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História

Coração de serralheiro

História de: Amauri da Silva Medeiros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/05/2014

Sinopse

Aos 18 anos, Amauri saiu do sítio dos pais em Itabaiana, na Paraíba, para ir a Recife para entrar na Rede Ferroviária, seu cunhado era professor chefe do Centro de Formação Profissional de Jaboatão e arranjou um emprego para ele na Rede como auxiliar de serralheiro, aprendendo a ‘arte’ com dois tios de seu cunhado. Conta sobre seu trabalho com as máquinas a vapor, onde construíam as locomotivas do zero, a passagem para as máquinas a diesel e as dificuldades e facilidades na oficina, que para ele foi o “coração da Rede”, pois produzia todas as peças da Rede. Amauri revela também como foi a passagem da Great Western of Brazil Railway para a Rede Estatal, uma notícia muito comemorada e que trouxe melhorias.

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História completa

P/1 – Bom, senhor Amauri, muito obrigada por ter vindo. Em primeiro lugar, boa tarde!

 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Eu queria começar a entrevista com o senhor dizendo para a gente o seu nome completo, o local e data do seu nascimento.

 

R – Amauri da Silva Medeiros. Data de nascimento, 7 de dezembro de 1926.

 

P/1 – E o senhor nasceu em que cidade?

 

R – Itabaiana, Paraíba.

 

P/1 – Itabaiana, Paraíba, muito bem. E de lá são os seus pais, não é isso?

 

R – Correto.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – João Paulo de Medeiros e Antônia Alzira da Silva.

 

P/1 – Todo mundo lá de Itabaiana, Paraíba...

 

R – São todos falecidos, né?

 

P/1 – São falecidos, mas são de lá. O senhor chegou a conhecer os seus avôs?

 

R – Conheci, o meu avô, Antônio Paulo de Medeiros.

 

P/1 – Que era pai do seu pai?

 

R – Era pai do meu pai.

 

P/1 – O senhor o conheceu bem?

 

R – Conheci. Eu ainda carreguei muito leite que o meu pai mandava eu levar lá do interior para cidade para ele se alimentar, que ele vivia doente. Naquela época, eu era garotinho.

 

P/1 – Porque o seu pai era agricultor, é isso?

 

R – O meu pai era agricultor.

 

P/1 – Mas ele tinha também criação?

 

R – Tinha. Ele tinha fazenda. Quando ele faleceu, deixou uma fazenda, para nós, para filhos, de 120 hectares de terra e deixou ainda alguns trocadinhos para nós no banco. Ele foi um bom pai. Foi um batalhador pela vida.

 

P/1 – O senhor tinha irmãos, senhor Amauri?

 

R – Nós éramos em oito. Morreram quatro e só somos quatro agora.

 

P/1 – E o senhor, nessa carreirinha de irmãos, o senhor está mais ou menos onde? O senhor é dos mais jovens ou é dos mais velhos?

 

R – Não, depois desse meu irmão que está doente, ele tem oitenta e oito anos e ele vai completar oitenta e nove, no dia primeiro de maio agora, próximo mês. E o segundo sou eu, tem mais dois, mas são mais novos.

 

P/1 – E depois de vocês dois, mais seis então?

 

R – Os outros já partiram, né? Os mais velhos.

 

P/1 – Mas vocês cresceram todos lá, em Itabaiana?

 

R – Foi. Eu mesmo saí de lá com os meus dezoito aninhos. Vim para Jaboatão e entrei na tal da Great Western of Brazil Railway, que era feito uma indústria particular, privada, né? Uma empresa privada, porque naquela época era dos ingleses. Os ingleses que mandavam.

 

P/1 – Mas eu queria voltar um pouquinho. Conta dessa fazenda do seu pai. Ela era grande com 120 hectares, o que ele fazia? Criação de gado?

 

R – Criava gado. Era gado, carneiro, ele trabalhava. Eu comecei a minha vida na roça. Com meus dezoito anos, eu vim para a cidade. Aqui, aprendi a arte, entrei na Great Western, porque quando eu entrei eram os ingleses, como eu lhe disse.

 

P/1 – Mas o senhor quando era menino estava lá na fazenda ajudando o seu pai?

 

R – Correto! Até os meus dezoito aninhos.

 

P/1 – E seus irmãos também, todos ficaram lá juntos?

 

R – Também. Vieram dois irmãos primeiro do que eu, porque a minha irmã tinha se casado com o professor Jeferson, que era professor do Centro de Formação Profissional, onde se formou muitos alunos. Estudava lá, aprendia artes e depois ia para a Rede.

 

P/1 – Porque o senhor também estudou lá em Itabaiana, não é isso? Foi a sua mãe que lhe ensinou, foi isso?

 

R – Foi. Nós aprendemos alguma coisa lá no mato mesmo. A minha mãe era inteligente, era uma matutinha do interior, mas era inteligente. Era uma mulher que tinha uma caligrafia linda! Já o meu pai, não entendia nada.

 

P/1 – E ela ensinou um pouquinho vocês...

 

R – Arrumou uma professora, levava lá para a fazenda e passava a semana ensinando a gente.

 

P/1 – Na própria fazenda do seu pai? A professora ia pra lá?

 

R – Correto.

 

P/1 – Ah, que bom!

 

R – A gente trabalhava e ela ensinava até, como eu lhe disse, não sei se foi o primeiro ano, o segundo, não sei de nada, só sei que aprendi um pouco.

 

P/1 – E a professora, o senhor lembra o nome dela?

 

R – Era professora Dorinha.

 

P/1 – Ah é?

 

R – Bom, a gente a chamava de Dorinha, né?

 

P/1 – E ela era paciente? O que o senhor lembra dela?

 

R – Era jovem, era uma moça calma. Ela tinha paciência com os alunos.

 

P/1 – E era na própria fazenda do seu pai?

 

R – Ela morava em Itabaiana. Minha mãe conseguiu por intermédio da mãe dela, que eram amigas, e conseguiu levá-la para lá.

 

P/1 – Aí, ela dava aula na casa dos seus pais? Na casa da sua mãe e do seu pai?

 

R – Perfeitamente.

 

P/1 – Era uma sala? Como que era?

 

R – Era um casarão, porque as casas das fazendas eram casarões. A casa do meu pai era um casarão, né? Sempre casa de fazenda é grande. Só que era aquela casa que não era bem construída, mas...

 

P/1 – Mas era grande.

 

R – Era grande.

 

P/1 – E aí, a molecada toda ia para aquela salinha para aprender?

 

R – Eu e meus irmãos éramos oito e mais alguns alunos, vizinhos, primos da gente, né? Iam para lá aprender. Eu sei que nós aprendemos qualquer coisa e quando crescemos... Tomamos nosso destino, né?

 

P/1 – E o senhor chegou então a trabalhar na lavoura ajudando o seu pai?

 

R – Foi! Ainda trabalhei na lavoura, trabalhei na roça um tempão ainda, na minha mocidade.

 

P/1 – E o que vocês plantavam lá?

 

R – Lá, era milho, feijão, era roça, era amendoim, de tudo a gente plantava. Era fartura! Quando a gente lucrava, era casa cheia, de tudo tinha.

 

P/1 – E a cidade de Itabaiana?

 

R – A cidade de Itabaiana, hoje em dia, está uma cidade muito bonitinha.

 

P/1 – E naquele tempo?

 

R – No meu tempo, era muito atrasada. Hoje em dia não. Tem Banco do Brasil, tem Caixa Econômica, tem várias igrejas evangélicas, quer dizer, ela cresceu muito.

 

P/1 – Passava trem lá?

 

R – Passava.

 

P/1 – O senhor andava de trem?

 

R – Andava, mas eu era ferroviário.

 

P/1 – Sim. Mas quando o senhor era garoto?

 

R – Quando eu era garoto não. Depois, que eu vim para a Rede, né?

 

P/1 – Aí, quando o senhor veio pra Rede, o senhor passou a andar de trem.

 

R – É.

 

P/1 – Mas, aí, o senhor disse que dois irmãos vieram antes, é isso?

 

R – Meus irmãos vieram antes, porque vieram para escola. Eles foram aprender na escola e, da escola, eles passaram para a Rede.

 

P/1 – Por causa do seu cunhado, né?

 

R – Do meu cunhado que era professor chefe da escola profissional. Era escola de aprendizagem, né? Porque lá ensinava todas as artes que tinham, né? Era serralheiro, era torneiro, era soldador, era marceneiro, eletricista.

 

P/1 – E essa escola era em Jaboatão?

 

R – Era em Jaboatão. E, hoje em dia, fizeram uma escola técnica que ficou a coisa mais linda do mundo agora!

 

P/1 – No mesmo lugar onde era essa escola?

 

R – No mesmo lugar onde era a profissional, agora é a escola técnica.

