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História de: Ana Cláudia Cavalcante Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/09/2018

Sinopse

Nesta entrevista Ana Cláudia nos conta sobre sua infância e a mudança do bairro Aclimação para o Cambuci. Desde que encenou a peça "O rapto das cebolinhas" aos catorze anos, Ana Claúdia buscou seguir carreira de atriz. Entre participações em diversos grupos teatrais, como Asdrúbal Trouxe o Trombone, processos de seleção e tentativas de ingressar na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, Ana Cláudia acabou por cursar Letras e se transformou em escritora de livros infantis, espalhando contos e colhendo sorrisos.

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História completa

P/1 – Bom dia, Ana Cláudia, tudo bom? 

 

R – Tudo bom! Bom dia.

P/1 – Eu gostaria de perguntar de novo o seu nome completo, data e local de nascimento.

R – Bom, meu nome é Ana Cláudia Cavalcante Gomes, eu nasci em Ribeirão Preto no dia 16 de outubro de 1966.

P/1 – O nome do seu pai?

R – Ney Cavalcante Gomes.

P/1 – O nome da sua mãe?

R – Maria Anunciata Cavalcante Gomes.

P/1 – A sua mãe é de onde?

R – Ela é de Pernambuco, de Timbaúba.

P/1 – Timbaúba é sertão, litoral, zona da mata?

R – É sertão, não é?

P/1 – Você já foi lá?

R – Eu nunca fui pra lá.

P/1 – Você não conhece os seus parentes de lá?

R – Não conheço.

P/1 – Nem seus avós maternos?

R – Não, a minha mãe ficou órfã e aí ela foi morar com uma tia e depois com os padrinhos. Quando ela fez mais ou menos uns dezoito, dezenove anos ela veio para o Rio de Janeiro, veio morar sozinha.

P/1 – E o seu pai é de onde?

R – Ele é de Itaboraí, do Rio de Janeiro.

P/1 – Ele é de Itaboraí, no Rio de Janeiro?

R – É de Itaboraí.

P/1 – E com essa família de Itaboraí você teve mais contato?

R – Sim, sim...

P/1 – Seus avós paternos?

R – Minha avó, meus tios, minhas primas que são do Rio de Janeiro.

P/1 – O seu avô fazia o que em Itaboraí?

R – Ele nasceu em Saquarema que é no Rio de Janeiro. Ele foi um farmacêutico, ele tinha uma farmácia. Naquele tempo o farmacêutico era quase um médico da cidade. Não tinha médico, então ele fazia parto, ele atendia as pessoas, ele cuidava das pessoas. Então ele era uma pessoa que cuidava dos outros, dentro da farmácia.

P/1 – Como ele chamava?

R – César. César da Cunha (Shará?), Gomes da Cunha (Shará?).

P/1 – E a sua avó paterna?

R – Ela tinha um nome bem legal: Jerônima Cavalcante.

P/1 – O seu pai é Cavalcante por parte de mãe e Gomes por parte do pai.

R – Isso.

P/1 – Você nasceu em Ribeirão Preto, o seu pai nasceu em Itaboraí. Como se dá toda essa mudança de cidade pra você, filha de um fluminense com uma pernambucana, nascer no estado de São Paulo?

R – Então, a minha mãe foi morar no Rio de Janeiro e ela trabalhava num atelier de costura. Ela conheceu meu pai que era de Itaboraí e depois foi morar em Niterói. Ela conheceu meu pai num baile de carnaval, numa matinê.

P/1 – Onde?

R – No Rio de Janeiro.

P/1 – Você sabe aonde?

R – Ah, o lugar? Não, o lugar eu não sei. Eu podia perguntar depois. (risos) Mas eles se conheceram nesse baile de carnaval, casaram depois de um tempo. E meu pai era securitário, trabalhava na SulAmérica de seguros e depois meu pai foi transferido pra Ribeirão Preto. Aí nós nascemos; minha irmã primeiro, depois eu.

P/1 – E o seu pai saiu de Itaboraí por quê? Por que ele foi para o Rio de Janeiro?

R – Porque, bom, Itaboraí é muito perto de Niterói, Niterói e Rio de Janeiro. E eu acho que o meu avô faleceu e eles foram morar em Niterói.

P/1 – Foi a família inteira, sua avó também, seus irmãos? Seu pai tinha quantos irmãos ou tem?

R – Eles são em cinco.

P/1 – Cinco. Estão todos vivos ainda?

R – Estão todos vivos, todos vivos.

P/1 – Seu pai é o mais velho?

R – Ele é o mais velho.

P/1 – O que seu pai conta da infância dele, da adolescência? Você tem esse tipo de conversa com ele?

R – Eu tenho esse tipo de conversa, e eu tenho, assim, até um pouco de inveja dele, porque ele viveu uma época no Rio de Janeiro muito legal, muito sem problema, sem violência, sem... E uma época muito agitada culturalmente e divertida com o carnaval. Então ele me conta coisas, que a gente às vezes para e fala: "Puxa!", hoje você ir ao Rio de Janeiro, hoje você ir para o carnaval não é a mesma coisa que ele viveu isso. Então ele saía na rua, ele encontrava Lamartine Babo descendo lá do morro, cumprimentava. Às vezes ele conta uma história que era uma coisa cotidiana da vida dele, daí ele fala: "Então eu atravessei a rua e vi o Ary Barroso, aí eu falei pra ele: ‘Oi!’. E dei um adeus". Então eu fico vendo, poxa, que bacana isso, que maravilha, os artistas todos próximos também do povo. E uma certa alegria, ele me conta muito essas coisas e eu fico boba de ver essas coisas que ele vai contando e... Muito legal.

P/1 – Esses artistas cariocas desse período tinham uma vida boêmia muito grande. O seu pai era boêmio?

R – Ele era um pouco boêmio sim, saía à noite, se divertia. Ele era um pouco boêmio.

P/1 – Ele tinha algum dote artístico, musical? Tocava alguma coisa?

R – Não, não. Ele só gostava de passear mesmo, ele não foi músico. O meu avô tocava clarinete, ele tocava clarinete nas horas vagas dele. Até tem o clarinete do meu avô, está na minha casa. Mas o meu pai nunca, não tem nenhum dote artístico, não. Só se divertia muito, eu acho que é uma coisa bacana que eu vejo na minha família. Eu tenho um tio, que é irmão do meu pai, que ele hoje é carnavalesco. Ele foi um... Naquela época até um pouco difícil deve ter sido pra ele, Geraldo Cavalcante o nome dele, ele foi um bailarino. Um bailarino, dançava com a Dalal Achcar e fazia desfile de fantasia também. Então tem uma coisa do carnaval, da alegria que é bem presente na cidade e a minha família acho que aproveitou bastante esse tempo. E aí eu fico vendo as fotos e relatos deles e eu gosto muito disso.

P/1 – O seu tio bailarino, o seu avô ainda era vivo, incentivou ou já foi depois que ele faleceu?

R – Depois que ele faleceu.

P/1 – Você não chegou a conhecer seu avô, então.

R – Não, não conheci meu avô.

P/1 – Só sua avó?

R – Só minha avó. Minha avó incentivava, ela tinha orgulho dele, pelo que eu sei. Nessa época saíam na revista O Cruzeiro aquelas fotos de carnaval e a minha mãe conta que às vezes ela saía com a minha avó e ela falava assim: "Olha, esse moço é meu filho", falava, mostrava na revista. Então parece que ela tinha, incentivava de certa forma.

P/1 – E os outros quatro irmãos?

R – Meu pai e as minhas três tias. Elas casaram, são donas de casa e, naquela época, elas não tinham profissão, dona de casa mesmo, as três.

P/1 – Eles moram todos no Rio de Janeiro?

R – Todos no Rio, todos em Niterói agora.

P/1 – Então seu pai encontrou sua mãe no Rio de Janeiro, ele tinha migrado para o Rio. Eles se conheceram no carnaval. Você tem informações sobre o namoro, como aconteceu? O casamento foi lá mesmo no Rio?

R – É, eles casaram lá. O que a minha mãe conta: eles não tiveram um casamento muito convencional como na época casava de branco na Igreja. Eles não casaram na Igreja. Eles se conheceram nesse baile de carnaval porque a minha mãe foi com uma amiga e o namorado dessa amiga. E você só podia entrar, mulher só podia entrar acompanhada. E mulher estava com a turma dele. Daí ele viu que a minha mãe estava lá esperando alguém, que não podia entrar. E ele entrou com ela e se conheceram. Isso é o que eu sei, que eles contam.

P/1 – Por que eles não casaram na Igreja?

R – Não quiseram.

P/1 – Eles não eram religiosos?

R – Não, não são muito religiosos. Quer dizer, seguiam a Igreja, mas não quiseram casar na Igreja.

P/1 – Estamos falando do finalzinho dos anos 1950?

R – É, por aí.

P/1 – E você sabe quando seu pai e sua mãe casaram?

R – A data? Não, não sei a data.

P/1 – Eles ainda ficaram um tempo casados no Rio de Janeiro ou eles logo foram pra...

R – Não. Ficaram um tempo casados no Rio de Janeiro, depois...

P/1 – Ficaram sem filhos?

R – Sem filhos. Depois foram pra Ribeirão.

P/1 – Você sabe em que ano eles foram?

R – Não, essas datas eu não sei.

P/1 – E aí lá foi onde nasceram a sua irmã e você?

R – É.

P/1 – E como era Ribeirão Preto? Você passou lá quanto tempo da sua vida?

