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História

Da Casa Aberta ao NAI

História de: João Baptista Galhardo Junior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

João Baptista nasceu em Araraquara, interior de São Paulo. Começou a trabalhar ainda jovem no fórum da cidade, o que despertou seu interesse pela área de Direito. Ao se formar, João começou a estudar para concursos públicos, pois queria ser juiz. Trabalhou em diversas cidades do interior paulista como juiz, mas em São Carlos realiza um grande trabalho interdisciplinar chamado Comissão da Liberdade Assistida, que tinha como objetivo tirar do papel o Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse trabalho se desenvolve e gera o NAI (Núcleo de Atendimento Integrado), uma política pioneira no trabalho com menores infratores. Esse modelo, desde então, vem sendo replicado em outras cidades e estados do país.

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História completa

P/1 – Então, doutor Galhardo, primeiro agradecer a oportunidade de a gente vir aqui dar essa entrevista...

 

R – Eu que agradeço. Fico muito honrado.

 

P/1 – Eu gostaria de começar pedindo pro senhor falar pra gente o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é João Baptista Galhardo Junior, Baptista com P mudo, como era de São João Baptista que batizou Jesus. A minha família é uma família católica muito praticante e quando a minha mãe então resolveu me batizar com o mesmo nome do me pai, porque meu pai também é Baptista com P mudo, a minha mãe fez questão do P mudo porque é assim que se escreve o nome de São João Baptista, quem batizou Jesus. Então como a minha avó, que é também muito católica, assim batizou meu pai, a minha mãe e meu pai também fizeram dessa forma comigo. Então é João Baptista Galhardo Junior, sou nascido em Araraquara, nasci no dia 22 de agosto de 1965.

 

P/1 – Certo. E qual que é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai se chama João Baptista Galhardo e a minha mãe Vera de Paula Galhardo.

 

P/1 – E eles são da onde?

 

R – São também de Araraquara. O meu pai, na verdade, é natural de Matão, que é uma cidade que fica distante a 35 quilômetros aqui de Araraquara, mas a minha mãe é nascida aqui em Araraquara. O meu pai mesmo nascendo em Matão, ele se mudou, a família se mudou pra cá quando ele ainda era muito pequeno, então praticamente ele também viveu a vida inteira aqui em Araraquara, assim como a minha mãe. Eles se conheceram aqui em Araraquara e se casaram aqui em Araraquara, e todos os seus filhos nasceram aqui em Araraquara, porque eles nunca se mudaram de Araraquara.

 

P/1 – Olha só. E qual que era atividade deles?

 

R – O meu pai ainda trabalha. O meu pai é serventuário da justiça, que é um cargo que antes, quando os fóruns da justiça estadual trabalhavam junto com os cartórios de registros públicos, dava-se essa nomenclatura de serventuário da justiça. Depois no Estado de São Paulo houve um desmembramento, vamos dizer assim, da justiça onde os cartórios de registros públicos, aqueles que fazem registro de nascimento, registro de móveis, registro de pessoas jurídicas etc, eles foram separados dos fóruns e os fóruns passaram a ser uma atividade unicamente pública e os cartórios passaram a ser uma atividade unicamente privada. Com essa separação a titulação que foi dada pra essas pessoas que trabalham em cartório mudou, não é mais serventuário da justiça, é delegado de registro público. Então hoje ele, apesar dos seus 72 anos de idade, mas que graças a Deus goza de muito boa saúde, assim como minha mãe que tem 70, ele trabalha como delegado de registros públicos aqui em Araraquara e a minha mãe é dona do lar.

 

P/1 – Certo. E os seus avós? O senhor conheceu seus avós?

 

R – Conheci meus avós. Os meus avós paternos são de origem espanhola e os seus pais eram espanhóis, mas os meus avós eram pessoas muito simples, sem muito estudo. O meu avô era eletricista, trabalhava com serviços pequenos de eletricidade e a minha avó não tinha atividade profissional, ela era também dona de casa. E os meus avós maternos são descendentes de portugueses, mas são brasileiros, os pais deles eram portugueses. O meu avô materno trabalhava no comércio, já faleceu também, e a minha avó materna era dona do lar.

 

P/1 – O senhor tem irmãos?

 

R – Sim. Somos cinco irmãos. São dois homens e três mulheres, uma mais velha do que eu, depois sou eu, depois duas mulheres mais novas e por fim o caçula que é o meu irmão.

 

P/1 – E o senhor se lembra de como que era a casa da infância de vocês aqui?

 

R – Sim. Nós morávamos numa casa muito simples, que era uma casa de dois quartos, uma sala, cozinha e um quintal com uma edícula. Nesses dois quartos dormiam os três menores junto com a minha mãe e o meu pai, em um desses quartos, que era o quarto maior, e o outro dormíamos nós os maiores que já éramos pré-adolescentes, eu e a minha irmã mais velha. Depois de algum tempo mudamos pra uma casa já um pouco maior, isso eu já contava aí com aproximadamente com uns 15 anos de idade e aí sim nessa outra casa tinha três quartos. Então os meninos ficaram em um quarto e as meninas em outro quarto e mais o quarto do casal.

 

P/1 – Dessa primeira casa, sua infância, que lembranças que o senhor tem dessa infância?

 

R – Brincar na rua muito. A gente morava numa rua que era muito tranquila e a gente armava rede pra jogar voleibol, jogava bets, jogava futebol na rua. Lembro-me que um dos vizinhos, mais um pouquinho pra cima, ele trabalhava fazendo carreto com uma carroça e ele tinha um cavalo. A gente andava nesse cavalo, em cima desse cavalo, muito ali no quarteirão, porque quando ele não estava trabalhando e o cavalo estava ali no fundo do quintal da casa dele, ele deixava a garotada da rua andar no cavalo. Isso é uma lembrança muito viva que eu tenho, muito gostosa, era uma infância muito tranquila. Hoje infelizmente a gente não consegue oferecer isso pros nossos filhos, né?

 

P/1 – E como é que era Araraquara desse período?

 

R – Era uma cidade tranquila, como hoje ainda é se compararmos com cidades do mesmo porte. Mas era muito diferente, era uma cidade onde não tinha um trânsito muito grande, hoje já tem um trânsito muito intenso na cidade. Mas era muito tranquilo. Eu me lembro que nós já pra completar a maioridade, não tínhamos carro, éramos menores e mesmo meu pai também ainda não tinha carro, mas a gente ia à discotecas, ia à bailes, ia à pé, voltava à pé tranquilamente e graças a Deus nunca nos aconteceu nada. Então eu me lembro de uma cidade muito tranquila onde as pessoas se respeitavam, conheciam-se, quase todo mundo se conhecia, era uma cidade muito gostosa de morar.

 

P/1 – E nessa fase da infância o senhor já tinha em mente alguma ideia do que o senhor queria ser quando crescesse?

 

R – Olha, eu comecei a trabalhar, até por conta de necessidade, quando eu tinha 14 pra 15 anos de idade, porque eu saí então do chamado ginásio, o ginasial e fui fazer o colegial no período noturno porque queria trabalhar. A gente não era rico e a gente queria mesmo... Enfim, eu queria mesmo ter o meu dinheiro, queria estar trabalhando e tal. Então eu fui estudar à noite no colegial e comecei a trabalhar. Como meu pai naquela época já trabalhava com a justiça, conseguiu pra mim um trabalho de auxiliar de cartório, que seria o boy do cartório, o boy do fórum, vamos chamar assim. A partir dali eu comecei a trabalhar então dentro de um fórum, isso já faz mais de 30 anos, porque eu tinha 14 pra 15 anos, hoje vou completar 46 anos e foi ali que eu comecei a perceber que eu gostava mesmo de entrar num fórum. Eu comecei a gostar de ver a coisa como funcionava, essa coisa de juiz, promotor, advogado, processo, enfim, o Direito em si começou a despertar em mim o interesse de fazer Direito. Terminado o colegial eu já tinha plena convicção de que eu queria fazer faculdade de Direito e como não tinha condição de estudar fora, eu acabei fazendo faculdade aqui mesmo, eu sou formado na faculdade de Araraquara. E aí eu continuei trabalhando durante o dia e fui estudar à noite, fazer faculdade à noite.

 

P/1 – Então vamos voltar um pouquinho pra essa fase que o senhor estava contando da infância. O que o senhor gostava mais de fazer quando era criança?

 

R – Na verdade quando comecei a trabalhar eu gostava muito de trabalhar. Eu me lembro que eu tinha uma bicicleta, comprei uma bicicleta com o dinheirinho que eu ganhei no começo do meu trabalho e eu era o primeiro a chegar e o último a sair do trabalho, porque eu gostava demais de trabalhar. Eu gostava até mais de trabalhar do que de estudar na verdade. Mas antes dessa fase de trabalho eu me lembro que eu gostava muito de brincar na rua com os meus amigos, gostava muito de me reunir com os amigos, jogar bola, coisas por aí.

 

P/1 – Certo. E da escola? Qual que é a primeira lembrança que o senhor tem da escola?

 

R – Eu me lembro da... Eu estudei em escola pública e eu me lembro da minha escola que se chamava Antônio Joaquim de Carvalho. Uma escola muito tradicional aqui de Araraquara, um prédio muito bonito, um imóvel muito bonito, mas que infelizmente há questão de uns três ou quatro anos acabou sendo interditado por falta de manutenção. Um prédio sobrado de dois andares grande e era uma excelente escola. Eu gostava muito de estudar lá. Eu comecei lá com uns seis pra sete anos de idade e fiquei lá até terminar o que a gente chamava na época de ginasial, né? A oitava série do ginásio. Lembro-me muito de alguns professores, dos amigos do ginásio, do estudo em si, do que nós fazíamos, saíamos às vezes da escola pra ficar na praça em frente a escola conversando, batendo papo. Adorava fazer a educação física com os amigos que eram do período da tarde. Mas infelizmente hoje ver essa escola fechada me deixa até muito triste, porque eu acho que escola é uma coisa que você não deve nunca fechar, ao contrário, quanto mais abrir melhor.

 

P/1 – Tinha alguma matéria que o senhor gostava mais?