 

P/1 – E aí, a garotada vinha muito estudar aqui.

 

R – Perfeitamente.

 

P/1 – Aí, os seus irmãos vieram...

 

R – Vieram, se formaram lá, todos os dois como serralheiro também.

 

P/1 – E aí, o senhor resolveu vir também?

 

R – É, quando eu vim, eles já estavam. Quando eu vim, já estava com os meus dezoito aninhos, o meu cunhado tirou os meus documentos e me colocou na Great Western.

 

P/1 – Direto? O senhor nem passou pela escola?

 

R – Não, nem fui para escola porque ele tinha lá dois tios que eram encarregados de bancada e ele disse: “Meus tios, ajeitem essa garoto aí para ver se ele vai dar para arte.” Aí, eles foram comigo, me ensinando, me ensinando, me ensinando e eu entrei logo como ajudante, nem como servente eu entrei, por intermédio do meu cunhado, né? Sem eu saber de nada. Eu não entendia nada de arte. E, ali, eu fui me aperfeiçoando até que cheguei no fim de carreira, quando eu estava com vinte e cinco para vinte e seis anos, eu cheguei até no nível doze, era a última carreira que nós tínhamos na Rede. Nesse tempo, já era do governo. No tempo em que eu entrei, era Great Western, era dos ingleses. Em 1951, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou com caneta de ouro, passando para o Governo Federal e mandando eles irem para terras deles, né? Aí, depois disso, passou para o governo e foi melhorando a situação nossa, até que em 1976, eu não quis fazer opção. Eu gostava de dialogar com a minha esposa, aí, ela me disse: “Bom, meu velho, você é quem resolve. Eu mesmo lhe dou conselho que não faça, porque você já está dentro de trinta e um anos, vender o seu tempo de funcionário público federal...” Porque eu sou estatutário: “Para você ser Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), eu não cedia o acordo. Mas quem decide é você.” “Eu vou tomar o seu conselho.” Aí, eu tomei.   

 

P/1 – Ah, muito bom! Vamos voltar então um pouquinho que depois o senhor vai me contando tudo isso, aos poucos, está bom? O senhor disse que entrou como auxiliar...

 

R – Eu entrei como ajudante de serralheiro.

 

P/1 – Já na serralheria?

 

R – Já na serralheria.

 

P/1 – Só um minutinho, senhor Amauri.

 

P/1 – E o senhor então já foi direto para serralheria. Onde ficava, senhor Amauri?

 

R – Jaboatão mesmo.

 

P/1 – Em Jaboatão. Mas ali junto das oficinas?

 

R – Aquela oficina ali era o coração da Rede, porque dali saíam peças para todas as regiões: Cabedelo, Campina Grande, Maceió, até para o Ceará. Na Rede, era onde a gente construíam as máquinas. Aquelas máquinas chamavam-se Maria Fumaça que era à lenha, né? E fazia uma zuada! Era uma fumaceira no meio do mundo. (risos)

 

P/1 – E como foi para o senhor, porque o senhor era um menininho do interior, chegar na cidade? Que impressão o senhor teve? Ficou com medo?

 

R – Não, eu não fiquei com medo não. Um pouco acanhado, porque quando a gente sai do interior, a gente chega na cidade um pouco acanhado, né? Matutinho lá do interior, né? Mas, como meu cunhado me entregou a dois tios dele, que eram já profissionais, eles começaram me ensinando e dali eu fui me aperfeiçoando, de ajudante eu passei para serralheiro, foram me dando classe, classe, até que eu cheguei onde eu tinha que chegar, porque o último ponto que a gente podia chegar era o nível doze.

 

P/1 – Certo. E a essa altura, os seus irmãos estavam onde? Porque eles também fizeram serralheria.

 

R – Houve um tempo que existia muita greve na Rede. Eu não gostava. Eu detestava greve. Eu não gostava não. Eu ia embora para casa e aguardava e quando terminava a greve eu voltava, e os meus irmãos, debandaram um para os Correios e para Aeronáutica, que eram todos os dois, serralheiros bons. Um foi pra Aeronáutica e outro ficou nos Correios e de lá mesmo, eles se aposentaram.

 

P/1 – Mas quando eles fizeram o curso lá com o seu cunhado, eles não foram para a Great Western?

 

R – Foram para a Great Western.

 

P/1 – Foram também?

 

R – Todos os dois.

 

P/1 – Então, eles também estavam nessa oficina quando o senhor chegou. Quando o senhor chegou, os seus irmãos trabalhavam lá. Como chamam os seus irmãos que vieram pra cá?

 

R – Era José Medeiros e Antônio Medeiros.

 

P/1 – Então, eles já estavam, aí o seu irmão também veio e ficou aprendendo com os tios do seu cunhado.

 

R – Eu entrei primeiro do que eles, porque eles ficaram na escola. Eles ficaram na escola, foi quatro ou cinco anos. Depois que eles se formaram, todos os alunos que se formavam nessa escola profissional, depois de formado, iam para as oficinas.

 

P/1 – Mas o senhor então, acabou vindo direto e já entrou. (risos)

 

R – Fui logo começar a ganhar... Eu não me lembro nem quanto era naquela época! (risos)

 

P/1 – Mas era pouquinho?

 

R – Era pouquinho. Era dos ingleses, porque quando eu entrei, era dos ingleses.

 

P/1 – Eu sei. Mas, aí, esse dinheiro dava para quê? Não dava pra nada?

 

R – Dava para mim, porque eu morava na minha irmã. Eu e meus irmãos, a gente morava tudo junto, com a minha irmã. Deus que bote ela num bom lugar, porque ela foi muito boa para a gente. E dali, a gente cresceu.

 

P/1 – E onde era essa casa da sua irmã?

 

R – A casa que ela morava era da Rede.

 

P/1 – Da Rede?

 

R – Era Vila dos Ingleses. Porque quem tinha categoria, só quem ia para lá, era engenheiros, professores... Tinha a Vila dos Ingleses, só morava lá quem tinha um nível mais alto.

 

P/1 – Isso lá em Jaboatão mesmo?

 

R – Tudo em Jaboatão.

 

P/1 – Ficava longe do centro da cidade?

 

R – Não, ficava pertinho das oficinas.

 

P/1 – Pertinho da oficina.

 

R – É, era perto.

 

P/1 – E como era essa casa? Era boa a casa?

 

R – Ótima!

 

P/1 – É? Como que era? Tinha três quartos, dois?

 

R – Ah, tinha bem uns seis quartos!

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Era muito grande. As casas lá eram muito grandes. Nessa que eu fui morar com meu cunhado, tinha seis quartos. Atrás tinha um quintal que ele criou até uma vaca de tirar leite dos meninos dele. É, era bom lá.

 

P/1 – Era bom?

 

R – Era ótimo!

 

P/1 – O seu cunhado então, era bem conceituado também, né?

 

R – Muito! Era um professor, um homem entendido. Era a matemática viva de Jaboatão. Muito inteligente.

 

P/1 – Nós falamos o nome dele? Acho que não, né? Como chamava o seu cunhado?

 

R – Professor Jeferson de Freitas. O apelido dele era professor Nino. Outros chamavam ele de Belino. Era um careca alto, bigodão, muito inteligente. Era da família dos Freitas e a família dos Freitas era um pessoal muito inteligente. Os que eram chefe que escritório, a maioria, era tudo dos Freitas.

 

P/1 – E aí, o senhor então, começou a trabalhar com os tios dele? O senhor lembra os nomes dos tios? 

 

R – Era senhor Plácido de Freitas e Amaro de Freitas.

 

P/1 – Plácido de Freitas e Amaro de Freitas. E eles eram serralheiros e começaram a lhe ensinar?

 

R – É, eles eram encarregados de bancada. Todos os dois já.

 

P/1 – O que era um encarregado de bancada?

 

R – Na seção, tinham várias bancadas de vários tipos de trabalho, tudo pra gente construir máquinas. Tinham peças de toda qualidade, eram mancais, era manivela, eram conectores. Eram tantas...  

 

P/1 – Cada bancada mexia com uma peça?

 

R – É. Cada bancada tinha um encarregado, uma turma de operários. Naquela época, eram operários.

 

P/1 – Quantos operários eram, senhor Amauri?

 

R – Naquela época, quando eu entrei, tinha mil, duzentos e pouco. Depois passou para dois mil e tanto.

 

P/1 – Bastante gente.

 

R – Era muita gente.

 

P/1 – Mas em cada bancada tinham mais ou menos uns dez?

 

R – A bancada era grande. A bancada de serralheiro era um mundo de oficina, né? Era um espaço que só a pessoa vendo! Porque tinha várias seções. Tinha seção de serralheria, torneiro, caldeireiro, ferreiro, eletricista e outras e outras que eu me esqueço. 