R – Então, eu nasci e depois de meses eu vim pra São Paulo. A gente voltava muito pra Ribeirão porque a minha irmã tinha uma madrinha, que era uma senhora, Dona Lila, que morava em Ribeirão Preto. A gente ia passar as férias lá. Ribeirão, que eu me lembre, assim, muito da minha infância, era uma cidade... Eu me lembro muito da minha casa, da rua dela, que as crianças brincavam juntas. Tinha algumas brincadeiras, era muito ensolarado. Todas as casas tinham muito aquele chão de vermelhão, de ladrilhos vermelhos encerados e canteiros bem organizados com flores, com rosas. Eu me lembro muito disso, até tenho algumas fotos. Aquela coisa organizadinha, bonita e um sol, solão.

P/1 – Mas quem acabou vivendo um pouquinho mais em Ribeirão Preto foi sua irmã, então?

R – Minha irmã.

P/1 – Você logo saiu de lá. Só pra gente ter um parâmetro na nossa conversa, você é de 1966 e sua irmã é de...?

R – De 1964. Não, não, desculpa, 1962.

P/1 – Tem quatro anos de diferença. Então ela já tinha quase cinco anos quando vocês mudaram pra São Paulo. Por que houve essa mudança, seu pai foi transferido de lá?

R – Foi transferido de novo.

P/1 – Pela SulAmérica.

R – Pela SulAmérica, SulAmérica de seguros.

P/1 – Então ele foi transferido pra capital. Isso foi uma promoção?

R – Ah, não sei te dizer.

P/1 – Você era muito pequenininha ainda. E você tem ideia de quando vocês se mudaram pra São Paulo, pra onde vocês foram morar?

R – A gente foi morar quase no mesmo bairro, Aclimação. Nós fomos morar na Aclimação, moramos a nossa vida toda, até hoje eu moro com eles. Depois nós mudamos para o Cambuci que é do lado, é o mesmo bairro Aclimação, Cambuci. Nós moramos só em dois endereços, morei só em dois endereços na minha vida.

P/1 – Quanto tempo você ficou na Aclimação?

R – Eu fiquei até os dezessete anos, até os dezesseis anos. Depois nós fomos...

P/1 – Como foi sua infância na Aclimação?

R – Ah, a Aclimação é um bairro muito bonito, tem o Parque da Aclimação que é um parque muito bonito e eu me lembro de brincar muito lá, minha infância toda eu passei lá. É um lugar muito importante pra mim, eu vou lá, eu observo, eu vejo coisas da minha infância, de sempre, da minha vida inteira. Ele é um parque pequeno, menor que o Ibirapuera, tem um quilômetro de lago, da pista do lago. Tem as árvores em cima. E esse pra mim era um caminho que eu tinha que atravessar pra ir pra escola no jardim da infância. Então a gente ia pelo Parque da Aclimação e ia brincando, ia passando por lá, vendo os patos, as árvores, as brincadeiras, as pessoas. É um lugar que eu gosto muito.

P/1 – Que rua você morava?

R – Eu morava na Rua Almeida Torres.

P/1 – E tinha uma turminha de rua...

R – Tinha umas amigas, umas amigas. Elas eram mais velhas que eu. Sempre brincava de prisioneira, advinha quem era a prisioneira?

P/1 – Como é que é a brincadeira de prisioneira?

R – De prisioneira, você pega o menor, prende, faz ele fazer tudo que eles querem. (risos) Era essa brincadeira. Era minha irmã mais velha, entre quatro anos de diferença já é uma grande diferença, não é? Dois anos já é uma grande diferença. Elas eram maiores que eu e eu brincava com elas. Eram três meninas: Eneida, Enise e Eliane, três moças que moravam do lado. E tinha os outros apartamentos, que eu morava num prédio. Tinha as outras crianças, mas elas não ficaram tão próximas da gente. A gente brincava, eu me lembro das crianças, mas essas meninas são amigas nossas até hoje, que eu me lembro são pessoas bem ligadas a nós.

P/1 – Você estudava onde?

R – Eu estudei toda a minha vida no Colégio Caetano de Campos. E conclui o terceiro ano no Objetivo. Mas eu sempre estudei no Caetano de Campos, que é um colégio estadual.

P/1 – Você chegou a estudar na Praça da República?

R – Estudei na Praça da República. O primeiro ano, que é o jardim da infância, ele foi nessa escola que era da Caetano de Campos, mas era uma outra escola, que acho que a Helen Keller cedeu o espaço pra Caetano de Campos, porque não comportava os alunos da região, a gente não podia ir pra Praça da República. Então nós ficamos lá, primeiro ano, quer dizer, o jardim da infância. Depois, no pré, eu já fui pra República. Estudei naquele colégio, que era um colégio incrível, maravilhoso. Porque eu estudei mais ou menos em, que época foi isso? 1969, 1970, era época de ditadura, completamente, uma época dura, mas ele era um colégio central de São Paulo e eu me lembro de ter contato com crianças muito, muito ricas que os pais iam buscar com chofer e tudo mais. E tinha crianças muito, muito, muito pobres, muito pobres. O colégio do estado, ele permitia isso. Aí o que fizeram? Deram um grande golpe, um grande, eu considero isso um grande golpe na educação. Eles disseram que ia passar o metrô debaixo e isso ia abalar o colégio. E aí, bom, acabou o colégio. O colégio não existe mais, quer dizer, existe o Colégio Caetano de Campos, mas foi transferido. Fizeram um colégio novo que era na Aclimação, prometendo ser um colégio modelo e muito moderno, mas no final das contas isso desestruturou tudo que tinha antes, que era essa São Paulo inteira indo para o centro da cidade. E o nível caiu, com certeza ganharam muito em cima desse novo prédio que foi...

P/1 – Você foi pra esse novo prédio na Aclimação?

R – Fui para o novo prédio, eu fui pra esse novo prédio. Foi legal. Continuei na escola, mas a gente vê que teve uma grande decadência com essa mudança do Colégio Caetano de Campos, que foi um colégio histórico. É a história da educação, do estado de São Paulo. E ele decaiu.

P/1 – Quais lembranças você tem do prédio da Praça da República?

R – Do prédio...

P/1 – Do prédio, das professoras, da convivência...

R – Ah, eu tenho lembranças muito legais também... Ao mesmo tempo sombrias, muito sombrias, porque era nesse tempo de ditadura, tinha uma regra, tinha uma rigidez de algumas professoras. Algumas professoras eram muito rígidas, talvez apoiassem o regime, talvez fossem, não é? A gente tem uma vivência de infância, uma lembrança de infância, a gente não pode saber muito bem. Tinha as bruxas e tinha as professoras muito legais, pessoas muito maravilhosas. Eu me lembro da minha primeira professora, da professora de primeiro ano que foi a dona Regina (Ralicas?). Era uma mulher muito bonita, ela era jovem, loira, ela era, assim, a nossa Susi (risos). E ela era muito delicada com as crianças, era uma delicadeza, um amor. Eu sempre me lembro dela. E ela era jovem e por ser jovem ela era mais próxima. E tinha umas outras que eu não gostava tanto. Então eu comparava muito: "Ah, a professora Regina (Ralicas?) que era ótima, essa outra é uma bruxa!". Essas coisas todas de criança.

P/1 – E a sua irmã também estudava no Caetano?

R – Não, ela estudou em outros colégios.

P/1 – Por quê?

R – Ah, era difícil conseguir uma vaga no Caetano de Campos. E ela fez... Ah, esqueci o nome do colégio que era na Aclimação, que era um bom colégio. E depois ela foi estudar em outros colégios. 

P/1 – O seu pai e a sua mãe faziam questão que as filhas estudassem?

R – Que elas estudassem? Com certeza, com certeza!

P/1 – Havia todo um empenho familiar?

R – Todo um empenho familiar pra estudar. Não, criança não ia ficar fora de escola. Não, de jeito nenhum.

P/1 – Seu pai estudou até que série?

R – Ele fez um pouco de medicina naquele tempo, mas ele desistiu porque quando meu avô faleceu tudo ficou mais difícil, aí ele não seguiu. Ele chegou a fazer um ano.

P/1 – E a adolescência, como é que foi? O começo da adolescência você ainda estava na Aclimação, nesse apartamento?

R – Ah, na adolescência também estava estudando ainda no Caetano de Campos. Ah, foi como toda adolescente, cheia de ideias na cabeça, cheia de coisas, assim. Eu queria fazer teatro, descobri que queria fazer teatro, queria ser atriz. Comecei...

P/1 – Com que idade?

R – Eu descobri aos catorze anos de idade. Eu fiz uma peça no colégio, chamava “O rapto das cebolinhas”, que foi até dirigida pelo Eduardo Silva, que hoje é ator também, quer dizer, muito tempo, ele já era ator naquela época. Ele era nosso colega de escola, mas ele era mais velho; eu tinha catorze, ele devia ter uns dezesseis mais ou menos. Ele já estava até no colegial, então ele era mais cabeça que eu até, não é? Eu do ginásio e ele do colegial. Então eu fiz essa peça que chamava “O rapto das cebolinhas”. Aí eu descobri que eu queria ser atriz, eu queria fazer teatro, eu achava o máximo. Participei de encontros na escola, de outros grupos, o grupo do Eduardo, tinha um outro que, não me lembro o nome agora, mas que... Enfim, eu fiz parte do grupo de teatro e fui fazer outros cursos fora depois. Minha adolescência foi muito em cima do teatro mesmo, de buscar cursos, de buscar conhecimento. Eu fui fazer, cheguei a fazer mímica com Paulo Yutaka, eu fiz o Asdrúbal Trouxe o Trombone. Aí depois eu conheci algumas pessoas, nós fizemos um grupo que chamava Anágua de Vênus. Era um grupo de performance, de (rapnes?) e performance. Então nós fomos vestidos caracterizados com roupa dos anos 1960, mais ou menos, isso na década de 1980, final de 1970 e pouco pra 1980. Nós fomos caracterizados com as roupas como se fosse uma festa. Eu fazia uma menina, uma criança. E nós entramos no McDonald’s com umas baixelas de prata, servindo um jantar. E tinha a mãe, que era a Sandra, com um coque na cabeça como se fosse um bolo de noiva, aquela roupa anos 1960, um vestido preto da mãe dela. O Fernando Bastos com, não me lembro muito bem, mas ele tinha uma roupa... Não era um fraque, quase um blazer. O outro menino de mordomo e a empregada. E aí fomos servindo um jantar e pedimos as comidas do McDonald’s. Aí as pessoas olhavam: "O que é isso, que absurdo", veio o gerente, começou a gritar com a gente. Ficou completamente nervoso, histérico, porque ele não estava entendendo o que é que era aquilo, o que significa. Então era uma coisa dos anos 1980, de (rapnes?), de interferir na cena urbana. E esse foi um dos que deu certo. Nós fizemos vários outros, tiveram alguns que não deram muito certo. A gente esquecia as coisas, às vezes a gente marcava e ninguém ia. "Ai, desculpe, eu não fui"; "Eu também não". Era umas coisas de adolescente. Nós fizemos isso, eu fiz isso na minha adolescência. Eu gostei muito de participar desses movimentos teatrais e de buscar o teatro, era importante na adolescência.

