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História

Conquistando a vida em verso e prosa

História de: Odila Placência Lhamas Morales
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/09/2018

Sinopse

Odila Placência Lhamas Morales nasceu no dia 17 de novembro de 1936, na cidade de São Manuel. Em sua entrevista ao Museu da Pessoa, traz uma história riquíssima, contando sobre como seus pais se conheceram, a vida na roça, sua mudança para São Paulo e a batalha de sua mãe para criar os quatro filhos, enquanto o marido trabalhava longe. Fala também sobre as suas lutas em busca de bons estudos e a necessidade de trabalhar, a sua inserção no Partido Comunista Brasileiro, onde seu pai militava durante a ditadura militar. Dona Odila é também uma escritora com diversos livros publicados como "Vence o amor", "Sublime caminhada", "Barueri em Poemas" e outros. Recebeu também premiações e participações em concursos literários.

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História completa

P/1 - Bom dia, dona Odila.


R - Bom dia.

P/1 – Pra começar a nossa entrevista eu gostaria que a senhora... (falha).

R- Ele é falecido, o nome dele é Estevan Placência Aranda, a minha mãe também é falecida Maria Ortega Jamas Placência.

P/1 – E eles são de onde?

R – Meu pai era da Espanha, e minha mãe é da cidade de São Manoel, cidade de São Paulo.

 

P/2 - Que região da Espanha que era o seu pai?

 

R – Meu pai ele era da, eu não conheço a Espanha, mas ele dizia que o bairro que chamava era Cuevas Bajas na cidade de Málaga.

 

P/2 – Por quê que ele veio pro Brasil?

 

R – Ele veio como imigrante, né, no início do século com os pais dele, pra tentar uma vida melhor na América, né, porque o pessoal europeu vinha muito naquele tempo, tinha muito imigrantes e ele foi um deles.

 

P/1 – Ele veio com irmãos também, pai e mãe?

 

R – De início ele dizia que ele veio com um avô, depois veio o pai dele, a mãe e os irmãos, né? Que infelizmente em 1917 teve aquela febre muito forte, a febre amarela, que eles falavam que faleceu quase todo mundo da família do meu pai, inclusive o meu avô, pai dele, né. E ficou ele, a minha vó e mais três irmãos, e a família era bem grande, mas morreram todos com aquela febre que teve, febre espanhola, febre espanhola em 1917 mais ou menos.

 

P/2 – Então ele teria vindo primeiramente com o avô?

R – Avô ele diz que ele lembrava, porque ele era menino e ele lembrava que no navio ele tava com o avô, depois é que o pai dele veio.


P/2 – E aí foram direto pra...

R – Morar em São Manoel.

 

P/2 – São Manoel. Qual era a atividade?

R – Café mesmo, nas lavouras de café eles vieram pra esse fim.

 

P/2 – E a senhora sabe como seu pai conheceu a sua mãe?

 

R – Ah, meu pai ele era um trabalhador, né? E o meu vô já morava há mais tempo no Brasil, ele tinha uma vida mais, melhor, né, que o meu pai. Então meu pai era um dos trabalhadores do meu avô e se apaixonou pela minha mãe, né, e foi aí que nasceu o romance deles, que é esse livro aqui “Vence o amor” que eu to contando muito sobre o amor deles.

 

P/2 – Ah então tem toda a história do encontro dos dois?

 

R- Tem, exato.

 

P/2 – E o seu avô, pai da sua mãe era dono de terra, alguma coisa?

 

R – É, ele já está estabelecido, eu não posso dizer se ele tinha sítio ou fazenda, isso daí eu não fiquei sabendo, mas ele já estava estabelecido, estava numa situação melhor, inclusive também como ferroviário, da antiga estrada de ferro Sorocabana, e o meu pai era um dos trabalhadores que trabalhava junto com o meu avô, que o meu avô estava lá na estrada, né, tomando conta e aí e o meu pai era um dos trabalhadores dele, do meu avô.

 

P/2 – Dona Odila, a senhora tem irmãos?

 

R – Eu tenho duas irmãs e um irmão que faleceu ano passado.

 

P/2 – A senhora poderia dizer o nome deles?

 

R – A minha irmã mais velha chama-se Olga, mora ainda na Vila Maria, a Iracema mora em Barueri e o meu irmão que era o Estevan chamado de “Peteca” porque ele era palhaço de circo, né, ele também morava em Barueri.

 

P/2 – E até quantos anos vocês moraram lá? E quantos anos a senhora tinha quando moraram em São Manoel e mudaram pra São Paulo?

 

R – No meu caso eu vim pra São Paulo ainda bebê, ainda criança, né, deveria ter meus dois anos, um ano, dois anos, mas quem trabalhou mesmo em roça em São Manoel foi a minha irmã Olga e o meu irmão, nem a Iracema quase não pegou roça também mas, meus irmãos mais velhos pegaram, ficaram um pouco trabalhando em roça.

 

P/2 – Eles chegaram a contar já algumas vezes lembranças do trabalho?

 

R – Contavam, contavam mesmo, contavam muitas coisas que acontecia na roça quando eles trabalhavam lá, como era muito difícil aquela vida, então eu, tudo isso eu reuni nesse livro “Vence o Amor” é a vida daquela família que queria subir, né, que veio mais tarde pra São Paulo e a vida que eles levavam na roça eu chego a contar nesse livro aqui.

 

P/2 – E a senhora chegou a ir lá pra fazer o livro?

 

R – Não, só de conversar com a minha mãe, com o meu pai na época, né, porque o meu pai me ajudou porque quando, antes de ele falecer ele já sabia que eu estava escrevendo esse livro, então muita coisa eu perguntei pra ele e pra minha mãe, né, e mesmo pra minha irmã, pra minha irmã mais velha, pro meu irmão que tinha as lembranças de lá como que era.

 

P/2 – E aqui em São Paulo vocês foram morar aonde?

 

R – Nós fomos morar na Vila Maria, na Vila Maria minha mãe morava de aluguel em vários locais, mas sempre na Vila Maria, começou na Vila Maria baixa, né, que falava aquele tempo, e depois ela foi mudando até que adquiriu essa casa no alto da Vila Maria onde nós ficamos até, eu fiquei até mais ou menos em 1964 quando me mudei pra Barueri, sempre na mesma rua.

 

P/2 – E como era a Vila Maria? A senhora se lembra como era a casa onde vocês moraram, sempre na mesma casa?

 

R- Sempre na mesma casa. Bom quando eu era mais assim menorzinha, minha mãe morava de aluguel, né, então a gente morava em porão, em casas, nós moramos em lugares muito pobres, porque minha família era muito pobrezinha mesmo, meu pai viajando sempre, não dava aquela assistência que deveria dar porque ele tava trabalhando na estrada de ferro Sorocabana e não tinha parada, né? Então a gente ficava assim dependendo muito de ajuda de outras pessoas também, como minha mãe diz, eu não me lembro, nós moramos até num galinheiro que uma mulher teve que tirar as galinha pra pôr nós lá dentro porque não tinha lugar, não tinha uma casa pra a gente morar. Então foi uma vida muito sofrida, até que ela conseguiu, sem o meu pai saber, comprar essa casa que ela ficou até o fim quase da vida dela. A minha mãe estava juntando dinheiro pra fazer o casamento da minha irmã mais velha que era a Olga, comprar enxoval tudo, mas a Olga foi uma menina assim meio revoltada com a vida, né, e acabou fugindo de casa quando ela tinha uns dezessete anos, e aí com aquele dinherinho que a minha mãe juntou ela acabou dando de entrada nessa casa que nós ficamos lá na Vila Maria até o fim. E foi daí que depois a gente começou a melhorar a casa, aumentar, porque eram só dois cômodos, se reboca, depois foi arrumando, arrumando até o fim, né, quando ela vendeu, quando eu já estava morando em Barueri aí eu resolvi levar minha mãe comigo, minha mãe e meu pai que eles já estavam muito velhinhos, né, e aí eles venderam a casa da Vila Maria.

 

P/2 – A senhora lembra da casa sendo construída assim?

 

R – Lembro, lembro, eu ajudei meu pai a fazer massa pra fazer barro porque naquele tempo não era como hoje, areia, cimento, essas coisas, aí a gente fazia de barro mesmo, então a gente pegava o barro, amassava o barro pra fazer com aqueles tijolinhos, eu ajudei muito meu pai a levantar a casinha da Vila Maria lá.

 

P/2 – E o seu pai ficou surpreso com a atitude da sua mãe?

 

R – Ah, quando ele veio de uma das viagens que ele voltava, ele veio pra aquela casa, que ele chegou lá não tava mais, ele entrava e cadê? Já foi e já mudou, sempre que ele chegava nós não estávamos no mesmo lugar, porque minha mãe tava sempre mudando porque ela sempre queria coisa melhor, né, e foi indo, foi indo até que, quando ele chegou numa dessas viagens quando ele foi ver nós já estávamos na nossa casa mesmo, então foi uma surpresa muito grande pra ele, quando chegou lá a casa própria, né, foi muito bom. Aí ele se empenhou mais pra ajudar a família porque, não é que ele não ajudava, é que o trabalho dele exigia a presença dele naqueles locais que ele ficava, né, no interior. Daí pra frente ele passou a ajudar na construção, eu meu irmão, o “Peteca” ajudou também a levantar a casa a ir aumentando e foi indo, foi desse jeito.

 

P/2 – E a mãe da senhora trabalhava, dona Odila?

 

R – A minha mãe ela era muito conhecida na Vila Maria, como dona Maria Parteira, ela fazia os partos, ela tinha inclusive cartas de médicos que autorizavam ela a fazer esse trabalho, porque naquele tempo não tinha a facilidade que tem hoje nos hospitais, era muito difícil. A mulher quando ia ganhar o nenê tinha que ser em casa mesmo, com uma parteira né, e a minha mãe tinha essa profissão, ela não parava em casa, nascia tanto nenê na Vila Maria que a minha mãe não parava em casa, tava sempre correndo porque minha mãe além de ela fazer o parto, ela ficava durante o tempo que o nenê precisava de assistência, por causa do umbiguinho dele, né. Ela ficava dando banho no nenê, cuidando da mãe, ela fazia o caldo de galinha pra mãe, ela cuidava durante uns oito dias daquela parturiente com o nenê e a mãe junto, ela cuidava desse jeito. Então ela não parava em casa, a gente ficava muito só eu e minha irmã Iracema que éramos as menores, né, e a minha mãe sempre correndo atrás pra ganhar um dinheirinho também, porque às vezes ela cobrava às vezes não, né, dependia da situação do casal, né, muitos partos ela não cobrava não, fazia de graça.

 

P/2 – Era sempre na Vila Maria?

 

R- Sempre na Vila Maria, não, às vezes, a pessoa mudava da Vila Maria e ia morar num outro bairro, mas estava tão acostumado com a minha mãe que chamava, mandava buscar na hora que precisava porque naquele tempo lá nascia-se muita criança, né, então a minha mãe ia também pra outros bairros quando a pessoa conhecia ela, chamava ela, onde quer que morasse.

 

P/2 – E os filhos nunca chegaram a acompanhar?

 

R – Pra esses eventos?

P/2 – É?

 

R – Não, não.