 

R – Olha, eu me lembro de alguns professores. A professora de matemática, ela era muito exigente e ela foi nossa professora por quatro ou cinco anos a mesma professora, né? E aí a gente estudava muito matemática porque, como eu disse, ela era muito exigente. Mas eu gostava muito das matérias da área de humanas. Eu gostava muito de história, gostava muito de geografia, gostava de literatura e estudava matemática com medo da professora na verdade. Mas as matérias de humanas eram as que mais me chamavam a atenção.

 

P/1 – E como é que foi seguindo a sua trajetória escolar? Depois o senhor foi estudar à noite...

 

R – Eu terminei o ginásio... Há muita diferença, né? Eu terminei o ginásio e aí resolvi que queria trabalhar. Aí conversando então com o meu pai e com a minha mãe, num primeiro momento eles acharam que não era necessário, que eu poderia investir mais nos estudos, mas eu queria que queria, então comecei a trabalhar. Aí foi sim uma mudança significativa. Primeiro pra se adaptar com essa nova realidade. Apesar de que eu gostava muito de trabalhar e do trabalho que eu tinha arrumado que era um trabalho que me interessava muito, mas estudar à noite pra mim foi no começo bastante difícil, porque tinha que ficar prestando atenção na aula até dez, dez e meia da noite e nem sempre eu conseguia acompanhar isso até esse horário. A verdade é que eu matava muita aula, eu confesso, e só depois de um tempo é que eu comecei a me adaptar com esse novo sistema. Mas aí as coisas foram engrenando e aí no colegial então já objetivando uma faculdade, fazer a faculdade de Direito, eu acabei enfim me interessando mais, buscando um compromisso maior pra não ter aí a menor chance de eu sair do colegial e não passar no vestibular da faculdade.

 

P/1 – E o que o senhor fazia no seu tempo livre? Tinha algum ainda nessa juventude?

 

R – Tinha sim. A gente não deixava de viver a juventude, não. No final de semana a gente saia muito. Eu conheci novos amigos no colegial e aí começamos a, enfim, frequentar aí os lugares que a moçada frequentava na época, discotecas, barzinhos, lanchonetes etc. Mesmo durante a semana, como eu falei principalmente no começo do primeiro colegial, a gente acabava saindo um pouco mais cedo da aula, ficava na choperia, ficava batendo papo com os amigos. Eu tive uma infância e uma juventude muito feliz. Eu não deixei de viver a minha idade. Hoje eu percebo isso, que pra mim foi muito bom ter começado a trabalhar novo porque me abriu muitas portas, mas por outro lado eu não deixei de viver a minha juventude. Continuei vivendo a minha juventude, meus 20 anos, meu 18, 20 anos até 21 anos, 22, porque eu me formei com 22 anos de idade. Mas eu não deixei de viver a minha juventude, às vezes viajava quando podia, ia com os amigos a alguma cidade perto, sítio de algum amigo, chácara de algum amigo. Era gostoso.

 

P/1 – Nesse seu primeiro trabalho, quais eram as atividades mesmo de escritório que você fazia?

 

R – Era mais de entrega mesmo. Levar coisa pra lá, levar coisa pra cá, trazer coisa aqui. Trabalhava muito pouco com a parte interna do serviço, né? Na época não havia computador, tinha máquina de datilografar e eu fui fazer um curso de datilografia. Só depois que eu fiz esse curso de datilografia que eu consegui depois uma promoção pra trabalhar datilografando textos, documentos, certidões etc. Mas no começo era de boy mesmo, entrega. Ia pra lá, ia pra cá, ia pra lá, ia pra cá.

 

P/1 – E o que o senhor datilografava?

 

R – Depois que eu passei a essa nova etapa da minha vida profissional, eu deixei de ser auxiliar e o cargo que era superior ao de auxiliar era o cargo de escrevente. Então eu passei a ser escrevente, saí de auxiliar pra ser escrevente. Como o próprio nome diz, você passa o dia inteiro escrevendo. Então a gente fazia muito documento, certidões, por exemplo, alguma pessoa que precisava de um documento de que ela teve um processo no fórum e que o processo estava encerrado. Ela precisava desse documento para um emprego, por exemplo, pra mostrar que ela cumpriu a pena dela, que ela tinha sido condenada, ou enfim, que pagou a dívida que ela tinha sido cobrada. Nós fazíamos uma certidão do processo, que é um documento que conta a história do processo. Então eu passei a fazer esse tipo de atividade, de datilografar essas certidões, além de trabalhar também fazendo ofícios, o juiz às vezes mandava: “Manda um ofício pro delegado, pro delegado fazer tal coisa”. Então quem fazia o ofício era eu, passei a trabalhar com a máquina de datilografar.

 

P/1 – Então o senhor passou do colegial já sabendo que queria fazer Direito. Como é que foi entrar na faculdade?

 

R – Foi muito legal. Aí foi uma coisa assim que eu tirei da minha cabeça uma preocupação que eu carregava comigo já há algum tempo. A minha preocupação era eu não passar no vestibular da faculdade de Araraquara e ter que estudar em faculdades de outras cidades sem condição de pagar. E aí então eu estudei bastante pra poder passar, pra não ter a menor chance de não passar e, quando eu consegui esse objetivo foi uma vitória. Eu diria que de todas as vitórias e alegrias que a gente já teve na vida, essa foi uma das principais, porque aí sim eu passei a fazer a faculdade, como eu disse eu estava contando com 18 anos de idade já na faculdade. E aí comecei a faculdade e logo nos primeiros dias de faculdade eu já percebia que era aquilo mesmo que eu queria fazer. Eu queria era fazer Direito, eu queria era aprender as normas jurídicas. Enfim, na faculdade fiz novos amigos, interessante foi que a faculdade tinha na minha classe pessoas bem mais velhas, era uma classe interessante. Eram poucos os que tinham 20 anos de idade, muito poucos os que tinham 20 anos de idade e com 18, só eu. Mas foi também uma fase muito bacana, eu me senti muito realizado quando entrei na faculdade.

 

P/1 – Como é que foi o decorrer das aulas?

 

R – Foi muito tranquilo. Eu nunca tive dificuldade com nota, eu passava em tudo, eu não fazia prova de exame, não peguei dependência. Eu fiz os quatro anos assim, sem nenhum sobressalto. Nenhum sobressalto, ao contrário, quando chegava no final do ano letivo eu sempre tive uma margem de gordura tão boa que eu já me via praticamente de férias antes que muitos da minha classe. Isso pra mim era muito bom, porque como eu trabalhava e no final do ano a gente já tá cansado, né, do ano todo, enfim, do trabalho, da própria faculdade, então eu sempre me dava ao luxo de novembro por aí já meio que entrar em férias da faculdade, a começar já a descansar um pouco, tirar um pouco o pé do acelerador e assim foi até o final. A minha colação de grau foi em março do ano seguinte ao ano em que eu completei a faculdade. A faculdade terminou em 86 e nossa colação de grau em março de 87. Em maio de 87 eu já tinha aprovação no exame da OAB, da ordem dos advogados, mas nunca quis advogar, nunca exerci advocacia, porque aí eu comecei a estudar pra prestar o concurso pra juiz.

 

P/1 – Então voltando um pouquinho, no período da faculdade tinha alguma área de Direito que interessava mais, ou que...

 

R – Eu me interessava mais pelo direito penal, porque o direito penal, no papel, na teoria é muito bonito. Você no direito penal, você lida com vida, com direitos que são direitos absolutos, são direitos prioritários como liberdade, vida, integridade física, patrimônio. Quer dizer, uma batida de carro não te abala tanto quando alguém que te dá um soco na cara. Então o direito penal sempre despertou mais a minha paixão. Naquela época não se falava em direito da infância e da juventude, não se falava em Estatuto da Criança e do Adolescente, tanto que o Estatuto da Criança e do Adolescente foi editado em 1990, né? E antes havia um código de menores, mas as faculdades, isso não era uma falha da minha faculdade aqui de Araraquara, mas as faculdades não se importavam em tratar desse assunto da criança e do adolescente. Eram poucas as que faziam ou quase nenhuma. Então o direito penal era o que chamava mais a atenção. A gente sempre, enfim, tinha pelo direito penal uma paixão maior. Embora o direito civil, o direito processual, o direito constitucional, também despertavam interesse, mas essas eram áreas mais frias, vamos dizer assim. Tirando talvez o direito civil, a parte do casamento, da família, mas partes mais frias do direito. O direito penal era o mais apaixonante.

 

P/1 – E por que será que essa área da infância não era tão abordada?

 

R – Porque ela, na minha avaliação, eu até participo hoje de projetos pedagógicos de cursos de Direito como, por exemplo, a Universidade Federal de São Carlos vai instalar agora em 2011 um curso de Direito, eu faço parte da comissão do projeto pedagógico lá, né, e a gente analisa exatamente isso que você perguntou. Por que não se dava essa atenção? Eu diria que na verdade a nossa legislação é que proporcionava essa acomodação, porque nós tínhamos um código de menores que dizia assim, a criança que tiver algum problema na família ou a criança que tiver algum problema de falta de alguma coisa por conta do poder público, ou a criança e o adolescente que fizerem alguma coisa de errado, têm que ser vistas todas elas dentro do mesmo conceito, que são crianças que precisam de uma atenção do Estado no sentido de institucionalização. Daí começa a surgir no Brasil as grandes fundações de abrigamento, né? O pai batia na criança, o que fazia com a criança? Colocava num abrigo ao invés de tomar providências contra o pai ou de afastar o pai do lar e tal. A criança se envolvia com briga, com ato infracional o que fazia? Colocava num abrigo. Então eu acho que essa coisa de pegar o problema e meio que esconder numa casa fechada, que é por embaixo do tapete, fez com que a sociedade não despertasse interesse por essa causa. Aí se a sociedade não tá interessada, menos ainda estão interessadas as faculdades em querer tratar do tema, os profissionais do direito em querer tratar do tema etc. Isso começa a mudar, no meu ponto de vista, com uma forte movimentação nas organizações nacionais, na ONU, na Organização Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que começa a pensar assim: “Não. Nós precisamos mudar esse paradigma. Precisamos passar a pensar na criança e no adolescente como alguém que precisa de um direito maior”. E aí então começa a se discutir no Brasil, com a Constituinte de 88 a questão da entrada, dentro da legislação, de princípios que favoreçam a criança e o adolescente. Aí a Constituição de 88 vem e trata da prioridade absoluta da criança e do adolescente, o Estatuto da Criança e do Adolescente depois de 1990 também trata disso. A partir daí começa o interesse, mas antes não se tinha esse interesse porque a própria sociedade não tinha esse interesse.

