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História

Com o coração na luva

História de: Gylmar dos Santos Neves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2013

Sinopse

Gylmar começa seu relato contando sobre a infância passada em Santos, os primeiros contatos com a bola e o início da carreira profissional no Jabaquara, pequeno clube santista. Narra sua passagem vitoriosa pelo Corinthians, a transferência para o Santos F. C. e sobre como ambos os times reivindicam sua memória, sendo querido por ambas as torcidas, bem como as campanhas vitoriosas da Seleção Brasileira em 58 e 62, e as partidas disputadas na Inglaterra em 66. Gylmar discorre também sobre o início do treinamento de goleiro, as dificuldades da profissão, o aprendizado durante as excursões pela Europa e a aposentadoria depois de anos de história no futebol.

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História completa

P/1 – Gylmar dos Santos Neves, entrevistado por José Santos e Fábio Franzini. São Paulo, dia 29 de Março de 1999. Então, bom dia, Gylmar.

R – Bom dia.

P/1 – Prazer estar aqui com você. Iniciando então essa entrevista, eu gostaria que você dissesse então o seu nome completo, data e local de nascimento.

R – Bom, meu nome completo, Gylmar dos Santos Neves. Eu sou nascido em Santos no dia 22 de Agosto de 1930.

P/1 – Gylmar, você podia falar o nome do seu pai e o da sua mãe?

R – Meu pai chamava-se João dos Santos Neves e minha mãe Maria da Conceição dos Santos Neves.

P/1 – E eles são de Santos?

R – São nascidos em Santos, todos os dois.

P/1 – Você passou a sua infância em que bairro de Santos?

R – Eu sou do bairro do Macuco, passei toda a minha infância ali na Rua São José e ali foi onde eu comecei a dar as minhas primeiras... Os meus primeiros chutes na bola. Então foi em Santos, na Rua São José realmente que deu início a essa minha carreira que durou durante 22 anos.

P/1 – E, Gylmar, como era Santos na sua infância?

R – Bom, Santos era bem diferente do que é hoje. Santos ainda era uma cidade praiana, provinciana, bem simples e onde a gente, naquela época, tinha condição de ou arrumar um terrenozinho ou na própria rua fazer umas peladas. Hoje não, a cidade cresceu muito, hoje é uma metrópole, hoje Santos é totalmente diferente daquela época. É uma cidade imensa, é uma cidade hoje que cresceu demais e está fazendo com isso com que os campos que existiam naquela época vão terminando e assim impedindo que aquela juventude, aquela garotada que vem surgindo tenha seu espaço para poder praticar o esporte, então se torna difícil, inclusive hoje, em Santos se revelar um novo valor para o futebol, e não só para o futebol como para outros esportes.

P/1 – Então, Gylmar, continuando ainda na sua infância, você se recorda como era a sua casa?

R – A minha casa era uma casa simples, uma casa humilde, uma casa de madeira. Como naquela época a maioria das casas era de madeira, eu lembro bem que quem tivesse uma casa de alvenaria era considerada uma pessoa rica. Então, a minha casa era uma casa grande, não resta a menor dúvida, o terreno era imenso. O meu terreno, da minha casa, tinha de frente 30 metros por 60, quase, de fundo. Então inclusive nós jogávamos futebol dentro de casa, nós fazíamos ali a nossa peladinha durante o dia, no intervalo das aulas, eu reunia o meu grupinho e íamos lá para casa jogar futebol. Então era uma vida gostosa, era uma vida sadia, onde você vivia sempre exposto com a natureza, coisa que eu sempre gostei, de viver exposto à natureza. Eu nunca fui aquela criança, na época, de ficar agasalhada. Eu sempre andei de peito nu, sempre de short, descalço e em contato propriamente com a natureza. Mercê disso, graças a Deus é que eu tive essa felicidade de não ter, assim, contraído doenças, assim, que toda criança contrai na sua infância.

P/1 – E como é que era o campo? Ele tinha trave...

R – Ah, nós fazíamos, o campo tinha trave. Era organizado, era tudo bonitinho. Só o campo não tinha gramado como são os campos de hoje, mas a gente procurava manter, tratar o campo. Havia períodos em que não se marcava partida, jogos, para poder cuidar do campo, para arrumar o campo para que ele estivesse sempre em condições.

P/1 – E os seus irmãos também jogavam com você?

R – Eu tinha o meu irmão Geraldo e o meu irmão Alcides, que já faleceram. Eles também jogavam no mesmo time que eu jogava, do bairro, né? E tinham os outros rapazes da vida que, infelizmente naquela época não saiu ninguém para o futebol a não ser eu, e talvez eu fosse o único que não pensava em ser um jogador de futebol e acabei sendo um jogador de futebol, porque os meus pais queriam que eu estudasse, que eu fosse alguma coisa, e infelizmente por causa do futebol larguei os estudos e abracei a carreira futebolística. Graças a Deus deu certo, não me arrependo até hoje, mas eu também gostaria de pelo menos ter feito a vontade do meu pai, né?

P/1 – Você, nesta época então, jogava na linha ou já era goleiro?

R – Não, não, eu sempre joguei no gol porque eu sempre gostei do gol. Eu fui uma pessoa que tive, assim, admiração por um grande goleiro da época que foi Oberdan Cattani, e eu procurava imitá-lo nessas brincadeiras que nós fazíamos com os garotos, principalmente em casa ou na rua. Então eu via as fotos que eram estampadas nos jornais da época e eu procurava imitá-las. Então com isso eu fui pegando gosto pela posição, achava que era uma posição muito bonita, onde a pessoa tinha, assim, a oportunidade de fazer coisas diferentes dos outros, e com isso eu me tornei um goleiro.

P/1 – É, porque muitos dos goleiros sempre jogavam na linha e no final é que...

R – É, costumam dizer que o goleiro ele vai para o gol porque ele não dá para jogar lá na frente, em qualquer outra posição, então ele tenta e depois jogam ele lá para trás e ele acaba no gol, mas no meu caso foi diferente, eu já comecei no gol.

P/1 – E você chegou ao Jabaquara como?

R – Eu estava, eu tentei uma época ir treinar no Santos. Inclusive o meu pai havia conseguido um cartãozinho do Athié Jorge Coury pra que eu fosse treinar no Santos, mas eu não tive a felicidade de treinar porque não me permitiram. Aí um desses meus irmãos, o Alcides pegou e disse: “Bom, já que você quer jogar futebol então você vai para um clube que pelo menos você possa ter carreira.” E me levou para o Jabaquara. Lá eles me deixaram treinar e eu acabei ficando no Jabaquara.

P/1 – Você, isso era mais ou menos que idade?

R – Mil novecentos e quarenta e cinco. Eu fui com quinze anos para o Jabaquara, comecei a treinar, aí fiz aquele primeiro ano como juvenil, o segundo também, depois eu passei para o amador, naquela época era amador, depois do amador eu fui guindado aos aspirantes do Jabaquara. Fiquei até 49 e 50, mais ou menos, início de 50. Em 51 eu ainda estava no Jabaquara, início do campeonato, o Mauro, que era o goleiro titular machucou-se e o Renganeschi, que era o treinador, me colocou para jogar no time principal. Joguei e me saí bem e fiquei até ser transferido para o Corinthians.

P/1 – E como é que foi a emoção, a primeira partida como profissional?

R – É realmente foi uma emoção muito grande. A primeira vez que eu entrei no Pacaembu eu fiquei...

P/1 – Gylmar, então nós estamos aí em 1950, você está disputando o seu primeiro campeonato paulista. Você jogou até o fim do campeonato pelo Jabaquara?

R – Joguei. Esse ano eu joguei até o fim porque eu acredito que o treinador tenha gostado da minha atuação e me manteve no time, e com isso eu terminei o campeonato. Até, na época, me consideraram um dos melhores goleiros do campeonato, apesar de ter jogado metade do campeonato. E acredito que em face dessa minha performance nesse período é que houve um interesse do próprio Corinthians, quando veio buscar o Ciciá, que eu fosse para o Corinthians, né? Apesar de que a minha contratação foi um pouco diferente, mas depois a gente conta esse episódio que aconteceu.

P/1 – Não, pode contar.

R – Não, é porque quando o Corinthians veio a Santos para contratar o Ciciá ele não queria levar outro jogador. Eles só queriam o Ciciá porque a carência deles era um jogador de meio de campo, naquela época center-half, e o Ciciá era o center-half do Jabaquara na época, né? Mas como o Jabaquara sempre foi um clube que a situação financeira era sempre precária, ele precisava de dinheiro. Então, eles tentavam empurrar mais um jogador na transação e o Corinthians não tinha interesse nenhum em levar mais ninguém a não ser o Ciciá. Acontece que depois de tanta insistência, um dos diretores, que já é falecido, Manuel dos Santos, disse assim: “Olha, vamos levar o goleirinho aí que eles estão dizendo aí para gente levar, porque o Cabeção e o Bino estão sem contrato, quem sabe assim, levando ele, eles assinam o contrato, reformam o contrato, não criam problema para gente.”; “Ah, então tá bom, então vamos levar.” Com isso eu fui contratado junto com o Ciciá, não sei quanto custou o meu passe. Eu sei que a transação ficou naquela época em 400 mil cruzeiros. E era uma fortuna também para época, não lembro bem, mas, a nossa moeda já mudou tanto que hoje você já não sabe mais valores, né? E eu vim para o Corinthians, e, realmente, no dia que eu me apresentei no Corinthians o Cabeção e o Bino reformaram o contrato imediatamente, né?(risos) Aí nós ficamos em três goleiros. (risos) Aí eu fiquei lá, comecei a minha trajetória dentro do Corinthians, tentando galgar o meu degrauzinho para eu chegar ao mesmo nível dos dois que estavam lá. E eu dei sorte porque depois o Bino saiu do Corinthians, voltou para sua terra, que era o Paraná, aí fiquei eu e o Cabeção e com isso eu comecei a revezar com ele no gol do Corinthians.

P/1 – Isso em 51?

R - Isso em 51.

P/1 – Como é que era o Corinthians? Quem jogava lá?

R – Ah, naquela época jogavam... O time tinha eu, às vezes eu e às vezes o Cabeção. Jogava o Alfredo, Murilo, Tonguinha, Hidário, Roberto, Claudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário. Depois veio Souzinha, depois veio o Liquinho e depois entrou o Rafael. Depois o time foi mudando muito, né? Mas era um time competitivo, era um time que tinha uma garra, como sempre foi a característica do Corinthians, né? A garra era muito importante. O Corinthians tinha, assim, uma espinha dorsal, o que é que era? Três ou quatro jogadores de grande habilidade e o resto jogadores de porte mais físico do que propriamente habilidade. Mas era uma garra impressionante. Foi um time muito bom de jogar durante um período, muito bom!

P/1 – Você era querido pela torcida, né?

R – Até hoje, né? Até hoje eles não dizem o Gylmar do Santos, eles falam o Gylmar do Corinthians. Eles não aceitam que o Gylmar tenha ido para o Corinthians, mas infelizmente eu tive que sair, houve um problema comigo lá com o Wadih Helu, na época o atual presidente do Corinthians e isso fez com que eu saísse do Corinthians, e felizmente para mim eu fui parar no Santos, né? Que há muito tempo já vinha tentando me levar e com isso eu ainda tive mais oito anos de glória dentro do Santos, foi onde acho que eu conquistei os meus maiores títulos.
P/1 – Mas, Gylmar, vamos ainda falar um pouquinho do Corinthians, embora seja o Museu do Santos, porque você em 51 já se sagra como campeão paulista.

R – É, eu fui campeão paulista em 51, mas acontece que em 51 também teve o meu dia negro, né? Naquele jogo com a Portuguesa quando nós perdemos de 7x3, onde insinuaram que eu havia entregado o jogo para a Portuguesa e eu fiquei afastado por um período de seis meses no Corinthians. Então foi assim um período muito difícil pra mim, aonde eu era proibido de entrar nas dependências do clube, eu não podia treinar no clube. Quando eu ia receber os meus vencimentos eu tinha que receber num banco à parte, então foi um período muito desagradável e que eu não desejo para ninguém. Mas felizmente eu tinha minha consciência tranquila, aquilo aconteceu porque tinha que acontecer, são essas fatalidades que acontecem no futebol e que de vez em quando também a própria Portuguesa apronta, né? Porque a Portuguesa ela vinha sempre dentro daqueles altos e baixos, mas de repente ela pega um time e mete cinco, seis, sete, oito.

P/1 – Rogério sofreu isso o ano passado, né?

R – Exatamente. Então a gente sabe que jogador nenhum faria uma coisa dessa, principalmente eu que estava iniciando a minha carreira. Mas aconteceu e eu consegui dar a volta por cima porque o Corinthians precisava de um goleiro para excursão, que ele ia viajar para o exterior, e não tinha goleiro porque o Cabeção naquela época tinha sido convocado para Seleção Paulista e eles tentaram o empréstimo de outro goleiro nos clubes de São Paulo e não conseguiram. Aí esse mesmo Manoel dos Santos que me indicou para o Jabaquara disse: “Ah, mas nós temos um goleiro aí.”; “Mas quem?”; “O Gylmar, que está aí. Tá parado, não tá jogando.”; “Ah, não vamos levar porque...”; “Não, vamos levar. O rapaz tá aí, nós não temos outro para levar.” E me levaram e eu acabei indo para a excursão, joguei todas as partidas, voltei novamente consagrado porque me saí bem na excursão. Lá eu consegui me redimir daquele insucesso daquele jogo da Portuguesa, fiz uma bela temporada, voltei e aí voltei como titular novamente no Corinthians. Aí as coisas...

P/1 – Gylmar, como é que foi essa fase difícil? O que é que você pensava quando você não podia... Você estava aí, segregado do elenco? O que é que te passava pela cabeça?

R – Ah, passam coisas ruins na vida da gente, né? Você fica mais triste, porque você sabe que você não fez nada de errado, que você seria incapaz de fazer aquilo que eles imaginavam que eu tivesse feito, então aquilo doía muito. E eu achava que, como eu sempre fui muito católico, eu sempre acreditei em Deus, que a fé divina ela um dia iria mostrar para eles que eu não tinha feito nada de errado, que aquilo tinha sido uma fatalidade, então eu me apegava muito a Deus nesse ponto. Apesar de que todas as vezes que eu andava na rua eu era achincalhado, todo mundo me xingava, me maltratava. E você tem que ficar quieto, você não pode se defender, você não tem como se defender. Mas graças a Deus, eu volto a dizer, eu pude mostrar a eles que tudo aquilo que se levantara de mim foi uma inverdade, não era fato concreto. Posteriormente, bem mais tarde, eu vim saber que uma pessoa realmente tentou fazer e levou esse dinheiro. E era uma pessoa de Santos, eu não lembro o nome dele, mas era uma pessoa de Santos que fez isso comigo. Porque ele costumava fazer essas coisas com os jogadores, entende? E pra ele, que tentou fazer e fez, e deu certo por eu ter talvez jogado mal naquele time e o time perdido, aí então ele ficou com o dinheiro e disse que eu tinha entregado o jogo para Portuguesa.

P/1 – Nossa!

R – Mas felizmente eu dei a volta por cima, voltei para o Corinthians, graças a Deus tenho uma boa amizade, uma boa penetração no Corinthians, todo mundo gosta de mim, eu gosto do Corinthians como gosto de todo mundo, eu nunca tive problemas com ninguém, eu me dou com todo mundo, então para mim foi... A minha maior vitória não foi ter o título, não foi nada não. Foi ter provado ao próprio Corinthians que eu não era uma pessoa venal, que eu era uma pessoa correta e que havia acontecido uma fatalidade comigo, só isso.

P/1 – E você recupera isso nessa excursão e aí você ganha a posição?