P/2 – Tinham que ficar em casa?

R – Tinham que ficar em casa, pra tomar conta da casa, só a minha irmã mais velha a Olga depois que ela fugiu de casa que ela teve uma vida muito sofrida também, né, que naquele tempo não tinha a liberdade como as moças tem hoje, naquele tempo não. Então quando ela fugiu de casa o meu pai não quis saber mais dela, não queria nem que ela viesse visitar sabe, porque achou que ela não prestava mais, era assim que se falava, que se fazia antigamente. Então quando ela conseguiu voltar pra nossa casa, ela já veio com filho, tal, né, nós, o meu pai criou os filhos dela e são tutelares, eram tutelares né. Aí a minha irmã começou a se interessar pela profissão da minha mãe, aí ela foi aprender enfermagem, foi trabalhar num hospital como enfermeira, naquele hospital Leonor Mendes de Barro que tem lá na Celso Garcia que ainda deve existir, e aí minha irmã começou a se interessar como enfermeira e aprendeu a ser parteira, começou a acompanhar a minha mãe nos partos, e lá no hospital ela fazia partos e até pouco tempo ela fazia parto, aí ela parou também, agora não ta fazendo mais porque agora tem muita assistência né, é uma mulher que tem criança em casa.

 

P/2 – E a sua mãe que fez o parto dos netos também?

 

R – Dos netos a maioria foi a minha mãe, meu irmão, por exemplo, esse meu irmão que faleceu, a minha cunhada teve onze filhos todos nascidos em casa, e todos foi minha mãe que pegou a minha mãe ou minha irmã, a minha irmã Iracema teve quatro, também todos em casa com a ajuda da minha mãe, eu só tive um e foi minha mãe que foi em casa, minha mãe e minha irmã.

 

P/2 – Aonde foi dona Odila?

 

R – O nascimento do meu filho?

P/2 – É.

 

R – Foi na Vila Maria também, eu morava num curticinho assim, aquelas casinhas várias casas, eu morava numa daquelas casinhas, fui em 58. A minha mãe não estava, ela tinha uma casa lá em Barueri, ela tava passando um fim de semana em Barueri então quando eu comecei a sentir que ele ia nascer, eu mandei chamar a minha irmã, veio e falou “Não, então vamos fazer logo pra mãe não chegar.” Minha mãe parece que adivinha as coisas e advinha mesmo, na hora H ela chegou aí eu fiquei com duas parteiras, mas foi assim foi um dia maravilhoso pra mim. Parece que, nem dor quase eu não senti pra nascer o meu filho, aí na hora que ele já estava lá nascendo uma já tava na cozinha fazendo a galinha, né, a outra, porque era assim naquela hora de nascer o nenê a gente tinha que comer uma canja né, primeira coisa que a parteira.

P/2 – É, a senhora falou isso.

P/1 – Assessoria em dobro, né, ela teve.

 

P/2 – Privilégio, né?

 

R – É, então foi assim mesmo que aconteceu.

 

P/2 – Mas, como é que é essa história da canja? Nunca tinha ouvido falar, dona Odila.

 

R – Porque é assim, enquanto a mulher está no quarto com a parteira, tem uma da família que está na cozinha fazendo o frango, a galinha com a canja, né, aí acabou de nascer o nenê já vem o prato de canja, aí a mãe já come, já se refaz as forças, é assim que era.

 

P/2 – Fica forte, pra amamentar?

 

R – É, isso, assim mesmo, muita canjica, fazia a gente comer, tudo que tava bastante leite. Aquela cerveja, que tinha uma cerveja que a gente tomava, malzbier, pra dar leite, né, aí a gente não via a hora do nenê nascer pra tá comendo todas essas coisas. (risos)

 

R - É assim mesmo.

 

P/2 – Então quer dizer que na sua infância assim, quem era a autoridade assim era a sua mãe?

 

R – Era a minha mãe, meu pai era também, mas só quando ele chegava em casa, porque minha mãe ela não gostava de bater nos filhos, né, ela xingava muito, mas não batia. Então ela guardava tudo pra quando meu pai chegasse, então quando o meu pai chegava todo mundo morria de medo, sabe? Aí ela contava durante noite ela contava, ficava falando, falando que acontecia, aí chegava no outro dia todo mundo apanhava.

(risos)

R – Todo mundo apanhava, e ele tinha uma mania de contar quantas cintadas ele ia dar, por exemplo, dependendo do motivo, né, dependendo do que a gente tinha feito ele falava, você vai levar tantas cintadas, aí ele contava, uma, duas, aí quando acabava a cintada ele falava, agora mais uma de lambuja, era assim que ele fazia, batia mesmo.

 

P/2 – E quem era a mais rebelde?

 

R – Eu acho que era a minha irmã, eu também fui muito rebelde, mas o meu irmão foi mais, meu irmão fazia muita arte, sabe aquele Rio Tietê que tem na Vila Maria? O meu irmão pegava e minha mãe deixava ele pra tomar conta de mim, de Iracema, e ia trabalhar porque além de ser parteira minha mãe também trabalhava em fábrica, né, ela ficava mesmo fora o tempo todo, então ela deixava ele tomando conta de nós, né. Sabe o que ele fazia? Ele ia nadar no Rio Tietê, era limpo naquele tempo, não tinha poluição e ele nadava comigo nas costas dele, atravessava o rio de um lado pro outro, você precisava ver que loucura. Então ele fazia muita coisa, muita arte, ele gostava de inventar cirquinho no quintal, a gente, ele fazia de paus assim com lençol fazia cirquinho pra a gente brincar, fazia muita coisa assim, ele era muito bacana, eu conto muito dele aqui, nesse livro.

P/2 – E a senhora, falou o nome dele, como é que era mesmo?

 

R – Era, Estevan, mas o apelido era “Peteca” no meu livro ele é o Ivan, que eu mudei os nomes né.

 

P/2 – Ele que foi o irmão mais próximo, né, pelo que a senhora conta?

R – É, foi, ele tocava violão, aprendi violão com ele, ele cantava, ele era muito bacana.

 

P/1 – Dona Odila, e esse apelido foram os irmãos que deram?

 

R – Não, o apelido de “Peteca” foi no circo já quando ele já era adulto, quando ele já teve o circo é que ele escolheu “Peteca” pra ser o nome artístico dele, quando ele entrava no palco dizia “Eu sou Peteca, boneca de rebeca estrepa.” Já falava assim, né, e eu tenho inclusive um poema aqui nesse livro que eu fiz pra ele.

(pausa)

R – Aliás, nesse livro eu tenho um poema pro meu irmão Estevan, pra minha irmã “Olga, sinônimo de amor”, pra minha irmã Iracema, pros meus avôs “É o que resta”, pra minha neta Camila antes de ela nascer. Eu gosto muito de estar homenageando pessoas, “Seu nome é Iracema” esse aqui é pra minha irmã Iracema, tem do Rio Tietê, “Peteca e o circo” este aqui é do meu irmão.

 

P/2 – Quer ler pra a gente, dona Odila?

R – Do “Peteca”? Quero, claro, tadinho do meu irmão. Depois que ele faleceu eu já fiz uns dois ou três poemas pra ele, pena que eu não trouxe pra mostrar aqui.

P/2 – E ele era dono de um circo ou ele trabalhava?

R – Ele tinha circo, inclusive o circo dele em mil novecentos e... Nos anos 50 caiu o circo dele na Vila Maria, saiu no jornal, ele saiu com a cara pintada naquele jornal que tinha da época, né, contando.

 

P/2 – E como é que chamava o circo dele?

 

R – Circo do Peteca.

 

P/2 – Circo do Peteca.

 

R –  “Peteca e o circo”

Peteca boneca de rebeca estrepa

No circo era esse o seu nome

Palhaço que fez muita criança feliz

Que além de palhaço foi gente e foi homem

Seu circo pobre de lona rasgada

Mas tão quente de amor por dentro

Que trazia em seus remendos

O sonho da meninada

Seu circo que viajou para cidades distantes

Levando a ilusão do artista errante

Seu circo que pulsou um tal qual coração

Sentindo tanta emoção

Com a presença da molecada

Ilusão do palhaço e ator

Ilusão do artista sofredor

Artista de circo

Renúncia voluntária da vida e do amor

Renúncia voluntária do prazer que causa dor

Peteca que brilhou no seu tempo

Como bom mocinho do circo

Nas peças dramáticas, o ator

No picadeiro, o palhaço

Na seresta, o bom cantor

E na viola, o violeiro que cantava com amor

Peteca, cidadão simples que nessa cidade vive

Do palco está esquecido

Eu te saúdo palhaço e irmão querido.

 

P/2 – Que linda, dona Odila.

R – Esse foi pra ele. (pausa) Quer que eu leia o da Olga?

 

P/2- Pode ler.

 

R – Da Olga é minha irmã mais velha.

“Olga, sinônimo de amor.”

Olga pequena Olga

Do amor tu fostes escrava

Muito cedo desse mel você provou

Amor como ninguém jamais amou

Pecaste como eu pequei

Mas assim como Madalena

Jesus também nos perdoou

Redimindo ao perdão

E purificar seu coração

Quantos anjos nasceram em tuas mãos

Quantas vidas ao mundo você trouxe com compaixão

Mas agora tão sensível, frágil e de afeto carente

Já não percebes que és amada, muito amada e que és gente

A seus filhos, seus netos, seus irmãos

Seus anjos que jamais se esquecerão

Tanto amor distribuístes sem esperar retribuição

Um dia hás de encontrar recompensa

Pelo amor que soube dar

Seja aqui neste mundo de meu Deus

Ou no céu quando partires

Finalmente hás de encontrar paz que tanto buscamos

O amor divino que todos nós sonhamos.

 

R – Esse foi pra Olga.

 

P/2- Dona Odila, a senhora contou a história do Rio Tietê, esse poema que tem do Rio Tietê, é uma memória desse fato que a senhora contou?

 

R – Não, do Rio Tietê está aqui no livro, a passagem de ele levar a gente pra nadar nas costas dele, né, do meu irmão, está aqui nesse livro. Do Rio Tietê eu fiz alguns versos do Rio Tietê alguns poemas que, que eu falo sobre a pureza, de como ele era, né, e como ele ficou...

 

P/2 – E vocês iam como pro Rio Tietê da casa da senhora?

 

R – Nós íamos a pé mesmo, porque a gente morava no alto da Vila Maria, mas naquele tempo a gente andava muito mesmo por lá né, a gente ia a pé chegava lá no rio e brincava na água né.

 

P/2 – Tinha toda uma criançada?

 

R - Tinha, tinha mais gente, não era... Tinha bastante gente.

 

P/1 – E quando não ia pro rio, ficava em casa, vocês brincavam do quê?

