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História

Da tuberculose ao trabalho voluntário

História de: W. R.
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/08/2018

Sinopse

Nesta entrevista W. R. nos conta sobre sua adolescência, quando contraiu tuberculose; W. relembra sua experiência de internação e da vida após este fato, inclusive do grande medo de contágio que as pessoas sentiam nesta época. Impossibilitada de exercer a profissão de professora por causa da doença, W. tornou-se voluntária no Hospital das Clínicas. 

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História completa

P/1 – Bom, eu queria começar a entrevista pedindo para você falar o nome dos seus pais e o que eles faziam.

 

R – Ah, certo. É Abílio Barbosa Ribeiro, ele era contador e trabalhava no Banco do Brasil.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Albertina Ferreira Ribeiro, ela não trabalhava.

 

P/1 – Por que ela não trabalhava?

 

R – (risos) Ela teve muitos filhos, ela tinha que cuidar dos filhos, não é? Ela casou muito jovem, com dezesseis anos e teve vários filhos, treze.

 

P/1 – Treze. Você é qual número?

 

R – Depois de mim tem o Hugo... Tem treze, eu sou a no finzinho já.

 

P/1 – (risos) E que dia você nasceu?

 

R – 25 de setembro de 1929.

 

P/1 – Aqui em São Paulo?

 

R – Sim.

 

P/1 – Você tinha falado Alto de Santana, o bairro?

 

R – É.

 

P/1 – Fica perto de onde?

 

R – Hum... Nem sei porque, agora, depois, eu moro, ah... Meu pai comprou uma casa no Sumaré em 1940, quer dizer, eu nem sei onde era, porque só nascemos praticamente...

 

P/1 – Como é que era a convivência desses treze irmãos na casa? Como era o cotidiano da casa?

 

R – Ah, era bem interessante (risos), muito bagunçado, porque tinha acima de mim dois rapazes e abaixo de mim dois meninos, então eu fui muito moleca. Depois nós fomos lá para o Sumaré e tinha o... Nossa, foi quando nós mudamos para lá. Não tinha nada no bairro, tinha muito alemão lá, então a gente... Ah! Tinha muito alemão, inclusive uma vizinha nossa lá, o marido dela era gerente da (Casa Menc?), seu Otto, Dona Ella. Então a gente, nós tínhamos assim, eu sempre fui muito moleca, porque tinha muita árvore para subir e nossa casa tem um quintal muito grande, é um dos maiores do loteamento, nós temos quase mil metros de terreno; tinha muita árvore, eu sempre fui muito moleca.

 

P/1 – O que vocês faziam de molecagem que você lembra?

 

R – Ah, meu Deus (risos), roubava o ______ do vizinho (risos), a gente andava muito pelo bairro, porque nós fomos soltas lá. A minha mãe sempre foi muito brava, muito severa, meu pai era muito bonzinho e minha mãe era severa, então a minha mãe era brava, mas ela não brigava por arte, ela brigava por... Então nós ficávamos soltos lá no bairro. Estou falando demais.

 

P/1 – Não, pode falar (risos). Você tinha falado do teu pai, ele nasceu em Santos, não é? E o que aconteceu que ele foi criado fora de Santos?

 

R – É, ele nasceu em Santos. A minha avó morreu, então ele foi pra minha bisavó, tomar conta dele.

 

P/1 – E pra onde que ele foi?

 

R – Foi para a Ilha da Madeira.

 

P/1 – E ficou lá até quando?

 

R – Ficou até uns oito anos mais ou menos.

 

P/1 – Ah, bom. E voltando para os teus irmãos, que horas vocês acordavam, brincavam? Iam pra escola que horas? Como era isso?

 

R – A gente acordava cedo, eu não lembro muito. Sabe que tem uma fase da minha vida, não sei se por causa de eu ter ficado doente logo, eu apaguei, eu apaguei um pouco, viu? Eu não me lembro de muita coisa.

 

P/1 – E quando você ficou doente?

 

R – Com catorze ou quinze anos, eu não tenho certeza. Eu fiquei doente, aí queriam me levar a um médico, queriam que eu fosse pra Campos de Jordão, mas meu pai era muito agarrado, principalmente com as filhas mulheres, então ele não deixou e eu fui para um hospital, acho que o Mandaqui, não sei. Eu fiquei internada lá, mas eles estavam sempre indo me visitar.

 

P/1 – Como você descobriu que estava doente? Você se lembra disso? Como você começou a passar mal?

 

R – Lembro, eu lembro. Engraçado, eu sentia dor no pulmão, eu tinha tosse, eu tinha muita tosse e eu sentia dor, então eu tossia e me doía, doía, mas eu nunca fui de me queixar muito. Então eu nem sei como alguém um dia, eu falei qualquer coisa e me levaram para o médico.

 

P/1 – E quando ele fez o diagnóstico você lembra o que teus pais te falaram?