 

P/1 – E todo mundo trabalhava nessas oficinas?

 

R – Todo mundo. Duas mil e tantas pessoas. Era um mundo de gente. 

 

P/1 – Porque era em turno também, senhor Amauri? Era em turno? Vocês trocavam ou todo mundo trabalhava ao mesmo tempo?

 

R – Não. Era diário. Tinha os horários. Começava das sete às quatro, aí, quem queria, ficava fazendo hora extra.

 

P/1 – Mas não funcionava de noite? Só se tinha hora extra?

 

R – Não. O máximo até dez horas da noite. Agora, quando chegava período de férias, aí, havia manutenção no maquinário, nela toda! Ficavam muitos serralheiros. Saía muita gente de férias e outros ficavam para manutenção. Quando terminava, os que ficaram saíam de férias.

 

P/1 – Então, o senhor Plácido e o senhor Amaro, começaram a lhe ensinar?

 

R – Foi. Começaram a me ensinar.

 

P/1 – E eles eram bons professores?

 

R – Para mim, eles foram ótimos! Às vezes, tinha um que se aborrecia um pouco comigo, mas, depois... Ele tinha o maior respeito pelo sobrinho, né? O sobrinho dele era filho do irmão do pai dele. O pai do professor, era irmão do pai deles, de Plácido. Aí, ele tinha um certo respeito por eles, eles gostavam muito dele. Era um sobrinho de muito respeito com eles.

 

P/1 – E eles foram então aos pouquinhos...

 

R – É, eles foram me ensinando, me ensinando e eu fui me aperfeiçoando...

 

P/1 – Como é que eles falavam para o senhor: “Amauri, vem cá!”?

 

R – É, ele mandava eu fazer uma peça. Às vezes, quando eu matava a peça, ele falava: “Rapaz, bota essa cuca para funcionar, viu?” (risos) Eu dizia: “Vai me desculpando aí!” Depois, ele me ensinava como é que se pega numa lima, para limar direitinho, colocar esquadro, medida preciosa, tudo isso tinha. E ali eu fui me aperfeiçoando, fui aprendendo, porque a Rede era uma escola. Quem entrava lá que não sabia nada, aprendia. Eu mesmo conheci aquilo como uma escola para mim. Foi ali que muitos se formaram e muitos chegaram a ser mestre, contramestre, porque era uma escola. Quem tinha inteligência na profissão, ia embora. 

 

P/1 – E o que fazia o serralheiro? Que tipo de peça? Explica para a gente.

 

R – A gente montava máquina, porque era Maria Fumaça naquela época.

 

P/1 – Então, mas ela vinha desmontada, é isso?

 

R – Não. Lá vinham as peças para gente fazer. Cada monstruosidade de barra de ferro, e ali, a gente começava levantando, fazia as furações, fazendo as peças, mandava fundir. A maioria era tudo na fundição e depois, ia montando, ia montando, e, quando pensava que não, dois ou três meses, estava uma máquina completa, que era muita gente trabalhando. E daí a máquina funcionando, haja fazer máquina e haja a Rede crescer.

 

P/1 – Mas tinham várias equipes trabalhando, né?

 

R – Várias equipes.

 

P/1 – Porque tinha o pessoal da mecânica também...

 

R – É, tinha da mecânica e tinha caldeiraria, porque tudo fazia parte.

 

P/1 – Tudo fazia parte, mas eu ainda não consegui entender. Essa máquina vinha desmontada e vocês só montavam? Vocês iam fazendo as peças todas?

 

R – Correto. Ia fazendo as peças para montar.

 

P/1 – Do zero?

 

R – Começava do zero.

 

P/1 – Senhor Amauri!

 

R – É. É porque eram muitos artistas inteligentes! Por isso que eu digo, na Rede, naquela época, ninguém ganhava dinheiro, mas tinha muito artista inteligente na Rede.

 

P/1 – Que coisa impressionante!

 

R – É impressionante. A pessoa dizia assim: “Como é que vocês faziam?” Fazia! Cada um, eu tinha uma ideia, cada um que ia fazer uma peça, um fazia de uma, outro fazia de outra, outro fazia de outra, quando pensava que não, vamos encaixar tudo e a máquina já estava funcionando.

 

P/1 – Aquele bichão todo?

 

R – Aquela monstruosidade.

 

P/1 – Que coisa, senhor Amauri!

 

R – Era... Como era o nome, meu Deus, que chamava?

 

P/1 – Daqui a pouquinho o senhor lembra.

 

R – É, agora não está na memória.

 

P/1 – Daqui a pouquinho o senhor lembra. E o senhor construiu muitas locomotivas assim, ajudou a construir?

 

R – Eu ajudei, porque eu fazia parte também, né? Eu trabalhava mais em mancais.

 

P/1 – E mancal o que é? Explica pra gente.

 

R – É aquele que ficava na roda. Porque a gente fazia a máquina, colocava a roda, ia montando e colocava cada um mancal, um monstro! Enchia de chumaço, para depois, quando estivesse pronto...

 

P/1 – É o que faz girar a roda do trem, né? Aquela coisinha que vai mexendo para um lado e para o outro, né?

 

R – Correto. Chamava-se manivela.

 

P/1 – E aquilo era difícil de se fazer, senhor Amauri?

 

R – Era difícil, mas os ferreiros faziam com uma facilidade, porque já tinham a prática. Cada qual tinha sua profissão, né? Cada um se dedicava naquela profissão.

 

P/1 – Aí, já passava para outros?

 

R – Passava para outro.

 

P/1 – Então, o ferreiro, mandava para o senhor?

 

R – Os ferreiros faziam e botavam na nossa bancada. Dali, a gente ia furar, esmerilar, aperfeiçoar, deixar toda na medida exata para colocar.

 

P/1 – O senhor falou agora a pouco, uma coisa de corte precioso, foi isso? O senhor falou alguma coisa de medida preciosa.

 

R – Medida preciosa era mais para torneiro, porque tinha peça que tinha que andar, pelo menos as manivelas, elas trabalham feito um tubo, ali, era medida preciosa, para ela entrar justinha, para não entrar ar de qualidade nenhuma. Então, chama-se medida preciosa.

 

P/1 – Qual a diferença senhor Amauri, do trabalho do serralheiro para o trabalho do torneiro? 

 

R – A diferença é porque o torneiro trabalha mais com medida. 

 

P/1 – Ele faz a peça?

 

R – Ele torneia a peça.

 

P/1 – E o serralheiro, ele só...

 

R – É montagem.

 

P/1 – Monta, dá aquele acabamento...

 

R – É, dá o acabamento para montagem e o torneiro tem que tornear aquelas peças, porque são de várias qualidades. Uma máquina tem muitas qualidades de peças para ela. Como eu lhe disse, tinha peça de medida preciosa, que é para entrar justinha.

 

P/1 – Para não ter problema.

 

R – Para não ter problema.

 

P/1 – E senhor Amauri, o senhor falou da máquina, mas e os vagões, também tinham trabalho de serralheria?  

 

R – Não. Os vagões era marcenaria, somente para marceneiro.

 

P/1 – Tudo madeira, né?

 

R – Mas e aquelas gradinhas que tinham no fundo?

 

R – As partes que tinha no fundo eram ferro. E o restante ele levantava tudo na madeira.

 

P/1 – Mas aí o serralheiro não trabalhava?

 

R – Não, ali já era marceneiro, era parte de carpinteiro, né?

 

P/1 – Nem na parte do ferro, também vocês não mexiam?

 

R – Não. Aqueles vagões eram mais com os ferreiros. 

 

P/1 – Sei. Aí, eles já faziam as peças, não precisava...

 

R – É, fazia já prontinha para colocar lá, depois eles preenchiam com madeira e estavam prontos os vagões.

 

P/1 – Então, vamos falar um pouquinho desse seu dia-a-dia. O senhor chegava às sete horas da manhã, é isso?

 

R – Eu trabalhava das sete às dezesseis, mas eu fazia muita hora extra, tinha dia que eu largava oito horas, dez. Lá mesmo a gente fazia um cafezinho, tomava um cafezinho lá mesmo. 

 

P/1 – E continuava trabalhando!

 

R – E ralava o sarrafo! (risos) Não perdia tempo.

 

P/1 – Lá tinha um refeitório pra vocês almoçarem?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Como era? Era bom?

 

R – Era comida grosseira, chamava-se “Loré” (risos). O refeitório a gente chamava de “Loré”. 

 

P/1 – Por que, senhor Amauri? (risos)

 

R – (risos) Naquela época, era feijão, carne, eles botavam qualquer verdura por dentro, mas era comida forte. Na realidade, o “Loré” era muito bom. Era conhecido pelo “Loré”.

 

P/1 – Então, o que era? Feijão, carne, verdura...

 

R – É.

 

P/1 – O que mais? Só?

