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História

Cria da Quilombaque

História de: Almir de Souza Moreira Júnior
Autor: Comunidade Cultural Quilombaque
Publicado em: 20/06/2017

Sinopse

Aos quatro anos, a chegada em São Paulo marca a nova vida: além das praias deixadas para trás, a chupeta também encontra a primeira lixeira. Já é grande para isso. Pirituba acolhe a família como primeiro lar, morando nos fundos da casa de uma senhora. Mais tarde, com o pai envolvido em reuniões do MST, acontece a segunda e definitiva mudança de lar para Perus. O Recanto dos Humildes oferece a Almir grama, barro, novas cores e brincadeiras. Mais tarde, chega no Recanto a violência, que obriga as crianças a incluírem notícias de morte no dia a dia. Os caminhos levam Almir a ter um olhar sensível, em busca da essência das pessoas. Com a Quilombaque, se encontra na área de humanas, escolhendo a Geografia como caminho para tentar entender a relação das pessoas com seus espaços.

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História completa

Minha mãe é de família indígena, ribeirinha, pescadora. Meu pai tem herança dos negros nagôs. Os dois grupos ainda vivem no Bairro de Santa Terezinha, no distrito Periperi em Salvador, Bahia, onde eu nasci. Quando meu pai perdeu o emprego, ele decidiu ir sozinho pra São Paulo. Três meses depois, ele mandou o dinheiro pra minha mãe, falando pra ela vir comigo e a minha irmã, que estava na barriga. E aí viemos pra São Paulo. Tenho flashes dessa viagem feita de ônibus. Lembro do instante em que a gente chegou, que é o mais marcante. Minha mãe falou: “Ah, a gente vai encontrar seu pai”, e eu todo alegre. “Mas você vai encontrar seu pai chupando a chupeta?”, e aí foi na rodoviária de São Paulo que eu joguei a chupeta fora, com quatro anos!

 

Fomos morar em Pirituba, na Zona Oeste. Nossa primeira casa foi nos fundos da casa de uma senhora chamada Dona Isaura. Ela tinha uma casa bem movimentada, era um auê danado! Mas, ao mesmo tempo, eu era muito tímido, muito acanhado, até hoje ainda me considero assim. Mas lá foi o momento em que comecei a me socializar, tenho uma lembrança do esposo da Dona Isaura, que eu não recordo mais o nome, e que era motorista da antiga CMTC [Companhia Municipal de Transportes Coletivos]. Uma vez minha mãe precisou ir ao centro e lembro da gente embarcar no ônibus que ele estava dirigindo. Fiquei encantado de vê-lo dirigindo o ônibus, um trólebus. Foi a primeira profissão que eu mais me encantei na vida: motorista de ônibus. Ainda olho pros motoristas de ônibus com uma profunda admiração!

 

Meu pai e minha avó Aurelina, a vó Lalu, começaram a participar de umas reuniões do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], até que minha avó foi contemplada com um terreno em Perus, durante a gestão da Erundina, no projeto de habitação Recanto dos Humildes. Meu pai ajuda a construir a casa dela e a gente também se muda, eu já tinha oito anos. Nessa época, o Recanto ainda era predominantemente mato: aí as coisas começam a ganhar cores, formas, porque tive a experiência de brincar no mato, no barro, brincar com muitos colegas! Nesse primeiro momento do Recanto, como um movimento de moradia popular, era muito forte a questão da solidariedade! Tudo era mutirão, todo mundo se ajudando a levantar um a casa do outro, bater laje, as crianças circulavam muito umas pelas casas das outras. Foi muito significativo pra mim ter vivido esse momento. O Recanto era esse lado que me fortalecia no brincar, nos mutirões, na vida baseada na solidariedade, na trocas de mantimentos, o que faltava em um trocava com a casa do outro. Foi muito mágico.

 

Mas chegou um momento que, passado esse primeiro momento dos mutirões, vem uma nova leva, que foi o momento da invasão. Foi bem desordenado, um momento de muita violência, muitas mortes. Comecei a me habituar com o cotidiano de encontrar corpos mortos, corpo baleado, corpo jogado na linha do trem. Pra criança era normal contar corpos: “Ah, teve uma morte ali”, a gente ia lá, via, e depois voltava, ia brincar. Era uma coisa meio sombria.