 

P/1 – Certo. A gente tá falando então agora do seu período de formação, da faculdade. Teve algum momento que foi marcante nesse período da faculdade?

 

R – Veja, foi na faculdade que eu conheci a minha esposa, ela fazia outra área, ela fazia Administração de Empresas. Ela trabalhava numa empresa grande aqui da cidade, que é a Nestlé, que já foi maior do que é hoje, mas já era uma empresa grande e ela fez Administração de Empresas. Lá eu a conheci, nós começamos a namorar e estamos juntos aí já há mais de 20 anos. Mas o fato é o seguinte, eu acho que o que mais marca numa vida acadêmica é sem dúvida nenhuma o momento do encerramento da colação. Naquela época não tinha trabalho de conclusão de curso, os temíveis TCCs, as monografias, que hoje nós professores, eu dou aula também em faculdade, hoje nós professores a gente cobra do aluno o TCC e tal, e o aluno treme nessa coisa de apresentar o TCC e tal. Mas naquela época não tinha, mas se tivesse o TCC talvez a apresentação da monografia tivesse sido também um momento marcante. Mas como não havia, eu acho que o momento mais marcante da faculdade foi o momento da colação de grau.

 

P/1 – O senhor se formou, seguiu trabalhando...

 

R – No mesmo emprego, continuei trabalhando como escrevente e comecei a estudar pra prestar o concurso pra juiz. Eu já tinha me convencido então de que eu queria ser juiz, eu já antes tinha me convencido de que queria ser alguém da área do direito, aí me convenci de que queria ser juiz, então eu não fiz outra coisa na vida que não prestar concurso pra juiz naquele momento. Apesar de ter passado na OAB, no exame da ordem dos advogados e que se eu fosse advogar eu sabia que eu iria talvez até ganhar mais do que eu ganhava. Mas naquele momento eu resolvi não advogar pra continuar num trabalho que me dava uma chance de eu trabalhar umas seis horas por dia, porque aí eu já tinha certa... Como eu vou dizer? Contato com os meus superiores, certa amizade e eles concordavam que eu fizesse um horário um horário um pouquinho mais reduzido, né, do que o horário normal de trabalho pra que com isso sobrasse mais tempo pra eu estudar. Então eu comecei a estudar logo que terminei a faculdade, logo depois da colação, descansei um pouquinho, voltei a estudar, prestei a OAB e aí eu diria que mais pro final de 88, já depois de formado é que eu comecei realmente a firme mesmo estudar com método, com rigor, com obrigatoriedade daquela coisa diária e tal, pensando em prestar concurso pra juiz.

 

P/1 – E como foi essa decisão de não advogar?

 

R – Olha, não foi uma decisão difícil, porque apesar de que eu até recebia convites de advogados, porque já me conheciam do fórum, já sabiam que eu gostava de estudar e tal, eu tinha na minha cabeça de que eu queria ser juiz. Naquela época era muito difícil alguém do interior conseguir passar num concurso de juiz, né? Passavam no concurso de juiz alunos da USP, alunos da PUC, do Mackenzie, das faculdades tradicionais do Estado de São Paulo. Mas eu falava: “Não. Eu vou conseguir. Eu vou passar. Eu vou em frente. Eu vou passar”. E fui em frente. Na verdade eu prestei três concursos pra magistratura. No primeiro eu não saí nem na fotografia, não fiz nem a pontuação mínima pra ir pra próxima fase. Ali eu percebi que eu precisava de ajuda, ajuda no sentido de metodologia. Então eu me matriculei num curso que era em Bauru, que de final de semana ensinava o sujeito a estudar, a ter metodologia pra estudo no sentido de organizar a programação, organizar o horário, organizar o que é mais importante num concurso, avaliar o concurso, ver o edital do concurso, ver o que mais cai. E foi aí com a ajuda desse curso de Bauru que eu ia todo final de semana pra Bauru. O curso era sexta à noite, sábado de manhã e sábado à tarde. Bauru fica a 140 quilômetros de Araraquara. Então eu ia pra Bauru todo final de semana, esse curso teve duração de seis meses, foi aí que no segundo concurso eu consegui ir até quase a última fase, mas me vi muito estimulado porque a minha mudança tinha sido radical. Eu achava que sabia muito, mas aí quando prestei o primeiro concurso eu vi: “Olha, posso até saber, mas eu não tô conseguindo usar isso no concurso que eu tô querendo prestar”. Com essa metodologia eu já caminhei muito, evoluí muito, né, pra esse segundo concurso. Resultado, no terceiro concurso eu fui aprovado.

 

P/1 – E como é que foi?

 

R – Foi uma alegria. Aí foi a maior alegria da vida. Eu acho que alegria maior que essa só o nascimento dos filhos, né? Aí eu já contava com 23 pra 24 anos de idade. Eu ingressei na magistratura muito novo, tornei-me juiz eu não tinha ainda completado 24 anos de idade, quando eu passei. E aí foi muita felicidade porque ali eu estava realmente realizando um sonho que era chegar à profissão que eu sempre sonhei. Aí eu já estava em 1990 e já então com 20 anos de magistratura, completando 20 anos de magistratura, de exercício de magistratura.

 

P/1 – E como é que foram os primeiros momentos, assumir o cargo?

 

R – Era uma coisa muito, eu diria ambígua, porque da mesma forma que eu, enfim, tinha muita responsabilidade pelo cargo que exercia, mas ao mesmo tempo eu lidava com aquilo de uma forma muito tranquila, mas muito tranquila. E não era incomum, especialmente assim quando a gente tá trabalhando no gabinete, no período da manhã, o juiz vai sem paletó e gravata, vai com uma calça normal, uma calça jeans, uma camisa, não era incomum alguém abrir a porta e perguntar: “O juiz tá aí?”. Eu trabalhei em 22 cidades no Estado de São Paulo e no começo eu tive muito apoio, mas muito apoio. Aí eu não trabalhei aqui em Araraquara, eu não quis vir trabalhar em Araraquara porque como eu já tinha um histórico de fórum em Araraquara eu resolvi trabalhar em outra cidade onde ninguém me conhecesse, por uma questão de... Como posso dizer? Por uma questão de ter mais tranquilidade pra decidir, né, de ver realmente o que eu iria fazer agora nessa função. Então eu fui trabalhar em Franca. Eu optei por trabalhar em Franca. Por que eu optei por trabalhar em Franca? Porque eu já queria fazer o mestrado, já estava querendo fazer o mestrado, como eu disse fiz mestrado na Unesp lá em Franca, e lá tinha mestrado. Aí eu não queria morar em São Paulo. Eu já pensava que pra São Paulo eu não estava a fim de morar. Então eu escolhi trabalhar em Franca que foi uma delícia. Eu fiquei quatro anos em Franca, fiz meu mestrado em Franca, terminado o mestrado aí eu já quis voltar pra região aqui perto de Araraquara, fui pra Matão. Mas aquele momento inicial foi muito feliz, foi um momento de muitos equívocos, lógico, os equívocos que eu conseguia vislumbrar eu mesmo consertava, mas aqueles equívocos que eu não conseguia vislumbrar o advogado tinha chance de recorrer e o tribunal consertava. Até por isso que a gente na época o cargo era chamado de juiz substituto, porque ele atuava em substituição, quer dizer, ele não é o titular da coisa. Então o que ele faz tem que ser olhado com um pouquinho mais de atenção porque ele tá aprendendo e tal. Mas foram anos muito felizes. Eu já tinha de certa forma alguma experiência e usei dessa experiência de _________ que, como eu disse, eu tinha muita segurança no exercício do cargo, nunca me vi inseguro. Errei? Errei. Mas digamos assim, não foram erros tão significativos e acho que mais acertei do que errei.

 

P/1 – E pra que vara que...

 

R – Então, o juiz substituto até para que ele aprenda um pouco de tudo, ele passa por todas as varas. Então eu como juiz substituto em Franca trabalhei em área criminal, área civil, área de família, área fiscal. Vale dizer que na época eu ingressei na magistratura quando o Estatuto da Criança e do Adolescente foi editado, em 1990 e também a justiça, assim como as faculdades como eu mencionei não se importavam muito com essa área, a justiça também não. Não se falava em vara da infância e juventude, não se falava em Estatuto da Criança e do Adolescente na sua aplicabilidade plena. Então assim, em algumas cidades as questões de infância e juventude eram na vara criminal, em outras era na vara civil, em outras era na vara de família. Então eu comecei a lidar um pouco também com a infância e juventude pingando nessas varas de Franca e das cidades vizinhas, porque quando não tinha juiz nas cidades vizinhas de Franca, aí o tribunal me mandava pra essas cidades. Então foi aí que eu corri bastante ali aquela região e essa região também aqui de Araraquara, São Carlos, como eu falei já trabalhei em 22 cidades.

 

P/1 – E como é que foi voltar pra Araraquara?