P/1 – Isso é uma questão interessante. Você é daquela geração que os americanos chamam de geração “x”, x-generation, nós somos na verdade. Aqui no Brasil, pelo Renato Russo, Legião Urbana, “Geração Coca-Cola”. Eu já li na Folha, principalmente na Folha, certas acusações de que nós somos a geração alienada se comparada com a geração dos anos 1960. E você está me contando de toda uma efervescência cultural no final dos anos 1970, no começo dos anos 1980 com pessoas jovens, pessoas que nasceram na época do golpe e que apesar de terem sido educadas durante a ditadura, tinham... Como é que era isso também do ponto de vista político? Tinha movimento estudantil misturado, questão de grêmio?

R – Não, não tinha muito. Eu concordo que a nossa geração, comparada à anterior, ela é alienada, porque eu acho que a gente não tinha tanta informação, essa, essa... Tinha uma vontade de fazer as coisas, mas sem saber mesmo o porquê, não é? E ao mesmo tempo queria um pouco viver fora desse ranço do ripe que a gente tinha, a gente já era mais moderno, era mais metido a moderno. Na nossa geração, não é? Tinha os freaks. A gente não era freak, mas também não era... Se considerava moderno. Chamar um adolescente de moderno é tudo que ele queria na vida. "Não sou freak, não sou...". Tinha um outro adjetivo que um amigo falava quando via alguém cabeludo: retroativo. "Esse cara é retroativo, completamente retroativo". Então era uma coisa meio metida, assim... Eu concordo mesmo que a gente é mais despolitizado, faltava pra um adolescente. Nós fomos bem mais despolitizados. Só na faculdade que ia conhecer o grêmio estudantil, os movimentos. Aí sim, mas um adolescente de ginásio, colegial, eu não vivi muito isso não. Só essa busca, mas não essa atitude política. Eu acho que era uma outra coisa, era uma outra busca. Uma busca de código de liberdade, de estética, acho que tinha um pouco mais isso.

P/1 – E você acha que era uma busca solitária ou era uma busca de um grande grupo? Como era que você via isso na sua geração, na sua classe, no seu colégio?

R – É, eu acho que se debatia com essas duas coisas, porque são grupos e tribos, várias tribos; várias tribos e o que faltava mesmo era um pouco mais de informação, de saber mesmo onde está pisando. Acho que tinha um pouco...

P/1 – Eu me expressei mal. Eu quis perguntar mesmo era se na verdade a sua atitude era uma atitude minoritária ou majoritária? Era a classe inteira?

R – Era a classe inteira, era sim. Era bastante gente que queria descobrir...

P/1 – Havia uma busca do...

R – Acho que tinha, com certeza, porque a adolescência sempre tem essa busca. Eu acho que sempre vai ter. Você pode... Mas não é a busca da geração anterior, são buscas diferentes. Mas sim...

P/1 – E como é que ela se expressava? No seu caso, o teatro. Todo mundo era teatro, havia outras manifestações?

R – Tinha a música, muita gente gostava de música também. Tinha, dentro do meu colégio, tinha essa... Mas a manifestação artística maior era o teatro.

P/1 – Havia banda se formando também?

R – Não, não. Só pequenos...

P/1 – Eu estou pensando mesmo não só naquela pessoa que consome, mas na que produz mesmo, na que vai produzir a arte, que vai produzir a expressão...

R – É porque penso assim, o Colégio Caetano de Campos era um colégio estadual, era completamente diferente de um colégio como o Equipe, o Vera Cruz, o Oswaldo Cruz que também tinham uma outra classe média. E era um colégio de bairro, ele é um colégio que foi desestruturado, que foi um colégio grande e passou a ser um colégio de bairro. Passou a servir a região da Aclimação e Cambuci. Então o universo cultural é um pouco diferente. Eu saí de um colégio que tinha essa efervescência teatral e depois fui descobrir isso em outros movimentos. Eu fui para o SESC [Serviço Social do Comércio] Pompéia fazer cursos, fui conhecer outras pessoas. Essa pessoa do Anágua de Vênus não era do meu colégio, não eram pessoas do meu colégio, eram pessoas de outros carnavais.

P/1 – Exatamente. Isso interessa muito. Como é que se dá essa passagem? Você é apresentada para o teatro nessa peça das cebolinhas. Isso era o quê? Uma atividade extracurricular, estava dentro...

R – Era extracurricular, eu acho, porque o Eduardo Silva, ele já era ator, naquela época fazia novela pra Tupi, não é? E desde criança, ele cresceu com isso. Então no colégio ele foi admirado pelas professoras. Ele tinha uma bagagem maior e ele propôs fazer “O rapto das cebolinhas” da Maria Clara Machado. E começou como quem não queria: "Vamos, o que você quer? O que você quer fazer?". E o pessoal do ginásio, do colegial e aí quem queria, aparecia lá.

P/1 – Então não havia uma política deliberada e consistente do colégio...

R – Não, não havia.

P/1 – Então foi ele, foi Eduardo Silva que já era um ator consagrado pra idade dele, já eram famosos etc., que estudando no colégio...

R – É, exatamente. Eu lembro agora de uma outra menina, negra também, que ela fazia parte do Teatro Municipal, do corpo de baile, ela era bailarina, se apresentava e tal. Ela também fez um grupo: "Ah, vamos apresentar um...". Claro que no colégio sempre tem esse espaço, os diretores querem que aconteçam coisas, mas eles também não propõem nada. Então apareceu essa menina e ela chamou algumas meninas e nós fomos fazer, fizemos uma apresentação de dança com ela, que foi muito legal, porque tinha um teatro muito bonito que até hoje existe esse teatro no Colégio Caetano de Campos. Então aconteciam movimentos que partiam dos próprios alunos.

P/1 – Vinham de baixo pra cima.

R – É, vinham de baixo pra cima. Não numa proposta do colégio, não era uma linha educacional, nada disso.

P/1 – E quantas pessoas diziam "eu quero"?

R – Muita gente, muita gente. Eu acho que...

P/1 – E como é que fazia? Por exemplo, houve um elenco para o “O rapto das cebolinhas” que não deu para o colégio inteiro. Houve uma seleção?

R – Sim, houve. Houve uma seleção, mas também não tinha tanta gente no colégio. Eu acho que... Mas houve uma seleção, sim.

P/1 – E como é que foi isso de você atender ao chamado? Quer dizer, você já tinha uma coisa dentro de você?

R – Ah, eu tinha, tinha. Eu gostava, eu achava que era o que eu queria. Eu via peças, eu comecei a me interessar por teatros e...

P/1 – Você via peças antes do “Rapto”?

R – Antes, antes.

P/1 – Você tinha por volta de catorze anos?

R – É, catorze anos.

P/1 – Catorze anos, estava em 1980. Você ia com seu pai, com sua mãe, com os amigos?

R – Eu ia com os amigos.

P/1 – Sua irmã gostava?

R – Gostava também, gostava muito.

P/1 – Sua irmã já tinha dezoito?

R – Já, já tinha dezoito. Ela ia bastante ao teatro...

P/1 – Você acha que o apoio da irmã, em relação a ela até já ser maior de idade, que sai à noite, te leva junto, isso foi importante?

R – Ah, foi importante. A gente que é caçula ver o irmão saindo antes, tendo uma vida livre, tu também quer. Você quer a chave de casa, você quer sair, você quer fazer tudo que ele faz. Só não lembro muito porque, como, mas você quer fazer parte, você quer ter asas e...

P/1 – Mas ela te levava?

R – Ah, sim. Ela me levava, me lembro que ela me levava muito ao cinema também. Ela me levava...

P/1 – Quais cinemas?

R – Ah, eu via, como chama aquele cinema que tinha na Brigadeiro que fechou? Que hoje é uma faculdade até. Eu acho que é Elétrico que chamava. Não, Elétrico é lá na... Bom, tinha um cinema...

P/1 – Elétrico era na Augusta.

R – Era na Augusta, não é? Na Augusta eu também ia. Eu ia ao Cine Clubes da cidade. No Museu Lasar Segall cheguei a ir...

P/1 – Sua irmã fazia o quê?

R – Ela fazia, ela... Bom, ela terminou o colegial, o ginásio, e foi fazer Datilografia... Não, desculpa. Secretariado é o curso, esse é o curso, Secretariado. Depois ela fez História.

P/1 – Fez história onde?

R – História na USP [Universidade de São Paulo]. E hoje ela faz Arqueologia.

P/1 – Ela já tinha essa propensão pra fazer História? Ela gostava?