 

Fui estudar na escola Brigadeiro Gavião Peixoto, a escola de maior espaço físico da América Latina. Era um cotidiano muito violento. Saí daquela escolinha de Pirituba, de um espaço pequeno, aburguesado e fui pra uma escola que, nossa, mil graus! Já chego no intervalo e vejo briga dos moleques. Na saída, mais briga! Como o meu pai tinha proximidade com o mundo industrial, ele falava muito de Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], então resolvi me inscrever. Eu gostava de estudar e fui aprovado! Estudava ensino médio à noite no Gavião e durante o dia eu me deslocava pra Vila Leopoldina, pra estudar no Senai Mariano Ferraz, onde eu fiz o curso de Aprendizagem Industrial em Eletricista de Manutenção. Foi um momento muito bom, uma ampliação de repertório, o mundo cresceu mais um pouco, essa coisa de começar a se deslocar pra fora do bairro cotidianamente, fazer novas amizades, foi um momento de muitas descobertas, muitas experiências, de começar a andar pela cidade.

 

No segundo semestre desse técnico, fui trabalhar no Hospital do Coração, o HCor. Já estava com 18 anos. Foi um novo choque de realidade, novo repertório, contato, que aí é um hospital de alto padrão, né? Fui trabalhar dentro da UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e do Centro Cirúrgico, então eu comecei como estagiário e, nesse momento, eu conheci a Quilombaque. Eu sempre gostei de um fuzuê, de um batuque, sempre estava junto de pagode, samba, gostava de ficar batucando, fazendo som. Tendo esses horizontes de estar saindo do bairro, tendo contato com outros lugares, outras pessoas, eu estava muito sensível. E aí um dia eu estava numa festa junina do Gavião, e de repente ouço uns batuques chegando, uma coisa pesada, coisa visceral, doida! Quando eu olho aquele talabarte entrando, um cara careca com um baita de um barbão... Eles entraram num cortejo de maracatu, e eu não lembrava de já ter visto algo daquilo, eu fiquei embasbacado, encantado, falei: “Caracoles, mano! Que isso? Da onde veio isso aí? Que que é isso, cara?”. Na mesma noite, eles avisaram onde ficava a sede da Quilombaque, que era na casa da mãe dos meninos. Na primeira oportunidade, fui lá conhecer.

 

Um dia eu estava voltando pra casa e, na entrada do Recanto, olhei pro poste, aí tava escrito: “Oficina de percussão: Quilombaque”, falei: “Caracoles, já estou lá!” Levei minha irmã comigo. Começamos a participar da oficina de percussão, em paralelo ao meu trabalho no Hospital do Coração. Daí começou um profundo estranhamento com tudo, o hospital, um lugar super elitizado... Tudo que até o momento era normal pra mim, habitual, começou a rolar um profundo estranhamento nas relações a qual eu me via inserido.

 

Quando eu encontro a Quilombaque, ela me oferece ferramentas artísticas, de expressões culturais, então vem essa questão de um empoderamento e da necessidade de valorizar e procurar buscar o conhecimento. Falar desse processo é falar de muita sensibilidade. A Quilombaque, até hoje, traz essa coisa de mexer com o imaginário, traz muitos elementos, então eu, pessoalmente, fiquei muito sensível a tudo, com os poros abertos captando tudo! Foi onde eu identifiquei aquilo que era muito presente no movimento de moradia lá das ocupações no Recanto, do apoio mútuo, da solidariedade, do fazer e depois faz a reflexão e posteriormente aprende. Essa coisa de fazer e ir aprendendo, em meio à escassez financeira, mas que identifica muitas outras formas de riqueza e de potencialidades... Nessa expressão da solidariedade, em fazer juntos, se desdobra muitas coisas. Nas oficinas tinha uma troca tanto do saber do tambor quanto das experiências pessoais. A troca é um baita motor. É aí que, pra mim, é a questão central pedagógica da Quilombaque: o olhar em torno da troca, de tudo o que a troca nos proporciona.

