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História

Da cerca para dentro não é Brasil

História de: Cristina Rodrigues de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2013

Sinopse

Cristina nasceu na cidade de Garanhuns, em Pernambuco, no dia 9 de maio de 1966. Filha de pai alcoólatra, foi impedida de voltar para casa após uma festa se não casasse com o rapaz que a convidou. Mudou-se para São Paulo aos dezesseis anos, com o marido e a filha de seis meses. Estabeleceu-se em uma chácara no bairro do Jd. Palanque, na Zona Leste da capital paulista, onde teve mais quatro filhas. Aos 23 anos, separou-se do marido, que ficou com tudo que os dois dividiam - exceto o sítio. Criou as filhas sozinha em um bairro periférico que não possuía a mínima infraestrutura para morar: ficava ao lado de um lixão, a estrada era cheia de lodo e não havia transporte público. Fundou uma associação do bairro, enfrentou o coronelismo urbano para acabar com os lixões da comunidade; foi ameaçada de morte e levou dois tiros no processo. Pressionando a prefeitura, conquistou melhorias no bairro como a instalação de água, de luz e do programa Vai e Vem, que levava as crianças para a escola. Aos 35 anos teve a oportunidade de voltar aos estudos. Formou-se em Direito e hoje atua com audiências de conflitos de vizinhança, de loteamentos irregulares, de áreas de risco e de áreas invadidas. Também oferece atendimento à população carente. 

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História completa

P/1 – Cristina, bom dia. Eu agradeço a sua presença e, para começar, queria te perguntar o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Cristina Rodrigues de Souza. Eu nasci em Garanhuns, Pernambuco. Tenho 43 anos, nasci em nove de maio de 1966.

 

P/1 – Quais os nomes dos seus pais?

 

R – Meu pai é Emanuel Ferreira de Souza e a minha mãe é Maria Ferreira de Souza. Moram no Nordeste.

 

P/1 – Você sabe um pouco sobre a origem da sua família?

 

R – Meus avós por parte de mãe têm origem de português e índio. Minha bisavó era índia. Meus avós por parte de pai eram pernambucanos, também com origem portuguesa.

 

P/1 – O que seus pais faziam?

 

R – Meu pai era agricultor durante a semana. Aos finais de semana, ele trabalhava com venda de roupa em feiras. Desde que eu me entendo por gente ele trabalhava parte no campo e parte na venda de roupa. Minha mãe, do lar, e ajudava meu pai também. Era até uma briga, porque minha mãe não gosta de sítio – acho que ela deve ter tido uma infância difícil na roça – e ele era apaixonado por sítio. Um queria morar no sítio, o outro não queria. Ela ficava lá até, no máximo – eu achava engraçado –, quatro horas. Quando ela via que ia começar a escurecer voltava para a cidade. Minha vida foi assim: nós nascemos na cidade de Garanhuns, mas sempre tivemos sítio. Eu vim para São Paulo e comprei um sítio. Eu gosto de sítio, sempre gostei. Acho que é mais tranquilo.

 

P/1 – Como eram os seus pais? Qual a lembrança da infância? Eles são vivos?

 

R – Eles estão vivos. Em casa era muito difícil, acho que foi uma das razões porque eu casei muito cedo. Saí de casa aos quinze anos; eu ia fazer quinze anos. Não sei se é na família nordestina... A gente tinha muito exemplo parecido com o lá de casa, mas também tinha os que não eram. Em casa era um pessoal muito rude, muito difícil. Hoje eles mudaram um pouco, até porque tudo muda. Vai fazer trinta anos que eu saí de lá. Meu pai é muito difícil... Eles são muito rudes, não tinham instrução, agressivos até. Eu falo sempre para minha irmã: “Poxa, você deu mais sorte, porque foi diferente.” A minha irmã é pacata, nasceu mais tranquila. Nós, mais velhas, encarávamos... Discordávamos. Acho que era uma das razões que, às vezes, a gente era agredido fisicamente.  Tivemos uma vida mais difícil, os primeiros. Os mais novos, já... E outra – até fugiu a regra –, minha mãe teve quatro filhos só e de uma longa distância. Parece que ela planejava – ao modo dela – porque nós somos de quatro em quatro anos. Todos nós. Não teve muitos filhos, ao contrário da mãe dela, que teve dezoito. Eu estava indo nesse caminho, interrompi. Mas era difícil... A infância lá foi muito difícil. Não era nem por falta das condições físicas, era falta de estrutura familiar. Hoje temos outra visão, apesar de que mudei pouco. Naquela época, as brigas mesmo eram por não concordar com aquilo.

 

P/1 – Quais discordâncias eram?

 

R – O machismo no Nordeste. Meu pai era alcoólatra e vinha de uma família alcoólatra. A minha mãe... É muito difícil de você lidar com ela. Tem essas discordâncias, onde tem vícios e não tem aquela estrutura... Um puxa para um lado, um puxa para o outro e você não chega a lugar nenhum. Quem está no meio – que eu acho que são os filhos – são os que mais sofrem. Eu tive um irmão que saiu muito cedo de casa também, até mais cedo do que eu. Ele saiu com treze anos e eu saí quando ia fazer quinze. Eu não saí porque eu queria sair – é tão estranho, seria engraçado, se não fosse trágico. Eu fui numa festa e ia passar a noite fora. Ele [o pai] falou que eu não entrava se eu não casasse. Falei: “Eu não vou casar. Não vejo por que para casar.” Eu fui à festa e não voltei porque não tinha condição. Fiquei na festa. Acho que eu peguei trauma de casamento, nunca mais fui. Ele falou que eu tinha que casar. Acho engraçado, lembra aquelas histórias do Dias Gomes, aquelas coisas absurdas do interior, era bem isso... Eu peguei e saí, não voltei mais. Eu falei: “Não? Tá. Então, é assim...” Eu já queria sair, não achava que aquele era meu ambiente e eu tinha muitas desavenças com eles. Eu tinha dois irmãos mais velhos do que eu. Minha irmã é mais nova, é a quarta. Ele falou que eu tinha que casar; não só ele, como a família inteira dele... Falei: “Não vou casar.” Foi para a delegacia – virou aquele inferno –, foi para fórum... A pessoa com quem eu estava – o rapaz que é pai dos meus filhos – era maior de idade. Passamos a noite na festa, não houve nada. Eu queria ir pra capital, queria ficar na casa de uma tia materna minha. Ela falou que não, porque eu era menor. Eu tinha catorze anos, faltavam uns dias pra fazer quinze anos. Ia continuar menor do mesmo jeito. Ficou acertado que eu ia ficar na casa desse rapaz, porque ele era maior. Ele era responsável por mim. Não tinha havido nada, eu saí porque eu fui à festa. Eu entendo até que eu errei, porque não tinha ninguém em casa e eu quis ir à festa. Peguei, fiz um bilhete, comprei um presente e fui. Deixei lá: “Estou em tal lugar”, mas não deu para voltar porque era um lugar ermo e não tinha condução regularmente. Se você perdesse aquela condução, não tinha outra – só no dia seguinte. Aí virou o bafafá todo.

 

P/1 – Cristina, você falou que são quatro irmãos...

 

R – Quatro.

 

P/1 – Quais são os nomes dos seus irmãos?

 

R – Eu tenho o Alexandre, que está desaparecido. Não sabemos se ele está vivo ou morto porque, como eu falei, era um ambiente muito agressivo e... Principalmente o Alexandre – porque ele é meu irmão adotivo, ele era meu primo –, meu pai bebia e dava o show dele, para variar... Ele sempre falava que tinha um filho que não era filho dele. Isso causava constrangimento para ele e havia certa implicância entre os dois. Tinha esse meu irmão, que hoje deve estar com 48 para 49 anos. A última vez que o vi tem 26 anos. Não sabemos se ele está vivo ou morto: um conta uma história, outro conta outra... Tem o meu outro irmão, que mora no Nordeste, o Giovane. É casado, tem três filhos. Tenho minha irmã, quatro anos mais nova do que eu, a Analice. Mora lá. É ela que cuida dos meus pais, porque hoje eles estão de idade; tanto meu pai quanto a minha mãe. A Analice que segura a barra lá; só posso ajudar com dinheiro, não estou lá. Eu falo com eles toda semana, converso, vou lá. Todo ano vou e fico uma semana – às vezes mais, na medida do possível. Às vezes fico... No máximo, uma semana, porque não dá: eu tenho minhas responsabilidades aqui. Pensei em voltar a morar lá um período por causa deles, mas não chegou ainda a condição que eu quero. Hoje, para mim, aqui é mais fácil, porque eu tenho as meninas. A parte mais difícil já foi. Tenho todas elas aqui.

 

P/1 – Na sua infância, tinha seus dois irmãos mais velhos e a Analice?

 

R – Isso.

 

P/1 – Como eram as brincadeiras de vocês e o convívio dos irmãos, além dos seus pais?

 

R – Eu brincava mais com meus primos, os garotos, umas meninas que tinha na rua... Hoje é uma cidade grande – Garanhuns – mas, naquela época, o bairro ainda tinha muito mato. A gente brincava muito naquela rua, brincava à noite na frente de casa, ao lado da igreja, mas era mais com os meninos porque, como eu te falei, os meus irmãos mais velhos... O machismo impera muito no Nordeste. Ainda impera hoje, naquela época era muito mais. Minha irmã... Tive pouco contato com ela, porque quando ela fez dez eu saí de casa. Eu passava a metade do dia no colégio. Sempre gostei de mato e de roça, então eu ia procurar erva com um pessoal mais velho. Eu sempre estava mais com o pessoal mais velho. As brincadeiras que tinha eram com os primos, com as primas, com a molecada da rua. Arranquei muito pedaço da perna com lambreta, bicicleta, jogar bola... Joguei bola bastante tempo. Aquelas brincadeiras de rua... Com os meus irmãos foi pouco, até por causa dos meninos. Os meninos tinham outras atividades que nós, meninas, não tínhamos. Com a minha irmã o relacionamento foi muito pouco, agora com as minhas primas foi bastante. Primas, crianças da rua e da escola.

 

P/1 – Que atividades eram essas diferentes?

 

R – Brincava de bola, de lambreta, de bicicleta, de amarelinha, de esconde-esconde. Eram as brincadeiras da época. Era aquilo que a gente brincava.

 

P/2 – No Nordeste tem bastante tradição das Festas Juninas. Você se lembra de ver isso? Como que era?

 

R – Sim, tanto que, até hoje, a gente faz na chácara, porque é uma época boa. Eu acho que é a festa mais legal que tem, a junina. Natal tem aquela cobrança de presente, as pessoas esquecem; o aniversariante tem aquela hipocrisia, que você não conversa com a pessoa o ano inteiro... O São João, não. Acho que é aquela festa popular que agrega bem as pessoas. O fogo sempre reuniu as pessoas desde que o mundo é mundo, desde os antepassados. A gente pedia a foice e o facão do meu pai, porque éramos nós que fazíamos as fogueiras. Naquela época tinha muito mato e as ruas eram de terra. O pessoal cortava bananeira pra colocar na rua, bambu... Fazia aquele arraial. Hoje não tem mais isso, é pouco lugar que tem. Coincidia com a colheita do milho, que faz praticamente todos os pratos de junho. Era bem legal, uma das melhores festas.

 

P/1 – Você falou que as ruas eram de terra... Como era a rua e a casa onde você morava na sua infância?

 

R – Casa humilde, de pobre. O pessoal era bem arrogante, mas eu vejo que não era pela questão da falta de dinheiro; eu acho que era falta de organização. Não tinha planejamento. Os meus pais brigavam muito. O meu pai não é aquele homem cuidadoso, que a parede está soltando, vai lá e conserta, arruma o telhado... Não. Era uma casa humilde, uma casa pobre. Melhorou, mas não é ainda... Se dependesse do meu gosto, não seria aquilo. A casa é grande – isso a gente tinha –, tinha espaço e aquela coisa separada: quarto dos meninos, quarto das meninas. Como só tinha eu maior de menina, o quarto era meu. Tinha aquela coisa do interior: pintar o quarto dos meninos de azul e o quarto das meninas de rosa. Era uma casa legal. Não era aquela casa que conforta, mas, naquela época, era a casa que gostávamos, achávamos que era casa grande. Comparando a outras, tinha quintal, árvores, fruta... A gente sempre teve esse contato com natureza.

 

P/1 – A sua família tinha um sítio?

 

R – Meu pai sempre teve sítio. Por isso falo que não é questão financeira, porque ele ganhava dinheiro: ele tinha o sítio e outras casas. Tinha uma coisa até irritante no meu pai: todo ano ele cismava. Ele morava um ano numa casa, um ano na outra e ficava aquela coisa de mudança. Eu detesto. Ele morava um ano nessa casa: “Ah, não. Vamos subir para a outra casa.” Alugava uma e voltava para a outra. Tinha o sítio... Um sítio muito bom. Passávamos férias lá e, quando não, passávamos nos sítios dos parentes – porque todo mundo tinha sítio e nós tínhamos muitos parentes. Onde nasceu o nosso presidente [Luiz Inácio Lula da Silva], em Caetés... A família da minha mãe mora ali. Passei muitas férias ali. Os terreiros lá parecem areia de praia, aquelas beiras de açude. A gente tomava muito banho de caldeirão, que são umas pedras que enchem de água... Muito da alimentação nossa vinha do sítio. Ele vendia uma parte e outra parte guardava para vender. Parar a terra no ano seguinte... Fazia uma rotação.

 

P/1 – O que vocês faziam lá? O que você gostava de fazer? Como era o sítio?

 

R – Geralmente, íamos para trabalhar. A diversão vinha depois. Meu pai era bem pão duro às vezes até com ele mesmo, de burrice. Nós andávamos umas quatro, cinco léguas a pé. O que é uma légua? Uma légua são seis quilômetros. A gente andava uma distância boa a pé, porque ele não queria pagar condução. A gente ia para lá e levava muita muda de frutas. Formamos aquele sítio, porque pegamos a terra só com capim. Às vezes gostávamos de ir a pé mesmo, porque você ia passando pelos sítios das vizinhanças, por dentro dos riachos, arregaçava as calças, tirava os sapatos – Congas – e passava por baixo, aquelas águas mornas... Tinha o lado gostoso de você buscar fruta, de correr e de tomar banho de açude. Toda aquela coisa boa de criança que, hoje, muitas crianças não têm, principalmente em capital. Lá era açude limpinho, não tinha poluição, lixo. Era uma vida de criança normal. Não fosse aquela agressividade deles e os vícios da bebida, acho que poderia ter sido bem melhor.

 

P/1 – Você falou que iam trabalhar. O que vocês faziam?

 

R – A gente fazia tudo: ajudava a colher feijão, a plantar, colher algodão, café, arrancar feijão, quebrar milho. Não fazíamos na mesma proporção dos adultos, mas ajudávamos bastante. Nós trabalhávamos “coisa” que a gente não vê hoje. Lembro-me que, às vezes, até coisas estúpidas a gente fazia. Vínhamos a pé com umas cestas que, quando você tirava da cabeça, não sentia que tinha cabeça; adormeceu, de tanto peso e a caminhada. A gente trabalhava mesmo. Nós colhíamos mandioca, caju, milho... É tudo coisa pesada. Ajudávamos a colher, a peneirar e a ensacar. Eu e esse meu irmão fazíamos tudo lá. O mais velho, não: ele caiu de um ônibus e era uma das brigas com o meu pai, porque ele detestava sítio. Minha irmã também não pegou essa fase. Ela é mais delicada, tinha problema de saúde. Eu e meu irmão do meio ajudamos muito, ficamos até chateados quando meu pai vendeu o sítio. Era um lugar que a gente gostava, mas, como vim embora, não tinha quem cuidasse. Era legal aquele sítio, muito bonito. Só faltava infraestrutura. Meu pai fazia como a maioria do povo nordestino faz: planta de qualquer jeito. Se der, deu; se não der... Hoje, não: tem técnica, acompanhamento...

 

P/1 – Você falou que depois do trabalho tinha a diversão. Como que era?

 

R – Tinha as farras, a diversão... A maioria era nos açudes: nadar, tomar banho. Comer manga, caju. Lembro-me de uma cena engraçada: meu pai falava que não era para dar manga para o gado, porque ele podia morrer engasgado. A gente dava, porque eles corriam atrás da gente. Um dia, tinha uma vaca... A gente gostava muito daquela vaca porque ela não era brava. Ela corria atrás da gente, mas a gente sabia que não fazia nada, a Maravilha. Choramos quando aquela vaca morreu. A cobra mordeu e ela morreu. Ela pisou na minha bochecha, um dia. Eu caí, escorreguei no manguezal e ela – não chegou a apoiar, porque senão teria quebrado meu maxilar – pisou. Inchou legal. Não fui para médico, para nada: colocava aqueles remédios caseiros. Ia colocando e ia desinchando. Ela pisou... Se ela apoiasse a pata tinha arrebentado o meu rosto.

 

P/1 – Nossa. Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha acho que uns nove, dez anos. Eu era levada: subia nas árvores e meu irmão ficava danado da vida comigo porque eu não sabia descer. Não sabia por onde eu tinha subido... E agora, para descer? Na maioria das vezes eu pulava. Eu acho que é por isso que, até hoje, eu tenho problema de coluna. Certo que eu machuquei, depois de adulta, mas acho que muitas dessas... Subia naqueles cajueiros e balançava... Porque caju, se você balançou, cai com muita facilidade. Muitas vezes nós íamos balançar e, quando você olhava para o alto, aqueles enxames de abelha. Não tinha outra: tinha que pular. A gente fazia umas extravagâncias meio malucas mesmo.

 

P/1 – No sítio, vocês tinham costume de contar histórias, de ouvir histórias ou de cantar música?

 

R – A gente tinha muito... A gente só dormia nas férias. Ficávamos mais na cidade; como era uma cidade do interior, tínhamos muito disso. Lembro-me que lá em casa era uma casa que acolhia todo mundo. Engraçado: eles eram agressivos com a gente, mas acolhiam todo mundo: na época, o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) – O INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) era INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social), era uma coisa bem antiga –, o pessoal que vinha do sítio dormia em casa, o pessoal que ia pagar promessa dormia em casa, o pessoal que ia se aposentar, o pessoal que ia para médico... Eles todos ficavam lá em casa. Eu morava numa casa que vivia sempre cheia, e o pessoal antigo tinha aquelas conversas – eu não acredito naquilo, mas tudo bem – de assombração, de mula sem cabeça, de não sei o quê... Era divertido você ouvir aquilo. Depois você ficava com medo, mas era divertido. Também tinha, na época da adolescência... Como eu vim embora muito cedo, não tive quase adolescência. O pouco que eu fiquei ali, tínhamos muito de ficar tocando violão, inventando as músicas da época... Era bem legal, época da Jovem Guarda. Curtíamos muito o ABBA, uma das bandas que eu mais gosto até hoje, da época de 70 e 80. À noite, ficávamos na frente da igreja ou do lado... Eles acham até engraçado: a lateral dos locais assim a gente chama de oitão. “Ah, você está lá no oitão da igreja?” Tinha uns meninos que tocavam violão e a gente ficava cantando. O vício da gente, na época, era tomar Coca-Cola e comer cachorro quente. Minha mãe ficava brava, porque a gente andava com turma que fumava. Ela criticava e não deixava a gente ir. Ali era marcação cerrada. Eu estudei só um ano à noite. Sempre gostei de estudar de manhã, à noite ficava em casa. Joguei muita bola nesse colégio; joguei handebol e vôlei o tempo inteiro. Nossa diversão era essa: brincar de esconde-esconde, ficar com a turminha ouvindo música, tocando violão ou então um fusquinha com o radinho ligado.

 

P/1 – Você falou da igreja. Vocês tinham costume de ir à igreja?

