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História

"Como agente comunitário me senti mais humana"

História de: Rita de Cássia Nunes Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2008

Sinopse

Rita de Cássia Nunes Almeida passou por muitas dificuldades ao longo da vida e contará, por exemplo, sobre seus anos escolares e da palmatória que sua mãe deu para seu professor. Rita conta para nós também histórias curiosas: como se faz farinha de mandioca? Depois de trabalhar por muito tempo como doméstica, Rita chegou a trabalhar como lavadeira e em lanchonete e churrascaria, até que se encontrou pessoal e profissionalmente ao se tornar Agente Comunitário de Saúde.

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História completa

P/1 – Bom, Rita, primeiro eu queria que você se apresentasse, falasse seu nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R – Meu nome é Rita de Cássia Nunes Almeida. A data de nascimento é 30 de novembro de 1967.

 

P/1 – Local?

 

R – Maracanã, o local onde eu nasci. O bairro é São Miguel.

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho sobre a sua história. O que você sabe da origem dos seus avós? Vamos pegar pelo lado do pai pra ficar mais fácil.

 

R – Bom, o que eu sei da história dos meus avós é mais sobre rigidez – a minha mãe fala que ele era muito rígido, que quando eles faziam qualquer coisa errada ele batia muito. Também tinha o sofrimento da minha avó, batia muito na minha avó.

 

P/1 – O seu avô?

 

R – O meu avô.

 

P/1 – O seu avô era o quê?

 

R – Era lavrador.

 

P/1 – Lavrador?

 

R – Isso.

 

P/1 – E o nome dele?

 

R – Raimundo da Costa Nunes.

 

P/1 – Onde é que o seu Raimundo da Costa Nunes morava? De onde ele veio? Quais as origens dele?

 

R – Ele morava em São Miguel do Itaquere, que é um município de Maracanã. A origem dele é de lá mesmo.

 

P/1 – Ele nasceu lá?

 

R – Ele nasceu lá.

 

P/1 – E essa cidade fica em que região aqui do Pará?

 

R – Na região de Salgado.

 

P/1 – Salgado? Mais para o Sul, mais para o Norte, aqui perto?

 

R – É aqui perto de Belém.

 

P/1 – Para o Norte?

 

R – Para o Norte.

 

P/1 – E lá é uma região de interior ou está na beira do rio?

 

R – É uma região de interior.

 

P/1 – Não tem rio nem mata?

 

R – Tem rio.

 

P/1 – Aqui no Pará tudo tem rio, não é?

 

R – Tudo tem rio aqui no Pará, na verdade. Pois é, as histórias deles são essas.

 

P/1 – Ele nasceu lá em São Miguel, então, lá ele se criou como lavrador?

 

R – Isso, como lavrador.

 

P/1 – E lá ele casou-se, não é? Como era o nome da sua avó?

 

R – Era Maria Rosinda.

 

P/1 – Casou-se com a Maria Rosinda e teve vários... Quantos irmãos teria? Você sabe?

 

R – Onze filhos.

 

P/1 – Bom, você disse que ele era muito rigoroso, bravo.

 

R – Isso, muito bravo.

 

P/1 – Era o que o seu pai contava, que ele batia muito?

 

R – Batia muito e muito agressivo com eles mesmo, com os filhos. Não tinha nunca carinho pelos filhos. Tudo tinha que ser ali na hora certa, no momento certo. Você sabe que naquela época os pais não ouviam as opiniões dos filhos e era assim que se dava.

 

P/1 – E você sabe se foi uma vida de dificuldades a infância do seu pai?

 

R – Foi, eles tiveram muita dificuldade. Quando eles pegaram certo tempo eles não estudaram porque tinham que trabalhar para ajudar o pai, trabalhavam na roça, pescavam, sabe, e o meu pai e a minha mãe não tiveram uma certa educação, estudaram até a primeira série do primeiro grau. Eles só se alfabetizaram.

 

P/1 – E os seus avós eram alfabetizados?

 

R – Não, meus avós não eram alfabetizados não.

 

P/1 – E pelo lado da sua mãe, o que você sabe? Qual a origem dos seus avós?

 

R – A mesma coisa.

 

P/1 – No mesmo lugar?

 

R – É. Era no mesmo lugar. E pra minha mãe casar com o meu pai ela teve que fugir.

 

P/1 – Teve que fugir?

 

R – Teve que fugir pra ficar com meu pai.

 

P/1 – Como que foi esse negócio de fugir? Ela fugiu por que o pai não queria?

 

R – Não, o meu pai roubou ela da casa do meu avô, do pai dela, pra poder casar com ela.

 

P/1 ______, não queria o seu avô?

 

R – Não, ele não queria, o meu avô não queria que a minha mãe casasse com o meu pai, ele proibiu.

 

P/1 – E me falaram que aqui no Pará tinha uma tradição de roubar mulher, não é?

 

R – É, e eu acho que ainda continua, porque algumas irmãs minhas fizeram a mesma coisa.

 

P/1 – Fugiram?

 

R – Fugiram. Eu acho que a única mesmo que enfrentou o problema de cara foi eu. A minha mãe fala até hoje, sabe, que a única que enfrentou mesmo foi eu, que o resto todo mundo fugiu.

 

P/1 – Agora o que eu não entendi ainda é que me contam que essa história de roubar mulher é uma tradição. Por exemplo, uma pessoa me contou a história dele e dizia que: “Então o meu pai roubou a minha mãe”, mas não era porque o avô não queria o casamento, é porque era tradição.

 

R – Não, só que com a minha mãe não é assim. É porque o meu avô, pai da minha mãe, não queria o casamento. Então já que eles se gostavam eles resolveram agir dessa forma, fugindo de casa. O meu avô andou atrás, procurando com terçado e, na verdade, a minha mãe estava no teto de uma casa da amiga dela, dentro de uma rede com meu pai, e o meu avô andando atrás com terçado e meu tio com uma espingarda, que onde pegasse os dois matava. (risos) Isso é a história que ela me conta sempre que a gente questiona: “Mãe, como é que tu ficou com papai?”. Eu pelo menos pergunto muito pra ela, então ela sempre me falou assim.

 

P/1 – Terçado é uma arma?

 

R – Terçado é uma arma.

 

P/1 – E você sabe por que seu avô não queria o casamento?

 

R – Porque ele achava que... O meu pai, quando ele casou com a minha mãe, estava noivo com mais duas pessoas, mais duas mulheres. Aí o meu avô achava que não valia a pena porque o papai era assim, galinha, essas coisas.

 

P/1 – “Mulherengo”?

 

R – É, “mulherengo”, sem vergonha, que não queria realmente assumir um compromisso com a minha mãe, que só queria encher o saco ou então deixar filho pra ela criar, entendeu? Aconteceu assim.

 

P/1 – Então ele não queria e sua mãe mesmo assim ficou apaixonada.

 

R – Mesmo assim ficou apaixonada e enfrentou ele, fugiu mesmo e até agora está com o meu pai.

 

P/1 – Quer dizer, não era tão galinha assim?

 

R – Não era tão galinha assim, não. Acho que quando a gente está nessa experiência de solteiro, isso é uma coisa que ocorre, só que meu avô não via assim e a minha mãe sabia que ele estava noivo com outras pessoas, mas ao mesmo tempo ela era a preferida. (risos)

 

P/1 – Então eles casaram nesse clima aí e como é que foi que eles começaram a vida deles?

 

R – Bom, eles fugiram e para o lugar que eles fugiram, que fica próximo de Algodoal, uma praia que tem aqui no Pará, eles casaram.

 

P/1 – Como é que chama esse lugar?

 

R – (Maraconi?). Eles fugiram pra (Maraconi?). Depois que eles casaram eles voltaram pra casa do pai do meu pai, daí, meu avô, quando viu que eles estavam casados, viu que realmente meu pai queria assumir um compromisso, aí ele foi entendendo, foi aceitando, aí começou a nascer os filhos. Aí o que aconteceu? A minha mãe ficava em casa, meu pai ia para o mar, plantavam roças. Aí começou a nascer filho, filho, produção, produção e acabou que a minha mãe teve doze filhos.

 

P/1 – E como é que foi? O seu pai então trabalhava na roça, na lavoura e ele ficou lá em ______ e depois ele veio para...?

 

R – São Miguel de Itaquere.

 

P/1 – Fica onde isso?

 

R – É um município de Maracanã.

 

P/1 – É perto de (Maracunin?)

 

R – É próximo também de (Maracunin?) que vai de barco pra lá.

 

P/1 – E lá ele teve terra, ele comprou terra, ele trabalhou para os outros?

 

R – Não, ele só ficou trabalhando lá como pescador.

 

P/1 – Como pescador?

 

R – Isso, ele ficou lá como pescador.

 

P/1 – E foi como pescador que ele manteve vocês todos?

 

R – Como pescador que ele nos manteve. Depois que nós já estávamos numa certa idade, ele teve o próprio negócio dele; nós tínhamos uma mercearia.

 

P/1 – Ah, é? Comércio?

 

R – Tínhamos comércio e assim, na adolescência nós tivemos um bom equilíbrio, onde nós tínhamos alguém que sempre tomou conta da gente. Aí meu pai já pagava alguém pra cuidar da roça e a minha mãe mais essa pessoa que ele pagava ficavam em casa pra cuidar da gente, entendeu? Foi mais ou menos assim.