 

R – Não, não me lembro não, mas disse que eu estava mal, viu? Disse que eu estava muito mal, tanto que eles achavam que eu não ia sobreviver.

 

P/1 – Foi diagnóstico de pneumonia?

 

R – Não, tuberculose.

 

P/1 – Ah, tuberculose, desculpa!

 

R – Foi tuberculose mesmo.

 

P/1 – E lá no hospital, como é que era?

 

R – Eu era a mais nova do hospital, então eu era paparicadíssima lá, nossa! Quando eu entrei, tinha uma moça com dezessete anos, ela falou: “Ah, você veio tirar o meu lugar”, porque eu era mais nova do que ela, então todo mundo que era criança, inclusive infantil, como eu falei, naquela época tudo, mas hoje em dia não: uma menina de catorze, quinze anos já é uma moça, naquela época não era, era bem infantil mesmo. Então eu, bobona, “infantilzona” (risos), todo mundo me paparicava, inclusive a moça que levava comida, ela achava que ______ era bom pra mim. E, quanta comida eu raspei no prato e joguei fora pra ela não ver, porque ela ia correndo contar quando meu pai ia visitar, ela ia fazer fofoca que eu não tinha comido. Então, eu jogava tudo do meu prato fora.

 

P/1 – Por que você não comia?

 

R – Eu nunca fui de comer muito, viu? Meu pai gostava de comer, ele sempre foi muito magrinho, mas ele comia, ele era muito bom de garfo, mas eu nunca fui de comer muito, eu gosto muito de lambiscar, de comer bobagem na hora de televisão, ou então, quando vai alguém lá e te serve alguma coisinha, mas comer, sentar e comer um prato de comida, eu não gosto.

 

P/1 – E como era o tratamento lá no Hospital do Mandaqui?

 

R – Aí é que tá, isso, era pneumotórax.

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Eles injetavam ar, um ar, era horrível, injetavam ar para o pulmão descansar, eu acho que é isso, não tenho certeza, e poder curar, fechar a ferida que tivesse lá.

 

P/1 – O que você sabe falar pra mim do que é a tuberculose?

 

R – Não, não sei. É o tipo da coisa que eu apaguei. O médico é que me trouxe a memória outra vez, porque é uma coisa que eu não gosto de lembrar.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Complexo, eu tenho um pouco de complexo apesar de já estar bem; eu tenho um complexo de ter sido tuberculosa.

 

P/1 – E tinha esse medo das pessoas, como é que era?

 

R – Ah, tinha medo de contágio, tinha sim. Eu nem sei como, ninguém em casa pegou, porque até descobrirem eu já estava tão mal, eu tinha irmãos menores do que eu, quer dizer, eu não sei como ninguém pegou, mas todo mundo tinha medo. Inclusive agora, diz que é diferente, que o contágio não é como era que eles pensavam que fosse antigamente, e diz que é completamente diferente, não é o que diziam.

 

P/1 – Certo, e você tomava remédios?

 

R – Não, eu não me lembro de tomar remédios, talvez eu tomasse algumas vitaminas, alguma coisa, mas remédio eu não lembro. O tratamento era mais pneumotórax mesmo. Inclusive eu fiz uma operaçãozinha em Jacobeau.

 

P/1 – O que é isso? (risos)

 

R – Jacobeau é uma... Tinha um lugar que o pulmão ficava colado na pleura, não sei como era, então eles descolavam, faziam uma operação para descolar e poder...

 

P/1 – E tinha uma ala dos tuberculosos? Como é que era isso no hospital?

 

R – Não, o hospital era só de tuberculosos.

 

P/1 – E vocês tinham um lugar para passear, para andar, como era o cotidiano dentro do hospital?

 

R – Ah, a gente levantava, comia o dia inteiro, viu? Oh, lá eu passei mal nesse ponto.

 

P/1 – (risos)

 

R – Você está se divertindo!

 

P/1 – (risos) Então conta para a gente, como era o cotidiano de vocês?

 

R – A gente levantava, a gente saia um pouquinho pra passear. O andar de cima era das moças, embaixo tinha os rapazes. Lá embaixo tinha consultório, morava, tinha um médico residente lá, mas a gente saia para dar umas voltas por lá. Eu nunca tive muito fôlego, então eu não andava muito não.

 

P/1 – E eles pediam para andar sempre?

 

R – Não, também não me lembro, não me lembro. E acho que não vai ser uma boa entrevista.

 

P/1 – Ah, imagina! (risos)

 

R – Não estou lembrando de nada, estou apagando tudo!

 

P/1 – Não tem problema. Tinha algum tipo de comida, alguma coisa?