R – Já, mas antes ela tentou fazer Música na USP. Depois ela desistiu, acabou desistindo. Porque ela fazia coral, ela fazia parte do Museu Lasar Segall, e ela cantava, então ela tinha uma vontade de estar no universo musical. A minha irmã também tocou muito tempo piano, desde a infância. Eu acho que ela tocou uns dez anos. Desde a infância ela aprendeu piano...

P/1 – Gosto do seu pai, da sua mãe?

R – Gosto dela mesma, viu? Foi uma coisa dela. E aí meu pai foi, matriculou a minha irmã e compraram piano. Ela começou a fazer audição de piano que era uma coisa, um evento maravilhoso! (risos) A gente se preparava, a madrinha dela morava em Ribeirão Preto e se preparava o ano inteiro pra essa audição de piano. Então ela levava duas malas: uma mala de roupa pequenininha e uma mala grande de presentes pra nós; mais pra minha irmã, porque minha irmã era, enfim, a afilhada dela. E ela vinha de Ribeirão Preto pra essa grande audição de piano. E aí eram alunas de uma professora e tocar, elas todas tocavam, tinha um auditório e elas tocavam. Eu acho que era no Colégio Nossa Senhora da Glória, é isso aí.

P/1 – Na Liberdade?

R – Não. O Nossa Senhora da Glória é no Cambuci.

P/1 – Colégio Marista.

R – Isso. Lá no auditório...

P/1 – E você não quis aprender nenhum instrumento?

R – Não. Eu tentei aprender violão, eu fiz vários anos de violão, mas os meus professores não me animavam muito não, (risos) então... Era uma professora muito velhinha. O bacana dela é que ela me ensinou a cantar, a tocar músicas muito antigas: o Uirapuru, músicas folclóricas. Mas eu era muito desafinada e não deu jeito, acabei desistindo do violão.

P/1 – E aí você começou a ir com sua irmã, quatro anos mais velha, pra cine clubes ver cinema de arte. Você lembra de algum filme que te marcou naquela época, de alguma coisa que você saiu do cinema dizendo: "AH!!!!!"?

 

(PAUSA)

P/1 – Então, Ana, pensando até numa posterior carreira de atriz, então essa coisa da sua irmã levar você para os cine clubes, que nem eram tantos assim em São Paulo e a maioria era relativamente pequena, que filme te marcou? Um diretor que você diz "nossa, que coisa bacana" pra uma adolescente?

R – Bom, eu ia com minha irmã. Minha irmã era mais velha, eu era meio “piveta”. Tinha essa coisa, então ela era mais cabeça, mais intelectual. Ela me arrastava para os filmes, tinha uns filmes sobre operariado. Eu não entendia muito. Eu ia, mas eu achava o máximo, afinal de contas minha irmã mais velha me levou e eu estou tentando entender o mundo. E eu me lembro de um filme do Herzog, agora eu não sei direito se é do Woyzeck, não sei. Mas era um filme de um operário e a vida dele. É um filme polonês. E eu achei muito legal, porque as pessoas eram muito feias, eu me liguei nisso. As pessoas eram muito feias, elas não eram atores glamorosos, hollywoodianos. E ele contava a vida desse operário. Eu me lembro que tinha uma cena de uma roda gigante e ele nesse parque com uma mulher que ele está meio apaixonado, eu me lembro dessa cena, assim, mais ou menos. E eu achava, assim, "puxa, que legal essa história com pessoas feias, nada glamoroso, nada...". E uma história de amor ali, uma coisa... E a vida dele, uma vida de luta, tal. E eu me lembro disso, assim, era outro enfoque para as coisas, era uma outra marca, porque eu era uma adolescente que colecionava Júlia, Sabrina e Júlia, que eram papel de carta. Então eu tinha um pouco, tinha algumas amigas que colecionavam essas coisas, que todo adolescente tem um pouco... Ursinho de pelúcia, umas coisas assim, meio frufruzinha. E a gente sai um pouco disso, que aí são resquícios da infância saindo. Então buscava outras coisas também e eu ia encontrando isso.

P/1 – A sua irmã chama como? 

R – Denise.

P/1 – Denise Gomes.

R – Denise Maria Cavalcante Gomes.

P/1 – Nesse surgimento da Ana Cláudia artista, da Ana Cláudia atriz, o quanto tem de Denise, o quanto tem de mamãe, o quanto tem de papai, o quanto tem de rebeldia, de você querer ser diferente? Não sei se você já pensou alguma vez nesses termos. Fazendo uma espécie de análise mesmo, como é que você vê isso?

R – Ah, eu... Bom, eu não sou atriz. Eu não segui a carreira, eu não segui por vários outros motivos, mas acho que eles me incentivariam pra seguir a carreira. E tem, acho que... Bom, sei lá. Também enrolei agora pra falar, porque... Cada um seguiu um caminho, acho que descobri minhas coisas, fui descobrir o que eu queria mesmo. A minha irmã já era um pouquinho mais, uma outra geração quase. Uma geração um pouco mais ligada, mais politizada que a minha. Uma turma mais politizada que a minha...

P/1 – Você acha que esses quatro anos já...

R – Tem, tem uma diferença grande, tem uma diferença grande.

P/1 – Você caracteriza como uma outra geração?

R – Eu acho que sim. Acho que sim, quatro, cinco... São cinco anos quase, cinco anos. Eu já tenho uma diferença grande, eu acho que sim. E eu acho que eram grupos, era outra turma. A gente buscava outras coisas. É isso.

P/1 – Essa sua trajetória no teatro, você começa com “O Rapto das cebolinhas”, depois no Caetano de Campos prossegue uma atividade ou você vai buscar fora?

R – Ah, eu fui buscar fora. Eu tive esse grupo, que são pessoas que eu conheci fazendo o Asdrúbal, tinha um curso, Asdrúbal Trouxe o Trombone, que depois eles montaram aquela peça “A Farra da Terra”. E a gente se conheceu nesse grupo, nesse curso. E aí eu fui...

P/1 – Então espera aí, deixa...

R – Eu saí do Colégio Caetano de Campos e fui fazer outros cursos fora. Eu fiz Macunaíma, fiz parte do curso do Macunaíma, fiz peças...

P/1 – Mas quando, por que foi isso? Estou pensando em termos bem de processo. Você está lá dentro do Caetano, vem aquele seu amigo Eduardo Silva, que era um aluno do seu colégio e monta uma peça. Aí você conhece o próprio Eduardo e um monte de outras pessoas que tem o mesmo interesse que você. Naquele momento você já começa... Porque é um mundo à parte. Por exemplo, eu não sou do mundo do teatro, pra mim é um mundo completamente fechado, eu não saberia por onde entrar, como quem olha uma parede e não sabe onde está a maçaneta, quer dizer, você teve o começo com esse "Rapto", como é que você entrou? Dali alguém já te indicou, você começou a ver em jornal, você...

R – É, eu fui ver, foi isso mesmo. Acho que eu vi no jornal, as pessoas falavam do Macunaíma, do curso Macunaíma e eu fui conhecer a casa. Eu fui lá e tinha que pagar, mas a gente não tinha dinheiro, meu pai não tinha grana. Aí eu fui pagar meu curso, eu fazia...

P/1 – O Macunaíma era do...?

R – Da Escola Macunaíma, que era a casa do Mário de Andrade, que era dirigido pelo Sylvio Zilber e a Myriam Muniz. Bom, eu lembro que eu fui pagar esse curso porque eu fazia alguns artesanatos, fazia umas coisas com argila e vendia naquela loja Alternativa, que hoje é Bioloja, não é? E aí era legal, eu me sentia tão livre, tão emancipada (risos), pagava meu próprio curso de teatro, era o máximo. Aí eu fiz o curso Macunaíma, depois eu fui fazer o curso do Asdrúbal...

P/1 – Asdrúbal era um produtor do Rio? Eles eram...

R – Do Rio. É, com a Regina Casé, o Hamilton Vaz Pereira.

P/1 – Veio o grupo inteiro ou só o Asdrúbal?

R – Veio o grupo inteiro. Eles deram um curso no SESC Pompéia...

P/1 – De quanto tempo?

R – De um mês, parece que foi... Foi um mês, por aí. E aí você fazia o curso e depois eles apresentaram “A Farra da Terra”, que era um espetáculo deles. Foi uma coisa muito legal, eu me lembro muito bem dessa época que foi muito divertida, conhecer, fazer um curso com alguns atores mais conhecidos e mais... Foi muito legal. E não convencionais, que era um teatro não convencional.

P/1 – E era isso que você buscava, era essa estética, você gostava do “besteirol”?

R – Eu gostava do “besteirol”, a nossa geração era do “besteirol”, do ______, era um pouco disso. Ah, eu ia buscar...

P/1 – Você lia o Planeta Diário?

R – Planeta Diário, verdade. E depois eu fui, aí eu realmente quis fazer teatro, ser atriz e fui, eu tinha isso na cabeça. Eu fui fazer... Bom, do Asdrúbal eu fui tentar... Ah, eu fiz Paulo Yutaka. Paulo Yutaka era um mímico, ele faleceu. Eu fiz também um curso com ele de mímica que era muito legal, que era uma outra proposta, era um outro jeito de teatro. Então a gente ia fazendo, ia buscando, ia tentando...

P/1 – Nesse tempo você só fazia cursos, você não estava atuando em nenhuma peça?

R – Não, não atuei. Eu cheguei a fazer um filme, o “Vera”, depois, bem depois. O “Vera”, participei do “Vera”, que ganhou prêmio, Sérgio Toledo que...

P/1 – E a família? Você vai para o Macunaíma, primeiro faz... Eles estavam na plateia do “O rapto das cebolinhas”?

R – Estavam, eles estavam...