 

P/1 – E o seu pai pescava o peixe e comercializava também?

 

R – É, também.

 

P/1 – Vendia na cidade ou vendia em outro lugar?

 

R – Não, ele vendia na cidade mesmo, porque por lá passava um pau de arara que comprava os peixes e trazia pra cá, pra Belém.

 

P/1 – Vinha vender aqui no final?

 

R – Vinha vender aqui no final.

 

P/1 – E o que você lembra da sua infância? Você é a filha número o quê? A mais velha, a mais nova, a do meio?

 

R – Não, eu sou lá no meio. (risos) Eu não sou nem mais velha, nem mais nova e nem caçula.

 

P/1 – E como é que foi a sua infância, crescer no meio desse monte de irmão? Como é que era a sua casa? Descreve ela pra mim?

 

R – Olha, a minha casa era assim: tinha a mercearia, tinha o nosso quarto, tinha o quarto da minha mãe, tinha um corredor bem grandão, tinha uma cozinha também bem grande, devido ser bastante filhos, uma mesa enorme, com os bancos também bem grandes, sabe, um quintal enorme, uma casa de farinha, um quintal.

 

P/1 – Casa de farinha? Como que é uma casa de farinha?

 

R – Casa de farinha é uma casa coberta de palha, toda aberta, onde tem o forno que se prepara a farinha. Tem também a pasta onde se rala a mandioca que lá agora já tem uma máquina que beneficia a mandioca e não era assim, era no ralo mesmo, era ralado. Lá tinha aquele depósito de guardar massa pra se fazer a farinha, então era assim.

 

P/1 – E vocês comiam muita farinha ou era pra vender?

 

R – Muita farinha, era pra nós comermos e pra vender também, tá? E meu pai, ele pegava assim, as pessoas vinham fazer a farinha, aí dividiam a farinha, por exemplo: “Olha, a roça é minha, a gente vai (impleitar?), não é? Você faz a farinha e a gente divide”. Era assim que era.

 

P/1 – Então, quem plantava a mandioca, como é que vocês chamam aqui? Macaxeira?

 

R – Isso.

 

P/1 – Então plantava a macaxeira, o lavrador que era parceiro dele plantava a macaxeira, levava a macaxeira e fazia lá? Metade da farinha era do seu pai e a outra metade do parceiro?

 

R – Isso.

 

P/1 – E quem é que fazia a farinha?

 

R – A farinha, quem fazia? Bom, era todo mundo.

 

P/1 – Você também?

 

R – Até eu mesma, ia pra lá e descascava mandioca.

 

P/1 – Como é que é fazer farinha? Você sabe ainda fazer?

 

R – Olha, agora eu até já esqueci um pouquinho, mas dá pra lembrar. Primeiro vai na roça, tira a mandioca, põe de molho no igarapé. Aí essa mandioca vai, amolece – tem uma semana parece, que a mandioca amolece –, você tira, descasca, tira aquela pele preta, descasca ela e ______.

 

P/1 – Você está falando da mandioca e não da macaxeira.

 

R – Não, da mandioca.

 

P/1 – Macaxeira é outra coisa?

 

R – Isso, macaxeira é outra coisa. É uma raiz também, mas só que não é apropriada pra farinha, é mais pra bolo, essas coisas. Aí vai também na roça, tira a outra, tira a mandioca também que é pra fazer a mistura das duas, mandioca mole com mandioca dura, tá? Aí depois põe naquele...

 

P/1 – Essa outra é a macaxeira ou não?

 

R – Não. Todas duas são mandiocas.

 

P/1 – Todas duas?

 

R – Todas duas, só que a diferença de uma que é mole, que vai pra água, e da dura que tem que ser ralada pra misturar com a mole, entendeu? Aí depois vai para o tipiti, que é um material que eles utilizam. Põe a mandioca dentro que é pra escorrer.

 

P/1 – É um equipamento?

 

R – Isso, um equipamento que se põe a mandioca.

 

P/1 – ______ um secador, assim?

 

R – Isso, é um secador. Aí depois coa. Depois que a mandioca está seca a gente coa e joga no forno.

 

P/1 – Joga no forno?

 

R – Joga no forno. Aí tem o rodo, a gente fica mexendo lá, faz o fogo dentro.

 

P/1 – Até ficar amarelinha, não é?

 

R – É isso, assim que se beneficia é.

 

P/1 – E aí se chama tapioca?

 

R – Não, a farinha d’água, tapioca já é uma outra coisa.

 

P/1 – Não é a mesma farinha?

 

R – Não, não é a mesma farinha. É tirada do tucupi, que sai da mandioca; passa por aquele secador, aí o tucupi sai e você pega aquele tucupi.

 

P/1 – O tucupi é o caldo da mandioca?

 

R – O caldo da mandioca, é. Aí você pega aquele tucupi, põe numa vasilha, aí ele vai assentando, vai assentando e fica lá, que é aquilo de goma que a gente chama que faz a tapioca.

 

P/1 – É com a goma do tucupi que se faz a tapioca?

 

R – Que faz a tapioca, é.

 

P/1 – E fica mais ralinho, assim.

 

R – É, fica bem molinho.

 

(PAUSA)

 

P/1 – Você estava me contando da...

 

R – Da tapioca.

 

P/1 – Nesse clima aí, como é que se desenvolve então... A sua família, nós estávamos falando como é que era a sua casa e tudo.

 

R – Pois é, a minha casa tinha esses compartimentos.

 

P/1 – Então, é o seguinte, a gente estava na tua família, como é que era o dia-a-dia das pessoas, aquele bando de irmãos, não é?

 

R – Minha mãe costumava dividir tarefas. Ela: “Olha, você vai limpar o quintal”. De manhã nós íamos pra escola; quando nós chegávamos em casa, dividia as tarefas: um ia limpar o quintal, o outro ia limpar a casa e aí ela ficava na mercearia esperando meu pai, que às vezes estava no mar pra chegar com peixe. E as mais velhas cuidavam dos mais novos, cuidavam dos meninos mais novos e nessa época tinha cachorro, tinha gato, galinha que a minha mãe criava, muita galinha, sabe? E todo mundo dividia as suas coisas assim.

 

P/1 – Cada um tinha sua tarefa?

 

R – Cada um tinha a sua tarefa. Quem tinha que estudar ia estudar depois do almoço; a gente ia estudar e brincava também.

 

P/1 – Como que era... Você disse que tinha quantos quartos, muitas camas, dormia dois numa cama?

 

R – Era muito irmão. Era só um quarto e dormia todo mundo... Era rede, na época lá era rede. Então era muita rede e dormia um pouco na rede e outros... Dormia uns no quarto e outros dormiam no corredor, que era muito grande, e a gente dormia assim, divididos.

 

P/1 – Todo mundo na rede?

 

R – Todo mundo na rede. Só eles que tinham cama, a gente tinha rede, entendeu?

 

P/1 – E aí você fez escola, estudou onde, como foi essa fase de formação? O que você lembra da escola?

 

R – Bom, lá no interior, lá em São Miguel, eu estudei de primeira a terceira série, que foi na terceira série, quando eu estava fazendo, que meu pai resolveu mudar pra vir pra cidade mesmo de Maracanã, entendeu? Então, quando eu vim pra Maracanã, eu já vim fazer a quarta série. E de lá eu estudei até a sétima série, aí foi quando eu mudei de Maracanã pra Ananindeua, onde eu terminei a oitava e o ano passado eu terminei o meu segundo grau. Ah, mas foi bastante batalhador, onde eu tinha que trabalhar, tinha que estudar, que depois que eu peguei assim uns treze anos eu queria trabalhar pra ajudar minha mãe, porque quando nós mudamos pra Maracanã meu pai acabou com a mercearia, aí ficou tudo mais difícil. A minha mãe também não tinha mais.

 

P/1 – Por que vocês mudaram?

 

R – Porque a minha mãe... Nós tínhamos um irmão que morava na cidade já, então esse meu irmão já morava com minha irmã. E o que aconteceu? Todas as vezes que a minha mãe ia lá meu irmão estava lavando roupa, estava lavando rede porque ele ainda fazia xixi na rede, aí minha irmã colocava ele...

 

P/1 – ______?

 

R – Não, ele já tinha o quê? Uns quinze anos.

 

P/1 – Quinze anos e ainda fazia xixi na rede?

 

R – Quinze anos, fazia xixi na rede e aí minha irmã colocava ele pra lavar, aí meu cunhado colocava ele pra vender chopp na rua, essas coisas. E a minha mãe não gostava daquilo que ele estava fazendo, entendeu? Aí a minha mãe resolveu, ela dizia para o meu pai que se ele continuasse em Maracanã estudando que ela não ia mais ficar no interior, que ela ia embora de lá. Aí meu pai resolveu fazer a vontade, comprou uma casa em Maracanã pra gente ir embora pra lá, pra ficar todo mundo estudando e meu irmão poder morar com a gente.

 

P/1 – Então era um pouco pra vocês poderem estudar?

 

R – É.

 

P/1 – Por que lá em São Miguel não tinha escola?

 

R – Não tinha escola, só era até a terceira série. Aí tá, tudo bem, nós viemos pra Maracanã, foi aí que meu pai acabou com tudo. As crianças que tinham pra ajudar minha mãe, foi impossível ficar, aí a mercearia acabou e nós começamos a trabalhar em casa de família e estudar. Foi assim minha adolescência: trabalhando em casa de família, reparando crianças, sabe?