 

R –Ah, era muito. Eu sei, o tipo de comida era a quantidade. Era demais, acho que seria um, depois a tarde, aí é que está, tinha que comer tanta coisa. A gente tomava o café da manhã, depois do intervalo entre o almoço e o café da manhã tinha um lanchinho, uma banana assada, sei lá o que era. Depois vinha o almoço, que era aquela fartura e depois, à tarde, tinha o lanche e à noite vinha a janta. Os pais da gente levavam um monte de coisa, é a mania, não é? De coisa para doente, então eu tinha que dar conta do que eles levavam e do que o hospital oferecia. Para mim foi um sacrifício, viu? (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – Não ria não, que não foi engraçado.

 

P/1 – E me fala uma coisa, tinha atividades entre os doentes? Tinha leitura?

 

R – Tinha biblioteca, lá tinha biblioteca sim. Eu sempre gostei de ler, nossa! Eu peguei uma vez um livro de Charles Dickens, era uma edição antiga, eu gostava dele, mas era grande e eu peguei para ler, nossa Senhora, não dava nem tempo de a gente ler, porque tinha que comer tanto lá, que não dava nem tempo de ler, mas tinha biblioteca, a gente tinha que andar um pouquinho, a gente conversava muito, eram todos os quartos, dando de um terração grande na frente e todos os quartos ficavam com as portas abertas pra fora e a gente via os enfermeiros todos passando.

 

P/1 – E como é que era o convívio com as enfermeiras? Elas tinham medo de pegar tuberculose?

 

R – Não, não tinham não. Eu lembro muito da copeira que era fofoqueira, ia contar tudo que acontecia lá para as minhas visitas. Mas tinha enfermeiro bonzinho, era um alemão e outra moça... Eu não lembro muito bem, não.

 

P/1 – Não tem problema.

 

R – Mas aí que está, então, a gente às vezes ficava andando no corredor, era comprido, era grande lá, passava e via todo mundo assim, cada quarto, todos os quartos com a porta aberta, era bem ventilado lá.

 

P/1 – E essas sessões de pneumotórax eram diárias?

 

R – Eu vou chutar um pouquinho, não me lembro muito bem, mas no começo eu tenho impressão que elas eram diárias, não sei, não posso garantir. Mas depois já eram espaçadas, depois que saí do hospital fiquei muito tempo tomando, ia ao consultório do médico para tomar, eles me passavam na radioscopia e... Passava antes de fazer o pneumotórax e depois passava outra vez para ver como é que estava.

 

P/1 – Radioscopia?

 

R – É, passava na radioscopia.

 

P/1 – Ah!

 

R – Não era radiografia, era só um aparelho que eu passava.

 

P/1 – Ele via na hora?

 

R – É. Ele via na hora.

 

P/1 – Ah, tá. Interessante! E como era a visita dos seus pais? Eles iam lá sempre?

 

R – Não, eles iam todo fim de semana.

 

P/1 – Ah!

 

R – Acho que não podia ir durante a semana, não sei... Também meu pai trabalhava, ninguém dirigia, só ele que dirigia.

 

P/1 – E por que eles não quiseram que você fosse pra...

 

R – Pra Campos?

 

P/1 – Pra Campos.

 

R – Ah, porque ia ficar muito longe deles, imagine... Lá eles podiam estar toda hora atormentando.

 

P/1 – (risos)

 

R – É, longe já não.

 

P/1 – Você ficou lá quantos anos mais ou menos?

 

R – Ah, eu acho que um ano só...

 

P/1 – Um ano?

 

R – Depois eu continuei o tratamento fora.

 

P/1 – Tá. E aí você fazia o que na sua casa quando você voltou?

 

R – Eu não me lembro... Ah! Mas aí eu perdi muito tempo. Eu voltei pra estudar, acho que com uns dezoito anos eu voltei para o ginásio, para terminar o ginásio que eu não tinha terminado, aí eu comecei a viver. Minha irmã estava fazendo curso na União Cultural Brasil Estados Unidos, lá eles tinham um curso de português para estrangeiros, então a gente ia muito a festas lá, tinha muito baile, todo sábado, aí eu comecei a viver, depois dos dezoito anos comecei. A gente ia muito às festas, piquenique que eles faziam, conheci muitos estrangeiros... Foi uma época muito boa, viu? (risos)

 

P/1 – E você tinha que ter cuidado por causa da tuberculose?

 

R – No começo o médico dizia que não podia ir pra praia, não sei, tinha mania que iodo não podia e nem ferro, que não podia iodo e nem ferro. O meu médico, o Doutor Jorge, disse que isso é bobagem, porque a moça descobriu que eu estou um pouco anêmica, a minha ginecologista, então ela mandou tomar ferro, mas uma dose assim meio brutal sabe? Aí eu fui perguntar para o médico. Foi por isso que eu voltei lá e ele me falou da entrevista. Falou assim: “Puxa, que coincidência! Eu ia telefonar pra você!”, pra dizer que tem um amigo dele, que não sei o quê. Mas daí eu fui lá... Mas antigamente eles tinham isso, de não poder nem com iodo nem com ferro. Então, meu pai tinha uma casa lá em Ilha Bela e eu nem ia. Ah, mas no fim eu ia, ficava preta (risos). Olha, ficava mesmo, viu? Meu pai comprou a casa lá e nós aproveitamos muito.