R – Aí eu ganhei a posição. Eu joguei o ano todo de 1952 como titular, depois em 53 eu estava no time jogando e aí eu tive uma contusão, que eu machuquei, tive uma luxação completa no jogo com o São Paulo, fiquei oito meses afastado e aí eu só voltei ao time novamente quase já no segundo turno. Aliás, no final do primeiro turno, diante da própria Portuguesa. Nessa época o Brandão já era o treinador do Corinthians e eu já estava voltando para o time, já estava na reserva do Cabeção, já estava retornando, e aí um dia nós estávamos concentrados no Pacaembu, nós estávamos andando, dando uma caminhada, o Brandão chegou para mim e disse: “Olha, amanhã você vai jogar.” Eu falei para ele: “Mas por que é que eu vou jogar? O titular é o Cabeção, quem está jogando é ele, não eu.”; “Não, não, eu quero que você jogue amanhã.”; “Mas por quê?” Ele disse: “Porque eu quero que você apague aquela impressão de 73.”[sic] Porque o Brandão era o técnico da Portuguesa naquela época, em 51. Eu falei: “Tá bom, se você quer que...”; “Tem algum problema?” Falei: “Não, não tem problema nenhum, eu vou e jogo, não tem problema.” Aí fui jogar, joguei, nós ganhamos de 1x0 e eu fui considerado o melhor jogador em campo, e com isso eu fiquei no campo, só que criou um problema dentro do clube com o Cabeção, o Cabeção não aceitou aquilo de bons olhos. E com razão, porque ele era o titular, ele é que vinha jogando e de uma hora para outra ele foi guindado da equipe para que eu pudesse voltar, então criou um clima muito ruim e ele acabou também saindo do Corinthians. Aí fiquei eu, depois contrataram outro goleiro, se não me engano que jogava no Ipiranga, agora eu não lembro o nome dele... Mas, fiquei e fui até o fim. Aí fui até a minha transferência para o Santos.

P/1 – Quer dizer, você foi campeão do IV Centenário?

R – Eu fui campeão em 51, 52 e 54. E fui também campeão do Rio-São Paulo duas vezes, se não me engano 52 e 53.

P/1 – Então, quer dizer, você já sofreu um pouco com o ataque do Santos, né?

R – Olha, sofrer, sofrer assim, não. Porque quando você diz sofrer com o ataque do Santos você fala do ataque atual, né, aquele...

P/1 – Pagão, Pelé, Pepe.

R – É, mas aí eu peguei outro ataque que era um ataque também muito bom e que criou muito problema, que era o Carlinhos, o Álvaro, Del Vecchio, Vasconcelos e Tite. Aí foi o início dessa equipe do Santos, que era um ataque muito rápido, muito veloz, jogadores muito hábeis. O ataque com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe eu joguei muito pouco, eu joguei umas três, quatro vezes contra o Pelé, inclusive, que na época era o fenômeno, né? E dessas três vezes ele jogou duas, uma ele não jogou porque estava contundido e a outra partida que ele também jogou ele jogou machucado, então ele não apareceu muito, mas na primeira ele fez três gols em mim. Foi aquele jogo que nós ganhamos a Taça dos Invictos, terminou 3x3, que o Paulo fez o gol em cima da hora e empatou 3x3, no Pacaembu. Então eu não tive assim essa infelicidade, né? Não vou dizer felicidade, porque todo mundo não achava que era bom jogar contra essa, mas eu tive a felicidade de não jogar contra esse ataque, mas joguei com o anterior que era um ataque muito bom e que dava muito trabalho. Um ataque... Não vou dizer que era idêntico a esse de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, mas era um ataque que se assemelhava muito a esse, era um ataque de muita habilidade, de muito toque de bola e de jogadores excepcionais.

P/1 – Gylmar, antes da gente ainda passar para sua fase no Santos, a gente queria falar um pouquinho de Seleção Brasileira, porque você se torna campeão do mundo em 58. Você foi convocado para a Seleção pela primeira vez quando?

R – Bom, a minha primeira convocação deu-se em 1953, no sul-americano, em Lima, no Peru. Eu era o terceiro goleiro, que o primeiro era o Barbosa e depois o Castilho. Foi a primeira vez que eu fui, joguei 45 minutos nesse torneio e, depois, eu fui convocado nas demais. Continuei sendo convocado até quando, em 1955, eu já fui convocado e já fui o titular no sul-americano extra em Montevidéu. Aí foi quando eu comecei a galgar a posição de titular na Seleção Brasileira. Depois veio novamente o campeonato sul-americano em Lima, no Peru, em 57, eu já era titular e depois teve a excursão à Europa e depois de lá, Seleção Brasileira.

P/1 – Então vamos falar um pouquinho da Suécia. Como é que foi a campanha da Copa?

R – É, a campanha da Suécia foi ótima porque nós ganhamos, a equipe também realmente era uma equipe muito boa. Agora, acontece que nós tivemos uma série de problemas, uma série de dificuldades para poder chegar à Suécia, inclusive a falta de dinheiro. Naquela época não existia o patrocínio que existe hoje, o problema das dispensas que você tinha que fazer antes de se formar o grupo para ir para a Suécia. Então, era aquele problema, o time era tão bom que você não sabia como dispensar os jogadores. Às vezes você tinha que até arrumar uma contusão, uma doença ou qualquer coisa, para poder dispensar, porque você não tinha como dispensar. E aquilo nos chocava muito, porque o ambiente e a amizade que se formou naquele período em que nós ficamos concentrados e treinando, então era uma choradeira quando um ia embora, você não sabia quem era o próximo, você ficava numa expectativa tremenda, então isso deixava a gente muito tenso. Até o dia em que se inferiu quais seriam os 22 jogadores que iriam para Suécia, aí a equipe ficou numa tranquilidade maior e então aí voltou o outro problema, que é aquilo que eu citei antes, que nós não tínhamos dinheiro para chegar na Suécia, o nosso dinheiro dava para chegar até a Itália, e isso porque o doutor Paulo emprestou dinheiro, naquela época ele era o dono da Record, ele emprestou uma parte do dinheiro, a CBF colocou outro dinheiro, e ao chegarmos na Itália nós tentamos arrumar duas partidas, fazer dois amistosos para conseguir o restante do dinheiro para comprar as passagens para chegarmos até Gotemburgo, que era a nossa sede na Suécia, né? Fizemos os dois jogos, conseguimos os dois jogos, até uma foi contra a Fiorentina na despedida do Julinho da equipe da Fiorentina, uma festa muito bonita, uma festa extraordinária, eu nunca tinha visto uma festa como aquela para um jogador estrangeiro e principalmente para um brasileiro que era o Julinho, que é um ídolo até hoje em Firenze. Hoje lá você fala em Júlio Botelho, para eles é Deus. Então isso para nós brasileiros é muito satisfatório. Foi uma festa muito bonita, a equipe jogou, fez uma partida extraordinária, mesmo porque a Fiorentina era a base da Seleção Italiana naquela época. O Garrincha só não fez chover aquele dia, que era uma noite extraordinária, e o Garrincha fez miséria naquele jogo, acabou com o jogo. Então aí conseguimos com facilidade, ganhamos de 4x0, o outro jogo foi mais fácil de arrumar, porque em face da apresentação que fizemos, fizemos a outra partida também com a Inter de Milão, também ganhamos de 4x1, e com isso nós conseguimos o dinheirinho para poder chegar na Suécia, só que não podia receber em cheque, tinha que ser dinheiro vivo porque cheque podia ser sem fundo, né? Naquela época tinha o problema de muito cheque sem fundo, então tinha que ser dinheiro vivo. O carro ia lá, ficava esperando recolher as liras, contar para pegar o dinheiro, pôr no bolso e sair. (risos) E assim nós chegamos na Suécia. Ao chegarmos na Suécia foi aquela expectativa de primeira Copa do Mundo, quase toda a equipe, porque 98% daquela equipe era a primeira vez que ia participar de uma Copa do Mundo, nós nunca tínhamos estado em Copa do Mundo. Tínhamos jogado jogos amistosos, outros jogos de importância, mas não de tanta relevância como era uma Copa do Mundo. Então era aquela expectativa do início da primeira partida, né? E ficamos num lugar muito gostoso, numa cidadezinha chamada Hindas, num hotel que ficou só para nós. Ali nós fizemos um ambiente muito gostoso com o povo da cidade, tínhamos um contato diário com eles e então nós fizemos ali o nosso status, dali nós saíamos para os treinos, dali íamos para os jogos e voltávamos, até a final. Nós ficamos lá nos deslocando, porque tudo era perto, não eram tão longe os locais de jogos, né? Ficamos também ao lado da Seleção Russa, que estava ao nosso lado, e foi muito gostoso porque ali nós começamos a criar um ambiente junto ao povo sueco, coisa que nós não sabíamos o que poderia nos esperar, porque nós tínhamos que jogar com a Suécia também, né? A Suécia estava participando e podíamos cruzar com a Suécia como cruzamos na final. E esse primeiro contato, essa convivência do início foi muito bom porque fez com que nós criássemos, assim, uma imagem agradável com o sueco. E toda vez que nós saíamos para jogar, quando voltávamos eles faziam uma festa tremenda, ficavam esperando, nós voltávamos à noite, às vezes oito, nove, dez horas, quando chegava no hotel estava todo mundo lá esperando a gente com faixa, com bandeirinha, então foi uma coisa muito gostosa essa convivência na Suécia.

P/1 – E a estreia na Copa?

R – A estreia é aquilo eu te digo, é a expectativa de todo primeiro jogo. Você não sabe como é que você vai começar, o que pode acontecer. Então é evidente que o nervosismo está na flor da pele, você está naquela expectativa, o que pode acontecer, o que não pode acontecer. Nós fomos jogar contra a Áustria. Você sempre ouviu falar que a Áustria era um futebol de muita habilidade, um futebol estilo sul-americano, mas você não sabia como era aquele time, você não tinha visto jogar. Então você tem certa preocupação, porque num torneio como esse tudo depende de como você começa. Se você começa bem, então a tendência é você ir bem até o final, mas se você começa já meio periclitante as coisas começam a ficar difíceis, né? Felizmente a equipe foi, encarou o time austríaco de frente, impôs o seu ritmo, impôs o seu futebol e os gols foram surgindo e nós conseguimos passar pela primeira etapa. Então isso já nos deu um ânimo muito maior para os demais jogos. Então nós já sentimos que se começamos bem, então a tendência daqui, desse time é evoluir, é crescer. Acontece que depois veio o segundo jogo, que foi contra a Inglaterra, algumas peças, no caso, como o Joel, o Dida, foram jogadores que começaram a sentir o peso da responsabilidade e já não estavam rendendo aquilo que a comissão técnica esperava deles. Empatamos o jogo de 0x0, tivemos chance de ganhar. O Mazzola aquele dia perdeu uma infinidade de gols, talvez preocupado com o problema dele da Itália, que ele havia acabado de ser contratado pelo Milan. Então, ele estava preocupado com tanto dinheiro, eu acho que aquilo mexendo na cabeça dele que ele esqueceu até de fazer os gols. Então, depois nós tínhamos que jogar o outro jogo com a Rússia, que seria o jogo para passar para a outra fase e nós dependíamos de ganhar aquele jogo. Então, o seu Feola falou conosco que ele pretendia mudar o time, o que é que nós achávamos. Eu falei: “O treinador é o senhor. Se o senhor acha que tem que mudar o time então o senhor muda.” E ele disse: “O Joel e o Dida acho que estão sentindo a responsabilidade... Eu tô com vontade de pôr o Garrincha, ele já tá bom.” Que o Garrincha estava meio machucado, estava lá com alguns problemas, e o Dino estava machucado, estava com furunculose e estava lá com uma série de problemas, aí o seu Feola: “Vou colocar o Zito também, vou colocar o Vavá – o Vavá já tinha jogado no jogo contra a Inglaterra – e eu acho que eu quero ver como o Pelé tá, que eu tô com vontade de pôr o Pelé.” E o Pelé estava machucado, ele foi machucado para lá, como todos sabem que ele foi machucado. E ele só vivia chorando na concentração, que ele queria vir embora porque ele achava que não ia se recuperar para jogar a Copa do Mundo. Mas, naquele dia, em virtude do Feola dizer que ia colocá-lo para jogar, nós chegamos para ele e falamos: “Olha aqui, neguinho, vê se você não enche. Tá machucado? Então você vai lá e treina. Se tiver machucado você vai embora de uma vez, mas não fica aqui enchendo a gente. Pelo menos vai ver se você tem condição.” Ele foi treinar, acabou com o treino, não tinha mais nada! Quer dizer, o negócio dele já era psicológico, ele estava com aquilo na cabeça, que ele estava machucado, que não podia jogar. Então, aí o seu Feola: “Não, ele vai jogar.” Aí entrou e viu, né? Aí o time sim, aí o time se entrosou com o Zito lá atrás, com o Vavá, com o Pelé, com Garrincha... Aí o time foi embora, ninguém mais segurou. Eu acho que naquela época, quem viesse, o Brasil faturava.

P/1 – Gylmar, e no jogo da final, quando eles fazem esse 1x0? Deu um frio aí no estômago?


R – Não, porque nós já tínhamos visto a Suécia jogar através da televisão, nós assistíamos alguns jogos pela televisão. E já tínhamos visto o time da Suécia jogar. Sabíamos que era um time que tinha habilidade também, porque a maioria deles jogava fora da Suécia, jogava nos times da Itália, nos times da Inglaterra. E eram jogadores de uma habilidade ótima, mas deixavam jogar, não é aquele time que marcava como é o futebol europeu que marca em cima, joga ali, homem a homem, não te deixava tocar na bola. Ora, bom, eles têm habilidade, mas se deixar o nosso time jogar é evidente que a vantagem é nossa, porque a nossa habilidade ainda é maior que a deles. E foi o que aconteceu, sofremos o primeiro gol mas o time não se abalou. O time recebeu com naturalidade, não foi uma ducha de água fria, pelo contrário, aquilo serviu mais ainda para nos animar, tanto é verdade que aparece aquela foto que Didi pega a bola e vem andando com ela embaixo do braço, dizendo: “Calma, vamos lá gente, vamos lá que nós vamos ganhar.” E isso foi uma verdade mesmo. Que nós sabíamos do nosso potencial, nós sabíamos até onde nós podíamos chegar, entende? Apesar de termos sofrido aquele gol o time não se abalou, o time não sentiu o impacto. E foi. Foi jogando tranquilamente e os gols foram surgindo com naturalidade, até chegarmos a 4x1, e aí 4x2, 5x2 e com isso fomos campeões. Agora, o bonito que eu achei é aquilo que eu te disse, no início nós cativamos o povo sueco quando nós estivemos em Hindas, e lá nessa decisão toda a torcida aplaudindo o time brasileiro. Nós não sabíamos como seria a reação deles quando estavam Brasil e Suécia se enfrentando, nós achávamos que penderia só para o lado da Suécia, mas, pelo contrário, como é um povo muito esclarecido, muito educado, eles aplaudiam as boas jogadas tanto de um lado como do outro. Então isso para nós foi muito bonito e muito gostoso, porque eles também nos deram aquele incentivo que nós precisávamos, porque naquela época não tinha torcida lá, né, presente. Éramos nós e só nós. Hoje não, hoje qualquer Seleção que sai por aí...