 

P/1 – Você falou que seus avós eram muito rigorosos, muito bravos. Seus pais eram bravos também?

 

R – Eram bastante.

 

P/1 – Batiam também?

 

R – Bastante, batiam muito na gente, qualquer coisa errada estava apanhando. Quando eu fazia a quarta série, o professor fazia sabatina na escola, não é? Quando foi um dia, eu não sabia, aí ele foi e falou pra minha mãe que eu não sabia. Aí minha mãe tinha mandado fazer uma palmatória bem grossona que era pra bater na gente. Aí minha mãe foi e deu pra ele a palmatória.

 

P/1 – Para o professor?

 

R – Sim, para o professor. Aí no outro dia ele fez a sabatina e foi me perguntar e eu também não sabia, foi aí que ele me bateu e a minha mão ficou muito inchada, depois disso eu fiquei com problemas nas mãos. Quando ele bateu eu puxei, a palmatória pegou de lado, no meio da minha mão. Aí a minha mão ficou muito inchada, eu cheguei em casa, fiquei com problema na mão, a minha mãe foi e tomou a palmatória dele. (risos) Minha mãe ficou com raiva e tomou a palmatória dele, mas...

 

P/1 – Ela autorizou de qualquer jeito?

 

R – Foi, ela autorizou de qualquer jeito, aí como fui eu a vítima, ela se chateou, foi lá e brigou com ele, disse que não era pra ele fazer isso.

 

P/1 – Ah, ela deu a palmatória porque ela também era professora?

 

R – Não. Ela tinha em casa uma palmatória pra bater mesmo na gente quando a gente fazia algo errado, entendeu? E foi assim.

 

P/1 – E como é que era a palmatória? Eu não conheço.

 

R – É assim, uma coisa redonda.

 

P/1 – De madeira?

 

R – De madeira, só que era aquela madeira bem grossa, sabe? Bem pesada e manda fazer um cabinho, um cabo sabe? Era mais ou menos assim.

 

P/1 – Redonda?

 

R – Era redonda. E ainda mandava fazer um buraquinho no meio que na hora de bater chupava assim a mão. Era horrível. Ela era muito rígida. O meu pai não, o meu pai era mais calmo, ele não batia na gente.

 

P/1 – E ela batia sempre de palmatória?

 

R – A minha mãe batia sempre de tapa, palmatória, tirava um cipó, o nome do cipó chamava cipó titica, aí ela botava no sol e quando a gente fazia qualquer coisa... Então aquele cipó era cheio de nódulos assim, sabe? E era fazer coisa errada e lá vem o cipó. Então minha criação foi um pouco rígida também. Aí minha mãe falava: “Eu não vou passar a mão em vocês porque o meu pai nunca passou a mão em mim”. E a minha mãe, ela tinha muitas cicatrizes do meu avô, que deixava nela cortes, até hoje tem muitas cicatrizes. Aí acho que ela...

 

P/1 – Achava que tinha que ser por ali também?

 

R – Achava que tinha que ser por ali também. O meu pai já não, ele já não... Quando ela amarrava assim a gente pra bater, meu pai chegava lá e desamarrava. (risos)

 

P/1 – Ela amarrava e batia?

 

R – Amarrava a gente pra bater.

 

P/1 – Amarrava aonde?

 

R – Assim, em árvore e pé das coisas, sabe? Engasgava a gente quando ia bater, aí meu pai, sempre que batia... Aí quando acontecia isso que meu pai tirava a gente, aí o conflito ficava entre eles dois e ela ia tentar descontar nele. E a minha mãe sempre tinha esse defeito, quando ela batia na gente, ela ficava de mal.

 

P/1 – Com vocês?

 

R – Com a gente, era. Se a gente não procurasse falar com ela aí que ela ficava de mal mesmo. Dias e dias assim. Papai mandava a gente ir lá, pedir desculpas. Às vezes a gente apanhava até mesmo por nada, mas o papai mandava a gente ir, pedir desculpas, conversar com ela, aí não conversava e ao mesmo tempo que ela ficava de mal com a gente ela ficava de mal com ele.

 

P/1 – Porque ele defendia vocês?

 

R – Porque ele defendia, é.

 

P/1 – Batia em vocês e ainda ficava de mal com ele mesmo que ele não fizesse nada?

 

R – Mesmo que ele não fizesse nada. Às vezes, quando ele estava chegando assim da pesca e que a gente estava todo mundo corrido, morria de medo, não é? Aí ele: “Que foi que aconteceu?”; “A mamãe quer bater”; “Embora pra casa, embora pra casa”. A gente ia todo mundo se segurando nele, aí quando chegava lá o pau comia.

 

P/1 – Todo mundo?

 

R – Todo mundo.

 

P/1 – Quer dizer, ela era difícil mesmo?

 

R – Ela era muito difícil. Agora que ela mudou um pouquinho, sabe? Está melhor devido às minhas irmãs, no momento que a gente está vivendo, o século, vem conversando com ela pra que ela mude, que não é assim e até hoje ela já escuta mais a opinião das minhas irmãs, sabe? Ela já fica mais calma, mas até na minha época não. Hoje eu falo assim: “É mãe, hoje as meninas fazem o que bem entendem e a senhora não faz nada, comigo era só no cinto mesmo e não tinha conversa”, quando eu fiquei grávida.

 

P/1 – Ainda que ela mudou ______.

 

R – É. Eu acho bom, porque tenho uma irmã que ainda é adolescente e eu sempre converso muito com ela: “Olhe mãe, não é assim, cuidado”. Porque com relação a sexo nós nunca falávamos, nunca, jamais. Sobre menstruação também nunca falávamos. Falávamos para o pai, pelo menos eu. Quando eu menstruei a primeira vez eu falei: “Olha pai, eu acho que eu menstruei, porque eu ouvi minhas colegas falarem”. Cheguei pra ele e falei e foi aí que ele falou pra ela: “Olha, tenho mais uma filha mocinha em casa”. Foi bem assim.

 

P/1 – E você se lembra de doenças e remédios que sua mãe fazia ou dava pra vocês?

 

R – Olha, minha mãe... Lá em São Miguel mesmo, onde ela nasceu, ela sofreu sete anos de hemorragia. Quando chegava no período dela menstruar, ela ficava com hemorragia, intensa mesmo e o povo lá – eu não sei se é verdade porque eu ainda era muito criança e como eu vi ele falando que não deixava a gente saber sobre menstruação – falava assim, que ela botava umas coisas muito feias, uma coisa parecida com um peixe, depois já outra coisa parecida com camarão, era coisa assim que até hoje eu acho esquisito, que eu procuro explicação às vezes e não acho porque a minha mãe ficou assim.

 

P/1 – Deve ser um tipo de mioma, sabe? Uma espécie de inflamação assim, dá uns caroços e solta aquilo porque se ela não está ______ nada ______.

 

R – Aí a última minha irmã, a última irmã que ela teve, ela teve essa hemorragia e ficou um pouco assim paralítica. Só que ela curou, sabe? Ela veio pra Maracanã, fez um tratamento, aí curou. Hoje em dia ela está bem.

 

P/1 – Isso da época que vocês eram crianças que ela teve essas hemorragias?

 

R – Teve hemorragias.

 

P/1 – E não curava?

 

R – Não curava.

 

P/1 – Não fazia tratamento?

 

R – Fazia chás em casa. Ia em macumba que já era macumba. O pessoal vinha trabalhar em casa, os macumbeiros iam fazer aquele...

 

P/1 – Simpatias.

 

R – Em casa, era muito assim, trabalhava muito assim, os remédios.

 

P/1 – Sem médico?

 

R – Era sem médico; no interior ainda é muito assim, porque ultimamente quando eu fui lá que o meu avô estava pra falecer, tinha esse negócio de macumba, essas coisas tudinho. Ainda não mudou, ainda é o mesmo jeito e era remédio.

 

P/1 – E tinha muita doença? Como é que era? Todo mundo era vacinado?

 

R – Não tinha isso. Era difícil quando ia de Maracanã uma equipe lá para o interior pra vacinar. Quando iam as mães iam para o interior ou então iam pra roça, levavam os meninos porque ficavam com medo de dar a vacina. Que eu lembre eu acho que eu fiz só o BCG [vacina Bacillus Calmette-Guérin contra tuberculose].

 

P/1 – E falei de doença, tinha muita doença?

 

R – Olhe, muita diarreia.

 

P/1 – Muita diarreia.

 

R – A antepenúltima irmã minha era uma criança muito doente e bem pequenininha, sabe, eu acho que ela com nove meses estava pesando dois quilos e meio, por aí. Ela era muito, muito desnutrida mesmo e a minha mãe cuidou só com remédio caseiro, muito remédio caseiro, nunca levou em médico; no dia do batizado dela minha mãe ficou com vergonha de levar pra batizar na Igreja, aí o padre foi até lá. Era, o meu pai levou... O padre foi até a casa da gente e batizou ela em casa, porque minha mãe estava com vergonha de sair com ela por ela ser muito desnutrida.

 

P/1 – E ela se recuperou?

 

R – Se recuperou e é a maior de todas.