P/1 – Aplaudiram de pé, tudo? E depois quando você veio falar "vou para o Macunaíma", eles acharam legal, seu pai e sua mãe?

R – Acharam, acharam legal sim. Às vezes reclamavam um pouco, que é uma dureza buscar tudo isso e ficavam pensando: “Ah, você quer fazer teatro, é isso mesmo?”. Mas reclamavam bastante porque depois eu fui fazer, eu fiz o filme com Sérgio Toledo, que foi uma experiência bem bacana com o “Vera”. Eu fiz Antunes Filho, mas isso você vai fazendo muito quando você é jovem e o chato é que tinha muito disso. Você investe muito em curso, investe muito o teu trabalho, o teu dinheiro e às vezes não tem um retorno tão grande. Então, ficavam um pouco preocupados: "Ah, puxa...", porque eu chegava em casa tarde, eu reclamava das coisas. Ficavam assim, mas davam um incentivo, achavam engraçado e irreverente, achavam que tudo bem.

P/1 – Eles viam isso como algo que ia ter prosseguimento? Quer dizer, que você ia ser atriz...

R – Viam, achavam sim. Achavam...

P/1 – Estavam dispostos em investir nisso também? Eles bancaram com o Asdrúbal ou você continuou?

R – Não, não. Eu que pagava tudo.

P/1 – Você pagava com o quê? Só com esse artesanato?

R – É.

P/1 – Você não tinha nenhum trabalho?

R – Não tinha nenhum trabalho, porque eu tinha quinze, dezesseis anos quando eu fiz o Asdrúbal. Então eu era bem adolescente, aí depois...

P/1 – Precisava da autorização dos pais pra fazer à noite o teatro?

R – Não, não precisava. Não precisava de autorização não.

P/1 – Aí você foi indo de curso em curso?

R – Aí eu tentei fazer o teste da EAD [Escola de Arte Dramática], eu queria me profissionalizar, entrar. Eu prestei acho que duas ou três vezes no EAD, mas não consegui. A seleção era assim: você fazia uma prova de redação, lia um livro sobre teatro, depois você fazia o teste de fogo, que você apresentava um trecho de uma peça com uma réplica ou sozinho; tinha um tempo, acho que dez, quinze minutos pra você apresentar essa peça, esse trecho, e você era escolhido por uma banca. Aí eles escolhiam, acho que de mais ou menos de 250, 300 pessoas que participavam, escolhiam quarenta. Desses quarenta, escolhiam vinte. Eu fui para os quarenta, mas não fui para os vinte. Então teve uma coisa muito triste porque eu estava muito preparada, eu achava que ia entrar. Quem me ajudou, quem me preparou para o teste foi a Myriam Muniz, que eu fiz cursos com ela também. Mas depois que eu tentei, não deu certo o EAD, eu fiquei pensando o que eu podia fazer, ainda fui fazer o Antunes Filho, que foi uma experiência meio amarga, porque eu fiquei lá seis meses e depois eu, falar mal do Antunes aqui (risos), fui mandada embora e aí depois eu fui assistir a peça e vi lá que na peça tinha coisas que eu fiz, que os meus amigos fizeram. Então ele vai meio que mandando todo mundo embora e reciclando. Eu tive umas experiências assim, os tombos que a gente...

P/1 – O processo do Antunes é um processo de educação coletiva que no final os atores que estão ali presentes encenam a peça?

R – Encenam a peça.

P/1 – E quando você diz que ele manda embora é porque ele manda pra fora do elenco?

R – Pra fora do elenco e chama outras pessoas. Quando você vai ver, você sente: "Poxa, eu criei aquilo ali. Aquilo ali fui eu".

P/1 – Que peça era?

R – “Xica da Silva”. E...

P/1 – Isso você tinha quantos anos?

R – Eu tinha uns dezenove quase, uns dezoito e pouco, dezenove.

P/1 – Você veio desde os catorze até os dezoito, dezenove crescendo no teatro.

R – É. Aí eu prestei mais uma vez. Agora, a cronologia toda certinha eu não sei. E fiz uns dois anos de Myriam Muniz e depois eu já estava meio cansada porque eu não via um resultado para as coisas. E eu senti também vontade de estudar, de ter um seguimento, uma coisa mais contínua...

P/1 – Eu vou te fazer um corte, te interpelar. Você era uma atriz, merece uma interpelação. Você disse sobre uma certa alienação, de que havia uma postura talvez mais estética do que outra coisa. E quando uma pessoa de fora do meio artístico pensa o meio artístico, pensa muito em vaidade, pensa muito em carreira global e, portanto, ganhar muito dinheiro, pensa em fama. E a isso se casaria até com uma postura: "Ah não, porque vai vaidade, estética", por uma questão puramente estética. Mas ao mesmo tempo você disse que fazia intervenções, quer dizer, toda a história que você contou do McDonald's tem a ver com o fast food, a estandardização à vida moderna, mecânica e você quebrar isso. É a nossa geração, a gente fala a mesma língua, eu me imagino fazendo uma coisa assim, que é extremamente político.

R – É, extremamente político...

P/1 – Gente, eu me sinto a Marília Gabriela hoje aqui (risos). É extremamente político. Então, me parece que por detrás dessa tua ânsia de se profissionalizar, tinha uma ideia de missão social também.

R – Tinha, sempre teve, mas eu não traduziria assim. Não traduzia, assim, tão bem, porque existiam várias tribos e nem todas as tribos eu conseguia interagir. Tinha um pessoal que começou a fazer EIT também que já mirava a Globo, já mirava... E eu não me encaixava com isso, não tinha esse perfil global. Mas eu não saberia, não tinha pensado isso. Nessa época eu não tinha essa visão, mas que as coisas se chocavam. Então o teatro que tinha alguma busca um pouco mais política ou estética era a minha. O outro, o outro não era.

P/1 – Você via o teatro como uma forma de transformação social?

R – Via, via sim, com certeza. Eu tive um outro grupo também, que eram vários amigos bacanas, que era o, inclusive faleceu o Wagner Bello, ele fez o Castelo Rá-Tim-Bum, ele foi o Etevaldo. E era uma turma muito bacana. Esse menino fazia EAD e a gente tinha um grupo com ele que chamava Jazigo de Adalgisa, que era bem na outra linha também do Anágua de Vênus. E a gente até conseguiu uma coisa fantástica, que é no Cineclube Bixiga e o outro que era o Carbono 14, que era o máximo. A gente conseguiu trabalhar pra eles. Nós fazíamos performances antes de começar o filme, eles nos contrataram. E nós poderíamos assistir todos os filmes, isso é o máximo, não é? Então a gente fazia umas apresentações antes dos filmes que tivesse um pouco a ver com alguma coisa do filme ou da plateia. Eu me lembro de uma coisa que a gente fez: era um texto do Xenofonte, o Bello falando, eu entrava cantando uma música e as pessoas do grupo iam trazendo coisas, até que a gente ficava coberto por essas coisas. Essas coisas eram assim: um carrinho de feira, uma tartaruga, uma almofada. Então essas coisas iam cobrindo, cobrindo e pronto, aí eu parava de cantar. Eram umas coisas divertidas. Muita gente dali da plateia eram nossos amigos, pessoas que cruzavam a cidade e viam a gente ali: "O que esses caras estão fazendo?", e a gente se sentia o máximo porque nós estávamos sendo super prestigiados pelo dono do Carbono 14.

P/1 – Me fala um pouco desses amigos. Não precisa ficar contando as histórias deles, mas quem eram os do Anágua de Vênus e os do Jazigo de Adalgisa? Qual o nome deles?

R – Então, o Anágua de Vênus: a Olívia, o Fernando Bastos, a Sandra e, eu me lembro o sobrenome, mas eu não lembro... E o Marcos. Esse era o pessoal que eu conheci fazendo o curso do Lázaro do Asdrúbal Trouxe o Trombone. Já o pessoal do Jazigo de Adalgisa era um pessoal mais ligado à EAD, todos queriam fazer EAD, alguns não conseguiram, outros entraram pra EAD, fazer um curso da EAD. A gente se conheceu nessa outra etapa de querer cursar a escola da USP, aí nós formamos esse grupo.

P/1 – E os nomes?

R – Ah, o Wagner Bello, a Valéria Sandalo, a Cristina Ramalho, o Sérgio Audi, a (Vidrorri?), (Vidrorri?) Balbi, a Fernanda Giacometti. Quem mais, deixa eu ver se eu esqueci de alguém, acho que não. O Casado, Silvia (Murasco?)...

P/1 – Casado? Qual é o nome dele?

R – É, esqueci o nome do Casado. Casado, chamava tanto ele de Casado que...

P/1 – Bom, voltando pra desilusão. Tentou, tentou, tentou, tentou, portas muito fechadas, e aí, por que você parou? Como estava a família nesse processo? Já estava impaciente ou não, estava deixando o barco correr?

R – Estava deixando o barco correr, não cobrava muito, porque também acho que não viviam, não sabiam como orientar; era uma coisa tão diferente da geração dos meus pais, do que eles poderiam ajudar, que eles não puderam interferir muito. Então não interferiam também, deixavam o barco correr. Aí eu estava muito indecisa também, eu queria estudar, eu queria fazer alguma coisa de concreto. Eu fui, tentei fazer rádio/TV na USP, também as minhas escolhas, eram quinze vagas pra rádio/TV; também não entrei. Até que eu entrei em Letras, eu desencanei total. Fui trabalhar na Secretaria de Cultura no almoxarifado e aí eu desencanei, fui trabalhar lá, um empreguinho, assim, burocrático, não é? E comecei a pegar as apostilas do cursinho que eu tinha feito e ler. E aí eu entrei. Prestei EAD mais uma vez, não entrei e aí eu entrei em Letras. Fui fazer Letras...