 

R – Carrinho de rolimã, a minha rua ela era descida, né, assim, então meu irmão fez um caixote grande uma vez uma das artes dele e colocava eu e Iracema na caixa, né, e ele ia na frente lá, e acontece que um dia a rua era assim, e tinha as casas que ficavam lá embaixo com aquele arame farpado aqui em cima, né, então um dia o carrinho se desgovernou e entrou, minha irmã Iracema, coitada, mais velha que eu, segurou no arame farpado, ai tava entrando aqui nela, segurou e ele saiu do carrinho né me pegou por trás e me tirou e ela salvou a nossa vida, mas também coitada ficou toda machucada viu,  mas senão a gente ia cair do lado, no precipício lá pra baixo, fazia essas coisas. O irmão uma vez sabe o que ele fez? Nós estávamos numa viagem que o meu pai levava a gente assim nas férias, e levava a gente pra viajar pro interior, né, e tinha um rio e uma árvore, né, com um cipó, então a gente ficava balançando naquele cipó, aí eu segurei no cipó e o meu irmão Pum! Me empurrou, aí acontece que o cipó quebrou e eu caí do lado de lá do rio e o cipó caiu dentro do rio, e ele pensou que eu tinha caído no rio e todo mundo chorando, me procurando e eu lá quietinha, lá do outro lado né, ah e a Odila morreu e agora como é que nós vamos fazer.

 

P/2 – Mas era tão fundo assim?

 

R – Era fundo, e ele entrava no rio, procurava e não achava nada, até aí que passou meu susto, eu gritei “To aqui!” (risos) Aí é que ele foi me buscar.

 

P/2 – Mas dona Odila, como é que a senhora foi cair do outro lado da margem do rio?

R – Pois é, porque ele empurrou com muita força, né, aquele cipó e o cipó arrebentou lá em cima, né, e eu me soltei o cipó caiu no rio, e eu caí do outro lado.

 

P/2 – E que cidade que era que você iam passar as férias?

 

R- Era Lençóis Paulista, a cidade era Lençóis Paulista e o meu pai sempre ia pro interior, e era Sorocaba, ou era São Manoel ou era Lençóis Paulista onde tinha os nossos parentes, e aí a gente ia viajar, é uma das artes dele.

(pausa)

R – Oh, esse aqui também é do Rio Tietê.

 

P/2 – Então eu queria voltar um pouquinho e perguntar da sua entrada na escola, como é que foi, o nome da escola?

 

R – A primeira escola, né, naquele tempo já existia o pré-escolar naquele tempo, eu me lembro, eu me lembro que tinha alguma menininhas que iam com calçãozinho vermelhinhos e tal, mas eu não cheguei a fazer isso, não tive condição de fazer isso, então eu já fui direto pro primeiro ano, né. Aí quando a minha irmã Olga que foi me registrar na escola foi me fazer a matrícula, e era na Vila Guilherme, eu morava no alto da Vila Maria, e a escola que conseguiram pra mim era na Vila Guilherme e era longe, mas eu ia e eu ia todo dia, eu ia pra lá e foi muito bom, eu foi assim, a minha primeira conquista acho que foi, foi a escola quando eu fiz o meu curso primário, foi lá na Afrânio Peixoto, na Vila Guilherme eu lembro quando foi lançado o dia da sopa, né, foi a primeira vez que inaugurou a sopa foi no meu tempo, ainda eu cheguei a pegar isso e o Ademar de Barros que era o governador ele que foi inaugurar, então eu fiquei muito contente porque ele comeu a sopa lá junto com a gente, me deu a mão, cheguei em casa contei pro meu pai que eu dei a mão pro Ademar de Barros.

 

P/2 – E não tinha merenda escolar antes?

 

R – Não, não existia.

 

P/2 – Que ano foi, a senhora lembra?

 

R – Ah, isso ai deve ter sido em 45 em 46, porque em 47 eu me diplomei, é foi 45, 46.

 

P/2 – A senhora estava no segundo, terceiro ano?

 

R – Segundo, terceiro ano por aí foi quando inaugurou a sopa escolar, era sopa, não era lanche, era uma sopinha que eles davam.

 

P/2 – Fazia uma fila de molecada?

 

R – É, isso, a gente comia, ah, era tão gostoso. E então antes não tinha não, a gente que levava pão de casa, uma banana qualquer coisa assim.

 

P/2 – Por que a senhora chama de sua primeira conquista?

 

R – Porque, tudo pra mim foi uma conquista, tudo que eu fiz na minha vida foi uma conquista, a primeira conquista foi entrar no grupo escolar, a segunda conquista foi porque naquele tempo como não era direto da primeira a oitava série, então a gente terminava o quarto ano, tirava o diploma e fazia um curso de admissão, e o meu curso de admissão, como meu pai era ferroviário, eu fiz dois anos de curso de admissão, lá na estação Sorocabana, né, eu fiz o curso, aí depois pra conseguir o ginásio era a coisa mais difícil porque não se conseguia mesmo, era muito difícil. Só quem tinha dinheiro porque podia pagar, né, uma escola paga, mas acontece que as escolas do estado eram muito melhor que as escolas particulares, e é claro que eu queria estudar numa escola do estado. Aí eu fui fazer, a gente fazia aquele cursinho do curso de admissão, ai depois ia fazer um exame pra ver se a gente tava apta pra entrar no ginásio, entende? Então eu fui em vários ginásios até que eu consegui o Caetano de Campos e olha que naquele tempo foi uma conquista maravilhosa pra mim, eu consegui, não tinha dinheiro pra ir, minha professora me dava dinheiro pra pegar condução. Porque da Vila Maria até o Caetano de Campos que é na Praça da República eu saía de casa 4 horas da manhã pra pegar o ônibus pra chegar até o Belenzinho, do Belenzinho eu ia a pé até a rua Rubino de Oliveira, pegava aquele bonde camarão que tinha pra ir até a Praça da República pra entrar às 7 horas na escola, e era uma luta, né, mas eu fazia com muito gosto porque eu adorava estudar e só que não pude continuar, porque meu pai resolveu me tirar pra pôr pra trabalhar, mas era muito bom, e essa foi a minha segunda conquista. A terceira conquista foi entrar na União da Juventude Comunista, que naquele tempo o partido comunista era um partido proibido, né, era tudo proibido, mas, o meu pai como espanhol de raça, ele era comunista, então aí eu sabia que era proibido mas acontece que a gente queria né, eu queria seguir os passos do meu pai, e eu consegui entrar e fazer os cursos que o partido fazia pra a gente, né, e eu pertencia a União da Juventude Comunista dos meus quinze até os meus dezoito anos fazia aquelas loucuras dos anos 50, anos 60, que você já deve ter visto em filme tudo aquilo lá eu participei. Eu cheguei, eu era tesoureira daquela área do Belém da Vila Maria, Belém, Mooca a gente fazia muitas festas, né, pro partido, pra angariar fundos pro partido, então eu estava sempre envolvida com eles.

 

P/2 – Dona Odila, conta um pouco dessa experiência do seu pai, do envolvimento com..

 

R – Com envolvimento político?

 

P/2 – Envolvimento político, enfim como ele passou isso pra senhora e pros irmãos de vocês?

 

R – O meu pai naquele tempo, ele era integrado com o partido comunista, mas assim, quando ele viajava, quando ele vinha pra casa então tinha aquelas reuniões clandestinas que o meu pai frequentava e, às vezes, era feita na minha casa. A gente não podia espiar, mas de vez em quando eu espiava pelo buraco da fechadura, porque eu queria saber o que tava acontecendo, né, então a gente tinha tudo isso aí, mas a gente não podia estar envolvido lá, porque ela proibido, mas eu via o envolvimento, eu via aquelas pessoas chegando em casa, né, e era muito curiosa então, eu sempre queria dava sempre um jeitinho de levar um cafézinho, pra mim escutar alguma coisa até que, que um dia eu resolvi também entrar, né, e ele fazia muito isso. Às vezes a reunião era na casa de um amigo, às vezes era na esquina de um bar, às vezes era dentro de uma padaria, mas a maioria era na minha casa, era lá em casa mesmo, na Vila Maria. E eu fui me envolvendo com o jeito dele, né, que ele queria mudar o mundo, né, porque aquele negócio do partido comunista era naquele tempo, era um ideal muito forte os conservadores, do partido que hoje, hoje não existe mais, hoje é... O Roberto Freire tirou o partido comunista, tirou até o nome do PCB [Partido Comunista Brasileiro] não existe mais, é PPS [Partido Popular Socialista] acho, né? Então naquele tempo, era muito romântico isso, e eu gostava de quando eu comecei mesmo a frequentar, eu gostava porque meu pai me proibia muita coisa sabe? Tudo era proibido porque eu era menina não podia, né, estar em bailinhos e no partido eu podia fazer tudo, entendeu? É por isso que eu acho que eu fui pro partido porque no partido eu promovia festas, eu promovia piqueniques, eu promovia os bailinhos, que a gente se encontrava na casa dos amigos pra dança e pra recrutar mais jovens pro partido, então pra mim foi uma conquista.

 

P/2 – Pra sua vida social, também dentro do partido.

 

R – É, isso.

 

P/2 – E a sua mãe militava também?

R – Não, minha mãe não, e não gostava e brigava com a gente, brigava com meu pai, brigava comigo, “Já chega o seu pai, agora você também?” ela não gostava não.

P/2 – Ela tinha medo?

R – Tinha medo, ela tinha medo. Tanto é que em 1972, 73 quando houve a caça aos comunistas, não sei se você se lembra disso? No meu livro “Sublime caminhada” que infelizmente esgotou, não pude trazer nem um exemplar pra você, estou contando a caça aos comunistas, que houve em 1972, 73 que eu era chefe do departamento jurídico do Sindicato dos Motoristas, né? E a diretoria do sindicato, a maioria era do partido, então, aliás, não só o Sindicato dos Motoristas, como a maioria dos sindicatos daquela época eram gente do partido, então houve a caça, né, dos dirigentes sindicais pra quererem saber daquelas reuniões clandestinas que houve, que havia nas casas, né. Então, foi tudo mundo foi preso, foi pro DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna], sofreram torturas e isso daí eu to contando no “Sublime Caminhada” nesse meu livro. Então naquele tempo eu tive que me mudar, sair da Vila Maria pela segunda vez, eu já tinha saído em 64, ido pra Barueri, aí como eu fui trabalhar no sindicato eu voltei pra Vila Maria e aluguei minha casa, depois eu tive que voltar correndo pra Barueri, outra vez, porque eu também estava sendo caçada pra ser presa, né. Naquela época eu e o meu pai viemos pra Barueri, definitivo e graças a Deus eu nunca cheguei a ser presa.

 

P/2 – E nessa época de, enfim de militância a senhora teve uma aproximação maior com o seu pai assim...

 

R – Mais ou menos, meu pai, ele era muito rígido, era muito bravo sabe? Ele não admitia nada assim que ele achasse que era errado, mas se tratasse de partido, então ele abria a mão pra tudo, então por isso que eu comecei a frequentar pra poder ter um pouquinho mais de liberdade, era por causa disso que eu me integrei ao pessoal do partido, né, agora a convivência em casa com o meu pai continuou daquele jeito porque o que ele achava que não era, mesmo a gente depois, com o tempo ele percebeu, né, que não era tanto como ele queria que fosse, aí ele começou a ser bravo outra vez, batia por qualquer motivo, mas depois com o tempo, com passar dos anos eu fui vendo que ele tinha mesmo problema de cabeça, ele era uma pessoa mesmo revoltada. Tanto é que ele ficou esclerosado, né, quando ele ficou bem mais velho com esclerose e agressivo, tive até que interná-lo, e foi isso que aconteceu.