 

P/1 – Houve algum caso de falecimento?

 

R – Não, nunca houve. Não! Houve! Duas irmãs minhas morreram de sarampo. Isso que a minha mãe fala, que eu tenho duas irmãs mortas por sarampo.

 

P/1 – E vocês tiveram essas doenças todas: sarampo, coqueluche, essas coisas todas?

 

R – É, coqueluche tivemos.

 

P/1 – Catapora?

 

R – Catapora, tudo isso nós tivemos.

 

P/1 – Bom, vamos dar um saltinho. Você já tinha se formado, você estava me contando, aí você já estava em Maracanã. Você foi pra lá, estudou, fez o primeiro grau e o segundo grau?

 

R – O segundo grau eu fiz aqui em Ananindeua.

 

P/1 – Por que você mudou pra Ananindeua? Você veio com a sua família?

 

R – Não, eu vim porque eu precisava trabalhar.

 

P/1 – Você já estava trabalhando lá em ______?

 

R – Eu trabalhava.

 

P/1 – De que é que você trabalhava?

 

R – Eu trabalhava primeiro em casa de família.

 

P/1 – Doméstica?

 

R – Doméstica.

 

P/1 – Fazia limpeza, cuidava de criança?

 

R – Limpeza, cuidava de criança, lavava roupa. Depois eu trabalhei como lavadeira porque eu lavava, né, a casa da minha mãe, sabe?

 

P/1 – Você levava a roupa, você lavava e devolvia?

 

R – E devolvia.

 

P/1 – Passava também?

 

R – Passava. Lavava e passava, tudo direitinho e devolvia. Depois eu trabalhei numa lanchonete.

 

P/1 – Balconista?

 

R – Balconista. Depois eu saí.

 

P/1 – Lá em Maracanã?

 

R – Lá em Maracanã. Depois eu fui trabalhar em uma churrascaria.

 

P/1 – Fazendo o quê?

 

R – Eu limpava também; quando a cozinheira não ia eu fazia a comida e fazia tudo, lavava, passava, cozinhava, numa churrascaria.

 

P/1 – E esses trabalhos que você fazia, como é que você se sentia fazendo? Era uma coisa difícil, você achava horrível ou não, tudo bem, “vou ter outro objetivo na vida”, como é que era?

 

R – É, eu trabalhava assim porque eu precisava, de primeiro eu precisava ter que trabalhar porque a gente estava passando dificuldade, meu pai estava passando dificuldade. Todos trabalhavam, aí foi assim. A minha mãe também só vivia doente, de vez em quando dor de cabeça, gripava, aí ficava com asma, porque a minha mãe tem problema de asma também e aí eu comecei a ter produção independente, foi aí que eu tive que me virar mesmo.

 

P/1 – Lá em Maracanã?

 

R – Lá em Maracanã.

 

P/1 – Então conta esse caso pra gente, você teve um namorado, se apaixonou por ele?

 

R – Foi, eu tive, foi engraçado. (risos) Eu trabalhava na lanchonete, aí eu conheci esse rapaz, pai da minha filha, da minha primeira filha.

 

P/1 – Como ele chamava?

 

R – Valdenor. Ele me procurava demais, vinha atrás de mim e falava pra minha mãe que ele queria namorar comigo, falava para o meu irmão. Eu estudava nessa época também. Eu falava pra minha mãe que eu não queria, para o meu irmão que eu não queria namorar com ele, porque eu não gostava dele. Aí ela falava pra mim: “É porque ela só quer namorar com vagabundo”. Era assim que ela falava: “Porque ela só quer namorar com vagabundo”.

 

P/1 – Ela achava o moço legal?

 

R – Ela achava o moço legal. Quando foi um dia eu estava na frente de casa, ele estava... Tinha um campinho na frente da minha casa e ele estava jogando bola lá. Aí ela começou a brigar comigo, dizer que eu não queria namorar com ele e ele era um rapazinho direitinho, ele trabalhava, meu irmão também. Eu disse: “Tá. Tudo bem”. Quando foi um dia que ele passou pra trabalhar – ele trabalhava perto de casa – ele me chamou, isso ele já tinha mandado uma carta pra mim pela irmã dele que estudava comigo. Eu li, tudo bem, falei: “Olha, não quero não, acho teu irmão muito devagar”. Falei assim.

 

P/1 – Você não achava ele bonito? Como é que era?

 

R – Sabe aquela pessoa que não tem um “tcham”, entendeu? Quando foi nesse dia que ela ficou me (brigando?), eu falei: “Sabe que é verdade!”. Ela disse: “É, porque ele já disse que vai falar com o teu pai se quiser namorar com ele, é melhor do que você ficar namorando aí na rua pelos cantos”. Falei: “É mãe, já que ele está com essa intenção, quem sabe não dá certo, não é?”.

 

P/1 – Você era namoradora mesmo ou não?

 

R – Era super danadinha. (risos) Aí eu chamei, a gente começou a conversar, eu falei: “Olha, tudo bem aquela carta que tu mandou pra mim, gostei, viu? Obrigada! E se quiser namorar comigo tá aí”. No mesmo dia ele pediu para o meu pai, a gente ficou namorando de porta, namoramos cinco anos de porta.

 

P/1 – Cinco anos?

 

R – Quando eu percebi eu já estava super envolvida com ele.

 

P/1 – Cinco anos, não é?

 

R – Quando eu dei conta eu já estava muito envolvida com ele.

 

P/1 – Quase um casamento. Tem casamento hoje em dia que não dura tudo isso.

 

R – Muito envolvida mesmo, aí foi quando houve o momento que a gente transou; ele quis me deixar, eu não queria, aí ele propôs que não me deixava só se a gente...

 

P/1 – Ah, ele não queria mais casar?

 

R – Não queria mais casar.

 

P/1 – Depois de cinco anos enrolando?

 

R – Depois de cinco anos enrolando. Foi aí que eu engravidei da menina. Aí falando que ia ficar comigo, o pai dele me chamou, o meu pai me deu uma surra, foi muito difícil, apanhei muito do meu pai, foi aí que meu pai me bateu mesmo, pra valer, porque ele já tinha me dado a liberdade de namorar em casa e eu abusei e não deu certo mesmo. A gente... Ele era assim: ele dizia que me amava, mas passava quinze dias sem ir na minha casa, quando ele ia era pra me usar, sabe? Aí sumia de novo quinze dias, ficava lá com quem bem entendia e depois voltava dizendo que me amava só pra me usar de novo, depois sumia de novo. Quando foi um dia falei: “Ah, mãe, não dá mais certo não. Eu gosto muito dele, eu vou sofrer muito, mas não dá mais certo, eu não quero mais viver assim”.

 

P/1 – Aí você já tinha a criança?

 

R – Eu já tinha a menina. Daí a minha mãe começou a sofrer junto comigo, porque eu sofria muito por causa dele, muito mesmo. Também não era menina de estar em festa, de estar em qualquer lugar. Eu saia do meu trabalho... Eu era em casa como se fosse uma mocinha ainda.

 

P/1 – Você tinha vinte e quantos anos? Menos?

 

R – Eu tinha dezesseis anos.

 

P/1 – Dezesseis anos? Nossa! Bem novinha.

 

R – Bem novinha. Meu pai não deixava eu sair pra festa porque eu tinha que trabalhar e vir pra casa cuidar da menina. Papai falava que se eu quisesse ficar em festa, ficar namorando, eu não tinha arranjado filho. Aí eu tinha que vir pra casa. Era uma responsabilidade de pessoas adultas mesmo. Aí o que aconteceu? Não dava mais pra ficar lá, se não eu ia engravidar outra vez porque ele só ia em casa quando ele queria me usar e eu não tomava nenhum remédio, porque também não tinha a mente aberta. Aí eu vim embora pra cá, pra Ananindeua. Cheguei aqui.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tenho 28.

 

P/1 – Você tem hoje?

 

R – É.

 

P/1 – Não, naquela época que você veio.

 

R – Na época que eu vim acho que eu tinha uns 24.

 

P/1 – Isso durou bastante. Ficou dos dezesseis até os 24 nesse rolo.

 

R – Nesse rolo, você viu só. Chorava, aquelas coisas, me machucou muito, machucou mesmo, e aí foi quando eu vim embora.

 

P/1 – Aí você decidiu vir pra Ananindeua por quê? O que é que tinha em Ananindeua?

 

R – Não, foi assim: depois disso eu vim morar com uma família aqui em Belém...

 

P/1 – Trabalhando?