 

R – Só.

 

P/1 – Todo dia?

 

R – Todo dia era aquela comida só. Agora, tinha dia que vinha carne de boi, era mais charque do que carne de boi, mas sempre eles colocavam umas verdurinhas dentro, para tapear, né? Mas era comida gorda, era gostosa!

 

P/1 – Tudo misturado junto.

 

R – Tudo misturado, ôxe!

 

P/1 – Era bom então?

 

R – Eles jogavam saco de feijão dentro de um vasilhame, feito um caldeirão bem grande para dois mil e tantos operários comer, não era brincadeira não. Mas depois teve uma época que muitos não quiseram, preferiam comer em casa. Chegou um tempo, depois que eu me casei e eu não quis mais, ia almoçar em casa, porque morava perto, dava para ir e vir tranquilo.

 

P/1 – E vocês paravam pra almoçar que horas mais ou menos?

 

R – Onze horas.

 

P/1 – Onze horas, parava, almoçava?

 

R – Uma hora de descanso.

 

P/1 – Uma hora de descanso e descansava onde, ali mesmo?

 

R – Ali mesmo. A gente ficava um conversando com o outro, às vezes, deitava e dava um cochilo, quem ficava lá. Quem ia pra casa, só dava tempo de ir, almoçar, batia um papinho com a patroa e os filhos, e depois...

 

P/1 – Voltava. E não era muito calor?

 

R – Ah, na mocidade da gente, eu mesmo, não estava nem aí! Tudo era bom para mim: moço, com muita disposição, muita saúde. Ainda hoje, eu estou com os meus oitenta e três [anos] e ainda gozo saúde.

 

P/1 – Está ótimo!

 

R – É. Eu tenho meus oitenta e três!

 

P/1 – E aí então, era pesado esse trabalho direto, o tempo inteiro... 

 

R – É. Eu trabalhei até trinta anos. Em 1976, houve as opções, mas eu não quis fazer opção, aí, quem não quis fazer, eles mandavam para casa e mandavam aguardar, se ia para as outras repartições do Governo. Eu, como não quis, fiquei em casa e quando foi em 1981, eu dei entrada na minha aposentadoria e me aposentei. 

 

P/1 – Então, mas voltando lá a oficina, vocês tinham um uniforme que vocês usavam?

 

R – Tinha. Era macacão.

 

P/1 – Que cor que era?

 

R – É pena que eu procurei para trazer o retrato, uma turma que eu tinha, era tudo de macacão. A Rede dava a roupa. 

 

P/1 – A Rede dava, mas era bastante? Como eles davam?

 

R – Eram dois por ano.

 

P/1 – E que cor era, senhor Amauri?

 

R – Quando começou, era meio azulado. E depois eles começaram a mudar, feito roupa de soldado, meio amarela. Antigamente, o saldado usava uma roupa meio amarelada.

 

P/1 – Sei, sei. Aí eles mudaram?

 

R – Aí, eles mudaram o padrão. Mas era bom porque era meio folgado e a gente trabalhava à vontade. Tinham os bolsos para gente colocar as estopas para limpar as mãos. Olhe, foi um tempo que eu trabalhei muito e vivi feliz da minha vida. Eu adorei o meu trabalho e, para mim, foi bom demais! Para mim foi uma beleza! Eu não posso falar mal da empresa. Foi a melhor empresa que eu trabalhei, porque depois que eu saí disponível, eu fui trabalhar em vários lugares, porque eu tinha oito filhos para dar de comer, e eu saí disponível em 1976. Fazia feito o Chico Anysio, né? “E o salário, óh!” Mas eu batalhei, tinha uma esposa maravilhosa que tomava conta dos filhos certinho e eu adquirindo o pão de cada dia.   

 

P/1 – E, nessa época, o senhor fez amigos com o pessoal da oficina? O senhor tinha bastante amigos ali com a sua turma?

 

R – Ah, tinha muitos! Nós considerávamos irmãos uns aos outros. A gente trabalhava tudo unido. Para mim, era tudo irmão.

 

P/1 – Todo mundo se conhecia?

 

R – É, a gente se conhecia, era amigo uns dos outros, não havia desavença. Alguns que, às vezes, nesse meio tem alguns mais alterados.

 

P/1 – Mas no geral, todo mundo se dava bem. Um ajudava o outro?

 

R – Era tudo amigo!

 

P/1 – E por que chamavam vocês de Moscouzinho? 

 

R – Moscouzinho? (risos)

 

P/1 – É. Por que, senhor Amauri?

 

R – Naquele tempo (risos), chamava Moscouzinho porque diziam que em Jaboatão tinha muito... Como é o nome?

 

P/1 – Comunista?

 

R – Comunista.

 

P/1 – E tinha mesmo lá na oficina?

 

R – Nas oficinas (risos), tinham uns que eram chegados, né?

 

P/1 – E então?

 

R – Eu mesmo, não sabia o que era e nem procurei saber.

 

P/1 – Mas o senhor ouvia falar?

 

R – E muito! Pelo menos aquele Luís Carlos Prestes era falado. Ele era um comunista naquela época. Meu Jesus! Era muita confusão. (risos)

 

P/1 – E prendiam lá os seus companheiros?

 

R – Prenderam. Saíram muitos! Porque diziam que eles eram comunistas. Eu sei que prenderam vários.

 

P/1 – Mas o que eles faziam, senhor Amauri? Eles chamavam para reunião, eles ficavam fazendo greve? O que eles faziam para ser tão grave assim?

 

R – Não, eles não faziam greve. Eu não sei lhe explicar, porque eu nunca procurei nem saber e nem quis. Eu tinha até medo dessas coisas. (risos) Quando falava o negócio de comunista, eu achava estranho. Ficava logo por fora. Era a mesma coisa de greve. Quando havia greve, a turma ficava agitando e eu ia embora. Eu nunca gostei! Eu preferia estar trabalhando, porque era atraso para empresa. Passava três, quatro, cinco dias, às vezes, oito dias de greve, isso não é brincadeira. E eu não gostava não.  Eu ia pra casa. Quem quisesse que fizesse lá... Eu mesmo, não gostava não.  

 

P/1 – Então, falando um pouquinho, de novo, do seu cotidiano, o senhor saía ou às quatro ou, dependendo da hora extra, o senhor saía um pouquinho mais tarde, ia pra casa e descansava ou se divertia, fazia alguma coisa? 

 

R – Não, não. Chegava em casa, já tomava banho na oficina porque lá tinha muitos banheiros, tinha muita água para gente tomar banho...

 

P/1 – Ah, na oficina tinha?

 

R – Tinha! Já ia de roupa trocada, chegava em casa, só era jantar, descansava um pouquinho, batia um papo com a mulher, às vezes, os meus filhos já estavam dormindo quando eu chegava, porque quando eu fazia serão de dez horas, chegava numa faixa de dez e meia, quando era cinco horas da manhã, a patroa já estava preparando o meu café, tomava o meu cafezinho, seis e quarenta, eu saía de casa e sete horas já estava dentro da oficina. 

 

P/1 – Isso depois que o senhor casou. Mas quando o senhor ainda morava lá na vila inglesa, também era assim esse cotidiano?

 

R – Era a mesma coisa.

 

P/1 – Depois os seus irmãos foram pra lá e vocês iam e voltavam juntos?

 

R – Juntos. Morava tudo junto.

 

P/1 – Dava para ir a pé, então?

 

R – Era pertinho! A gente morava na Vila dos Ingleses. Morava perto. Eram cinco minutinhos.

 

P/1 – E final de semana? Não ia pra cidade passear um pouco?

 

R – Não. Às vezes, até dia de domingo, havia hora extra e me chamavam, porque eu gostava de trabalhar: “Bora!” Eu queria era ganhar o meu dinheirinho, porque eu gostava. Aí, tinha dia de domingo que eu ia só descansar. Passava o dia, depois de um certo tempo, eu gostava de dar uma caçadinha, porque eu já cacei muito na minha vida. 

 

P/1 – Onde é que o senhor ia caçar?

 

R – Nas matas ou nos canaviais. Raposa!

 

P/1 – Lá mesmo em...?

 

R – Lá mesmo. Tinha muita usina lá, tinha a Usina Jaboatão e tinha a Usina Colônia. Era um mundo de cana, então, para gente, era o divertimento.

 

P/1 – O senhor falou cana, raposa, é isso?

 

R – É, raposa guará criava muito nas canas.

 

P/1 – No meio da cana tinham as raposas?

 

R – É, nos canaviais, a cachorrada era que achava, né? A gente criava os cachorros e ali era o divertimento bom.

 

P/1 – E, aí, me conta um pouquinho, como o senhor conheceu a sua esposa. O senhor estava me contando lá fora e eu queria que o senhor contasse aqui pra gente gravar como que o senhor conheceu sua esposa.