 

R – Tínhamos, nós éramos católicos e fomos criados na religião católica. Meu pai e a família dele são católicos praticantes, e na rua de casa – acho que uns cem, duzentos metros – tem a Igreja Nossa Senhora do Carmo, que foi onde nós fizemos primeira comunhão, crisma, tudo. Não éramos católicos por tradição; éramos praticantes, mesmo. Agora, no mês de maio – o mês de Maria –, tinha também essa coisa de novena todo dia. Os 31 dias do mês de maio. Cada noite estava na casa de uma pessoa e encerrava na igreja. Participávamos das comemorações da Semana Santa, Natal... Todo domingo ia para a igreja, era hábito. Hoje eu não vou quase à igreja. Vou mais para um amigo, sou espírita kardecista há 20 anos, quase. Mas, na época, nós éramos católicos.

 

P/1 – Como era Garanhuns nessa época? Que lembrança você tem de lá?

 

R – Particularmente, nunca gostei muito de Garanhuns para morar. Eu vou lá... A gente não conhecia outras coisas. Era engraçado: eu tinha certeza que tinha outras coisas melhores, porque você vê telejornal, livro... Eu sempre gostei muito de ler. Mas era uma cidade boa. É fria como São Paulo, e até com essa mudança de clima que nós estamos vivendo Garanhuns se manteve. É estranho... Garanhuns é mais fria que São Paulo hoje – porque ela sempre foi fria –, chove bastante, mas ainda tem aquele equilíbrio de estações: quando é frio é bastante frio, quando é inverno... É uma cidade grande, mas muito desigual. Acho que ela lembra um pouco São Paulo: tem várias São Paulo dentro da mesma São Paulo... Garanhuns é assim. Tem aqueles bairros intermediários, aqueles muito ricos e aqueles paupérrimos. A cidade cresceu e tem um espaço físico muito grande, mas... Tinha muita coisa boa Garanhuns. Tinha a parte em que ela é cercada de sítios, muitas reservas naturais e que, lamentavelmente, foram destruindo. Mas acho que o problema maior era lá em casa; não a cidade em si. É que você... Como você é criança, não tem aquela visão. Eu não gosto para morar por causa dessa falta de estrutura. Eu penso em voltar se eu passar num concurso público. Para morar aleatório eu não vou, prefiro São Paulo. Acho que São Paulo é tudo. A cidade das oportunidades.

 

P/1 – Você falou que imaginava que eram diferentes outros lugares fora de lá. Você tinha alguma vontade de sair desde criança?

 

R – Sempre tive, era uma das brigas com a minha mãe. Eu tinha certeza que tinha coisa melhor do que Garanhuns. Eu falava para ela: “O dia que eu ficar adulta vou embora.” “Que vai, nada!” – porque ela é muito controladora – “Eu vou, sim. Tô falando que eu vou. O dia que eu puder colocar o pé na estrada eu vou embora daqui.” Uma das coisas que me deixava muito chateada em Garanhuns é que é um povo muito violento. Recentemente, acho que há uns quatro, cinco anos, eu estava vendo em uma matéria da [revista] Veja que Garanhuns era a cidade dos matadores. Para mim, isso é uma vergonha, é um absurdo. Eu vi muitos crimes ali. A gente ia para a escola: “Ah, mataram Fulano.” Chegava da escola: “Ah, mataram Beltrano.” Umas coisas absurdas... Minha mãe falava: “Você vai fazer o que em São Paulo? São Paulo é violento.” Gente, São Paulo é violento para as pessoas de fora. Uma coisa que eu sempre prestava atenção: tudo o que era ruim – o cara matava, roubava, estuprava –, ”Manda para São Paulo.” Por quê? A distância, o tamanho da cidade grande...  Você não ia achar. Aqui tem uma coisa que lá não tem: acontecem muitos crimes porque estão envolvendo dinheiro, e lá, não. É por ignorância. Hoje, eu não sei... Mesmo assim, é incrível: toda vez que eu vou passar férias lá sempre tem isso. Um povo muito violento, sanguinário. Matam por matar. Isso me desgostava muito em Garanhuns. Eu perdi a conta de quantos velórios eu fui – não por morte natural, por assassinato. A gente falava... Vimos muita gente conhecida e gente amiga que foi assassinada por coisa idiota, que não tinha motivo. Eu acho que nunca tem motivo, mas, às vezes, você age em legítima defesa, na defesa da família, sei lá... Mas era coisa idiota, coisa... Não rolava dinheiro nem droga. Era rixa. Teve muito disso. Garanhuns é uma cidade boa e hoje ela cresceu muito, é conhecida até como cidade das flores – tinha muitas flores, muitos jardins. É uma cidade em que é gostoso você andar, mas tem esse lado ruim e negativo que precisa ser mudado. Minha infância foi marcada nisso e, uma das coisas que eu não gosto, nunca gostei... Minha mãe fala... Até hoje, todas as férias que eu vou para lá, essa violência persiste. É uma cidade que não tem oportunidade. Quanto às cidades do entorno, principalmente Caruaru... Ela cresceu muito, grandes empresas foram para lá. Garanhuns foi fechando as portas para as empresas. Os filhos das minhas amigas que têm a idade das minhas filhas não têm oportunidade. Muitas pessoas saem de lá não porque querem... Eu saí porque eu quis, não gostava de lá. Tem muita gente que está em São Paulo – não só de Garanhuns, mas de todos Estados do Brasil – não porque gosta... Está aqui por oportunidades, porque querem crescer. Se pudessem, estavam lá. Eu não quis ficar e, para mim, foi muito difícil vir para cá, porque vim “sem eira nem beira” – como dizem essas pessoas – e não conhecia ninguém; tinha parentes, mas que não conheço até hoje. Eu vim do zero para tentar a sorte aqui.

 

P/1 – Antes de vir, você falou que estudava lá em Garanhuns...

 

R – Estudava.

 

P/1 – Você se lembra da primeira escola?

 

R – Lembro. Engraçado, a primeira lembrança da escola é de quando eu tinha quatro anos. Foi até uma coisa atípica, porque eu sou filha de pais analfabetos. Minha mãe não sabe escrever nem ler nada. Meu pai é bom de matemática, escreve o nome dele e faz algumas coisas – hoje não, porque está com a idade avançada –, mas sabia muito pouco. Fui a única que foi à escola aos quatro anos. Eu estudava numa escola particular e o pai da dona da escola tinha uma fábrica de doces; era muito bom ir para aquela escola, porque tinha doce até umas horas. Eu aprendi a ler muito cedo, aos seis anos eu estava alfabetizada. Eu passava no catecismo, me dava bem com todo mundo... Eu estava sempre na igreja católica, participava dos catecismos, da festa da escola, da festa da igreja, ia muito para os asilos – Asilo São Vicente de Paulo... Eu tinha uns sete ou oito anos e estava lá de domingo. Eu ganhei concursos, ganhava gibi... Foi muito bom ir para a escola, é uma das coisas que eu sempre gostei. O dinheiro que eu ganhava ajudando no sítio – vendendo milho, feijão –, eu sempre comprava um livro, um gibi... Tanto que, quando eu vim embora, eu tinha um baú de livros – não pude trazer, mas tinha... Eles não sabem ler e os que sabem não gostam de ler. É muito difícil conviver com eles. Dos meus irmãos, a minha irmã fez magistério, mas depois abandonou – mal pega num livro. Para eles era tortura ir pra escola. Engraçado que meu irmão ficou um mês e meio sem aparecer na porta da escola: saía dizendo que ia pra escola, mas não ia. Quando a minha mãe soube, a casa caiu em cima dele. Eu, não. Se eu não fosse para a escola, eu ficava super aborrecida. Gostava de ir para a escola e achava bem legal. Acho que era um pouco diferente de hoje – pelo menos a escola pública –, tinha mais respeito, o professor era um segundo pai... Segunda mãe... Você tinha todo aquele respeito pelo mestre. Eu sempre gostei de livros.

 

P/1 – Tinha algum professor que te marcou?

 

R – Vários, até porque eu me destacava – pelo lado bom e pelo lado ruim, era meio demônio também, eu era terrível... Eu tinha o professor Souza, de Ciências, muito bacana e bem legal. Tinha um professor de matemática que... Até hoje, acho que tenho que tomar aula de matemática. Ele era terrível. Você não entendia, ia perguntar e ele mandava você se virar, virava as costas... Se não sabe e gerou a dúvida é porque tem interesse; quando não tem dúvidas é porque nem interesse tem, não sabe nem do que estão falando... Tive muitas professoras que me ajudaram: a professora Isaura, uma senhora muito bacana de gramática e português, um professor de educação artística... Tive o professor que a gente mais gostava, o de educação física, porque a gente jogava... Tinha aqueles torneios entre escolas, hoje não vejo mais isso... Era legal, o pessoal incentivava e você ia para o colégio por vontade. Você tinha os torneios de handebol, de voleibol e era bem bacana. A gente treinava no quartel, na pista de atletismo... Tinha aquelas rivalidades de escola pública com escola particular. Foi um período bom. Eu interrompi os estudos depois para mudar para cá.

 

P/1 – Como que eram esses torneios? Você jogava? Como é que todo mundo ia? Onde é que era?

 

R – Jogava. Era um campeonato. As escolas se inscreviam e tinha tanto campeonato feminino quanto o masculino de handebol, voleibol, atletismo, corrida etc. Tinha prêmios e ia todo mundo uniformizado. Eu não sei exatamente como funcionava a estrutura financeira – criança não está preocupada com isso, só em ir para a farra –, mas iam os parentes, os amigos, tinha torcida, barulho, banda... Era bem legal, tinha sempre aquela rivalidade... Lembro-me que tem um colégio – o Colégio Santa Sofia – que era o colégio dos ricos, os meninos metidos... Em Garanhuns é um pessoal muito arrogante. Tem esse lado até hoje: tem gente que não sabe nada, mas acha que tem o rei na barriga. Tinha aquela rivalidade: você sai do colégio da periferia para vir derrotar as meninas do colégio dos ricos. Era gostoso. Iam os parentes, era uma festa...

 

P/1 – O colégio era misto, Cristina?

 

R – Eu estudei tanto em colégio misto quanto em colégio só de meninas. Eu estudei em quatro colégios em Garanhuns, ao longo do tempo que vivi lá. Estudei no Jerônimo Gueiros, um colégio estadual em que só estudavam mulheres, pelo menos de manhã; à tarde e à noite estudavam homens. Hoje, não sei se tem essa tradição. Acho que no Diocesano só estudam homens, mas a maioria dos outros são mistos. Tinha aulas, como educação física, que tinham que separar os times masculinos e os femininos. Era bem legal.

 

P/1 – Você falou que gostava muito de ler. O que você gostava de ler? Que tipo de coisa você lia?

 

R – Eu lia de tudo. Gostava muito de Agatha Christie, na época. Eu lia desde a Bíblia... Gibi eu lia muito. Lia revista, jornal... Sempre gostei de ler tudo. Eu acho que é bom você ler tudo porque você começa a separar... Não tenho preconceito com música: tem música que não gosto, livro que não gosto. Hoje sou adulta, então não vou comprar um livro de pornografia: não vai me trazer nada e nem me acrescentar em nada. Não vou comprar um livro que, por exemplo, incite à violência. Eu não vou colocar um filme de violência: “É, mas não adianta nada... Isso é a realidade.” Espera aí: isso é a realidade deles, não a minha. Acho que tem coisas que você tem que separar. Não vou trazer um filme de violência para uma criança – não é porque é a criança do morro, que está naquela comunidade violenta... Ela está ali por falta de opção. Aquela realidade não é a minha e eu garanto que não é a de muita gente. Numa cidade grande como São Paulo sabemos que tem o joio e o trigo. Garanhuns é a mesma coisa: não vou andar com gente que vai me levar errado. Sempre gostei de ler, sempre li tudo. Lembro-me que minha mãe... Muitos livros – às vezes até livros que falam sobre sexo e violência –, geralmente, têm imagem – não é que nem livro de direito, que só tem letrinha –, têm fotos, e minha mãe não sabia ler, mas o pessoal: “Ah, ela está lendo isso, está lendo aquilo.” Tinha preconceito até certa posição. Isso não quer dizer que você vá fazer o que está ali... Eu acho que é bom saber tudo, o máximo que você puder absorver; é interessante para poder escolher e ter liberdade de ver o que é melhor pra você. Eu lia muito e jogava com essa turma... Tem uma turma que até hoje são os meus amigos de infância. Todos os anos eu vou lá e almoço com elas. O pessoal tinha uma paixão por handebol e por vôlei, que a gente não vê hoje. Essas meninas, mesmo... Tem umas cinco; três são irmãs, e eram lá as reuniões porque em casa não podia ter, era confusão. Na casa dessa senhora que tinha essas três filhas era bem bacana, porque todo mundo se reunia, fazia lanche, comia, tomava banho, batia papo, fazia algazarras, definia o time... Até hoje temos essa preservação de amizade: todo ano eu vou, ligo, almoçamos, recordamos as maluquices que fazíamos – eram maluquices, mas era legal.

 

P/1 – Você queria ser alguma coisa quando crescesse? Você tinha algum sonho?

 

R – Tinha, e parte dele eu realizei. Como eu gosto muito do campo, eu queria ser agrônoma; depois não deu. Eu falei: “Poxa, se eu for fazer Engenharia Agrônoma vou ter que morar no interior, porque dentro da cidade de São Paulo eu vou virar urbanista. Não vai dar.” Também sempre gostei muito de ler. Quero prestar concurso pra juíza, é uma das coisas que está na minha programação de vida, agora. Demorou um pouquinho para eu conseguir o que eu queria, porque tive outros caminhos... Eu tive as meninas, e ficar com as cinco não foi fácil, então fiquei 21 anos sem poder estudar, mas parte dos meus sonhos, aquela coisa de “tenho uma casinha branca com varanda”, eu consegui: tenho meu espaço aqui dentro de São Paulo. É uma das coisas que ainda me seguram aqui, porque viver em cidade grande não é fácil: é barulho, aquela loucura e correria... Lá eu tenho uma tranquilidade que nem parece São Paulo. Foi uma das minhas conquistas. Quando eu era criança, dizia: “Olha, eu não quero casar. Eu quero ter um bom emprego, uma profissão e uma casa minha.” Não era por possessividade; eu nunca me senti fazendo parte da casa da minha mãe. Eu gosto de lá, vou lá, os respeito e amo todos eles... Mas não é aquela coisa que é sua – não pelo domínio de propriedade, não é por isso –, é aquela coisa de você chegar e fazer o que quer sem compromisso, de ninguém perturbar, de ninguém dizer: “Tá. Faz isso, faz aquilo.” Aquela coisa que você chegou, chegou; não importa a hora. Esses dias eu estava fazendo a separação de uma mulher... O marido batia nela porque ela queria fazer comida de noite, fora de hora. Eu falei: “Nossa, se fosse eu, ia morrer espancada”, porque eu acordo de madrugada, tomo banho, arrumo a casa e vou ler. Eu tinha cinco meninas, dava banho nelas... Eu dava banho, penteava cabelo, arrumava... Você está no seu espaço, não tem hora. Você cumpre tanto protocolo durante o dia, chega em casa e não pode... Ou então, quando o pai está chegando – no Nordeste é muito disso – parece que está chegando o demônio, não é o pai que chegou. Eu achava aquilo um absurdo. Eu sempre dizia: “Não, eu quero ter um espaço meu e eu vou ter. Eu vou trabalhar e conseguir.” Graças a Deus – foram bem mais anos que eu imaginei –, aos 18 anos, eu consegui comprar a chácara. Era um lugar distante e não foi tão barato, mas também não foi tão caro; dava para pagar. Era um lugar distante, muita gente dizia: “Não quero isso aqui nem dado.” Falei: “Não, gente. Imóvel é questão de tempo e paciência, vai melhorar.” O bairro no entorno não está do jeito que eu quero ainda, mas a minha casa está. Graças a Deus, eu consegui.

 

P/1 – Cristina, você contou um pouco da história de quando você teve que sair da casa dos seus pais. Como você conheceu esse rapaz? Qual é o nome dele, aliás?

 

R – O nome dele é Cícero Maurício. Uma das minhas paixões de criança era bicicleta – parecia moleque. Eu rodava aquela cidade de bicicleta para cima e para baixo, e ele trabalhava num parque – o Parque Euclides Dourado – onde tinha aluguel de bicicleta. Nós íamos lá e alugávamos. Eu o conheci lá. Conhecia-o há um bom tempo – a gente tinha amizade, não um relacionamento, eu não conhecia a família dele. Conhecia-o porque todo domingo e toda quarta-feira ia ao parque. Eu fui à festa dos parentes dele e acabou que não voltei, porque falaram que eu não ia entrar e só entrava se eu casasse – era imposição. Falei: “Não vou casar, não tem sentido.” Eu ia fazer quinze anos.

 

P/2 – Ele convidou você para ir à festa? Seus pais o conheciam? Como que foi?

 

R – Conheciam de vista, porque em casa não eram abertos à conversa. Meu pai era terrível. Comigo – até hoje é assim, tenho um pouco de sossego porque eu não moro lá –, minha mãe, se eu vou a algum lugar, quer saber aonde vou, que horas vou chegar, com quem estou... É um relatório completo. Eu conhecia esse moço há algum tempo, ele ia à porta da escola. Era um amigo e me convidou para ir à festa de casamento da prima dele. Eu não estava fazendo nada, não tinha ninguém em casa... Eu nem lembro para aonde o pessoal tinha saído – todo mundo tinha saído. Sei que eu exagerei um pouco, porque eu tinha catorze anos. Fiz um bilhete, fui à loja com ele, comprei um presente para a noiva e fui para a festa. Falei: “Fui pra tal lugar, depois eu volto.” Só que lá era, mais ou menos, como o lugar em que eu moro, afastado... A condução era por horário. Tinha uma, duas conduções, e se você perdesse aquele horário, só no dia seguinte. Perdemos a condução e voltamos para a festa, ficamos lá. No dia seguinte, cheguei por volta de sete e meia, oito horas da manhã – nossa, estava um escarcéu. Ele queria me agredir, falou que ia “Matar o imbecil.” Eu falei: “Não vou entrar, então.” Ele falou que eu tinha que casar. É bem engraçado – hoje acho engraçado, na época... Chamou a avó, a mãe dele, as tias, todo mundo... Um opina daqui, outro opina dali. Parece que você está num tribunal. “O que está acontecendo? Não fiz nada. Fui a uma festa e passei a noite fora.” Engraçado que, até hoje, muita gente acha que fugi de casa com esse moço porque eu era apaixonada por ele. Recentemente, estava conversando com a minha tia do Rio de Janeiro – minha tia mais nova mora lá, então, todo ano, passo férias lá – e ela falou: “Menina, mas eu pensava que você tinha fugido de casa.” “Tia, eu nunca fugi de casa. Eu me recusei a entrar de volta em casa porque eles falaram que eu tinha que casar, e eu disse que não ia casar.” Como, de fato, não casei, acabei indo morar com ele porque eu não tinha outra opção. Depois, ele se envolveu com coisas erradas, tivemos que vir embora tentar a vida aqui. Aos dezesseis anos eu tinha uma filha de seis meses. Acabou não dando certo, me separei dele e fiquei com as cinco.

 

P/2 – Você veio para São Paulo logo que você saiu da sua casa?