P/1 – Então, retomando aqui o que você estava falando da reação da torcida sueca em relação ao Brasil.
R – É, foi um gesto muito bonito, porque nós não sabíamos como eles reagiriam jogando diante da Seleção da Suécia e foi muito bonito porque eles procuravam aplaudir as jogadas tanto da Suécia como dos brasileiros. Eles estavam lá presentes como se estivessem vendo um espetáculo. É um povo muito culto, um povo muito educado e que, além de prestigiar a equipe da casa, prestigiou também a equipe brasileira, mesmo porque nós não tínhamos torcida lá naquela época. Naquela época, o brasileiro não acreditava muito no futebol brasileiro e não ia, não acompanhava futebol. Então éramos nós, os 22, a Comissão Técnica e alguns gatos pingados que faziam parte da embaixada do Brasil que estavam presentes. Essa era a nossa torcida, mas, felizmente, nós contamos também com o povo sueco que nos aplaudiu bastante e vibrou muito com as jogadas de efeito do time brasileiro. E com isso nós nos sentimos à vontade. Agora, depois do jogo, você sabe que é aquela loucura, né? Você vira criança, você não sabe o que faz, você pinta e borda, você dá cambalhota, você chora e inclusive eu chorei barbaridade, porque pela primeira vez que eu tinha estado numa Copa do Mundo e tive a felicidade de ser campeão. Todos choraram, o Nilton Santos, todos abraçados uns aos outros, chorando, até que aconteceu também aquela foto que marcou muito, que o Pelé veio chorar no meu ombro e todo mundo fotografou. E inclusive eu tive essa felicidade, né, dele ter chorado no meu ombro. (risos) Então foi muito bacana. E depois a volta olímpica que nós demos e alguém - não lembro quem - nos entregou a bandeira da Suécia. E nós também aceitamos, porque nós, naquele momento, estávamos fazendo uma homenagem ao povo anfitrião pelo tratamento recebido durante toda a nossa permanência lá, por isso é que nós demos a volta olímpica com a bandeira sueca. Então foi muito gostoso, muito maravilhoso. E culminou depois, quando o Rei veio nos cumprimentar, né? Com aquele gesto do Trigo, que pôs a mão no ombro do Rei e... Como é que ele falou? “Parabéns, King”, uma coisa assim, ele falou qualquer besteira lá. (risos) O estádio estava num alvoroço e fez um silêncio sepulcral. Todo mundo ficou calado porque nunca ninguém pôs a mão no ombro do Rei, né? A não ser, talvez, a mulher dele na intimidade, mas fora isso ninguém põe a mão no Rei. (risos) O Trigo não teve dúvida, abraçou o Rei e: “Vamos lá, King. Vamos cumprimentar os jogadores.” E ele levou aquilo, sorriu, achou graça. Aí o povo todo aplaudiu, né? Mas foi um gesto impensado, uma coisa que não se faz. Pô, quebrou tudo quanto foi tipo de protocolo, né? Acabou com os protocolos naquele instante. (risos) Mas o Rei também era uma figura simpaticíssima, um homem, assim, muito agradável, e ele levou aquilo na brincadeira e cumprimentou todo mundo. E depois foi só comemorar, né?

P/1 – Gylmar, e como é que foi aí a história do Mário Américo capturando a bola?

R – É porque antes do jogo o doutor Paulo disse para ele: “Mário, se nós formos campeões, você pega a bola que eu quero guardar essa bola como lembrança” Acontece que o jogo terminou e a bola entregaram ao juiz, que todo juiz que apita uma final ele leva aquela bola como souvenir. Para ele é o troféu dele depois de uma decisão, né? E o Mário saiu correndo, sorrateiramente, o juiz estava de costas com a bola embaixo do braço, ele deu um soco na bola, jogou a bola, pegou e saiu correndo e se meteu no meio da multidão e foi direto para o vestiário. Quer dizer, aí o juiz, o Mister Guigue, não viu quem foi que tinha tirado a bola dele. E com isso ele trouxe a bola, que está até hoje aqui na Federação Esportes. [sic]

P/1 – E como é que foi a comemoração depois? Muito champanhe, banquete?

R – Depois nós fomos, é, teve o banquete de encerramento, que é onde eles entregam as medalhas para o primeiro, segundo e terceiro colocado, depois sim, teve festa, teve. Aí se podia beber, podia fazer o que bem entendesse, né? E, depois, todos nós fomos liberados, aí nós saímos para a gandaia, fomos para as boates, fomos festejar nas boates e tudo... Mas tudo dentro da normalidade, né? Porque beber, encher a cara, se você enche a cara você não vai aproveitar nada, então aproveitamos, nos divertimos bastante, mas sempre com aquela expectativa: “Como será que está no Brasil?” Porque aí o nosso pensamento já não estava mais lá, nós estávamos pensando aqui, o que é que estaria acontecendo aqui, em face da conquista. Nós nem podíamos imaginar a euforia do povo brasileiro pela conquista. Nós sabíamos que devia estar todo mundo vibrando, mas não da forma como foi a vibração do brasileiro nessa conquista, né? Então, aí volta, aquela expectativa do retorno, para você saber o que é que te espera quando chega aqui, né? Então o retorno para nós também foi, assim, bastante cansativo, porque nós tivemos que parar em Paris, porque eles pediram que parássemos lá porque eles queriam homenagear o time brasileiro. Nós paramos em Paris, depois seguimos viagem, tivemos que parar em Portugal, aí tivemos que desfilar em Portugal. Ficamos um dia em Portugal, desfilamos, fomos até o estádio do Benfica desfilar em carro do Corpo de Bombeiros, fizemos apresentação lá para a torcida e depois, no dia seguinte, viemos, aí  éramos para vir direto para o Rio de Janeiro, mas aí Recife pediu insistentemente que nós descêssemos em Recife porque o povo estava todo na rua, naquela loucura esperando o time brasileiro. E o tempo estava ruim, estava difícil para descer, e depois de três tentativas nós conseguimos descer. Aí foi também outra loucura, né? O desfile, ficamos a noite, o dia inteiro lá desfilando, só voltamos no dia seguinte, então aí que nós voltamos para o Rio de Janeiro. Quer dizer, uma viagem que deveria durar um dia levou quase quatro dias, porque tivemos que parar em vários locais. E quando viemos chegando ao Rio a primeira sensação que nós tivemos foi quando quatro aviões da FAB emparelharam assim com o nosso avião, né, e a gente viu os pilotos dos aviões da FAB fazerem assim para a gente... Pô, então aquilo já começou a emocionar, né? “Pô, então a hora que chegar deve estar uma loucura! Se os caras aqui em cima já estão assim, imagina lá embaixo!” (risos) Bom, aí, quando desceu, que eu vi aquele mundo de gente eu fiquei apavorado: “Pelo amor de Deus, o que é que vai acontecer com a gente aqui?” Mas foi uma coisa de louco! Eu nunca vi tanta gente na rua, eu nunca vi o povo brasileiro tão eufórico e tão contente como naquele dia. E aí fizemos aquele desfile desde as três à meia-noite, até chegarmos no Palácio do Catete, onde fomos recebidos na época pelo Juscelino, né, que era o Presidente, recebemos as medalhas do governo brasileiro. Aí depois teve as outras etapas, né?

P/1 – Mas, Gylmar, das três à meia-noite?

R – Das três à meia-noite.

P/1 – Nove horas no carro?

R – E aqui também. No dia seguinte, nós viemos para São Paulo, descemos aqui em Congonhas às três horas da tarde e terminamos à meia noite no Pacaembu. Porque o carro ia tão devagar, mas tão devagar, que parecia que não andava. E o povo na rua não deixava praticamente o carro andar porque queria ver. Queria ver os jogadores, queria tocar nos jogadores, aquele negócio todo. Fomos, paramos na Federação, fizeram homenagem ali na Federação, as nossas famílias estavam ali esperando a gente. A minha mulher estava com o meu filho, que era pequenininho, o Rogério, que tinha um ano e pouco, e ela me mostrava o menino, porque fazia tempo que eu não via, sentada, naquele desespero, aí é uma choradeira, você quer pegar e não pode sair do carro, né? Então você não conseguia sair do carro, nem para tomar água nem para fazer nada, nem necessidades você podia! (risos) E fomos até o Pacaembu assim, teve que aguentar. E depois, no Pacaembu, aí sim, fomos liberados, eu fui para casa, aí tive o primeiro contato depois de quatro meses com a minha família, aí no dia seguinte tivemos que ir para Santos, porque os jogadores que eram de Santos... Eu fui porque eu era de Santos, eu fui juntamente com os jogadores do Santos para desfilarmos lá, né?

P/1 – Quem foi? Zito...

R – Foi o Zito, o Pepe, o Pelé, Mauro, só. E Orlando – e eu. Fomos os cinco, desfilamos também, depois viemos embora, viemos para o Rio novamente. Depois do Rio nós tivemos lá mais algumas apresentações e aí fomos liberados, né? Aí começamos a descansar daquela loucura que foram aqueles dias que nós tivemos aqui desfilando depois da conquista.

P/1 – E, Gylmar, como é que foi a reação da sua família?

R – Olha, é lógico que ficaram contentes e eufóricos também, porque eu acho que qualquer pessoa que tem um parente que faz qualquer atividade, que exerça qualquer atividade, seja lá qualquer, e que consegue chegar ao topo daquilo que ele faz, eu acho que é motivo de euforia. Então, a minha família também recebeu com a mesma alegria de todos os brasileiros, não só os meus irmãos lá em Santos, que ainda eram vivos na época, como a minha mulher aqui em São Paulo, a família da minha mulher, minhas cunhadas todas... Todos eufóricos por eu ter sido campeão do mundo, né? Tanto que no meu prédio, depois, os moradores do prédio onde eu morava me fizeram uma festa, me fizeram uma homenagem. Então é um negócio muito bacana, é uma sensação muito bacana, muito gostosa.

P/1 – Gylmar, vamos falar um pouquinho do seu casamento. Como é que você conheceu a sua esposa?

R – Eu conheci a minha mulher em 58, em Lindóia. Eu tinha acabado o Campeonato Paulista e o Brandão disse assim: “Por que é que você não vai para Lindóia descansar, já que agora acabou o Campeonato, vocês não vão ter nada para fazer? Vai descansar um pouco, Lindóia é bom.” E eu nunca tinha ido para Lindóia. E eu falei: “Então tá bom, eu vou.” Fui eu, o Olavo e o Walmir. Fomos para Lindóia, eu fui com minha mãe e uma irmã minha. E estava lá no Hotel Mantovani, que era aquele Mantovani que jogou no Palmeiras. Eu estava no Hotel, um dia eu estava assim na porta do Hotel e eu vi passar aquela moça alta, bonitona, assim, falei: “Oh, que gata, hein!” Já meti o olho gordo nela, né? (risos) Mas ela não me deu bola não, ela se... Eu falei: “Tá bom.” Aí ia pra piscina, encontrava com ela, eu ficava olhando, olhando, e ela nada, nada... E eu chegava no Hotel, todo mundo em cima de mim, uma mulherada. E eu falei: “Que bandida! Todo mundo aqui me dá bola e ela não me dá bola? Por que é que ela não quer me dar bola? O que é que ela é mais que as outras?” Aquele negócio do gostosão, né, metido a besta. Eu falei: “Não, ela vai ter, essa mulher vai casar comigo. Eu vou casar com ela.” E fiquei com aquilo na cabeça e fui insistindo, fui insistindo, aí até que eu consegui falar com ela. Ela disse: “Não, não posso. O meu pai me mata, meu pai me mata!” Eu falei: “Mas porque é que o teu pai te mata?”; “Não, porque o meu pai não vai permitir, porque o meu pai isso, porque o meu pai aquilo.” E eu não sabia que o pai dela, por ser descendente de árabes, era daqueles patrícios durões, né? Que ele realmente não queria que ninguém chegasse perto da filha, só que quando ela ia pra piscina ele ficava do lado de fora olhando, observando para ver se alguém chegava perto, e eu não sabia. (risos) E ele começou a ver que eu estava dando em cima da filha, né? Aí ele foi e falou lá para minha sogra, disse assim: “Vamos embora que tem um rapaz aí dando em cima da menina, vamos embora.” (risos) Nesse ínterim o pessoal lá já estava sabendo que eu estava gostando dela, né? E teve uma pessoa que tirou uma fotografia dela e me deu, sem ela saber. Eu, quando vi, eu achei bacana, mas eu falei: “Pô, não é justo, né? Ela não tá sabendo que eu tô com essa foto dela, eu não vou ficar com a foto.” Nesse ínterim também eu recebi um telefonema de São Paulo dizendo que eu tinha que voltar porque o Corinthians ia fazer uma excursão para o Norte, que eu tinha que voltar imediatamente. Então, antes de voltar eu fiz uma carta dizendo a ela, dizendo que eu estava com aquela foto sem o conhecimento dela, que eu tinha ficado contente, mas que eu não achava justo ficar com a foto, mas que se ela tivesse alguma simpatia por mim, se ela quisesse me dar a foto de novo, que eu aceitaria de bom grado. E fui embora, e vim para casa. Peguei o carro, vim para casa. No dia que eu estou me preparando, que eu estou de saída chegou o carteiro em casa e me deu uma correspondência. Eu olhei, vi o nome, não sabia quem era, pus na malinha, né, e fui embora, fui para a viagem. Aí, tô no avião já viajando, aí falei: “Bom, vou abrir.” Na hora que eu abri, caiu, fui ver, era a foto dela. Ela me mandou a foto, aí escreveu, ela também tinha simpatizado... Aquele negócio tinha simpatizado, mas que, infelizmente, em virtude do problema do pai. Eu falei: “Ah, agora não, agora eu vou dar em cima.” E fui. Insisti, insisti, insisti... Foi difícil o meu casamento. Eu casei sem o consentimento do pai dela. Ele não deu o consentimento, ele não queria que ela casasse. E eu tentei, falei com ele três vezes, mas ele disse que não, que não, que não, mas não dizia o motivo. Eu dizia: “É porque eu sou jogador?”; “Não.”; “Porque eu sou brasileiro?”; “Não.”; “Porque eu sou isso?”; “Não, não...”; “Mas por quê?”; “Porque eu não quero.”; “Ora, bom, então eu vou casar com a sua filha. Até o último dia eu vou esperar o seu consentimento, se o senhor não der, paciência, eu vou casar com ela de qualquer jeito.” E casamos. Só que ele ficou 13 anos sem falar conosco. Os meus filhos nasceram ele não viu, não conhecia os netos nem nada. Minha mulher ficava revoltada, eu dizia: “Calma! Um dia ele vai ter que ver que não é nada disso que ele pensa. É a opinião dele, vamos respeitar. Eu respeito. Ele tem os seus motivos para isso, né?”. Só que três meses antes dele falecer, diz que ele teve lá qualquer sonho, parece que ele teve e falou para minha sogra que queria ver a menina – que ele chamava “a menina”. Aí a minha sogra falou: “A menina ou o marido?”; “Não, eu quero ver todo mundo.” Aí nós fomos lá, nos recebeu como se nada tivesse acontecido, tivemos, assim, uma convivência de três meses muito boa e três meses depois ele morreu. Deu um negócio nele lá, sentiu uma dor, pôs a mão na cabeça e caiu morto.

P/1 – Como é que ele chamava?

R – Nagib. Nagib Izar. E, infelizmente, uma convivência muito curta, né? Mesmo para os meus filhos, né? Porque o dia que os meus filhos chegaram lá eles diziam: “Gozado, né? Todo mundo tem avô e o meu avô eu nunca vi. Eu não tenho avô?” E a minha sogra sempre dizendo: “Não, o seu avô está viajando, o seu avô está viajando.” Até o dia que ele conheceu. Ele disse: “Puxa, avô, eu não te conhecia. Você só vivia viajando, né? Eu não sabia que eu tinha avô.” (risos) Aquele negócio de criança, né?

P/1 – E o seu casamento, foi um evento na cidade ou foi mais...

R – Eu tentei esconder, né? Eu tentei fazer tudo meio sigiloso, mas não teve jeito. Porque, mesmo pagando para não sair os editais eles publicaram tudo, sabe? Tudo era notícia, naquela época eu estava no auge, então tudo era motivo para poder publicar e fazer aquele auê.

P/1 – Em que ano que foi?