 

R – Então, isso foi uma coisa muito interessante, por que o que aconteceu? Quando eu saí de Franca já com o meu mestrado terminado, eu fui pra uma cidadezinha ali perto onde eu fiquei pouco tempo porque a cidadezinha não tinha juiz, ela se chama Nuporanga a cidade, Nuporanga, mas fiquei muito pouco tempo e fui só porque ali não tinha juiz, mas eu queria mesmo era voltar pra região aqui. Já que eu tinha ficado quatro anos em Franca, eu naquele momento já não achava que seria prejudicial ou que não seria bom vir pra Araraquara. Então o meu desejo de vir pra Araraquara aflorou naquela época, depois dos quatro anos em Franca e depois do mestrado, né? Mas eu não conseguia vaga aqui, aqui sempre estavam preenchidas as vagas. Então eu fui pra Matão que é uma cidade aqui pertinho, que como eu disse é a cidade onde meu pai nasceu, que fica 35 quilômetros aqui de Araraquara e fui juiz em Matão. Fiquei um ano e pouquinho em Matão quando abriu uma vaga em São Carlos. (pausa) Então eu dizia, aí eu queria voltar pra Araraquara, mas não tinha vaga então eu resolvi ir pra Matão onde tinha vaga. Fiquei em Matão aproximadamente um ano quando abriu vaga em São Carlos, que é uma cidade perto também de Araraquara, fica 40 quilômetros de Araraquara e aí eu não pensei duas vezes, falei: “Vou pra São Carlos”. Porque São Carlos já era uma cidade maior, eu já pensava então em me casar, em morar numa cidade maior e fui pra São Carlos. Fiquei em São Carlos até o ano passado e olha, só no ano passado é que abriu uma vaga em Araraquara. Eu fiquei quase 20 anos esperando essa vaga em Araraquara. Mas eu não me arrependo, e sabe por quê? Porque quando eu saí de Matão, aí eu já tinha uns cinco anos de carreira, eu fui pra uma vara em São Carlos que era uma vara criminal. Mas naquela época nós já estávamos aí em 94, já começava a se falar em aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Em São Carlos não tinha conselho tutelar, não tinha alguns projetos que nós implantamos lá depois, mas o fato é que quando eu comecei a estudar com mais profundidade essa matéria da infância e juventude, e quando eu comecei a estudar o Estatuto da Criança e do Adolescente, aí eu fiquei apaixonado pela área. Aí eu fiquei apaixonado pela área. Eu falei: “Eu tenho que fazer alguma coisa nessa área”. Primeira coisa que eu fiz foi fazer com que a competência da infância e da juventude ficasse comigo, quer dizer, eu pedi para todos os demais juízes e o tribunal de justiça pra que a área da infância e da juventude ficasse atrelada a essa vara criminal que eu era titular. E foi a partir daí que a gente começou a desenvolver algumas propostas de atuação nessa área da infância e da juventude que vai lá na frente me ligar com o Estado do Acre.

 

P/1 – Então como é que foi surgindo nessa sua vida profissional a preocupação com a área da infância?

 

R – Então, o que acontece? O Estatuto da Criança e do Adolescente eu acho que sofre até hoje de uma discriminação muito ruim por conta do desconhecimento que as pessoas fazem do estatuto. Não é incomum a gente ouvir coisas no seguinte sentido, aconteceu um crime grave praticado por menor, alguém já fala: “A culpa é do Estatuto da Criança e do Adolescente que só dá direitos, não dá deveres”. Vai a uma escola, teve alguma agressão, alguma briga o professor já fala: “Ah, depois do Estatuto da Criança e do Adolescente eu não consigo mais dar aula”. Quer dizer, culpa-se muito a legislação por conta de uma série de coisas que acontecem de ruim na nossa sociedade envolvendo criança e adolescente, quando na verdade a legislação se for culpada é a última culpada. O problema é social, é educacional, é familiar, é ausência do Estado, etc. e etc. como todos nós sabemos. Mas naquela época o Estatuto contava então com quatro anos de vida, quatro, cinco anos de vida e eu fui estudar um pouco mais o Estatuto. Falei: “Não. Espera aí. Eu não posso como operador do direito, como juiz, eu não posso entrar nessa fala comum da mídia e de tantas pessoas de que o Estatuto não presta. Pra que eu possa falar que o Estatuto não presta, eu preciso conhecê-lo melhor, eu preciso saber realmente o que ele fala”. E foi aí que eu fui estudar, fui comprar livros sobre o Estatuto, naquela época já se tinha boas doutrinas, boas obras de doutrina sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, né? Lembrando que era uma legislação de quatro, cinco anos no Brasil, e uma legislação que vinha com uma pecha de ser uma legislação ruim, a sociedade até hoje, como fazia na época, cai de pau no Estatuto da Criança e do Adolescente. Eu fui estudar. E olha, quando mais eu estudava o Estatuto da Criança e do Adolescente, mais eu entendia que aquela lei era de uma importância vital na nossa vida enquanto sociedade, enquanto família, enquanto enfim, país que pensa em crescer e se desenvolver. Foi aí que me despertou muito o interesse, por que o que eu via na cidade de São Carlos até então? Eu via crianças na rua pedindo esmola, eu via adolescentes praticando crimes e reincidindo sem nenhum trabalho com eles, com a família. Eu via um monte de criança fora da escola. Eu via um conselho tutelar quase inexistente. Enfim, era tudo muito ruim de aplicação de lei em relação à criança e ao adolescente. Aí eu resolvi fazer alguma coisa. Eu falei: “Não. Eu preciso...”. Eu já estava há uns cinco anos na magistratura e há um ano e pouquinho em São Carlos, um ano e meio mais ou menos, aí eu passei a conhecer algumas pessoas que pensavam como eu. Pessoas que também queriam ver o Estatuto da Criança e do Adolescente ser aplicado de uma forma mais concreta. Eu comecei a chamar essas pessoas na minha sala pra conversar. E aí chamei pessoas ligadas à religião, pessoas ligadas às entidades de classe, pessoas ligadas às instituições, polícia, ministério público, advocacia, grupos de empresários etc. Eu comecei a perceber que tinha muita gente que pensava como eu, que queria fazer o Estatuto da Criança e do Adolescente acontecer fora do papel. Então nós montamos uma comissão que se chamava Comissão da Liberdade Assistida, que era pensar em fazer alguma coisa com os adolescentes que praticavam pequenos delitos, mas que por força de não serem trabalhados, não serem pensados no que fazer com eles, do pequeno delito ele partia pro grande delito. E aí quanto mais eu conversava, mais eu discutia, mais eu estudava, mais eu me apaixonava pela área.

 

P/1 – E como é que foi formada essa comissão?

 

R – A convite meu. Eu acabei chamando pessoas, cada uma de um segmento, chamei profissionais da área da saúde, profissionais da imprensa. Chamei representantes das instituições públicas, polícia, prefeitura, esporte, lazer, entidades de classe, sindicatos. Enfim, eu ligava pra Deus e o mundo. Acho que na época alguns iam só porque era o juiz que estava mandando, iam até mais... O fato é que a coisa... E eu queria que fosse assim mesmo porque eu sabia que ia dar certo dessa maneira. A coisa tomou um rumo na cidade enorme, muito grande. Então alguns, sei lá, umas 50 pessoas e aí começou a enxugar, aqueles que não mostravam muito interesse pela área começaram  a sair. A gente se reunia quinzenalmente, sempre depois do expediente, normalmente no fórum, numa sala grande do fórum ou então às vezes em algum outro local, ou às vezes numa área da prefeitura onde tinha lá uma sala de reunião. Mas o fato é que a comissão foi enxugando. Quando ela ficou aí com por volta de 18, 15, 18, 20 pessoas, aí ela começou a efetivamente trabalhar e começou a lançar ideias pra fazer alguma coisa que pudesse melhorar a questão da criança e do adolescente na cidade de São Carlos. Esse “alguma coisa” eu já estou falando nos anos de 97, 98, 1998. Esse “alguma coisa” depois vai culminar com uma premiação de nível nacional que é o prêmio Innovare, que é um instituto ligado a justiça que premia as melhores ações sociais da justiça no país. Em 2007 o nosso projeto que nasceu lá em 96, 97, 98, com a Comissão da Liberdade Assistida ganha esse prêmio em 2007, que é o prêmio Innovare que aí faz a ligação com o Estado do Acre. Porque depois do prêmio Innovare o nosso projeto ganha uma projeção nacional e o Estado do Acre que queria fazer alguma coisa pra mudar a situação deles lá, os representantes do Estado fazem contato conosco pra conhecer o nosso projeto em São Carlos e, a partir daí começa esse contato com o Acre.

 

P/1 – Então só voltando um pouquinho, queria que o senhor contasse um pouquinho melhor da comissão, como é que ela parte pra ação efetiva com projetos.

 

R – Então, o primeiro passo que nós demos na comissão foi discutir o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente. Então nós pensamos assim: “O que nós vamos fazer pra aplicar o Estatuto da Criança e do Adolescente? Então vamos antes conhecer o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente”. E é nesse momento que a gente conhece o professor Antônio Carlos Gomes da Costa, que já era um estudioso do Estatuto da Criança e do adolescente e tantos outros, o professor Paulo (Garrido?), professor Munir Curry e tantos outros. A gente convida essas pessoas pra participar da nossa comissão, a gente começa a fazer palestras na cidade sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. A entidade Salesianos, que é uma entidade religiosa da igreja católica começa a se interessar pelo nosso trabalho e aí entra nessa história o padre salesiano, que era o diretor lá dos Salesianos, que é o padre Agnaldo Soares Lima. A gente começa a fazer discussão sobre o estatuto. Nós passamos praticamente quase um ano discutindo o estatuto, querendo entender o Estatuto da Criança e do Adolescente, querendo ver o que ele fala, o que ele pensa, como é que ele age etc. A partir desse entendimento é que nós passamos então a criar ideias de se colocar o estatuto na prática. A primeira ideia que veio foi em relação às crianças que ficam na rua pedindo esmola, na porta de restaurante, guardando carro etc. O que nós fizemos? Nós criamos uma casa que se chamava Casa Aberta. Falamos com o pessoal da Pastoral da Criança e com o bispo da cidade, eles tinham um imóvel que estava abandonado, nós reformamos esse imóvel e ali a gente abria esse imóvel às sete da manhã e fechava às 11 da noite. Nesse horário qualquer criança e adolescente que estivesse na rua podiam entrar lá pra tomar um banho, pra comer uma comida, trocar uma roupa, pra jogar uma bola, fazer uma brincadeira, ler algum livro, pra ter alguma atividade qualquer. Nada era obrigado. Nada. Só que quando a criança entrava, ou o adolescente entrava, a gente cadastrava esse adolescente e a gente conhecia a realidade dele, a gente conhecia a família dele. Já a gente começou a perceber que esse conhecer a família, conhecer a realidade do adolescente era um ponto fundamental para que o projeto tivesse um resultado positivo. Por quê? Porque aí a gente precisava trabalhar a família. Porque na segunda, na terceira vez que o menino aparecia a gente já chamava a mãe ou o pai e falava: “Seu filho tá ficando na rua. Seu filho fica na porta do restaurante pedindo esmola. Por que isso tá acontecendo?” “Ah, eu não consigo segurar ele em casa, eu não sei o quê...”. A gente passava a ajudar os pais também. Essas crianças começaram a frequentar essa Casa Aberta, crianças de dez, 12 anos de idade, adolescente de 14, 15, 16 anos de idade, porque às vezes na noite não ganhava muito dinheiro, sabia que ali ia ter um prato de comida, sabia que ali ia ter alguém pra atender. Essas crianças e esses adolescentes começaram a ter um vínculo tão forte com a Casa Aberta que chegou um momento que São Carlos já não tinha mais garotos pedindo esmola na porta de restaurante, banco, padaria etc. O que nós fomos fazer nesse momento então? Nós fomos buscar o apoio destas empresas que acabaram tendo a solução de um problema que de certa forma as incomodava, que são esses guardadores de carro, esses meninos que ficam na porta pedindo etc. Começou a entrar certo recurso, não muito, mas começou a entrar... Nós fizemos biblioteca, nós compramos computador, nós contratamos terapeutas ocupacionais, pedagogos. E aí conseguimos uma viatura com o município que de manhã esses técnicos montavam na viatura e saiam nos pontos críticos onde esses meninos mais ficavam, nos faróis, etc, na região central e abordava: “Olha, eu não sei se você já ouviu falar, tem a Casa Aberta. A Casa Aberta tem o objetivo de receber você lá. Entra aqui no carro, vamos te levar até lá, você vai conhecer...”. Nós acabamos com os pedintes menores de 18 anos na cidade. Simplesmente acabamos. O que ficou muito claro pra nós ali? Que é o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente, que se você não apoiar a família, a família é a base de tudo, se você não apoiar a família você não consegue nenhum resultado. Foi a partir daí que todos os demais projetos, conselho tutelar, vamos criar o conselho tutelar? Vamos, mas vamos investir num conselho tutelar que apoia a família. Vamos criar um projeto de escola de pais na escola do bairro da periferia porque tá tendo muita evasão escolar? Vamos, mas se você não apoiar a família nada vai dar resultado. Então pra nós ficou muito claro, depois de ter estudado o Estatuto da Criança e do Adolescente, depois dessa experiência com o projeto Casa Aberta que o Estatuto da Criança e do Adolescente necessariamente fala que você precisa trabalhar a família senão nada dá resultado.

