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Costurando o futuro

História de: Gabriele
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2019

Sinopse

Quando criança, Gabriele gostava de pintar o mar, mesmo sem nunca tê-lo conhecido. A infância foi marcada pelas tarefas domésticas, pelo escasso tempo dedicado às brincadeiras e pela violência do pai alcoólatra. Nesta entrevista, ela nos conta sobre sua vida e sua experiência no Projeto ViraVida e do sonho de dar um bom futuro a seu filho. 

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História completa

Meu nome é Gabriele. Tenho 21 anos.

Quando eu era menor, minha mãe trabalhava e o meu pai não trabalhava. E ele sempre botava mais pra mim, né? Minhas irmãs aproveitavam que minha mãe não tava em casa, eu que ia fazer as tarefas. Eu que fazia tudo dentro de casa. Lavar a louça, varrer a casa, fazer comida. Comecei a fazer comida aos sete anos de idade. 

Acordava cedo, tomava banho pra ir pra escola, chegava [ao] meio-dia. Às vezes não tinha comida pra mim, aí eu tinha que ficar até [as] onze, doze horas na escola pra esperar o almoço. Almoçava na escola e vinha embora. Sol quente, longe da minha casa. E era o jeito, né? Se quisesse estudar era assim.

Gostava de ir pra escola pra estudar mesmo, tirar a atenção lá de casa. Tinha mais a amizade das minhas amigas que das minhas próprias irmãs, aí eu preferia ir pra escola do que ficar em casa. Pra ficar em casa sendo escrava, eu ficava na escola.

Nós fazíamos desenho, pintávamos. Às vezes a professora ia pro recreio, nós ficávamos dentro da sala. Pedíamos o pincel dela, o giz, eu fazia o desenho nas paredes e pintava. Gostava de desenhar mais o mar assim, com sol, essas coisas.

Meu pai bebia cachaça. Quando ele enchia a cara mesmo ele vinha falar alguma coisa, dizendo que nós não valíamos nada, por que é que nós estávamos fazendo aquela comida, que ele queria comer a comida da mulher dele. Batia em nós com cabo de aço. Batia mesmo, sem dó, sem piedade de nós. Eu sentia muita raiva dele, muita raiva mesmo, porque ele batia em nós sem precisar. Se a minha mãe falasse alguma coisa ele batia, até hoje ele bate na minha mãe. 

Não tinha vontade de sair dizendo pra todo mundo, não, mas eu queria que acabasse. Eu tinha vontade, sempre tive. Quando ele me batia eu sempre dizia que um dia ele ia se arrepender de ficar batendo na gente, que um dia eu ia dar parte dele. Até que eu dei. Já dei parte dele duas vezes, porque ele queria matar a minha mãe de foice. Ele chegou por detrás da minha mãe, botou a foice no pescoço dela, aí eu dei um grito e saí correndo. Eu pulei o arame do fundo do quintal, chamei a minha prima - [a casa dela] era no fundo do quintal da minha mãe. Fui pra delegacia, chamei a polícia; com meia hora eles vieram. 

Ele disse que ia matar a pessoa que deu parte dele; ele já descobriu, um dia desses, que fui eu que tinha dado parte, aí ele fica com mais raiva de mim ainda. Às vezes, quando ele tá bêbado só passa na minha cara, diz que eu tenho que pagar ele, eu que tô devendo [pra] ele.

A segunda vez foi agora, no Ano-Novo. A minha mãe não queria dançar com ele. Ele já tinha me esculhambado na frente do pessoal, aí eu fui dormir [às] oito horas da noite do Réveillon. Ele ligou o som bem altão, e eu: “Não, não faz nada, não, que meu filho tá dormindo.” Ele não quis saber que meu filho tava dormindo, ligou o som no último volume e minha mãe disse que não queria dançar. Ele queria porque queria dançar, minha mãe não queria. Ele pegou minha mãe, puxou os cabelos dela; ela virou as costas e ele meteu um murro nas costas dela. Aí o som parou, minha mãe começou a chorar, só chorando, chorando. 