 

R – Ela veio tratar de uma irmã dela que o marido era ferroviário também. E nesse período, nós nos conhecemos. Então, dentro de um ano eu namorei, noivei e me casei com ela.

 

P/1 – Casou lá mesmo, em Jaboatão?

 

R – Não! Casei-me em Itabaiana.

 

P/1 – Ah! Foram pra lá. Por causa da sua mãe, né?

 

R – Fomos pra lá, porque ela trabalhava lá, né? Ela trabalhava num atelier, ela era costureira. Então, eu paquerei muito na minha mocidade com aquelas garotas de Jaboatão, mas, ela apareceu na minha vida e eu disse: “Essa criatura vai ser a dona dos meus filhos e do meu coração!” Só deu ela! Foi bom demais!

 

P/1 – Como era o nome dela?

 

R – Era Severina de Brito Jurema. Agora, quando eu me casei ficou, Severina Jurema Medeiros.

 

P/1 – Mas como é que o senhor paquerou as meninas, se o senhor trabalhava tanto? Onde que o senhor arranjava tempo para paquerar?

 

R – Porque todo domingo havia retreta. Jaboatão era muito divertida, era retreta, eram aquelas moças, aqueles rapazes, principalmente os ferroviários. Antigamente, eram operários, como eu lhe disse, porque no tempo que eu entrei na Rede, era Great Western. Ali, eram operários, então, os operários tinham um certo prestígio lá. Então, as moças de lá mesmo, procuravam mais os operários.

 

P/1 – Então, no domingo, punha uma roupa bacana e ia lá para a retreta?

 

R – É. Eu gostava de um terno de linho branco, um sapatinho nos pés, tinha a cabeleira bonita, hoje em dia não... Mas era muito bom!

 

P/1 – Tem a foto lá sua, né? Bonitão, quando era bem jovem!

 

R – É, aquele retratinho eu era jovem.

 

P/1 – E, então, ia pra lá e, aí, namorava as meninas...

 

R – É, paquerava as meninas. Eu, toda vida, fui um camarada que eu fui pensado. Eu não gostava de ir na casa delas não. Eu achava... Bom, cada um tem uma ideia, né? Eu tinha essa ideia de: “Eu não vou frequentar a casa dela, porque eu não quero me casar agora. Eu tenho que me preparar ainda.” Era muito jovem também. Eu completei vinte e cinco anos no dia 7 de dezembro, no dia 29 de dezembro, eu me casei com essa minha esposa. 

 

P/1 – Mas então, não ia para a casa da moça. Ficava só namorando ali na praça...

 

R – Só na retreta, só na rua! Passeando pra lá e pra cá.

 

P/1 – Pegando na mão...

 

R – Naquela mocidade, né? Uma pegadinha na mão, conversando, batendo papo, às vezes, sentava no jardim e levei meu tempo assim, somente trabalhando e depois, fui construir família.

 

P/1 – Aí o senhor casou lá em Itabaiana. Vocês foram para lá como? De trem também?

 

R – Nós fomos de trem e voltamos de trem.

 

P/1 – E me conta do casamento. Foi bonito?

 

R – Não foi bonito, porque não houve festa, só um bolinho. As testemunhas, foram os meus padrinhos mesmo e do lado dela, foram dois amigos dela de lá, e foi somente um bolinho com uns refrigerantezinhos. Não teve festa não.

 

P/1 – Mas sua família toda estava lá?

 

R – Estavam alguns irmãos meus e a minha mãe também foi. Mas...

 

P/1 – Eu ia lhe perguntar se quando o senhor casou, o senhor viajou para algum lugar de lua de mel.

 

R – Não. Minha lua de mel foi numa casinha que eu aluguei e nós passamos nossa lua de mel em casa mesmo.

 

P/1 – Lá mesmo em Itabaiana?

 

R – Não. Aqui em Jaboatão.

 

P/1 – O casamento foi lá e vocês voltaram pra cá?

 

R – Viemos pra cá.

 

P/1 – Mas vieram de trem também?      

 

R – De trem.

 

P/1 – O senhor só andava de trem, né?

 

R – Era só de trem. Saímos de lá três e quarenta da madrugada. Chamava-se o Bacurau.

 

P/1 – Bacurau? Por que tinha esse nome?

 

R – Por causa da hora, né? Três e quarenta da madrugada, aí, eles batizaram como Bacurau. Pronto!

 

P/1 – E vinha bastante gente que usava esse trem?

 

R – Tinha muita gente que andava neles. Porque ônibus, naquele tempo, (risos), sabe qual era o nome dos ônibus lá? O matuto de tudo aprende alguma coisa, (risos), dizia: “Lá vem a sopa!” O ônibus lá, eles chamavam sopa. (risos)

 

P/1 – Da onde o pessoal tirou sopa?

 

R – É. Por incrível que pareça. Lá vem a sopa!

 

P/1 – E a turma só gostava então de andar de trem.

 

R – Eu só andava de trem mesmo, que era...

 

P/1 – Não pagava passagem.

 

R – É, a Rede dava o passe para gente viajar.

 

P/1 – Esse trem que vinha de madrugada, é que eu queria saber. Vinha bastante gente nele?

 

R – Vinha bastante gente.

 

P/1 – Ele saía de lá três e quarenta e chegava aqui que horas?

 

R – Tinha muitas estações. Daqui pra lá e de lá pra cá. Daqui pra Itabaiana e de Itabaiana para Jaboatão.

 

P/1 – O senhor lembra das estações?

 

R – Ah, me lembro! Bom, eu pegava em Jaboatão, saltava em Socorro, Coqueiral, e de Coqueiral saltava e esperava o trem que vinha de Recife. Quando ele vinha do Recife, eu pegava no Coqueiral e vinha: Camaragibe, São Lourenço, Paudalho, era onde tem aquele santo que é bem falado? O povo fazia muita promessa pra ele. Eu me esqueci. Depois vinha Carpina, Nazaré da Mata, era Tiúma, Baraúna, Tracunhaém, Timbaúba, Rosa e Silva e Itabaiana. 

 

P/1 – São quatorze estações.

 

R – Era um bocado de estações.

 

P/1 – E ele parava em todas?

 

R – Em todas. E, em todas, ele pegava gente.

 

P/1 – Mas durava quanto tempo? Quer dizer, esse das três e quarenta, que saía lá de Itabaiana, chegava em Jaboatão, mais ou menos que horas? O senhor lembra?

 

R – Ah, não tenho lembrança não, mas...

 

P/1 – Mas era de manhã, né?

 

R – Dava para gente chegar cedo, porque, ele era Maria Fumaça, mas eles corriam muito. Naquela época, era tudo Maria Fumaça. Era a máquina preta.

 

P/1 – Corria bastante então?

 

R – Corria bastante.

 

P/1 – Mas não era perigoso eles correrem?

 

R – Não, porque eles caprichavam bem nas linhas. Eles colocavam dormentes boas e era bem seguro. Então, a gente corria tranquilo.

 

P/1 – Mas ele parava então nas estações?

 

R – Parava em todas as estações.

 

P/1 – Tinha vendedor nestas estações, tinha comércio?         

 

R – Tinha não. Tinha somente a bilheteria. Só para vender bilhetes para os passageiros para pegar e vir embora.

 

P/1 – Mas não tinha ninguém vendendo um sanduichinho, uma fruta?

 

R – Não. Na minha época não. Nas estações vendiam.

 

P/1 – Tinham aqueles vendedores, né?

 

R – É, sempre tinha.

 

P/1 – Eles entravam também no trem, não entravam?

 

R – Quando dava tempo deles entrarem, entravam, porque a demora é pouca, ele passava no máximo uns dois ou três minutos.

 

P/1 – Ficava ali e já ia embora?

 

R – É, porque tinha os horários certos, para ele ir e voltar.

 

P/1 – E esse trem, o Bacural, também era trem de carga junto com pessoas, ou não?

 

R – Não. Tinha os de passageiros e os de carga.

 

P/1 – Esse não era misto então?

 

R – Não. Era diferente. Os de passageiros eram só de passageiros e o de carga era somente para carga.

 

P/1 – Então o senhor estava dizendo que o senhor alugou a casinha em Jaboatão e já foi com a noivinha direto para casinha.

 

R – Já vim direto, já estava com os meus moveizinhos, de tudo era um pouquinho, mas ali nós vivemos, construímos família, ela foi mãe de treze filhos.  

 

P/1 – Treze filhos?

 

R – É, morreram quatro homens e uma menina, e criei seis mulheres e dois homens.

 

P/1 – Mas, depois o senhor comprou uma casa? Primeiro era só essa casinha alugada.