 

P/2 – Bom, e a gente tinha comentado sobre o início da sua escolaridade a senhora contou quando foi pra Caetano de Campos, enfim toda a trajetória que a senhora percorria das 4 ás 7 da manhã, e voltar um pouquinho nessa época, eu queria perguntar se a senhora lembra do primeiro dia de aula, como é que foi, chegar no Caetano de Campos?

 

R – Ah, foi maravilhoso, uma loucura, porque lá no Caetano de Campos, eu me senti importante sabe, nossa, eu estudando no Caetano de Campos imagina eu, aí eu já fui com o meu uniformezinho, logo no primeiro dia, né. Então nós ficamos numa sala e aquele barulho infernal, as menina gritavam tanto, não era menino e menina, era só menina, e os meninos não eram junto na mesma classe e naquele dia houve até um fato curioso, nós estávamos tão eufóricas gritando, gritando e tinha um prédio do lado e os rapazes, mexendo com a gente, sabe. Então um fazia sinalzinho que queria dar telefone, então a menina mexendo com ele, então, quem ia pegar o telefone lá embaixo? Ninguém tinha coragem de ir, né, e eles falavam “Desce pra pegar o telefone.” Então quem foi? Foi eu, eu corri lá embaixo pra pegar o telefone pra dar pra minha amiga, cheguei correndo lá, peguei assim da mão dele, corri lá pra cima pra dar pra ela, e nisso a professora tava entrando ou a diretora, na sala de aula e eu escondi porque a saia tinha umas pregas assim e eu escondi a minha mão aqui de embaixo da prega com o papelzinho, né, e ela querendo mostrar o meu uniforme, que tava direitinho, pra todo mundo ver como é que era.

(risos).

P/2 – Quer dizer que se ela pegasse a senhora ia perder moral, né?

 

R – Nossa senhora, aí eu lá com a minha mão, tremia, né, aí ela não viu, né, aí deu pra mim passar pra menina, mas isso foi um dos fatos que aconteceu naquele meu primeiro dia. E dali o resto foi muito bom porque eu gostava muito de estudar, eu era muito estudiosa, e foi um tempo muito gostoso apesar de ser pouco tempo que eu fiquei no Caetano de Campos, porque meu pai precisou que eu trabalhasse, né, mas foi muito bom.

 

P/2 - Tem algum professor assim que tivesse marcado mais a sua passagem por lá?

 

R – Eu acho que foi, eu não me lembro o nome dos professores, mas tinha uma professora de Francês, naquele tempo que ela chegava. sem a gente conhecer nada ali do idioma, já chegava falando francês com a gente, bonjour, tal. E aquela professora me cativou desde o primeiro dia, tanto é que eu era muito boa em francês, e matemática também, mas eu não consigo lembrar o nome, só lembro de uma professora que eu tive no primário, dona Guiomar, era muito boazinha a dona Guiomar, mas do ginásio eu não consigo. Ah e lembro também do curso de admissão era, a professora do curso de admissão me dava o dinheiro pra minha mãe deixar eu cumprir o meu período do curso de admissão, ela me dava o dinheiro, me dava os livros, lá da Sorocabana, né, ela era pra mim frequentar as aulas

 

P/2 – O curso de admissão foi feito aonde?

 

R – Eu fiz o curso de admissão no, na estação Sorocabana que hoje é Julio Prestes.

 

P/2 - E como é que era, era um curso de segunda a sexta?

 

R - Era um curso, pra preparação pro ginásio que hoje não existe mais isso, hoje já, oitava série as crianças já vão direto, né, pro ginásio, que é quinta série, né? Aliás, a da quarta série já vai pra quinta série  naquele tempo não existia isso, então terminava a quarta série a gente recebia o diploma, e era um estudo muito bom até a quarta série, tanto é que eu, eu fiz até a quinta depois e não me atrapalhei nada. Porque era muito bom os estudos e eu acho que a quarta série daquele tempo, valia pelo o que é hoje o ginásio inteiro. Era muito bom mesmo e no meu tempo de ginásio tinha latim, tinha francês não tinha inglês ainda no meu tempo, mas apesar de não ter essas línguas foi muito bom.

 

P/2 – E a admissão era preparatória como se fosse hoje um cursinho pra começar o vestibular?

 

R – Isso, exatamente e era um curso, “Da admissão ao ginásio” era o nome do livro que a gente estudava, sabe, da admissão ao ginásio, esse livro eu ainda tenho e nesse curso que eu fiz de dois anos, mas eu só fiz de 2 anos porque eu não conseguia entrar no ginásio porque era muito difícil as vagas, então, ela não deixava eu sair do curso até eu conseguir uma vaga que ela mesmo me ajudou a conseguir, né, a professora.

 

P/2 – E vocês prestavam uma prova?

 

R – Sim, eles prestavam uma prova como se fosse um vestibular e era difícil, até pra fazer a prova era difícil porque não tinha vagas nem pra prova, era difícil mesmo. Então ela ajudava a gente a procurar um ginásio onde era, porque a gente não ia ter condições de procurar, eu principalmente não tinha condições, eu era muito garota, e o meu pai era muito exigente, não deixava também minha mãe, não queria dar dinheiro pra condução, então era muito difícil. Então aí ela me dava escondia o dinheiro que eu tinha que pegar a condução pra ir atrás, né, quando chegava o dia da prova do ginásio a gente se encontrava com ela na sua cabana de lá, a gente ia junto pra fazer as provas no ginásio onde tinha possíveis vagas, né, até que eu consegui entrar no Caetano de Campos.

 

P/2 – E dona Odila no primário pra senhora ir da Vila Maria pra Vila Guilherme como é que a senhora ia?

 

R – Ia a pé, pequenininha, mas ia a pé, a pé atravessava a vila toda e do alto da Vila Maria até a Vila Guilherme era longe, eu atravessa tudo aquilo, mas aquele tempo não tinha carros não tinha ônibus, não era, não tinha a violência que existe hoje então a mãe da gente não tinha problema de deixar a gente fazer isso e eu ia mesmo, sempre andando, demorava uma hora e meia pra chegar mais ou menos, mas ia.

 

P/2 – E me conta uma coisa, como é que eram as paqueras assim, nessa época do ginásio, depois?

 

R – As paqueras mesmo pra mim começou depois que eu parei o ginásio, né, era justamente nesses bailinhos que eu conseguia, por exemplo, que o cara vinha falar comigo pra namorar e o que eu fazia: primeiro eu recrutava ele pro partido, se entrar pro partido aí eu namoro você, aí ele entrava pro partido, fazia, eu recrutava ele, aí lá no partido as outras pessoas conversavam com ele, tiravam a ideia dele da cabeça, da ideia de namoro, né, aí recrutava outro e tinha vez que eu tinha seis namorados, mas não era namorado, era recrutas que eu trazia, eles pensavam que estavam namorando comigo, mas não tava mais que depois que eles...

 

P/2 – Uma tática?

 

R – É.

 

P/2 – O seu pai conhecia essa sua tática?

 

R – Não, magina (risos). Não, eu fui uma das que mais trouxe jovens pro partido, naquela época que eu era muito engraçadinha, muito assim comunicativa, dançava bem então era isso, foi por isso.

 

P/2 – E a senhora já escrevia?

 

R – Eu ganhei o meu primeiro premio literário com treze anos.

 

P/2 – Ah, é como é que foi?

 

R – Foi assim, eu tinha o meu diploma da datilografia e minha mãe, meu pai queriam que eu trabalhasse fora, e eu não queria ainda porque eu era muito nova, mas um dia, “Nós vamos procurar emprego pra você, vamos pra cidade, pega o diploma e vamos” então eu peguei o diploma e fomos pra cidade, chegamos na cidade - até eu ganhei uma crônica em primeiro lugar, de contar esse fato lá em Barueri. - Chegamos na cidade, minha mãe entrou num banco, ela queria que eu trabalhasse num escritório, né, porque eu tinha o diploma de datilografia, era assim antigamente então no banco ela falou “moça, a senhora precisa de empregada?”, a moça falou “Não! Eu não preciso de empregada”, então a moça percebeu o que ela queria, que ela queria que eu trabalhasse, né, aí ela mandou nós pra uma agência de emprego, mas antes de chegar na agência, nós entramos ali na rua direita tinha a rádio Record que era na rua Quintino Bocaiúva naqueles anos lá, aí nós entramos, tava um programa só para mulheres, minha mãe falou “vamos” assim pra mim, vamos. Então nós entramos, chegamos lá dentro, tal, sentamos, ficamos lá, aí era o Vicente Leporace que era o apresentador, né. Então teve uma hora que tinha uma brincadeira com o auditório, aí ele chamou várias meninas pra contar uma história num microfone, tinha que inventar uma historinha. Então tinha um saco, né, de papel, que tinha um monte de papelzinho dentro daquele saco e com cada papelzinho tinha um nome, uma palavra, aliás. Cada menina tirava três papelzinho daquele e com aqueles três nomes tinha que inventar um historinha, e foi daí que surgiu o meu primeiro prêmio literário, porque eu também tirei, fui chamada né, levantei a mão e fui chamada, né, e tirei meus três papelzinho, aí falou agora todo mundo vai inventar uma historinha e eu fui ficando sempre pra trás “O quê que eu vou falar, o quê que eu vou falar”, né? No meu papel veio assim: automóvel, elevador e rasteira. Três palavras então, eu fiquei pra trás, né, esperando as meninas cada uma falava cada coisa, bobagem, né, e eu pensando “O quê que eu falo hein, meu Deus, o quê que eu falo?” Até que minha vez, né, aí eu falei tá bom falei: “Eu vim de automóvel pra Rádio Record, cheguei na Rádio Record, peguei o elevador, desci do elevador e vi o Randal Juliano, e dei uma rasteira nele”. Acontece que o Randal Juliano era coqueluche daquele tempo, sabe, ele era o mais famoso, era o mocinho, mas o auditório veio abaixo quando eu contei isso, falei isso né.

 

P/2 - O quê que ele era?

 

R – Ele era apresentador, mas ele era muito bonito, sabe, jovem e era querido, né. Naquele tempo não tinha televisão, mas ele era querido na rádio, né, então quando eu contei isso aí, só por causa do Randal Juliano que eu passei a rasteira nele, né, Aí todo mundo, né, bateu muita palma. gritaram e fizeram aquele carnaval e eu ganhei cinquenta reais, cinquenta cruzeiros, naquele tempo né, então foi o meu primeiro prêmio literário.

 

P/2 – Isso era o quê, final dos anos 40?

 

R – Não, já nos anos 50, já eu tava com, treze, espera aí, eu nasci em 36, 36 com treze, vai dar...

 

P/2 – 49.

 

R – É por aí, por ai.

 

P/2 – Aí saíram de lá e foram atrás do...

 

R – Não, aí a minha mãe com cinquenta reais, cinquenta cruzeiros no bolso, disse vamos pra casa, né, pra fazer uma compra pra encher de comida dentro de casa, aí tudo bem, eu continuei estudando, né, estudei até 51, 51 que eu comecei a trabalhar.

 

P/2 - E como é que foi, aonde foi?

