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Criança tem cada imaginação

História de: Vilma Nardes Silva Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/05/2008

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Criança tem cada imaginação. Não sei por que, mas parece que quando a gente é criança tudo leva ao mundo da imaginação. Lembro-me, devia ter uns quatro ou cinco anos. Interior da Bahia. Sabe aquela cidadezinha pequenina? Bem, mas o lugarejo onde eu morava ficava distante, entre serras. Para chegar à cidade precisava transpor a serra. Mas ir à cidade era só para os mais velhos ou os pais que iam para a feira, toda sexta-feira. Eu sempre ficava com meus irmãos mais velhos e um mais novo que eu. As pessoas mais velhas gostavam de contar histórias: da Bíblia, de assombração, lendas... Lobisomem, Mula-Sem-Cabeça e a Pisadeira eram as que mais me amedrontavam.

Era tanto medo, que se eu estivesse sozinha em algum lugar, lá por volta das seis horas da tarde já começava a tremer e a rezar. Hora da Ave Maria tinha de rezar para afugentar as assombrações. Certa vez, sexta-feira, ficamos com medo de esperar minha mãe em casa e fomos para a casa de minha avó, que ficava mais distante. Choveu nesse dia e, após a chuva, já noite, tínhamos que voltar para casa. Viemos os quatro – minha irmã mais velha carregava o meu irmão caçula no colo, e eu e outro irmão do meio íamos de mãos dadas. Alguém ousava soltar? Perto de uma encruzilhada, onde diziam enterrar as crianças pagãs, ficamos em uma indecisão cruel: seguir em frente significava atalho para minha casa, porém, não havia casas pelo caminho. Era só cerca (bem alta para mim) de roça de um lado e do outro.

Outro caminho era uma distância três vezes maior e passaríamos por mais duas encruzilhadas. Depois de uma breve conversa e de uma tremedeira, decidimos seguir em frente, mas correndo. Eu, em particular, de olhos fechados. Acontece que nesse caminho, havia muitas pedras. Então, caíamos e seguíamos. Quase no final alguém gritou: "Olha lá, é um bicho de olhos enormes. E agora?" Eu chorava e não sabia se abria o olho ou se ficava ali, esperando o bicho me atacar de olhos fechados. Então, minha irmã deu o comando: "Não tem jeito, vamos passar correndo e gritando. E seja lá o que Deus quiser". Dito e feito. Ao vencermos o caminho, esbarramos em minha mãe que já vinha desesperada ao ouvir nossos gritos. Ninguém dormiu naquela noite. Na manhã seguinte, cheios de coragem pela luz do sol e pela presença de nossa mãe, fomos ver os rastros do tal bicho que quase nos engolira. E qual não foi a nossa surpresa. O tal tenebroso monstro era só um galho de árvore molhado e caído no chão. Criança tem cada imaginação.

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