 

R – Depois eu comprei minha casinha e foi melhorando minha vida, fui, fui, até que, hoje em dia, meus filhos todos são casados, tenho vinte e dois netos e doze bisnetos, mas, graças a Deus, todos eles tem sua moradia. Uns tem melhor, outros tem mais fraco, mas, ninguém paga aluguel de casa.

 

P/1 – E dona Severina foi para o céu, faz...

 

R – Dona Severina, faz sete anos e quatro meses hoje. Ela morreu no dia 13 de janeiro de 2003. Hoje, ela está completando sete anos e quatro meses.

 

P/1 – Mas o senhor está levando aí a sua vida?

 

R – Estou levando a minha vida. Arrumei uma outra criatura e estou convivendo com ela e estou bem.

 

P/1 – Ah é?

 

R – É, eu só passei dois meses viúvo.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Eu fui pensado. Eu tenho umas filhas maravilhosas, mas todas elas têm obrigações com seus filhos, com seus esposos, e eu sou um pensado. Eu penso muito na minha vida. Eu digo: “Eu vou arrumar logo uma criatura pra tomar conta de mim.” Ela era casada com um sobrinho meu e eu achei que dava certo, ela é uma mulher direita. Apareceu muita gente atrás de mim!

 

P/1 – É mesmo? A mulherada foi atrás do senhor?

 

R – Claro! Sabiam que, nessa época, eu já estava aposentado. Aí, eu arrumei essa criatura e, nessa brincadeira, esse mês agora faz sete meses que a gente convive junto. Houve já umas discussõezinhas, mas isso é de família mesmo, né?

 

P/1 – Como ela chama?

 

R – Maria das Neves. Bom, até aqui, a gente vai vivendo feliz!

 

P/1 – Senhor Amauri, a vida inteira o senhor ficou na serralheria?

 

R – Meu tempo todinho foi na serralheria. Agora, eu gostava de aprender mais algumas coisas. Eu gostava de soldar, em todas as duas soldas, eu gostava de queimar um pouquinho. Eu já estava bem prático na solda elétrica. 

 

P/1 – Explica para a gente então, o que é isso que o senhor gostava. Solda elétrica, ela aplicava também em serralheria ou não?

 

R – Não, solda elétrica é soldar peças. Ferro com ferro, às vezes, peças estragadas, aí, eles completam, preenchem e dali a gente esmerilha.

 

P/1 – Foi bom o senhor falar de peças estragadas. Vocês também recuperavam as peças?

 

R – Recuperava.

 

P/1 – Não era só fazer novas, né?

 

R – Não. Quando não prestava mais, colocava tudo para sucata, mas tinham peças que dava para recuperar, aí, soldava, torneava e voltava novamente para funcionar. 

 

P/1 – Às vezes, máquina ou vagão que tinha sofrido algum acidente, ia para lá para vocês arrumarem?

 

R – Correto. Não ia tanto lá paras oficinas, ia mais para Werneck, que lá tinha um tal de dique, então, lá eles faziam o reparo rapidinho. Às vezes, queimava tudo com aquela quentura, que era grande, mas era para ser tudo rápido, no tempo dos ingleses, principalmente. Mas, depois passou para o Governo, foi que melhorou muito.

 

P/1 – Então, eu ia perguntar isso para o senhor: quando foi 1950, 1951, que passou para o Governo?

 

R – Foi.

 

P/1 – Então, vocês ficaram sabendo como que ia passar para o Governo?

 

R – Em 1951, quando foi à noite, você lembra do Repórter Esso?

 

P/1 – Lembro!

 

R – Pronto. Então: “A Great Western não é mais Great Western. O Presidente Eurico Gaspar Dutra assinou com sua caneta de ouro passando a Rede Ferroviária para o Governo e despachando os ingleses para terra deles”.

 

P/1 – Então, foi pelo rádio, pelo Repórter Esso, que vocês ficaram sabendo?

 

R – Quando foi de noite, deu no Repórter Esso. Foi a maior festa que a turma fez.

 

P/1 – É mesmo? Foi festa?

 

R – Foi festa! Foi muito bonito!

 

P/1 – Até então, ninguém sabia que isso ia acontecer?

 

R – Ninguém sabia. Quando a gente esperou que não! O operário não sabia de nada. O operário só sabia trabalhar mesmo. Era dos ingleses, depois que passou pro Governo que foi mudando, mudando, até que hoje em dia, está uma beleza.

 

P/1 – Mas me conte, então fizeram uma festa?

 

R – É, foi uma festa porque todos os ferroviários ficaram contentes, porque nós saímos de uma empresa privada para uma empresa do Governo. Quer dizer, que foi uma maravilha para nós, né? Porque na empresa privada, trabalhava demais, depois que passou pro Governo, aí, maneirou mais. Para mim, foi bom demais! Graças a Deus, eu fui muito feliz!

 

P/1 – Quer dizer, mudou, foi para o Governo, mas o senhor continua ali?

 

R – É. Eu mesmo sou considerado como um funcionário estatutário, porque eu não fiz opção, eu fiquei como estatutário.

 

P/1 – Então, mas o senhor ficou ali na Serralheria, mas o senhor continuou subindo de nível, não é isso senhor Amauri?

 

R – Fui subindo de nível.

 

P/1 – E o senhor subia de nível, por quê? Pelo tempo de serviço?

 

R – Por tempo de serviço e merecimento, porque eu, graças a Deus, fui um funcionário que cumpria com as minhas obrigações.

 

P/1 – Então, era um funcionário direitinho...

 

R – É, eu tinha minha honestidade com o meu serviço, eu era correto. Pouca licença eu tirei, eu tirava licença quando eu estava doente mesmo. Já tinham outros que gostava muito de tirar licença. Diziam: “Ah, eu vou é tirar licença!” Tinha um médico lá que te dava licença por brincadeira! Eu nunca gostei não. Só por doença mesmo.

 

P/1 – Então, fizeram uma festa e o senhor disse que melhorou. O que melhorou, além do trabalho que o senhor disse que ficou mais...?

 

R – É, aí, foi melhorando, principalmente, de salário, né? Porque, passou para o Governo e já foi melhorando mais um pouquinho o salário.

 

P/1 – E o senhor sempre nessa vidinha, quer dizer, sempre com o mesmo cotidiano, tudo direitinho?

 

R – É. Agora, hoje em dia, só quero mesmo lazer. Dar os meus passeios, ter o meu carrinho para passear...

 

P/1 – O senhor dirige?

 

R – Não. Eu não dirijo não. Eu não dirijo por causa da minha vista.

 

P/1 – É, pois é, não é bom também!

 

R – Eu ia entrando com ele (risos) lá numa levada, quase que... Se eu não fosse tão rápido no freio, eu tinha me prejudicado. Aí, eu parei!

 

P/1 – O senhor ficou sempre nessa sua rotina e foi subindo de nível, aí, o que aconteceu? O senhor falou 1976, então, em 1976, o que aconteceu? Eles mandaram fazer uma opção, é isso?  

 

R – Em 1976, houve uma opção, quem queria fazer opção de funcionário para FGTS ou CLT, então, existia um tal de “patinho de ouro”, deram uma gratificação muito boa para quem quis fazer opção. A maioria fez, muita gente fez, aliás, hoje em dia, tem muitos que se arrependeram. Eu mesmo tenho um colega que disse: “Você, Amauri, fez certo de não ter feito opção que eu mesmo fui prejudicado, eu só não, muitos que fizeram.” Eu disse: “Por isso que eu não fiz!”

 

P/1 – Aí, o senhor ficou em disponível, é isso?

 

R – Fiquei disponível.

 

P/1 – Foi para casa, então?

 

R – Fui para casa. Deram-me uma carta e eu ainda estou com ela: “Aguarde qualquer chamado para outras repartições.” Também, não mandaram me chamar. Eu não aguardei o meu tempo, porque eu não podia estar parado, minha família, naquela época, ainda ganhava pouco, eu tinha oito filhos para dar de comer, eu fui batalhar no meio do mundo. Fui pegar um trabalho em João Pessoa eu e uns colegas meus lá da Rede mesmo, já faleceram quase todos. Então, lá, a gente ganhava o nosso dinheirinho toda semana. Eu saía de casa segunda-feira três da manhã e só voltava no sábado à noite. De segunda à sábado. Sábado à noite, eu voltava. 

 

P/1 – Também em uma oficina trabalhando como serralheiro?

 

R – Serralheiro, na minha profissão. Nós fomos montar uma fábrica lá. Foi até bom porque lá a gente ganhou um dinheiro até bom. Foi uma beleza! O homem lá foi muito justo conosco. 

 

P/1 – Uma fábrica do que vocês foram montar?

 

R – Nós montamos os tornos e depois eles começaram a construir todo material plástico. Era negócio de grade de bebida, era colher, era garfo, era aqueles pratinhos plásticos, era um mundo de plástico que fabricava! Copos... Nós deixamos a fábrica funcionando. Depois, os homens lá agradeceram muito a nós, pelo desempenho que nós tivemos na fábrica.