 

A Quilombaque sempre estimula buscar e valorizar os conhecimentos que nós possuímos, além de também acessar outros códigos de informação. Aí eu fui fazer cursinho pré-vestibular, de caráter popular, lá no centro da cidade, mantido pelo CA [Centro Acadêmico] XI de Agosto do Largo São Francisco. Foi uma vivência também muito rica com a Quilombaque acontecendo simultaneamente. O bacana é que tudo isso que vai se sucedendo, a Quilombaque era meio que o meu porto seguro e um resguardo por toda essa proximidade afetiva, então eu saí pro mundo, mas muito acalentado, sempre tem pra onde ir, um ninho. Como eu venho de uma formação técnica, eu já tinha em mente fazer Engenharia, mas dentro do processo do cursinho e Quilombaque, fui tomado pela humanas. Passei em Geografia.

 

Quando eu olhava pra onde eu estava na academia, eu falava: “Caracoles, cara, aqui, esse espaço está tremendamente equivocado!” Eu reconheço o conhecimento que a academia acumula, que é um conhecimento humano. A academia também se apropriou de muito conhecimento e vem fazendo esse acúmulo, mas, a partir de expressões como a percussão e o Sarau da Quilo, ficava cada vez mais pertinente em mim o quanto esses espaços estão equivocados em relação a conhecimento, lidar com conhecimento, lidar com pessoas. Equivocado no sentido de pouco reconhecer as capacidades, as potencialidades que cada pessoa possui e mesmo podem ser despertadas, reveladas pra si mesmas. Ainda reproduz muito a lógica da transmissão do ensino, uma relação muito hierarquizada, de concentração de poder, de prestígio em torno de determinado conhecimento, então são relações muito doentias.

 

Saí do hospital, onde estava confortável economicamente, mas não era o que me movia, me inflava, assim, me impulsionava. Daí fiz, o que pra alguns é uma doideira, saí sem nada no bolso, tinha acabado de nascer meu primeiro filho, hoje tenho dois filhos, um menino e uma menina. E aí nasce o Miguel, meu filho, e vem muito forte aquela ideia de que eu preciso me reeducar pra eu conseguir educar esse ser que chegou! A Quilombaque vem de maneira muito criativa, muito resistente, exercitando essa inversão dessa mediação de tornar as pessoas o centro, não o dinheiro como fim. Não quer dizer que o dinheiro não tem importância, mas o dinheiro como uma ferramenta, não como um fim a ser alcançado e mesmo assim uma ferramenta de um uso político, de pensar uma promoção, de bem-estar coletivo, né?

 

Tinha algo que os educadores da Quilombaque falavam que era assim: “A ideia é que você venha, aprenda com a gente e multiplica lá no Recanto, leva lá e toca também, a gente quer isso, essa coisa de multiplicar o saber!” E isso eu carrego muito forte comigo. Eu falo que sou cria da Quilombaque, ela me ofereceu muito, então hoje em dia eu procuro, dentro das minhas possibilidades, oferecer o máximo possível de experiências que eu tive contato, de saberes acumulados, de continuar essa multiplicação do saber.

 

Mesmo formado em Geografia, gosto de me declarar como arte-educador, justamente pela necessidade de uma ressignificação da educação formal e também pela necessidade de uma ressignificação em torno do que é a arte, né? Então a arte e a educação, pra mim, elas caminham lado a lado. Hoje participo de atividades aqui na Quilombaque ministrando a oficina de percussão, participando do sarau, participando de outras frentes. Cada um tem o seu presente pra dar, né? Eu trago um presente, você traz outro, não é o mesmo presente, mas é um presente pra o coletivo, pra sociedade, né? Então eu identifico, em todo o escopo de ações, esse objetivo de conseguir acessar as pessoas a um nível aonde elas possam se acessar e perceber o quanto elas são importantes, a sua autoestima, e quanto elas podem fazer por si mesmas e pelo seu entorno.

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