R – Eu casei em 60. Casei numa igrejinha... Casei de sábado de manhã, às nove horas da manhã, tinha greve de ônibus em São Paulo, tudo estava me ajudando e a igreja estava assim, lotada. (risos) Estava lotada a igreja, uma bagunça, o padre não queria fazer o casamento. Então, olha, foi um salseiro danado. Isso porque eu escondi, agora imagina se fosse um casamento normal, tudo, com consentimento do pai, com todo mundo em casa, né? Não fizemos nem festa, casamos, tomamos lá uma champanhezinha, um bolo e peguei o avião e fui para lua de mel no Rio de Janeiro. Lua de mel no Rio de Janeiro - olha aí! - naquela época. Fiquei uma semana, em uma semana já estava jogando novamente. Então, foi assim, tudo corrido, foi tudo. Mas graças a Deus deu certo porque estamos juntos, vamos para 39 anos de casados já, graças a Deus, vivemos muito bem, não temos problema nenhum, nunca tivemos problema.

P/2 – Gylmar, apesar de o seu sogro negar, você acha que o fato de ser jogador de futebol teve influência nesse não consentimento dele no seu casamento?

R – Eu acredito que sim, sabe por quê? Porque antigamente jogador de futebol não era visto com bons olhos, deixava muito a desejar. Então eu acho que isso teve muita influência. E, depois, a outra é que eu não era da colônia, né? Talvez por eu não ser descendente de árabe, talvez isso tivesse influenciado. Mas eu acho que mais o fato de ser jogador de futebol, porque eu acho que talvez ele tivesse receio de, por eu ser jogador de futebol, não fazer a filha dele feliz. E isso realmente poderia ter acontecido, porque ela largou tudo para casar comigo. Ela deixou a casa dela, ela deixou a vida que ela tinha, uma vida muito farta, muito boa, para ir para uma aventura. O casamento foi uma aventura. Felizmente para ela deu tudo certo, porque eu sempre fui uma pessoa correta, nunca fui uma pessoa que saísse fora do sério, que fosse um sujeito, assim, de noitada, um sujeito mulherengo. Quer dizer, eu tive as minhas aventuras quando solteiro, quando não tinha compromisso, mas desde que eu assumi o compromisso de casar com a minha mulher eu larguei tudo, então só vivia para ela, só poderia viver para ela. Então isso foi muito bacana, então isso ajudou muito, mas até ele entender isso, apesar de toda a colônia ser favorável ao casamento e a minha pessoa. Todo mundo dizia que eu era uma pessoa boa, que eu era um rapaz correto, que eu era isso, que eu era aquilo, e ele tinha lá no modo de pensar dele talvez, assim, me via de uma forma diferente. Talvez, não sei se ele não me queria para marido da filha ou se ele não queria que a filha casasse. É difícil você saber o que é que a pessoa pensa nessa hora, né? Só você tendo uma filha mulher para, na hora que vier alguém pedir a mão da filha, para saber o que é que acontece, né?
P/1 – E o seu filho nasce quando, o seu primeiro filho?

R – Ele nasceu no dia 9 de Julho de 1961. Ele nasceu ali, bem em cima, porque logo que nós casamos minha mulher engravidou logo em seguida. Ainda bem que deu os nove meses e passou dez meses, porque senão iam dizer que eu tinha feito besteira antes, né? (risos) E não aconteceu nada disso. Foi cair no tempo exatinho. Dez meses ela deu a luz a ele.

P/1 – E você acompanhou? Como é que era essa coisa, você jogava, viajava?

R – Eu estava jogando. O meu filho nasceu, eu não estava aqui, eu estava jogando, estava no interior. Eu estava fora de São Paulo. E foi uma coincidência muito grande porque o meu sogro, nessa época, ele foi fazer uma viagem para o Líbano, ele foi ao Líbano e minha sogra não quis ir, porque viajando era a oportunidade da minha mulher ir para casa dela e ficar com ela uns dias, né,? E foi isso que ele fez. Ele viajou, ele embarcou, minha mulher meu cunhado foi, pegou e levou ela para casa da mãe. E eu estava em Guaratinguetá, jogando. Só que eu estava com a chave de casa, porque ela saiu junto comigo, ela não levou a chave dela. E quando ela chegou na casa da mãe, eu acho que a emoção dela ter voltado para casa dela, a bolsa rompeu. E aí foi aquela correria de ter que levar para a maternidade. Só que não tinha como entrar em casa, porque a chave estava comigo e ela estava sem a chave, né? E eu me lembro bem que eu nunca vi tanta pessoa querer ver o meu chaveiro. Eu tinha um chaveiro que era diferente de todo mundo, que eu ganhei de um clube lá de praia, lá do Apolo, eles fizeram um chaveiro de ouro com o distintivo deles e me deram. E eu andava sempre com aquele chaveiro. E todo mundo: “Me deixa ver o seu chaveiro? Mas que chaveiro bonito.” Queriam pegar a chave e não queriam me dizer que ela estava na maternidade porque eu tinha que jogar, você entende? E ficou aquele negócio, enrola, enrola, enrola... Mas eles conseguiram através de uma janela, foram por trás no apartamento, numa janela que dava num hallzinho atrás, conseguiram abrir, entraram e pegaram as coisas para levar para a maternidade. Aí quando acabou o jogo eu sei que chegaram para mim e disseram: “Olha, troca rápido, toma banho rápido e troca de roupa e vai para a maternidade que a tua mulher tá na maternidade para ter a criança.” Mas ela já tinha tido a criança às três horas da tarde. Aí eu vim, me trouxeram, quando eu cheguei já tinha nascido e tudo. E assim foi que... E eu não vi, né, praticamente ele nascer. E depois também a evolução dele também eu não cheguei a ver, porque eu viajava constantemente. Tanto é que o meu filho mais velho, o Rogério, ele não gosta muito de futebol por causa disso, que toda vez que eu viajava, que eu ligava do exterior para falar com ele, ele não queria falar comigo. Ele não falava comigo. Ele ficou com tanto ódio, porque o futebol me afastou dele muito, né? Eu não convivi com ele naquela fase que a criança está crescendo e que eu acho que ela precisa do pai junto... Então ele não aceitava muito o futebol. Hoje não, hoje já mudou um pouco a cabeça, hoje ele entendeu o fato de eu estar longe dele porque era a minha vida, era a minha atividade. E ele hoje como médico ele também está muito fora de casa, então ele sabe como é a vida da gente, né? Mas foi um problema grande, porque tinha... Quando eu chegava em casa... Porque o Santos, quando viajava ficava dois meses, às vezes 45 dias, sei lá, ficava um tempão fora. Quando chegava eles me chamavam de tio. Ao invés de me chamar de pai era “tio, tio, tio”. E eu trazia tudo quanto era brinquedo para ver se conseguia agradar, mas até eles me chamarem de pai levava quase uma semana. Aí eu já estava viajando de novo, pronto, voltava tudo de novo. É, foi um drama tremendo.

P/1 – Gylmar, como é que foi essa coisa de conviver com a fama?

R – Olha, eu nunca me iludi muito com a fama, não. Porque eu acho que a fama é passageira, né? Tudo na vida da gente é passageiro. Então eu sempre tive comigo isso, eu não sei se eu vou chegar a ter fama. Eu sou um jogador de futebol? Vou chegar lá? Não sei. Tudo é uma incógnita na tua vida, você não sabe até onde você pode chegar. Felizmente eu cheguei, mas apesar de ser, assim, cercado de fama e tal e coisa, eu nunca deixei me levar pela fama, eu sabia sempre que isso um dia acaba. Isso aqui daqui a um pouco acabou, parou, não tem mais nada. Surgem outros que vão ter o mesmo prestígio que você teve, vai ter a mesma fama, então você vai sendo esquecido, você vai ser colocado de lado. Então nem isso me afetou, porque se hoje alguém não me reconhecesse na rua eu não sentiria tanto, você entende? Porque eu já tive desde o início isso comigo. Agora, se eu não tivesse esse pensamento de que a fama é efêmera, eu talvez hoje viesse a sentir, quando eu entrasse em qualquer recinto, ninguém me conhecesse, entende? Isso talvez viesse a me afetar, mas felizmente para mim isso não me afetou, porque todo lugar que eu vou todo mundo me conhece, então todo mundo... Eu vejo, às vezes quando eu passo, os pais falam assim muito, baixinho: “Filho, esse aí foi o maior goleiro do Brasil, o maior goleiro do Brasil.” Então isso para mim é bacana, preenche o ego da gente. Isso qualquer pessoa fica contente. E pelo fato de todas as pesquisas que se fazem o meu nome estar sempre em evidência. Quer dizer, eu em nome, principalmente aqui em São Paulo, ou se faz no Brasil inteiro, eu só perco para dois jogadores, que é o Pelé e o Garrincha, depois eu sou o terceiro mais votado dentro de todas essas seleções que se fez no país. Então isso para mim é muito bacana. É sinal que eu não precisei me preocupar com o fato de amanhã eu parar e ninguém mais lembrar de mim, né? Então isso é muito gostoso. E o fato dos corinthianos dizerem: “O Gylmar do Corinthians.” Aí o santista: “Não, é Gylmar do Santos.” Aquela briga... Então isso é muito bacana, é muito gostoso. Eu me sinto realmente realizado, eu acho que eu não posso me queixar da profissão que eu abracei como futebolista, não. Eu acho que eu consegui tudo que podia conseguir.

P/1 – Bem, Gylmar, então muitas das coisas que você conseguiu foi no Santos Futebol Clube. Como é que se deu a sua chegada ao Santos? Como é que foi a sua contratação?

R – Bom, a minha contratação pelo Santos também foi assim, um pouco, meio complicado. Porque eu estava brigado no Corinthians, como eu te falei no início, em face daquele problema do jogo da Portuguesa, não, minto, desculpe, não com o jogo da Portuguesa. Eu tinha brigado com o Wadih Helu por causa de uma contusão minha, que eles estavam dizendo que eu fazia corpo mole porque eu queria ir embora do time, porque eu queria sair do Corinthians. E não era, eu tinha um problema no braço, um problema que vinha me incomodando há muito tempo, mas que eu não conseguia detectar o local que doía. Até um dia que eu estava treinando, eu caí, machuquei, aquilo tornou a inchar novamente, ficou aquela dor violenta e eu mostrei para eles: “Olha, aqui tá.” Tirei a camisa e mostrei para eles, estava inchado, eu disse: “Esse é o corpo mole que eu estou fazendo para ir embora.” E saí do treino e fui embora, tomei banho e vim para minha casa. Aí, no dia seguinte eu fui ao Hospital Santa Catarina falar com o doutor João de Vicenzo, porque naquela época eu tratava muito com ele aqui. Porque ao invés de eu ir todo dia para Santos eu vinha aqui no João de Vicenzo e me tratava com ele. Fui lá para ele me ver, ele me pediu três dias mais para eu voltar, eu voltei, aí ele me operou o braço, que ele pensou que fosse uma bursite, né? Mas eu tinha um tendão partido no braço, essa era a dor que eu sentia que eu não conseguia localizar. Quer dizer, uma cirurgia que ia levar uns trinta minutos, eu levei duas horas e meia operando para tentar ligar novamente o tendão, e com isso o problema começou. E depois que eu vim para o quarto, eu estava ainda sob efeito de anestesia, teve um repórter da Gazeta, na época, que é o Nilton Rena, veio fazer uma entrevista comigo, eu ainda estava meio sedado, assim, me perguntou: “Bom, Gylmar, e agora? Como é que fica a sua situação no Corinthians?” Eu disse: “Olha, eu acho que agora, em face de todos esses problemas que aconteceram, a minha situação ficou difícil. Eu tenho a impressão que, se eu voltar novamente ao Corinthians, tudo que acontecer vai recair sobre mim novamente. Então a situação está realmente difícil.” Então, ele pegou e pôs: “Gylmar disse que não veste mais a camisa do Corinthians.” Pôs em letras garrafais na primeira página. Aí o Wadih pegou e disse: “Não, quem não quer que ele vista mais sou eu.” Aí começou a briga: veste, não veste, vai não vai, vai, não vai... Aí surgiu o Santos para me comprar. Surgiu o Santos para me comprar e eu disse: “Bom, agora vocês têm que conversar com ele, né?” Mas antes eu ainda fui falar com o Wadih para ver se ele ia resolver de uma vez ou não a minha situação. Ele disse: “Não, não. Você vai ficar aí encostado.” Eu falei: “Não, encostado não. Você vai ficar com o meu passe que eu vou trabalhar. Eu tenho emprego.” Eu tinha emprego público na época, era funcionário da Secretaria da Fazenda. Eu falei: “Eu vou trabalhar, eu não dependo só do futebol, não. Eu não vou jogar mais futebol, mas vocês não vão ganhar mais nenhum tostão comigo.” E fui embora. Aí ele se tocou que eu não estava naquele momento dependendo do futebol, que eu tinha outra forma de vida, então ele resolveu me vender. Surgiu o Santos e eles pediram dez milhões de cruzeiros na época pelo meu passe.

P/1 – Era muito?

R – Era uma fortuna! Naquele período eu fui o jogador mais caro. Anteriormente a mim só o Mauro, que foi vendido por cinco milhões para o Santos. Pô, dez milhões por um goleiro era dinheiro que não acabava mais. E o Santos não tinha os dez milhões. E aí o que é que aconteceu? O doutor José Ermírio de Moraes deu uma parte do dinheiro, a Federação emprestou outra e o Santos completou, porque eles só me vendiam se fosse à vista, não era à prazo, não, tinha que ser à vista. E assim eu fui vendido para o Santos. Não ganhei nada mais do que eu ganhava no Corinthians, fui ganhando a mesma coisa, só que depois o negócio... Foi ganhando título, foi ganhando tudo quanto era jogos, todos os torneios, aquele negócio todo, então a minha vida melhorou bastante. Dessa forma que eu fui para o Santos.

P/1 – Gylmar, então você é contratado pelo Santos por dez milhões de cruzeiros, uma fortuna na época, e você faz a sua estreia numa excursão do Santos?

R – É, o Santos viajou logo em seguida e eu fui justamente com o Santos e fiz a estreia no Equador, se não me engano, contra o Barcelona. Eu lembro que foi a primeira partida que eu fiz pelo Santos, nessa excursão.

P/1 – E quem jogava no Santos nessa época?

R – Bom, o time, joguei eu, o Mauro, o Lima... A memória já tá falhando, viu? Dalmo, o Orlando ainda estava no Santos, e Zito. A linha era aquela: Mengálvio, Coutinho, Pelé… O Pagão deve ter ido também – porque o Pagão ainda estava no Santos –, o Pelé e o Pepe. Deve ter jogado o Pagão, porque em excursão você reveza muito, né? Mas essa praticamente era a base do time do Santos. Acho que eu não estou errado, eu não sei, se a memória não falhar eu acho que era esse o time que jogou.

P/1 – E como é que foi para você ir para esse time com tantas estrelas, que se tornou aí o grande time do século?

R – Eu acho que para mim foi a glória, porque eu acho que era pensamento e desejo de todo mundo naquela época ir para o Santos, jogar na equipe do Santos. Porque o Santos estava num crescendo assustador, uma equipe fabulosa, uma equipe já de renome internacional, então... Até lembro bem, eu vim assistir uma partida aqui antes de eu me apresentar em Santos, jogou Botafogo x Corinthians aqui no Pacaembu e eu fui ao vestiário do Botafogo, porque a gente tinha amizade com jogadores que estavam na Seleção, e eu nunca me esqueço, o Didi disse assim para mim: “Parabéns, hein, tirou a sorte grande! Você acertou na loteria sozinho, foi para o Santos, né?” (risos) Então, você veja qual era o interesse dos jogadores naquela época em jogar no Santos, porque eles sabiam que era uma equipe que realmente tinha tudo para o jogador se consagrar, mesmo que você fosse um jogador regular, dentro daquela equipe você tinha que jogar bem porque tudo ajudava, né? Os companheiros, além de serem bons, te ajudavam também dentro do jogo. Então para mim acho que foi o ápice da minha carreira. E como eu já estava pretendendo encerrar, eu disse para mim: “Bom, agora eu vou encerrar no maior time do mundo, né?”, na época.

P/1 – Você tinha 31 anos, é isso?