P/1 – Que ano isso?

R – Em 1988, é isso? É, 1988.

P/1 – Você tinha 22 anos.

R – Vinte e um.

P/1 – E essa sua entrada na Secretaria de Cultura, a secretária era uma atriz. Tem alguma coisa a ver ou não?

R – Não tem nada a ver. Não, era um emprego, eu trabalhava no almoxarifado e pra ser sincera...

P/1 – Como é que você conseguiu?

R – Acho que meu pai que viu alguma coisa e me indicou. Falou: "Olha, tem isso", e eu fui lá e...

P/1 – O dinheiro era razoável, dava para o gasto?

R – Era, era alguma coisa, era um emprego, não é? Batia cartão, funcionário público. Era uma coisa, assim, aí batia cartão, chegava lá e não fazia nada quase, não tinha muita coisa pra fazer, só refazer os livros. No almoxarifado você vê todo o patrimônio que existe no Estado, passava pela gente e a gente cadastrava. Era um trabalho muito, muito tranquilo.

P/1 – Você tinha quantos anos?

R – Tinha 21. Vinte e...

P/1 – Foi no mesmo ano que você entrou na USP?

R – É, foi. Tinha vinte, 21 anos.

P/1 – E a USP, você prestou o quê?

R – Eu prestei Letras, prestei português-chinês, fui fazer chinês.

P/1 – Por que chinês?

R – Era o que todo mundo perguntava, até hoje pergunta. Eu entrei em chinês, entrei em português primeiro. Podia escolher uma língua e eu fiquei em dúvida em escolher grego, porque afinal de contas tinha a ver com teatro, mas chinês eu tinha feito um curso, um pequeno curso de chinês com um grupo que fazia Tai chi chuan. Eu achei o máximo a cultura chinesa, eu gostava das coisas da cultura chinesa, queria entender mais, queria ter um acesso maior a isso. E era muito difícil, até hoje é difícil, não é? Acho que a gente não tem uma divulgação tão grande, o curso foi... Foi muito difícil ter feito o curso também, porque eles não eram muito preparados, não tinha um laboratório, não tinha apostila. Pra você ter ideia, não tinha apostila, no segundo ano que a gente foi ter uma apostila. E aí eu entrei no curso, fui assistir a uma aula e vi o professor (Sunch Aching?), que era um artista plástico chinês. Ele pintava uma pintura que, em dez minutos ele pinta numa linha só uma borboleta numa árvore, sabe? Uma coisa incrível! E ele dominava aquela técnica e eu vi aquele homem e achei o máximo, falei: "Puxa, que legal, eu acho que vou ficar aqui, vou fazer esse curso". E fiz chinês com português, coisas de dentro, difíceis, mas foi muito importante ter feito, eu acho. Um curso que... Eu não sei falar chinês, eu sei falar pouquíssimas palavras. E durante o curso de chinês, que foi quase extinto, nós fizemos um movimento na faculdade e propusemos uma festa que aconteceu durante cinco anos, durante todo o meu curso, chamava (Yaping?), um pedaço da China na USP, eu era a organizadora desse evento. A gente chamava as pessoas da comunidade chinesa e promovia uma festa. Então a programação era: começava com aula de Tai chi chuan aberta pra população, aí tinha artesanato chinês, comida chinesa, uma palestra com um médico falando sobre acupuntura, que naquela época não era nem legalizada a acupuntura. E a gente ia trazendo gente da comunidade. Isso foi muito legal, foi muito rico, porque eu consegui satisfazer uma curiosidade com a cultura chinesa; depois, lógico, também seguindo o curso de português que é do que eu vivo. Eu sou professora de língua portuguesa, dou redação para o vestibular, trabalho com vestibular e sem isso eu não viveria, só com o curso de chinês não daria, porque eu teria que ter ido pra China, eu não fui pra China também.

P/1 – Aos poucos você vai soltando as pérolas. Você falou outra coisa que tem muito a cara dos anos 1980 quando Gil canta "oriente-se, rapaz, oriente-se". Os anos 1980 no Brasil têm muito isso de descobrir o Oriente, talvez no mundo inteiro, mas no Brasil com certeza. E, de repente, um curso de Tai chi chuan, por acaso "eu fiz um curso de chinês", como é que foi isso? Quer dizer, São Paulo é a grande cidade mais oriental do Brasil. A gente pode ter pequenas cidades com muitos japoneses, mas São Paulo... Dentro de toda essa sua busca pelo novo, pelo diferente, pelo “besteirol”, pela expressão, o Oriente cruzou você também na adolescência?

R – Cruzou, nossa, cruzou. Acho que fez uma bela de uma boa parte, porque eu me ligava, eu tinha... É outro assunto, o esoterismo ligava nos anos 1980 os adolescentes também, não é? Tanto que hoje tem esse “boom” todo por essa busca. E aí eu, no Parque da Aclimação, tinha curso de Tai chi chuan, de novo o parque na minha vida.

P/1 – E você ia?

R – Eu ia, fazia. Às vezes eu ia para o Madame Satã, eu frequentava o Madame Satã. (risos)

P/1 – Eu também.

R – Era maravilhoso o Madame Satã, que era uma outra tribo. Então eu entrava em grandes crises, porque na verdade eu era mais “natureba”, mas eu também era moderna (risos), então eu ia para o Madame Satã à noite, ficava lá. Saía da balada do Madame Satã direto para o Parque da Aclimação pra fazer Tai chi chuan. Então eu não sabia onde estava, se era dark, se era freak, se eu era zen. Era uma busca na adolescência. 

P/1 – E comida macrobiótica, você foi atrás?

R – Também um pouquinho, tive a minha fase sim.

P/1 – Aprende a comer de pauzinho. No teatro você achou que teve alguma influência oriental? Você procurou buscar isso?

R – Tinha sim um pouco, porque o Paulo Yutaka, o grupo do Ponkã que eles eram, essa proposta era bem clara de incluir a busca oriental porque eram japoneses. Então eles tinham todo um... E tinha uma estética, davam uma estética um pouco oriental, era a moda, como sempre tem a moda oriental. A moda oriental é meio garantida, ela recicla um pouco, e ela ia como moda, mas eu acho que foi bacana eu ter vivido tudo isso, porque eu consegui concretizar e buscar muita coisa dentro de um estudo um pouco mais sério que é a “chinologia”, poder entender um pouco mais o pensamento oriental. Existe muito charlatão nessa linha...

P/1 – Você falou em “chinologia”?

R – “Chinologia”.

P/1 – É o estudo da China. Você disse que não aprendeu a falar chinês, o seu curso foi mais pra linha do estudo da cultura na Letras?

R – Nas artes, não é? Teve esse contato muito grande, que pra mim eu considero importante, o contato com a comunidade, entender um pouco sobre a medicina. Eu cheguei junto com outro colega, nós fizemos um guia sobre a cultura chinesa. Não está editado até hoje, hoje eu até penso nele, mas nós fizemos um estudo sobre a cultura chinesa em São Paulo. E, vamos dizer assim, tive uma satisfação da minha curiosidade, consegui satisfazer um pouco tudo isso.

P/1 – Eu imagino que haja pouca coisa sobre a China em português. Você dominou outra língua pra ter contato, o inglês ou outra coisa assim ou tentou se virar...

R – Tem um pouco sim em português. Tem porque tem Macau e em inglês um pouquinho, um pouquinho de inglês. Mas tinham os professores chineses que traduziam chinês-português, então era por eles que a gente via mais as coisas.

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa pra você: a opção por Letras, você estava pensando numa profissionalização, professora, ou no momento do vestibular você não tinha isso nada claro?

R – Eu não tinha nada claro (risos), aliás, foi tudo uma bola que foi se transformando em outra bola. Não era nem uma bola de neve, essa bola de neve virou uma bola de pelúcia, em outro material, ela foi se transformando, é mais ou menos assim. Bom, do teatro pra Letras eu achava que eu poderia escrever, que eu poderia voltar para o teatro de alguma forma, mas em Letras eu mudei completamente, porque o curso de Letras não oferecia essa dinâmica que tem o teatro, aliás, foi um balde de água fria; ele é muito mais acadêmico, muito mais voltado para o texto mesmo, nem pra produção de texto era. Eu me sentia muito podada, porque eu queria criar coisas e não tinha um laboratório de produção de textos na faculdade. Então foi pra um outro lado, e o que eu fui fazer foi adquirir conhecimento, fui ler e fui descobrir a carreira acadêmica. Depois, eu não segui a carreira acadêmica, eu sou professora. Professora não de faculdade, não trabalho na USP nem nada, mas fui fazer uma carreira com educação, eu trabalho com isso.

P/1 – No período que você fez Letras, você trabalhava de dia e estudava à noite?

R – É, trabalhava de dia e estudava à tarde. Não, desculpa. Estudava de manhã e trabalhava à tarde.

P/1 – Sempre no almoxarifado?

R – Não, não. No almoxarifado foi rapidinho, foi um ano, um ano e meio. Eu comecei a fazer trabalhos ligados até um pouco ao teatro, eu animava festas, eu fazia alguns bicos, algumas coisas assim. Depois fui trabalhar com português pra estrangeiro. Eu trabalhava com alguns trabalhos, alguns bicos.

P/1 – Com turistas estrangeiros, acredito que passa um pouco por uma oferta da própria USP.

R – Da própria USP.

P/1 – Quer dizer, a USP começa a proporcionar esse tipo de...

R – Eu trabalhei numa escola de português pra japoneses que chamava Língua e Mensagem. Era só pra japoneses, um curso só pra japoneses. Eu gostei muito de ter trabalhado nessa escola, porque...

P/1 – Sem falar japonês?