 

R – Foi nessa vinicultura engarrafadora, Ouro Fino na Vila Maria, eu fui, fiz o teste, gostaram de mim e fiquei lá durante nove anos trabalhando lá.

 

P/2 – Como a senhora ficou sabendo da vinicultura?

 

R – Foi uma conhecida da minha mãe que foi na minha casa, né, e sabia que naquele tempo como era difícil as meninas, ter um diploma de datilografia, imagina, era coisa difícil, e eu tinha, né, então todo mundo sabia que eu tinha o diploma, aí foram lá falar pra minha mãe se deixavam eu trabalhar, né, a minha mãe “É, claro”, não fui mais na escola, me levou lá no escritório, fiz o teste, passei e fiquei trabalhando.

 

P/2 – E como é que foi o primeiro dia da senhora nesse trabalho? A senhora...

 

R – Ah, eu acho que é como todo mundo, né, o primeiro dia a gente fica meio envergonhada, fica meio assim sabe, ainda mais eu que nunca tinha trabalhado né, mas depois a gente vai fazendo, né, vai aprendendo, depois a gente vai se desinibindo, vai trabalhando. Todo lugar que a gente trabalha até hoje, que eu ainda trabalho, né, trabalho com escritório, né, e ainda toda a vez que é o primeiro dia de emprego a gente se sente meio assim, né, depois acostuma.

 

P/2 – Voltando um pouquinho, quem é que teve a ideia de a senhora fazer o curso de datilografia?

 

R – Eu.

 

P/2 – A senhora mesmo que foi atrás?

 

R – Eu fui atrás, eu tirei o diploma da escola, e era muito cedo, ninguém me pegava, nem no curso de admissão eu não podia entrar, foi em 47, né, que eu tirei o diploma da escola, né, do quarto ano, então não podia entrar no ginásio porque eu não tinha idade, e eu tinha que fazer o curso de admissão e não tinha dinheiro, então eu fui fazer o curso de datilografia pra não ficar parada. Pra fazer o curso de datilografia, eu não tinha dinheiro pra pagar, então o quê que aconteceu: eu ia numa farmácia que era do dono da escola, ele tinha uma farmácia, então eu trabalhava naquela farmácia, era menininha, né, varria a farmácia, lavava aqueles vidrinho, porque ele tinha um laboratório, ficava lá trabalhando o dia inteiro de graça pro homem, pra mim poder estudar datilografia, entende? Aí fiz o curso, tirei o diploma, aí com o diploma na mão que eu comecei a procurar emprego, fui fazer o curso de admissão, quando eu fui fazer o curso de admissão, eu já tinha o curso de datilografia.

(pausa)

P/2 – A senhora tem muito mais do que três conquistas, né?

 

R – É, tenho muito mais, tenho muito mais.

 

P/2 – Agora me diz uma coisa, tinha uma formação religiosa na sua família?

 

R – Meu pai, ele era ateu, meu pai não acreditava em Deus, e não queria que ninguém acreditasse em Deus, mas a minha mãe acreditava em Deus apesar de ela não ir muito em igreja porque o meu pai não deixava, mas ela nos ensinou a  acreditar em Deus, então nós acreditamos em Deus, somos católicos, né, mas por influência da minha mãe. Só isso também, não éramos de ir muito em igreja a não ser pra casamento, pra batizado, pra alguma missa especial, até hoje eu sou assim, eu acredito, eu tenho fé em Nossa Senhora de Aparecida, me apego muito com ela, né, mas eu não sou muito de ir em igreja. Mas é por causa da influência que eu tenho desde menina, agora quando o meu pai ficou bem velho já, esclerosado, aí ele se apegou com uma igreja evangélica, aí ficava com Bíblia debaixo do braço tal, mas é porque ele já tava esclerosado mesmo então, a gente nem acreditava que ele tinha mesmo aquela vocação tal, né, foi isso.

 

P/2 – Dona Odila, quer fazer uma pausa? Dar um tempinho?

 

R – Ainda tem muita coisa?

 

P/2 – É dar uma pausinha, é uma pausinha, é bom, né?

 

R – Vocês que sabem.

 

(pausa)

 

P/2 – Ok, continuação da entrevista com a dona Odila Placência. Dona Odila, a senhora tava contando da sua entrada na vinicultora, né? Tava na Vila Maria ainda, né?

 

R - É, isso.

 

P/2 – A senhora ficou nove anos lá? A senhora falou.

 

R – Fiquei nove anos, casei trabalhando lá, lá era como se fosse uma família aquele pessoal da vinicultora, é a família (Tessender?) do Ipiranga, eles moravam no Ipiranga e eles me consideravam, o jeito que eles me tratavam eu acho, como se fosse filha. Porque ali foi o meu primeiro emprego, quando eu namorei firme pra casar, lá que fizeram a minha festa de casamento, me deram muita coisa, depois nasceu meu filho, foi outra festa, né, em 58, eu saí de lá em 59, 60 por aí que eu saí de lá, foi 51, é, foi até mais ou menos 60, eu saí porque o meu marido, o meu marido naquela época resolveu ir embora pro Paraná, né, porque ele queria porque ele tinha uma irmã que morava no Paraná, que tinha uma fábrica de calçados, ele queria ver se melhorava a nossa vida indo pra lá, mas foi um passo errado, fez eu perder o meu emprego que eu tava muito bem, e voltamos sem ter conseguido nada lá no Paraná.

P/2 – E a senhora chegou a ficar quanto tempo lá?

R – Não cheguei a ficar nem um mês porque eu não me dei bem lá, era muita poeira vermelha, aquela terra vermelha lá em Londrina, e eu também achava que não ia dar certo, não era o nosso ramo, né, ele era metalúrgico e eu escrituraria o quê que eu ia fazer numa loja de calçados, né. Então nós voltamos, foi aqui, eu fui trabalhar na Assolan numa firma lá no Brás, já entrei com um salário bem melhor que eu tinha lá na Vila Maria, né?

 

P/2 – Era firma do quê?

 

R - Essa segunda?

P/2 – É.

 

R – Era firma de ferro e aço, também no escritório já entrei lá com um cargo, né, entrei como faturista na época, e foi assim, fiquei lá uns três anos mais ou menos, né, nessa firma, aí fui trabalhar numa companhia de seguros lá na rua Conselheiro Crispiniano, já entrei também como chefe de um setor. Daí pra frente foi sempre assim, eu tinha muita vontade, fazia sempre cursinhos, porque como eu não consegui fazer o ginásio, então todos os cursinhos que eu descobria que existia que não pagava eu corria lá fazer, sabe? Cursinho de português, né, cursinho de escritório tudo essas coisinhas, né, então eu aprendi muita coisa pra eu poder desempenhar a minha função, até quando eu fui trabalhar depois na rua 25 de Março, num atacadista. Aí fui pra Barueri que foi quando eu fui trabalhar nesse sindicato, né, fiquei lá quase vinte anos, mas sempre assim fazendo cursinhos rápidos, né, porque eu inclusive frequentei a faculdade como ouvinte porque, eu tinha na minha sessão no meu departamento, funcionários que trabalhavam na faculdade de Direito, né, e eu tinha muita vontade porque eu trabalhava com direito, mas não tinha formação nenhuma , então eu ia como ouvinte porque eu não podia pagar e não tinha estudo suficiente pra poder entrar numa faculdade, né?

 

P/2 – E qual faculdade era?

R – Lá na rua São Joaquim, na FMU, né?

 

P/2 – FMU [Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas].

 

R – Isso. E lá que eu fui, e algumas vezes eu acompanhava os meus colegas como ouvinte, eles me levavam, eu entrava, só pra poder aprender mais uma coisinha, mas foi assim, foi difícil.

 

P/2 - E a senhora conhece o seu primeiro marido numa...

R – Num desses recrutamentos que a gente fazia, num bailinho eu fiz o recrutamento pra ele entrar no partido, dali ele insistiu pra a gente namorar mesmo depois que ele entrou, ele não quis me perder, e aí aconteceu o casamento, em 56 eu casei.

 

P/2 – E o seu filho nasce em que ano?

 

R – Em 58.

 

P/2 – Qual que é o nome do seu filho?

 

R – Roberto.

 

P/2 – E a mudança pra Barueri, aconteceu em que ano?

 

R – A primeira mudança foi em 64, né, foi quando eu fui pra lá que eu estava desempregada, 64 tava desempregada lá, fui morar em Barueri, dali eu fui trabalhar num cartório ali que eu não fui nem registrada nesse cartório, fiquei trabalhando no cartório porque era perto da minha casa e fiquei lá, trabalhei bastante tempo até 69, eu trabalhei nesse cartório aprendendo a fazer escrituras, a atender o pessoal e despachava com um juiz, às vezes, porque era primeiro cartório tinha muita ligação com o fórum, até que em 69 eu fui convidada pra trabalhar nesse Sindicato dos Condutores, né, lá em São Paulo, né, e foi lá que eu fiquei quase vinte anos.

 

P/2 – Lá em Barueri?

 

R – Não, lá na Liberdade.

 

P/2 – Ah, na Liberdade, ah tá.

 

R – Sindicato dos Condutores de Veículos.

 

P/2 – Mas antes disso a senhora já tinha militância, né?

 

R – Ah, no partido?

 

P/2 – É.

 

R - Já, eu comecei a militância no partido com catorze, quinze anos na União da Juventude Comunista, UJC, né, depois no partido mesmo quando eu estava no sindicato é que a gente continuou, porque aí eu dei uma trégua, quando eu me casei em 56 que o meu marido não conseguiu fazer os cursos do partido, ele ficou muito amolado com isso sabe? E eu consegui fazer os cursos e ele não, então ele achava que eu sabia mais que ele sobre o partido, né, então ficava aquela briguinha assim, não que ele fosse comunista, ele não era, ele foi recrutado por minha causa, mas aí foi indo, indo e foi ele que foi me desviando do pessoal do partido, e tudo bem, eu achei que eu tinha que acompanhar mesmo o meu marido, né, porque eu queria mesmo salvar o meu casamento, mas quando eu me separei em 62 que ele, nós nos separamos, né, eu fiquei com o meu filho, ele foi pro outro lado, né, e aí eu voltei a atuar outra vez no partido, porque aí o pessoal não me procurou, voltei a atuar e assim, não tanto intensamente, mas alguma coisinha eu tava sempre fazendo ajudando, fazendo, cedendo a minha casa pra reuniões entende? Comecei a atuar e quando foi em 69 que eu fui mesmo pro sindicato, que lá era, foi o pessoal do partido que inclusive que me levou pro sindicato, então ali eu atuei mais ainda.

 

P/2 – E quem ficava com o seu filho quando a senhora trabalhava?

 

R – O meu menino, ele ficava um pouco com a minha mãe, um pouco com a minha irmã, eu tinha uma menina que morava comigo também, né, que tomava conta dele pra mim que inclusive ela chama Zelita, tá comigo até hoje, que é a mãe dessa criança que eu peguei pra, adotei, né, ela ficava só, que ela era uma menina muito problemática que de vez em quando eu tinha que mandar ela embora, né, aí ela ficava na casa de outro parente, eu a recolhi quando ela tava grávida de seis meses, porque ninguém mais queria ela, ela tinha problema de bebida, né. Então ela tinha esses problemas e tava sempre assim, jogada, né, até que quando eu fiquei com dó mesmo porque ela tava grávida, ai eu peguei ela em 83 e cuidei da gravidez dela e cuidei do filho dela, e até agora ela está comigo graças a Deus, ela é uma menina, assim menina, ela não é bem menina que ela já tá com cinquenta e... ela teve o filho com 39 anos, ele tá com 16 veja só. Então ela...