 

R – Não, eu fiquei de três a quatro meses na casa da mãe dele. Não tinha havido nada entre a gente. A gente conversava muito e ele se dizia apaixonado, queria casar. Era o que ele falava, falei: “Não, eu não quero.” Eu continuei a estudar; estudava meio período e o outro meio período, cuidava da casa. Houve todo um conflito com a família dele, porque ele não era filho único, mas era arrimo de família. Era ele quem cuidava da mãe e dos irmãos; os irmãos não gostavam de trabalhar. Ele mantinha o pessoal da casa dele, então, houve certa rivalidade com a mãe dele. Ela começou com certa implicância. Hoje eu acho que eu sou pavio curto; naquela época, acho que eu não tinha... Eu era meio esquentada. Um pessoal muito grosseiro... O pessoal da rua falou: “Nossa, você vai morar nessa casa? O pessoal é agressivo, eles têm mania de bater nas noras, nos genros.” Eu falei: “Comigo vai ser diferente”, e foi, porque eu saí de lá muito cedo. Acabei saindo da casa da senhora que virou minha sogra e, depois de um ano, eu engravidei; nasceu a Carolina, que é a minha filha mais velha. Mudamos para outra casa, morei mais um ano – fiquei dois anos ainda morando em Garanhuns –, depois que eu vim para cá, não vim de imediato.

 

P/1 – Você ainda se relacionava com a sua família?

 

R – Eu me relacionava com a minha mãe, com a minha irmã, com os meus tios, com dois dos meus irmãos... Com o meu pai, não. Ficamos muitos anos sem nos falarmos, uns cinco anos. Com a minha mãe, sim, mas é como eu falo: no Nordeste, a maioria... Quem dá as cartas são os homens. Minha mãe ia em casa... Minha mãe sempre foi. Quando a minha primeira filha nasceu, estavam lá minha mãe, minhas tias e o pessoal que eu me relacionava. Eu não me relacionava com meu pai e com alguns membros da família dele. Com a mãe dele fiquei um tempo sem falar, a gente não tinha muita afinidade. Tinha mais afinidade com a família da minha mãe, a minha avó era uma pessoa fantástica. Por hábito, de domingo – quando a gente não estava no sítio passando férias –, nós íamos para a “casinha”, que era a casa da minha avó. Era um lugar mais ou menos como o que eu moro, porque Garanhuns, naquela época, tinha muito mato e minha avó era uma apaixonada por terra, por planta, por flores. Minha avó tinha coleção de rosas. Temos essa lembrança boa. A casa da minha avó era uma casinha humilde, aquele terreninho plano... Meu avô cuidava do mandiocal e da horta, e minha avó das rosas e das flores. Estávamos sempre ali; tinha muita afinidade com a mãe da minha mãe. Com a mãe do meu pai não tínhamos muita ligação até porque minha mãe tinha um distanciamento da família do meu pai, então pendemos mais para o lado da família dela. Era bem legal. Minha avó era uma pessoa fantástica: uma mulher que não tinha estudo, mas que era muito inteligente. Ela fazia muitas coisas artesanais, tinha muita habilidade com cerâmica, com bordado, fazer vassoura, cuidar das plantas... Isso, pelo menos para mim, era muito bom. Todo domingo: “Vamos almoçar hoje na casinha.” Apelidamos a casa dela de “casinha”, era lá que íamos.

 

P/2 – Como foi quando você engravidou da sua primeira filha? Você deixou os estudos ou foi antes?

 

R – Eu deixei antes, parei porque estava difícil. Não era aquilo que eu queria, queria continuar estudando, tanto que, na época, eu queria ter ido para a capital, Recife, para morar com a irmã da minha mãe. Ela disse que não, porque eu era menor e ia trazer certos problemas, ela não queria ser responsável. Ali eu interrompi os estudos; parei no primeiro ano do colegial e fiquei anos sem estudar. Nunca deixei de ler, é uma coisa que eu sempre gostei, até para poder cuidar das meninas. Sempre comprei livros e revistas, mas interrompi oficialmente os estudos aos quinze anos.

 

P/1 – Foi um pouco antes de você engravidar...

 

R – Era muito conflito com a minha sogra: ela falava que mulher casada não podia estudar. Eu lembro que tinha uma parte alta da calçada e eu gostava de estudar à tarde ali. Eu sempre gostei de estudar de manhã e, à tarde, eu ficava fazendo as atividades. Ela ficava de provocação o tempo inteiro, o tempo todo; eu estava para perder as estribeiras com ela. Meu ex-marido, muito ciumento... O ciúme dele era uma coisa doentia. Eu já tinha minha mãe e sentia que ela me perseguia, me perturbava, quer dizer... Você mudou de dono? Pelo amor de Deus. Eu acabei interrompendo os estudos.

 

P/2 – E como foi: quinze anos, ficar grávida e ter uma filhinha?

 

R – Aos dezesseis.

 

P/2 – Bem jovem. Como foi esse período da gravidez e do nascimento da sua filha?

 

R – Foi surpreendente, porque é uma coisa que não estava nos meus planos. O pessoal até brinca: “Não estava nos planos e teve cinco, imagina se tivesse!” Foi uma coisa meio aleatória, você não tem experiência de vida... Engravidei da Carol e minha mãe estava sempre ali, tive apoio, o meu ex-marido... Tinha apoio, todo mundo ficou feliz. Não era exatamente o que eu queria, mas tive uma boa aceitação com a Carol. O parto teve todo o cuidado, não tenho traumas de parto – eu tive mais na terceira filha, mas a primeira, não. Tem toda aquela dificuldade: você não sabe nada, está numa fase de transição, tinha 16 anos... Pessoa do interior não sabe nada; por mais que você leia, é diferente do dia a dia. Você vê as coisas em revista e depoimento em televisão, mas tem todas aquelas dificuldades. Lembro-me que eu era muito dorminhoca. Nos primeiros dias, logo que a Carol nasceu, minha mãe que cuidava dela. Em seguida eu vim embora, ela ia fazer seis meses; minha mãe bateu o pé, queria ficar com ela. Falei: “Não, de jeito nenhum”, porque tem muito esse hábito, se você tem filho cedo, aquele apoio dos pais... “Ah, vamos ficar com filho do Fulano até...” Minha mãe: “Até você se estabilizar na capital. Você não conhece nada, deixa comigo.” Eu falei: “Não, de jeito nenhum. Aonde eu for, ela vai.” Foi uma das coisas bem difíceis aqui. A Carol ficou doente, ela estranhou totalmente o clima. Era muito difícil, viemos no escuro: “Vamos nos aventurar.” Não conhecíamos nada e nós viemos. Eu achava que São Paulo não tinha mato, aquela cidade grande... Foi uma aventura.

 

P/1 – Por que vocês vieram?

 

R – Estávamos tentando mudar de vida, mas ele estava muito envolvido com más companhias e estavam o ameaçando de morte. Tinha que vir embora, se não ele ia morrer. Eu até questionei minha mãe, depois; porque sendo eu no lugar da minha mãe, não tinha me deixado vir. Não posso reclamar, porque eu acho que tudo o que tem que acontecer tem seus desígnios. Eu achei que foi um pouco de abandono, porque eu tinha dezesseis anos; se fosse filha minha, não deixaria. Viemos, eram os parentes dele que moravam aqui; ele nem os conhecia. Foi muito difícil. Os primeiros anos aqui... Acho que eu não chorei e não xinguei todos os dias porque não é do meu feitio, mas era uma terra estranha, você não conhece ninguém... É muito difícil. Não tem dinheiro, emprego, profissão... Ele não tinha muita vontade de trabalhar, não tinha profissão. Era bem difícil.

 

P/1 – Como foi a viagem? Como vocês vieram Com um bebê de seis meses...

 

R – Viemos de ônibus. Nunca chegava – meu Deus do céu –, porque é muito distante. Na época, as estradas eram bem mais precárias do que hoje, então você vem se aventurar. Lembro-me que no dia que cheguei a São Paulo estava um frio, e eu de camiseta e de bermuda. Meu Deus do céu, nunca vou me esquecer daquele dia. Quando me deparei no Tietê – aquela coisa grande, enorme... Você acostumado numa cidade pequena... Meu Deus, o que é isso? Fomos para a Lapa e ficamos acho que sete dias numa casa que – se é que posso chamar aquilo de casa – você entra de frente e sai de ré, porque não dá para virar. Tinha acho que nove pessoas ali dentro. Viemos eu, ele, a Carol e mais um primo dele – uma coisa absurda. Eu detestei aquilo. Acho que fiquei seis, sete dias e fui morar lá no distrito em que eu moro, no Iguatemi, na casa de outros parentes dele – porque eu não tinha referência, tinha a dele, que ele não conhecia. Foi outro transtorno, tinha treze pessoas na casa. Era uma dificuldade tremenda, uma desorganização... Eu vinha de trauma de desorganização, entrei naquela casa e fiquei acho que ali uns trinta dias. Foi o máximo que eu aguentei. Saí e fui morar em outro local, do senhor que me vendeu essa chácara em que eu moro – ele era o tio da tia do meu marido. Nós o conhecemos, ele gostou de nós e fomos trabalhar lá. Começamos a fazer de tudo: tinha que carpir, cuidar da horta... Ele estava em outra terra e eu fiquei lá vinte e poucos dias. Era engraçado porque eu não sabia andar em São Paulo. Lembro-me que vim à Praça dos Correios uma vez e eu queria chegar à Aclimação. A referência que gravei: a escada de vidro fumê – ih, quantas escadas de vidro fumê tem em São Paulo? Não consegui chegar à Aclimação. Gastei dinheiro e não conseguia chegar a lugar nenhum. É tudo difícil e longe; cidade grande você não tem referência, não tem amigos. Nossa, a coisa foi um caos.

 

P/1 – Que impressão você teve quando você chegou? Você falou que chegou no Tietê... Qual foi a primeira impressão da cidade?

 

R – Aquele impacto do tamanho. Na rodoviária eu fiquei: “Meu Deus, quanta gente!” Aquele vaivém de pessoas... Parece um formigueiro. Era uma época de muita gente. Eu cheguei no final do ano, aquele movimento de gente chegando e saindo... Estava muito frio, e por ser final de ano, em Garanhuns estava aquele calor; lá é diferente. Esse impacto foi engraçado. Hoje a gente da risada, mas não vale. O cara rodou com a gente, rodou, rodou... Gastou nosso dinheiro todinho de táxi. Não conhecíamos nada. Depois eu vi que o cara estava passando duas, três vezes no mesmo local e o dinheiro foi embora para nós chegarmos à Lapa. O tamanho da cidade, muita gente... Chamou-me a atenção. Fui ficando e estou até hoje.

 

P/1 – Vocês primeiro ficaram na Lapa...

 

R – Na Lapa, uma semana.

 

P/1 – Depois nessa outra casa...

 

R – Eu fui para o distrito do Iguatemi e acho que fiquei 33 dias, mas era muito difícil ficar ali. Era muita gente...

 

P/1 – Quem estava nessa casa, essas treze pessoas?

 

R – Tinha a tia do meu ex-marido, o tio dele, os filhos, a irmã, o irmão, o sogro... Só de filhos parece que eram sete. Sei que, ao todo, eram treze pessoas. Muito difícil. Quem acordava primeiro tomava café; quem acordava depois, não tinha mais... Era um rolo danado. Foi uma época muito difícil, 1982. Depois, 1983, veio muita dificuldade; teve uma época de recessão e de muito desemprego. Não dava para ficar ali. Meu ex-marido não queria trabalhar... Não sei o que ele pensava, acho que queria viver de brisa. Não conhecíamos nada, os primeiros anos foram bem difíceis.

 

P/1 – Como vocês se viraram ali? Ele começou a trabalhar ou você começou a trabalhar? Como é que era?

 

R – Lembro-me que eu tinha um dinheiro que estava guardando. Quando eu mudei não confiava muito nele, 100%... Falei: “Tenho uma filha”, lembro-me que eu peguei e guardei o dinheiro... Conheci esse tio da tia dele – era um senhor de idade – e ele falou que tinha uma terra. Ele morava em outra terra, numa chácara, no bairro da Terceira Divisão, que tinha várias pessoas. Parece que era até fruto de invasão: tinha índio, japonês... Era uma mistura danada e ele estava lá. Ele falou: “Vocês podem ficar uns dias comigo nesse barracão.” Tinha uma casa grande... Ele foi muito bacana pra gente. Muita gente falou mal dele; até ele teve alguns motivos mesmo, mas comigo ele foi a melhor pessoa. Nós ficamos lá quase um mês, ele pagou todas as nossas refeições e eu só cuidava da casa e da roupa; a gente pegava comida de fora. Foi quando eu conheci esse espaço em que eu moro hoje. Ele falou para mim: “Olha, eu tenho uma terra, só que o imóvel está fechado”, porque tinha havido umas mortes lá e ele estava envolvido – naquela época, tinha muita grilagem naquela região. Teve umas mortes em 1977, eu ainda morava no Nordeste... Foi considerado como chacina. Ele matou quatro, bem na esquina da rua dessa minha casa; um ou dois dos mortos eram os vizinhos dessa terra, estava há seis anos fechado. Ele foi condenado e ficou dois terços preso. Ele tinha saído, só que não podia voltar [à região] porque tinha medo. Foi até uma cena muito marcante naquela noite: quando resolvi ir para lá, fomos de charrete, porque não tinha ônibus, estrada... Era uma buraqueira só. Outro detalhe é que tinha que ser de noite, porque ele tinha medo de ir de dia e sofrer represália da família. Só que tinha um porém: ele não enxergava direito, porque já era bem de idade... Nós fomos de charrete, eu, ele, meu marido e minha filha de seis meses. Lembro-me que nós passamos na padaria umas seis e pouco e compramos alguma coisa, porque não tinha nada 24 horas. Acabou ali, fui embora. Comprei lanche, comi com a menina... Só que meu marido teve que vir embora, trazer ele de volta. Como que ele ia ficar? Ele não enxergava. Tive que dormir a primeira noite naquela casa – uma casa que fazia seis anos que estava fechada –, eu e a Carol ali... Ainda bem que eu levei vela e fósforo. Menina! De madrugada, com sede... Não sabia onde tinha nada. Aquela casa estranha, fechada, com aranha... Não tinha colchão, arrumamos uma cama e ficamos eu e a Carol; eu com a vela na mão. Passamos a noite nós duas. Ela dormiu, era bebê. Eu acordei de madrugada com sede... Quando amanheceu o dia – eu nem esperei amanhecer o dia, de tanta ansiedade –, no que eu abri a porta e que olhei aquilo, falei: “Gente do céu, o que eu vim fazer aqui? Aonde que eu vim parar?” Eu não sabia nem onde que eu estava, eu fui à noite. Para você ter ideia, fazia seis anos que estava fechado e o mato era mais alto que eu. Não tinha poço... Tinha poço, mas ninguém via mais nada. Não tinha vizinho – tanto que eu não tenho vizinho... Eu tenho um vizinho até hoje, porque o terreno faz divisa com a rede federal da Eletropaulo, então não pode ter construção. Por um lado, é bom: não tem vizinho para perturbar; mas, naquela época, os vizinhos mais próximos eram a trezentos metros. Você não conhece ninguém. Você olhava para os quatro cantos do mundo e só tinha mato: “O que eu vou fazer da minha vida aqui?” Muito difícil. Acho que eu não chorei o tempo todo e não xinguei porque não é do meu feitio, mas foi difícil. A cerca não tinha mais, porque caiu tudo... Seis anos, tudo abandonado. Cobra? Matei mais de vinte ali quando comecei a limpar. Eu estava com a mão fininha: “Vamos trabalhar!” Lembro-me que, na época, sobraram cinco mil cruzeiros, porque eu dei umas parcelas para esse senhor. Ele falou: “Você vai me pagando.” A última vez que eu vi esse homem tem 25 anos. Acredito que ele não seja mais vivo, porque ele já tinha setenta e poucos anos em 1985. Foi difícil, dali para diante... Não tinha estrada, luz – eu fiquei dois anos no escuro, com vela –, telefone. Você tinha que andar três, quatro quilômetros para chegar nessa farmácia... As estradas eram pura buraqueira. Quando conseguimos comprar o primeiro carro, andávamos com corrente e corda, um para socorrer o outro. Foi bem difícil.

 

P/1 – Vocês foram morar lá definitivamente e seu marido trabalhava ou você trabalhava? Como é que foi?

 

R – Eu fui arrumar um emprego. Arrumei dois empregos para ele.

 

P/1 – Para ele?

 

R – Para ele, porque ele não ia. Lembro-me que, uma vez, um senhor me deu carona – era um mestre de obras –, ele me deu um cartão... Trabalhava na construção da Tiradentes, em 1982 para 1983. Ele começou a trabalhar, mas não era chegado a serviço braçal e não tem estudo. Ele não tinha profissão. Tinha um tino para o comércio: gostava de comércio. Fomos trabalhando, arrumando e cuidando daquela terra, porque estava muito abandonada, muito mato... Fomos arrumando a casa. Eram dois cômodos grandes, mas estavam caindo porque estava tudo abandonado; chovia dentro... Ele começou a trabalhar, aquela dificuldade toda... Quando foi em 1983, eu tive a Cláudia, minha segunda filha. Ele, naquela luta. Em 1985, eu tive a Camila [terceira filha], mais difícil... Eu resolvi ir embora, falei: “Não dá, eu vou embora.” Ele não queria nada com nada, e fui. Eu viajei dia 26 de dezembro para Garanhuns de ônibus, grávida e com aquelas duas, numa única poltrona. Foi uma tortura, mas fui. Eu ia para ficar, só que acabou não dando certo. Fiquei quatro meses e doze dias, e voltei de novo.

 

P/1 – Por que não deu certo?

 

R – Continuava meu conflito com a família. E agora, com três filhos... Agora que o bicho pega. Eu tinha colocado placa de venda na chácara e, quando cheguei, só tive desgosto. Ele não ligava para nada. A casa estava toda úmida, mofada... O mato estava entrando pelas portas e janelas, literalmente: “Pronto, agora que danou!” Eu sempre gostei de comprar ferramentas e de organizá-las, e ele tinha vendido o baú de ferramentas. Eu fiquei tão chateada que deu vontade de bater nele. A cerca ele tinha desmontado para queimar, e teve a cara de pau de falar: “Ah, não tinha lenha.” Gente! Você mora no meio da mata, cercado de mata... Não precisa nem cortar madeira verde! Tem madeira seca, você vai lá e tira. Ele queimou a cerca. Voltei, tirei a placa: “Vamos começar a trabalhar de novo.” No final de 1986, eu engravidei da Cíntia – foi a que faleceu, tenho uma filha que faleceu vai fazer doze anos – e começou a melhorar, montamos uma avícola. Em 1988, eu tive a minha última filha, que é a Carmelisa. Começamos a melhorar, a trabalhar... Eu trabalhava dia e noite. Com elas, eu saía de casa às seis horas da manhã e voltava às nove da noite. Na avícola tinha um mercado – montamos um mercado – e uma casa embaixo, começamos a melhorar ali. Em 1992, quando a [Luiza] Erundina foi prefeita, falei: “Caramba.” Eu ia sempre à Regional, porque, naquela época, não tinha Subprefeitura. Eu ia sempre à Administração Regional pedir para melhorar a rua, porque precisávamos ter acesso. Eu sofri muito ali, com as meninas: você tinha dinheiro para pagar o táxi, mas o táxi não entrava. E as compras? Você tinha que andar no mínimo quatro quilômetros com as compras nas costas, não tinha condição. Não tem até hoje, a Estrada do Palanque não tem... Mas nem estrada tinha. Lembro-me de uma cena muito engraçada: eu peguei um táxi, porque minha irmã me largou na mão com aquele monte de compra – não sei se vocês se lembram, se é da época de algum de vocês ou se vocês já viram, tem muito em filme: aqueles pacotes de mercado que são de papel... Eu estava com uns trinta a quarenta daqueles. Como eu ia levar para casa? Chegou à metade do caminho, e quando chegou no lugar mais ermo, o taxista falou: “Olha, dona... Daqui para a frente eu não vou, a senhora se vira. Vou deixar a senhora aqui.” Virou aquela “bateção” de boca: “O senhor está louco, vai me largar aqui? Como que eu vou levar essas coisas para casa? Eu estou no meio do mato, no meio do nada.” “Não vou porque eu não vou ser assaltado.” Ali era muito perigoso, tinha muito cadáver na rua, roubo... Era tudo terrível. Eu fiz um acordo de cavalheiro com ele: “Vamos fazer o seguinte: vai comigo e eu volto com o senhor até o asfalto para escoltar. Depois eu volto a pé, sozinha.” Olha que situação... Não tinha como. Eu ia largar as compras na rua? Ele aceitou e voltei com ele todo o percurso. Na época, eu andava até com um [revólver de calibre] 32 na bolsa – eu comprei um 32 quando tinha cinco filhas. Volto, levo o homem e tal... Chegou 1988 e tive a minha última filha. Tínhamos o mercado, a avícola... A situação foi melhorando, trabalhava direto. Meu ex-marido começou: uma mulher aqui, uma mulher ali, arrumava uma amizade... Separamo-nos em 1989.