 

P/1 – E como é que era a situação de São Carlos?

 

R – Então, a partir desse momento que nós, digamos assim, eliminamos o problema das crianças e dos adolescentes que ficavam na rua pedindo, nós passamos a enfrentar um segundo momento, que era a questão dos adolescentes que praticavam crimes, atos infracionais. Como que é o sistema hoje em relação ao adolescente infrator? O adolescente pratica um ato infracional, ele é levado pra delegacia de polícia, né? Na delegacia de polícia o delegado se preocupa em fazer o instrumento que se chama boletim de ocorrência ou auto de apreensão em flagrante, onde ali ele delegado só vai tratar, só vai tratar das questões que interessam pra polícia. Então vamos pegar um menino que tacou uma pedra na lâmpada da rua. O delegado vai fazer um boletim de ocorrência de dano ao patrimônio público e vai colocar lá: “É o José da Silva”. Só. Nada mais. Só que isso vai contra a ideia que nós tínhamos de conhecer o menino e de conhecer a família. Então nós queríamos pensar num projeto que trouxesse informações mais no sentido de saber quem é o adolescente do que propriamente o que ele fez. Porque pra nós era muito claro que, mais importante do que ele fez era saber quem era ele, quem era sua família, o que lhe falta, qual era toda sua trajetória de vida pra se entender porque ele estava fazendo aquele ato infracional. Então aquele sistema do delegado, de o delegado colocar no boletim de ocorrência apenas então somente que o menino tacou uma pedra na lâmpada, pra nós não era interessante. A gente queria mudar esse sistema. Foi daí que nasceu a ideia de se fazer o chamado Núcleo de Atendimento Integrado, o NAI, que é o projeto vencedor do Innovare de 2007, projeto esse que está sendo agora copiado no Estado do Acre e, a partir daí que eu entro nessa história do Estado do Acre.

 

P/1 – Mas então, acho que talvez um pouquinho antes, como é que funciona o NAI?

 

R – Como é que a gente pensou...

 

P/1 – Como é que ele foi implantado? Onde que ele fica? Quem que ele atende?

 

R – A gente pensou assim, então já que pra nós é importante conhecer o adolescente mais do que saber o que ele fez de errado, mas na verdade saber quem é ele, então pra nós é importante fazer criar um sistema que permita essa informação, a busca dessa informação. Então nós criamos um espaço físico e ali colocamos a delegacia de polícia, a assistência social da prefeitura, psicologia da prefeitura, atendimento familiar da prefeitura mais juizado da infância e juventude, promotoria da infância e juventude, defensoria pública da infância e da juventude mais secretaria de educação, secretaria de saúde e secretaria de esporte. Tudo isso dentro do mesmo espaço físico, dentro do mesmo imóvel. Então o adolescente que era pego na cidade praticando qualquer infração, desde a mais leve, de tacar uma pedra na lâmpada, até a mais grave, pegar uma arma, matar alguém, ele passava pelo mesmo processo. Ele entrava, passava pela delegacia, onde a delegacia faz toda a parte criminal que é saber o que ele fez, a autoria e etc. Mas os outros órgãos, a assistente social, psicóloga etc, já começam a trabalhar com esse jovem no sentido de saber quem é ele, quem é a família dele, chamar a família, ver o que falta. Às vezes o que a gente verificava? O pai era alcoolista, batia na mãe, a filhinha pequena estava fora da escola e o menino usava droga e aí o menino foi pego tacando pedra na lâmpada. O que tem que fazer com isso aí? Tratamento de saúde no pai, colocar a menina na escola, tratamento de saúde pro menino, arrumar uma cesta básica pra essa mãe que trabalha de empregada doméstica e não consegue manter a família. Todos esses órgãos nesse mesmo espaço físico começaram a atuar concomitantemente com o sistema de justiça. Então da mesma forma... No mesmo momento em que o sistema de justiça, polícia, juiz, promotor atuava, do lado no mesmo espaço tinha lá assistente social, psicólogo, esporte, lazer, educação, saúde atuando. Resultado, no final desse processo o adolescente que era punido pelo sistema de justiça, mas ele e a sua família eram trabalhados pelo sistema protetivo que é o que o Estatuto da Criança e do Adolescente determina. Resultado, a queda de ato infracional na cidade de São Carlos depois de dois, três anos de funcionamento do NAI. O NAI começou a funcionar no ano de 2000, lá pra 2004, mais ou menos isso, a redução dos crimes graves já eram da ordem de 80%. Nós caímos de 15 homicídios praticados em 99 pra um homicídio praticado em 2004 e a partir de 2004 essa média se manteve ocorrendo até de alguns anos terem nenhum homicídio praticado. E por quê? Volto a dizer, porque nós nos convencemos... (pausa) Então, eu falava, veja, essa integração dos órgãos é que vem daquela ideia lá atrás de que se não trabalhar a família nada se resolve. Pois bem, aí volto a dizer, em 2007 nós fomos contemplados de mais de 400 projetos inscritos do Brasil. O prêmio se chama prêmio Innovare. Nós ganhamos como o prêmio de melhor projeto individual do país. Isso foi muito divulgado na mídia do Brasil como um todo, que a gente conseguiu colocar dois sistemas que são totalmente paralelos e diferentes funcionando no mesmo imóvel, que é esse sistema do Núcleo de Atendimento Integrado, o sistema preventivo e o sistema repressivo. A repressão o que é? É o juiz, o promotor, o delegado que condenam o menino, condenam a liberdade assistida, condenam uma _____________, condenam uma internação mais o sistema preventivo que trabalha o menino e a família pra que o menino saia do mundo da criminalidade.

 

P/1 – Bonito. E por que a categoria prêmio individual?

 

R – Porque tem o seguinte, a categoria do prêmio Innovare tem... O prêmio Innovare até sugiro vocês depois se quiserem consultar o site, é premioinnovare.com.br. Innovare com dois N. Mas porque ele tinha prêmio tribunal de justiça, que aí então é um trabalho do tribunal de justiça como um todo e prêmio de juiz individual, que o juiz que agiu sozinho sem o tribunal, entendeu? É uma classificação deles.

 

P/1 – E como é que foi receber esse prêmio?

 

