz isso não”. Eu digo: “Não, rapaz, eu não vou deixar esse povo assim, não, vamos ver lá”. Eu cheguei lá: “E aí, meu senhor, precisa de alguma coisa?” “Rapaz, você sabe de algum mecânico aí perto pra gente arrumar esse carro, desde cedo nós estamos aqui, o pessoal tudo com sede”, os meninos chorando, uns meninos assim e tinha outros, um rapaz adulto também, a esposa do rapaz lá também. Aí eu disse: “Eu sou mecânico, eu não estou a serviço, não, mas se o problema não for tão grave eu vou arrumar pra você”. Aí meu irmão ficou: “Rapaz, nós estamos apressados!”. Eu entrei pra dentro do carro, mesmo ele não querendo eu entrei e arrumei lá. Era um problema simples, era até no platinado, nesse tempo era platinado que fica no distribuidor. Eu consertei, funcionei o carro. Aí quando eu funcionei o rapaz disse assim: “Tá pronto?”, eu disse: “Tá pronto, você pode viajar pra qualquer lugar” “Ê rapaz, graças a Deus! Quanto que você vai me cobrar?”. Eu disse: “Não, esse tipo de serviço eu só cobro dentro da minha oficina, assim não cobro, estou fazendo um favor pra você e você pode fazer outro pra mim depois”. Quando eu estava no hospital em Araguaína nesse caso precisando de sangue, eu estava lá morrendo. Chegou lá, olhou assim e disse: “Oxente, eu conheço esse rapaz aqui”. Aí eu abri os olhos. “Você é de onde?” “Sou de Xambioá” “Ah, você é o rapaz que consertou nosso carro lá perto de Xambioá” “Eu consertei um carro esses dias lá perto”. Na mesma hora ele saiu caxingando e chamou a mãe dele. A mãe dele veio: “Ó mãe, aquele rapaz daquele dia que consertou nosso carro” “Ô meu Deus, o que foi meu filho que aconteceu?”, já com o braço todo enfaixado. Aí minha mulher contou toda a história, como tinha acontecido e tudo. E ela: “E está faltando o quê?” “Não operaram ainda ele, desde ontem está pra operar”, minha mulher falou pra ela: “Está faltando o quê?”. Aí ela disse: “Está faltando sangue”. E logo ela chamou o esposo dela: “Ó meu velho, aquele rapaz daquele dia que consertou o nosso carro lá perto de Xambioá”. Ele disse: “Ô rapaz, o que foi isso?”, aí minha mulher contou a história pra ele. Eu não podia porque estava muito fraco, não dava pra falar. Ela contou a história e ele disse: “Rapaz, se for por falta de sangue você não vai morrer, não”. Ele foi pra fazenda dele, um cara fazendeiro lá da região, buscou o caminhãozinho dele cheinho de funcionário, trouxe pra lá e botou o braço pra tirar sangue lá e teve dois que deu certo. E aí foi quando eu fui pra mesa de operação, deu certo. E só sangue de negão mesmo, sabe? Eu disse: “Os negãos serviram, viu?” (risos), o sangue ali deu certo, deu compatível com o meu. E aí foi amputado o braço uma vez, a segunda vez e o braço podre. Aí eles queriam tirar a par, um resto aqui. Aí meu irmão clamou na hora: “Não, rapaz, não faça uma coisa dessa” “Rapaz, é que o braço dele está todo podre e às vezes a gente corta aqui onde é o último lugar que pode cortar e aí não tem jeito e ele vai morrer” “Mas deixa assim, vê se Deus vai ajudar, não faça uma coisa dessas, não”. Aí amputaram aqui nessa altura que está aqui, né? E ficou um pedacinho do braço, tudo.

 

P/1 – Tudo numa cirurgia só.