Eu acordei e fui lá ver o que era. O meu pai tinha tacado uma cadeira no ouvido dela... (choro) Começou a sangrar. Entrou o pé da cadeira no ouvido dela. Eu vi um pau perto de mim e taquei nele. Minha reação era de defendê-la... (choro) Era o que eu pensava, que eu tava fazendo o bem pra ela. Eu fui defendê-la, peguei o pau e taquei nele. Ele pegou o pau e tacou três vezes em mim, agarrou no meu cabelo e começou a me bater. E desse dia pra cá eu não falo mais com ele, até hoje. 

Minha mãe, na mesma hora, viu o sangue e a minha irmã foi chamar a polícia, eu fui mais ela chamar a polícia. Nós chegamos e ele já tinha ido embora com as espingardas dele, disse que ia nos matar. Quando foi com dois dias ele já tava em casa de novo e a minha mãe ajudando ele tudo de novo. Eu falei pra minha mãe, eu perguntei: “Mãe, mas a gente faz tudo, um barraco desse, chama a polícia e tudo pra senhora voltar pra ele e ele lhe bater de novo?” Ela disse que ele era meu pai, que eu não tinha nem que ter entrado na confusão deles dois. Ainda hoje ela tá com ele.

Quando vejo que ele tá bebendo eu passo; passo o final de semana na casa das minhas amigas, pra não falar com ele, pra não vê-lo porque senão acontece outra coisa de novo. 

 

Eu comecei a trabalhar com catorze anos de idade numas casas de família, longe de casa; chegava de quinze em quinze dias. Comecei a trabalhar, catei o meu dinheiro e… [Quando] eu chegava em casa, se tivesse uma comida que eu não gostava, ela mandava eu trabalhar. Ela: “Vai trabalhar, se tu quiser uma comida boa que tu goste.” Eu resolvi, com quatorze anos de idade, trabalhar por conta própria. Ganhava pouco, mas pra mim era muito, né? Aí eu ia pra casa de família.

A mulher foi me buscar lá na porta da casa da minha tia pra trabalhar na casa dela. Chegou lá, ela disse que era pra eu fazer só o serviço básico, passar o pano, fazer alguma comida, requentar alguma comida. Quando eu cheguei lá tava me explorando, não queria nem deixar mais eu vir de quinze em quinze dias pra minha casa. Tive que ficar lá.

A mulher dele saiu, aí ele mandou eu ir no quarto dele pra pegar as roupas, que estavam sujas, pra botar na máquina. Quando eu cheguei lá ele tava só de cueca. Ele perguntou: “Tira bem aqui minhas meias dos meus pés.” Eu disse pra ele que não tava lá pra tirar a meia de pé de ninguém, eu tava lá pra fazer a limpeza da casa. Ele disse assim: “Droga, apanha essa cueca que tá no chão.” Eu disse pra ele: “Também não vou apanhar, não, serve pra botar as cuecas no cesto.” Ele falou, olhou pra mim… Ele já tava querendo tirar a roupa, aí eu corri. Quando eu corri o pedreiro saiu do meio, eu fechei a porta, ele arrebentou a porta do meu quarto. Queria porque queria fazer alguma coisa comigo. Ficava dizendo que eu era muito bonitinha. Que desse nome, Gabriele, gostava muito porque a sobrinha dele tinha o nome Gabriele também. Eu comecei a gritar, até que a mulher dele chegou. Eu falei pra mulher dele e ela disse que não acreditava, que o marido dela não era disso. Ela disse: “Já é a segunda vez que chega alguma pessoa me contando, mas eu não acredito. Porque meu marido não é disso.”