 

P/1 – Mas no começo você não ia?

 

R – No começo eu não ia.

 

P/1 – Você ficava e os outros iam?

 

R – Todo mundo ia, eu não ia.

 

P/1 – Você ficava com quem aqui em São Paulo?

 

R – Ah, sei lá. Puxa, uma família tão grande, sempre tinha alguém, viu? A gente ficava estudando, a gente não podia ir.

 

P/1 – E você teve outras doenças de criança que você se lembre? Catapora, sarampo?

 

R – Não. Ah, bom! É sarampo, essa “coisarada” toda.

 

P/1 – Você lembra quais doenças vocês tiveram e como foram tratadas?

 

R – Eu não tive caxumba, mas eu tive sarampo, catapora. Agora, eles tiveram, eu lembro, minha irmã teve caxumba. Não lembro, não.

 

P/1 – Você tinha que ter algum cuidado especial com roupa aqui em São Paulo, na terra da garoa?

 

R – Não. Depois que eu saí do hospital?

 

P/1 – É.

 

R – Não, esse tipo de recomendação nunca houve, não. Agora, eu tinha cuidado, o médico não falava, mas a minha família era muito preocupada, então eles não gostavam que eu saísse. Mas isso no começo, viu? Depois dos dezoito anos, eu comecei a apelar, porque aí não dava pra ficar controlando tanto.

 

P/1 – (risos)

 

R – Não dá pra ficar pegando muito no pé, não é?

 

P/1 – Você voltou agora no médico? Foi quando?

 

R – Eu fui porque a médica me mandou tomar um monte de ferro. Aí ele falou assim: “Isso é bobagem. Isso não tem importância”. Porque eu fiquei com isso do médico, quando eu estava doente dizer que não podia iodo. Tanto que, imagina, praia tem tanto iodo, então eu não ia. Aí ferro, eu voltei pra perguntar pra ele: “Eu estou tomando um monte de ferro, será que tem problema?”. Ele: “Não, isso é bobagem, é coisa de antigamente”.

 

P/1 – W., você estava contando pra gente que vocês conversaram sobre tuberculose, que ele falou do que era a postura antes da de hoje.

 

R – Ele disse que antigamente... Realmente, eu tinha muito medo, não me aproximava de ninguém quando eu descobri. Mesmo quando eles iam lá em casa, lá me visitar no hospital, eu tinha medo de chegar muito perto, tudo. Mas agora, disse que não é mais assim, que o contágio não é assim. Antigamente todo mundo morria de medo, mas que não é assim, não é tão perigoso assim. Não sei.

 

P/1 – E lá no hospital, como era a relação entre os doentes e os médicos? Tinha amizade?

 

R – Tinha. Eu acho que tinha, porque o médico residente era moço, ele era muito simpático. Agora, eu era muito criançona; às vezes a turma estava lá, eu estava lendo, eu não prestava muita atenção pra isso, não. Eu lembro uma vez (risos), eu não vou dizer o nome, mas tinha um rapaz embaixo, que era poeta, então ele estava de olho numa menina, numa moça de cima (risos). Eu não vou dizer nem o nome dela, mas ele é um nome assim que está saindo em coluna social, sabe? Eu vejo muito o nome dele. Daí ele estava fazendo acróstico pra todo mundo, eu debrucei lá e falei: “Pra mim você não vai fazer?”, “debilóide”, não é? (risos)

 

P/1 – Ele estava fazendo verso pra ela?

 

R – Estava, fez um acróstico. Daí eu pedi e fez um pra mim também. Mas assim, muito infantil, porque realmente, com essa idade, não era... Porque eu perguntava pra ela: “Por que ele não vai fazer pra mim também?”, mas eu debrucei lá: “Como é, você não vai fazer pra mim também?”.

 

P/1 – (risos) E os rapazes e as moças podiam conviver?

 

R – Podiam, no refeitório.

 

P/1 – No refeitório?

 

R – É, podiam no refeitório.

 

P/1 – E tinha muita amizade?

 

R – Não, eu não tinha. Eu era um pouco tímida, apesar de que tenho uma amiga que diz assim: “Você, com uma família tão grande, você tinha de lutar pra aparecer. Você não podia ser tímida nunca!”. Mas eu estava só, o que eu ia fazer, não é? Sou muito tímida.

 

P/1 – E me fala uma coisa, você saiu de lá e começou a fazer os cursos na Cultura Inglesa?

 

R – É.

 

P/1 – E daí?

 

R – Eu terminei o ginásio, como eu disse, eu fiz o científico. Tive problemas, aí eu fui tentar fazer um número maior na Unidade do Prado, mas não deu.