 

R – Tudo numa cirurgia só. Aí foi quando eles amputaram e me mandaram pro isolamento. Eu estava no isolamento quando, isso já estava com... quer dizer, fui amputado 11 horas da noite, de manhã foram as enfermeiras verem lá e eu estava todo melado, que eu passava a mão, que eles não fecharam, né? Só isolou as veias, não sei o que eles fizeram, sei que eu passava isso aqui e estava tudo cheio de sangue melado. E eu sentindo muita dor. Aí quando o doutor chegou lá, doutor Juarez, olhou assim e disse: “Ê rapaz, como é que está?” “Eu estou sentindo muita dor, doutor”. Ele disse: “A prova que você está vivo”. Aí ele foi mandando trazer a maca e levar pra sala de cirurgia. Lá já fizeram outro procedimento, eles colocaram, eu não lembro se foi antes ou se foi depois que eles colocaram dois vidros de soro dependurados aqui pra puxar esse couro que era pra costurar. Eu não sei se foi antes ou foi depois porque a gente está doente, mas aconteceu esse negócio de colocar. Quando eu vim de lá eles já tinham costurado, aí já não estava mais com esses vidros de soro. Acho que foi antes mesmo. Aí fiquei lá, com 15 dias tive alta. Fui continuar minhas atividades como mecânico na minha oficina, o povo tudo dizendo que eu ia pedir esmola. “É, esse homem hoje não serve mais, acabou, a gente tem que dar esmola pra ele”.

 

P/1 – Quem falava isso?

 

R – Pessoas que não têm mentalidade. Que o homem, se ele quiser, não perdendo a cabeça ele pode fazer qualquer coisa na vida porque ele tem na cabeça ele faz qualquer coisa, mesmo que ele não mexa um órgão do seu corpo. Então eu não pensei assim. Eu chorei na hora porque a gente, poxa, como um cara fala um negócio desses, me desanimar desse jeito? E pedi pra Deus: “Meu Deus, se você achar que eu vou pedir esmola”, que eu não admitia, nem admito até hoje a pessoa poder mexer um órgão do corpo dele sair pedindo esmola, até hoje eu não concordo com isso, ele tem que fazer alguma coisa que dá pra sobreviver, entendeu? “Se for para eu viver pedindo esmola pode me tirar, que eu vou embora satisfeito. Mas assim não, assim eu não quero”. E Deus me encorajou, eu não parei, continuei minha oficina, trabalhando, produzindo. Tenho um serviço prestado aqui na cidade, uns 30 anos aqui prestado de serviço aqui na cidade. Eu tenho certeza que eu sempre fiz o bem. Estou feliz, tenho minha família, meus filhos estão todos aí, os bons filhos que eu tenho. Eu não posso me queixar de Deus de forma alguma, que tudo o que eu pedi a Deus, Deus me deu. E Deus me deu uns bons filhos, Deus me deu a profissão que eu queria, Deus nunca deixou, depois de adulto, nunca deixou passar um dia de fome, passei quando era criança, que eu passei muita fome. Depois de adulto nunca mais passei fome e sempre Deus tem me ajudado, não posso reclamar de Deus, não. Deus tem sido muito generoso comigo. Até na minha idade, que eu estou com 57 anos, eu ainda penso que sou um menino de 30 anos (risos).

 

P/2 – Tem um histórico que você fez uns versos.

 

R – Ah, foi. No tempo que eu fui candidato a vereador a gente fez uns versos falando dessa história do tiro, do tucano, essas coisas, né? Que até nem lembro mais, viu? Mas eu tenho ainda um romance escrito, está em casa.

 

P/1 – Nem o pedacinho de um verso pelo menos, pra gente gravar?

 

R – Deixa eu ver se eu lembro alguma coisa (silêncio). Pera aí. Eu tenho que dar uma olhada agora, tem umas coisas que a gente lembra um pedaço.

 

P/1 – E era sobre o quê o verso?

 

R – Era sobre o acontecido comigo do tiro.

 

P/1 – Você falou que tinha a ver com tucano.

 

R – Tinha alguma coisa a ver com tucano. Sei que eu dizia assim: “Foi quando eu coloquei a arma, coloquei na mira, atirei nele. Foi quando o ponto cobriu, toquei fogo e o tucano caiu”. Foi aquele negócio assim, mas está tudo escrito. É que são muitos anos, nunca mais peguei ele. Mas tem lá em casa ainda.