 

R – É, trabalhando como doméstica. Quando eu cheguei na casa da senhora, ela era super legal, maravilhosa, mas o marido trabalhava quinze dias fora, quinze dias ele ficava em casa. Ela também trabalhava. Quando ele ficava em casa ele não me deixava tomar banho porque quando eu ia tomar banho ele ia entrar no banheiro comigo, sabe? Quando eu ia pra cozinha ele me agarrava, me encostava na parede, era horrível e não gosto nem de lembrar disso. Era horrível. Eu passei muitos momentos difíceis na minha vida e foi aí que ele queria ter um caso comigo, disse que me tirava da casa dele, que ele me dava uma casa pra morar; como eu achava a Socorro – a esposa dele – uma pessoa maravilhosa, eu disse: “Não, eu vou embora”. Aí foi o dia que eu chamei ela e falei: “Olha, Socorro, não vai dar mais pra ficar aqui porque o Douglas faz isso, isso, isso”. Ela falou: “Rita, mas quando que o Douglas vai te fazer isso? O Douglas tem eu”. Eu falei: “Mas ele faz Socorro, no momento que tu não está aqui em casa ele faz”. Ela falou: “Eu não acredito”. Eu falei: “Então, tudo bem, eu vou embora da tua casa”. Aí foi que eu voltei pra Maracanã, quando eu cheguei lá estava uma irmã minha que já morava aqui em Ananindeua. Ela disse: “Rita, então tu vai comigo que lá em Ananindeua tem uma fábrica que eles empregam muita mulher”. Falei: “Então tá, eu vou contigo”. Quando eu cheguei aqui a realidade da minha irmã era outra, sabe? A vida da minha irmã, vamos dizer assim, era um inferno.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque ela tinha cinco filhos, o marido dela batia muito nela, ela morava só num quarto, um quartinho bem pequenininho e passava muita fome.

 

P/1 – Quantos filhos ela tinha?

 

R – Ela tinha cinco filhos. Passava muita fome. Aí você já imaginou? Eu desempregada, ela também desempregada com um monte de filhos e o marido dela só vivia bebendo, sabe?

 

P/1 – Violento?

 

R – Violento, tinha outra mulher e só chegava em casa batendo nela. Aí eu vi o desespero. Eu não conhecia ninguém aqui em Ananindeua, conhecia umas amigas dela que ela me apresentou, aí eu pedi pra elas me arranjarem um serviço. Aí ela falou: “Rita, tudo bem, eu vou arranjar”. Aí arranjaram aqui, eu comecei a trabalhar na casa do senhor Daniel Reis, que é uma família muito citada aqui em Ananindeua, eu fazia limpeza na casa, sabe?

 

P/1 – Faxina?

 

R – Isso, fazia faxina. A senhora que era a minha patroa, a dona (Deja?), falava: “Rita, você tem que estudar, você não pode ficar parada, você vai ter que estudar, minha filha, pra você conseguir uma coisa melhor na vida”. Eu falei: “Não, tudo bem, eu estou sabendo”. Mas na casa dela eu só trabalhava de dia, a noite eu tinha que ir pra casa da minha irmã. Aí eu comecei a trabalhar e o que eu ganhava eu nem mandava pra minha mãe, nem pra minha filha, que minha filha tinha ficado com a minha mãe pra eu poder trabalhar.

 

P/1 – Desde a primeira vez que você veio?

 

R – Desde a primeira vez. Sempre ficou com a minha mãe. Aí tudo que eu ganhava eu levava pra minha irmã, nem comprava nada pra mim, roupas, essas coisas, não comprava porque nunca dava o dinheiro; eram cinco crianças, eu tinha que ajudar. Às vezes as crianças adoeciam e eu tinha que pedir dinheiro no meu trabalho pra levar pra ela. Depois eu saí. Foi aí que eu conheci um outro namorado e que eu decidi tentar de novo pra ver se dava certo, porque era muita batalha, sabe?

 

P/1 – Você se apaixonou de novo?

 

R – Aí eu me apaixonei... Não, não quer dizer que eu me apaixonei.

 

P/1 – Dessa vez não foi forte?

 

R – Não, dessa vez não foi paixão. Dessa vez foi tipo necessidade, você entende? Você não ter onde ficar, vamos dizer assim.

 

P/1 – Você queria se acertar com alguém?

 

R – É, mais ou menos assim. Aí foi que eu conheci esse rapaz.

 

P/1 – Chamava? Só o primeiro nome.

 

R – Carlos. Aí eu levei ele até a casa dessa senhora que eu trabalhava e começamos a nos entender. Ela gostava muito dele: “Olha, Rita, eu acho que dessa vez vai dar certo”. Eu ainda morava com a minha irmã e ele sempre falava: “Rita, eu quero ficar contigo”. Eu tinha medo, eu falava que não era o momento, eu ainda estava muito insegura. Aí continuei morando com a minha irmã. Quando foi uma noite, eu estava dormindo, ela me acordou: “Rita, Rita, acorda que eu vou embora”. Eu disse: “Tu vai embora pra onde, menina?”. Ela disse: “Eu não sei, vou dar um rumo na minha vida porque eu peguei o Nelson com outra mulher”. Isso era o quê? Duas horas da manhã. Aí eu disse: “Pra onde é que eu vou se eu não conheço ninguém aqui?”. Aí ela disse: “Dá teu jeito, vá pra casa do teu namorado”. Então, meu namorado, ele morava na minha rua, só que mais lá embaixo. Aí o que aconteceu? Peguei minhas coisinhas, como ______ quase nada e fui até lá. Quando eu cheguei lá, eu bati na porta, ele abriu, perguntou o que estava acontecendo, eu expliquei tudo pra ele, disse que eu estava apavorada porque o marido dela estava lá, ia voltar lá e ia bater nela. Ele me convidou: “Então vamos lá, vamos ver pra onde é que ela vai, o que ela vai fazer da vida dela”. Quando nós chegamos lá a casa estava toda fechada – o quarto –, não ouvia nenhum barulho e aí eu fiquei desesperada sem saber pra onde ela tinha ido e como é que eu ia ficar, onde é que eu ia ficar.

 

P/1 – E os filhos, ela levou?

 

R – Os filhos estavam todos dormindo. Aí ele disse: “Bom, Rita, já que não tem pra onde tu ir, onde tu ficar, tu fica em casa”. E eu tinha vergonha de pedir dinheiro pra eu voltar pra casa do meu pai, eu tinha vergonha, eu disse: “Bom, a única solução vai ser eu ficar aqui”. Aí eu perguntei: “Eu posso ficar aqui na tua casa até eu receber meu dinheiro pra eu ir embora?”. Ele falou: “Pode sim, por que não?”. Aí eu fiquei na casa dele, me tratava super bem, fiquei mais ou menos um mês com ele.

 

P/1 – Ele morava sozinho?

 

R – Não, ele morava com a mãe dele. Aí ele falou pra mãe dele que a partir daquele momento eu já era mulher dele: “Olhe mãe, a partir de hoje a Rita vai ser minha mulher”. E eu não queria ser mulher dele realmente. Aí foi que eu fiquei num sofrimento horrível porque eu tinha que ficar, eu era obrigada a ficar, porque eu não conhecia ninguém, porque não tinha pra onde eu ir, não tinha dinheiro. Aí eu fiquei lá e a gente foi, foi e até se acertou. E quando ele realmente me assumiu, ele não quis que eu trabalhasse mais em casa de família. Disse que não, que não era mais pra eu trabalhar. Foi aí que um ano depois que a gente se conheceu eu engravidei da minha menina agora.

 

P/1 – E vocês estavam morando juntos, já era uma situação de casal?

 

R – Isso, já era uma situação de casal. A mãe dele resolveu fazer uma casa pra gente, um quarto, pra gente pra sair da casa dela porque ficava uma situação chata. Aí ela pegou, fez um quarto, deu pra gente morar – ele também ajudou, fizeram um quarto. Daí a gente começou a comprar nossas coisinhas e a gente está até hoje, mas a minha infância foi uma coisa muito sofrida, que eu não desejo pra ninguém.

 

P/1 – Você não está oficialmente casada?

 

R – Não, não estou oficialmente casada.

 

P/1 – Extraoficialmente você está?

 

R – É, é o mesmo, não é?

 

P/1 – Bom, como você chega até o PACS [Programa de Agentes Comunitários de Saúde] nesse período que você estava desempregada? O Carlos não queria que você trabalhasse mais.

 

R – Em casa de família, porque eu relatei todas as situações que eu passei.

 

P/1 – Não foi uma vez só?

 

R – Não, foram várias vezes. Quando eu trabalhava na lanchonete lá em Maracanã, eu saí de lá porque o senhor que estava na lanchonete sempre procurava, eu também saí da churrascaria por causa disso, porque os donos da churrascaria... Era uma coisa assim, uma situação muito difícil. Aí foi que começou... Primeiro foi meu cunhado que começou a trabalhar no PACS. Eu perguntava pra ele: “Onde que tu está trabalhando, Augusto?”, aí ele falava pra mim: “Olha, Rita, eu sou agente... Primeiro eu estou trabalhando na campanha da cólera”, porque foi aí que começou o programa. Aí eu falava assim: “Ai, meu Deus, mas eu não consigo, eu quero trabalhar”, sabe, porque eu já tinha minha filha pra lá, eu tinha que também dar alguma coisa. Eu falava pra ele: “Carlos, não dá, eu tenho que trabalhar, eu tenho que fazer qualquer coisa”. Ele falava: “Olha, você trabalha se você quiser, se você não quiser você não trabalha, mas detalhe: em casa de família você não trabalha, vai estudar pra que tu consiga outro emprego, mas em casa de família nunca mais”.

 

P/1 – O Carlos faz o quê?

 

R – Ele é da polícia.

 

P/1 – Ah, ele é policial?