R – Sem falar japonês. Aliás, era até melhor que não falasse japonês pra não viciar o aluno, se não o aluno começa a querer conversar só em japonês. E era uma casinha na Brigadeiro e foi muito legal, porque eu consegui concretizar um pouco o que era a USP, porque as perguntas são sempre as mesmas: “O que eu estou fazendo aqui?”; “O que é isso?”. E aí quando eu saí, quando eu estava saindo, não tinha nem saído ainda, quando eu estava saindo da USP aí eu fiz esse, comecei a trabalhar nessa escola.

P/1 – E depois, você já falou várias vezes: "eu sou professora". Normalmente os professores têm orgulho, interessante, isso é um título, não é? Professor. Essa vocação para o magistério, que não deixa de ter um palco, tem uma plateia olhando, foi algo que surgiu ao longo do curso? Você disse agora esse curso de português pra estrangeiros. Como é que foi, você viu isso surgindo, como isso na prática se materializou?

R – Acho que durante o curso de Letras, bem desde o começo, eu comecei a... A gente sempre começa a dar aula pra dar um quebra galho, porque a faculdade exige muito. A USP é longe, ela toma um tempo muito grande. Você tem que se dedicar à faculdade, não sobra muito tempo pra trabalhar, então o trabalho tem que ser um pouco leve, tem que ser um pouco desligado. E aí eu fui dar aula de português pra estrangeiro. Antes de dar aula nessa escola, eu tinha alunos estrangeiros ou reforço escolar que a gente faz com alunos de ginásio, colegial. Então eu sempre comecei a ser professora aí, tendo um contato maior com os alunos.

P/1 – E depois você foi dar aula onde? Como é que você prosseguiu sua carreira de professora?

R – Então, eu dei aula bastante, alguns anos nessa escola de português pra estrangeiro. E comecei a trabalhar na Fuvest [Fundação Universitária para o Vestibular], correção de provas pra Fuvest, vestibular, participo do ENEM [Exame Nacional do Ensino Médio], que mais? Correção de provas pra vários institutos, muito...

P/1 – Você não foi então para o sistema de ensino regular?

R – Sistema de ensino regular, não...

P/1 – Ensino médio, fundamental?

R – Não, não. Eu não cheguei a trabalhar dessa forma. E aula de redação, isso sim.

P/1 – Você trabalha em curso pré-vestibular?

R – Em curso pré-vestibular.

P/1 – Como começou essa coisa do cursinho? Você dá aula hoje em cursinho?

R – Hoje eu dou.

P/1 – Em que cursinho?

R – No Alferes. Eu corrijo prova pra eles e também recebo o aluno numa sala especial, tiro dúvidas, dou aula de redação.

P/1 – Bom, vamos falar um pouquinho da mudança da Aclimação para o Cambuci. Você tinha dezessete anos, você me falou no começo da entrevista. Você notou alguma diferença?

R – Não, não notei nenhuma diferença, porque quase que são...

 

(PAUSA)

P/1 – Como é que foi a mudança para o Cambuci?

R – Não teve mudança nenhuma, porque o Cambuci é a continuação da Aclimação.

P/1 – Mas você mudou pra apartamento também?

R – Mudei pra uma casa, é verdade, foi uma grande mudança. Não o bairro em si, mas a casa, porque a gente morava num apartamento dois quartos, sala, cozinha, banheiro; eu dormia com minha irmã, eu dividia o quarto com ela. E nós mudamos pra uma casa grande, uma casa de vila, com mangueira, com vários quartos, bem mais gostosa, bem mais espaçosa. E aí foi uma grande mudança mesmo, mais legal.

P/1 – Me conte uma história, parece que quiseram demolir a vila de vocês, desconfigurar, como foi isso?

R – Não, foi assim: isso foi há alguns anos atrás. É uma vila de 29 casas, então vila é sempre de uso unifamiliar, tem até uma lei pra isso, e só pode morar família, não pode ter comércio ali. E aí...

P/1 – Desculpa Ana Cláudia, se a gente imaginar que essas entrevistas vão correr o Brasil inteiro, vila é uma coisa muito paulistana. Explica, mais ou menos, o que é uma vila.

R – Uma vila, bom, é uma ruazinha sem saída, uma rua pequeninha, sem saída e com várias casas, uma do lado da outra, casas geminadas. Eu não sei se tem vila sem ser casa geminada, eu acho que não, são casas geminadas, uma do lado da outra. E é muito legal porque você conhece as pessoas, você tem um convívio. E é um lugar pequeno, tem árvore, tem planta, tem...

P/1 – Normalmente é um miolo de quadra, não é?

R – É, um miolinho de quadra. E a minha vila fica na Rua Robertson, atrás da Lins de Vasconcelos. E lá se instalou uma Igreja Renascer em Cristo, essa Igreja é uma neopentecostal... 

P/1 – Em uma das casas da vila?

R – Não, não. A Igreja dá fundos pra vila. Aí, esses senhores quiseram comprar as casas. Tentaram comprar e compraram algumas casas e começaram a usar como templo. Aquilo que era um sossego, maravilhoso, acabou sendo um horror. E aí foi muito difícil, porque nós fizemos um movimento tentando convencê-los dizendo que eles não podiam usar daquele modo.

P/1 – Nós quem?

R – Os vizinhos. E nós fizemos uma associação, hoje eu sou presidente dessa associação. Ela chama Associação de Preservação da Vila Deodoro. Essa associação, ela não é a vila que eu moro. A vila Deodoro, ela é um pedaço de Cambuci, ela está dentro do bairro Cambuci. Então nós formamos essa associação. Essa associação hoje, nasceu dessa luta com a Renascer, tentar enquadrar a Renascer dentro do bairro...

P/1 – Deu certo?

R – Deu certo porque nós fizemos um acordo com o Ministério Público que eles foram obrigados a cumprir. Dentro da lei, que é uma lei da Luiza Erundina, que é uma lei de vila, eles têm que respeitar a vila e respeitar outros pontos de outras reclamações que o bairro também fazia. Bom, nós estamos desde 2000. Nós temos quatro anos de associação, hoje eu sou presidente dessa associação. E aí nasceu outra coisa que é legal falar, que essa associação começou a se inteirar com obras sociais do bairro. E nós ajudamos uma brinquedoteca que foi construída dentro de um balneário, o balneário do Cambuci, que hoje chama Clube da Cidade, que é um centro esportivo que estava completamente abandonado na época do Maluf. Quando entrou a Marta agora, na gestão PT [Partido dos Trabalhadores], eles reorganizaram esse espaço, que foi uma luta muito grande, e fizemos uma brinquedoteca lá que atende mais ou menos por turno trinta crianças. Tudo com o movimento voluntário, que partiu com a ideia do movimento do bairro junto com as associações do bairro. E aí ela, essa brinquedoteca, tem ajuda dos voluntários e do pessoal da Prefeitura, é uma combinação. E ela é muito legal, eu gostei muito de fazer parte desse movimento, que também não tinha muito objetivo, assim, muita estrutura do que ia fazer lá. A associação nasceu de uma necessidade e ela passou a ser uma coisa um pouco maior, de interagir com o pessoal do bairro. Tem um movimento no bairro do Cambuci, existe um movimento político, ele é liderado um pouco pelo jornal do Cambuci & Aclimação, que nasceu o núcleo do PT, quando era até proibido, se pensar um pouco, nasceu lá. Esse jornal faz a ponte da comunidade com o governo até, não é? E existem alguns movimentos artísticos também, têm os grupos de teatro lá, tem o Bairro do Volpi, é o Bairro do Volpi ali. Então têm algumas coisas que acontecem nesse bairro e eu estou agora, de certa forma, fazendo parte disso, desse movimento.

P/1 – Você falou a questão da Letras como uma possibilidade de estar escrevendo, talvez até estar escrevendo pra teatro. Quando é que surgiu a Ana Cláudia escritora? 

R – Então, surgiu daí mesmo, desse movimento. Eu comecei a escrever, mas guardar pra mim, comecei a fazer...

P/1 – Quando você começou a escrever?

R – Dentro da faculdade.

P/1 – Antes não tinha um caderninho, poesia?

R – Tinha, tinha, mas não era nada que eu dava tanto crédito não. Comecei mesmo a escrever...

P/1 – Você tem isso guardado ainda, bem antigos, da adolescência?

R – Não, acho que nem tenho, viu? Não, não tenho. Eu comecei a escrever na faculdade, eu participo até hoje de um grupo literário no Museu Lasar Segall, dirigido pela Áurea Rampazzo e o Gilson Rampazzo. Eu já tive aula com os dois, mas hoje eu só tenho com a Áurea. E é um laboratório de redação que qualquer um, é aberto ao público, qualquer um pode ir lá. Eu participo desse curso, que eu gostei muito, porque me faz pensar, assim, não... Como eu fiz Letras, às vezes as pessoas escrevem, mas não querem participar de grupos que, sei lá. O barato dele é que tem várias pessoas: pessoas que fazem Letras, pessoas que não, pessoas que fizeram o colegial, pessoas que querem se soltar na escrita. Então tem essa busca diferenciada e que é legal você não viciar, não é? 

P/1 – Então, você estava falando a questão dos grupos...

R – E de quando eu comecei a escrever. Bom, eu gosto muito de criança, eu cheguei a trabalhar na época da faculdade, trabalhei na Casa Aberta Leide das Neves com Wagner Bello num projeto dele que era um projeto ligado ao teatro e educação não formal, lá na Casa Leide das Neves. Então eu tinha contato com crianças, animação de festas, sempre com alguma coisa ligada à criança e fui pra aí, canalizei pra aí a escrita, comecei a escrever pra criança. Eu tenho outros projetos, lancei agora meu primeiro livro, chama Cozinha Animada. É um livro de contos e receitas, não é um livro de receitas. É um livro de contos e receitas. Aí tem o conto da pamonha e tem a receita da pamonha. Tem o conto da salada e...