 

P/1 – Era o senhor e alguns colegas. Quantos eram? 

 

R – Eram dez. Entre torneiro, serralheiro, eletricista e soldador.

 

P/1 – Que beleza! E o outro que vocês fizeram em João Pessoa, também foi uma oficina?

 

R – Foi lá mesmo em João Pessoa que a gente foi trabalhar. A gente foi chamado para lá. Nesse tempo, eu estava com uns quatro ou cinco meses, tudo parado, sem arrumar nada. Aí, um colega meu me chamou para ir, então digo: “Vamos!” Disse: “Pega a sua ferramenta!” Eu peguei minha ferramenta e (estralo com os dedos) e furemos o mundo.

 

P/1 – Que ferramentas que o senhor usa?

 

R – As minhas ferramentas eram: martelo, escopo que chamava talhadeira, lima. Eu peguei muita ferramenta também lá na Rede, porque eles disseram: “Pode levar, quem quiser levar.” A Rede foi muito boa por causa disso. É por isso que ainda hoje em dia eu agradeço muito e quem trabalhou nela, fala dela se não gostou, para mim, foi uma empresa maravilhosa. 

 

P/1 – Quer dizer que, na verdade, o senhor ficou então na oficina até 1976. Depois, o senhor não voltou mais pra lá?

 

R – Não. Não voltei mais não.

 

P/1 – Que coisa, não?

 

R – De lá pra cá, eu nunca mais entrei nem nada. Porque todos os anos eles me chamavam para ir nas festinhas, que todo anos, nas férias, eles fazem festa lá dentro, comida, bebida, cada um levava um prato, um negócio para fazer a festinha ou a gente dava o dinheiro para comprar, outros compravam e levava tudo. Mas foi uma beleza. Eu mesmo gostei, eu adorei os meus bons amigos e, para mim, graças a Deus, foi muito bom.

 

P/1 – E o senhor passeava com a sua esposa, quando tirava férias?

 

R – Passeava. Ia pra Itabaiana.

 

P/1 – Ah é? Sempre pra lá?

 

R – É, que os pais dela moravam lá e os pais dela moravam lá. Todas as férias a gente ia pra lá.

 

P/1 – Sempre de trem?

 

R – Era. Eu ia lá pra fazenda do meu pai, levava os meus filhos, eles lá tomavam muito leite, comiam muito queijo, porque o meu pai fazia muito queijo...

 

P/1 – Como é que era a viagem? Era gostosa?

 

R – Era gostosa! Era o trem, naquele gostoso vai e vem, né? Bom demais!

 

P/1 – Demorava umas duas, três horas?

 

R – Eram quatro horas de viagem.

 

P/1 – De Jaboatão até Itabaiana?

 

R – É, de Jaboatão até Itabaiana. Porque em toda estação para, né?

 

P/1 – Ia mudando a paisagem ou era sempre a mesma coisa?

 

R – Não, as paisagens eram as mesmas, era mato e cana. Era só o que a gente via. E ali no meio! Só tinha a linha para correr os trens e mato de um lado e de outro.

 

P/1 – O senhor pegou também a época da mudança para a máquina a diesel? Pegou né?

 

R – Cheguei a pegar. Antes de passar para o Governo, os ingleses trouxeram uma máquina a diesel. Chamava a diesel porque era a óleo. Chamava máquina a diesel. Eu agradeço muito ao meu bom Deus, porque eu só passei cinco anos trabalhando para os ingleses. Em 1951, eu me casei e passou para o Governo, no mesmo ano.

 

P/1 – Depois, quando veio a diesel, tinha também trabalho de serralheiro na máquina a diesel?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Era parecido?

 

R – Era parecido, a diferença é porque não era à lenha, era à óleo.

 

P/1 – Mas em termos de trabalho, do seu ofício, era a mesma coisa? Também tinha mancal pra fazer?

 

R – Tinha, tinha.

 

P/1 – Era tudo mais ou menos igual?

 

R – Era idêntico! Só mudava mesmo o óleo. Não era à lenha. 

 

P/1 – Não era caldeira?

 

R – Não era caldeira, era óleo. Porque todas as máquinas à diesel eram à óleo e as outras chamavam tender, porque as máquinas pretas eram tender, onde eles colocavam a madeira para colocar dentro da máquina, que era um mundo de... Não sei quantos metros, eu me esqueci, mas era uns vinte metros mais ou menos, a metragem delas, para colocar lenha para elas criarem fogo e criar força, né?

 

P/1 – Mas para serralheria, essa mudança à diesel, não fez diferença?

 

R – Não, não fez diferença quase nenhuma.

 

P/1 – Então, senhor Amauri, quando chegou em 1981, o senhor decidiu pedir a aposentadoria? Não tinham te chamado...

 

R – É, em 1981, não fui chamado para canto nenhum, aí, eu dei entrada na minha aposentadoria e me aposentei até hoje.

 

P/1 – Mas, aí, a aposentadoria ficou pequenininha?

 

R – Ficou pequenininha, mas foi crescendo um pouquinho e, hoje em dia, como funcionário público federal, era para eu ganhar mais do que ganho, mas, estou satisfeito.

 

P/1 – E dá para levar?

 

R – Dá pra levar. Ainda continuo ajudando os meus filhos que precisam, porque eu sou um bom pai, que eu já avisei a todos: “Quando precisar do seu velho pai, estou aqui, às ordens de vocês.”

 

P/1 – E, senhor Amauri, o senhor depois não fez mais nada? Depois que se aposentou em 1981, aí, o senhor se aposentou mesmo?

 

R – Não, depois que eu me aposentei, eu ainda fiquei com um salário pequeno e ainda batalhei por fora um pouco. Ainda trabalhei mais uns anos, depois, foi melhorando, melhorando, e eu disse: “Agora, não quero mais não!” Aí, parei de uma vez por todas e só lazer agora! Até quando Deus mandar me chamar! E a minha vida foi boa! Foi uma vida sofrida, mas não tenho o que dizer não! 

 

P/1 – O que o senhor mais aprendeu na sua vida?

 

R – Eu aprendi a fazer boas amizades. Foi o que eu gostei mais na minha vida: fazer boas amizades! Porque sempre eu tenho bons amigos, já morreram muitos, do meu tempo, já morreram quase todos, tenho poucos colegas... Ontem mesmo eu fui num enterro de um. Então, hoje em dia, para gente encontrar do meu tempo, são poucos, alguns. Até cabra que aprendeu alguma coisa comigo na arte, quando entrou logo como ajudante, me pedindo algumas orientações, já faleceu, não chegou ao tempo em que eu estou, na idade que eu estou, né?

 

P/1 – O senhor chegou a ensinar muita gente lá?

 

R – Não.

 

P/1 – Não? Um ou outro?

 

R – Alguns colegas meus, rapazes, que chegavam lá e que não sabiam, a maioria: “Dá uma dica aqui, me dá uma luzinha aqui!” Aí: “Rapaz, olhe, tu faz assim, assim, assim que tu chega lá!” Dava umas explicações...

 

P/1 – Eu esqueci de lhe perguntar lá atrás, tinha muita brincadeira entre vocês?

 

R – Olhe, tinham muitas brincadeiras. Lá tinha um cara que era muito brincalhão, ele gostava muito de colocar apelido nos outros.

 

P/1 – Opa! Conta aí pra gente, como que era isso.  

 

R – Esse camarada, ele botava apelido em quase todo mundo. O apelido dele era Garrafão (risos). Ele já morreu. Mas ele botava apelido em todo mundo.

 

P/1 – Que tipo de apelido? O senhor lembra algum?

 

R – Rapaz!

 

P/1 – Algum que dê para falar, porque, às vezes, tem um apelido feio por aí, né? O senhor tinha um apelido ou não?

 

R – O apelido que ele botou em mim era Rato Branco. (risos) Ele colocava apelido em todo mundo, mas eu não me lembro não.

 

P/1 – Ele era boa gente?

 

R – Ele era boa gente, era brincalhão, era um moreno, era amigo né? Ele botava apelido em todo mundo e todo mundo gostava dele! Ele não atacava nenhum, né? Às vezes, colocava apelido em alguns que não gostavam, né? Mas, levava na brincadeira.

 

P/1 – É lógico! E vocês jogavam bola, tinham algum time?

 

R – Lá eles tinham, mas eu nunca gostei não. Mas lá nas oficinas, eles fizeram um time de seções. Eles brincavam muito lá, jogavam muita bola. Toda seção tinha um time, porque tinha uma rapaziada. Eu mesmo nunca gostei de bola.

 

P/1 – Nem para assistir o jogo?