R – Trinta e um.

P/1 – Foi em 1961?

R – Sessenta e um, é. Exatamente.

P/1 – E como é que era a maneira que o Santos jogava?

R – O Santos, por ser uma grande equipe, uma equipe fabulosa, era um time que jogava e deixava jogar. O Santos não tinha essa preocupação de jogar, assim, se defendendo muito para não tomar gol, não. O Santos impunha o seu futebol. Os outros é que tinham que se preocupar com o futebol dele, entende? Então por isso que muitas vezes o Santos ganhava de 6x4, 5x3, por quê? Porque ele deixava também o adversário jogar. Agora, como havia jogos que havia uma necessidade de uma marcação mais dura, aí sim ele procurava fazer, quando havia essa necessidade, mas raramente acontecia isso porque pelo volume de jogo, pelo volume dos seus jogadores, nós sabíamos que era muito mais fácil nós chegarmos à vitória do que à derrota. É evidente que nós não éramos invencíveis. A derrota sempre também acontecia para a gente, de vez em quando, mas o time tinha tanta capacidade, tanta técnica que era muito mais fácil você ganhar do que perder.

P/1 – E você participou de muitas excursões pelo Santos, correu o mundo... Você podia contar um pouquinho a rotina dessas excursões?

R – Ah, a rotina era aquilo, você sair, viajar, chegar. Aquela euforia quando o Santos chegava, porque todo mundo queria ver o Santos, principalmente o Pelé, que era o maior astro da equipe, aquela loucura pelo Pelé. E a rotina de jogos era sempre a mesma, e havia locais como... Nós jogamos uma vez, se não me engano, em Abidjan, a capacidade do estádio era diminuta, né? E nós fomos, jogamos aquele dia e ficou um número de pessoas fora que não puderam assistir ao jogo, então o Presidente da República, no dia seguinte, e o Presidente da Federação também vieram falar com o Santos no sentido de nós fazermos outro jogo para aquele povo que não havia assistido o jogo ir a campo para assistir o time jogar. Mas, como existia aquele problema do intervalo de 72 horas que você não podia jogar, então o que nós fizemos? Nós aceitamos jogar porque eles ofereceram 300 dólares para cada um para fazer o segundo jogo, né? (risos) E o pessoal só queria saber do dinheiro: “Tem dinheiro? Então, vamos lá.” Então, o que é que aconteceu? O Pelé e o Lima – acho que foi o Pelé e o Lima –, que eram de cor, jogaram no time adversário que era de cor. Então o pessoal foi todo assistir de novo, lotou de novo o estádio, né? E com isso nós burlamos a lei e fizemos como se fosse um treino, um treinamento. Só que o restante do povo assistiu ao jogo, porque não coube todo mundo no primeiro jogo. Então nós jogamos, em intervalo de 24 horas nós fizemos dois jogos seguidos. Isso era muito comum no exterior, o Santos jogava muito assim. E chegava num lugar, jogava no... O pessoal, tinha gente que não podia ver porque ficava fora e queria que jogasse de novo logo em seguida, e a gente jogava e ninguém se importava, não. O pessoal tinha sempre disposição para jogar, estava sempre pronto para jogar.

P/1 – Gylmar, você que era um goleiro, aí, de país tropical, acostumado com calor, você enfrentou nas excursões neve, baixas temperaturas?

R – Não, que eu me lembre só enfrentei frio mesmo foi em 56, numa excursão com a Seleção Brasileira na Tchecoslováquia. Nós pegamos mais ou menos uma temperatura de quatro graus. Neve, que eu nunca tinha visto neve, até o dia que nós estávamos treinando, começou a nevar e aqui começou, a orelha a ficar dura. Você tocava e... Não podia nem tocar, um frio tremendo! Foi a única vez que eu peguei frio. Fora isso nós nunca jogamos na época de frio, não. Porque nós nunca viajávamos na época do frio, nós sempre íamos na época em que era verão lá e inverno nosso aqui, né? Então nós nunca pegamos, assim, esse frio. Tem alguns lugares que você pega um frio, mas é vento, não de cair neve, essas coisas, não. A única vez que eu peguei neve foi essa na Tchecoslováquia.

P/1 – E você estava dizendo aí de jogar na África, você participou daquela partida em que o Santos interrompe a guerra civil na Nigéria?

R – Nós estávamos, foi isso aí. Nós chegamos, jogamos na Nigéria e depois tinha um jogo já marcado para Benin. Acontece que havia guerra civil e o grupo guerrilheiro tinha tomado novamente do governo essa cidade. Mas eles entraram num acordo porque o Santos tinha que jogar e eles fizeram um acordo, uma trégua de 24 ou 48 horas, sei lá quanto tempo foi, né? E nós saímos realmente de Lagos para Benin, chegamos lá, fomos recepcionados pelo Rei, com aquele monte de filhos, aquele monte de mulher, um negócio até bacana. A estrela sempre o Pelé, por ser pessoa de cor, o povo tinha uma adoração por ele, então sempre o Pelé na frente e a gente chegava depois. Ele é que abria o caminho para nós chegarmos com mais tranquilidade. E teve a recepção e depois fomos para o campo jogar, né? E jogamos, ganhamos o jogo lá, 3x0, se não me engano, e depois do jogo os caras disseram: “Agora vocês partam porque vai começar tudo de novo, a guerra...” E nós pegamos o avião, viemos do jeito que estávamos, trocamos de roupa dentro do avião mesmo, sem tomar banho, porque eles pediram que a gente saísse o mais rápido possível. E nós saímos. Aí, estamos chegando a Lagos: blecaute! “Pô, blecaute. Deve estar tudo apagado.” Não, as luzes da rua ficavam acesas, só as das casas é que ficaram apagadas. Era um tipo de um blecaute diferente, né? (risos) Então... Mas aí conseguimos chegar sem problema nenhum. Mas foi o único time que eu sei na história do futebol que conseguiu parar uma guerra para poder jogar. Eu acho que fora isso eu não vi ninguém, não.

P/1 – Bom, Gylmar, nós estamos falando das excursões do Santos. Vocês recebiam uma cota por excursão ou era só bicho?

R – Não, o nosso, o clube recebia cota e nós recebíamos prêmios por jogos ganhos e recebíamos uma diária de dez dólares que era para a gente pagar as nossas despesas. Agora, com referência à cota não. Se ganhasse o jogo tinha bicho, se não ganhasse não ganhava nada.

P/1 – Quanto era o bicho?

R – Variava muito, dependendo do interesse do jogo. Às vezes 200 dólares, às vezes 300 dólares. Variava muito, dependendo do jogo. Ou do adversário, principalmente. Se o adversário fosse um adversário de maior expressão era 300, se fosse menor, 200. Era muito variável.

P/1 – E o Pelé tinha uma...

R – Ele sim, ele tinha uma participação na cota que o Santos recebia, e eu acho até justo. Aliás, todos achávamos justo e louvável que ele recebesse essa cota, porque ele era realmente a pessoa que fazia com que o Santos fosse convidado para jogar ganhando muito mais do que o normal. Então, era justo que ele tivesse essa cota, e nós fazíamos questão que ele estivesse sempre no Santos, nunca se transferisse para outra equipe, porque com ele nós tínhamos chances de ganhar muito mais, né? E sem ele as coisas poderiam ficar mais difíceis.

P/1 – E quanto tempo durava em média uma excursão?

R – Olha, dependia, porque às vezes nós saíamos para fazer quatro, cinco jogos, depois o empresário ia arrumando mais jogos lá, às vezes você ficava 30 dias, às vezes 45. Chegou-se até a ficar dois meses no exterior jogando. Dependia muito do que ia aparecendo na hora. Porque nós nunca saíamos, assim, com jogos pré-estabelecidos. Saíamos com dois, três, depois o restante eram todos eles arrumados lá, à medida que você ia se apresentando e que a excursão ia tendo resultados positivos, então os jogos iam surgindo.

P/1 – E você se recorda dos jogos memoráveis dessas excursões, grandes equipes que você enfrentou? 

R – O Santos jogava, sempre jogou com grandes equipes. O Santos nunca pegou, assim, equipes inferiores. Na Europa, jogamos muito com os times italianos, na época o Milan, o Inter de Milão, a Fiorentina. Quando se jogava aqui na América do Sul era Boca, River, na época do apogeu do Boca e do River. E sempre quando... Em quaisquer outras partes do mundo eram sempre as melhores equipes com que o Santos jogava. Às vezes é com combinado, você jogava contra alguns combinados, né? Quando o time não era assim, muito bom, você jogava contra combinado, porque eles reforçavam as equipes. Teve uma vez na Itália, nós jogamos contra duas equipes, foi... Jogamos contra o Sampdoria meio tempo e depois jogamos com uma outra equipe, me esqueço agora o nome... Não lembro agora o nome. Jogamos com duas equipes ao mesmo tempo. Mas era assim, porque às vezes não dava para fazer dois jogos, então jogava com as duas equipes ao mesmo tempo, entende? Jogava meio tempo com um, jogava meio tempo com outro, e umas coisas assim. E o Santos fazia umas loucuras, que só o Santos mesmo. Excursões, assim, mirabolantes que você fazia, cada viagem danada! Viajando com boi, com cavalo, no barco e depois em garupa de caminhonete para chegar para jogar, e umas coisas assim. É, o Santos não ligava muito para esse negócio de dizer, de status, não. O Santos: “Tem jogo, onde tiver jogo nós vamos jogar.” O Santos era assim. Era uma equipe muito querida por causa disso, porque ela não era muito exigente de dizer que só tinha que ficar em hotel de primeira categoria, não, ficava em qualquer hotel. Às vezes, se tivesse que ficar em pensão ficava também, não ligava para isso não. O que interessava para ele era jogar, era faturar, então... E os jogadores também aceitavam isso com naturalidade, nunca ninguém se rebelou, nunca ninguém criticou a forma do Santos agir no sentido das viagens e dos jogos, então...

P/1 – E no grupo, para passar o tempo, parece que o time fazia... Muitos tocavam instrumentos...

R – É, sempre o pessoal costumava levar pandeiro, tamborim, essas coisinhas, né? E eles gostavam de um sambinha... Tinha sempre aquele sambinha: você vai treinar, sambinha, vai jogar, sambinha... Só quando ia passear que não tinha o sambinha, quando cada um saía para um canto, não. Mas normalmente tinha um sambinha, sim. E eles faziam muita brincadeira. Esse negócio do sambinha, eles faziam música mexendo com a turma, faziam música mexendo comigo, mexendo com o Zito, mexendo com todo mundo. Cada um fazia uma musiquinha para um, e era um ambiente muito gostoso, porque isso cada vez aproximava mais o nosso grupo, fazia com que cada vez nós estivéssemos mais entrosados. Quer dizer, não havia rivalidade, animosidade entre os jogadores. Tudo sempre na base da brincadeira. Brincadeira sadia, que não ofendia, que não magoava ninguém, então com isso a equipe se dava muito bem.

P/1 – E quem eram, assim, os cérebros dessas brincadeiras?

R – Ah, bom, se falar nisso… O Pepe era o cabeça, que o Pepe com aquela carinha de sonso que ele tem, de ser um cara tranquilo, ele era o mais sem vergonha, aprontava para todo mundo. O Coutinho era outro safado também. Brincalhão, gostava de mexer com todo mundo. Eles pegavam muito no pé do Mengálvio, porque o Mengálvio era muito quietão e sempre relaxadão naquela maneira de andar, de ser dele, né? Os caras pegavam no pé do Mengálvio, e pegavam no pé de todo mundo. Então, eles mexiam, mas era muito gostoso, era uma fase ótima, viu?

P/1 – O Tite fala na entrevista dele que era um time feliz, que todo mundo adorava.

R – É, você tinha gosto e prazer de jogar no Santos. Realmente, era um time feliz, sim. Todo mundo era feliz. Bom, mesmo porque, apesar do time ser bom, todo mundo era feliz porque o time mais ganhava do que perdia, então tinha que ser um time feliz, não podia ser um time triste.

P/1 – E era um time entrosado? Jogava por música?

R – Era um time muito coeso. Era um time que além de ter grandes valores, grandes astros e grandes estrelas, ele tinha, existia, assim, uma harmonia muito grande. Os jogadores se respeitavam. Esse negócio do Pelé ser o maior jogador do mundo era com a torcida, dentro do grupo ele era o Pelé, como eu, como o Mauro, como o Zito, como o Mengálvio, como o Dorval, como qualquer outro jogador. E ele também sentia-se assim, ele sabia disso. Agora, para o público, para a crônica, para a mídia, ele era o Pelé, o maior do mundo, e nós sabíamos disso também. Então isso nunca chegou a afetar o nosso ambiente, entende? E o nosso treinador na época, o Lula, ele soube também ter essa rapaziada toda nas mãos dele. Ele dava liberdade, mas quando precisava cobrar ele cobrava, então o time nunca desandou por causa disso. E havia um respeito mútuo, nós respeitávamos também aquela liberdade que o treinador nos dava e recompensávamos a ele dentro de campo, para que não houvesse amanhã um problema qualquer e onde ele tivesse que afastar ou dispensar qualquer jogador, então isso nunca aconteceu, em virtude de existir uma compreensão muito grande do grupo, inclusive com aquele que dirigia, que comandava o time. Por isso esse time foi vencedor por causa disso. Porque é muito difícil num plantel, num grupo onde você tenha tantas estrelas, tantos astros, você manter uma homogeneidade no plantel, onde todos se deem bem, onde todos se respeitem, é muito difícil. A gente vê ainda hoje clubes com um plantel que não se iguala ao Santos em termos de número de jogadores excepcionais, mas cheios de problema. E vocês que acompanham o esporte sabem e viram que nunca houve um problema no Santos, pelo menos naquele período em que nós jogamos. Hoje eu não sei, hoje é outra coisa, mas naquele período nós nunca tivemos um problema que fosse preciso a diretoria intervir, ou que tivesse que tomar uma atitude mais séria, mais rígida com relação a algum fato que tivesse acontecido.

P/2 – E dentro de campo, quem era a liderança do time?

R – O Zito. O Zito teve sempre essa liderança. É nato dele, até hoje o Zito é aquela pessoa que se impõe, mas sem maltratar, sem ofender. Quer dizer, então ele gritava, berrava, xingava, mas só dentro de campo. Fora de campo voltava tudo ao normal. Porque o Zito era daquele tipo de jogador que não gostava de perder nem em jogo de bolinha de gude, então dentro de campo ele tinha uma garra tremenda e ele transmitia isso, inclusive, para os jogadores, e fazia com que os jogadores também tivessem um pouco dessa garra que ele tinha. E todos o respeitavam, não só por ser o capitão, mas pela maneira de ser dele, que era uma pessoa que tinha uma influência sobre todos os jogadores sem diminuir, sem maltratar e sem ofender ninguém.

P/1 – Gylmar, você jogou 314 partidas pelo Santos.

R – Você que está me falando, eu não sei. (risos)

P/1 – É, a estatística oficial é essa. Então, quer dizer, foi uma carreira longa. Tem jogos, assim, memoráveis que você se recorda?