Na mesma hora, eu disse pra ela que eu queria ir embora: “Eu quero me ir embora, senão eu vou chamar a polícia.” Ela foi me deixar na casa da minha tia. Minha tia não tava lá; eu fiquei sozinha, no meio da rua, esperando a minha tia chegar do serviço de noite. Ela chegou, eu entrei e contei pra ela. Ela veio me deixar na minha casa, na zona rural de novo, com a minha mãe.

Depois trabalhei numa casa boa mesmo. O pessoal me tratava como filha. Não queriam que eu viesse embora, não queriam. Eu passei lá sete meses, só mesmo cuidando do filho dela e fazendo a comida pra nós dois, porque ela disse que não queria que eu fizesse outra coisa, mas que eu ficasse cuidando do filho dela. Nós íamos pra escola junto. Ele estudava numa escola particular e eu, na pública; eu ia deixar ele lá e ia pra minha escola. Todo dia eu fazia assim. Passei lá sete meses. Foi o tempo que eu engravidei, aí não fui mais trabalhar lá. 

Eu falei pro pai do meu filho que eu tava grávida. Aí ele: “Tá bom, nós assumimos esse menino.” 

O pai do meu filho, até antes de eu fazer alguma relação sexual, ele sempre andava lá em casa. Ele é amigo do meu pai, ele sempre sai mais [com] o meu pai, andava lá em casa direto. Ele pediu ao pai pra eu ir pra festa mais ele, aí o pai deixava, confiava só nele pra eu ir pras festas. Até que um dia nós estávamos vindo; no meio do caminho nós namoramos, começamos a namorar.

Ele é pedreiro. (risos) Não é uma profissão como essas profissões grandes, mas é uma profissão digna, né? Ele era pedreiro, só que hoje em dia ele não é mais. A carta dele é assinada, mas ele não é mais pedreiro. Ele agora abastece cerâmica. Cuida de cerâmica, de construção, ele abastece. 

Nós não temos onde morar. Ele tá na casa da mãe dele e eu tô na casa da minha mãe, só que ele vai lá pra casa. Nós não discutimos à toa, nós não brigamos. Às vezes, quando eu puxo uma conversa pra brigar com ele, ele sai e diz que depois vem, pra nós não discutirmos.

Ele bebe, mas não é daqueles de andar bebendo do jeito do meu pai, não. Ele nunca triscou o dedo em mim. Nunca, nunca. E nem há de triscar. Eu disse pra ele que o dia que ele triscar em mim, que eu dou parte dele. Eu dou parte dele na Delegacia da Mulher.

Ele me ajuda com as coisas do menino, comigo mesmo. Toda semana ele recebe o dinheiro dele; ele tira cinquenta reais e dá o resto todinho na minha mão. “Toma aí o dinheiro do neném.”

Assim que eu engravidei, minha irmã, que tinha engravidado primeiro, passou os nove meses dela de gestação na Casa, que é uma casa de apoio a jovens com risco de vulnerabilidade, jovens grávidas. Ela passou os nove meses dela lá, fazendo enxoval. Aí me chamou, perguntou se eu não queria participar da Casa. Eu disse que queria, que só tinha dezessete anos e que queria. Ela me encaminhou pra lá. Nós chegávamos lá às oito horas da manhã, já tinha uma mesa exposta de café da manhã pra nós. Tomávamos café, cada um lavava a sua xícara e depois cada um ia fazer uma função - lá é uma casa normal. Uma pessoa ia varrer o terreiro, outra ia lavar as louças. Quando chegava nove horas tinha palestra sobre doença sexualmente transmissível, tinha outros tipos de palestra sobre as crianças. Nós ficávamos lá. Quando dava dez horas, que acabava a palestra, nós íamos pegar cada um as suas fraldinhas pra banhar, passar na máquina. Fazia todo o enxoval da criança lá. [Ao] meio-dia nós almoçávamos, cada um botava as louças pra lavar. Fazia a função de limpar o fogão, limpar a cozinha. Tomava banho, rezava um terço, às vezes tinha aula de reforço - um dia na semana tinha aula de reforço - dava quatro horas da tarde, nós íamos embora.