 

R – É da polícia. Aí eu comecei a estudar, terminei o meu primeiro grau. Fiquei em casa um tempo, fiquei sete anos em casa. Depois que eu terminei o primeiro grau eu fiquei sete anos em casa. Eu queria arranjar um emprego e não dava pra arranjar. Eu falei: “Sabe o que eu vou fazer? Vou voltar a estudar de novo”. Aí a minha cunhada, auxiliar de enfermagem e trabalha aqui na unidade de Ananindeua, e a minha sogra, que trabalhava em Mosqueiro pela Sesma [Secretaria Municipal de Saúde], falavam: “Rita, você tem que arranjar algum emprego, porque a gente não pode ficar só em casa cuidando de marido, depois tu vai tendo filho e tal, tu já tem uma filha muito sofrida, tem que ter um emprego pra ti. Em casa de família não mais, mas tem que ter uma profissão”. Foi na época que eu conheci duas enfermeiras, a assistente social da unidade de saúde de aqui de Ananindeua e conheci uma enfermeira. Eu disse, conversando com a assistente social: “Eu preciso de um emprego”. Ela falou: “Assim que houver uma vaga no PACS eu te aviso”. Falei: “Tá bom”. Sempre tinha esses treinamentos, aí sem compromisso nenhum com o PACS eu ia e participava. Eu mesma me custeava, sabe? Pagava as minhas passagens; onde tinha, pra lá eu ia. Então quando houve uma desistência, como eu sempre participei desses treinamentos, a assistente social falou pra mim: “Olha Rita, então eu acho que agora chegou a tua vez, você vai substituir o Maurício”. O Maurício era um agente e ele desistiu porque ele conseguiu outro emprego que até agora ele está nesse emprego. Eu falei: “É mesmo?”. Ela disse: “É, mas pra isso você vai ter que estudar, para que você não fique só com o PACS, você vai ter que estudar pra ter um futuro melhor”; “Tudo bem”. Foi aí que eu entrei para o PACS e eu não tinha amigos como eu tenho agora, que às vezes quando eu estou com um problema, eu vou pra minha área, eu desabafo assim, sabe, que às vezes você vai com uma pessoa, entendeu? Aí eu chego lá e desabafo mesmo, eu acho maravilhoso e lá não, na família do meu atual marido sempre foi assim: se você fala uma coisa acham que você está falando mal, entendeu? E eu nunca me senti segura, a não ser ele, que às vezes a gente conversa e tal, fica ali mesmo, eu já não ______ minha sogra, minha cunhada, o meu sogro, meus cunhados e eu achei muito importante, eu achei que eu ia ter outra coisa lá fora, que eu precisava ajudar alguém como eu sempre precisei que alguém me ajudasse e nunca recebi uma mão amiga, então eu acho que alguém precisava de mim, que eu precisava fazer alguma coisa pra me ajudar e ajudar alguém, no caso da minha irmã, como ela passava muita fome, no meu caso também, que fiquei quase que na rua, sem ter pra onde ir e sem ter alguém pra me ajudar, pra me orientar, pra dizer o que é que eu fazia, o que é que eu deixava de fazer, então foi aí que eu entrei no PACS e estou até hoje.

 

P/1 – Em 1994 que isso aconteceu, não é?

 

R – É.

 

P/1 – Então o PACS já existia antes de você entrar?

 

R – Já existia antes de eu entrar.

 

P/1 – Há muito tempo? Você sabe?

 

R – Eu acho que lá por... Porque o pessoal tem em 1990 e foi em 1992 parece.

 

P/1 – Então quando você chegou você não teve que fazer cadastramento do pessoal porque já existia o cadastramento?

 

R – Não, não foi assim. Quando eu entrei já existia o cadastro destas pessoas, só que o rapaz que eu substituí falou pra mim que o cadastro deles tinha pego chuva, que não dava pra ele me dar os cadastros. Falei: “Não, tudo bem, eu faço de novo”. Aí, o que foi que aconteceu? Eu recadastrei todo mundo de novo, fiquei com 200 famílias. Quando eu estou já adaptada na comunidade, já me conheciam, já me dava super bem, que até hoje eles me cobram quando eles me encontram na rua, às vezes até recebo galanteios demais. (risos) E quando eu estava bem preparada já, aí foi substituída outra instrutora e o que aconteceu? Ela disse que eu não podia mais trabalhar naquela área porque já tinham dois agentes na mesma área, só que a área era muito grande. É um elo, então tem o elo um, o elo dois e o elo três. Tinha uma no elo um, eu ficava no elo dois e a minha colega ficava no elo três. Aí ela disse que não dava pra eu ficar mais lá, que eu tinha que sair de lá. Aí eu disse: “E agora, o que eu vou fazer? Pra onde que eu vou? Que área que eu vou?”, porque essa área ficava ali bem próxima a minha casa. Ela disse: “Não sei, te vira”. Aí eu fui na Vila Esperança e não dava, porque o agente tem que morar na área e a área ficava muito distante pra mim. Aí o que aconteceu? A minha sogra disse pra mim: “Rita, tem uma invasão atrás do açude Maguari, vá lá que é uma nova invasão”. Aí eu fui lá, é o quê? Uns quinze minutos de casa pra lá. Eu cheguei lá, achei uma área muito carente, porque estava uma invasão nova. Aí eu achei que ali realmente necessitava de um agente comunitário, já não era como o elo que ele está assim mais um pouco estruturado. E lá no Monte Sinai não e você pode perceber que a invasão ainda é bastante nova, que agora que estão começando algumas casas de alvenaria.

 

P/1 – A invasão tem quanto tempo?

 

R – Acho que deve ter uns dois anos.

 

P/1 – O que é uma invasão?

 

R – Uma invasão é assim: um lote de terra aonde as pessoas vão, invadem, cada um tira o seu, quanto quer, o que quer. Lá dentro tem um líder, que é o líder comunitário. O líder responde por tudo que está acontecendo dentro daquela área, só que na minha área não é bem assim que acontece, o líder fala que se ele for viver só daquilo ele vai morrer de fome, porque ele tem outras coisas pra fazer. E, realmente, na minha área nem centro comunitário tem. Eu acho muito carente, muito carente.

 

P/1 – Chama invasão Monte Sinai?

 

R – Monte Sinai.

 

P/1 – Por que esse nome? Você sabe?

 

R – Não, não sei qual a origem desse Monte Sinai aí. Antigamente era invasão da Cachoeira porque lá tinha uma cachoeira, aí de repente já mudaram esse nome pra Monte Sinai, agora eu não sei a origem desse nome, entendeu?

 

P/1 – E são quantas família lá?

 

R – Duzentas famílias.

 

P/1 – Duzentas famílias.

 

R – Tem mais famílias, só que a gente tem... As que eu atendo mesmo são 200.

 

P/1 – Que está na sua capacidade?

 

R – É. Só o que está na minha capacidade. Alguém, quando me procura, eu dou algumas orientações, mas não mais no meu cadastro, sabe? Não tenho total responsabilidade por aquela outra família que não está no meu cadastro.

 

P/1 – Como é que você foi recebida quando você chegou lá?

 

R – Foi muito difícil, porque eles falavam quando eu batia na porta: “Que é? É IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano]? Se for IPTU eu não vou pagar porque o prefeito não manda fazer nada aqui”. Aí outra porta: “Bom dia, minha senhora”; “O que é? É funerária? Não quero isso, isso é um roubo, não sei o que, não sei o que”. Eu tinha que explicar o que é eu era e era muito difícil porque a gente não tinha jaleco pra se identificar, não tinha crachá, não tinha nada, era só a cara e a coragem mesmo, entendeu? Aí você já imaginou eu chegar assim na casa de uma pessoa e preencher um monte de papel sem a pessoa ter certeza de que eu realmente era aquilo? Muito difícil, não é? Mas como era o meu trabalho, o que é que eu tinha que fazer? Ganhar certo tipo de amizade. E tinha algumas pessoas ali que já me conheciam através do meu marido, que ele morava pra lá. Quando viam a gente junto, perguntavam pra ele e ele explicava que eu era a esposa dele e quando eu chegava nas casas dessas pessoas, elas diziam: “Ah! Já sei, tu é esposa daquele menino, filho do seu João Grandão, que é o nome do pai dele, aquele senhor maravilhoso”. Aí pronto, eu já sentia que eu ficava mais aliviada quando alguém falava: “É, eu sou esposa dele mesmo”; “Qual o teu endereço?”. Eu dava o meu endereço direitinho, aí eu já sentia que naquela família eu já estava com um pouco de intimidade, pelo menos ali já me conheciam, não achavam que eu era coisa ruim.

 

P/1 – E o que você descobriu nessa comunidade quando você fez o registro, quando você fez o levantamento, o que é que havia, qual era a situação de saúde dessa comunidade?

 

R – Até hoje a situação de saúde é muito precária, bastante precária, principalmente na parte de saneamento básico, as pessoas sofrem muito ainda com isso, principalmente na minha área, eu tenho muito problema com isso porque é um braço de rio, então às vezes as pessoas fazem até mesmo aquele sanitário lá e quando chove, então, nem se fala.

 

P/1 – Como é que são esses sanitários?

 

R – Assim, num braço de rio, sabe?

 

P/1 – Fazem no próprio rio?

 

R – Fazem no próprio rio. Fazem uma casinha lá em cima e de lá mesmo as fezes saem por aquele braço de rio que vai cair lá no rio Maguari, entendeu? Então isso daí... O lixo também.

 

P/1 – Eles cavam uma entrada no rio, é isso?

 

R – É.

 

P/1 – Uma entrada de água do rio até o sanitário, não é isso?