P/1 – O conto é você quem cria?

R – Eu que crio...

P/1 – Ele é baseado em folclore?

R – Não, não. Eu criei todas as histórias, eu escrevi, saiu da minha cabeça (risos). E aí eu complemento com as receitas, é uma brincadeira, levar a criança a ler aquela história e... Arroz e feijão, ela não gosta muito de arroz e feijão, comer arroz e feijão, mas tem lá a história, vamos ver se ela se liga em ler o arroz e feijão e fazer o arroz e feijão pela história. Então a brincadeira é essa, ligar um pouco uma coisa com a outra.

P/1 – Vou fazer uma pergunta delicada. A opção pela literatura infantil, você vê como uma coisa de vocação, quer dizer, você quer se comunicar, você quer interagir com o universo da criança ou você fez uma opção de mercado?

R – Não, não. Não, eu quero me interagir com o universo da criança, isso eu tenho bem claro, porque eu acho que a linguagem da criança é muito próxima pra mim. Então, de todas essas atividades, até agora eu sou voluntária na brinquedoteca, eu não tenho filhos, eu não tenho sobrinhos, eu não tenho crianças próximas a mim. Então eu acho que tem um pouco a ver eu procurar essas crianças, esse universo infantil, pra poder viver com isso, viver perto. Escrever, eu acho que é o meu caminho mesmo, mais do que até na educação informal.

P/1 – Na época do teatro você imaginava fazer teatro infantil?

R – Imaginava, imaginava. Aliás, a primeira peça que eu fiz na vida foi infantil! 

P/1 – “O rapto das cebolinhas”! (risos)

R – “O rapto das cebolinhas”.

P/1 – Mas você era infantil também!

R – Não, não, como? Eu não era mais infantil. Se você me dissesse isso naquela época eu te estourava a boca (risos). Eu era o máximo, cabeça demais, catorze anos.

P/1 – Bom, pergunta clássica pra escritor: qual é o seu processo criativo? Você tem horário, você tem lugar, você cria em qualquer lugar, você leva um bloquinho pra anotar? Como é que é?

R – Não, tem que ser no silêncio mesmo, tem que ter um, pode ser qualquer lugar, mas esse lugar tem que ser silencioso, tem que ser tranquilo.

P/1 – Qual o seu lugar preferido?

R – A minha casa ou algum parque, praia, algum lugar tranquilo, assim. Mas mais a minha casa.

P/1 – Alguma criança te inspira?

R – Ah, várias crianças. As crianças que eu observo, as coisas que eu guardo na memória, minha infância mesmo, não é? Porque o mundo adulto é muito diferente do da criança. A criança tem uma coisa viva, alegre, solta, poética, e o adulto racional. E é isso que é bacana, a gente ver essa diferença e que a gente traz dentro da gente, mesmo que não se permita usar, soltar. É sempre um pouco pejorativo: "Você não é mais criança!". A gente sempre ouve isso, desde pequena. "Você não é mais uma criancinha!"; "Você não é mais um bebê!". Você é criança e eles estão falando isso pra você: "Você não é mais um bebê". E é sempre assim, uma coisa pejorativa às vezes. E eu acho que não, é sempre super-bacana ser criança, é bem divertido o que ela pensa, como ela tem insight das coisas. Isso que eu acho bacana. 

P/1 – Como é que você vê a criança? Essa é uma questão, você falou agora, a criança ela é esperta, pelo que você colocou a questão do insight. Tem pessoas que idealizam a criança como só alegria, outras que vêem só ignorância, como aquela pessoa que não está formada e, portanto, não entende nada. Outras que carregam mais um lado trágico. Quer dizer, como você vê a criança brasileira, a criança hoje pra quem você está escrevendo? Pra quem você está escrevendo?

R – É, eu escrevo pra criança brasileira, isso é verdade, porque eu tenho outros projetos até, focados nos heróis brasileiros. É um projeto que eu ainda estou fazendo, vamos ver se vai dar certo. Que, eu vejo a criança brasileira em especial, eu acho que a gente tem como povo, tem uma vitalidade, uma expressão maior, uma vontade de viver, na dificuldade, não é? Esse trabalho que eu faço na brinquedoteca, são crianças, não são bem carentes, elas têm pai, mãe, mas não são crianças de classe média, média alta, que podem pagar clubes, que tem um acesso a brinquedos, ao grande consumo. Mas eu vejo que a gente tem uma vontade de crescer, de brincar, tem uma espontaneidade, alegria. Eu vejo a criança brasileira que ela é isso, mesmo na grande dificuldade, mesmo as crianças bem pobres. Eu vejo, eu sinto isso, alegria e...

P/1 – Como é que você vê a televisão? Aliada, inimiga, parceira?

R – Enquanto veículo ela é aliada. Mas a TV que a gente tem hoje, a programação é uma bobagem, a não ser a Cultura, a TV Cultura. Os pouquíssimos programas, eu acho que eles imbecilizam a criança. Eles não estão no universo delas, eles não estão interagindo. Eles estão sexualizando, imbecilizando, cansando, estressando as crianças, porque criança não é ficar pulando o tempo todo, dando estímulos, choque elétrico, não é isso. E não tem, não interage com alegria, interage com uma histeria estúpida.

P/1 – Na verdade, a gente está falando em criança eu imagino que independente de classe social, existem crianças, existem faixas etárias bem delimitadas. Você foca numa faixa específica?

R – De certa forma sim, de sete à doze anos, vamos dizer, a catorze anos. De seis à catorze anos, seria essa faixa. O meu livro é mais ou menos isso, mas o que não impede de... Que eu acho que é legal, às vezes a gente ver grupos grandes de crianças brincando de criança, como a criança que eu fui; eu fui uma criança que brincava com crianças mais velhas, tem essa interação. Às vezes tem famílias que têm crianças, família grande, que as crianças interagem umas com as outras. Eu acho importante isso. Então você tem um menino de quatro anos que está brincando com outro de nove, com um de dez. Isso é legal, isso é muito legal.

P/1 – Então você pensa que as suas histórias...

R – Que elas podem ser contadas. Esse livro que eu fiz agora, ele pode ser contado pra uma criança de quatro anos. Ele vai aproveitar na medida do que der, da compreensão dele, mas pode ser contado.

P/1 – Você acredita muito no seccionamento de bebê, juvenil um ou infantil um, infantil dois...

R – Na educação na escola, sim. Eu acho que tem que delimitar essa diferença. Na TV, num produto cultural, eu acho que... Nas brincadeiras, quanto mais socializar a criança é melhor. Eu acho que é isso.

P/1 – Você teria mais alguma coisa pra falar?

R – Ih! Sei lá! (risos)

P/1 – Não sei se você quer falar dos seus planos de futuro, o que você pretende, quais são os seus sonhos. Quais são os seus sonhos?

R – Então, eu quero continuar a escrever, eu estou trabalhando num outro projeto, eu já falei. Quero conseguir escrever muitos livros, muitos livros. É isso, acho que de concreto é isso. Um sonho concreto.

P/1 – Só infantis?

R – Sim. Ah, não sei. Quem sabe, não é? Mas é o que eu quero, o que eu pesquiso agora nessa época é a criança. Então eu estou um pouco voltada para isso, para as pesquisas das brincadeiras, para as pesquisas do universo infantil, de histórias. É o que eu estou fazendo, então eu quero conseguir concretizar. Agora se... Eu até escrevo alguns outros contos em outro gênero, mas como trabalho é a criança.

P/1 – O que você pretende com a criança? Onde você quer levar a criança? Imagina a primeira página do livro, que a criança pega na mão, você quer levar até onde na página final?

R – Ah, eu acho que um pouco do humor que a própria criança tem. Não que eu tenha a dar pra ela, mas ela que tem pra me dar esse humor, o humor infantil, é a graça, a piada, a...

P/1 – Você quer fazê-la rir, você quer diverti-la?

R – Eu quero, eu quero diverti-la. É isso. Eu quero divertir a criança.

P/1 – Tem mais alguma coisa pra falar?

R – Não, não sei. Acho que não, já falei tanto.

P/1 – Eu teria muito pra perguntar, a gente não sairia daqui hoje.

R – Ah, pergunta. Se quiser perguntar! Eu já não sei falar... A Barbara podia estar aqui.

P/1 – O que você achou de ser entrevistada?

R – Ah, eu achei que foi até bom, pensei que ia ser muito pior.

P/1 – Mas o que você achou pra você? De ser bombardeada por perguntas, foi desconfortável, foi chato?

R – Não. Foi recapitular algumas coisas da vida, parecia uma terapia. Fez um pouco de terapia, você é um terapeuta agora. Ah, foi legal. Simpático você. E aí...

P/1 – O que você acha de fazer parte do acervo do Museu da Pessoa?

R – Eu gostei da ideia do Museu da Pessoa, porque a gente conta a nossa história. Você agora me falando, do jeito que você me perguntou sobre o teatro, o movimento, eu fiquei pensando: "Puxa, que legal fazer parte de algumas coisas, de alguns movimentos, de alguns ciclos de vida de outras pessoas". Então eu gostaria até de ver outros depoimentos de outras pessoas da minha idade, da minha época, pra entrelaçar isso, seria interessante. A gente vai construindo um pouco da história, um pouco da nossa história. A gente se sente um pouco uma biografia. Nossa, eu tenho uma biografia! (risos) É legal, eu acho que é importante.

P/1 – Esse é o mote do Museu da Pessoa, onde você faz parte da história. Bom, foi ótimo, eu gostaria de agradecer a você.

R – Obrigada você também, a todos do Museu, muito obrigada. Vamos ver como ficou.

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