 

P/1 – Que problema você teve? Você pode contar pra gente?

 

R – Posso, porque eu fiz meio semestre e todo mundo tinha que fazer uma radiografia, apresentar o atestado médico. E nesse atestado médico constava uma radiografia. Então, eu fui fazer a radiografia, nunca pensei, aí chegou lá, acho que eles mandaram chamar o diretor da escola, não sei, aí era o Sólon Borges dos Reis, ele mandou me chamar e disse que eu não podia: “Você pode terminar o ano, mas você não vai poder ser professora, por causa da tuberculose”. Quer dizer que eu não ia poder ser professora.

 

P/1 – Mesmo não estando mais doente?

 

R – Mesmo não estando mais doente.

 

P/1 – E por que isso? Você sabe?

 

R – Não, porque eu acho que professora tinha que falar muito, eu estou chutando isso, mas acho que a professora tinha que falar muito (risos), então acho que era algum medo de afetar o pulmão, sei lá, não tenho ideia do que pode provocar isso. Eu realmente não sei.

 

P/1 – E aí você saiu da escola normal e o que você fez?

 

R – Aí eu saí e fui fazer inglês, fazer bobagens, fazer cursinhos na Walita, tudo bobagem, tudo bobagem.

 

P/1 – Certo.

 

R – Só o inglês que não foi, não é? Se bem que o inglês também no fim eu desisti, porque eu achava mais interessante a União Cultural, mas me puseram na Cultura Inglesa.

 

P/1 – Onde era a Cultura Inglesa?

 

R – Quando eu fiz era na cidade, agora está na Higienópolis. Agora poderia, era mais fácil. Mas era no centro e era mais difícil pra mim.

 

P/1 – E como você ia pra lá?

 

R – Ah, eu ia de ônibus. Meu pai não levava, não. Só tinha um carro em casa, naquela ocasião, então era o meu pai que usava, porque ele trabalhava. Então não tinha, tinha que tomar ônibus mesmo.

 

P/1 – Descreve como era São Paulo naquela época. O que você lembra?

 

R – Eu lembro que a gente podia ir pra cidade (risos), e hoje em dia a gente não pode. Eu recebo do Banco do Brasil, agência Centro, e de vez em quando preciso ir lá, eu ficou louca da vida. Só pra buscar um cheque. Uma vez me chamaram lá porque tinha uma homônima minha que estava passando cheque sem fundo, então eles me chamaram pra eu fazer novas assinaturas. Mas aí eu quase não vou para a cidade. Agora eu preciso trocar o meu Cartão Ouro, também estou protelando porque a cidade é tão feia, tão poluída, tão suja, não é? Eu não gosto de ir pra lá.

 

P/1 – Como era antes?

 

R – Era mais limpo. A gente podia ir. Inclusive, quando eu estava na Cultura Inglesa, eu tinha amigas muito boas e todo mundo, a frequência, era uma frequência boa de lá. E todo mundo ia pra cidade; hoje em dia, não.

 

P/1 – E vocês passeavam na cidade? O que vocês faziam?

 

R – Não, passear, não. A gente ia muito ao cinema. Cinema, teatro. A minha mãe gostava muito de ir ao Municipal para ver a Magdalena Tagliaferro. Depois ela ia tomar um lanche. Tinha umas confeitarias, ela ia. Tinha umas que tocavam música, e a gente ia junto.

 

P/1 – Você lembra quais confeitarias que tinha?

 

R – Tinha uma que era Vienense, tinha outra... Não lembro o nome. Tinha orquestra, também. Tinha várias, tinha lugares pra ir. E elas iam, ela com uma amiga dela, e a gente ia. Depois a gente ia esperar o papai, estacionava o carro, largava lá na Praça Ramos, tem aquela parte lá embaixo, ele estacionava o carro lá, então a gente ia lá pra pegar carona pra voltar (risos). Ficava fazendo hora na confeitaria até a hora dele sair do banco.

 

P/1 – Ele trabalhava ali perto?

 

R – Lá no Banco do Brasil.

 

P/1 – Ah, ali mesmo.

 

R – É.

 

P/1 – Vocês faziam compras na cidade? De roupa...

 

R – Tinha o Mappin. O Mappin era uma casa muito boa, antigamente. Inclusive tinha um salão de chá no Mappin também. Mas eu lembro, a gente comprava muita coisa no Mappin. Tinha a Casa Fachada, a Slopper. Também tinha uma casa lá na Rua Direita; era, se eu não me engano, depois ela foi pra Avenida Paulista e fechou, eu acho.

 

P/1 – Quando você não pôde mais estudar, o que você decidiu fazer?