 

R – Não. Vamos dizer que isso aqui é um braço de rio, eles fazem uma ponte e fazem o sanitário aqui em cima, você entendeu como é? É mais ou menos. Mais ou menos não, é assim. E o lixo também é uma questão que eu estou batendo todo dia na mesma coisa e o que é que eles dizem pra mim: “Rita, não tem condições de fazer buraco no meu quintal”, porque a área de invasão é muito pequena. Então já tem a situação do poço que é vinte metros de distância da fossa, não é? E como as áreas de invasão são muito pequenas não tem condições de se fazer.

 

P/1 – Qual o tamanho?

 

R – Quinze metros, sabe? Então como eu falo... O certo é ter vinte metros de distância do sanitário para o poço, mas como a invasão, os terrenos são pequenos, quinze metros está bom, não é? “Mas Rita, não tem condições”. Aí tem família que, por exemplo, o filho casa e dá uma parte do terreno, o outro filho casa, dá outra parte do terreno e aí fica aquela coisa muito pequeninha que não tem condições mesmo. Aí o que é que eles fazem? Eles pegam esse lixo daqui do quintal deles e jogam lá no braço do rio. Tudo, tudo é ali, tudo. Eu já nem pergunto mais da questão do lixo, porque se você chegar na minha área e perguntar: “Você enterra o lixo?”; “Não, eu jogo no braço do rio”, você vai questionar, eles falam: “Não, eu não vou cavar o buraco no quintal porque o meu quintal não dá pra cavar buraco”. Por quê? Porque é muito pequeno, sabe como é? É uma coisa de louco.

 

P/1 – E isso daí trás que consequências, as doenças?

 

R – Bom, eu acho que é com isso... Porque lá nesse braço de rio mesmo tem muitas crianças que tomam banho e aí o que é que vem causando lá? Muita diarreia; na minha área é horrível, as crianças vivem quase que constantemente com diarreia e a água do poço também, porque o poço tem que ser cavado bastante fundo para que dê uma camada da água que seja própria pra uso, e lá não, se você cavou um buraquinho assim rapidinho, sabe? E eles usam aquela água mesmo ali.

 

P/1 – Se você cavar pouco já sai água?

 

R – Já sai água. É assim lá e eles usam aquela água ali porque o vizinho não gosta que pegue lá no poço dele, porque ele não ajudou o vizinho a cavar, sabe? E todas essas polêmicas aí. E quando chove, a água que vem, que é de descida, a água que vem e as crianças ficam tudo dentro da água, sabe? E às vezes até descem mesmo para o braço de rio, lá. Tem até uma pontezinha e o pessoal desce pra lá, pescam lá; pescam camarão, essas coisas, peixe mesmo. Então eu acho que isso aí é um problema muito sério. Eu já tentei vir aqui na secretaria pra ver se eles põem aquele material que junta o lixo e não consegui. O pessoal até já pediu pra eu fazer um abaixo assinado; disse que não, que eles que tinham que fazer, que eu não. O líder comunitário que tem que fazer e vir aqui na secretaria resolver essa situação do lixo, não é?

 

P/1 – Rita, então o problema mais sério que tem lá é a diarreia?

 

R – É a diarreia.

 

P/1 – É constante?

 

R – É constante.

 

P/1 – E você já perdeu criança lá?

 

R – Já perdi uma criança.

 

P/1 – Como é que foi esse caso?

 

R – Foi que a criança estava com muita diarreia, muita diarreia mesmo.

 

P/1 – Quantos anos?

 

R – Ela tinha seis meses. Aí o que é que eu fiz? Eu tratava com soro, soro, soro, soro, aí quando eu vi que a diarreia era persistente falei com a família, porque a mãe era adolescente, era totalmente desligada, a criança só tomava o soro enquanto eu estava lá, eu tinha que fazer o soro, sabe? Eu orientava a mãe, a avó, mas ninguém dava importância, deixavam a mamadeira jogada; quando eu chegava, a mamadeira, o mingau da menina estava só mosca, fazia o mingau e colocava numa panela dentro de uma bacia com água, deixava lá o mingau e ia embora pra casa da vizinha. Quando eu vi que a diarreia era persistente, o que é que aconteceu? Eu levei ela pra unidade de Ananindeua. Chegamos lá, a enfermeira disse que a criança já estava desnutrida, aí tentaram um leito e conseguiram um leito pra ela aqui no [Hospital] Anita Gerosa. Trouxeram a menina, ela passou mais ou menos um mês internada. Foi um mês que ela ficou internada e a mãe era totalmente desligada, foi que o médico do Anita Gerosa chamou a família e disse que não queria mais a mãe no hospital, ele queria a avó, o tio, alguém mais responsável que ela. Aí foi que a avó de parte de pai da menina foi tomar conta da criança, mas não conseguiram salvar não, a criança veio a falecer. E quando eu ia visitá-la, que eu tinha que estar quase todo dia lá na casa dela, a criança estava com os lábios só formiga, a formiga ficava roendo, sabe, roendo assim, e eu falava: “Claudete, cuidado com essa criança”. Eu tinha que trocar a fralda da criança. Ela colocava a criança só numa esponja suja, que era o berço da criança, mas a esponja era muito suja. Eu levava água de casa já pronta pra eu não perder muito tempo, entendeu? Porque se eu fosse ferver a água e deixar esfriar lá na casa dela, eu já ia ficar muito tempo lá. Eu já levava a água... Fervia de noite em casa, de manhã eu já colocava numa vasilha e levava. Então essa criança só tomava soro quando eu chegava lá. Quando eu saía, finais de semana então, cansei de ir finais de semana lá pra cuidar da criança. Aí eu falava pra sogra dele: “Não pode, Claudete. Claudete, pelo amor de Deus, tem que cuidar dessa criança”. Às vezes criava um certo clima entre ela e o esposo, sabe? E eu achava chato porque ela poderia dizer assim: “Poxa, a Rita só vem aqui pra fazer com que eu brigue com o meu marido”. Não, mas às vezes eu tinha que expor pra ele a situação, não é verdade? Aí o que aconteceu? Quando a criança morreu, eles quase se separaram, porque ele achava que ela não queria cuidar do nenê porque ela não gostava do nenê e realmente, não é? Ela escondeu a gravidez de mim, sabe? Quando eu chegava lá eu perguntava: “Claudete, mas você está grávida?”. Porque os vizinhos, todo mundo um fala do outro, não é? Falavam: “Rita, a Claudete está grávida”. Aí eu cheguei: “Claudete, você está grávida?”; “Não, Rita, não estou grávida”. E já era o quê? O terceiro filho. “Claudete, você está grávida? Por que você está assim?”; “Não sei, mas eu não estou grávida, estou menstruando direitinho”; “Tá, tudo bem, não vou insistir. Não quer fazer pré-natal, tudo bem”. O que aconteceu? Eu vim: “Clara, dá pra você ir lá na minha área comigo? Porque tem uma gestante que não quer fazer pré-natal e os vizinhos dizem que ela está gestante, mas ela não quer fazer pré-natal e ela não diz pra mim que está grávida”. Acho que ela tinha vergonha, porque ela já tinha uma criança recente, então achava que era vergonha dizer que já estava grávida de novo. Aí o que aconteceu? Levei a Clara lá e a Clara falou: “Olha, Rita, ela não quer fazer o pré-natal, não insista”.

 

P/1 – Clara era sua supervisora?

 

R – Era minha supervisora. “Ela não quer fazer o pré-natal, não insista, porque cada pessoa tem a sua individualidade e a gente tem que respeitar isso”. Falei: “Então tudo bem”. Aí foi aí que ela ganhou o nenê, totalmente desligada. Parece que ela não aceitou aquela gravidez, entendeu? Ela não aceitava a gravidez. E foi aí que eu perdi uma criança. Para mim foi assim.

 

P/1 – Foi o caso mais grave que você teve?

 

R – Foi o caso mais grave que eu tive.

 

P/1 – Até hoje?

 

R – Não, eu também já tive um caso de uma doença que ela dá assim na gente e a gente acaba perdendo o...

 

P/1 – Lepra?

 

R – Não, não é lepra, é outra doença que a senhora foi operada, ela amputou a perna.

 

P/1 – Gangrena?

 

R – Foi isso. Foi assim: eu estava andando na área e encontrei uma senhora desesperada, sabe? Ela não fazia parte da minha área, mais pra cima. Aí eu disse: “O que aconteceu? Por que a senhora está tão apavorada, angustiada?”. Ela falou: “Rita, porque a minha vizinha está com uma bolha muito feia no pé”. Eu disse: “No pé?”. Ela disse: “Sim”; “A senhora pode me levar lá?”; “Eu posso ______ lá que a gente está andando atrás de carro”. Aí nós fomos lá. Quando eu cheguei, a senhora estava com uma bolha realmente, de uma cor escura, uma coisa muito feia no pé. Aí eu disse: “Olha, eu não posso me virar em carro porque o centro de saúde está muito distante daqui. A gente pega ônibus”. E nesse dia não tinha nada, não tinha um tostão. “Então a senhora vai lá, se sente ______, pega um taxi e eu só quero que a senhora me leve até a unidade com ela”. Aí foi que aconteceu, ela me trouxe até a unidade. Quando nós chegamos, a médica disse que ela estava com suspeita, então ela ia arranjar um leito pra ela, arranjar um hospital pra ela ir. Aí tá, eu fiquei de meio dia que eu cheguei na unidade até quatro horas da tarde, a gente tentando conseguir um leito pra ela. Conseguimos, ela amputou a perna já.