 

P/2 – Ele é o Rafael?

 

R – É o Rafael, e ela, ela agora ela não bebe, não faz mais isso e tá muito bem comigo, e ta lá na minha casa. Então ela foi sempre a minha companheira, né, porque qualquer um da minha família que sempre precisava da Zelita, corria na minha casa, pegava ela e levava, e eu ficava sem, aí o meu filho às vezes ficava sozinho, às vezes eu pegava outra pessoa pra tomar conta, né, sempre assim até que eu peguei ela em 83 que ela tá comigo até hoje. Ela faz parte, ela é personagem, no meu livro “Sublime caminhada” eu to contando a vinda dela pra minha casa como aconteceu nesse livro “Sublime caminhada”, só que ela chama Zeli no livro.

 

P/2 – E o seu filho também nessas reuniões sempre acompanhava a senhora ou não?

 

R – Não, meu filho é contra, até hoje ele não admite, que eu tenha sido comunista. Ele não gosta disso, ele cresceu com outra mentalidade na cabeça porque ele achava, como eu vivia sempre fugindo, então na cabecinha dele de menino ele não gostava por causa disso, porque ele achava que de repente eu ia ser presa, então ele ficou com aquilo na cabeça sempre com medo que acontecesse alguma coisa comigo e até hoje ele não gosta do partido por causa disso, e ele tinha medo que acontecesse alguma coisa comigo, porque naquele tempo acontecia mesmo, muitas mulheres eram levadas presas, né, e levadas pro DOI-CODI e sofridas, e torturadas, e estupradas, e tudo isso aconteceu mesmo, graças as Deus comigo isso nunca aconteceu, mas ele tinha medo porque ele ouvia as conversas, né?

 

P/2 – O dona Odila, os cursos que a senhora comentou do partido comunista como é que eram?

 

R – Eram cursos, por exemplo, pra a gente saber a ideologia do partido, né, por exemplo, eu fui num desses cursos e, a gente ia de olhos vendados, né, não sabia pra onde ia, a gente chegava num determinado lugar que a gente marcava, né, pra encontrar com as pessoas que iam fazer o curso, e chegando naquele lugar eu já punha uma venda nos olhos e entrava no carro e podia até ser que fosse perto de casa mas ninguém sabia, porque rodava, rodava, rodava até chegar no local, né, chegava lá a gente ficava uma semana, às vezes, estudando, só estudando mesmo a ideologia do partido comunista, de como vivia o pessoal naquele tempo na União Soviética, a gente aprendia tudo isso e era uma vida socialista lá dentro porque todo mundo tinha que ajudar, trabalhar, lavar louça, por exemplo, o serviço de dentro de casa era tudo dividido então eles diziam que ali já era regime socialista. Nós já íamos entrar pra fazer o curso, mas dentro do regime socialista, e aquele regime socialista que a gente aprendia nesses cursos a gente aplicava em casa, ninguém era escravo de ninguém, todo mundo tinha que ajudar, por exemplo, não é escravo que a gente diz, por exemplo, quando você come, você acaba de jantar, você larga o prato pra qualquer pessoa lavar, não, lá não, a gente comia, lavava o prato e guardava e o meu pai...

 

P/2 – Tudo coletivo?

 

R – Tudo coletivo, tudo coletivo e o meu pai era assim também em casa, o meu pai nunca deixou um prato dele pra minha mãe lavar.

 

P/2 – O seu pai traz essa formação da Espanha?

 

R – Não, ele veio da Espanha menininho, ele aprendeu aqui, ele aqui, aqui no Brasil quando ele passou depois de adulto é que ele conheceu o tempo da guerra, né, da guerra da Alemanha, que eu também falo nesse livro ele começou a atuar no partido quando acabou a guerra em 45, que terminou a guerra, é que ele começou a se encontrar com o pessoal do partido e a formar, ter essa formação na cabeça dele.

 

P/2 – E, dona Odila, nos cursos tinha preparação pra guerrilha essas coisas, enfim?

 

R – Nos cursos que eu fiz não teve isso, não, que eu era do Partido Comunista Brasileiro que é os conservadores, existe o Partido Comunista do Brasil que eles são mais afoitos, que é o PC do B naquele tempo já era assim, eles são mais partindo pra isso, pra... Não sei se eu posso dizer, mas seria até uma espécie de terrorismo, mas não era não, eles tinha uma formação política igual a da União Soviética, agora existia muita mistura que era a pessoa que queria fazer um terrorismo dizia-se que era comunista, mas não era não, porque o PCB é o conservador, era aquele de 1922 quando foi fundado que tinha aquela ideologia mais, voltada de como era a União Soviética o jeito deles, né, só que era do Brasil, não igualzinho a da União Soviética, então o PC do B eles são assim quase igual assim ao PT são mais, eles são mais afoitos entende? Eles não têm muito medo.

 

P/2 – Eles racham com o PCB e formam uma cessão.

 

R – Isso.

 

P/2 – Nos anos 60?

 

R – Nos anos 60.

 

P/2 – E a senhora permanece no PCB?

 

R – PCB.

 

P/2 – A senhora permaneceu até quando no PCB?

 

R – Até quando entrou o Roberto Freire, agora a pouco tempo que ele foi em mil novecentos e... 92, 91, 92 que o PCB passou a ser PPS, pelo Roberto Freire que ele quis acabar, ele quis tirar a palavra comunista, comunismo que era uma palavra que o pessoal não aceitava muito bem. A pessoa que falava que era comunista essa pessoa ficava meio de lado, né, mas o Roberto Freire quis tirar essa imagem, então ele tirou a palavra comunismo, mas o PPS é o mesmo Partido Comunista Brasileiro, que só apenas mudou de nome, pra tirar a palavra comunista ele continua sendo um conservador do partido.

 

P/2 – E em 89 ele foi candidato, né, pelo PCB?

 

R – Ele foi candidato pelo PCB, exatamente, pelo PCB.

 

P/2 – E a senhora militava pelo partido do PCB em 89?

 

R – Já militava pelo PCB, em 88 inclusive eu fundei o Partido Comunista Brasileiro lá em Barueri.

 

P/2 – Ah é?

 

R – É, lá não existia partido comunista ainda, existia vários partidos, mas o partido comunista ainda não, então eu fui chamada pra fundar o partido, precisava de 400 filiados parece pra poder fundar o partido, aí eu consegui esses 400, 402, 500 quase, 500 pessoas pra fundar, né, então aí eu fundei o Partido Comunista Brasileiro em Barueri, com apoio do PMDB inclusive naquele tempo que coisa difícil de acontecer. Mas lá aconteceu, porque o prefeito na época era muito amigo meu e é até hoje, o Rubens Furlan e ele me ajudou na preparação da candidatura, porque além de eu, porque além de eu fundar o partido comunista eu tirei catorze candidatos a vereadores do partido, nós entramos com catorze candidatos. Como eu precisava de uma coligação porque eu não tinha dinheiro, e o partido também não tinha muito dinheiro pra estar nos ajudando, então o que, que eu fiz eu me coliguei ao PMDB da época com o Rubens Furlan, que era o candidato, que ele era prefeito, né, e apoiando o candidato dele, então foi a única cidade que conseguiu colocar PMDB e PCB juntos naquela época, e nós fundamos o partido, tiramos aqueles 400 e poucos filiados e 14 candidatos , claro, não conseguimos entrar, mas, pelo menos o meu propósito eu consegui que foi fundar o partido comunista em Barueri.

 

P/2 – E qual que foi o rumo dele, hoje ele é um braço do PPS?

 

R – Como aconteceu tudo isso de ser, nós continuamos um tempo ainda a tentar, a ficar com o partido, né, depois como aconteceu isso do Roberto Freire mudar o nome, automaticamente todos os filiados do PCB passaram pro PSDB não pro PPS, e eles estão até hoje lá, muitos candidatos, aliás, muitos filiados estão filiados ao PSDB sem saber que estão filiados. Eu, inclusive, a minha fichinha deve estar lá como PSDB também, eu não voltei mais no cartório pra saber a situação porque, eu me desliguei, naquela época quando mudou o nome do partido eu me desliguei completamente de tudo da política, né. E foi há pouco tempo isso também e não to mais atuando agora, já tem uma nova comissão do PPS lá, eu não fui mais chamada porque eu acho que a minha cota de contribuição eu já dei, trabalhei muito tempo com o partido aqui em São Paulo, na sede mesmo do partido depois de aposentada, né, ajudando eles, no nacional, no municipal também, então eu acho que o que eu tinha que fazer nessa área eu já fiz do jeito que eu pude fazer e acabou.

 

P/2 – O, dona Odila, como é que o partido comunista via o Jango?

 

R – É, essa daí já é de muito tempo atrás, né, não vou poder te responder, mas eu acho que o Jango foi um dos simpatizantes do partido comunista, na época dele, ele era muito querido pelo partido, pelo pessoal do partido só que eu não tenho detalhes assim pra te dar.

 

P/2 – E a senhora, enfim o golpe de 64 a senhora tem uma lembrança?

 

R – O AI-5, não é? Foi justamente nessa época, eu ainda não estava trabalhando no sindicato em 64 foi quando eu estava naquela mudança minha sabe? Da Vila Maria pra Barueri, não ainda fugindo não, não foi nessa época que eu fugi, mas foi a pouco tempo em 62 que eu me separei então eu estava com o problema de desemprego eu não estava atuando no partido ainda direto.

 

P/2 – Atuou mais nos anos 70.

 

R – Isso.

 

P/2 – Quando foi pro sindicato?

 

R – Isso quando eu vou pro sindicato, exato.

 

P/2 – Certo.

 

R – Em 69, né, em 64 eu me lembro que o meu pai estava atuando, e o meu pai falava muito, mas eu não quis me envolver porque, uma a minha mãe sempre comigo, né, eu era separada do marido e a mãe da gente fica em cima, né, tomando conta naquele tempo era assim, então eu trabalhava numa, aliás eu não estava nem trabalhando estava desempregada nesse tempo, é assim eu tava passando umas crisinhas na minha vida.

 

P/2 – Certo.

 

(pausa)

 

P/1 – A senhora conheceu seu segundo marido aonde?