 

R – Aí eu fui ser voluntária. Mas eu deixei passar bastante tempo. Eu fui ser voluntária lá no Hospital das Clínicas. Tinha um médico do Banco do Brasil, ele era até irmão de um artista de televisão, e ele falou assim: “Puxa vida, você não faz nada? Por que você não vai trabalhar lá no Hospital das Clínicas?”. Ele também não sabia que eu era doente, se não ele não teria mandado (risos). Mas ele falou: “Por que você não vai ser voluntária lá?”. Aí eu fui, me inscrevi e fiz muitas amigas boas por lá, viu? Gostoso! Mas nenhuma sabe de nada. Continua sendo um segredo.

 

P/1 – Por que é um segredo, W.?

 

R – Porque eu tenho complexo disso. Eu realmente tenho. Eu estou falando aqui muito à vontade, mas eu tenho, porque eu não conheço nenhuma de vocês. Eu não conheço ninguém. Ele parece o Ronaldinho. (risos)

 

P/1 – Parece (risos). Mas ninguém sabe, suas amigas?

 

R – Não, não. Inclusive, eu não mantive amizade nenhuma do hospital. E tinha uma moça que ela me telefonava. A gente encontrava também. O médico era o mesmo. E dia de pneumotórax a gente se encontrava, mas eu não... Depois que eu parei com o pneumotórax, eu me afastei. Eu quis apagar mesmo, uma coisa que eu quis deixar bem...

 

P/1 – Por quê?

 

R – Complexo (risos). Porque como era discriminado... Hoje talvez não, esse seu amigo que você falou talvez não, não tenha nada disso, mas pra mim foi duro. Foi duro. Inclusive a infância que eu tive, puxa vida, podia estar fazendo qualquer coisa, e estava enfiada em um hospital. Para mim foi uma época que eu gosto de apagar, realmente.

 

P/1 – Como era o ambiente do hospital?

 

R – Em que sentido?

 

P/1 – Entre os colegas. Na enfermaria, como é que era isso?

 

R – Era um ambiente bom.

 

P/1 – Você achava que podia morrer lá?

 

R – Nunca pensei nisso! Eu fiquei sabendo que eu estava muito mal, porque diz que tinha muito nervosismo em casa. Sempre família grande, quando junta em hora de refeição, então os problemas todos aparecem naquela hora. E eu era um problema muito, muito grande. E eu não sabia, porque eu não estava lá. Mas eu, depois, fiquei sabendo. Engraçado que eu fiquei sabendo em questão de um ano que uma irmã – ela é viúva – estava lá em casa e estava dizendo: “Você não sabe quanto que nós ouvimos por sua causa. Mamãe nervosa, papai nervoso” (risos), “e por sua causa podavam muito a gente”, sabe? Quer dizer, eu citava. E eu falei: “Mas por quê?”; “Porque você foi muito mal pro hospital, você estava pra morrer. Ninguém achou que você ia resistir”. Eu falei: “Ah, que bobagem!”. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – Bem inconsequente! Fiquei boba, ah!

 

P/1 – (risos) Acho que acabou a fita... Não... (risos) E me fala, o que você gosta de fazer? No Hospital das Clínicas, o que você faz à tarde com as crianças?

 

R – O que eu fazia era... Olha, no começo, nem sei se posso dizer isso, porque todo mundo fala que voluntária não faz nada, não é? Só cuida da recreação. Mas quando a gente chegava lá, como tinha poucas enfermeiras, então eu fazia TPR [temperatura, pulso e respiração], eu dava mamadeira. Ah, eu fazia, eu cuidava bem e, depois que eu acabava, trocava tudo, aí eu levava os maiorzinhos pra passear lá embaixo, no pátio.

 

P/1 – Mas eram crianças doentes também?

 

R – Ah, sim! Eram crianças com problemas renais.

 

P/1 – Ah!

 

R – É, eu cuidei dessa parte. Agora, uma amiga ficou no Pronto Socorro, outra ficou na Pediatria, porque nós fizemos cursinho pra...

 

P/1 – É isso que eu queria saber.

 

R – Pra ser voluntária.

 

P/1 – Ah!

 

R – E a gente faz um monte de coisas, pra lidar com adulto, como arrumar uma cama com o paciente na cama, como lavar uma cabeça, dar um banho no paciente, lavar a cabeça na cama. Tudo a gente aprendia. Não é arrumar a cama com ele. Quer dizer que então, no cursinho, eu conhecia um monte de gente e, depois, a gente combinava: “Que horas você vai sair?”. Eu trabalhava três vezes por semana, entrava às 7h30, mais ou menos, saía 11h30. Depois que eu desse a comida pra eles, daí eu saía. Três vezes por semana a gente era obrigado a dar, não lembro quantas horas por semana, mas a gente dava muito mais, porque chegava lá a gente via tanta coisa pra fazer, não é? Tinha poucas funcionárias, então a gente...

 

P/1 – Em que ano você começou?

 

R – Ah, não me lembro. (risos)

 

P/1 – Mais ou menos?