 

P/1 – Você ficou com as meninas?

 

R – Fiquei.

 

P/1 – Como foi ficar sozinha, com cinco meninas para criar?

 

R – Muito difícil. Falta dele eu não senti, a verdade é essa. Sempre conversei com ele isso. Por quê? Porque ele não era companheiro, não era presente, não ajudava. Você sente falta da parte financeira, porque você tem outra pessoa que ajudava, mas não era aquela pessoa companheira, aquela pessoa que eu queria idealizar. Minha mãe, quando soube, fazia seis meses que eu tinha me separado. Ele não queria ir embora, eu falei: “Você vai.” Ele foi pedir a intercessão da minha mãe. Minha mãe falou para mim: “Você tá louca? Você vai voltar com ele.” Eu falei: “Como é a história? Não vou.” Fui meio grosseira com ela, falei: “Olha, se Jesus descer do céu e falar: ‘Volta’, eu não volto. Quanto mais a senhora. Não venha para cá com esse propósito. Se a senhora vier porque quer ficar com a gente, porque está com saudade da gente, pode vir. Agora, se não for por isso, nem venha, porque vai perder seu dinheiro e sua viagem. Não venha, porque eu não volto.” Fui trabalhar e cuidar das cinco. Foi muito difícil porque eram cinco, de um a sete anos. Eu tive ajuda... Não posso dizer que as criei sozinha, você sempre tem ajuda. É vizinho que ajuda, outro que dá isso, outro que dá emprego... Mas foi muito difícil. Eu tive bons empregos que tive que abrir mão: quem ia cuidar de cinco crianças, cinco meninas? Ele não ajudava. Pelo contrário, ele me infernizava dia e noite, noite e dia.

 

P/1 – Vocês continuavam próximos? Tinham contato?

 

R – Não. Ele ia à minha porta me ameaçar, era o que sabia fazer. Virou até caso de polícia, porque eu ia à delegacia... Ele ia me ameaçar e dava tiro na porta de casa. Ele queria porque queria voltar. Tomou meu carro e o vendeu – estava no nome de outra pessoa –, eu fiquei a pé. Tirou-me tudo o que podia tirar. A única coisa que me sobrou era a chácara, que era minha. Fui eu que comprei, cuidei dela, aterrei, fiz cerca e, mesmo assim, ele quis tomar; tentou e não conseguiu. Várias vezes cheguei do serviço e ele tinha jogado minhas coisas na rua. A ideia dele era: “Ah, eu vou ficar com as meninas.” Um dia, eu falei: “Olha, não tenho outra opção. Eu vou apostar ou tudo ou nada.” Peguei, arrumei todas as coisas das meninas e falei: “Estão aqui.” Coloquei a bolsa das cinco na porta da sala: “Pode levar suas filhas. Leva tudinho e desapareça da minha frente.” “Ah, não. Eu quero morar aqui, quero cuidar delas aqui.” “Não. Você disse que queria cuidar das suas filhas, então aluga uma casa, compra... Vá pra onde você quiser. Aqui não, aqui é meu.” Ele queria a minha casa e me botar fora para vender. Por vingança, porque ele não gosta de chácara, nunca deu uma enxadada e nunca plantou nada ali. Ele nunca fez nada. Parou com a ideia de querer levar as filhas dele e não levou mais nada. Eu, particularmente, não tenho motivos para acreditar em justiça brasileira. Anos brigando com ele na justiça e ele não dava um pão para as meninas. Ele fazia umas coisas tão absurdas que você fala: “Não, você está doida”, ou então: “Você é perversa, está inventando esse tipo de coisa.” As meninas ficavam doentes, dava uma receita para ele comprar, ele a colocava no bolso e ia embora: “Tá, daqui a pouco eu volto.” Voltava? Não. Lá ia eu, com a cara de tacho, falar para o médico que eu perdi a receita; era vergonhoso contar que ele não voltava, ia embora. Depois de seis, sete meses, ele aparecia. Fazia umas coisas absurdas e não ajudava as meninas em nenhum momento. Agora aparece ele, depois de vinte anos... Legal. Ele falou que eu sou rancorosa e que cada um tem direito de refazer a sua vida. Falei para ele... Ele não fala comigo. Falo para as meninas: “Eu concordo com ele, desde que a pessoa tenha vergonha na cara. Você não foi lixo como homem, foi como ser humano. Você foi o lixo do lixo. Você tinha condições e colocou tudo fora, deu para os outros.” Ele vem dizer para mim que eu sou rancorosa? Não, na minha casa eu não o quero. Eu ajudo qualquer estranho, em casa todo mundo é bem-vindo: fazemos almoço para todo mundo, janta, final de semana, Festa Junina... Todo mundo. O pessoal da saúde... Tenho um bom relacionamento com o posto de saúde. “Oh, puxa. Posso usar tua chácara pra fazer uma festa?” “Pode, claro.” Ele, eu não quero. Não plantou, por que vai colher na minha casa? Não vai. Não é questão de vingança – ele poderia ter ido viver a vida dele com quem quisesse. Eu fui até idiota na época, falei: “Não, você pode continuar aqui. Eu lavo, passo, cozinho, administro a chácara, a avícola e divido com você os lucros.” Ele achou que era pouco.

 

P/2 – Como foi com a avícola? Porque era um negócio dos dois.

 

R – Era dos dois, realmente.

 

P/2 – E aí?

 

R – É o seguinte: eu não tive direito a nada. Fui, várias vezes, à delegacia, ao juizado, à vara da infância e da juventude e não adiantou nada. É que as coisas passam – graças a Deus que passam, tanto o que é bom quanto o que é ruim... Ele chegou a colocar grade no mercado para eu não pegar um pão para as filhas dele. Eu fui falar com o juiz, porque, uns dias antes, ele vendeu tudo. Emprestei meu carro para um vizinho – ele foi buscar umas compras para uma senhora – e acho que faltou gasolina, uma coisa assim... Ele guinchou meu carro na rua e vendeu. As meninas ficaram a pé. Ele foi terrível e, hoje, quer dar uma de bonzinho. Só que, como diz o ditado: “Quem bate, esquece. Quem apanha, não.” Não tenho mágoas, raiva... Passou. Já tive e quis matá-lo; hoje, não. Não o quero aqui na minha casa. Eu falo para as meninas: “Não o quero aqui.” Ele falou o ano passado, para as minhas filhas, que queria um almoço de família. Eu falei: “Nossa, que família? Ele tem a dele” – porque ele falou para mim que filho era lixo, que ele fazia dez na rua e que eu ficasse com elas. Eu fiquei. Eram minhas filhas. Lavei, passei, cozinhei, fui à escola, voltei... Levava duas, buscava duas, levava duas, buscava duas. Ele nunca se preocupou. Agora, aonde você não plantou você quer colher? Ele apareceu um dia lá – eu acho que tinha uns 14 anos que eu tinha me separado – “Nossa, mudou isso aqui. Tá bonito. O que você faz?”, aquelas conversinhas bestas... Você não tem o que conversar, não tem afinidade. Não tenho diálogo com ele, ele não ajudou. Eu não o questiono de termos nos separado até porque eu quis me separar dele. Mandei-o embora, falei: “Você tem que ir. Eu não vou dar minha casa para você e estou com as meninas.” Foi muito difícil ficar com aquelas cinco porque tudo era longe – para você ter ideia, a escola mais próxima era a sete quilômetros. Sete quilômetros! Não tem transporte, não tem creche... Ninguém vai olhar cinco crianças. Um, dois, ainda olham, mas vai andar com cinco... Eu saía com as cinco e o pessoal ficava admirado. Eu nunca deixei de sair com elas. Nas férias – eu sempre guardava um dinheirinho –, vínhamos para a Zona Sul, para o Ibirapuera. Apesar de ser um parque longe, era um parque que fez parte da infância delas e da minha vida. Escalávamos aquela estátua do Movimento às Bandeiras, eu com elas pequenas. Dez horas da noite estávamos meladas de doce na [Avenida] Paulista para ir para casa. Eu andava com elas e as levava para shopping, para o West Plaza, para o Shopping Matarazzo para andar na pista de gelo... Sempre deixava um dinheirinho nas férias para andar com elas. Vinha para a antiga Mesbla para podermos conhecer. Eu acredito que elas sofreram, porque acho que filho de separação é o que mais sofre. Nós sofremos, mas você é adulto e cavou aquilo; as crianças, não. A criança não entende e quer saber o porquê de estar agindo daquele jeito. Ele era muito mesquinho e fazia umas coisas para tentar me alfinetar usando as meninas – isso que eu não concordo. As mais velhas lembram, as mais novas, não muito. Tanto que tem algumas que se dão bem com ele e vão lá visitar. Eu falo: “Você quer ir, vai. Se dependesse de mim você não ia, mas você é livre. Eu não o quero aqui, mas se quiser ir lá, pode ir.” Não questiono.

 

P/1 – Você falou que tudo era distante da chácara. Qual era o lugar mais perto, o lugar onde começava a ter asfalto?

 

R – Seis, sete quilômetros.

 

P/1 – Que região de São Paulo?

 

R – No Iguatemi. Era o ponto mais próximo que tinha um comércio. Hoje, está totalmente mudado: em vinte anos, o Jardim Iguatemi – que é onde está acontecendo toda aquela obra da Jacu Pêssego, do Rodoanel – teve um avanço muito grande. Lembro-me dos primeiros dias: eu cheguei ali e tinha uma empresa grande, que era a Vulcão – todo mundo que eu conhecia trabalhava na Vulcão ou tinha um parente, um amigo que trabalhava na Vulcão –, a empresa que agregava todo mundo. Tinha uma padaria que fechava às oito horas da noite, umas imobiliariazinhas de madeira – para você ver como era precário –, mas na estrada em que eu morava não tinha nada; era um vizinho aqui e outro a quinhentos metros. Tanto que, ainda hoje, tem essa preservação, mas mudou: nós temos uma rua larga. Está esburacada... Nossos governantes que têm certo descaso... Mas tem estrada. Veio iluminação – nós colocamos. Quando colocamos iluminação, na hora em que ele veio passar, falou: “Você está louca? Nós não vamos conseguir.” “Vamos, gente.” Dentro do mato... Você acha que vai colocar? Ainda mais na época do [Paulo] Maluf. Diziam que ele só investia em bairro de rico, foi um risco para nós. Hoje temos iluminação, mas, na época, eram quatro quilômetros pra chegar ao asfalto, na pista, e quatro para chegar à pista, no ponto de ônibus.

 

P/1 – Como que funcionava o processo de reivindicar?

 

R – Eu sempre fui muito ativa. Eu tinha aquelas meninas para estudar... Sempre fui muito participativa: eu ia muito à prefeitura, à Administração Regional... O pessoal falava que eu virei patrimônio dali, porque eu ia direto. “Gente, precisa arrumar aquela rua, precisa passar máquina naquela rua, precisa abrir para escoar as águas...” Eu percebi que eu pedindo não tinha muita importância: você está sozinho e não tem dinheiro, você não é ninguém. O pessoal nos chamava de “pé de barro”. Tratavam-nos como pessoal do fundão – o pessoal do São Mateus –, porque sempre tem aqueles que acham que são mais que os outros: “O pessoal lá do fundão, os ‘pés de barro’.” Viam-nos com preconceito e eu ia direto. Um dia, falei: “Vamos fundar uma associação?” O pessoal: “Quê? Fundar uma associação? O pessoal não vai vir” e, realmente, foi uma batalha. A primeira reunião tinha três pessoas – eu e mais dois. Na segunda, tinha seis. Na terceira, tinha 11. Começamos a perceber que eu, pessoa física, ir lá e implorar, não dá; quando você pede em nome da comunidade e da associação tem outro peso. Tinha um agravante muito grande naquele bairro: ele tem poucas áreas de risco. É um vale, mas a maioria das áreas são planas e muito bonitas. Uma pena que não tem o projeto que deveria ter, a topografia é muito boa. Parte desses terrenos margeando a Estrada do Palanque está coberta de lixo e ali não dá para ter construção. Ali está para ser implantada uma parte do Parque Linear do Aricanduva que, na época, eram lixões. Foi uma das lutas mais difíceis que eu tive que enfrentar: foram dez anos de luta, porque era lixo dia e noite. Eu vi crianças serem internadas intoxicadas, porque elas comiam as comidas vencidas dos lixões... Elas vendiam aquelas coisas. Pessoas cortadas tomando pontos, pessoas que morreram pela leptospirose... Era um desconforto muito grande você ver e passar por aquilo. A estrada que tinha era um trilho – lama de um lado, lama de outro, e lixo. Nós andávamos no meio do lixo. Eu trabalhei uma época na Pirelli. Eu tinha que trabalhar de branco na terça e na sexta, imagina... Eu andava com duas roupas e dois sapatos. Andava de meia fina, pegava o ônibus – na época, não tinha a Tiradentes – que vinha de Guaianases até Santo André. Só tinha peão. Cinco horas da manhã e eu de minissaia – eu tinha 24 anos –, era até engraçado: os caras acabavam com as minhas meias finas, passavam a bolsa, aquela loucura toda... E tinha que fazer aquele trajeto dentro do barro. Se não bastasse o lixo, era cavalo morto no meio da rua, vaca morta, lixo hospitalar... Era uma coisa de louco aquilo. Eu falei: “Meu Deus, eu vou ter que dar um jeito. Vou ter que começar a cutucar.” Comecei a reivindicar e colocar no jornal. Quando foi uma época, houve um acidente com a minha cunhada e ela se queimou. Cheguei em casa e parecia uma cena de filme: ela estava queimada do pé à cabeça, em chamas. Ela estava em chamas. Em 1992 houve esse acidente. Tinha acabado de chegar do serviço e estava aquela gritaria toda, até achei que fosse briga na região. Ela estava em chamas dos pés à cabeça, apagamos... E para tirar aquela mulher dali? Nós conseguimos tirar que nem um animal, todo queimado... Com um caminhão, porque não tinha carro que passava, tinha cratera no meio da rua... Tiramos de caminhão e a levamos para um posto de saúde que, na época, ficava aberto 24 horas. Veio a ambulância e a transferiu para o hospital do Tatuapé. O meu irmão também se queimou bastante, só que não tanto quanto ela; ele se queimou na tentativa de amenizar e tirar aquele fogo dela. Queimou as mãos, os pulsos... Alta hora da noite e a ambulância veio o trazer de volta. Eu insisti para o motorista, falei: “Não... Vamos o deixar ali no São Mateus, eu tenho uma amiga lá. Ele pode ficar lá, porque essa estrada está muito ruim.” “Não, vamos embora.” O cara teimou e a gente veio. Quando chegou à metade do bairro, da via – na época, a ambulância era uma Veraneio –, estava tão ruim de lama, de buraco e de chuva que a ambulância caiu num buraco. Ficou o paciente, eu e todo mundo dentro, não íamos nem para frente nem para trás, tanto que teve que ser tirado de guincho no dia seguinte. Nós, já que estávamos vivendo aquilo, falamos: “Vamos aproveitar isso para chamar a atenção das autoridades.” Chamamos o pessoal da extinta Manchete, da Gazeta. Começamos a fazer umas matérias e a chamar a atenção da câmara municipal. Foi dali por diante que conheci a Luiza Erundina, que tomou ciência da dificuldade daquele bairro e falou: “Vamos fundar uma associação.” Começamos a reivindicar, trabalhar... Foi a primeira vez que vimos aquela estrada realmente aberta, bem cascalhada. Começamos toda uma luta, a luta do lixão – porque era vergonhoso aquilo, muito desconfortável... Você tomava banho, se arrumava... Todo mundo recolhia lixo dos seus lugares e jogava no nosso bairro. Foram dez anos de luta. Conseguimos atrair a atenção do Ministério Público, da Vara do Meio Ambiente, do pessoal da Globo, da Gazeta. Muita gente nos ajudou. O Ministério Público se propôs, fizeram uma ação conjunta... Eu tomei tiro duas vezes lá para poder acabar com aquele lixão. Na cabeça deles, eles eram corretos; viviam daquilo. Tentávamos mostrar para eles: “Olha, isso não é bom para ninguém. Teve gente que morreu aqui por leptospirose, gente que ficou internada, intoxicada...” As crianças comiam aquelas comidas vencidas... Tem os exploradores também, as pessoas que se beneficiavam daquilo, e as pessoas também que se beneficiavam porque trabalhavam – não tinham outra opção. Era muito lixo, trinta anos. A própria prefeitura jogava lixo lá, em vez de fazer a coleta. Começou todo um trabalho... O pessoal falava: “Ah, você vai fazer? Mulher não manda nada.” Eu achava engraçado, porque eles falavam: “‘Nóis’ faz o que ‘nóis’ quer aqui. Vai para beira de tanque, lavar a roupa, que aqui a gente faz o que a gente quer.” Aquilo ficava me remoendo: “Eu vou provar para vocês que vocês não fazem o que querem. Vocês estão errados.” O lixão era conhecido no Brasil inteiro porque o pessoal passava e era a referência. Foi um trabalho de envolvimento da associação, do Ministério Público, do DECON, da própria imprensa – a Rede Globo ajudou bastante, na época. Eu achei engraçado, porque no dia da ação conjunta eu não sabia – não sabia mesmo... Eu cheguei à metade do bairro – estava a pé aquele dia, e tinha o hábito de dar volta de bicicleta, ver como é que estava... Naquela época eu atuava mais. Eu sabia que ia ter alguma coisa para fechar, mas não sabia quando. Foi aquele dia. Quando eu cheguei à metade do bairro, estava aquele monte de carro de imprensa, de polícia, do Ministério Público... A repórter que fez a cobertura do lixão foi a Rosângela Santos e também o Alberto Gaspar. Eu fui saber o que estava acontecendo, fui falar com o subprefeito que, na época, era o administrador regional. Ele falou: “Foram feitas várias reuniões e vamos queimar todos os lixões. A partir de hoje, nós vamos acabar com isso aqui.” Para a gente, era vitória. Eu falei para ele: “Eu vou junto.” O Alberto Gaspar falou: “Você está louca? Você não vai nada, você já foi ameaçada.” “Eu vou sim, porque é uma maneira de falar para eles...” “Vocês fazem o que vocês querem? Nós vamos vencer essa batalha.” – foi aí que eles quiseram me matar.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, Cristina.

 

R – Eu fui junto, lacramos o lixão...

 

P/1 – Esse lixão pertencia a...