R – Olha, eu acho que para o atleta, todo jogo, toda partida ela é memorável, né? Cada jogo, cada partida é um fato diferente, hoje mesmo você jogando com uma equipe pequena ou com uma equipe grande é sempre um fato diferente, é sempre uma sensação diferente. Eu pelo menos sempre encarei assim, com respeito a todo mundo, todos os atletas, todos os times. Acho que cada vitória é uma vitória diferente, é um sabor diferente. É evidente que tem aquelas que às vezes te marca mais... Por exemplo, nós tínhamos aquele problema, o time às vezes podia estar numa fase ruim, quando existia aquele problema com o Corinthians, que o Corinthians não ganhava, e nós sabíamos que quando chegasse com o Corinthians o time podia se reabilitar porque ganhava. Naquele período o Corinthians já tinha certo complexo com o Santos pelo fato de não conseguir ganhar. O Corinthians teve equipes excepcionais, chegou ali a lutar de igual com o Santos, mas chegava na hora H o Santos acabava ganhando, então isso vai criando um certo complexo no jogador, né? Então nós sabíamos: o time estava mal? “Não, quando chegar com o Corinthians o time vai melhorar, nós vamos lá, ganhamos, daí o time sobe.” E acontecia realmente isso, parecia que o negócio já era premeditado, já era escrito: chegar com o Corinthians vai melhorar. Então, partidas com o Corinthians marcaram muito, algumas partidas com o Palmeiras, que na época era a “Academia”, considerado Academia, que era o único clube que ainda fazia frente para o Santos, que conseguia ganhar do Santos. Então, houve jogos marcantes, Santos x Corinthians, Santos x Palmeiras, e a gente não pode esquecer, vai dizer que esqueceu? Nunca vai esquecer. Mas eu sempre encarei todos com a maior naturalidade, jogar com o Corinthians, jogar com o Santos, Portuguesa, São Paulo, Portuguesa Santista, seja lá com quem for, para mim os jogos todos eram iguais, eu encarava todo mundo igual.

P/1 – Mas você tem, assim, alguma partida que você sente que você fechou o gol, que você foi aquele responsável pelo bom resultado?

R – Ah, tem. Tem jogos que você joga bem, que você se supera até, faz além daquilo que você está acostumado a fazer. Teve várias partidas. Eu, assim, não sei te dizer qual foi aquela que... Talvez uma que eu possa me lembrar bem foi Santos x Boca Juniors na Libertadores da América, quando nós fomos bicampeões da Libertadores lá na La Bombonera, naquela partida eu fui considerado o maior jogador em campo. Pelo menos eu tenho a... A FISA, ela fala isso, não sou eu que estou dizendo, é a FISA que está dizendo, quem narrou que está dizendo. Eu acho que aquela partida, inclusive, eu tive, assim, uma participação muito importante na equipe porque foi um jogo muito nervoso, um jogo em que nós sofremos uma pressão tremenda jogando em La Bombonera, uma decisão de Libertadores da América, você imagina o que deve ser aquilo, né? Se nos jogos normais lá já era difícil, então numa decisão de Libertadores de América aquilo lá estava fervendo. E, graças a Deus, nós conseguimos sair de lá com a vitória, fomos bicampeões e eu naquele jogo, modéstia à parte, eu fui considerado o melhor jogador da partida e devo ter, assim, certa influência no resultado, né?

P/1 – Gylmar, você podia falar um pouquinho do jogo da decisão do Mundial de Clubes que, na sequencia, aconteceu contra o Milan?

R – É, nós tivemos a primeira partida lá em Milão, né? Foi uma partida meio conturbada, o juiz prejudicou o nosso time, expulsou jogadores nossos, mas... Perdemos o jogo, é evidente. Eu não digo que o Santos pudesse ter chegado lá e ter ganho a partida, podia ganhar como podia empatar, mas da forma como nós perdemos é que nos magoou bastante. Eu acho que não havia necessidade do juiz ter ajudado o time do Milan naquela época. E nós voltamos para o Brasil com aquilo lá atravessado na garganta. Aqui teve o outro jogo, logo de início o Milan fez dois gols, estava ganhando de 2x0 e aquilo deixou um pouco preocupada a nossa equipe. Voltamos para o vestiário no segundo tempo, o Lula deu as instruções lá, fez as modificações que tinha que fazer, achou que nós estávamos jogando errado e voltamos para campo e felizmente aí o time começou a se acertar. Nós tivemos a felicidade... O Pepe também começou a acertar nas faltas, começou a bater bem as faltas, começaram a sair os gols e isso perturbou também um pouco o time do Milan. E aí conseguimos vencer e empatar o torneio. Só que aí na terceira partida eles não queriam jogar, porque eles achavam que o juiz havia prejudicado a eles. Aí, naquela ocasião eu me lembro bem, uma decisão do Falcão, até decisão muito corajosa. Ele disse: “Bom, vocês não querem jogar, vocês podem ir embora, mas a Taça fica aqui, a Taça é do Santos. Porque lá vocês roubaram o Santos e ninguém falou nada, aqui ninguém está roubando e vocês... Ou joga ou vai embora, mas a Taça fica aqui.” Aí eles tiveram que jogar, né? Aí nós entramos para a terceira partida e aconteceu aquele negócio do Almir provocar lá o Maldini, os dois saírem expulsos, teve o pênalti, nós fizemos 1x0 e ganhamos com aquele 1x0 apertado, mas ganhamos, e a Taça ficou aqui. Mas foi um jogo, assim, muito difícil, um jogo bastante disputado entre as duas equipes. Eu acho que venceu o Santos porque, realmente, inclusive nesses dois jogos aqui o Santos se apresentou melhor do que lá na Europa. Então, eu acho que foi merecida aqui a vitória do Santos.

P/1 – Como é que foi a comemoração, você se recorda?

R – Eu lembro que nós também desfilamos como se tivéssemos ganhado Copa do Mundo. Nós fomos para Santos, desfilamos em carro do Corpo de Bombeiro pela cidade até chegarmos ao estádio, onde lá fomos homenageados, recebemos a faixa de campeão, a medalha, aquele negócio todo. Foi uma festa muito bonita, a cidade toda vibrando com a conquista do Santos, porque até então nenhum time brasileiro havia ganho um campeonato mundial interclube, né? E um time do interior, de uma cidade como Santos, havia já ganho pela segunda vez um título, então a cidade estava eufórica com essa façanha.

P/1 – Gylmar, a gente tem que falar um pouquinho da Copa de 62, né?

R – E o que é que você quer saber dessa Copa?

P/1 – Vamos pelo início. O grupo mudou muito em relação a 58?

R – Não, não. O grupo permaneceu quase que praticamente o mesmo. Houveram algumas mudanças, não resta a menor dúvida. Alguns jogadores já não participaram, vieram outros novos, mas a minoria. Tanto que a equipe principal ela não sofreu praticamente quase modificações nenhuma. Só permaneceu o Djalma, que tinha terminado a última partida na Suécia, entrou o Zózimo no lugar do Orlando, que havia se transferido para o Boca Juniors naquela época, estava no Boca, e o resto foi o mesmo time, né? Então não houve, assim, uma modificação. Era uma sequencia de 58, o ambiente também o mesmo, a convivência também a mesma, tanto com comissão técnica como jogadores, não houve problema nenhum. Aqueles novos que estavam chegando também se entrosaram rapidamente porque nós também fazíamos questão de ajudá-los no sentido que eles se sentissem à vontade dentro da Seleção, porque é muito comum a pessoa que chega se sentir um pouco deslocada, então nós fazíamos tudo para que eles não sentissem esse problema, então nós procurávamos ajudá-los também nesse sentido. E o resto continuou a mesma coisa como foi em 58, dentro daquela normalidade. Nós ficamos também num local afastado, lá em Viña del Mar. Nos foi cedida uma dependência de um banco lá do Chile e era um lugar muito bonito, parecia até um clube. Lá nós ficamos isolados de todo mundo e ali começamos o início do nosso trabalho, que seria a conquista do segundo título. Mas foi muito bacana também, no Chile

P/1 – Vocês chegaram confiantes? Achavam que o bi ia surgir fácil?

R – Não, você nunca chega confiante. Você chega sempre com uma expectativa de que você pode ganhar novamente, mesmo porque você estava mantendo o mesmo grupo. Quer dizer, não havia uma modificação na equipe que pudesse abalar a tua confiança. Agora, os adversários é que você não sabe, né? Você tem o problema dos adversários, dos outros. Então volta novamente àquilo, você, é o teu início é que vai dizer se você vai continuar bem ou não dentro da competição. Se você começa bem, você vai bem, se você começa mal vai mal até o fim e às vezes não ganha. Então foi o que aconteceu, o nosso primeiro jogo, que nós tivemos com o México, foi uma partida difícil, que o México veio para perder de pouco, jogou fechado, procurando nos surpreender nos contra-ataques, mas nós conseguimos ganhar de 2x0. Aí, bom, já foi o início: “começamos bem. Então, acho que daqui para frente o negócio vai correr bem.” Veio o jogo com a Tchecoslováquia, e que foi talvez a partida mais difícil que nós tivemos, porque além de ser um time muito bom jogava muito bem fechado, marcava muito bem e depois nós tivemos o problema do Pelé, a contusão do Pelé que me preocupou, eu acho que o Brasil inteiro, né? Não só nós como todo o Brasil, mas a coisa continuava, você não podia pensar mais no Pelé. Apesar da preocupação de sabermos que perderíamos quase que, vamos dizer, 30% da equipe, porque o peso dele era muito grande dentro da equipe, nós tínhamos que dar continuidade no negócio. E felizmente para nós eu acho que o Garrincha, nessa altura, ele absorveu toda aquela responsabilidade e tudo que o Pelé tinha de genialidade ele trouxe para ele naquela Copa e aí passou a ser o Mané a pessoa que desequilibrou dentro da Copa nas outras partidas. Como eu acho também que já em 58 foi o Mané que desequilibrou naquela Copa, com as suas jogadas desengonçadas, com aquelas gingas que ele dava lá, aquilo fez com que ele chamasse atenção na marcação sobre ele e deixasse os outros com mais liberdade. E isso voltou a se repetir no Chile, então eu acho que o Mané foi realmente a pessoa, o jogador que desequilibrou nessa Copa.

P/1 – Você poderia falar um pouco da Final da Copa?

R – É, a Final é aquela expectativa, né? Eu gostaria até de falar de um pouquinho antes da Final, que foi o jogo com o Chile, que até então nós tínhamos toda a torcida chilena a nosso favor, porque o chileno gosta muito do brasileiro, ele tem muita afinidade com o brasileiro. Como até então nós não havíamos cruzado com o Chile, a torcida chilena era toda do Brasil. Agora, o dia que nós cruzamos com o Chile foi um problema muito sério. Aí nós tínhamos todo o povo chileno contra nós, todo mundo torcendo pelo Chile e existia até, assim, a preocupação que se fizesse alguma coisa, pusesse na comida. Então, o que é que o doutor Paulo fez? Ao invés de nós virmos de ônibus, como era costume, sairmos de Hindas [sic] e virmos de ônibus, nós pegamos um trem. Viemos de trem até uma cidadezinha, uma estação antes de Santiago. E a nossa refeição foi sanduíche e banana no trem, e água. (risos) E descemos ali e pegamos e viemos para o campo, para chegar antes para não sofrer o assédio da torcida, para que os jogadores não ficassem perturbados com aquilo. E foi assim que nós conseguimos vencer o Chile, iludindo a ele em todos os sentidos, né? Dentro de campo, não, porque a superioridade do Brasil sempre prevaleceu, mas nós conseguimos iludir a torcida nesse sentido. Agora, quando nós eliminamos o Chile, aí voltou novamente a torcida a nosso favor. Aí sim, além de alguns torcedores brasileiros que na época lá já foram acompanhando o time brasileiro, nós tínhamos toda a torcida chilena ao nosso favor. E outro problema, o time da Tchecoslováquia já não podia jogar da mesma forma como jogou no primeiro jogo, fechado, tentando manter o resultado e nos surpreender no contra-ataque. Tanto é verdade que eles nos pegaram de surpresa logo no início com o gol do Masopust. Fez 1x0, mas a equipe continuou, como em 58, tranquila, sem se preocupar, foi, continuou jogando o futebol que ela sabia jogar e foi impondo seu ritmo até que os gols foram surgindo, mas foi uma partida difícil, uma partida bonita, bem disputada, e eu acho que ali estava dando fim a uma geração de jogadores extraordinários, porque... Mauro, Nilton Santos, Djalma Santos, Garrincha, já a idade vinha chegando e eram jogadores que praticamente a gente já sabia que seria talvez a última Copa que iriam jogar, né? E com isso eu acho que para eles também foi muito bacana porque fecharam o seu ciclo futebolístico com chave de ouro, ganhando um bicampeonato do mundo. E é uma pena, porque de lá para cá têm surgido grandes valores, mas não iguais a esses jogadores que pararam naquela época. Eu acho que o Brasil, nesse particular, ele foi muito feliz nessa década de... Entre 58 e 62, pelo fato de ter jogadores fora de série, jogadores extraordinários que deram muita alegria e muita satisfação ao povo brasileiro.

P/2 – Gylmar, eu só queria voltar um pouco ao jogo contra o Chile. O Garrincha foi expulso nessa partida.

R – Foi.

P/2 – Eu queria que você comentasse um pouco a respeito do impacto, de como é que se resolveu a situação.

R – Olha, a parte externa a gente não sabia, que nós não tínhamos conhecimento. Ele foi expulso com o Rojas, né? Ele teve um entrevero com o Rojas porque ele foi muito caçado dentro dessa partida, os jogadores chilenos procuraram pegar o Mané de tudo quanto é jeito, mas como ele era muito hábil e muito rápido. Mas aí chegou uma hora que ele se revoltou e revidou uma falta e os dois foram expulsos. Agora, o que aconteceu fora nós não tínhamos conhecimento. Dizem que fizeram um trato, não sei, para que ele pudesse jogar a final, porque, como o Pelé já estava fora, e se o Garrincha ficasse fora, porque ele vinha se constituindo na maior figura da Seleção Brasileira, esvaziaria o público na final, talvez o público não comparecesse pelo fato dele não estar jogando. Então arrumaram parece que lá um jeito de dizer que o bandeirinha não viu e não entregou o relatório a tempo. Agora, como a gente não participava disso, a gente não sabe. Eu sei que ele jogou na final e o estádio estava lotado, como vocês lembram bem, e ele tornou-se ainda a maior figura dentro daquela competição. E foi isso que aconteceu. Agora, problemas de bastidores nós não tomávamos conhecimento, isso não era obrigação nossa, né? Isso era obrigação do dirigente que estava lá, nós não temos conhecimento de nada não.

P/1 – E essa festa, foi redobrada com relação à de 58?

R – Foi, porque aí já tinha participação dos brasileiros. Nós tínhamos, além da torcida, tinha um grupo de atletas lá que foram disputar, se não me engano, um campeonato sul-americano, que teve basquete, teve atletismo... E eles estavam todos lá presentes. Inclusive eu tenho uma faixa que está comigo, está “Miss Copa do Mundo”. Pô, puseram a faixa numa brasileira que era do basquete, uma atleta, e no fim eles foram lá com aquela faixa colocaram em mim, eu estou como “Miss Copa do Mundo”, um negócio meio chato até, né? (risos) Mas houve uma euforia tremenda, porque naquele dia você participou com os brasileiros, com teus conterrâneos numa conquista, então é muito gostoso. Após o jogo, novamente o banquete, aquele negócio todo, aí depois você sai também, vai festejar na boate com os amigos, vai extravasar toda aquela alegria, mas aí você já sabendo o que podia acontecer aqui em 62, porque você tinha o exemplo de 58. Então, nós já sabíamos tudo que ia nos esperar. Quer dizer, era desfile, aquela loucura de ficar horas e horas em cima de um caminhão, mas isso faz parte da vida da gente, né?

P/1 – Gylmar, eu queria entrar numas perguntas, assim, mais técnicas da profissão. Como é que você define o seu estilo de jogar?

R – Agora você me pegou. Eu acho que cada um tem um estilo seu, próprio. É evidente que alguma coisa você procura copiar de alguém. Você olha em alguém a forma como ele joga, a forma como ele cai, ou como ele salta, ou como ele sai na bola, e você procura imitá-lo, mas eu acho que o estilo da gente é nato, você traz com você, a única coisa que você tende é a aprimorar, em virtude dos treinamentos que você faz. Mas o meu estilo, eu posso, assim, dizer que eu tinha muita percepção da jogada, o que podia acontecer com a jogada, como elas poderiam ser realizadas. Então, eu tinha essa percepção de antecipar-me nas jogadas, entende? E eu tinha muita elasticidade, eu tinha muita impulsão, eu tinha facilidade para sair do chão. Então, isso para mim era muito importante, eu usava muito isso. Agora, é evidente que com o correr do tempo você vai diminuindo, você procura usar mais o senso, a colocação, você procura se jogar menos e se colocar mais, esperar que a bola venha em você, mas enquanto você está moço não, você procura ir de encontro à bola. E com o tempo não, você espera que a bola venha de encontro a você. É a única forma que eu posso, assim, te dizer qual é o meu estilo.