 

P/1 – Era gangrena?

 

R – Era gangrena. Aí voltou pra casa. Quando chegou em casa, foi a outra perna, aí me procuraram de novo.

 

P/1 – Como assim? A outra perna também ficou doente?

 

R – A outra perna também ficou doente. Aí me procuraram de novo; viemos de novo, conseguimos o leito, levamos ela. Ela amputou a outra perna. Foi aí que com quinze dias de recuperação que ela estava, mais ou menos, ela veio a falecer, porque a médica disse que já tinha passado bastante tempo, que a família não ligou.

 

P/1 – E você não sabe dizer... Porque isso deve ter outro nome, essa doença?

 

R – A segunda filha dela falou que foi de uma ferrada de formiga que ela teve. Começou a coçar, coçar. Ela já era uma senhora de bastante idade.

 

P/1 – Quantos anos?

 

R – Ela tinha 64 anos. Mas no momento que eu cheguei, sabe, ela ficou... No momento que eu consegui ela ficou muito alegre, muito satisfeita. Hoje eu não faço pra lá, a casa deles, mas onde eles me encontram eles ficam muito felizes por eu tentar ajudar, mas infelizmente a gente não conseguiu. Até fiquei muito triste, eu fui para o enterro, sofri bastante. A Clara diz que não: “Olha Rita, não é assim, eu sei que é difícil pra ti porque está lidando com a pessoa, mas a gente tem que... Isso vai mudar gradativamente, tu vai ver que tu vai mudar. Quando chegar outro caso tu já está mais preparada”. E é verdade, quando chegou... Agora chega certos casos, mulher que perde bebê, como já aconteceu na minha área, aquela pessoa que está desesperada, já tenho outra maneira de lidar.

 

P/1 – O que foi que melhorou na sua área que você acha que foi positivo com o trabalho de agente?

 

R – Olha, o que é positivo na minha área é questão de vacina, que as mães eram muito displicentes, apesar de ter uma unidade perto da minha área, elas eram muito assim. Elas não queriam saber a importância da vacina. Hoje não, hoje eu já cobro muito, com relação ao peso das crianças também, porque graças a Deus que veio a balança, porque era uma polêmica entre unidade e agente de saúde porque as crianças eram pesadas quando nasciam e depois iam ser pesadas com seis meses e eles pediam o peso e a gente ficava nessa polêmica todinha, não é? Como é que a gente ia fazer o peso? Aí se não tivesse pesado tinha que encaminhar pra unidade. Nós encaminhávamos, chegava lá não era aceito nossos encaminhamentos, sabe? Quando era pra cobrar o peso eles sabiam cobrar. Aí foi quando chegou a balança, que eu acho que agora todo mundo já descansou porque todos os meses a gente vai, pesa, sabe? E é uma maneira assim de eu dizer: “Olha, como é que está a alimentação do seu filho? A alimentação do seu filho não está correta porque ele não está aumentando de peso”. Às vezes.

 

P/1 – Havia muita desnutrição?

 

R – Havia muita desnutrição.

 

P/1 – E agora tem?

 

R – Agora tem. Da minha faixa de zero a um ano eu tenho dois desnutridos e de onze meses a 23 meses eu tenho uma só desnutrida.

 

P/1 – Quer dizer, então diminuiu?

 

R – Diminuiu bastante, mas é porque a gente tem esse controle agora. Não era como antigamente que ficava só pela unidade e a unidade às vezes fazia pouco caso e tinha criança que nem tinha o peso mesmo. Só colocava no controle dele, só no controle dele, da criança... Então eu peço muito, quando a mãe vai na unidade, que ela peça o peso do seu filho pra eu ter uma base do peso da unidade, pra ver.

 

P/1 – Eles não pesavam lá?

 

R – Eles não pesavam, eles não pesavam de jeito nenhum. Aí consideram atraso, dois meses, mas na minha área era assim: criança pesava com dois meses logo que ia se identificar no posto e passava seis meses você volta, aí que ele vai ser pesado. Naquele intervalo a gente perdia a noção, porque como era que eu ia pesar essa criança se eu não tinha uma balança, se eu não tinha nada pra fazer? Aí o que é que eu fazia? Quando eu pegava o cartão da criança: “Olha, está o peso atrasado”. Aí eu escrevia, mandava o meu encaminhamento, chegava lá: “Olha, não está atrasado, é porque o aprazamento deles só é daqui com seis meses”. Era uma coisa assim, eu tinha muito problema.

 

P/1 – O que é aprazamento?

 

R – Era a volta dele.

 

P/1 – A volta?

 

R – Era. A volta com a enfermagem era só com seis meses. Aí a gente ficava louca. Nós chegamos muitas vezes a questionar o pessoal da unidade, sabe? E até hoje a gente não... Os agentes comunitários não se dão muito bem com o pessoal da unidade porque a gente cobra muito. No caso da gestante, o peso da gestante, como é que a gente vai saber se ela estava desnutrida se o peso não vem no cartão, se é feito lá pela unidade?

 

P/1 – ______ que vocês não trabalham pra eles, não é?

 

R – É. Aí eles ficam possessos, porque a maioria não sabe fazer e eles ficam chateados porque a gente cobra demais. Questão de vacina, quando a dose é aplicada errada, a gente vai lá e reclama, sabe? Fala pra mãe: “Olha, as doses são essas, assim, assim, fique de olho pra não ser aplicado errado”. Sabe? É uma coisa incrível.

 

P/1 – Bom, Rita, pra gente terminar eu queria que você dissesse o que mudou na sua vida pessoal o trabalho de agente comunitário.

 

R – Bom, na minha, como agente comunitário, mudou que eu me reconheci mais como pessoa. Eu me senti melhor porque quando eu era empregada doméstica eu ficava imaginando que eu não era nada, você entendeu? Que eu não era nada, por exemplo, se chegasse uma pessoa formada perto de mim eu já me sentia mal. Eu já me sentia muito mal, eu achava que eu não tinha palavras para aquela pessoa. Eu achava que eu estava fora da realidade, que eu tinha que ficar ali no meu lugar. E hoje não, hoje é totalmente diferente, eu chego, eu converso, sabe? Às vezes as pessoas falam pra mim assim mesmo: “Ah Rita, eu gosto de conversar contigo porque tu entende de um monte de coisa”. Eu digo: “Não entendo, você também entende, só resta você ler e aprender alguma coisinha. Eu não sei nada. Nós dois vamos aprender juntos, você me passa a sua experiência e eu passo a minha pra você”. Eu me senti mais humana em poder dividir, sabe, até o meu carinho por aquela pessoa. Geralmente quando eu chego na área, como a gente encontra, não é: “Poxa, Rita” – problema de família – “Poxa, Rita, está acontecendo isso”, e a gente tenta conversar, às vezes até mesmo me envolvo no problema da pessoa, a pessoa às vezes se envolve no meu e é uma coisa muito gratificante, ganhei muita experiência, porque eu também não tinha experiência e eu sempre falo na minha área que eu gosto muito de conversar com pessoas idosas, porque elas têm mais experiência pra te dar, eu gosto muito de conversar com essas pessoas e também nunca deixando de lado aquelas pessoas que não tem experiência, porque eu gosto também de passar aquilo que eu já vivi, como foi difícil, que hoje eu falo assim: “Hoje eu estou trabalhando aqui como vocês estão vendo, estou trabalhando com vocês, mas não foi tão fácil pra eu chegar aqui também”. Então, eu acho que pra você estudar você tem que lutar por algum objetivo na vida, não ser só doméstica, só doméstica, só cuidar de filho, só cuidar de filho, só cuidar de marido, porque tem mulher lá que se bate com marido, porque tem que ficar só dentro de casa, o marido acha que ela tem que ficar só ali, que ela não pode fazer outra atividade. Eu sempre procuro conversar: “Não, olha, não é assim, não é bem assim”. Sei lá, eu já me reconheci, eu sou totalmente diferente daquela que eu era antes. De vez em quando, às vezes, até no passado eu me sentia muito assim ainda, sabe? Quando chegava alguém formado perto de mim eu ficava ______. Eu me sentia muito mal, sabe quando você sente que você não pode dialogar com aquela pessoa? Que você não tem papo, que você não tem conversa? Principalmente quando chegava alguém e falava difícil perto de mim, aí eu ficava louca da vida. E na minha área eu sempre procuro conversar coisas da realidade deles, não procurando falar difícil, sempre falo a mesma linguagem deles, respeito muito a crença deles também, porque tem muita gente que chega e fala pra mim: “Ah, eu não preciso de médico porque Jesus cura”. Tudo bem, a gente não vai discutir aí, sabe? Sempre procuro dar alguma coisinha. Já procurei também até mais consultar a bíblia, porque antigamente não era assim, sabe? Eu era totalmente relaxada, agora não, eu já procuro mais, para que eu possa também passar alguma mensagem na minha área. É maravilhoso, é simplesmente maravilhoso!

 

P/1 – Tá bom Rita, então muito obrigado por você ter gastado o seu tempo e a gente termina por aqui.

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