 

R – Em 1959. É, foi exatamente, foi em 1959 mesmo.

 

P/1 – E como você aprendeu a fazer TPR? É temperatura, pressão e respiração?

 

R – É pulso e respiração.

 

P/1 – Ah, pulso e respiração.

 

R – É, elas ensinavam, coitadas. Era pouca gente, pouca enfermeira. Então, a gente não podia fazer isso, não podia mesmo, mas eu fazia e até marcava na papeleta.

 

P/1 – (risos)

 

R – É. Realmente tinha muita pouca gente lá pra cuidar, e tinham algumas voluntárias que elas confiavam, então elas largavam a gente. A gente chegava, elas falavam: “Graças a Deus que a senhora chegou”.

 

P/1 – (risos)

 

R – E elas saíam e largavam na mão da gente. Tudo!

 

P/1 – E aí, quando você acaba...

 

R – E se alguém do hospital souber, é capaz de dar meio problema, porque...

 

P/1 – (risos)

 

R – É o tipo de coisa que não podia fazer. Tirar criança do oxigênio pra dar mamadeira, tudo, no fim elas ensinavam tudo. Primeiro elas queriam que eu fizesse curativo também! Eu falei: “Isso já não vou fazer”.

 

P/1 – (risos)

 

R – Isso já era demais, não é? Eu tinha um pouco de medo de fazer.

 

P/1 – (risos) Quem dava o curso, quem ensinava os trabalhos? Eram as enfermeiras?

 

R – Não. Ah, o curso eram as enfermeiras. Mas essa história de cuidar do paciente como eu cuidava não era do curso que a gente aprendia, porque a gente não aprendia, não. A gente aprendia mais assim, a função da voluntária, era escrever para o paciente que era analfabeto, levar cartas pra botar no correio, fazer telefonemas e levar resposta pra eles. Um monte de coisa assim. Ah, a voluntária pagava pra ser voluntária.

 

P/1 – (risos)

 

R – Nós pagávamos, porque tinha que comprar meia, pasta, sabonete pra dar para os pacientes. Então, a gente providenciava tudo isso. E uma vez eu levava livros, eu passava só na enfermaria dos adultos e ia pra criançada. Dava uma passada pra ver se alguém queria alguma coisa, pra pegar carta, pra escrever carta pra eles, porque tinha muitos analfabetos. Então, eu passava assim e levava livro. Engraçado que uma vez eu levei um livro para um paciente e ele saiu e deixou um acróstico, ele era um nordestino. Ele deixou, sabe, um repente pra mim, e deixou dentro do livro, me devolvendo o livro. Até eles publicaram. Tinha um jornalzinho das voluntárias, eles publicaram. Eu guardei isso de brincadeira, mas ele deixou dentro do livro essa poesiazinha pra mim, sabe? Muito simpático!

 

P/1 – E você lembra o que falava a poesia?

 

R – Não, ele agradecendo eu ter emprestado o livro, e que cada vez que eu aparecesse, sei lá, não me lembro mais, não. Mas achei muito simpático, muito gentil da parte desse senhor, viu? Ele tinha pedido um livro pra ler, ele saiu num dia que eu não fui, porque eu ia terça, não, eu ia segunda, quarta e sábado, ele saiu num dia que eu não estava lá e deixou com o companheiro lá da enfermaria.

 

P/1 – Certo. Agora, voltando um pouquinho, você se lembra do dia em que você saiu do hospital?

 

R – Não.

 

P/1 – Não? Quando você chegou na sua casa?

 

R – Ah, eu lembro quando eu cheguei. Foi uma festa, lógico. Uma família grande (risos), esperando, puxa vida! Nunca ninguém tinha saído assim e, então, todo mundo, foi uma recepção, mesmo. Sabe que, inclusive, eu não contei pra uma amiga de infância, o pai dela foi quem construiu a nossa casa, eu sou amiga dela até hoje e nem ela soube, porque eu tinha uma irmã casada, tinha ido morar lá em Ribeirão Preto e eu fui pra lá uma vez. Então, quando eu ia viajar, a menina, eu era muito amiga dela, ela continuava morando no bairro. O pai dela é um alemão, ele construiu várias casas no bairro, como bom alemão, não é? E a nossa também. E ela continuava morando no bairro e nós continuamos amigas. E pra ela também, acho que eles disseram lá em casa que eu tinha ido viajar, mas não falaram onde. Mas nem ela sabe que eu era doente e, imagina, eu a conheci em 1940, foi quando meu pai comprou a casa.

 

P/1 – E seus avós? Eles eram vivos quando você ficou doente?

 

R – Não, não, não. Meu avô morreu em 1924, eu ainda não tinha nascido.

 

P/1 – O que os seus avós faziam?

 

R – Meu avô era importador, meu avô era rico (risos), por isso que meu pai pôde ter tanto filho assim, viu? Porque ele teve uma base, meu avô deixou herança pra ele.