P/1 – É, mas é isso, né? Porque a crônica da época falava que a bola te procurava, mas você que tinha uma boa colocação?

R – É, eu tinha muita percepção da jogada. Por exemplo, quando eu via que o atacante vinha pela ponta, já calculava o que ele ia fazer, o que ele pretendia fazer, então isso me facilitava, entende? Eu acho que isso é muito importante no goleiro, você ter isso com você, para você poder... Era aquilo que o Pelé tem, que quando a bola chegava nele ele já raciocinava o que já ele ia fazer, antes de chegar. Então quando a bola chegava ele já complementava a jogada. Por quê? Ele já raciocinou com antecedência. E o goleiro tem que ter isso também, principalmente nessas jogadas. Você tem que ter um raciocínio muito grande do que pode acontecer, do que pode o atacante fazer, que é para você estar preparado para aquilo, para não ser surpreendido. E eu tinha, graças a Deus, eu tinha essa percepção.

P/1 – E como é que era a sua preparação? Nessa época já existia preparador de goleiro?

R – Não, não, não. A minha preparação era sempre com os atacantes, bate-bola, e às vezes eu pegava o preparador físico, na época o Júlio Mazzei, e quando nós viajávamos eu saía muito com ele, porque ele gostava de ver os métodos de treinamento físico que eram aplicados nos jogadores na Europa para serem aplicados aqui no Brasil. E eu ia junto com ele para ver o que é que os goleiros faziam. Os treinamentos de goleiros. Porque todo mundo dizia sempre que o goleiro europeu era melhor do que o brasileiro, né? Então você tinha que saber por que ele era melhor do que o brasileiro, tinha que ter algum motivo para ele ser melhor do que o brasileiro. Então eu ia sempre com ele para ver os treinamentos. Então, dentro daquilo que eles faziam que eu achava que era diferente do que ele fazia comigo, eu dizia: “Pô, Júlio, aquilo é bom. Vamos fazer lá também que aquilo eu gostaria de fazer.” E quando chegávamos no Brasil, que voltávamos da viagem nós treinávamos naquilo também, e isso tudo ia me ajudando. Eu treinava muito à parte com o Júlio Mazzei. Nos dias de treinamento físico, enquanto os outros ficavam fazendo física eu só fazia o aquecimento junto, depois eu saía e ficava só no treinamento específico, eu e ele, porque não tinha um preparador físico, então eu tinha que pegar alguém que me ajudasse a treinar, né? E o Júlio foi muito importante para mim nesse período. Foi um cara que me ajudou muito nos treinamentos. Hoje não, hoje você tem uma pessoa, um ou dois treinadores específicos para o goleiro. E você está dentro de campo, você está fazendo o seu trabalho você acha que está fazendo tudo perfeito, e às vezes você está cometendo erros crassos ou erros infantis que quem está de fora é que vê, e que tem que observar para chegar no dia do treinamento: “Olha, você no jogo estava errado, você fez assim, assim, não é assim. Você tem que fazer desse jeito, então você vai treinar dessa forma para poder corrigir esses erros.” E todos nós temos um problema, um tem dificuldade de cair de um lado, do lado direito, o outro tem dificuldade de cair do lado esquerdo, então você procura, você força mais onde você tem os seus problemas que é para você ir adquirindo confiança, para dentro da partida você fazer as coisas sem receio de estar errando. Então, essa é a função hoje do preparador de goleiros.

P/1 – E quem foram, assim, os atacantes mais perigosos que você enfrentou, que te deram aí muito trabalho?

R – Ah, todos. (risos) Atacante não tem um que não dê trabalho, né? Para isso ele é atacante, já o nome diz: “atacante.” (risos) Você tem que respeitar todos, eu acho que você não pode dizer: “Esse é melhor.” Não. Às vezes uma bola despretensiosa que um cara chuta, ela pega um efeito ou bate numa saliência do terreno e te engana, então você tem que estar sempre atento com todo mundo, você não pode dizer: “Eu vou me preocupar com aquele.” Você se preocupa com um, mas tem mais quatro. Então você tem que estar preocupado com os cinco, você não pode se descuidar, você tem que estar 90 minutos olhando os cinco caras que de uma hora para outra ele pode tentar te surpreender. É evidente que tem um que chuta mais forte, tem um que chuta mais colocado. Então, tudo isso você sabe, com o transcorrer da tua carreira você vai vendo, vai observando a forma de cada um, como ele bate na bola, como ele chuta, como ele bate falta, como ele cobra isso, como cobra aquilo... Então, você já vai observando, para que no dia do jogo você já saiba o que é que ele vai fazer. Mas, mesmo assim, às vezes é difícil você pegar. Mesmo sabendo como ele cobra é difícil, mas você tem que estar preparado para isso, tem que estar atento sempre com todos eles, independente que seja o A, o B, o C, tem que estar de olho nos cinco.

P/1 – Tinha algum jogador que tinha uma escrita com você, que sempre marcava em você?

R – Não, nunca tive assim, não, nunca tive problema com ninguém. É lógico que tem jogador que marca o gol, mas tinha jogos que marcavam, tinha jogos que não marcavam. Isso... Mas isso é normal dentro, nunca tive, assim, e nunca tive complexo com atacante nenhum, eu nunca tive esse complexo. Eu respeitava todos, todos para mim eram iguais, mas nunca tive complexo porque o sujeito um dia me fez uma falta assim, porque ele bateu com efeito e a bola entrou. Não. Entrou porque tinha que entrar. Eu sempre fui assim, o gol entra porque tem que ser, tem que entrar. Eu nunca me preocupei com o gol não. Mesmo quando errava eu nunca deixei transparecer que eu tinha errado, eu procurava sempre transmitir confiança para o meu pessoal na frente, porque se eu demonstrasse que estivesse errado todos eles iam ficar preocupados comigo o resto do jogo. Então você não pode deixar transparecer isso, mesmo tendo errado. Então eu dizia: “Não, gente, calma, não foi nada não. Vamos lá, vamos lá.” Então o pessoal dizia: “Não, foi azar mesmo, aconteceu por azar, não é porque ele falhou.” Então, com isso eu me mantinha dentro de campo. Porque senão você fica também conturbado, você pega, a torcida começa, toda vez que você vai pegar na bola a torcida vaia, já começa: “Uuuuu! Uuuuu!” Então você fica perturbado, meu filho, a concentração tua vai embora e você aí vai por água abaixo. Então, eu nunca deixei isso acontecer comigo.

P/1 – Gylmar, você teve algum período, assim, longo sem tomar gols?

R – Ah, tem períodos que você fica sem tomar uns gols, mas é difícil você manter uma sequência muito grande, né? Isso é humanamente impossível, é como você também manter uma invencibilidade aí sem tomar gols é muito difícil. Eu, por exemplo, na Copa do Mundo em 58 fiquei um período longo sem tomar gols. Agora, você acha que isso não preocupa? Por quê? Porque se todo mundo começa: “Olha, não vamos tomar gol, hein? Se você não tomar gol, você vai ganhar um prêmio.” Você já começa a pôr um monte de coisa na cabeça: “Tem que ganhar o jogo e não pode tomar gol.” Quer dizer, é difícil, né? Então é humanamente impossível. Eu acho que chega um momento, a hora que você toma um gol você já fica aliviado: “Bom, acabou tudo, agora eu vou só pensar no jogo.” Mas têm goleiros que permanecem assim certo período sem tomar gol. Eu já tive alguns períodos também, mas não é constantemente isso, você vê que não são constantes. Você vê os goleiros aí, você conta nos dedos. É um ou outro que de vez em quando fica um tempo sem tomar gol, mas normalmente toma. Isso, hoje é mais difícil, porque joga mais fechado, tem essa facilidade. Antigamente não, um futebol mais aberto, onde tinha mais espaço, a tendência era sempre tomar mais gols. Mas hoje não, hoje há possibilidade de você permanecer alguns jogos aí sem tomar gols.

P/1 – Você disse que uma referência sua quando você estava começando a ser goleiro foi o Oberdan, né, do Palmeiras. Teve outros goleiros, assim, que eram seus ídolos?

R – Não, para mim foi o Oberdan. Logo que eu comecei a me entender como gente e a ver futebol eu sempre gostei do Oberdan, sempre o achei um goleiro extraordinário e procurei imitá-lo, mas é evidente que, depois, dentro da minha carreira eu vi outros goleiros também, goleiros excepcionais como foi o Castilho, o Barbosa, então... Mas aquele que marcou para mim mesmo, na minha infância, no meu início de carreira, foi o Oberdan, sem sombra de dúvida. Na época atravessava uma fase extraordinária, então. Garoto, você tem sempre o seu ídolo, né? Então você procura imitá-lo. Quando ele ia jogar em Santos, no campo da Portuguesa, eu ficava na porta do vestiário para o ver entrar, porque ele tem a mão grande, então, todo mundo falava da mão dele, eu queria ver de pertinho a mão dele, se era grande mesmo. Aquele negócio de criança, né, que tem o seu ídolo e imagina uma série de coisas desse ídolo. Então foi assim que eu fiquei gostando dele.

P/2 – E você chegou a encontrá-lo em campo?

R – Encontrei. A primeira partida minha, Jabaquara x Palmeiras, eu encontrei. Ele estava no gol do Palmeiras e eu no gol do Jabaquara. Nós perdemos o jogo de 2x0, e o maior elogio que eu recebi, para mim, foi dele. Ele disse: “Boa, garoto, vai que você vai longe.” Quer dizer, aquilo pra mim foi como se eu tivesse ganhado o jogo, né? (risos) Perdemos o jogo, mas ele me falando aquilo, para mim, pô: “Hoje ganhei o meu dia.” E graças a Deus deu certo. Mas até hoje nós somos amigos, nos encontramos, estamos sempre juntos, é uma pessoa extraordinária, um cara fabuloso, gosto muito dele.

P/2 – Ainda falando em goleiro, Gylmar, na sua primeira convocação para a Seleção você foi o terceiro goleiro do Barbosa. Como era o Barbosa, o estilo dele, já que você falou do seu?

R – O Barbosa era um estilo também bem elástico. Ele tinha muita elasticidade, porque a estatura dele não era muito alta, não, ele tinha uma estatura mediana. Mas era um jogador que tinha muita impulsão também. E bom, um goleiro excepcional, muito bom. Saía bem do gol também. E depois dele tinha o Castilho, que já estava começando a aparecer também. O Castilho também, outro goleiro muito bom, tinha uma agilidade, um senso de colocação muito bom.

P/2 – E o Barbosa também tem toda aquela marca da derrota da Copa de 50, né?

R – É, infelizmente ele carrega até hoje, ele diz que é o único criminoso que já pagou o crime e ainda continua condenado. Quando eu encontro com ele, e todo mundo lembra isso, né? Eu acho que ele não teve, assim, tanta culpa. O fato aconteceu porque é aquele negócio, você raciocina uma coisa, às vezes pega mal no pé do atacante... Eu tenho certeza que o Ghiggia nunca chutou aquela bola para o gol. Ele foi tentar cruzar, pegou mal e a bola foi para o gol, e ele tentou sair para cortar. E aconteceu que aquele gol foi fatídico porque o Brasil ali perdeu a Copa do Mundo. Então, marcou e o pessoal não perdoa até hoje. Agora, será que foi só ele o culpado? Pô, o Brasil está jogando em casa, com 200 mil pessoas no Maracanã torcendo pelo Brasil. Tudo a favor do Brasil. Eu acho que ali o time é que foi mal. O time todo jogou mal, não foi só o Uruguai que ganhou, o time do Brasil jogou mal. Mas pesou por quê? Porque ele tomou o gol e o gol foi fatídico... Levou o Brasil à derrota, então ele carrega até hoje esse estigma de que ele foi o culpado do Brasil ter perdido aquela Copa.

P/2 – Você acompanhou esse jogo de 50?

R – Acompanhei pelo rádio, né? Na época não tinha ainda a televisão, você só ouvia pelo rádio. É, foi triste, porque o Brasil teve tudo, já saiu como campeão porque jogava pelo empate, depois fez 1x0, depois empatou de novo, e teve três chances. Só veio perder na final mesmo, no finzinho. Então, foi muito triste. E o Brasil já vinha há quanto tempo, em busca, tentando ganhar uma Copa do Mundo e teve tudo para ganhar e infelizmente não ganhou.

P/2 – Fazendo um salto, então, para 58. Nos momentos, nos dias que antecederam a final, em algum momento a sombra de 50 pairou sobre a concentração ou os jogadores nem...

R – Não, não. Não, porque naquela época já tinha acabado aquele negócio de brasilidade, de chegar e mostrar a bandeira: “Olha, nós temos que ganhar! A bandeira do Brasil!” Tudo isso já tinha acabado. Naquela época não se falava muito no país: “O país... Porque o Brasil... Porque o povo...” Não, nós estávamos lá para jogar futebol, nós sabíamos que tínhamos que ganhar, que o povo brasileiro estava todos eles com a vista voltada para Suécia, para nós, que nós tínhamos que honrar a bandeira do nosso país. Isso tudo nós sabíamos, nós estávamos conscientes de tudo isso. Agora, nada disso influi, nem ninguém se falou nada disso em termos de Brasil, de povo, de bandeira, de nada: “Gente, nós temos que ganhar o jogo.” E o doutor Paulo sempre tinha a mesma, ele falava sempre a mesma coisa: “Nós viemos aqui para ganhar e vamos ganhar.” Todo jogo ele falava isso para nós, então isso dava um ânimo para gente muito grande. E nós já tínhamos conversado: “Olha, gente, vamos jogar nosso futebol. Nós temos time para ganhar e vamos lá e vamos ganhar.” Então nós já entrávamos em campo decididos para ganhar mesmo, nós sabíamos que podíamos ganhar, nós tínhamos confiança na gente. O time estava tão entrosado que não tinha mais preocupação, ele não preocupava ninguém.

P/1 – Continuando então sua carreira no Santos, você termina em 69?

R – Sessenta e nove.

P/1 – Você foi parando ou não? Você escolheu o ano de 69 como...

R – Não, veja bem, a idade já vinha chegando, já estava com 39 anos. Então, à medida que você vai sentindo que as coisas começam a te cansar, você já chega no seu habitat, no teu ambiente para fazer o teu trabalho você já começa a não achar mais satisfação naquilo que você faz, então você já começa a pensar em parar. Então diz: “Ah, eu acho que está chegando a hora.” Então, eu fui me preparando, realmente eu já vinha me preparando porque eu sabia que um dia eu ia ter que parar, e já estava sendo chegado o momento. Acontece que o momento chegou em 69. Eu fiz uma excursão com o clube, fomos à Europa, jogamos várias partidas na Europa, voltei e comecei jogando algumas partidas aqui, mas tentei... Já não estava me agradando muito o meu desempenho e aquela obrigatoriedade de estar sempre concentrando, treinando e jogando, aquilo já começou a cansar. E culminou num jogo aqui que nós perdemos para o Cruzeiro de Belo Horizonte, aqui no Pacaembu, 3x2, aquilo já me desgostou um pouco, achei: “Acho que já está na hora de eu parar, e é melhor eu parar agora que eu ainda paro por cima.” Porque o duro deve ser, para quem joga, que chega lá em cima, insiste e depois cai e para aqui embaixo. Eu falei: “Não, eu acho que está na hora de parar.” E me ajudou muito, na época, o Antoninho, o treinador, me tirar do time. Quando o time foi jogar, se não me engano, em Porto Alegre, ele não me relacionou pra ir jogar, ele me deixou fora e pôs, na época, o Aguinaldo para ir jogar. Não que eu tivesse me rebelado contra o Aguinaldo, eu disse: “Não, chegou a hora de eu parar. É este o momento, eu vou parar agora.” Peguei as minhas coisas e falei, avisei a todos: “Não vou jogar mais, encerrei a minha carreira.” Arrumei as minhas coisas todas e vim embora, vim para casa. Peguei tudo o que era meu, o que não era meu deixei no clube e vim embora. E encerrei a carreira. Tanto que eu não fiz nem volta olímpica, nem jogo de despedida, não quis nada disso. Encerrei, encerrei, acabou, não jogo mais.

