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História

Coração de um país

História de: José Ruy Gandra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2013

Sinopse

A entrevista de José Ruy Gandra foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 24 de outubro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Jornalista e escrito famoso, José Ruy Gandra é formado em direito pela universidade de São Paulo e história pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Ele conta que antes de entrar na faculdade já era esquerdista e participava de militância e discussões políticas. Seu interesse pela escrita é presente desde cedo em sua vida e hoje trabalha como jornalista e lançou um livro de título "coração de pai".

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História completa

Minha mãe é a caçula de uma família de nove irmãos filhos de calabreses, tanto meu avô materno como paterno eram calabreses. Já o meu pai não, meu pai já era de uma família mais tradicional, de origem portuguesa, mas que já tá há muitas gerações no Brasil. Era delegado de policia. Eu tinha uma coisa gostosa, que era o seguinte: era o filho do delegado, então eu não pagava entrada e eu leva um monte de moleque comigo, levava um bando, ia entrando todo mundo e tinham seis cadeiras: delegado de policia, delegado de policia, juiz de direito, juiz de direito, promotor de justiça, promotor de justiça, prefeito e prefeito.

Reservadas! Nossa casinha era muito simples, era uma rua que tinha umas metalúrgicas, próxima do centro, a cidade era pequenininha, a casa devia ficar uns 800 metros do centro, mas já praticamente no fim da cidade. E era uma casa pequena, de dois quartos, e uma coisa que sempre tinha o bendito quintal, que muita gente pegava esses quintais, como eram grandinhos, não eram esses quintaizinhos que a gente vê hoje, muita gente transformava esses quintais em pomares. Minha infância era pular muro pra roubar frutas, pegar manga, ficar chupando manga.

Era uma infância de muito contato com a natureza e ao mesmo tempo, também tinham as graças ai que estavam começando a rolar; o cinema, tinham as matinês, era uma coisa muito gostosa, a televisão estava começando. Lembro dos videoteipes dos noticiários. Pra mim a cena do Kennedy no carro, com a Jacqueline subindo no capô atrás a cena da morte dele é talvez uma das mais fortes que eu tenho. A minha infância foi assim, a típica infância vivida na Guerra fria, sabe? Em que cada vez mais os americanos foram se tornando heróis e que cada vez mais o resto do mundo, principalmente, os que enfrentaram os americanos na Segunda Guerra e que depois da Segunda Guerra, formaram ai o bloco soviético eram demonizados. Aos poucos, quando fui crescendo, fui virando esquerdista. Ali eram duas coisas que as pessoas faziam, ou se metiam em alguma militância politica ou discussões politicas, movimento estudantil e tal, ou ia fumar maconha.

E foram duas coisas que eu fiz assim, com muita frequência durante o colégio, acabei indo pra faculdade já como o esquerdistinha. Eu tinha um primo que eu gostava muito, que fez Jornalismo, virou jornalista. Prestei Jornalismo e Historia. E entrei na FAAP em jornalismo e na PUC em Historia. A primeira coisa que eu fiz mesmo, na verdade, o primeiro protesto que a gente fez, foi assistir a missa do Herzog, a missa de sétimo dia que o Dom Paulo Evaristo Arns rezou na Sé e ali que abriram as primeiras faixas da anistia, fim da tortura, não sei o quê… liberdades democráticas. Foi a primeira manifestação publica mesmo foi essa. Eu militei um tempo no Partido Comunista, não fui um militante de carteirinha. Mas aí, começou, por exemplo, a volta dos exilados, sabe? Então o programa da gente era ir no aeroporto receber exilado.

Quando chegou o Brizola, quando chegou o Prestes, eu fui num almoço, até, na casa do advogado dele, que era pai de um amigo meu da escola. Então, foi um negocio engraçado, porque o Olavo, um amigo nosso, que hoje é juiz, o pai dele era o Aldo Lins e Silva, que era o advogado dos presos políticos, entre eles, o Prestes. E aí, um dia, ele chegou, o Olavo e falou: “Zé Ruy, vou te falar um negocio, mas pelo amor de Deus não fala pra ninguém, sábado vai ter um almoço em casa pra pouca gente, não é muita gente e tal, mas você nem imagina quem vai ser o homenageado”, falei: “Quem?” “Luís Carlos Prestes”, E assim, estava Florestan Fernandes, Sergio Buarque de Holanda, Chico, Lula, toda PTualidade estava lá. Eu lembro que fiquei conversando muito com o Sergio Buarque de Holanda, fumando Gauloises, que ele fumava cigarro Gauloises, só fumava aquele, eu adorava Gauloises, ai fiquei filando uns Gauloises dele.

Depois trabalhei num escritório que chamava Castro e Barros, era um escritório empresarial grande e tal, hoje não tem mais. E trabalhei dois anos nele, depois, trabalhei um ano no Juridico do XI de Agosto, que você trabalha de graça, dá assessoria jurídica para a população carente. E de lá, finalmente, eu comecei a escrever, assim, no ultimo ano, eu comecei a escrever pra “Folha da Tarde”. Comecei escrevendo coluna, quinze anos atrás, dez anos atrás. Das colunas eu peguei, sei lá, cinco, dei um tratinho nelas que eram coisas que já estavam escritas e bem escritas e escrevi 40 novas. E agora lancei um livro “Coração de Pai”.

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