 

R – Eram lixões particulares. Eram as áreas que os donos exploravam, alugavam para explorar... Você sabe, tem aquele lixão... Tem os aterros sérios, mas que tem que pagar taxas – porque tudo tem um custo – e, às vezes, a empresa até paga, mas o motorista desvia no percurso: ele não quer ir lá, pagar taxa e recolher tudo. Pagava para o dono daquela área, que recebia para deixar jogar aquilo ali. Tem trecho ali que é puro lixo e está coberto de terra. Aquilo, com certeza, está eliminando gases e corre risco de incêndio, de explosão. A sorte é que não tem casa; tem uma casa aqui, outra acolá. Não tem construções, mas foram trinta anos de descarga de lixo. Era uma vergonha aquilo. Começava desde a entrada do bairro – quando você saía da [Avenida] Ragueb Chohfi –, até chegar à Estrada Vovó Carolina, no entroncamento com a Estrada do Palanque. Para você ter uma ideia: era quase um quilômetro – ou mais – só de lixo, era muito feio. Isso tem recortes da época. Foi muita confusão e reunião. Eu encabeçava, sabia que muita gente vivia daquilo – você entende –, mas não é o correto. Teve um fato que foi um divisor de águas: umas empresas estavam jogando lixo lá, chegaram uns caminhões à tarde e falaram para o pessoal da Favelinha que era madeira. Eles cobriram de madeira em cima dos caminhões, esses de caçamba, e o pessoal autorizou descarregar. Era lixo hospitalar. Foram me chamar e a fotografamos tudo. Eu fui à antiga CBPO (Companhia Brasileira de Projetos e Obras) – que é a Cliba de hoje –, eles eram responsáveis... No sábado, fui convidada para ir a um churrasco da administração regional e conheci o dono da Cliba, um argentino. Eu expliquei para ele, falei: “Nós estamos numa batalha danada para extinguir aquele lixão, só que não temos coleta de lixo no bairro. Não podemos dar um desmaio no lixão, nós temos que eliminar. Se não tivermos coleta, o povo vai ter motivo para jogar na rua, dentro do córrego... Eu preciso implantar coleta lá e o senhor precisa nos ajudar.” Ele falou para mim: “Hoje é sábado, estamos no meio de uma festa e não vou poder resolver nada. Eu vou te dar um cartão, na segunda-feira você me procura.” Combinamos e, dali por diante, a coisa começou a caminhar. Implantamos a coleta do lixo – nós, que éramos receptores, agora tínhamos uma coleta – e começamos a limpar o bairro. Graças a Deus, extinguiu o lixão; mas foi difícil.

 

P/1 – Qual o nome completo da associação de moradores?

 

R – Associação Amigos do Bairro do Palanque.

 

P/1 – E as pessoas que participavam? Era muita gente?

 

R – Não tinha muita gente porque ali é um bairro difícil. Eu tive um vice-presidente bacana, que ajudou. Eu tive o pessoal, o diretor social... Reunimos um pouco de cada rua: chamava um, chamava outro... Tem aquela dificuldade, porque eu acho assim: as pessoas só querem receber, não querem trabalhar. Se nós fossemos mais organizados o nosso país era bem melhor, tanto que lá provamos isso. Eu voltei agora... Falei para vocês, no início, que eu voltei recentemente, porque me afastei para estudar e para fazer outras coisas. Parou. Ninguém fez mais nada. As ruas estão todas esburacadas, não tem uma rua que preste. Tem até lugares com alguns princípios de lixo. A cidade de São Paulo está cheia de lixo pela falta de educação das pessoas. Reforma a casa, consome as coisas e joga o lixo na casa do outro. Isso ainda faz parte da educação do nosso povo, mas, na época, eram lixões mesmo. Era lugar de descarga, tinha pessoas que trabalhavam... Essas cenas que você vê no Rio de Janeiro, no Nordeste, criança trabalhando dentro do lixo descalça... Tinha lá. Era horrível aquilo, um mal-estar muito grande. Parte do bairro começou a se conscientizar porque viu que aquilo era ruim, mas tinha uma parte que trabalhava ali. Para eles, o meu trabalho prejudicava o deles. Foi difícil convencer esse pessoal. Quando jogaram essas caçambas de lixo hospitalar parece que deu um estalo. Eles viram: “Opa, espera aí. O cara falou que era madeira, e não é.” Não tinha água no bairro, os lençóis freáticos estavam contaminados. As pessoas só acreditam no que veem e você não vê bactéria a olho nu. Eu falava: “Gente, essas águas têm bactéria.” Começou outra luta, na Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo): “Vamos implantar a rede coletora de água da Sabesp, porque aqui os lençóis freáticos estão contaminados.” “Não, que é isso? A água lá de casa é limpinha.” Limpinha, mas vai para o laboratório para ver... Foi outra luta, eles eram contra. Era engraçado: eles eram contra você trazer infraestrutura. Lembro-me de quando colocaram a iluminação: ninguém queria luz ali, porque era carro roubado... Lembro-me que vi mais de vinte corpos ali, de desova de cadáver. Eu andava – ainda ando – a pé à uma, duas, três horas da manhã, andava a qualquer hora. Eu sabia que tinha o risco de você servir de queima de arquivo porque viu alguma coisa errada, mas eu conhecia todas as “cambiadas” do bairro. Eu ia às reuniões e, particularmente, eu pastava para caramba. Teve uma época que eu trabalhei com costura – eu fiz guarda-sóis e barracas de praia por dez anos – e fiz um acordo com um cara da empresa. Falei: “Eu vou fazer o seguinte: vou fazer o teste, só que, se eu passar, eu não venho trabalhar na empresa, porque eu não tenho como. Eu vou montar uma oficina em casa, se você concordar.” O cara era muito chato, mas é meu amigo até hoje. Ele falou: “Vou te dar uma semana pra você passar no teste, senão os burrinhos estão na rua.” Aquilo foi um desafio. Falei: “Vou provar para ele quem são os burrinhos.” Ele falou, depois de uma semana: “Vou dar uma remessa para você fazer dezessete guarda-sóis. É uma encomenda de um restaurante de um hotel do Ceará, de Fortaleza. Se o cara aceitar o trabalho, você está contratada.” “Tá. Vamos fazer um acordo: se eu passar, monto uma oficina num dos cômodos da minha casa. Eu não tenho carro, então uma vez por semana eu venho para a loja, separo tudo...” – porque a loja era na Mercúrio, em frente ao Mercadão Santa Rosa –, “...que preciso para mim e você leva. Combinado?” “Combinado.” Dez anos foram assim. Eu sofria, porque começaram a surgir residências e ligações clandestinas, com sobrecarga na rede e eu não conseguia costurar, porque eu trabalhava com máquina elétrica. “E agora, como é que eu vou trabalhar?” Era transformador que estourava, que explodia... Comecei a ir direto às reuniões da Eletropaulo, de prefeitura, Secretaria de Vias Públicas... Porque o povo estava preocupado... Quem estava preocupada era eu.

 

P/1 – Por que as pessoas não queriam que melhorasse?

 

R – Não entendo. Eu acho que porque acontecia muita coisa errada, então quanto mais o bairro é afastado e periférico, melhor. Eu entendo... Eu acho que o governo vai jogando as pessoas para os extremos e elas só começam a fazer alguma coisa quando a coisa está na cara. Bairros de classe média e de classe rica são projetados; bairro de pobre, não. Eles crescem no olhômetro, de qualquer jeito. O que acontece? São os buracos da vida. Você está errado, é relaxado, tem vício, vive na criminalidade – ali, para você, é bom. Todo bairro de pobre leva, no mínimo, dois anos para começar a crescer e a se desenvolver. Ocorre uma mudança natural: o bairro começa a se desenvolver e eu melhoro junto com o bairro, ou não tem lugar para mim. Eu vou ter que sair dali e caçar outro buraco, porque ali não serve mais. Eles queriam aquilo: a falta de iluminação facilita a criminalidade, a desova de cadáver, a depenação de carro roubado, a queimação de fio, como era ali... Ainda é. Tem trecho em que não temos luz na rua porque você coloca de tarde e, à noite, não tem fio. O cara rouba. Um dia, eu achei uma coisa tão estranha... Minha vice-presidente morava do outro lado – tinha que atravessar um pedaço de mata, mais ou menos uns seiscentos metros. Coloquei o pé na mata umas dez e pouco da noite. Eu vi um negócio correndo no meio das minhas pernas, falei: “Será que é cobra?” Sabe o que era? Os caras cortaram os fios. Cortaram essa ponta aqui da rua, foram na outra ponta, cortaram o outro extremo e puxaram. Fui seguir pra ver e eles me conheciam, porque me chamaram por nome. Os dois baixaram o boné, ficaram de costas e entraram pra dentro do mato. Olha a situação: é desgastante isso... Para mim, é muito constrangedor. Você não vê melhora. Você trabalha para colocar iluminação e tem trecho que está tudo escuro. Foi uma conquista nossa em vão. Eu entendo que isso é para favorecer a criminalidade. Acho que a educação e a preocupação do poder público têm que ser muito mais efetiva, porque muda. Mudou muita coisa lá: acabamos com o lixão, implantamos coleta de lixo, colocamos água, luz, iluminação pública, transporte... Implantamos o “Vai e Volta” – um projeto que eu montei –, que hoje é o TEG (Transporte Escolar Gratuito). Montei em 1996, baseando-me na constituição. Todas as crianças iam a pé para a escola no meio da lama e do barro. O [prefeito de São Paulo, Celso] Pitta bateu o pé e falou que não ia implantar. Quando a Marta [Suplicy, prefeita de São Paulo] ganhou, a gente: “Vamos tentar de novo.” Fomos o projeto piloto. O [jornalista] Chico Pinheiro fez várias entrevistas e reuniões conosco pra ver se conseguíamos. As escolas estão tudo na ponta do bairro; lá dentro, o pessoal continua sem escola. Eu acho que o pessoal é muito acomodado, tanto é que lá está assim. Eu me afastei. Lógico que eu não sou tudo – ninguém faz nada sozinho –, mas não tive ajuda de muita gente do bairro; tive de gente de fora. É engraçado. Tive de companheiros de associações de bairros vizinhos, de bairros da redondeza, de pessoas de entidades públicas, de pessoas de órgãos públicos... Eu tive mais ajuda do que do próprio bairro.

 

P/1 – Cristina, mesmo que tenham sido um pouco difícil, como eram e onde aconteciam as reuniões da associação?

 

R – Fazíamos as reuniões aos sábados ou aos domingos, sempre na casa de alguém – de umas pessoas, porque moro afastado. Eu não moro na vila porque o bairro Palanque é meio peculiar. No começo tem a vila, depois uns loteamentos que são só empresas – que foi outra conquista nossa, hoje tem 44 empresas que geram mais de cinco mil empregos diretos. Mudou com a vinda dessa empresa... Houve uma mudança. Eles me ajudaram, também. Tinha na casa do Fulano, pegava salão de igreja emprestado, salão de fábrica... Começamos a fazer nossas primeiras reuniões sobre a água e o lixo. Depois, fizemos parceria com o governo do Estado para distribuição de leite e cesta básica. Tinha um lugar sempre emprestado; sempre íamos pedindo um lugar emprestado. As reuniões, geralmente, eram quinzenais... Semanais, aos sábados.

 

P/1 – Como era o diálogo com os órgãos públicos – com a subprefeitura, com a Sabesp?

 

R – Tinha uma coisa bem interessante, na época, que achei que deu bastante resultado não só paro nosso bairro, mas para a região como um todo. O administrador regional da época fazia umas reuniões quinzenais ou mensais e, geralmente, pegava o pátio de uma escola – ou algum lugar em que coubesse bastante gente – e trazia os representantes desses órgãos até a população. Surtia efeito, porque você explanava seu problema, levava sua questão, eram feitas as anotações e se estabelecia um contato direto no órgão já na segunda ou terça-feira. Você vê... No [bairro do] Palanque conseguimos água, luz e telefone. Não precisou de político, ele foi lá fazer demagogia. Íamos aos locais e estabelecia-se esse contato entre o presidente da Eletropaulo, o engenheiro técnico da Sabesp, o pessoal de obra da Prefeitura, o pessoal da Secretaria de Vias Públicas e o secretário da Educação. Sabiam que é difícil. Numa cidade gigantesca como São Paulo, muita gente que tem boa vontade não tem a estrutura. Costumamos brincar: “De boa vontade o inferno está lotado.” Não dá... Tem muita gente que quer fazer as coisas, mas, às vezes, não tem condições de pegar o dinheiro do lanche e se deslocar para ficar na Câmara Municipal – levando quatro, cinco horas tomando chá, com descaso... Não podia vir na Secretaria de Educação, na Zona Sul... Para se deslocar é muito longe. Essas reuniões e contatos que o administrador fazia foram muito bons. Tinha o apoio das rádios comunitárias, as associações eram solidárias umas às outras... Acho que isso deu muito resultado. Hoje, não temos.

 

P/1 – Como era a relação com essas outras associações? Tem alguma que você lembra que foi importante?

 

R – Tem a Associação do Jardim Marilu, um bairro vizinho. Inclusive, trabalhei com o presidente e o vice-presidente – fui diretora social. O Pedro Paulo é um amigo falecido que foi muito atuante. Tem o pessoal do Iguatemi, o pessoal do Recanto do Sol... No Iguatemi tinha muita associação de bairro. Em São Mateus tinha o CONSAB (Conselho das Associações de Moradores de Bairro), que também foi extinto. Tinha essa rádio... Gazeta de São Mateus, que era vinculada ao jornal Gazeta – o jornal tem até hoje. Eles tinham esse espaço para se discutir os problemas da comunidade, chamar os entes responsáveis – seja Sabesp, Secretaria de Pavimento, Educação... Traziam até a população. Acho que isso facilitava. A própria prefeitura, na época... A primeira vez que nós fomos ali foi em 1992, após esse acidente que aterrou a ambulância. Era engraçado: eu segurava a porta da ambulância com a mão direita – porque estava quebrada – e o soro do paciente com a mão esquerda; o motorista, bêbado... Você vê... Um negócio maluco. Eu tive que andar dentro do barro, de madrugada, para ir ver... Eu não sabia com quem tinham ficado minhas filhas nesse acidente. Foi dali que tudo arrancou, porque você fala: “Poxa, a pessoa está morrendo.” Essa minha cunhada não morreu porque não chegou o dia, mas foi queimadura de terceiro grau. Ela perdeu o bebê – estava grávida – e ficou meses internada no hospital do Tatuapé. Teve que passar por várias cirurgias e, até hoje... Aquilo a traumatizou. Você não tinha como tirar, não tinha um carro que passasse naquela estrada. Você andava com corrente e com corda para um puxar o outro. De certa forma, teve uma melhora; não está ainda do jeito que deveria estar. Ali é um bairro muito bacana, dá para fazer um trabalho muito bom. Eu espero que agora, com a implantação do Parque Linear do Aricanduva, eles removam aquelas famílias e as deem um assentamento decente, pelo menos. É um bairro que tem uma topografia boa e que dá para fazer um bom trabalho, mas a questão do lixo foi terrível. Está lá... É que está coberto e ninguém fala, mas está ali.

 

P/1 – Você falou também de imprensa, várias emissoras, jornal, rádio comunitária... Como que era? Vocês iam até o lugar pedindo para fazer reportagem?

 

R – Na época do acidente com a ambulância teve a Manchete, que fez a matéria. Foi matéria de capa, chegou até à Câmara Municipal. Muita gente não sabia o que era e nem conhecia o bairro do Palanque. Fui candidata da Luiza Erundina em 2004, arrancamos mais algumas coisas... Começamos a levar o nome do bairro. É um bairro desconhecido que está aqui na Zona Leste – uma travessa da Avenida Ragueb Chohfi, a vinte minutos do Shopping Aricanduva – e as pessoas não conheciam. É até peculiar, porque, como é uma área rural, boa parte ainda é mato. Chegamos a pedir apoio de jornal de bairro, da própria Globo... Pedimos apoio daquele quadro “Comunidade”, do Chico Pinheiro – fizemos algumas matérias com eles. Isso começou a alavancar. O pessoal começou a conhecer, a chamar a atenção da prefeitura, do secretário de Educação... Até hoje, dentro do bairro, não temos escola. Todas as nossas conquistas foram com o pessoal do CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) por questão fundiária, falta de documento, desapropriação... É tudo burocrático. O povo de dentro do bairro tem que vir de lá para cá. Ligávamos para a emissora, para o jornal, e explicávamos o que estava acontecendo – que não conseguíamos apoio do poder público, principalmente da administração regional... Primeiro, porque é um bairro grande. Para você ter ideia, do início da Estrada do Palanque – que sai da Ragueb Chohfi – até chegar à minha casa dá quatro quilômetros; é chão para você cascalhar tudo aquilo... Sabemos que existem dois distritos que têm várias necessidades e cada um puxa para um lado. Chamávamos a atenção da imprensa: “Está acontecendo isso e nós precisamos de apoio. Precisamos fazer uma matéria pra divulgar e ver se conseguimos fazer com que alguém venha e dê uma resposta para nós.” Deu resultado, até a Globo cobriu. O secretário queria ir lá de carro, eu falei: “Não, o senhor não vai de carro, vai a pé. Por que o senhor vai de carro? As crianças vão todos os dias a pé, o senhor vai uma vez na vida e quer ir de carro? Não. Nós vamos todo dia, ou escola é eventual? Escola é todo dia, você tem que ir para a aula todo dia. O senhor vai a pé para sentir. Ainda está bom, porque está sol. Você não pode suspender aula porque chove. O mundo não para, a vida não para.” Ele foi num poeirão, esbravejando. Eu falei: “O senhor viu como é? Isso é todo dia.” Mesmo assim, não aconteceram mais coisas. Implantamos o “Vai e Volta”, que resolveu muita coisa, mas agora veio o [prefeito Gilberto] Kassab e o limitou até doze anos. São umas contradições... Se eu não posso trabalhar das duas às quatro horas, de onde que eu vou tirar dinheiro? Se minha família é pobre, como eu vou pagar transporte? Se todos têm que defender crianças e adolescente – o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) diz que a comunidade é como um todo –, por que você limita? Como é que fica a criança, um vai de transporte e o outro vai a pé? Aquele que estuda na escola do município vai de transporte; os outros, que estudam na escola do Estado, vão a pé. O secretário esbravejou. Implantamos o “Vai e Volta” no meu bairro, foi projeto piloto. Deu certo, se expandiu para a cidade de São Paulo e virou lei.

 

P/1 – Como foi esse processo pra implantar?

 

R – Bastante ofício, reclamação... Vai à secretaria, à delegacia de ensino, falar com a prefeitura, marcar reunião... Até que chamou a atenção e o secretário foi lá. Ele queria que mandasse a escola para o outro... Era uma coisa absurda: ele queria mandar as nossas crianças para outro bairro, voltando. Você está na saída do nosso bairro, mas não; era voltando para dentro do mato, para ir para outro bairro. Você que é mãe, pai, vai trabalhar e está no caminho de pegar transporte, leva o seu filho até lá... Não. Era voltando para dentro do mato; sobe morro, desce morro... Falei: “Não tem condições.” Hoje melhorou – não vou falar que não melhorou –, mas precisa melhorar muito ainda. Eu gosto dali, é um bairro bacana de morar, que tem muito verde e precisa ser preservado. As dificuldades que íamos enfrentando com a administração pública eram muito grandes. Falta interesse, eu acho.

 

P/1 – Cristina, quais você acha que são e foram os maiores desafios para vocês no processo de luta, de reivindicação?