 

R – Eu torço pelo Santinha (Santa Cruz). E, pela Copa do Mundo, eu nunca deixo de torcer não.

 

P/1 – Mas acompanhava o jogo dos colegas também?

 

R – Apreciava. Ficava lá olhando... Fizeram um campinho lá dentro das oficinas mesmo e tinha as horas também, né? Vamos dizer, depois das quatro, o que largava, ia brincar, mas na hora do trabalho não! Era depois que eles largavam. Aí, eles brincavam até as cinco, cinco e meia, seis horas, dependia. Mas eu nunca gostei de futebol para jogar não.

 

P/1 – Então, foi bem divertido, né?

 

R – Foi. Foi divertido! A minha vida, como eu lhe disse, batalhei muito, lutei muito, mas eu vivo feliz! 

 

P/1 – O senhor sempre foi assim, alegre, senhor Amauri? O senhor é uma pessoa alegre, né?

 

R – Eu sempre fui. Eu era meio cabulozinho quando eu era rapazinho moço, que eu era metido a bonitão, né? Tinham certas mocinhas que me paqueravam, mas eu não gostava não. Não dava muita bola não. Era metido a enxerido, a importante, né? (risos) Mas eu, toda a vida, gostei de fazer amizades. É tão bom a gente fazer boas amizades! Tem gente que não gosta muito de amizade não. Aí, tem amizades que a gente se sai bem, mas tem outras que... Amizade com traição é que não presta, com falsidade.   

 

P/1 – E o senhor se adaptou aqui, né? Nunca quis voltar para Itabaiana, né?

 

R – Não, eu queria ir embora para minha terra. Eu queria ir trabalhar na minha terra, plantar minha roça, meu inhame, minha batata, mas minha mulher não gostava. Ela dizia: “Deus me livre! Volto para lá mais nunca!” E voltou não. Ela enterrou e está lá. E essa também não gosta não, diz que não volta lá não. Aí, ainda continuo lá. Vou terminar a minha vida lá, o que eu tinha que fazer, eu já fiz...

 

P/1 – Ah não! Ainda tá firme ainda!  Ainda dá pra fazer algumas coisas.

 

R – É, eu ainda espero viver mais uns anos, né?

 

P/1 – Lógico!

 

R – O meu pai morreu com 95! Minha mãe morreu com 84 para 85. Mas minha mãe não viveu mais porque ela passou 50 anos asmática. Aquilo era uma doença, procurando fôlego e não encontrava, era triste! Eu via e chorava! Aí, não tinha o que fazer, né? Mas sofreu muito. Minha mãe morreu em 1976, eu estava trabalhando ainda, mandaram me chamar, dizendo que ela tinha falecido. Eu pedi uma ordem lá nas oficinas, eles me deram, quando pai e mãe morrem a gente tinha três dias. Eu passei três dias em casa.

 

P/1 – Foi para Itabaiana?

 

R – Não, ela foi enterrada lá mesmo, ela estava na casa da minha irmã, na casa do professor.

 

P/1 – Ah sei, em Jaboatão.

 

R – É, estava na casa do professor Jeferson que era casado com a minha irmã. Ela faz uns quatro anos também que faleceu. Agora, os meus irmãos, só morrem tudo velho. Não morre novo não. É de 70 para lá.

 

P/1 – Então, está bom!

 

P/2 – Eu fiquei com uma curiosidade, tinha alguma peça que era mais difícil de fazer lá nas oficinas, quer era mais complicada?

 

R – Olha, a peça que eu achei pior de fazer quando eu comecei, foi um sextavado. Sextavado é feito um porca com seis travas, para deixar tudo numa medida exata. Foi a que eu achei mais difícil de fazer.

 

P/1 – E usava onde o sextavado?

 

R – Chamava-se porca, a gente fazia o sextavado e depois o torneiro, torneava para colocar no parafuso. Aquilo chamava-se porca. Era meio difícil de se fazer, viu? Você pegava um ferro redondo, aí, você traça a peça, traçava ela todinha, o sextavado, para depois limar. Cortava no escopo ou no esmeril ou na lima e, ali, deixava na medida, por igual. Onde você colocasse o esquadro, tinha que dar 90 graus. Então, era muito trabalhoso, era meio complicado. Mas fazia. Depois que a gente aprende é mais fácil.

 

P/1 – Devia demorar pra fazer?

 

R – Demorava um pouquinho.

 

P/1 – É, porque é difícil.

 

R – É, porque é mais trabalhoso, né? Agora, no esmeril era mais fácil porque a gente pegava o esmeril e era limalha para todo lado! (risos) Corria muito.

 

P/1 – Ah, essa é uma boa questão. Vocês não usavam nenhuma proteção, né?

 

R – Naquela época, não.

 

P/1 – Nada né?

 

R – Depois foi que começaram dar óculos. Teve um colega meu, que o esmeril partiu, bateu na telha, voltou e pegou na cabeça dele, no chapéu, não era capacete não, depois que começaram a usar capacete. E fez um rombo na cabeça, a coisa mais feia do mundo. Um pedaço do esmeril, subiu e voltou, porque o telhado lá, nas oficinas, era tudo ferro, bateu lá e voltou e furou a cabeça dele com chapéu, com tudo, e foi um rombo horrível. Ele passou um tempão sem trabalhar, ficou até meio... Atingiu o cérebro, né? Mas, depois ele ficou bom e voltou a trabalhar até se aposentar. Era um moreno, a gente não chamava de preto, porque antigamente, se chamava de negro, hoje em dia não pode chamar mais não! É moreno, né? Mas isso é da vida!   

 

P/1 – Mas com o senhor não teve nenhum acidente?

 

R – Graças a Deus não. Eu só tive um acidente pequeno, aqui no tendão. Eu ia puxando um carro e o outro rapaz também ia empurrando. Empurrou, foi de vez, saiu do carro e bateu: “Aqui.” Aí, tive um acidente. Mas, acidente grave, eu não tive não, graças a Deus. Nunca tive acidente grave nenhum, na Rede não, trabalhei esse tempo todinho, trinta anos na Rede, entre os ingleses e o Governo. Dentro de trinta e um anos, eu saí disponível e até me aposentei.

 

P/1 – Senhor Amauri, sabe o que eu ia pedir, põem o seu chapeuzinho para a gente gravar o senhor de chapeuzinho.

 

R – Colocar?

 

P/1 – Deixa eu ver. Olha que bonitinho! Olha aí! Ficou muito bonitinho!

 

R – Eu toda vida gostei de chapéu, desde a minha mocidade. 

 

P/1 – É? Sempre usou então?

 

R – Sempre usei. E quando não é chapéu, é gorro. Eu tenho um bocado de gorros.

 

P/1 – Independente da carequinha, que é simpática?

 

R – Independente da carequinha.

 

P/1 – Como é que foi senhor Amauri? Foi por causa da brilhantina, é isso? (risos)

 

R – A brilhantina foi que fez eu ficar careca. Mas pode olhar no meu retrato, que eu tinha uma cabeleira tão bonitinha! Eu gostava de fazer uma badolozinha na minha mocidade, era todo cheio de novidade. (risos) Dava um charme, né? Para as meninas.

 

P/1 – Pois é! Como o chapeuzinho dá um charme agora. Olha como ficou charmoso! Então, eu pedi para o senhor pôr o chapeuzinho, porque eu queria perguntar para o senhor, o seguinte: o que o senhor acha dessa ideia, da gente fazer a história da Rede com vocês que trabalharam lá?

 

R – Ótima! Adorei!

 

P/1 – Gostou de participar da entrevista? De bater papo com a gente?

 

R – Adorei! O rapaz, o Marcos, me convidou eu disse: “Pois não, estou pronto pra ir!” Então, foi um prazer!

 

P/1 – Que bom!

 

R – Aí, quando foi ontem, a Fernanda ligou, eu tenho até uma neta com o nome Fernanda! Ela ligou e eu disse: “Pois não!” “Ele vai lhe buscar lá.” Ele foi, ele errou, se perdeu e digo: “Mas rapaz, tu bateste tanta bola aqui na locomoção!” Ele disse: “Eu fui para outro canto.” Eu digo: “Eita!” Procurou outra rua.

 

P/1 – Senhor Amauri, faltou eu perguntar alguma coisa que o senhor queria dizer para a gente?

 

R – Não. Para mim, as perguntas foram ótimas. Adorei e agradeço muito, muito mesmo, pela entrevista, porque é uma satisfação muito grande estar aqui com vocês, eu contando algum passado da minha vida. E foi ótimo! 

 

P/1 – Então, está bom! Ao contrário, quem agradece somos nós, porque foi uma honra poder fazer a entrevista do senhor. Muito obrigada!

 

R – Muito agradecido! Foi um prazer!

 

P/1 – Para a gente também! Obrigada, senhor Amauri!

 

R – Pois não!

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