 

P/1 – E essa fase de adaptação, você como mecânico?

 

R – Como mecânico eu pedi a Deus muito, que Deus não deixasse eu sofrer muito com essa perda não, sabe? E Deus foi muito generoso comigo porque eu me adaptei muito rápido.

 

P/1 – Você continuou com a profissão?

 

R – Até pra escrever, que eu tinha a maior dificuldade de escrever com a esquerda, eu queria aprender e não conseguia. Quando eu perdi o braço, com 30 dias eu estava escrevendo três tipos de caligrafia, 30 dias. E sempre trabalhando como mecânico. Eu monto o motor desse jeito aqui, a gente depende de ajudante porque todo mecânico precisa de um ajudante, mesmo ele tendo os dois braços. Eu monto o motor, eu faço a instalação de um veículo completa, se precisar eu faço ela toda, remendo, faço tudo. Conserto diferencial, conserto câmbio, mexo na suspensão, faço tudo, não tenho dificuldade pra fazer isso. Entendeu?

 

P/2 – Foi uma adaptação que hoje ele faz bem, né?

 

R – É, me faz muito bem porque eu nunca desisti. Eu pesco também, eu gosto de pescar. Meu esporte é pescar. A minha vara é um molinete, eu jogava o molinete e eu disse: “Meu Deus, eu gosto de pescar, como é que eu vou fazer agora pra pescar?”, eu levava o canista, colocava a linha curtinha que era pra jogar, pendurar aqui e tirar aqui com varinha né? Eu quero jogar mais longe, como é que eu faço? Aí eu treinei com molinete, eu jogava o molinete em longa distância, aí eu: “E agora pra puxar?”, encostava aqui na barriga mas ficava ruim, aí eu fiz um suporte, eu me adaptei a ele. Eu sento lá na tábua e o suporte está aqui. Eu jogo ele, quando eu dou a fé eu já coloco ele no suporte e puxo o peixe com muita facilidade mesmo. E tudo ficou fácil pra mim, eu pesco, pego o peixe de todo tamanho aí, bom demais. Vivo a minha vida, graças a Deus bem, porque sempre Deus tem me ajudado muito.

 

P/1 – Aquela habilidade que você tinha, você está usando agora.

 

R – E pra dirigir, eu dirijo qualquer carro. Eu acho que não sei o que eu não faço, eu acho que o que eu nunca aprendi a fazer direito foi jogar pedra. Até bom não jogar pedra pra não jogar nos outros (risos), jogar nas pessoas. Mas o resto eu faço.

 

P/1 – A gente já está terminando, se tem alguma coisa a mais pra você perguntar.

 

P/2 – Nessa questão de jogar pedra, Hildebrando, a gente vai até entrar agora num assunto que não é jogar pedra em si, mas é quase a ver com isso. Você participou do processo de eleição aqui que a gente considera como a eleição do quebra-quebra. Já que está falando de jogar pedra, né, então vamos tratar dessa questão. Conta pra nós qual foi a sua participação, se você estava presente, o que você lembra desse dia, quem foi que idealizou, o por que disso ter acontecido, a eleição do quebra-quebra.

 

R – Olha, eu era militante do partido, o Jaime Modesto que era o candidato a prefeito, e o esquerda, doutor Ademar, era candidato a prefeito também. Nós já tínhamos perdido duas eleições pra ele, a gente julgou que ele estava roubando a eleição, falsificando os títulos, gente morta votando. E isso aí foi constatado que foi verdade mesmo porque depois disso aí tudo, companheiros que eram do lado dele falaram pra gente, falaram pra mim mesmo: “Eu mesmo votei cinco vezes”. O outro disse: “Eu votei três”. Tudo com um título só, entendeu? Então foi roubado. Esse quebra-quebra que foi feito, foi uma coisa que eu acho que a pessoa que pensou naquilo ali, ele já tinha uma certeza tão grande que era roubado que incentivou a gente a fazer aquilo. Aí nós fomos, invadimos os colégios onde tinha urna e nós fomos lá e pegamos as urnas. A gente abriu elas, apurava e ele sempre tinha maioria, o doutor Ademar, todas elas tinha maioria. A gente disse: “Rapaz”. Quando na multidão as passeatas, os comícios era gente demais nos comícios do Jaime. E do Ademar era pouca e o homem toda vez ganhava a eleição. Aí diz: “Não, está roubando”. E realmente, depois de muito tempo a gente ficou sabendo que eles faziam isso, os próprios companheiros dele falaram pra gente que roubava, pegava título de gente que já morreu e botava pra votar, votava duas, três, quatro vezes.