 

R – Para mim, foi muito difícil não como presidente da associação, mas como mãe. Eu tinha cinco meninas e precisava dar estudo às cinco. Muitos dos meus vizinhos... Muita gente foi embora, mudou do bairro porque não tinha condições. Era muito difícil. Eu cheguei a andar quase trinta quilômetros por dia porque eu levava duas, buscava duas, depois levava a outra para cima e para baixo. É um lugar muito ermo, não ia deixar as meninas andando sozinha. Eu me sentia meio cão de guarda ao cuidar delas. Eu precisava levar aquelas cinco meninas na escola e, na época, não tinha nem escola no nosso bairro; era em outro bairro. Era desgastante. Hoje elas dão risada, sentam à mesa e ficam... Eu comprava bota Sete Léguas para irem para a escola e só colocavam o tênis na porta da escola, porque era muita lama. Lembro-me de quando fizeram essa escola, nesse bairro mesmo... Teve criança que foi arrastada para dentro de boca de lobo. A diretora vinha de bota Sete Léguas até a avenida – lá deixava o carro e subia, de bota Sete Léguas. Fizeram corrimão de corda para você chegar ali. Tinha as cinco, então tinha que me preocupar. Fazia a bolsa pra elas... Eu fazia guarda-sol – porque eu trabalhei com guarda-sol de praia muitos anos –, cheguei a fazer guarda-sol de um diâmetro para levar a turma toda, parecia um círculo no meio da rua. Era bem engraçado. Todo mundo queria ir naquele guarda-chuva porque era um guarda-sol, mas servia de guarda-chuva – aquela coisa estampada, verde e amarela... Para mim foi mais difícil porque eu sou a penúltima casa da estrada, estou no final. Muita gente morava no meio do percurso. Nós éramos, praticamente, as últimas; eu acho que só tem duas casas depois. Acho até uma vitória, eu fico muito feliz que elas estudaram. Três delas estão fazendo faculdade, elas gostam de estudar. Muitos dos meus vizinhos abandonaram os estudos, foram embora... Alguns ficaram na criminalidade. Eu, graças a Deus, não tive isso. Tinha muito medo das meninas entrarem em drogas – você tem essa preocupação porque não pode ficar com eles 24 horas. Apesar das dificuldades, uma crítica que o pessoal fazia a mim: “Não, você tem que mudar! Você tem que ir para a vila.” Eu tinha outra visão, falei: “Gente, se sair de manhã para trabalhar e deixar essas meninas em vila, eu vou as perder. Vou ficar aqui, porque pelo menos dificulta. As cinco servem de companhia uma para a outra.” Foi muito difícil criar minhas filhas ali e acredito que poderia ter sido mais fácil se as pessoas fossem mais unidas. Quando implantaram o “Vai e Volta” eu fui tão criticada em casa... Quase que me malharam no Judas da Semana Santa. Eu falava para as meninas: “Gente, é questão de etapa. É questão de paciência.” Quando implantaram, o “Vai e Volta” não ia todo o trecho; ia até metade do caminho. As minhas filhas continuavam a pegar metade do caminho – dois quilômetros e pouco – até o ponto que marcaram: “Está vendo? A senhora foi brigar por transporte para o filho dos outros!” Tem uns em casa que são assim: “Está vendo o seu trabalho, o que é que deu? Os outros vão de transporte até a porta de casa e nós, não.” “Gente, é questão de paciência! Muita calma, vai chegar. Teremos outras reuniões.” No começo quase me malharam. Depois, o transporte fazia o retorno no portão de casa. Para mim foi benefício duplo, porque eu sabia que elas iam de transporte, não iam mais se sujar, cansar e molhar. Eu estava livre para estudar e era tudo que eu precisava, era o que eu queria. Mas no começo foi difícil, elas não aceitavam e achavam que eu tinha beneficiado os filhos dos outros.

 

P/1 – Cristina, você também tinha falado que, nessa luta toda, você chegou a levar dois tiros...

 

R – Duas vezes.

 

P/1 – Como é que foi isso?

 

R – É engraçado você passar por isso, porque a morte e a vida estavam juntas. Eu achei que eu ia morrer naquele dia. Fui egoísta, falei: “Puxa, vou morrer tão cedo.” Foi muito rápido. Eu desci... Nós estávamos num trabalho de limpeza, tinha limpado o bairro. Tinha um senhor, que tinha uma área maior... Fazia quatro anos que eu estava atrás desse senhor e não encontrava o proprietário. Era da Penha. Eu desci com um dos diretores [da associação de bairro] – porque parece que o pessoal das empresas passou a fazer parte do quadro da associação – e o bairro estava limpinho, uma maravilha. Tinham tirado parte do lixo, coberto outra, a rua estava limpa e tinham implantado a coleta. Estava ficando aquela coisa que a gente precisava. Quando eu cheguei... Quase na saída do bairro tinha dois caminhões de lixo e um de pneu. Demos carona para uma senhora que estava com umas crianças, porque não tinha transporte. Falamos: “Não acredito que o cara vai jogar esses lixos aqui, não é possível.” Parece que eu cheiro a encrenca, mas estávamos com a mulher e as crianças, falei: “Não, vamos levar a mulher e as crianças no ponto na avenida e a gente volta.” Deixamos a mulher e, quando nós voltamos, estavam esses caminhões – o caminhão de lixo e o de pneu – e um Kadet preto. Ele não pode qualificar que nós invadimos porque é um lugar totalmente aberto. Paramos o carro, veio um senhor, veio mais outro... “O senhor vai descarregar esse lixo aqui?” “Ah, vou.” “O senhor não vai.” “Como não?” “Não vai, pelo seguinte: nós viemos de anos de trabalho e agora começou a dar resultado...” – falando manso com ele, com educação. Ele falou: “Não, porque eu sou da subprefeitura de São Mateus...”. Eu conhecia todo mundo da subprefeitura, eu vivia lá. Eu falei: “O senhor é o que da subprefeitura?” “Fulano, Beltrano me autorizou.” Era época dos primeiros celulares. Ele pegou, ligou para a subprefeitura e eu comecei a falar com o cara do outro lado: “O senhor autorizou a colocar lixo aqui? Aqui não é lugar de lixo. Temos um trabalho que está dando certo, está limpando. O senhor não vai por lixo aqui. O senhor é o que da subprefeitura?”, perguntei para ele. Ele falou: “Eu não sou da subprefeitura, eu sou sócio do homem aí.” Eles tinham alugado para fazer um bota-fora. Ele arrancou o telefone do meu ouvido e tomou da minha mão: “Eu vou colocar.” Eu falei: “Senhor, nem o Maluf vai por lixo aqui. Você pode passar por cima, não vai por. Ele é o prefeito da cidade e ele não põe.” Nisso, eu achei que ele ia buscar no carro... Ele começou a se distanciar da gente andando de costas, de frente para a gente, andando de ré. O cara sacou as armas e meteu bala na gente. Foi aquela correria. Eu consegui catar no braço dele, ele era menor que eu; foi um rolo tão grande... O meu colega correu, entrou no carro e me largou – estou achando que o cara correu pra pedir ajuda, não... O cara se escondeu na empresa dele. Eu fiquei lá, no meio do rolo. Foi uma confusão. Eu saí com o braço esquerdo todo arregaçado, porque eu me enrolei com ele para tomar a arma. O pessoal da rua ouviu os pipocos porque ficava próximo de um bar, mas era recuado. Minha roupa ficou rasgada e meu braço esquerdo todo machucado. Eu achando que ele foi pedir ajuda, não... Chegou um pessoal de fora e os caras sumiram. O cara se mandou: entraram num carro os três e foram embora no Kadet. Largaram os caminhões lá. Um pessoal veio – uns amigos meus – e eu falei: “Eu vou para a delegacia.” Liguei para ele, que estava no escritório morrendo de medo, desceram os filhos dele – tinha um monte de filho. “O pai não quer ir à delegacia porque os caras vão botar fogo na fábrica dele.” Eu falei: “Eu não quero saber. Vou à delegacia, vou fazer exame de corpo de delito e eu vou tocar... Eu não quero nem saber.” Eu não sabia que o cara era bandido. O pessoal da Globo me ajudou nessa época, o cara tinha uma ficha criminal desse tamanho. Não sabíamos que ele era bandido, mas não o destratamos em nenhum momento. Cheguei à delegacia e o delegado se recusou a fazer boletim de ocorrência – falou que não ia fazer. Falei: “Doutor, eu vim para o senhor fazer.” Eu peguei e falei: “Posso usar o seu telefone?” “Pode.” Peguei e liguei para o corregedor – eu tinha uma amizade com o seccional também, o doutor Mestre Junior. Ele olhou para minha cara com aquele desdenho: “A senhora conhece?” “Por quê? Ele é meu amigo.” Na hora ele fez o boletim de ocorrência, e fui fazer exame de corpo de delito. Passou uma semana e aquele senhor que era proprietário da área que eu estava atrás há quatro anos foi em casa. Ele caiu de paraquedas. Eu estava com uns amigos que tinham uma fábrica de doces, o movimento estava meio baixo... Estávamos tomando café da manhã e encostou aquele carro lá. Desceu aquele italiano mal educado, grosseiro: “Quem é dona Cristina?” Eu não sei o porquê, me deu um estalo: “Parece que o cara tem alguma coisa a ver com o lixão.” Falei: “Sou eu, por quê? O senhor, quem é?” “Não importa, isso não interessa.” “Como não importa? Eu sei quem sou e onde estou. O senhor tem que se apresentar, não o conheço e o senhor chega gritando na minha porta?” O cara baixou o tom, começou a conversar, colocou os dados dele na minha agenda e falou que, se eu precisasse, ele era daquela área. Tinha alugado a área porque o cara falou que ia jogar um material, mas não era nada agressivo ao meio ambiente. Ele começou a se contradizer, porque disse que pegou um cheque do cara... Enfim. Hoje tenho a maior amizade com ele, ele montou um loteamento e até levei infraestrutura pra lá. Ficamos amigos. Passaram uns vinte dias... Era engraçado. Eu estava em casa com minha filha, tínhamos cortado um bolo e batido um papo. Era quase meia-noite e aquele carro chegou, cheio de homens. Em casa dá uns 46 metros de frente, tem um portão de carro e um portão de pedestre. Eles pararam no portão de carro. O cara bateu palma e, quando eu perguntei quem era, ele falou em nome do dono do terreno. Eu conhecia o cara e falei para as meninas: “Eu vou sair e não quero ninguém lá fora. Aconteça o que acontecer, não saiam.” Eram seis camaradas armados me intimidando. Falou para mim que era para fazer acordo, quanto eu queria pra deixar fazer o lixão... O seu Domingos, que era o cara que dizia que era da subprefeitura... Nesses quinze dias, eles tinham cortado os pneus da viatura da subprefeitura, prendido a chefe da fiscalização e ameaçado. Quando eu fui à subprefeitura, antes de ir para a delegacia, ele falou: “Você está louca, o cara é bandido.” Espera aí, o cara é bandido e vai fazer o que ele quer? Ele me ameaçou. Eu falei para ele: “Se você está me dizendo que os bois da prefeitura estão todos vendidos, por que eu vou ficar no meio? O terreno não é meu. Se fosse, eu não alugaria para esse fim. Eu estou saindo fora”, mas não saímos. Começamos a fazer um trabalho paralelo com o Ministério Público e deu resultado. Depois disso, tinha um bota-fora no Aricanduva... Fui fazer um trabalho com a dona do jornal e ele meteu bala no carro da gente. Nós fomos para a corregedoria e resolveram. Foi difícil.

 

P/1 – Meu Deus...

 

R – Eu fiquei meio apreensiva e parei de andar à noite... Também não vamos dar sopa para o azar. Tudo bem, você não tem medo... Mas não vou ficar andando num lugar ermo para caramba. Teve outra ação conjunta do Poder Público, Ministério Público e DECON. Tinha um cara que tinha outro lixão lá e, no dia, parece que apreenderam o caminhão do lanifício Guilherme Jorge cheio de lixo. O delegado chegou e falou para ele: “Poxa, mas você estava fazendo isso aqui, crime contra o meio ambiente... Você aqui é bandidagem.” O cara se exaltou e falou para o delegado: “Não sou bandido! Vá atrás de bandido, o senhor vem encher o saco...” O delegado o prendeu por desacato, ele falou que eu tinha mandado prender ele... Falei: “Primeiro: eu não tenho poder de polícia. Segundo: quem prendeu foi sua má educação. Você xingou o delegado e o delegado autuou.” Foi todo mundo para a delegacia: caminhão, ele, motorista... Ele disse que ia me matar, “Tá bom.” O pessoal do bairro começou a ficar – todo mundo – apreensivo. Fiquei uns dias sem ir à associação. Quando foi sábado – foi até muito interessante, parecia uma cena de bangue-bangue –, “Hoje eu vou para a associação. Seja o que Deus quiser.” Cheguei, encostei o meu carro e ele encostou o dele. Ele estava atrás de mim. Ficamos eu e ele parecendo dois bandidos, um encarando o outro – ele do outro lado da rua, e eu de frente para a associação. Encarei, cruzei os braços e fiquei olhando para a cara dele. Falei: “O máximo que pode acontecer é ele meter bala, mais nada. Vai fazer o quê? Esse corpo aqui um dia eu vou ter, outro dia não vou ter.” Falei para as meninas: “Se acontecer alguma coisa, já era. Tinha que acontecer.” Ele me encarou, me encarou... Xingou e foi embora. A maioria do pessoal do bairro já estava dando apoio, os lixões tinham acabado. Acabou que mataram esse cara depois num tráfico de drogas. Parece que o cara virou traficante... Foi engraçado: passaram uns quatro anos e foram na associação pedir ajuda para fazer o enterro do cara, porque ele se envolveu com o tráfico de drogas.

 

P/1 – Hoje, como é a luta do Palanque? Tem questões que permanecem?

 

R – Ali ainda falta muita coisa, é um bairro que precisa ser urbanizado. Tem a vinda dessas empresas, que melhorou... Apesar de muitos dos empresários não terem interesse – muita gente vai para não pagar tributo –, a vinda deles melhorou, porque onde poderia ser lixão virou empresa. Trouxe renda e oportunidade de trabalho. Até na estrutura ajudou, tem empresa que tem duzentos e cinquenta, trezentos funcionários. Deu qualidade de vida: o funcionário pode almoçar em casa e ver o filho. Hoje, uma das grandes lutas nossas é essa mudança de zoneamento para acomodar aquelas empresas. A legislação anterior permitia, então elas têm direito adquirido. Fala-se tanto de desenvolver a Zona Leste, e quando chega a hora do vamos ver, trava. É uma coisa absurda. Na época da Marta, criaram a lei de incentivos fiscais para empresas da Zona Leste – criaram lei de incentivo para empresa que não existe. Primeiro, vamos regulamentar o que existe? O bairro do Palanque precisa de moradia decente. Como é um bairro muito grande e tem muito verde, precisa-se preservar o meio ambiente. Tem que recuperar nascentes e cabeceiras do Aricanduva... Mas é um bairro que está trabalhando. Na entrada foi implantado o CDHU, mas falta muita coisa... Falta pavimentar algumas ruas; outras, se não for o caso, até em nome do meio ambiente, fazer pavimentos alternativos, bloquetes – esses blocos que não causam enchente. Um dos grandes problemas de São Paulo, hoje, são as enchentes. A impermeabilização... O pessoal tem uma casa e ninguém tem mais jardim, é tudo cerâmica. Até brinco: “Gente, quando acabar o Palanque, São Paulo não existe mais.” É tudo terra, então temos esse lado bom: não tem morro para desmoronar e nem rio para transbordar. O córrego que passa próximo de casa é limpinho – só tem mato, não tem sujeira e lixo. Nós, mesmo depois da briga do lixão, muitas vezes chegamos a levar pessoas fora da avenida, porque os caras vinham jogar... Eu vi cenas que eu falei: “Meu Deus, isso é uma vergonha.” O cara pegar a família, a mulher, os filhos, o cachorro, encher o caminhão de lixo e jogar no nosso bairro. Um dia, falei para um senhor: “Esse é seu programa no final de semana? Você é o maior exemplo que dá para os seus filhos. O senhor vai à sua casa e vai colocar no nosso... Não vai, não. O senhor vai voltar com isso, não vai colocar aqui.” “Ah, mas não sabia que tem aterro.” “Não. O senhor sabe que tem e eu dou o endereço. O senhor não quer pagar a taxa, é diferente.” Aterro é diferente de lixão: tem todo um tratamento, são colocadas mantas, tem um destino para o lixo, que não vai contaminar o meio ambiente. O bairro do Palanque precisa de muita coisa. Eu me afastei uma época, como eu falei. Trabalhava três vezes por semana. Tinha distribuição de leite e de cesta básica, mas eu precisei estudar; era uma coisa que eu queria há muito tempo. Dei uma afastada, mas voltei. Fiquei longe, sempre fazendo os ofícios da associação, indo às reuniões, acompanhando o plano diretor... Essas coisas eu sempre fiz, nunca me desliguei. Estou até hoje.

 

P/1 – Você citou um problema de desarticulação das pessoas...

 

R – É ainda o que existe, não só no Palanque... Nós, que trabalhamos com outras comunidades, vamos muito à câmara do Vale do Aricanduva – que agrega acho que umas setenta, oitenta associações e vai meia dúzia de gente. Só sabem cobrar... Todo mundo quer ter direito, dever ninguém quer ter. Não custa. Eu não sou muito tranquila; sou meio mal educada, quando precisa. O pessoal: “Ah, eu fui lavar e passar roupa, fui à feira, fui cuidar de...” Falei: “Gente, sabe qual é a impressão que dá? Que a única desocupada do bairro sou eu, porque todo mundo tem o que fazer. Eu não tenho? Todo mundo tem que lavar, passar e cozinhar e eu, não?” Eu tenho que lavar, passar e cozinhar, tenho minhas filhas, tenho a chácara, tenho mato para arrancar, canteiro para fazer, horta, casa, estudo... Você tem que reservar um tempo. Eu costumo falar para o pessoal... O governo, por melhor que ele seja, não vai chegar à sua rua: “Como você é linda, vou pavimentar tua rua.” Nunca vai acontecer isso. A maioria das vezes, acontece depois de muita briga e luta. Você tem que estar ali. Às vezes, os caras fazem até para se livrar de você. Tem que ter uma articulação. É uma das coisas que eu critico muito. É muita briga política e politicagem. Não interessa o apito que você apita; interessa é cidadania. Eu acho que cidadania está acima de qualquer sigla partidária. Eu enfrentei muito problema porque eu faço um trabalho na subprefeitura de São Mateus e enfrento muita crítica. Graças a Deus, não sou ligada a político nenhum. Vivo do meu trabalho e não devo nada para político, mas enfrento muito. Eu tive proposta de político, aquela coisa... Atender o povo dele. Que povo dele? Você atende o povo. Não interessa de que partido, religião ou bairro você é; importa a necessidade que você está vivendo. Vamos resolver nossa necessidade? Resolveu, está ótimo. Eu faço muita crítica... Eu vejo essa questão de tanto dinheiro com propaganda... Tem propaganda melhor do que você dizer que está bom? Eu acho que não tem. A rua está pavimentada, a escola melhorou, a merenda está melhor, a iluminação dali está boa... Isso vai servir, as pessoas vão circular a informação. O cara gasta “trocentos” milhões em papel – aquilo é mentira. Você passa no metrô e parece que abriram uma portaria de vaca louca, um passando por cima do outro. Não tem condições, o transporte. Você vai às ruas... Paga IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) super alto e está tudo esburacado. Iluminação precária... Sabemos que a educação está uma droga, agora, ficar mentindo e gastando o nosso dinheiro? Disse que tem mais dinheiro para propaganda do que para área de risco. Tem alguma coisa errada – ou muita coisa errada –, então não me interessa partido. Eu fui candidata da Luiza Erundina pelo PSB em 2004. Na época, eu me filiei; poderia ser pra qualquer outro partido, desde que agisse de uma forma diferente da que vejo aí. Eu vejo... O voto de cabresto não acabou, ele mudou. Hoje é o cartão magnético. O pessoal quer aquele povinho tapado, sem fazer nada e sem atitude. Eu acho que isso é burrice. Povo civilizado dá menos trabalho para o governo. Povo civilizado não picha a rua, não picha parede, não destrói árvore, não polui rio, não suja cidade... Dá menos gasto. Também não dá corrupção, tem esse lado.

 

P/1 – Cristina, quais maneiras você pensa que seriam viáveis de aprofundar essa relação das pessoas e a luta?