Aprendi com uma amiga a fazer crochê. Aprendi na Casa a mexer na máquina de costura e aprendi a pintar tecido. Aprendi também a fazer bordado em roupa.

Quando eu tive o neném, passaram dez meses, elas disseram que tinham uma oportunidade pra mim. Eu perguntei, disseram que era o projeto ViraVida.

A minha mãe, ainda hoje, de vez em quando ela diz que não confia no meu potencial, não confia [no] que eu tenho pra mostrar pra ela. E o projeto ViraVida fez com que empurrasse um pouco, né? Agora não tem mais essa desconfiança. Ela confia um pouco através do projeto ViraVida. Trouxeram ela uma vez pra cá, falaram as coisas, fizeram terapia com ela. Ela falou: “É, Gabriele, faz essas coisas mesmo que um dia tu consegue.” Então agora ela tá me dando força pra isso.

Eu, [quando] cheguei aqui, só tinha uma vaga pra costura. Tava abrindo vaga pra costura e não tava tendo de jeito nenhum pra auxiliar. “Não, mas eu fico na costura.” “Tem que voltar um ano da série.” “Eu volto um ano da série pra ficar nesse curso.” Aí eu voltei. A Maria tinha me chamado porque ela disse que tinha vaga pra auxiliar, com um mês que eu tinha entrado. Eu disse pra ela: “Não quero, não, eu quero é costura mesmo. Quero é costura, vou ficar na costura.” 

Eu já fiz duas saias, duas bermudas, duas calças jeans. Já fiz jaqueta, já fiz também muita roupa em plano, vestido, aqueles vestidos tubinho; fiz blusa de malha, vestido de malha - já fiz dois também -, duas blusas de malha.

Já desenhei meu vestido de formatura. Vai ser bege, um bege bem claro, não quero essas coisas escuras. Longo, vai ter que ser longo, de costura. Ele é de tafetá. Vai ser tomara-que-caia e vem com um tecido bem fino mesmo, levantando ele como se fosse uma alça. Vai ser tomara-que-caia nas costas também, sem nenhum detalhe, e vai ter um cinto todo de chaton, de quatro a oito centímetros de chaton.

Eu quero primeiro trabalhar numa fábrica; vou trabalhar com a professora Joana, vou trabalhar na casa dela. Com a esperança que eu tiver, eu tô querendo montar meu próprio negócio. Começando de pouquinho, com duas máquinas. Hoje eu ganhei uma máquina de presente e com essa máquina eu vou começando de pouquinho.

Por causa do projeto eu tô diferente porque… Eu não sei, eu me abri com as pessoas, tenho confiança naquela pessoa. Porque eu não tinha, eu não era de andar conversando com todo mundo. Eu me abro agora com as pessoas, falo com as pessoas se eu quero dividir, digo o que eu tô sentindo.

Eu me tornei uma pessoa responsável, porque eu não era, não tinha essa responsabilidade que eu tenho agora depois que eu fui mãe. Agora eu tenho, porque eu sei que tem uma pessoa mais importante na minha vida. Eu quero pra ele um bom futuro, eu quero que ele seja um profissional. Quero que ele se dê bem na vida, que ele não tenha a infância que eu tive. Tudo o que eu posso dar pra ele eu dou, que é pra ele não dizer na frente que teve aquela mãe que eu tive.

Quero ter uma família, quero ter mais uma filha. Daqui a dez anos, na hora que meu filho tiver dez anos quero ter uma menina-mulher e ter uma família, uma estrutura pra minha família, só que sempre ajudando a minha também, do meu pai e da minha mãe. Por mais que tenha a casa própria, mas sempre dando aquele apoio pra minha mãe.

 

"Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações."

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