 

P/1 – E como é que foi esse dia? Conta pra gente como foi.

 

R – Ah, esse dia, quando ele ganhou lá, disse que ganhou, ele deu uma, ganhou a eleição. O povo se revoltou: “Embora quebrar tudo! Vamos quebrar com tudo aqui, Ademar não vai ser prefeito, não”. Mobilizou todo mundo e aí o pau quebrou.

 

P/2 – Já tinha encerrado a votação?

 

R – Já tinha encerrado e foi zoada mesmo, sabe? Graças a Deus não deu morte, mas a quebradeira foi grande mesmo. Entraram quebrando porta, quebrando tudo. Só que foi processada muita gente. Eu graças a Deus não fui visto, Deus me guardou nessa hora, mas os que foram vistos foram pegos, foi tudo processado. Processou todo mundo. Realmente é um crime eleitoral, a gente praticou o crime, mas graças a Deus a justiça não me viu. Eu peço desculpas hoje por ter feito isso porque não é legal a gente fazer isso, fazer esse tipo de coisa, é a justiça que tem que resolver. Mas a gente resolveu fazer com as próprias mãos. Fizemos e foi descoberto depois a realidade da coisa.

 

P/2 – Provaram?

 

R – Foi provado, foi.

 

P/1 – Como é que as pessoas faziam na hora ali? O que foi o quebra-quebra?

 

R – O quebra-quebra é multidão de gente, entrava nos colégios, pegava as urnas e carregava. Ia apurando, rasgava, se despedaçava no chão tudo ali. Eu mesmo, eu não, o pessoal que estava comigo pegou, levou pro Mangueirão, um restaurante que tem ali, e lá foi apurado, só dava Ademar lá, tudo que abria só dava doutor Ademar. E Jaime que era um cara que tinha um grande povo, os votos estavam fracos, tinha mais ou menos mas não era o suficiente pra ser eleito. Então aconteceu isso aqui em Xambioá. Eu não tenho receio de falar isso não porque o cara, nós sofremos muito na política pra eleger esse cidadão lá. Ele é um cara bem visto pelas pessoas, o povo tudo gostava dele aqui e não ganhava a eleição. E o cara ganhou ela na maior mamata do mundo.

 

P/1 – E depois que aconteceu isso, o que veio depois?

 

R – Fizeram o quebra-quebra. Depois disso aí foi chamado todo mundo lá no fórum, foi punido, o juiz não teve dó. Está certo, o juiz fez o papel dele como juiz.

 

P/1 – E teve outra eleição?

 

R – Teve uma eleição e Ademar ganhou de novo (risos). Foi muito esperto ele, tá certo, viu? A gente, hoje todo mundo é amigo, ele é um bom médico, doutor Ademar, um cara que atua bem na área dele de Saúde, mas fez essa covardia pra nós aqui em Xambioá. Não tenho nada contra ele, não. Por mim eu perdoo ele (risos).

 

P/2 – Processo político é uma coisa e no campo pessoal é outra, né?

 

R – É, no campo pessoal é outra. Ele é um bom médico, um cara que muita gente gosta dele, todo mundo gosta dele, um cara bom. Foi um grande médico aqui, o doutor Melquide, uma pessoa que ajudou muito a gente aqui, doutor Ademar e ele. Mas é passado, né?

 

P/2 – É verdade.

 

P/1 – Nós já estamos terminando. Você acha que falta alguma coisa pra perguntar?