P/1 – E como é que foi o dia seguinte?

R – Normal, porque como eu já estava me preparando para parar, então eu parei com a maior naturalidade. Tanto que eu não fiquei jogando aí em master, em jogos... Eu nunca, os caras diziam, eu: “Não, não quero jogar. Tá louco! Chega, não aguento mais isso. Parei de vez, parei, parei para valer. Não quero viver de passado. Passado já foi, agora tem que viver o futuro, o presente... Então, não quero mais jogar.” E nunca mais joguei. E não sinto falta, não. O pessoal diz: “Pô, mas você não sente falta?” Eu falo: “Não, não sinto falta. Realmente não sinto. Gosto de ver, mas falta de dizer: Puxa, podia estar lá ainda...” De jeito nenhum!

P/1 – E você teve um jogo de despedida pela Seleção?

R – Fiz. Na Seleção eu fiz o centésimo jogo e fiz a minha despedida na Seleção. Foi contra a Inglaterra no dia 29 de Julho de 69, no Maracanã.

P/1 – O Brasil ganhou de 2x1.

R – Dois a um. Até, inclusive, queriam que eu fosse na Seleção de 70, eu também não quis ir, eu recusei ir. Cansaram de me telefonar para eu ir jogar no Rio, só para jogar, não precisava nem ir treinar, só para ir para participar. Disse: “Não quero. Disse que parei, parei. Não quero jogar mais.”.

P/1 – E você, assim, fez um sucessor?

R – Ah, não sei. (risos) Aí eu não posso te dizer, né? Eu acho que aí tem grandes goleiros hoje, dizer que eu fiz sucessor não, porque na época em que eu jogava aqueles que estavam comigo também já pararam. Hoje a tendência é surgir aí... Hoje tem o Rogério, que está jogando, o Rogério Ceni, tem esse menino André, que eu acho também muito bom, infelizmente nós perdemos o Dida, que estava numa fase muito boa, que parece que acertou o negócio dele com o Milan, tem esse menino, o Carlos Germano, também, que é bom. Têm aí alguns goleiros que ainda podem aparecer, têm chances de aparecer. Agora, sucessor é difícil, porque depende de cada um deles, eles é que sabem o que eles têm que enfrentar, o pão que o diabo amassou para chegar onde eu cheguei. Então, é muito difícil.

P/1 – O que é o difícil na profissão de goleiro?

R – Olha, o difícil na profissão de goleiro é tudo. Porque a profissão, eu acho uma das mais bonitas dentro do futebol, porque ele tem o espetáculo dele à parte, ele faz o espetáculo dele sozinho, ele não depende de ninguém. Mas também ele tem o peso da balança nas mãos, ele tanto pode ganhar como pode perder o jogo. Então, é aquele negócio: ele pode jogar durante 89 minutos uma partida extraordinária, pegar tudo. Se ele tomar um gol e o time dele perder de 1x0, ele é o culpado da derrota. Ele pode não fazer nada durante o jogo, o time ganhou? O atacante fez o gol é o herói, você entendeu? Essa é a dificuldade que tem no goleiro, porque ele tem que estar sempre 100% em todos os jogos, ele não pode errar nunca porque o erro dele é capital. O atacante erra mil vezes, perde gol de monte, fez um gol é o herói, ninguém fala dos que ele perdeu. O goleiro pega 800 bolas, faz milagre, toma um gol é o vilão. Então por isso que eu acho que as dificuldades do goleiro são essas. Ele não pode falhar um minuto. Ele tem que jogar 90 minutos perfeitos. E é difícil, você é um ser humano. Se a máquina falha, que é programada para fazer as coisas, se ela falha, porque é que o ser humano não vai errar, né? Por isso que eu acho que é uma profissão difícil. Agora, acho que é linda de morrer, porque depende única e exclusiva dele, só depende dele, da capacidade dele e da habilidade dele. Não depende de mais ninguém, não tem ninguém que possa ajudá-lo. Tanto é verdade que dizem que é tão ruim a posição que onde ele pisa não nasce grama, de tão espraguejada que é a posição. Mas eu acho muito bonita.

P/1 – Gylmar, que conselhos, que dicas você daria para um menino que hoje está se preparando para virar goleiro?

R – Ah, antes de mais nada, se ele quer ser goleiro, ele primeiro tem que saber se ele gosta da posição. Não é o fato de dizer: “Vai ser goleiro.” Tem que gostar dessa posição para ser goleiro. Não é uma posição que você diz: “Você vai ser goleiro.” Não, você tem que gostar para ir para lá, senão você nunca vai ser um grande goleiro. E depois é a dedicação. Você sabe que é uma posição que exige mais do que qualquer outro jogador, porque você treina mais do que os outros, você, mesmo dentro de campo, você não sendo exigido, mentalmente você fica com a tua cabeça 90 minutos funcionando. Então você perde peso só pelo fato de usar a sua mente, ficar atento aqueles 90 minutos. Você sai com uma dor de cabeça de morrer de dentro do campo. E treinar, treinar e treinar. Isso são fatores preponderantes para ser um bom goleiro. É muito treino. Porque, às vezes, dentro de uma partida você é exigido desde que ela começa. E às vezes você fica 90 minutos como mero espectador e às vezes pode ser surpreendido por um chute despretensioso e você toma um gol e que reflete às vezes até no resultado da partida. Então é treinamento. Se a pessoa se conscientizar de que ele tem que treinar todos os dias no mínimo duas, três horas por dia, aí ele pode ser um grande goleiro. É o que eu fazia, eu treinava de três, quatro horas todos os dias, todos os dias. Eu perdia todo dia três, quatro quilos, três, quatro quilos, três, quatro quilos... Só que você recupera, né? No período em que você descansar, você recupera. Mas para você chegar a algum lugar você tem que fazer isso, senão você vai ser sempre um jogador medíocre. Você vai ser mais um, você não vai ser um astro, vamos dizer, uma estrela dentro do cômputo geral. Esse é o conselho que eu posso dar.

P/1 – Depois que você encerrou a sua carreira como jogador o que é que você foi fazer da vida?

R – Logo que eu parei eu entrei no ramo de automóveis. Eu fui mexer com automóveis, que eu tinha um amigo que acompanhava muito o Santos, o Mário Menezes, que era da DIASA, e ele me convidou para trabalhar com ele, para ser o public relation dele lá na DIASA e me deu uma participação, inclusive, na empresa. Eu fiquei com o Mário dois anos e peguei certo conhecimento do ramo de automóveis, que eu não conhecia nada. E o futebol também me ajudou muito porque o meu relacionamento no futebol é que levava clientes às vezes à empresa, né? Depois eu vim para São Paulo... Quando o meu sogro faleceu eu vim para São Paulo, vim trabalhar aqui com o pessoal na Anhembi, eu vim trabalhar, eles estavam montando a Anhembi, eu fiquei com eles oito anos trabalhando como diretor lá dentro.

P/1 – Era uma concessionária de que marca?

R – Chevrolet. Sempre na Chevrolet, né? E, depois, aí sim eu comecei a ter participação nas empresas, e fiquei como sócio até agora o ano passado, quando eu me afastei de vez das empresas, vendi a minha parte, mesmo porque o comércio de automóveis está muito ruim, estavam muito difíceis, as coisas... Você trabalhava só para a fábrica, porque quem ganha mesmo é a fábrica, hoje não é o concessionário, você é obrigado a assumir a tua cota e você fica vinculado a banco da fábrica pagando juros, então hoje... E a concorrência é muito grande... Então, hoje não estava bom o negócio, eu consegui vender a minha parte, vendi, apliquei o meu dinheiro, não estava fazendo nada, estava naquele dolce far niente, né? Aí eu recebi um convite do Secretário de Esportes e Lazer aqui da Prefeitura, Fábio Camunha, e vim para cá, assumi a direção aqui do Centro Olímpico. Eu também não entendia nada disso aqui, mas já me adaptei bem, já conheço bem como funciona e é aquilo que eu gosto. Hoje eu estou dentro do esporte novamente. Eu voltei ao esporte. Além do futebol, que nós temos aqui a escolinha de futebol, temos a ginástica olímpica, temos natação, temos basquete, temos vôlei, temos boxe, temos judô... Então nós temos uma série de esportes aqui, porque aqui é um centro de treinamento e pesquisa. Muita gente pode pensar que aqui é um clube. Não é. Aqui é um centro aonde a criança vem, ela escolhe a modalidade que ela quer praticar e os professores fazem um teste para ver a aptidão, se ela tem ou não tem aptidão para aquele determinado tipo de exercício. Se não tiver, eles descobrem outro e encaminham-no para outra modalidade, entende? Então muita gente às vezes chega aqui pensando que é chegar aqui e vem para treinar e não é. Nós aqui temos um limite de idade, ela vai dos seis aos 16 anos, quando muito até 17 anos. Depois, não se pega mais ninguém. O adulto não pode aqui, não pode praticar esporte aqui. E à medida que você vai desenvolvendo o garoto ou a menina aqui, depois que ele atinge um nível nós encaminhamos para os clubes, aí nós indicamos essa criança que vá para um clube onde ela possa dar continuidade à sua atividade. Então, por isso que é Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa. É totalmente diferenciado dos centros de lazer, aqui nós preparamos o atleta, nós descobrimos o atleta, burilamos os atletas para depois encaminhá-los para os outros clubes. E daí já saiu o Nelson Prudêncio, Hortência, Montanaro, saiu o João do Pulo, já saiu uma série de grandes atletas daqui do Centro Olímpico, que foram depois encaminhados pra outros clubes. Essa é hoje a minha atividade aqui. Eu sou o diretor do Centro Olímpico, tudo isso que vocês estão vendo aqui, que estão aqui comigo hoje, eu que tomo conta disso tudo aqui.

P/1 – E você está gostando?

R – Estou gostando porque é esporte, né? Quer dizer, eu venho à vontade, não preciso vir de paletó e gravata, que eu detesto, estou sempre vendo esporte, estou sempre participando, aqui eu tenho 40 ex-jogadores de futebol, ex-atletas, que nós temos o Projeto Comunidade que são os ex-atletas que tomam conta, que vão às favelas fazer os treinamentos. Tem um campo de futebol? “Tem.” Então nós mandamos para lá dois, três professores lá, pego toda aquela garotada da favela, levo para lá e começo a ministrar futebol. E com isso nós estamos fazendo um trabalho junto à comunidade.

P/1 – Interessante.

R – É. Então tem aqui... Tem o Lima, tem o Dorval, tem o Leivinha, eu tenho o Zé Maria, eu tenho o Mirandinha. Mirandinha antigo, não o que está jogando. E assim, tenho o Minuca, tenho uma série de jogadores do passado, tenho quarenta aqui. E agora nós estamos contratando mais dez, que nós estamos abrindo outro núcleo em Campinas. Então está vindo o Joel, lá de Santos, para cá também agora, está vindo o Serginho Chulapa.

P/1 – Qual? O Joel Camargo?

R – É. Então, é um trabalho que a prefeitura está fazendo nesse sentido, de ir às comunidades, na periferia, e tirar a criança da rua, tirar a criança do vício através do futebol, do esporte. E têm outras atividades que são feitas, o Cingabol, que nós fazemos dentro dos Projetos Cingapuras, então há uma série de coisas que se faz aqui que é pra tentar tirar toda essa criançada da rua e através do esporte torná-los homens no futuro.
P/1 – Ah, um belo trabalho.

R – É, eu acho que é gostoso. Eu acho que vale a pena.

P/1 – Gylmar, infelizmente estamos chegando ao fim da nossa entrevista, então queríamos fazer as perguntas finais, uma delas é que você pudesse fazer um balanço seu no Santos.

R – Bom, o meu balanço no Santos foi todo ele positivo, porque eu mais tive conquistas do que derrotas. Foram oito anos de vivência excepcionais e de amizades inclusive, mesmo porque, como eu já sou descendente da cidade de Santos, eu já tinha um relacionamento muito grande, mas ele veio aumentar-se através da minha vivência dentro do Santos. Eu acho que foi uma equipe que eu joguei que todos gostariam de ter jogado, porque foi equipe excepcional. Depois do Real Madrid, da Europa, eu acho que o Santos foi a maior expressão futebolística no mundo. Então, eu tenho muito orgulho de ter jogado no Santos, como tive muito orgulho de ter jogado no Corinthians e me orgulho de ter começado no Jabaquara, que hoje está na terceira divisão, mas são as três equipes que eu passei que eu guardo no meu coração, que tenho grandes lembranças e que tenho certeza que jamais me esquecerei.

P/1 – Gylmar, o que é que você acha desse movimento do Santos de estar começando a preservar a sua memória e colocar você no Museu?

R – Bom, eu já estou quase me sentindo como múmia, né? (risos) Eu estou no Museu já! Não, eu acho válido, eu acho muito importante, porque, veja bem, se não me engano me parece que o São Paulo foi o primeiro, foi o pioneiro em fazer isso e hoje o Santos está seguindo o mesmo caminho. Eu acho importante porque essa geração que vem surgindo, se nós não tivermos essas lembranças eles jamais poderão saber o que foi o Santos ou o que foi o São Paulo do passado, você entendeu? Então eu acho válido. Eu acho que o Santos está no caminho certo, isso aí vai dar muita chance de que amanhã o meu neto, que hoje tem três anos, amanhã se ele ouvir dizer: “Puxa, o meu avô foi jogador de futebol, eu não sei nada do meu avô.” Alguém vai dizer para ele: “Olha, se você for a Santos existe o Museu do Santos que lá tem a vida do teu avô.” E ele vai lá, vai procurar a vida do avô dele e vai também procurar saber o que foi o Santos Futebol Clube, quem foi Pelé, quem foi Coutinho, quem foi Mengálvio, quem foi Pepe, quem foi Mauro, Dalmo... Essa infinidade de jogadores que passaram pelo Santos. Então eu acho isso muito válido, eu acho que o Santos está de parabéns pela iniciativa, eu só tenho a louvar. Eu acho que é a coisa mais importante que o Santos faz é guardar a imagem do passado para que a futura geração possa saber o que foi o Santos do passado.

P/1 – Então, Gylmar, queria te agradecer pela sua enorme paciência com a gente, de dar esse seu relato que sem dúvida nenhuma vai virar um importante material de pesquisa do nosso Museu

R – Obrigado. Eu é que agradeço a vocês de poder estar perpetuando o meu nome nesse Museu do Santos, coisa que eu jamais pensei que um dia pudesse acontecer. Agora eu acho que no dia que eu morrer, eu, lá de cima vou ver alguém apertando a tecla e eu vou me ver aqui embaixo alguém me consultando, sabendo quem foi o Gylmar. Então isso para mim é muito bacana, é muito gostoso. Acho que é o pensamento de todos nós, né? Poder deixar perpetuado alguma coisa que você fez... E o Santos está de parabéns porque está fazendo isso para nós atletas, não é para o Santos não, é para nós atletas que o Santos está fazendo. Não é para o Santos Futebol Clube, não. O Santos está guardando a imagem dos seus ex-jogadores, daqueles jogadores que fizeram o nome do Santos Futebol Clube, então por isso que eu acho muito importante.

P/1 – Então, muito obrigado.

P/2 – Obrigado.

R – De nada.

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