 

R – Eu acho que as pessoas se articularem, começarem a se reunir e a trocar mais ideias. Muita gente fala: “Não vou, porque meio político é meio de gente que tem estudo.” Não, às vezes a ideia boa vem do lugar que você menos espera, até porque quem sabe do problema é quem está ali. Às vezes vem aquela empresa e faz uma obra que, em vez de solucionar o problema, causa outro problema, porque não ouviu aquele morador que está ali. Eu acho que quem está ali no dia a dia sabe o que é melhor. Às vezes ele não tem a maneira correta de falar, a técnica, mas ele sabe o que fazer e o que pode solucionar. Acho que tem que dar mais ouvido às pessoas, e as próprias pessoas têm que se articular e ter interesse. Do mesmo jeito que você tem interesse em cuidar do seu espaço – sua casa –, cuidar do seu bairro, porque vai começando a modificar. Se você cuidar do seu espaço... Eu vejo as cidades – não só a cidade de São Paulo, todas as cidades do mundo inteiro – como uma casa maior. Agora, imagina: você tem uma casa, tem que fazer reforma, manter o que já tem, aumentar – porque a família cresce, você tem os daqui e vêm os de fora... Você tem que investir em educação, em saúde... Diz que tem duas coisas na vida que não têm jeito, você tem que fazer: pagar imposto e morrer. Eu dou o dinheiro para você ter alimentação, levar marmita, ter a casa limpa, ter produto de limpeza... Você pega o dinheiro e desvia. Como é que eu vou me sentir? O imposto é correto você pagar, o problema é o desvio que a gente vê; não chega ao lugar. Vêm uns políticos e falam: “Ah, mas aqui é área rural.” Ué, ninguém disse para mim que o meu voto é rural e não vale. Se eu não for votar, eu não consigo prestar concurso. Não vale, não existe isso... Um dia, um deputado fez uma farra lá. “Tá bom, então nós vamos ao seu gabinete.” Nós fomos mal tratados, a secretária dele não queria protocolar o documento: “Ah, não. Nós vamos tirar xerox?” “Olha, senhora. Eu sei que eu vim de um lugar do mato, mas aonde eu passo tem xerox. Eu posso fazer isso.” “É, mas meu deputado não foi eleito para isso.” “O seu deputado foi eleito para quê? A senhora tem que me dizer.” Depois eu o encontrei – até hoje dá um mal-estar – e ele falou: “Estou sabendo que você foi lá.” “Então, ela pode maltratar seu eleitorado?” “É porque falta máquina...” “Falta vergonha, deputado. Falta vergonha na cara.” O pobre tem que ter o direito dele, também. Ninguém vai morar num morro, num lugar inadequado, porque quer; é porque não tem estrutura. Aí é que vem a revolta. Tanta área vazia esperando especulação, fala-se em função social do proprietário... Não vejo isso. A pessoa morando dentro do rio, dentro do lixo... No Palanque ainda tem isso. Tem muita área vazia que dá para implantar seja sistema habitacional, sejam empresas para dar empregos – porque as pessoas também precisam trabalhar. Hoje você vê que as pessoas atravessam a cidade de um lado para o outro porque não tem serviço onde moram: criaram bairros-dormitório. Você tem que enfrentar toda aquela dificuldade do transporte público, que é um sacrifício... Gente, graças a Deus, eu não faço isso. Trabalho perto... Mas não é todo mundo e é muito difícil. Precisa-se ter essa dignidade com as pessoas; não se precisa de tanta promessa, precisa-se mais de ação. Tem o dinheiro – a gente sabe que tem –, é muito dinheiro... Você senta para ver os jornais na televisão... É tanto dinheiro, que você fala: “Meu Deus, sou eu que não tenho dinheiro; mas tem tanto dinheiro por aí.” É desvio de dois milhões, de cem milhões, de não sei o quê... Para onde vai esse dinheiro? Eu não sou contra pagar tributo, eu acho que tributo é correto. Cristo disse que era correto, falou... “É correto pagar imposto, tributo?” “É. Dai a César o que é de César.” É correto, porque alguém tem que administrar. Não é correto você pegar o dinheiro. Mesmo que seja uma dona de casa, o marido dando esse trabalhão o mês inteiro... A mulher gasta o dinheiro com maquiagem, com baile, com balada. E o filho, passando fome? Tem alguma coisa errada. Você pode até gastar e comprar uma caixa de vinho quando vai comprar uma de leite para o seu filho, mas não vá fazer o contrário. Eu acho que o bairro do Palanque precisa ter atenção. É um bairro promissor, está próximo do Rodoanel, sabemos que vai ter e já tem especulação imobiliária. Eu acompanhei algumas desapropriações ali. Aumentou muito o valor dos imóveis, mas tem muita área e terra que pode ser aproveitada de forma ordenada, é só querer. Não basta eu virar as costas – eu como governo – e as pessoas construírem de qualquer jeito; vira uma bagunça, como está. São Mateus cresceu muito: dos anos que eu moro lá, foi um dos bairros que mais cresceu no entorno, mas de forma desordenada. Não adianta nada. Nós temos o Parque das Flores, em São Mateus, que está parecendo o Rio de Janeiro – área de risco – com essas chuvas. A gente sabe que choveu muito, muita casa desabando... Por que deixaram construir ali? Às vezes, você precisa ser um pouco duro, porque população... Sabemos que é difícil. Lidar com ser humano é difícil. Você está falando para ele que é perigoso, que não dá certo e que não pode, mas ele insiste. Tem que ser um pouco duro, mas também não pode arrancar sem dar uma alternativa: “Ah, vou tirar.” Vou tirar e vou fazer o quê? Vou enfiar numa escola? Vou enfiar nesses alojamentos? Até quando? Vamos dar alternativa e começar a punir também, porque a gente sabe que tem muito comércio de moradia. Eu acho que deveria se criar um cadastro único familiar – não um cadastro para a mãe, o filho, a cunhada, a avó e não sei quem. Os caras vendem, eu sei. Estou cansada de ver isso: pegam o apartamento do CDHU e vendem para terceiros. Mora em casa própria e aluga o que pegou. Essas pequenas corrupções têm que acabar. É fácil você falar que o cara que está no senado é corrupto... E o que vende o leite, como eu via na associação? Eu vi trocar o leite do filho por cachaça. Isso não é corrupção? É a mesma coisa, só em escala menor. O pessoal não quer acabar com isso. “Ah, não... Porque Fulano desviou milhares e milhões.” O cara que pegou a caixa do leite e vendeu é corrupção, só não quer ver isso. O pessoal fala que é socialismo... Mentira. O prefeito não dá roupa para todo mundo? O prefeito de São Paulo está fazendo um bom trabalho. Acho que precisa melhorar na parte de cobrança, porque não basta dar tudo e não querer nada em troca. Dar cinco camisetas para criança, dois uniformes, sapato, meia, material escolar, roupa, leite... Tem que cobrar contrapartida. Vamos cobrar responsabilidade, atenção e desempenho na escola. Aí quer ir para a escola com a roupa de marca, não quer ir igual ao outro. É mentira. Quem é que você vê vestido com a roupa da escola? O pai que vai para a obra, o mendigo para quem eles deram... A mochila... Ele não quer ir com aquela mochila – todo mundo igual, do Estado... O pai leva para encher de ferramenta. Ele quer a bonitinha do Teletubbies, do Avatar, do não sei quem... O que está na moda. Não é a verdade que o pessoal quer socialismo, o que falta é ter controle. Se eu dou... Eu digo sempre: se eu trabalhasse na educação eu seria muito chata. Se você tem uniforme para vir, cinco camisetas – quer dizer, uma por dia – e vier sem uniforme, você não entra. Pode reclamar para o bispo, para quem você quiser... Mas a gente vê que passa a mão... Você trabalha na polícia e vai para a polícia sem a farda, não entra. Você vai para o exército sem farda, não entra. É assim que você prepara a criança com um monte de coisa errada... Depois você quer exigir, de uma hora para a outra? Eu vejo assim; se eu estou errada, não sei. Tem que ter mais organização, porque riqueza nós temos. É lamentável... É uma vergonha a pessoa passar fome num país desses – exceto quando ele for preguiçoso, porque aí merece. Por outras condições eu acho que é desnecessário.

 

P/1 – Você falou que quando o Vai e Volta chegou à casa de vocês, as meninas tinham o transporte para ir à escola e você pôde voltar a ter tempo para estudar. Como é que foi isso? Como é que começou essa ideia e como aconteceu?

 

R – Eu queria estudar fazia muito tempo. Tinha escolas em outros bairros, mas tinha muito toque de recolher à noite e, no meu bairro, não tinha escola. Aquilo me deixava indignada. Eu falei: “Eu não vou pra uma escola dessas, porque se eu estiver estudando e o cara me mandar vir embora... Eu não vou vir, vou morrer.” Eu acho um absurdo alguém mandar em mim por uma coisa errada. Você está errado e dá as cartas? Eu acho muito absurdo. Eu estava sempre buscando escola e tinha essa questão. Tinha sido implantado o Vai e Volta, eram dois quilômetros, depois se estendeu e veio até a porta de casa. Eu falei: “Agora eu vou trabalhar.” Foi uma cena um pouco inédita, porque eu tinha uma amiga que sempre me chamava para ir ao centro espírita. Eu comecei a cobrá-la, falei para ela: “Vamos lá, eu quero conhecer.” Nunca ia, ela é meio pipoqueira – marca as coisas e dá para trás... Um dia, eu falei: “Você não quer ir? Fala para mim onde que é.” Ela me explicou, mais ou menos. Era lá para o lado de Santo André. Eu fui. Eu estava conversando com um médium do rapaz e ele falou para mim: “Você ainda quer estudar? É verdade que você quer estudar?” “É. Sempre quis, é que eu não tinha oportunidade... Mas agora dá para eu estudar.” “Tem certeza? Você quer mesmo?” “Quero”. Ele apontou para mim e falou: “Tá vendo aquele moço ali?” “Tô.” “A esposa dele, essa que está com esse médium aqui, estuda em tal lugar e tem duas vagas. Se você for até amanhã lá, você consegue vaga.” Agradeci, acabaram os trabalhos e fui conversar com o rapaz que ele apontou, que estava na porta. Eu falei: “Olha, o médium falou assim...” Ele falou: “É verdade, minha esposa estuda lá. Olha, é muito tarde, mas faz o seguinte: vou te dar o telefone de casa, amanhã liga e a gente conversa.” Realmente havia duas vagas na escola. Eu falei para a senhora... Era muito longe de casa, porque eu moro no extremo da zona leste. Comecei a estudar em Santo André... Eu gostei da escola. Era diferente e o ambiente era bem legal. A diretora foi meio rude comigo. Eu expliquei para ela que fazia muitos anos que eu não estudava, que meu histórico estava no Nordeste... Ela falou: “Eu vou dar uma semana para você trazer esse histórico e, se você não trouxer, eu corto a sua vaga.” Foi bem curta e grossa comigo. Depois ela voltou atrás e falou: “Se você não conseguir, mas vier aqui me dar uma satisfação, eu prolongo. Tá?” “Tá bom.” Parece que foi Deus que a fez falar aquilo, porque eu não consegui. Minha mãe foi três vezes buscar histórico e não conseguia; pedi mais uns dias. Eu estudava inglês e matemática. Fui fazer a partir da oitava [série], porque muita coisa mudou. Fui estudar às sextas-feiras e as meninas tiraram sarro de mim: “Caxias. Sexta-feira, ninguém vai!” “Não, eu quero ir. Primeiro dia...” Eu fui e fiz a oitava. Teve uma professora que me deu bastante ajuda – a professora de inglês –, ela falou: “Se você quiser, vai ter exame pelo SARESP (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo) em Santo André. Só que é o seguinte: vai ter que estudar sete matérias.” Eu estudava duas, tive que estudar as sete por conta. Comecei a juntar os livros, pegar os livros das meninas... Eu estava com um problema muito grave de coluna porque eu tinha sofrido um acidente, tomei um tombo muito feio. Estava difícil. Eu não conseguia dirigir e estudei um mês em pé, porque eu não conseguia sentar. Eu tinha muita ânsia de vômito, emagreci pra caramba... Parecia que alguém rasgou o meu peito por dentro. Eu estava calculando – para você ter uma ideia –, um ano tem doze meses e eu tirei a coluna fora do lugar catorze vezes no ano. Eu era teimosa, tinha que ficar em repouso e eu não podia; extravagância. Eu estava muito ruim da coluna, mas fui estudar lá. Eu estudei, consegui e passei nas sete matérias. Fiz o primeiro [colegial] e, quando chegou o segundo, falaram: “Lá para o lado de São Bernardo vai ter outro SARESP, o terceiro.” Estudei mais um ano direto ali e eliminei tudo. Eu prestei USP (Universidade de São Paulo), mas tomei pau em biologia e em inglês. Falei: “Vou fazer cursinho.” Fiz uma noite de cursinho, mudei de ideia e falei: “Não vou fazer cursinho, vou prestar vestibular.” Eu prestei três vestibulares e, graças a Deus, passei nas três faculdades. Eu escolhi uma e fui estudar; fiquei lá até me formar. Uma eu ganhei uma bolsa, que era um preço bom para eu pagar – foi através de contato político –, mas era muito longe. Você ir num lugar uma vez ou outra é uma coisa, agora ir todo dia... Era um martírio. Eu não ia conseguir chegar. Acabei me formando na UNIP (Universidade Paulista) do Tatuapé, era o campus mais próximo. Eu cheguei, fui fazer vestibular e falei: “Não sei... Não tenho grana e não vou conseguir estudar aqui, mas é aqui que eu quero estudar.” Conversei com Deus e falei: “Não tenho grana porque eu estou com as cinco meninas; sou eu que tenho que manter cinco. Meu dinheiro é muito curto, mas é aqui que eu quero estudar.” E acabei estudando lá. Foi uma luta para estudar de manhã, porque você sobrevive com pouca grana... Tudo bem: não pago água, casa e plantava muita coisa, mas para me dedicar aos estudos tive que abandonar muita coisa – inclusive o próprio serviço da chácara –, porque logo em seguida eu arrumei estágio. Eu saía da faculdade e ia para o estágio. Aquela loucura toda, mas valeu a pena.

 

P/1 – Você escolheu fazer o curso de...

 

R – Eu escolhi fazer Direito. Sempre quis fazer Agronomia e sempre gostei de terra, mas eu ia ter que mudar, senão ia ter que fazer Urbanismo aqui dentro da cidade de São Paulo. Em função dos percalços que eu passei e das dificuldades de ingressar na justiça para poder defender aquelas meninas, as dificuldades da associação, querer entender melhor das leis do país... Eu comecei a gostar. Quando eu escolhi não era adolescente; estava com 35 anos. Eu falei: “Não. Vou fazer Direito porque eu acho que eu vou me dar bem. Eu gosto disso, vou fazer isso.” Realmente gostei do curso.

 

P/1 – Teve alguma coisa que te marcou nesse período da faculdade que você lembra com carinho?

 

R – Ali foi outra dificuldade, era incrível... Para chegar, não tinha condução. Eu tinha um fusca e o roubaram. Eu tive três carros roubados – acho que foi até sacanagem do pessoal, era mandado... Para eu estudar era difícil. Era engraçado, um negócio marcante: meu o professor de Penal... Eu não gosto de Penal. Vou muito bem em Penal, mas acho que é uma das ações mais sacanas que tem, porque tem muita brecha. Eu brincava com ele: “Professor, o código penal só serve para os três ‘P’: pobre, puto e preto; para mais ninguém, porque não vejo ninguém ser punido por esse código.” Ele dava risada e achava engraçado. Eu era sempre participativa nas aulas e acabei sendo representante de sala. Era uma confusão, minha sala era uma das mais terríveis: muito conflito, muita gente muito jovem e muitos filhinhos de papai. Foram cinco anos dos quais não tenho saudade. Tenho saudade dos professores – uns mestres muito bons –, aprendi muita coisa com eles... Ele falava: “Poxa, as aulas com você são legais. Você sempre tem um exemplo, principalmente quando é posse de terra... Sempre tem uma historinha para servir de exemplo nas aulas.” Essa questão de invasão, de desapropriação e de violência para tomar as terras alheias... Eu sempre tinha um exemplo porque vivíamos; não é coisa que você inventa... Acontecia de tudo naquele bairro: você era ameaçado de morte, pessoa que perseguia você à noite – muitas vezes eu fui seguida... Lembro-me que, uma vez, me joguei num barranco... Era um bairro vizinho, só que eu não sabia que era barranco, pensei que aquilo era baixo. Meu Deus do céu, quando eu fiquei pendurada ali... Eram uns dez metros para baixo e a cachorrada gritando, aquela coisa... E para você sair dali? Tinha muita coisa que acontecia que o pessoal falava: “Ah, não. Imagina.” O pessoal da cidade... Eu comecei a viver muito cedo, então fiz tudo muito rápido. Aos dezesseis eu tinha uma filha, aos trinta e cinco eu tinha um neto. Plantei imensas árvores, aos doze eu trabalhava com plantas. Eu fazia um trabalho no Nordeste com plantio de árvores para o Estado. Saíamos às cinco horas da manhã, íamos de trator... Tinha todo aquele trabalho com a terra, manejo... Fiz tudo muito cedo. Trabalhei na feira, fui costureira, trabalhei com vendas, trabalhei na Pirelli Pneus, trabalhei na polícia batendo inquérito, trabalhei com verdura orgânica quatro, cinco anos... Fazia pamonha, trabalhei na praia... Tinha que ganhar dinheiro para sustentar aquelas meninas. De algum lugar o dinheiro tinha que vir...

 

P/1 – Quando você se formou você começou a trabalhar como advogada?

 

R – Eu já trabalhava, fui fazer estágio no segundo ano. Foi uma das coisas que me fez fazer Direito. Na época da associação eu acompanhava as atividades diárias, então eu tinha noção das questões de alienação fiduciária, regulação do loteamento precário, áreas de risco e uma parte do Direito Ambiental. Tanto que eu gosto disso: propriedade, posse... Eu tinha noção do que era aquilo. Assentamento de famílias para tirar de áreas carentes, a própria regularização – todo o trâmite, como funciona aquela parte técnica e a parte de estruturação... Foi uma das coisas que me fez fazer Direito. No segundo ano, consegui – a contragosto de muita gente, porque o pessoal acha que sou petista... Não tenho nada a ver com o PT (Partido dos Trabalhadores). Fui ser estagiária no Direito Público na subprefeitura de São Mateus. Por conhecer essa área, fiquei acompanhando a parte de loteamentos irregulares. Tinha toda uma noção de como era, de dia a dia... Comecei a estudar plano diretor, coordenação das cidades... Fiz estágio e, quando estava acabando o estágio, houve uma proposta de implantar unidade onde hoje faço audiência de conciliação. São duas parcerias da prefeitura de São Paulo com dois fóruns: uma é com o do Itaquera – Vara da Infância e da Juventude, Vara da Família – e o outro é com de Guaianases. Temos o JEC (Juizado Especial Cível), que faz acordo de pequenas causas – até quarenta salários mínimos – e, se não dá acordo, vai para o fórum... De qualquer forma, vai para o fórum: se dá acordo, vai para o juiz homologar e, se não dá, vai para a instrução. Precisava de gente para implantar essa unidade lá. Tinha uns estagiários chatos que trabalhavam comigo e uma advogada – que hoje é minha amiga pra caramba, foi minha chefe durante um bom tempo... Lembro-me que o pessoal comentou: “Ah, você tem que descer com a doutora, porque quem gosta de pobre são vocês. A gente não vai.” “Tá, então a gente vai.” Desse jeito os estagiários falaram. Engraçado que esse pessoal, até hoje, não passou na Ordem [dos Advogados do Brasil]. Esses dias eu encontrei um – está gordo, feio para caramba – e falei: “Ah, meu bem. Não conseguiu passar?” Ele falou: “Não. Estou vendendo camiseta agora, não vou estudar mais.” Falei: “Pode deixar.” Para quem dizia e se fazia de arrogante... Descemos... Era uma sala e ia ficar aquela muvuca, porque vinha gente... Hoje está com seis salas e nós, para você ver, no dia oito de março – Dia Internacional da Mulher –, fizemos 120 audiências em dois dias. Foi um mutirão. O fórum faz quatro, cinco por tarde e nós fizemos 120 em dois dias; foi uma coisa que deu bastante resultado. Eu fiquei ali... Me formei em 2008, a colação de grau foi dia oito de janeiro. Como tudo parece que é difícil para mim... Essa minha amiga até fala: “Tem gente que está ali e é só atravessar a rua. A gente tem que dar a volta no quarteirão para chegar ali.” Eu prestei a Ordem três dias depois, fui com o que eu aprendi durante cinco anos. Graças a Deus, peguei uma boa pontuação e, um mês depois, fiz a segunda fase – achei que não ia fazer a segunda fase, porque na semana de eu prestar meu neto ficou doente... É como um filho – eu tenho a guarda dele, mora comigo. Internei-o na quarta-feira com dor de garganta, ficou internado e não o liberavam... Eu já tinha passado por um trauma desses: eu internei a minha filha com dor de garganta e ela veio a falecer. Falei: “Puxa, eu não vou prestar a Ordem.” Chegou quinta, sexta e cada médico falava uma coisa, colocaram placa de cirurgia na cama dele... Eu não arredava o pé de lá, porque falei: “Vem um maluco no expediente e vai operar o menino dizendo que ele estava com apendicite. Era garganta.” Chegou sábado e eu falei para o doutor: “Eu vou tirar o menino do hospital.” Fui falar com o médico, ele falou: “Eu não posso dar alta porque eu não sou o médico dele, mas se eu fosse você, eu tirava.” Era tudo o que eu queria ouvir. Eu tirei. O menino tinha que fazer um exame em jejum, tinha que ficar quatro horas sem comer, esqueceram e deram café da manhã para o garoto. Depois, tinha que esperar – o menino estava há dez horas sem comer –, eu falei para o médico: “Doutor, eu, que estou gorda, se me deixar dez horas sem comer vou estar azul de fome... Imagina a coitada da criança. Vou tirar.” Tirei-o eram duas horas da manhã, eu arrumando a mala para ir para a Ordem, estudando... Quando acabou o exame, eu fiquei doente de tanta tensão nervosa. Graças a Deus, deu certo. Passei.