 

P/2 – Não, não. Porque fica repetitivo. Já estão encerrando.

 

P/1 – Mas mesmo assim, se quiser, se faltou alguma coisa. E também se você, antes da gente terminar, Hildebrando, quiser falar alguma coisa da sua história ou da história da cidade que a gente não perguntou, então você pode falar, contar algum episódio que a gente não perguntou.

 

R – Eu gostaria que você colocasse em prática, colocasse no vídeo pra mostrar pro Brasil e pro mundo o que nós estamos passando aqui com o nosso rio Araguaia. Nós estamos aqui, como eu sou um morador de muitos anos aqui, muita gente vive da pesca, estão judiando com o nosso rio Araguaia. Você vê a imagem do nosso rio, eu esses dias andando aqui na beira do rio eu quase chorava aqui na beira do rio, me deu aquela dor por dentro, uma dó tão grande de ver o meu Araguaia seco, aparecendo gorgulha aí pra todo mundo ver. Se vocês quiserem filmar aí vocês filmem e bota na filmagem de vocês aí, que fizeram canal no rio lá muito acima aí desviando a água. Foi visto, comprovado, foram de avião lá, o repórter, filmaram tudo. Então, a gente não pode passar por uma situação dessa não, porque sofre não é só nós aqui, não. Aqui o transporte para de trafegar, do lado do Tocantins pro Pará, aqui na região de Xambioá, Araguanã, Conceição do Araguaia e vai subindo aí. Então acaba tudo, dessa forma aí para tudo. O Brasil para. O Araguaia é um grande incentivo de pesca, é do tráfego de transporte, é tudo. Então uma covardia que estão fazendo isso pra beneficiar meia dúzia de pessoas. Eu pedir que as autoridades tivesse dó e piedade disso aí, punir essas pessoas, acabar com isso aí. Se não der conta eu peço a meu Deus que castigue, mande que a natureza se revolte e acabe tudo aí, como acabaram com a nossa praia, que a natureza acabou com a nossa praia do meio aqui, que era praia boa. Na enchente de 1980 acabou com tudo, revolta da natureza com as coisas que acontecem. Então se o homem não resolver isso, eu peço a meu Deus que resolva isso por nós, que devolva o nosso Araguaia como ele era. Porque eu vivo aqui porque eu gosto daqui. Eu já tentei morar em outros lugares e não dei conta, não dou conta de viver sem meu Araguaia. Gosto de ver ele em tempo de verão, verão praia, tempo de inverno, cheia, no limite dele, sabe? Isso que eu gosto do meu Araguaia. E não é só eu que gosto, não, é a população inteira de Xambioá que gosta disso aí. Peço que vocês divulguem isso aí, cobrem isso das autoridades. A gente não pode viver olhando pro nosso Araguaia dessa forma. Desculpa que eu também estou um pouco emocionado com isso, mas eu estou falando a pura realidade.

 

P/1 – Com certeza, com toda razão.

 

R – E Deus abençoe vocês, Deus dê vida longa a vocês pra vir visitar o nosso rio aqui e ver ele quando ele estiver no nível normal dele, no verão e no inverno.

 

P/1 – Está ótimo, nós vamos fazer isso, vamos divulgar. Antes mesmo do livro ficar pronto.

 

R – Eu quero que vocês filmem ele aí, mostre pro povo do Brasil e do mundo: o Araguaia é um dos melhores rios que tem no nosso país, água doce, praia de areia fina e praia de areia grossa, está da forma que você quiser escolher. Gorgulho. Tem tudo. Peixe tem o karê, tem o tucunaré, tem o jaú, tem a cachorra, tem a pacu, tem o piau. Então tem tudo, a gente tem tudo de bom aqui e a gente não pode deixar isso acabar. Tenham dó de nós, divulguem isso daí pelo amor de Deus.

 

P/1 – Com certeza. Muito bom, muito obrigada pelo seu depoimento e pela sua história.

 

R – De nada.

 

P/1 e P/2 – Parabéns!

 

P/2 – Parabéns e obrigado, viu?

 

FINAL DA ENTREVISTA

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