 

R – O meu segundo marido, ele foi, foi até interessante eu, eu estava em Osasco, né, fui pagar uma bomba d água, posto de água, né, não tinha água encanada então eu fui pagar a prestação da bomba e ele tava no ponto do ônibus e ele passou com o carro e começou a fazer sinal tal, a gente não sabe, né, quem é, né, mas a Zelita essa menina que já vivia comigo ela falou, ah é fulano de tal eu falei “Ah é, será que ele vai pra lá?” vai, então vamos tava dando carona, né, conheci ele assim então dando uma carona depois que a Zeni falou que conhecia porque ele tava insistindo tanto e pra eu aceitar, mas não conhecia. Foi uma loucura assim 2 dias, 3 dias de conhecimento já foi falar com o meu pai porque eu era desquitada, né, e eu morava na Vila Maria mas, eu já tinha a minha casinha aqui que eu tava construindo, né, a minha casa e foi, aliás foi em 60... 69? Não, já tinha sim já tava até pagando a bomba foi quando eu fui trabalhar no sindicato e ele, falou com o meu pai pra a gente casar já, assim depois de 2, 3 dias que me conhecia já queria casar e nós casamos, foi uma loucura nem 2 meses de conhecimento e já casamos sabe? Naquela igreja Santo Antônio de Catageró era na Vila Formosa, que só casava desquitados ele era solteiro, né, casamos mas, ele, ele ficou tão apaixonado, e com muito ciúmes do meu filho sabe assim,  ele queria que eu escolhesse entre ele e o meu filho assim, foi uma loucura o casamento não durou nem 2 anos, ai eu falei não, magina você vai embora deixa eu ficar com o meu filho, né, ele tinha ciúmes do meu menino, o meu menino tava com 11, 11 anos mais ou menos naquela época, ai não deu certo ai eu pensei, né, não vou mais casar mas, eu trabalhava no sindicato e lá tinha um rapaz, que se tornou meu marido que era o meu colega inclusive era o meu funcionário do departamento jurídico, e todo mundo queria que nós ficasse junto, né, todo mundo até o irmão dele falava “Não, você e o Dirceu é solteiro, você também não é casada fica com ele” e tal, e todo mundo assim até que, o meu filho já tava nessa época quase com quase 16 anos, e eu pensava assim, 16? É foi, por aí, eu falei bom se você gostar do meu filho, ai a gente pode conversar porque esse negócio de querer casar depois querer que eu escolha eu não quero mais, né, ai ele começou a ir freqüentar a minha casa, levava o meu filho pra ver futebol, e os dois se deram bem, então ai eu pensei que tudo bem então estamos juntos até hoje.

 

P/2 – O senhor Dirceu foi, que recrutou...

 

R – Ainda colega.

 

P/2 –... Que recrutou a senhora, né?

 

R – É foi, ele é muito bonzinho tal e a gente continuamos bons amigos assim até hoje, ele não proíbe nada, do que eu quero fazer, né, não proíbe o meu trabalho não se mete, então tamo lá.

 

P/2 – Bom a senhora ficou no sindicato muito tempo então?

 

R – É no sindicato eu entrei em 68 pra 69, assim no finalzinho de 68 pra 69 fui registrada em janeiro de 69 lá, né, e fiquei até me aposentar em 83, eu parei de trabalhar em 83 e em abril de 84 eu me aposentei.

 

P/2 – Como é que foi, ficar sem trabalhar a senhora...

 

R – Mas eu nunca fiquei sem trabalhar .

 

P/2 – Não parou?

 

R – Eu trabalhava assim como voluntaria em várias entidades, assim depois de aposentada, trabalhei outra vez no Sindicato dos Condutores de Osasco, trabalhei na FUBESP uma fundação dos funcionários do Banespa, trabalhei na rua Direita, fui lá coordenadora do jurídico fiquei lá uns 3 anos, tudo depois de aposentada. E ainda trabalho, né, agora eu tenho um escritório pequenininho de contabilidade de advocacia que eu ajudo os colegas, não to ganhando nada ainda mas eu to trabalhando.

 

P/2 – Nossa incrível.

 

R – Eu gosto de trabalhar.

 

P/2 – E como é, a senhora tem uma atuação com a terceira idade não é?

 

R – Ah sim, lá no Grupo Vida. O Grupo Vida é que começou em 97 a se organizar,  essa entidade  do Grupo vida, né, e eu fui convidada desde o começo pra estar com eles lá, e agora de 2 anos pra cá eu sou secretária, né, vou lá eu faço as atas, né, a gente tem uma atuação muito grande lá, porque tem muitas atividades o Grupo Vida sabe? Eles fazem assim passeios com os idosos, fazem cursos, tem cursos de alfabetização, tem cursos de... de bordado,  até curso de computação tem lá, eu aprendi computação com o Grupo Vida, depois eu fui fazer o curso melhor no SENAI, né, mas o meu inicio de computação foi lá no Grupo Vida, que eu tinha, eu tenho uma máquina de escrever dessa manual pequenininha, né, que eu fazia os meus livros e era um sacrifício porque quando eu faço um livro, eu faço revisão nele 8, 10 vezes a revisão e toda vez que eu fazia a revisão completava ele inteirinho outra vez na máquina de escrever, agora no computador não, agora a gente pode fazer até 30 revisão 50 revisão, né? Não da trabalho mas, foi difícil eu querer ir pro computador, porque eu não queria me desfazer da minha máquina mas, o meu filho me convenceu que eu deveria aprender computação, e aprendi.

 

P/2 – Mas a máquina ainda ta lá?

 

R – Tá nossa, é a minha relíquia aquela maquina lá.

 

P/2 – Mas hoje em dia a senhora escreve no...

 

R – Só no computador.

 

P/2 – Só no computador. Já foi picada pelo...

 

R – Ah já, (risos) agora não tem jeito, não sou assim uma eximia igual ao meu filho, o meu filho é muito bom ele me ensinou muita coisa mas, pra mim o que eu sei ta bom.

 

P/2 – Dona Odila a senhora contou antes de a gente ta gravando a entrevista, agora terminou o ginásio, né? Depois resolveu ir terminar o ginásio.

 

R – Isso.

 

P/2 - Quando é que foi isso?

 

R – No ano passado,

 

P/2 – E como é que foi voltar pra...

 

R – Ai foi maravilhoso, eu fiz o curso, telecurso, mas em sala de aula e eu, foi uma volta uma conquista que eu quis ter quando era menina e eu não consegui e só agora eu consegui então, pra mim foi uma coisa muito bacana que eu tirei aquilo que ficou parado sabe da minha cabeça e consegui fazer, ainda vou fazer o curso médio, e se Deus quiser eu ainda vou pra faculdade, se Deus quiser.

 

P/2 – Com certeza com essa garra que a senhora tem, eu não tenho dúvidas.

 

R – Vamos ver.

 

P/2 – E eu queria que a senhora contasse um pouquinho da sua atividade literária? Como é que surge a idéia dos seus livros?

 

R – Bom, o meu primeiro livro que foi esse “Vence o amor” surgiu, porque eu tentei fazer esse livro quando eu era mais jovem, né, mas um dia peguei rasquei joguei tudo fora falei ah não vou fazer não, porque eu trabalhava não tinha tempo, ai quando eu me aposentei que eu pensei o que, que eu vou fazer, né, no começo que a gente se aposenta não quer trabalhar logo de cara quer desfrutar um pouquinho mas, só que eu ficava na minha casa e, apesar de eu ficar cuidando da minha mãe que minha mãe era doente, né, ficava numa cama, ficou mais de 10 anos na cama e eu dava banho dava comida fazia tudo pra ela na cama, né, e naqueles momentos que eu ficava com ela, eu conversava muito com ela foi ai que surgiu a idéia de eu fazer o livro “Vence o amor” porque ela me contava da vidinha de menininha, de mocinha de como namorou o meu pai e enfim, né, da vida dos 2, a luta que eles tiveram quando vieram do interior pra São Paulo pra poder subir. Então tudo aquilo lá me apaixonou, né, e foi quando eu comecei a escrever o “Vence o amor” que é a história dos anos, da época de 1900, né, até a morte do Getúlio Vargas me que aconteceu em 64. Então eu to contando essa passagem e é claro que dentro dessa passagem tem muita coisa real e tem muita coisa fantasia que eu criei pra fazer o livro pra fazer o romance, e depois o outro surgiu em 1989, que foi quando saí do sindicato, né, em 84.

 

P/2 – Qual que é o nome do título?

 

R – “Sublime caminhada”, esse “Sublime caminhada” aconteceu por quê? Quando eu estava pra me aposentar, faltava pouco tempo pra eu me aposentar, eles resolveram me mandar embora do sindicato faltava, por exemplo, eu trabalhei até dezembro mas ai fiquei o mês de janeiro de férias e o mês de fevereiro foi que eles deram baixa na minha carteira, ai eu paguei o INSS com aquele carnezinho e em março, em abril já requeri a aposentadoria então eu poderia ter entrado com um processo contra o sindicato porque eles não podiam ter feito isso comigo, porque meu salário era muito alto e que eu não estava... Que eu tinha que sair, foi quando mudou uma diretoria, né, aliás a diretoria foi a mesma diretoria que foi presa em 72, que todo mundo foi preso e eu fiquei segurando a barra sozinha durante 6 meses sem que viesse um interventor pra assumir o sindicato porque, a diretoria tinha sido presa. Então veja só, eu fiquei todo aquele tempo tomando as rédeas do sindicato, como chefe do departamento jurídico que eu era responsável por muita coisa lá dentro, né, então enquanto o pessoal ficou preso eu fiquei segurando a barra, atendendo as esposas enfim, fazendo um serviço lá como assistente social lá das famílias dos presos, né, e fazendo tudo que eu podia pra que o sindicato não caísse, né, em mãos de outras pessoas até que veio o interventor. Bom, essa diretoria quando foi nas eleições, nas últimas eleições que eu atuei lá eles voltaram depois que saíram da prisão voltaram, foi aquela festa, né, todo mundo contente e eu tava lá, aí o que aconteceu essa diretoria que me mandou embora entendeu? Faltava um mês, um mês e pouco pra eu me aposentar então, ao invés de eu entrar com uma ação contra eles eu fiz o livro contando tudo que acontece dentro do Sindicato do Trabalhador todo envolvimento político que existe dentro do sindicato por isso também que eu fiquei menos desgostosa com o partido, se entendeu? Tudo acontece com os funcionários do sindicato, com a categoria com a diretoria o envolvimento político que existia com todo esse pessoal, o lado de dentro do sindicato porque é um Sindicato de Trabalhador não aquele sindicato que o pessoal pensa assim que esse sindicato ta ai pra defender o trabalhador, vai defender o trabalhador mas não sabe o que ta acontecendo lá dentro com os próprios funcionários do sindicato é isso que eu contei no meu livro o envolvimento político as festas, a prisão deles no DOI-CODI o sofrimento que eles tiveram, enfim tudo isso eu fiz um livro ao invés do processos contra eles, o livrou esgotou infelizmente, eu tenho um exemplar em casa que eu estou guardando entendeu?

 

P/2 – E deixa eu perguntar uma coisa pra senhora, nos últimos dias ai, enfim os jornais tem noticiado um evento no final dos anos 60, e inicio dos anos 70 que é a Operação Condor, né, a senhora tem conhecimento?

 

R – Não, não tenho.

 

P/2 – Na época vocês falavam sobre isso, que foi esse acordo entre militares da América do Sul pra...

 

R – Não, infelizmente sobre isso eu não tenho nada pra falar, não me aprofundei.

 

P/2 – E no livro a senhora conta até...