R – Foi muito legal. Foi muito emocionante até porque, primeiro era uma coisa que eu não esperava, até porque não fui eu quem fez a inscrição pro prêmio Innovare. Na verdade o prêmio Innovare nasceu em 2004 e confesso que em 2006 que eu comecei a ouvir falar do prêmio Innovare, mas hoje ele é um prêmio muito conceituado na justiça porque ele tem uma isenção muito grande, ele tem uma metodologia de apuração muito grande, ele vê resultados etc. Em 2007 um grupo de pessoas que integram o NAI, e aí é como eu te falei, o NAI na verdade é filho daquela Comissão da Liberdade Assistida, que continuou se reunindo, só que aí ao invés de ser da liberdade assistida e tal, essa comissão passou a se reunir pelo NAI. Então tinha delegado, promotor, juiz, advogado, salesianos, o padre, secretária de saúde, secretária de esporte, de educação etc. (pausa) Eu dizia o seguinte, aquela Comissão da Liberdade Assistida de 96, 97, a partir de 2000 com a criação do Núcleo de Atendimento Integrado passou a se reunir também periodicamente lá no NAI. Todas essas pessoas se reuniram. E o que nós fazíamos então? Nós estudávamos os casos que chegavam, os casos até mais complexos. “Olha, essa semana chegou um caso do menino de 14 anos que usa dez pedras de crack por dia e entrou num ônibus e agrediu o cobrador pra roubar dinheiro”. “Opa. Vamos lá”. “Secretário de Saúde, o que você vai fazer?” “Eu tenho uma clínica pra tratar desse menino.” “Ah, mas também tem o seguinte, a filha mais velha de 18 anos tem uma criancinha de um ano, tá trabalhando, não tem creche. Oh assistente social, o que você vai fazer? Com relação ao menino, juiz, o que você vai fazer?” “Vou aplicar uma condenação nesse menino. Ele vai ter que prestar serviço à comunidade”. A partir daí foram abrindo cada vez mais portas, só pra vocês terem uma ideia, nós conseguimos levar o pessoal da Santa Casa pra comissão nossa do NAI. Eles pediram encarecidamente pra gente fazer um trabalho com as crianças que ficavam na pediatria, porque as crianças ficavam lá o dia todo e às vezes a mãe não tinha condição de ficar brincando com a criança o tempo todo, a mãe precisava ir pra casa tomar um banho, descansar e não tinha enfermeiro suficiente pra ficar com as crianças na pediatria. Nós pegávamos aqueles meninos que praticavam infrações leves, aqueles meninos que fazem uma briga de escola, um furto pequeno, uma pichação, coisas mais simples, nós condenávamos esses meninos a prestar serviço à comunidade. Sabe qual era a prestação de serviços que eles faziam? Eles iam lá à pediatria brincar com as crianças da pediatria. A mudança de comportamento desses infratores foi radical. Foi radical. Eles passaram assim, da água pro vinho. Eles eram rebeldes, não obedeciam em casa, não queriam estudar. Quando eles viam a situação daquelas crianças que estavam, por exemplo, esperando transplante de rim, fazendo hemodiálise e eles iam lá pra jogar um jogo, pra brincar, montar um quebra-cabeça com essas crianças que ficavam o dia inteiro no hospital, eles passaram a mudar totalmente de comportamento. De onde vinha essa parceria? Vinha do NAI, do núcleo integrado que ali a gente chamava a sociedade pra participar. Academia de ginástica, a gente fez ofícios para as academias de ginástica: “Qual é o horário que você não tem muito movimento?” “Tal horário.” “Então nós vamos condenar, olha só, pegar um adolescente que gosta de fazer ginástica, vou condená-lo a frequentar academia duas vezes por semana e ali na academia ele vai prestar serviço à comunidade no sentido de atender a um idoso, fazer uma fisioterapia, ajudar um idoso a ir pro carro, a levar as coisas do idoso, etc.”. Resultado, o menino gostava da academia, começou a fazer academia, dono da academia chegou até a contratar o menino pra trabalhar na academia. Enfim, pra encurtar, o fato é que quando se trabalha de forma coesa com a sua comunidade e quando se trabalha a família envolvendo todos os órgãos públicos necessários, né, essa integração é fundamental e acaba dando resultado.

 

P/1 – E o que eu queria entender, a Casa Aberta continua funcionando?

 

R – Continua funcionando normalmente. Depois outras coisas foram abrindo. Nós abrimos também, em razão de toda essa credibilidade que a gente já tinha com a sociedade, nós abrimos uma chácara que a gente chamava de Semiliberdade. O que era a semiliberdade? Era uma chácara que tinha horta, tinha criação de carneiro, tinha pomar e tinha dois alojamentos com três quartos cada alojamento. Nós condenávamos os meninos a pernoitar nesses alojamentos. Eles passavam o dia na escola estudando, depois eles iam pra essa chácara pra ajudar nessas atividades, tinha pintura também, tinha as atividades lúdicas lá, e dormiam nessa chácara. Só de sábado e domingo é que eles tinham direito de ir pra casa. Isso se chamava chácara da semiliberdade. Como é que nós montamos isso? O empresário da cidade doou a chácara, nós fizemos uma parceria com a então Febem, que hoje é Fundação Casa, a Febem repassava recurso e a gente pagava os técnicos que ficavam aqui. Aqui tinha assistente social, psicólogo, pedagogo, professor que ia fazer reforço escolar. Chamava a família lá pra conversar, pra atender etc. Então a Casa Aberta continua funcionando, nós criamos a Semiliberdade, o próprio NAI foi funcionando com muita força. Depois criamos um projeto que chamava Provim, Projeto Vida Melhor. Os Salesianos fizeram esse projeto que era trabalhar com as criancinhas de sete a doze anos num reforço escolar no sentido inverso daquele da escola. Quem ia pra esse Provim eram as crianças dessas famílias que o NAI diagnosticava que a mãe não tinha onde deixar e aí a prefeitura começou a repassar recurso pro Provim. Enfim, várias coisas foram feitas a partir de onde? Da reunião das instituições com esses órgãos, conversando e falando a mesma língua. Isso foi e ainda tem, há mais de 15 anos que funciona tudo isso.

 

P/1 – E o que é agora, indo um pouco mais pra área da parte do Acre, desse contato, o que os gestores da área socioeducativa lá do Acre vieram buscar?

 

R – Aí com a premiação em 2007 nós tivemos uma divulgação muito grande do projeto de São Carlos. Até que um dia nós recebemos um contato do doutor Cássio e da doutora Laura que, a doutora Laura havia trabalhado na Febem de São Paulo e nós havíamos tido contato com ela na Febem quando ela estava na Febem e expusemos a ela o que era o NAI, ela também tinha algumas ideias, ela colaborou muito com as nossas ideias e tal. Depois ela saiu da Febem, nós ficamos sem contato durante um tempo e aí pra nossa surpresa fomos descobrir que ela estava lá no Estado do Acre apoiando o Instituto Socioeducativo. Então o doutor Cássio resolveu levar um grupo de pessoas do Acre para São Carlos para conhecer todo esse trabalho. Foi aí que nós nos conhecemos, ele foi com o delegado, com o promotor, com o juiz, foi advogado também. Foi aí que nós nos conhecemos e a partir daí eles se interessaram em fazer algo semelhante lá no Acre levando em consideração as características do Acre, evidentemente. Então começou essa ida e vinda. Eles iam pra São Carlos, nós íamos pro Acre, discussão, montar a comissão, montar a ideia etc. Até que chegou o momento, isso foi agora recentemente, deles fecharem essas parcerias no Acre, com juiz, promotor, delegado, sociedade civil, entidades, Estado, secretarias, como tem no NAI, pra poder colocar o NAI em funcionamento lá.

 

P/1 – E como é que era? Eles vieram pra cá...

 

R – Eles vieram. Primeiramente eles vieram pra São Carlos, conhecer o espaço físico, nós entregamos...

 

P/1 – Ficaram então em contato com casos, os meninos.

 

R – Sim. Conversaram com os meninos, conheceram vários casos. Nós mostramos pra eles toda nossa pedagogia, nossa forma de atuação. Mostramos os nossos instrumentos institucionais. Porque nós temos um protocolo institucional onde todo mundo assina sua responsabilidade. Mostramos pra eles as atas das reuniões etc. Eles levaram todas essas ideias pro Acre, conversaram com o tribunal de justiça, com o ministério público, com a OAB, com as entidades de lá, as secretarias de lá e aí nós depois fomos pra lá num outro momento. Aí eles voltaram pra São Carlos num segundo momento e depois nós fomos mais duas vezes pra lá. (pausa)

 

P/1 – Então como é que foi ir lá pro Acre, ________?

 

R - Veja. Então... Boa pergunta essa, porque eu nunca havia estado no Acre, eu sou honesto em dizer que, se não fosse essa situação eu jamais conheceria o Acre. Não por nada. Porque quando a gente pensa em uma viagem de turismo, evidentemente a gente pensa em ir pra alguns lugares que já são mais conhecidos, mais falados, principalmente quando a gente tem filhos. Eu tenho duas meninas, uma de seis e uma de nove. Pra mim foi uma enorme surpresa agradável porque eu fiquei maravilhado com o Estado do Acre. Rio Branco, a cidade em si, a vontade de fazer acontecer da forma certa. As cidades do interior, aquela dificuldade de locomoção de uma cidade pra outra, que isso me remota ao tempo que eu era criança, que não tinha... A Washington Luiz aqui era uma estrada de mão única toda esburacada. Eu me lembro que quando a gente ia à praia, quando ia porque um tio meu tinha uma casa em Caraguatatuba, nós levávamos nove horas de viagem pra chegar a Caraguatatuba. Conhecer o Estado do Acre, ver essa vontade de acertar me deixou muito feliz. Conheci muitas pessoas lá por quem eu tenho muito apreço até hoje, promotores, juízes, o próprio doutor Cássio etc. O fato é que eu fiquei muito estimulado de ver o Acre querendo acertar, querendo fazer a coisa certa, querendo construir essa ideia de integração das pessoas no sentido de fazer a coisa funcionar. Então pra mim foi um momento muito feliz. Eu tenho uma especial consideração pelo Acre. Eu fui três vezes para lá e gostaria de ir mais vezes. Quando inaugurarem, porque tá prestes a inaugurar o Núcleo de Atendimento Integrado lá, o NAI. Quando inaugurarem o NAI lá, eu quero fazer questão de comparecer.

 

P/1 – Quais problemas que eles trouxeram?

 

R – Eu acho que o maior problema em relação lá ao Acre está sendo, do meu ponto de vista, essa integração dos órgãos. Porque a integração não é algo fácil. Você chegar pra várias instituições como polícia, juiz, promotor, secretaria de saúde, secretaria de assistência social, esporte e falar: “Olha, vocês precisam ter alguém dentro daquela casa numa sala pra atender, depois dele passar pelo promotor, pelo juiz, pela polícia, pela assistente social, pela psicóloga, pra atender a parte de esporte. Ou depois dele passar pela parte de esporte, passar pela parte de saúde”. Então são salas que o menino e a família vão passando e em cada sala ele resolve um problema. A integração disso é muito complicada porque cada órgão tem a sua maneira de agir, tem o seu horário de trabalho, tem a sua estrutura de recursos humanos, a sua estrutura material. Mas depois que essa integração acontece, e hoje eu vejo que essa parte já está quase que resolvida lá no Estado do Acre, fica muito fácil de lidar com a situação. Então eu acho que eles já estão superando o maior obstáculo que é esse da integração e em breve certamente eles estarão inaugurando o NAI lá.

 

P/1 – Como o senhor avalia as políticas que hoje eles adotaram no Acre pra enfrentar esses problemas de menores ________?