 

P/1 – Passou?

 

R – Passei de cara, graças a Deus. Eu fiquei preocupada, porque eu achei que eu não ia prestar e não sabia exatamente como era a segunda fase, se eu ia conseguir passar... A primeira foi difícil, mas achei que eu não ia ter condições de chegar lá, por ele estar doente. Tirei-o do hospital e, quando foi dez e pouco da noite, ele começou a ficar com febre de novo. Eu tirei e assinei um termo, vou ter que levar de novo? Foi tomando os remédios... Eu falei para o médico: “O senhor passa um remédio.” “O que ele está acostumado a tomar? Vai ter que dar o de sempre.” Ele estava era com fome, dez horas sem comer... Alimentou-se, tomou os remédios direitinho, foi seguindo tudo que o médico explicou e deu tudo certo. Eu passei e, depois de três meses, montei o escritório, porque eu já tinha cliente. Era engraçado: eu tinha obrigação de tirar aquela carta. Seria um horror se eu não tirasse. Todo mundo me cobrando, a pressão era tão grande... Eu tinha cliente, gente esperando para eu fazer o trabalho para eles, trabalho de escrituração de casa, de acompanhar loteamento... Tinha questões de separação, questão de família... Eu tinha a obrigação de tirar aquela carta e não era nem por mim. Tinha gente que falava: “Estou esperando você tirar sua carta.” “Vou ter que tirar, é o jeito.” Graças a Deus, deu certo.

 

P/1 – Você estava falando do seu neto. Você tem quantos netos?

 

R – Dois netos.

 

P/1 – Como foi ser avó?

 

R – É legal, acho que é como mãe... Melhor, porque você não sente dor do parto – alguém assumiu. Quando o Vinícius – o meu neto mais velho – nasceu foi bem interessante. Eu tinha 35 anos e fui a segunda pessoa a vê-lo. Quando ele nasceu eu o peguei... Tanto que ele mora comigo e é muito apegado; ele não quer ir embora com a mãe dele. Aonde eu vou ele vai, desde pequeno. Ele, bebê, fazia uma festa quando vinha para a chácara, e quando ia embora para a mãe dele, ficava doente. “Traz o Vinícius de novo.” Ficava naquele vai e volta, e quando ele tinha três anos e meio, eu falei: “Deixe-o aí.” Está até hoje. Eu falo para ele: “Você não vai morar com a sua mãe?” – falei para ele esses dias, porque quero prestar concurso para juíza no Nordeste – “A gente vai embora.” “Ah, então vou com a senhora.” O outro também vive muito com a gente, mas vai mais aos finais de semana, porque está com a mãe.

 

P/1 – Qual é o nome dele?

 

R – O outro é o Richard.

 

P/1 – Richard.

 

R – Está com quatro anos.

 

P/1 – Cristina, você falou que perdeu uma das suas filhas. Você quer falar sobre isso?

 

R – Ficamos tristes. Eu fiquei triste, acho que qualquer um ficaria... Uma coisa que eu sempre comento: revoltada eu não fiquei em nenhum momento. Acho que eu ficaria se fosse por violência. Eu tinha uma preocupação muito grande com a Cíntia que não se explicava, que não tinha com as outras. Eu tinha com ela, do desenvolvimento dela... Eu tinha uma preocupação que eu não sei explicar. Eu ficava preocupada de violência com relação a ela, que eu não tenho com as outras. Lógico, eu tenho aquela preocupação de mãe. Minhas filhas saem... Minha filha mais velha é apaixonada por Victor & Leo; aonde eles vão, ela vai atrás. Eu falo: “Você é boba, fica correndo risco.” Você tem aquela preocupação de mãe, mas, com a Cíntia, não: era uma preocupação íntima, uma coisa que perturbava... Acabou ela vindo a desencarnar. Faleceu com doze anos. Ela nunca teve uma dor de cabeça, nunca reclamou de nada... Naquela semana, levei-a três vezes em três médicos diferentes. Os três atestavam garganta e não era; ela estava com meningite. Quando saíram os resultados dos exames foi tarde demais, ela já entrou em coma profundo. Eu sou espírita e acredito na vida após a morte; acho que a vida continua. Seria muita estupidez se não, porque você vem para a Terra e tem gente que se dá tão bem... É amado, desejado, inteligente e tem tudo do bom e, o outro, só se ferra, só naquele sofrimento... Alguma coisa tem que explicar isso. Eu acredito na vida após a morte. Recebi mensagens dela, pessoas da nossa família que se comunicaram... Ela alega, em uma das mensagens, que se dependesse dela ela teria ficado, mas cada um tem seu tempo. Acreditamos muito nisso, então, para nós, está tranquilo. Queríamos, lógico... Eu sou humana, cheia de defeitos, egoísta... Eu a queria aqui, mas Deus não queria. A minha filha mais velha falou: “Ah, eu a queria aqui, de qualquer jeito.” Eu falei: “De qualquer jeito, não.” Eu acho que se você passa por uma prova difícil – de ficar em cima de uma cama numa vida vegetativa –, é que alguma coisa tem que se acertar em você. Se você não merece, não tem que passar por aquilo. Ela nunca reclamou de uma dor de cabeça, nunca ficou doente e, de uma hora para outra, ter uma vida vegetativa? Os médicos falaram que perfeita ela não saía nunca mais, porque atingiu a corrente sanguínea. Não deu nem para fazer doação de órgãos, contaminou todos. Deus sabe o que faz. Veio o Vinícius, o Richard e vão vir outros, com certeza. Ou até ela de volta.

 

P/1 – Cristina, quais são as suas atividades hoje?

 

R – Hoje eu acordo cedo, cuido um pouquinho das coisas da chácara – tenho uma secretária que me ajuda – e vou para o escritório. Passo uma parte no escritório e parte no fórum. Sexta-feira eu vou dar atendimento na subprefeitura de São Mateus, faço audiência. Meu dia é sexta, mas nunca posso passar por lá, sempre tem alguém para pedir algo – dou atendimento para população carente. Voltei agora para a associação, estamos montando um quadro novo de diretores para montar uma associação que venha realmente a trabalhar. Provavelmente, vou dar assistência jurídica para a comunidade no bairro, aos sábados, nessa sede que conseguimos. Eu gosto muito de ficar em casa no final de semana para cuidar das minhas plantas, dos meus peixes... Minhas atividades se resumem a isso. Trabalho, as crianças – meus netos – e atender à comunidade. Eu trabalho muito na área cível, uma coisa que escolhi, então atuo muito na vara da família, os conflitos da humanidade... Lá na subprefeitura, que é perto do escritório, geralmente, alguém liga: “Olha, tem pessoa precisando disso na comunidade.” Eu vou. Até porque o pessoal confunde muito... Às vezes, é até ruim trabalhar ali. O pessoal pensa que eu sou da prefeitura: “Ah, mas precisa arrumar isso.” Meu trabalho é muito diferenciado dos trabalhos dos advogados. A maioria dos advogados é do centro da cidade. São pessoas que estudam no Damásio, porque ali quem faz as audiências de atendimento são conciliadores. Fazemos isso por quê? Ah, porque você é bonzinho... Não. Porque você tem pontos, pega experiência. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) diz que, para você prestar para juiz, promotor... Você tem que ter três anos de experiência jurídica. Tem uma lista de frequência que anota o teu exercício da advocacia para você adquirir essa experiência, é por isso que fazemos. Em um caso de desempate num concurso público, o meu é diferenciado. Por quê? Eu vou ter que pedir iluminação para a rua do Fulano, tubulação para a rua do outro, vaga para não sei quem na escola, na creche... Eu faço umas audiências de conflitos de vizinhança, de loteamentos irregulares, de área de risco e de áreas invadidas de prefeitura por ter vivido isso. A maioria não vive: muitos de nós que se formam conhecem o quê? Conhecem a lei. Eles não têm experiência. Por isso você vê as grandes injustiças nos tribunais. O cara segue a lei, e lei é coisa morta. É diferente de vocês... Às vezes, nem tudo que é lei é bom. Ela serve para alavancar o progresso da humanidade. Tem umas que só atrapalham e outras que prejudicam. Acho que o bom senso tem que prevalecer. Vivendo isso e estando próximo daquilo, é muito mais fácil de você dar uma decisão. Você não é uma pessoa passiva, é imparcial, mas sabe do que a pessoa está falando. Por exemplo, uma mãe que chega para mim e diz: “Olha, estou há um, dois anos, sustentando meus filhos sozinhos porque o cara abandonou, não paga o pão para a criança, não dá escola, não dá roupa, vai na porta de casa...” – eu sei do que ela está falando porque eu vivi isso, eu sei disso. Eu comprei um carro novo: por que eu vou dar carona para o outro? Porque eu vivi isso. Eu sei o que é você andar a pé na rua, na chuva, carregar peso... O outro, não. Você acha que uma pessoa que estuda no Damásio, por exemplo – que paga mil e novecentos reais numa faculdade e que tem tudo do bom e do melhor –, acha o que de uma pensão? Vemos na Paulista a pessoa brigando por cinco, dez mil de pensão; em São Mateus, você vai ver brigando por sessenta, setenta reais. São coisas totalmente diferentes. Às vezes, o pouco do outro é tudo o que ele tem. Acho que é bem importante levar isso para as pessoas e procurar, pelo menos, amenizar. Não aquilo, aquela situação... Mas o conflito. Geralmente, quando as pessoas chegam às vias do judiciário, é porque o conflito está instalado. Não é aquilo que está ali, aquilo é só uma ponta do iceberg. O problema maior está em casa. Procuramos saber... Eu vou lá ver, junto com a assistente social. Graças a Deus, tenho um convívio muito bom com o pessoal do judiciário, com as assistentes sociais, com o pessoal de obra... Eu sou de subir na máquina e ver se o cara está fazendo pavimento mesmo, se está arrumando... Eu acompanhei muito isso, então facilita. É isso.

 

P/1 – Cristina, quais são os seus sonhos hoje?

 

R – Meus sonhos... Ainda tenho muitos, até porque dizem que quando você para de sonhar você pode morrer. Eu não quero morrer agora, não quero ir para o outro lado agora. Eu estou pensando... Eu tenho um trabalho naquela comunidade... Eu fui embora duas vezes e voltei. Eu tenho um propósito aqui. Você sair do meio do Nordeste e cair de paraquedas ali, à toa? Eu acredito que não. Eu não acredito no acaso, acho que o acaso é nada. Tem coisa que você muda, mas outras coisas você não muda: é aquilo que você vai seguir e acabou. Eu pretendo, um dia, ser juíza de vara de família. Pretendo que aquele bairro melhore com a minha ajuda. Ver meus netos criados, que se outros vierem... Eu tenho filha que não tem filho ainda, provavelmente vai vir... Que melhore nosso bairro, nossa cidade e o país como um todo, esse mundo... Meus sonhos são de melhora para todo mundo, porque acho que quando está bom para todo mundo fica mais fácil para viver. É tão estúpido: você ganha dinheiro e tem uma ascensão na vida – como a gente vê muita gente que tem ascensão –, mas não pode usar porque vem a violência. Você não pode usar um carro melhor porque o cara rouba, não pode colocar uma roupa melhor... Não sei, não faz muito sentido... Eu acho que é melhor distribuir para todo mundo. Não vamos ter um mundo perfeito, porque muitas coisas também nós somos culpados; não vamos dizer que é só governante. Eu tenho filhos e ninguém é igual a ninguém. Tem aquele que é esforçado, aquele que quer uma coisa melhor, outro que não quer... Mas acho que, se tiver uma melhor distribuição, fica melhor para todo mundo. Se as pessoas começarem a se conscientizar de cuidar das nossas crianças... Não ficar essa hipocrisia que vemos... Vemos muita hipocrisia, a criança pode tudo... Isso não é cuidar. Eu sofri muita crítica para criar aquelas meninas. Eu era muito jovem e tinha 23 anos quando me separei. Sofri o problema de as mulheres acharem que você vai dar em cima do marido delas. Muitos homens achavam que você estava à disposição para eles, e muita gente falava: “Ah, porque as crianças...” Você perguntou se as meninas ajudavam na chácara: todo mundo sempre ajudou. Você não pode carregar peso? Faz menos; arrancar um matinho do canteiro e catar as folhas das árvores não vai trazer problema. Elas ajudavam a cuidar da horta, a vender... As coisas mais difíceis e mais pesadas – claro – quem fazia era eu, mas todo mundo tinha responsabilidades em casa. Eu costumava brincar com elas: “Gente, da cerca para dentro não é Brasil. Aqui é outra coisa, todo mundo tem que ter responsabilidade.” Agora, o que eu vejo é esse modelo errado: criança pode tudo... Chega uma hora que você não conserta; não vai consertar de uma hora para outra, você tem que ser gradativa. Eu tenho um sonho de que melhore, e hoje, que você dá mais condições... A prefeitura de São Paulo é um exemplo: ela dá tudo, de estrutura, para a criança, mas não cobra. Antigamente, quem que estudava? Você andava no bairro quatro, cinco quilômetros a mais – léguas, como o pessoal falava no interior –, andava com aqueles tamancos de madeira, escrevia em papel de pão... Uma dificuldade danada. Hoje você tem tudo de estrutura e a vagabundagem está imperando. Acho que tem que melhorar. Graças a Deus, algumas coisas eu me sinto até realizada. Só o fato de criar aquelas meninas, não ter perdido nenhuma – a que Deus levou eu não perdi, eu vou voltar para lá um dia... Ficamos chateadas, mas eu não perdi. As quatro estão encaminhadas, não tenho ninguém em criminalidade, tenho meus netos com saúde e elas todas estudando. Eu acho que valeu a pena.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você queria falar que eu não te perguntei?

 

R – Não. A gente fala tanto... Eu só espero – voltando para o bairro, que é o lugar em que eu moro... Eu sei que tem gente com muito mais dificuldade do que eu lá. Às vezes até nas mesmas condições de quando eu cheguei, há 28 anos. Que o nosso governante, principalmente da câmara municipal de São Paulo, tenha um olhar diferenciado para aquele bairro. Que possa mudar aquele zoneamento e fazer umas acomodações ordenadas. Que respeite o ambiente que temos ali... Eu fico tão preocupada, que tem hora que falo: “Gente, acho que vai ficar só o nosso pedacinho de verde aqui.” Vemos tanto desmatamento de áreas desnecessárias, tanto desrespeito ao ambiente que a gente vive e que precisaria ter um olharzinho dos governantes – principalmente dessa nossa câmara. O pessoal fala em época de eleição, depois fica no esquecimento. Vamos voltar agora para a associação e eu sei que o que me espera não é pouco, que eu vou ter muita dor de cabeça... Você perturba alguns que não querem melhoras, porque sempre tem aqueles que não querem que o outro se beneficie. Seja o que Deus quiser. Se amanhã eu tiver que morrer por causa disso... Eu vim para cá e um dia eu vou embora, como todo mundo. Não quero isso, mas eu tive ameaças naquele bairro; é que Ele não deixa me levarem. Eu não vou viver sob ameaça. Sei que não sou eu a pessoa mais importante dali, até muito pelo contrário... Eu quero que as pessoas se agreguem, se interessem. Às vezes, você toma a iniciativa... Eu acho engraçado: uma vez, jogaram umas vacas mortas no meio da rua, veio um moleque com um cavalo e se chocou com um caminhão. O cavalo morreu na hora. Tinha uma vaca no meio da rua, chocou-se com o caminhão e ficou um cavalo morto no meio da rua. Estava aquele sol e ficou no meio da rua, você tinha que passar com o carro na lateral. Reclamaram, reclamaram e vieram reclamar para mim. Eu fui e falei com o pessoal da Zoonoses, depois fui para a prefeitura pedir para retirar. No dia seguinte, estavam me xingando: “Pô, quem ela pensa que é? Foi lá resolver o problema.” Gente... Não precisava resolver? O pessoal tem que parar um pouco com isso. Se alguém fez, está bom. Eu acho que se você solucionou o caso não importa quem fez. Eu, como falei, não sou ligada a partido nenhum mais. Desfiliei-me do PSB já tem quatro anos. Eu trabalho hoje pela justiça, não tem partido. Para mim, o que importa é cidadania, direito do cidadão. Se você é petista, peemedebista, se você não é nada... Sua religião, seu partido não interessa; interessa a necessidade. Para mim está tranquilo. Diante do que eu passei, acho que eu estou no lucro. Para mim tá tudo certo.

 

P/1 – Como foi contar a sua história aqui para a gente hoje?

 

R – É um filme. Você volta lá, coisa que às vezes você nem lembrava... Muita coisa da minha infância mesmo, cada vez que eu vou lá, resgato um pouco. Porque conversa com tio, com tia, com os amigos de bola... Eu era muito maloqueira... É um resgate. Sempre lembramos... Eu fiquei muitos anos sem ir lá. Teve um período da minha vida em que fiquei doze anos sem ir, porque não dava. Como que eu ia viajar com aquelas cinco? E a grana? Não dá para custear. Depois que eu melhorei, que elas foram crescendo e cada um foi trabalhando, ganhando seu dinheiro, a coisa foi se acertando. Eu podia até viajar, porque elas eram donas de si. Eu sou muito chata, às vezes – elas dizem que eu sou muito chata... Era engraçado: os filhos dos outros iam lá para casa, mas não deixava filho meu na rua. Nunca deixei. Uma, porque não tinha parente aqui; quando é casa de parente, da avó, você vai. Lá, não. Passa um filme... Tudo aquilo que você viveu. Situações muito boas, situações muito ruins, que você tem mais é que passar mesmo... Graças a Deus que passou. Tudo vale a pena.

 

P/1 – Obrigada, Cristina. Foi ótimo.

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