 

R – Nesse segundo livro? Nesse segundo livro eu to contando o inicio que foi em 69, no comecinho de 69 até a época que eu sai, eu começo o livro com a canção de fim de ano, adeus ano velho feliz ano novo, né, então eu to relembrando tudo que aconteceu eu estou guardando as minhas coisas pra sair pondo tudo dentro de uma caixa, numa caixa de papelão as minhas coisas da gaveta, e nesse, nessa condição de guardar, né, a minha papelada as minhas coisas particulares eu estou lembrando o que aconteceu ai eu lembro, desde o comecinho quando eu entrei lá, ai ele vem correndo ano a ano tudo que aconteceu, até chegar na minha aposentadoria.

 

P/2 – E a senhora publica em 89?

 

R – Publiquei em 89.

 

P/2 – E o terceiro como é que saiu?

 

R – O terceiro foi uma, um sonho que eu tive. Eu sonhei com um gatinho ai eu, é um livro infantil, né, também ta esgotado chama a “Bengala do gato”, então é esse gato queria ser gente, né, teve uma fada que deu uma bengala encantada para ele, pra ele ser gente mas, a fada quando ele estava em cima do telhado querendo ser gente a bengala cai da mão dele dentro de uma casa em cima de um fogão, então ele fica metade gente e metade gato e dai vem a historinha, né, da menininha que aparece na porta, porque primeiro ele transformou a namorada dele a gatinha em menina, mocinha, né, ai ela chega na porta bate e a pessoa, né, vai atender e ai a menina quer entrar de todo jeito na cozinha pra pegar a bengala mas, a mulher não entende, né, porque que ela quer fazer isso e ai, como é, é ai a historinha que ela conta e o moral da história que todo mundo, todos nós somos perfeitos aos olhos de Deus desde que, do jeito que a gente nasce não pode querer mudar mas, ela tem um enredo muito gostosinho o pessoal gostou muito tanto é que esgotou.

 

P/2 – E quantos livros publicados ao todo a senhora tem?

 

R – Oh, depois da “Bengala do gato” saiu o “Vence o amor”...

P/2 – Que é?

 

R – “Vence o amor” é...

 

P/2 – É outro infantil?

 

R – É outro infantil, que são 3 heróis que eu criei pra defender a natureza que é, o João Urso, o Arranca Toco e o Quebra Pedras, né, são 3 amigos que foram pelo mundo defender a natureza, as queimadas, enfim, é um enredo que também é bonitinho ele é ilustrado a “Bengala do gato” também é toda ilustrada, esse João Urso foi pela Edicom que eu fiz.

 

P/2 – Quem foi o ilustrador?

 

R – Nesse “João Urso” foi a própria editora que me arranjou, já o “Bengala do gato”, foi um amiguinho meu lá de Barueri, um rapazinho. Depois do “João Urso” saiu o “Sabor da lua” em 94 que é esse aqui, que são poemas.

 

P/2 – Esse é o primeiro de poesias?

 

R – De poesias eu tenho umas 20 antologias poéticas, e eu achei que já tava no tempo de eu ter um livro meu de poesia então, foi quando saiu este “Sabor da lua” que eu faço as minhas homenagens a pessoas, a cidades e falo muito de amor também que são, nesse livro são 3 temas desabafo, é reverências e emoção. Depois do “Sabor da lua” em 96 saiu o “Carnaval marca uma vida” que é esse daqui, eu estou contando a historia de uma, de um tio meu, ele, eu envolvi esse personagem no carnaval, tudo que acontece na vida dele acontece em época de carnaval e eu estou contando nesse livro também é meio, meio assim é não sei como é que as pessoas iriam achar, mas eu to contando uma passagem que ele viveu numa fazenda que ele trabalhou que ele era considerado um escravo de fazenda todo mundo lá acha que existe até hoje essa escravidão que é meia, é a gente pensa que não é escravo mas nós todos somos escravos porque, nesse caso dessa fazenda os trabalhadores da fazenda ficam sempre devendo pro patrão, eles trabalham recebem todo mês mas tem que gastar na venda do patrão e todo mês eles estão devendo quer dizer, eles trabalham só pra comer e ainda ficam devendo então, essa passagem da vida do meu tio é um exemplo que ainda existe depois do “Carnaval marca uma vida” que foi em 96, eu fiz 3 livretos que foi o “Mulheres guerreiras” que foi este ano, só que é poesia, poesia de outros papos que é só poesia sobre violência que também é um livretinho e “Barueri em poemas” também que é só sobre Barueri, que não é esse, esse aqui é outro, é só sobre Barueri, mas são poemas são crônicas assim de Barueri.

 

P/2 - E ai tem esse?

 

R – Agora tem as “Memórias vivas de Barueri” que eu estou pretendendo se der tudo certo lançar esse ano que já era pra ter sido ano passado.

 

P/2 – Conta um pouquinho, da história da memória viva.

 

R – Do memória viva? “Memórias vivas de Barueri” foi criado, pela, foi uma idéia da nossa coordenadora do Grupo Vida da Maria Lúcia, né, ela me chamou e falou pra mim se eu não queria fazer isso se eu queria fazer um trabalho com o pessoal de idade, né, pra falar sobre, pra falar sobre a cidade, então eu comecei a ir de bairro em bairro lá em Barueri chamando aquele pessoal mais antigo dos bairros, e conversar com eles fazer uma entrevista com eles, né, e pra ver como que era Barueri nos anos 30 como que eles faziam pra chegar até a cidade, como que eles faziam pra trabalhar enfim, como que era o comércio da aquela época, então cada bairro tem uma historinha e cada bairro tem, por exemplo, uns 8 ou 10 capítulos, porque eu to contando em capítulos, né, como que era o problema da saúde enfim, tudo que se relacionava ao bairro eu fiz assim, e é todo ilustrado porque tem a Marília de Pietro que fez as ilustrações com bico-de-pena e ficou muito bom, esse trabalho durou mais ou menos de 97 até o fim de 98 que eu fui publicando no jornal Notícias de Barueri e toda semana um capítulo, né, dos bairros da cidade e ele ta pronto só estamos esperando agora é poder editar. Fora esse eu tenho mais “O outro lado de mim” que são poemas também do mesmo modo que esse “Sabor da lua” que são reverências, emoção e desabafos que os desabafos eu falo muito sobre problema social nas minhas poesias, né, a reverências a pessoas e a cidade e sobre emoção, sobre a minha emoção de amor essas coisas eu também falo sobre isso, chama “O outro lado de mim”.

 

P/2 – E esse também ta pra ser publicado?

 

R – Também está pronto, e eu tenho outro livro também que está pronto que é “Bendito sequestro”.

 

P/2 – E é um romance?

 

R – Não, são contos e crônicas ele ta muito bonitinho também só falta agora, eu vou querer algumas ilustrações nele e talvez vamos ver quando que eu vou poder, ta pronto lá não sei quando, um dia ele sai.

 

P/2 – Dona Odila eu to admirada nessa sua atividade literária profícua.

 

R – Ah obrigada.

 

P/2 – E dona Odila eu queria que a senhora, enfim falasse qual um grande sonho da senhora hoje?

 

R – Meu grande sonho? Ai não sei, acho que toda mãe tem um sonho relacionados aos filhos, né, acho que eu queria ver o meu filho muito bem de vida, queria ver ele tranqüilo e os meus livros eu queria editar todos os meus livros, que também são meus filhos, né? Acho que o meu sonho era esse, eu não sonho em ser rica, né, em ser assim em ser lembrada como uma escritora famosa, não eu só queria ter os meus trabalhos publicados e apreciados por outras pessoas, esse é o meu sonho.

 

P/2 – E os netos?

 

R – Eu tenho uma neta de 16 anos, linda maravilhosa.

 

P/2 – Como ela chama?

 

R – É, Camila.

 

P/2 – Camila, ah a senhora até fez um...

 

R – Pois é, fiz antes de ela nascer eu fiz um poema pra ela e depois quando ela fez 15 anos eu fiz outro problema pra ela também, ela é muito bonita e eu penso muito na felicidade dela também.

 

P/2 – Hoje a sua família é bem unida também, seu filho mora aqui em São Paulo?

 

R – É o meu filho ele mora no Jaguaré, né, Jaguaré mas, Jaguaré e Barueri fica pertinho tanto é que ele fica mais na minha casa do que na casa dele porque ele tem uma firminha de ele faz carrinho pra motor de popa, né, faz cadeira giratório pra barco, né, essas coisas e ele faz no fundo do meu quintal então ele fica muito mais na minha casa do que na casa dele.

 

P/2 – Bom a gente ta se encaminhando pro final da entrevista, né, a gente queria saber o que a senhora achou de dar esse depoimento aqui no Museu da Pessoa ter contado a sua história?

 

R – Eu falar francamente não conhecia o Museu da Pessoa, eu fiquei sabendo que existia o Museu da Pessoa depois que a Maria Olivia ter me ligado, conversado comigo, né, eu não sabia exatamente o que era o Museu da Pessoa mas pelo que eu to vendo aqui vocês estão fazendo um trabalho com pessoas antigas da cidade, né, e eu acho que isso aqui vai ficar na história de cada um que veio aqui fazer entrevista e eu acho que é uma coisa muito importante, muito bacana.

 

P/2 – Certo, tem mais alguma coisa pra contar dona, senhora queria colocar mais alguma coisa que a gente tenha deixado de perguntar?

 

R – Não eu acho que ta tudo bem, é acho que é só isso mesmo não tem.

 

P/2 – A senhora que ler algum poema que seja da sua...

 

R – Um poeminha. Eu vou falar então um poema deixar gravado um poema sobre a minha cidade não posso deixar de fazer uma homenagem a Barueri, né?

 

P/2 – Ah claro depois de todo esse material que a senhora coletou.

 

R – “Terras de Barueri”

Por tantas terras andei

Tantos lugares eu conheci

Levei minha poesia poetei

Falando de ti, Barueri

Nas terras que eu viajei poetando pelas cidades

Por nenhuma me encantei

Pois de ti, sentia saudades

Em todos esses lugares eu falei das tuas belezas

Das tuas flores, teus montes

Teus campos e fortalezas

Falei também dos teus rios
Das tuas cascatas jorrando nas pedras

Tuas praças encantadas

E até de tuas pequenas florestas

Sempre saudando o seu nome

Com gente que eu nunca vi

Por fim voltava contente pras terras de Barueri

 

P/2 – Que lindo.

 

P/1 – Sim foi lindo, uma bela homenagem a cidade.

 

R – É.

 

P/2 – Bom, dona Odila...

 

R – É uma cidade que fez 50 anos de emancipação esse ano em 2000, e eu fui homenageada com a medalha de emancipação da cidade então, eles fizeram essa homenagem essa medalha que fizeram o meu histórico aqui, né?

 

P/2 – Deixa eu ver? Que bonito. Que joia. Bom, dona Odila a gente só tem a parabenizar a sua trajetória, né...

 

R – Obrigada.

 

P/2 -... Que é muito bonita, né, uma trajetória de uma vida alegre de luta, né?

 

R – Foi mesmo.

 

P/2 – E queria agradecer muito a sua participação aqui e a sua entrevista.

 

R – Eu é que agradeço a oportunidade de estar aqui falando um pouquinho da minha vida.

 

P/2 – Foi muito bonita a sua entrevista.

 

R – Obrigada.

 

P/1 - Obrigada.

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Obrigada a vocês.

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