 

R – Olha, sem dúvida nenhuma é o caminho certo. Eu vejo com muito bons olhos por quê? Porque lá a vontade... Nós em São Carlos precisamos esperar seis anos pra colocar uma coisa em prática, mesmo assim quando colocou levou aí dois, três anos pra começar a mostrar o resultado disso. Como eu falei o NAI vem da ideia da Comissão da Liberdade Assistida criada lá em 95, 96, ele começa a funcionar em 2000 e só a partir de 2003, 2004 que a gente começa a ver resultados positivos. Eles já não precisam passar por toda essa fase aí de seis, oito anos de tentativa de acerto. Eles já podem pegar o modelo pronto que dá resultado positivo e aplicar esse modelo pronto. Isso é muito bom. Então eu vejo com muito bons olhos, eu aplaudo essa iniciativa do governo do Estado de encabeçar, de liderar essa mudança do Estado, porque é um Estado novo, é um Estado que tá aí 20 anos praticamente, né? Um pouco mais, mas está com muita vontade de acertar. Esse é o caminho certo, é pegar os bons exemplos, aquilo que deu certo, fazer logicamente a adaptação necessária pra realidade local, mas aplicar o modelo em si. Qual é a filosofia do modelo? É a integração dos órgãos, das instituições pra trabalhar junto com o adolescente a sua família. Sem essa integração e só trabalhando o adolescente não dá resultado. Pegar um menino que furta e pensar só nele não dá resultado. Tem que pensar nele e na família. Pegar o menino que furta e só o delegado agir, só o juiz agir, só o promotor agir ou só o assistente social agir, ou só a secretaria de educação agir, enfim, não dá resultado. Tem que pegar o menino, pensar nele e na família e todos os atores que o Estatuto da Criança e do Adolescente impõe, dentre eles poder público e sociedade civil tem que agir em favor desse adolescente e da sua família.

 

P/1 – E afora o processo de integração qual outra dificuldade desse processo de implantação?

 

R – Não... A parte material sempre é uma dificuldade, local, imóvel, mobiliário, mas eu acho que essa dificuldade é tão pequena perto do resultado tão positivo que eu acho que isso se supera com facilidade. Eu acho que o principal caminho é a integração que na verdade tem como antecedente a compreensão do que é o Estatuto da Criança e do Adolescente. Eu acho que para que o projeto desse certo em São Carlos foi fundamental todas aquelas discussões a respeito do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sem aquelas discussões do Estatuto da Criança e do Adolescente não teríamos a menor possibilidade de funcionar bem o negócio. Então primeiro é conhecer bem o Estatuto da Criança e do Adolescente, a sua filosofia e aí sim partir pra essa integração. O resto é menos difícil. Parte estrutural, recursos humanos é mais fácil de superar.

 

P/1 – E como o senhor avalia os avanços no campo institucional?

 

R – Do Acre são significativos. Significativos. Desde a primeira vez quando nós conversamos com o pessoal do Acre, isso foi em 2008, começo de 2008, aproximadamente isso, até agora final de 2010, nesses dois anos foi muito significativo o progresso. A gente já percebe, como eu disse, que essa fase da integração já tá praticamente superada. Eles estão agora lá com a parte de estrutura física, que está se resolvendo e eu acredito que em breve o projeto já começa a funcionar lá.

 

P/1 – E os principais desafios? Quais são os principais desafios?

 

R – Eu acho que é fazer a coisa funcionar digamos de forma contínua. Porque não raras vezes você vê alguém desanimado, ou até mesmo preocupado com outras situações que não a permanência da integração, né? Imagina, por exemplo, delegado de polícia. O delegado tá lá no NAI, mas de repente o colega dele de outra delegacia tirou férias e ele precisa cobrir o colega dele lá da outra delegacia. Resultado, ele deixa de ir ao NAI pra ir à outra delegacia. Ou mesmo o juiz. O juiz às vezes está respondendo pra outra vara. Então o problema é manter a permanência contínua dessa integração. Porque quando você começa todo mundo tá com gás, todo mundo tá querendo fazer acontecer, todo mundo tá querendo fazer a coisa funcionar, mas vai passando tempo e as pessoas vão, digamos se comprometendo com outros compromissos e não pode deixar acontecer de arrefecer essa integração. Quando um marca reunião, secretário de saúde não foi tem que saber o porquê não foi. Se ele não foi tem que mandar um representante, porque aí no estudo do caso do Zézinho não dá pra esperar pra 15 dias depois a solução do problema. Então acho que o maior desafio é a permanência dessa integração.

 

P/1 – E na questão prática da área socioeducativa? Vocês mantêm a integridade e se a gente pensar os desafios para essa área?

 

R – Veja, eu acho que o maior desafio hoje na verdade é você criar um sistema que efetivamente ressocialize, porque nós sabemos que as internações de forma geral não estão ressocializando, estão deixando um pouco a desejar. O número de ressocialização das internações é muito baixo. Então eu acho que um sistema socioeducativo que ressocialize é o maior avanço que nós devemos chegar em relação ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse sistema passa necessariamente pela análise de boas propostas. Não que o NAI a única ou a melhor, tem outras também por aí afora que a gente percebe que funciona bem. Mas o fato é o seguinte, nós devemos buscar uma sinalização daquilo que pode funcionar como exemplo pro país como um todo, que é o que o Estatuto da Criança e do Adolescente quer. Pra isso, do meu ponto de vista, em matéria de legislação, uma ideia que me parece ser muito interessante é a criação de uma lei que trate da execução da medida socioeducativa, porque nós não temos isso. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz assim: “Se o adolescente praticar um ato infracional, ele receberá uma medida socioeducativa que pode ser uma liberdade assistida”. Tá. Mas como executar a liberdade assistida? Como executar? O que é uma liberdade assistida? Como executar uma internação? Vou te dar um exemplo. Tem Estado que permite que o menino internado em uma unidade de internação possa sair e assistir uma palestra, uma aula, um curso fora da unidade. Tem Estado que coloca o menino dentro de um alojamento, que às vezes é uma cela de delegacia e não o deixa colocar o pé pra fora. Por que isso? Porque a legislação não traz um parâmetro do que pode fazer e do que não pode fazer. Então acho que o próximo passo não é reduzia a maioridade penal, não é revogar o Estatuto da Criança e do Adolescente, é o contrário, é fortalecer o Estatuto da Criança e do Adolescente criando uma legislação que trate da execução das medidas socioeducativas.

 

P/1 – E qual que é a importância da reinserção social?

 

R – Fundamental, porque sem a reinserção você não consegue recuperar esse adolescente. Quando a gente fala em reinserção nós não estamos falando reinserção nível nacional, é reinserção na comunidade dele, porque é ali que o pai, a mãe estão, os amigos estão, é ali que ele tem que ficar, é ali que tem que ter uma escola, é ali que tem que ter um tratamento de droga, é ali que tem que ter um esporte. Não adianta pegar esse adolescente aqui e colocar ele numa cela de delegacia. Vamos pegar um adolescente de Araraquara, colocar ele numa cela de delegacia em São Paulo, colocar ele numa Febem de São Paulo, deixar ele lá seis meses, um ano que depois ele vai voltar. E se não tiver trabalhado aqui a reinserção não acontece, ele vai continuar no mundo da criminalidade. Então essa reinserção tem que levar em conta as peculiaridades locais dos adolescentes. Daí a vantagem do NAI, porque o NAI ao invés de tratar com os instrumentos de polícia, boletim de ocorrência, que ali fala que é um dano uma pedra na lâmpada, o NAI vai tratar com um relatório multidisciplinar que vai saber quem é ele, quem é a família dele, quais são os seus problemas, qual foi a sua vida escolar, sua vida esportiva, sua saúde, a saúde dos seus irmãos. Quem são os pontos de apoio dele, quem são os amigos deles, tudo isso é fundamental pra reinserção.

 

P/1 – Pro senhor, o que mudou no trato da questão do menor no Estado do Acre?

 

R – Mudou no sentido... Primeira coisa foi que a vontade do poder público, do próprio poder público de querer mudar essa história no sentido de implementar um sistema que possa realmente ressocializar. Eu acho que isso já é um grande passo, porque se nós não tivemos aí poder público fortemente envolvido no processo não dá certo. Então ver que órgãos do Estado estão envolvidos no processo já é uma grande vantagem. Mas eu vejo também o seguinte, que hoje o Estado do Acre já discute o Estatuto da Criança e do Adolescente, já discute a implementação de um sistema de ressocialização com muita naturalidade, coisas que aqui em São Paulo às vezes você não acha. Se você pegar uma cidade de médio porte ou pequeno porte e falar: “Olha, aqui vai ser construída uma Febem.” Causa uma revolução na cidade. Se você pegar: “Aqui nós vamos fazer um projeto pra trabalhar adolescentes infratores.” Causa uma revolução na cidade. Lá no Acre eu já sinto que a própria comunidade já aceita esse trabalho com muito mais facilidade. Isso é muito bom.

 

P/1 – O senhor percebeu mudanças no Acre de suas visitas? Nessas três visitas?

 

R – Sim. Sem dúvidas. Não só nas visitas deles pra São Carlos como nas nossas lá pra Rio Branco. Por exemplo, o interesse de muitos juízes e promotores no projeto, conhecer o projeto, em querer se envolver com o projeto, coisa que você antes não via, era como eu disse, até nós mesmos aqui em São Carlos tínhamos essa dificuldade de fazer acontecer o estatuto porque ninguém sabia ao certo o que era o estatuto. Hoje não. Hoje você vê juízes, promotores, advogados, a sociedade interessada em conhecer o projeto, coisa que antes não existia.

 

P/1 – E esse apoio ao Acre trouxe incentivo pro pessoal de São Carlos?

 

R – Sim. Muito. Sem dúvida. O pessoal de São Carlos até hoje se vê muito animado a continuar não só apoiando o Estado do Acre, mas também e principalmente a manter o projeto em funcionamento exatamente porque percebe que, se tá sendo copiado ou se há interessados em copiar o projeto, é um sinal de que o caminho tá correto. Então essa busca de outras... Não foi só o Acre que buscou, outras cidades também. Essa busca de vários interessados faz com que os envolvidos no processo em São Carlos se sintam estimulados a permanecer no processo e falar: “Olha, nós estamos até dando exemplo, precisamos estar sempre envolvidos”. Isso sem dúvida incentiva o pessoal.

 

P/1 – Tem algum dos jovens, adolescentes que passaram pelo NAI que hoje ajudam?

 

R – Sim. Tem vários. Vários que antes eram infratores, não são mais e hoje ajudam a outros se recuperarem. Como uma fala, com uma conversa ou até mesmo com algum trabalho de exposição. Esses quadros aqui que vocês estão vendo foram pintados por dois garotos que passaram pelo NAI. Hoje o que eles... Eles venderam vários quadros e hoje o que eles fazem? Quando tem reuniões de pais, de familiares no NAI, de adolescentes, eles vão lá e falam: “Olha o que eu aprendi, olha o que eu tô fazendo, eu tô estudando, etc”.

 

P/1 – Isso serve também como um estímulo.

 

R – Estímulo pros meninos. Sem dúvida.

 

P/1 – Então agora a gente vai voltar mais pra fechar pro lado da sua vida pessoal. O senhor falou que casou, como é que foi o dia do seu casamento?

 

R – Foi legal. Foi uma festa boa, embora a gente não gastou muito, mas foi uma festa boa. Aí eu me casei em 1998, eu já estava em São Carlos, como eu já falei. Aí o que acontece? Como eu falei a minha esposa é formada em Administração de Empresas, ela trabalhava já nessa empresa, aí ela começou a viajar. Nós morávamos em São Carlos ela começou a viajar. Aí ela ficou grávida da primeira menina, então nós mudamos pra cá e eu é que comecei a viajar pra São Carlos, ia e voltava pra que ela saísse da estrada. Aí nós acabamos ficando, ficando, ficando... O fato é que no ano passado abriu uma vaga aqui, que é essa vaga onde eu tô e eu, aí sim, eu tive uma decisão que não foi fácil. Eu acho que as decisões anteriores que eu tomei na minha vida foram decisões fáceis porque eu tinha plena convicção do que eu queria pra mim. Então trabalhar com 14 anos era algo que eu queria, prestar vestibular de direito era algo que eu queria, prestar concurso pra juiz era algo que eu queria, casar-me com a minha mulher era algo que eu queria, ter filhos com ela era algo que eu queria. Mudar pra Araraquara para que ela saísse da estrada era algo que eu queria, mas aí quando abriu essa vaga aqui diante de todo envolvimento que eu tinha em São Carlos, com 15 anos de atuação em São Carlos, os amigos, o NAI, o projeto, os meninos etc. Foi a decisão mais difícil da minha vida. Mas aí eu acabei, enfim, transferindo-me. Não estou arrependido até porque, repito, quem tá lá hoje, as outras pessoas, o projeto está tão enraizado, tão sedimentado que ele continua. Mas eu às vezes vou pra lá pra matar um pouco a saudade. E tô aqui há um ano e pouco, há um ano e meio mais ou menos isso.

 

P/1 – Também tá saindo trabalhando na área...

 

R – Não. Agora aqui a minha área é fiscal. É a área tributária. Uma área mais fria, você não tem muito envolvimento com papel... Perdão. Com pessoas, é mais papel. Mas enfim, também repito, não tô arrependido não. Eu saí da estrada, foi uma coisa que me fez bem, afinal de contas estrada sempre é risco, viajar 40 quilômetros pra ir, 40 quilômetros pra voltar todo dia era complicado, não é de toda sorte. Sinto muita saudade do projeto, muita saudade dos meninos etc.

 

P/1 – E como é que foi pro senhor ser pai?

 

R – Ah, foi muito bom. Ser pai é uma coisa boa, quando a gente tá, é claro, já amadurecido com a ideia. Eu acho que ter filho é a maior aventura da vida da gente, criar filho. Num mundo maluco como é hoje a gente... É um desafio você educar os seus filhos, manter os seus filhos fora de confusão, de coisa ruim, televisão tem muita coisa ruim, mídia, consumismo, erotismo etc. Mas é uma aventura diária, cada dia você aprende com eles.

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes pro senhor hoje?

 

R – Eu acho que a família. Não tenho a menor dúvida disso. Eu acho que por isso que a decisão de vir pra cá acabou prevalecendo apesar de todo o amor que eu tenho por São Carlos, pelo projeto etc. É porque eu fiquei pensando muito nessa coisa de eventualmente sofrer um acidente na estrada. Estrada sempre é risco. Pega aí alguém embriagado, bate no seu carro. Eu comecei a perceber assim, muito caminhão, eu saía do fórum à noite, essa estrada agora à noite está com um movimento muito grande, né? Então pela família eu resolvi que era um momento de eu sair da estrada mesmo e aí eu acabei vindo pra cá então pela família. Eu acho que a família é a coisa mais importante da vida.

 

P/1 – E qual que é o seu sonho?

 

R – Eu acho que eu não tenho mais sonho não. Quer dizer, sonhar sempre é bom, a gente sonha. Eu sonho, por exemplo, claro, em chegar ao tribunal de justiça, ser desembargador que é o cargo mais alto da minha carreira, mas hoje já não é assim uma coisa tão... Como é que eu vou dizer? Não é uma encanação da minha cabeça. Não é algo assim tão fixo na minha cabeça. Eu acho que eu já conquistei tanta coisa na vida e ter participado de uma história tão bonita como foi essa do projeto que a gente criou, isso me deu tanta satisfação que hoje eu gostaria que as pessoas se preocupassem mais em fazer alguns projetos em favor da criança e do adolescente. Mas ambição pessoal eu já não tenho mais nenhuma não.

 

P/1 – E qual futuro que está desenhado pros menores assistidos pelo ISE lá?

 

R – Eu acho que é o melhor possível. Eu acho que o Estado do Acre tem um problema que hoje é um problema do Brasil como um todo, que é a questão da droga. A droga hoje tá no país como um todo e eu acho que o Instituto Socioeducativo do Acre vai poder, através do NAI, trabalhar fortemente nessa coisa da resocialização. Como eles ainda são um Estado novo onde os problemas ainda são pequenos, e como eles estão dando um passo, do meu ponto de vista é um passo muito acertado, não tenho a menor dúvida de que eles vão ter condição de fazer um bom trabalho em relação a esses adolescentes pra tirar do mundo da criminalidade praquele Estado crescer cada vez mais de forma pujante, dentro do caminho certo e com um índice de violência muito baixo.

 

P/1 – E o senhor gostaria de ter dito alguma coisa que a gente não tenha perguntado ou que o senhor acha que ficou...

 

R – Olha, hoje por conta... Você falou da... Aliás, eu falei da dificuldade da decisão de vir pra cá pra trabalhar numa área que não é a área do infrator, não é a área da criança. Mas aí veja como é o mundo. Quando eu vim pra cá eu, como eu disse, vim pra sair da estrada, né? Mas olha que coisa interessantíssima, isso é a mão de Deus, eu vim pra cá como eu disse um pouquinho antes da metade do ano passado, mas quando chegou no ano passado eu recebi um convite do CNJ, que é o Conselho Nacional de Justiça, pra desenvolver um projeto em Brasília pra multiplicar esse projeto no país como um todo nos mesmos moldes do NAI. Hoje eu viajo o Brasil inteiro pra implementar o NAI no Brasil como um todo. Eu tô indo agora no dia 21 pra Recife. Aqui ó. Eu vou pra Recife no dia 21 pra falar do NAI. Então é um projeto que nós estamos desenvolvendo lá em Brasília através do CNJ, do Conselho Nacional de Justiça, onde eu falo um monte de coisas. Eu vou lá, explico como é o NAI em detalhes, levo o material que a gente fez, agora tem um material sobre bullying que a gente tá também fazendo. Tudo isso tem no site do CNJ, se vocês quiserem eu vou marcar pra vocês depois. Então veja, participar hoje desse... É www.cnj.jus.br. O do prêmio Innovare você marcou, né? Então veja como são as coisas, quando eu recebi esse convite pra trabalhar, voltar a trabalhar na área da criança e do adolescente eu fiquei muito feliz. Porque hoje eu resolvi meu problema de estrada e uma vez a cada 40, 50 dias eu tô num Estado ou numa cidade, isso desde fevereiro desse ano, pra divulgar o projeto do NAI. Eu já fui a 11 Estados.

 

P/1 – Olha só.

 

R – Florianópolis, Santa Catarina, né? Sergipe, Maranhão, Amazonas, voltei pro Acre como a gente conversou. Então acho que Deus me colocou de novo nesse caminho pra gente poder voltar a tentar fazer alguma coisa. Eu estou muito feliz por isso.

 

P/1 – Tá certo.

 

P/2 – Deixa só eu fazer uma pergunta pro senhor? O senhor falou que fez mestrado e doutorado. Eu queria saber se a sua dissertação _________...

 

R – Não tem nada a ver. Acredita nisso? Não tem nada a ver.

 

P/2 – Ah tá.

 

R – Na verdade assim, eu fiz na área de direito privado, na UNESP porque lá só tem direito privado, não tinha direito público nem área da infância e da juventude, e na parte da área social eu fiz na parte de empresas privadas que aplicam recursos na área da educação pública e ganham como retorno descontos tributários, sabe? E não tem nada a ver com criança e adolescente. É mais uma questão tributária, entendeu? Mas é isso.

 

P/1 – Então pra encerrar, como é que foi pro senhor contar um pouco da sua história pra gente?

 

R – Muito legal. Eu fico muito agradecido, muito honrado da presença de vocês aqui do Museu da Pessoa. Enfim, perpetuar uma parte da minha história me deixa muito feliz, muito honrado mesmo. Eu devo essa situação para o doutor Cássio e os demais amigos lá do Acre e desejo aí a vocês muito sucesso e também ao povo do Acre, que seja um Estado feliz e fazer parte dessa história pra mim também é um momento muito significativo. Quem sabe lá conversando com os meus netos eu vou conseguir mostrar pra eles: “Olha, vem aqui...”. Se é que vai ter ainda internet, se já não vão inventar alguma coisa mais moderna do que isso. “Olha, vem ver aqui o que conta um pouco da minha história”.

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Muito obrigada pra vocês.

 

P/1 – Em nome do Museu da Pessoa a gente agradece.

 

R – Obrigado. Obrigado mesmo tá.

 

FINAL DA ENTREVISTA

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