 

P/1 – O que ele fazia?

 

R – Ele era importador. Português e importador.

 

P/1 – Que tipo de produto ele importava?

 

R – Ah, não sei, vinho... Vinho era bom! (risos)

 

P/1 – (risos) Que outro fato marcante você se lembra dessa época, do hospital, da tuberculose? Histórias engraçadas do hospital.

 

R – Não, não tem nada. Ah, eu era muito boba, eu não era assim observadora. Se fosse agora ou hoje em dia, eu estaria mais, mas antigamente eu era muito... Depois era tudo assunto que eu não estava entrosada, porque me pegaram de repente, me largaram lá num hospital, um ambiente completamente diferente, não tinha as crianças pra brincar, não tinha nada. Para mim foi...

 

P/1 – O que mais você sentia falta lá no hospital?

 

R – Ah, eu sentia falta da família, não é? Já pensou? A gente sente a falta, depois não era uma família pequenininha: eu, meu pai e minha mãe. Era uma família que juntava na mesa sabe, era uma família assim bem... E depois, cada um tinha um caso pra contar, cada um estudava uma coisa, numa escola, cada um sempre tinha uma coisa pra contar, meu pai também, cheio dos casos.

 

P/1 – Seus irmãos também iam visitá-la?

 

R – Só os mais velhos, só os mais velhos. E não ia, é... Eles enchiam o carro pra ir lá, aproveitar todo mundo me ver. E se bem que era perto, porque acho que era Mandaqui, sei lá. Não tinha um hospital no Mandaqui? E acho que era lá. Então, não era tão longe pra ir, por isso que eles não me deixaram ir pra Campos, porque não poderiam estar indo sempre.

 

P/1 – É verdade. E você lembra se alguém te explicou o que você tinha?

 

R – Não, não. Acho que eles diziam: “É boba, não precisa saber de nada” (risos). “Criança boba não precisa saber de nada”. (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – “Não tem nada que...”.

 

P/1 – E você nunca quis trabalhar?

 

R – Eu quis, mas eu sabia que eu ia ter problema. Eu quis, meu pai não queria muito. Meu pai era muito carinhoso com as filhas, sabe? Ele levantava da mesa, ele beijava a mamãe, a cabeça da mamãe, passava beijando cada uma de nós, então ele não queria ver ninguém... Ele queria ver todo mundo assim, juntinho, sabe?

 

P/1 – Ah!

 

R – Ele não queria muito, mas eu andei procurando, porque eu achava um absurdo, mas eu tinha esse problema: “Vão ver que eu sou tuberculosa e não vão deixar”. Imagine se vão me deixar trabalhar! Eu sabia. Imagine, nem professora eu pude ser! Nem estudar eu pude, imagine se eu ia poder trabalhar?

 

P/1 – É. E quando você começou a ser voluntária no Hospital das Clínicas, o que eles acharam? Você lembra?

 

R – O quê? A minha família? Eles acharam bom, porque: “Ah, você está sem fazer nada mesmo. Vai fazer alguma coisa”. Porque, realmente, fazer cursinho é ótimo, eu acho bom, a gente cresce um pouco, mas não é nada palpável. Pelo menos alguma coisa de útil eu tinha que fazer. Então eles acharam muito bom. E meu pai ia me levar sempre, porque aí ele já estava aposentado e eu não dirigia ainda, aí ele ia me levar todo dia até o Hospital. Se bem que era mais ou menos perto, eu moro mais ou menos perto do Hospital das Clínicas, mas ele ia me levar sempre.

 

P/1 – E o que você gosta de fazer? Você me falou que gosta de jardinagem?

 

R – É, eu gostava de fazer, primeiro quando eu era mais jovem. Alguns anos atrás (risos) tinha um jardineiro também que ajudava, mas eu gostava de mexer com planta. Nossa! Eu gostava. Nós temos bastante espaço lá pra plantar, então eu gostava mesmo de fazer mudinhas diferentes, sabe? E eu gosto também de ler, isso eu herdei do meu pai, que ele lia demais, e gosto de fazer palavras cruzadas. Isso, (risos) estou sempre com uma revistinha na bolsa. (risos)

 

P/1 – (risos) Com quem você aprendeu a fazer jardinagem?

 

R – Ah, eu tinha essa irmã que casou e foi morar fora, ela fez um curso no MASP [Museu de Arte de São Paulo] de jardinagem.

 

P/1 – Ah!

 

R – Era no prédio lá na Rua Sete de Abril e ela fazia lá o curso. Ela era sócia do Museu de Arte Moderna, que era lá, tanto que a gente ia muito ao cinema lá no Museu, ela tinha carteirinha e minha irmã também era de lá, e ela fez um curso. Tinha curso de jardinagem lá e ela ganhou muita coisa, muito prêmio com plantas, que a minha mãe também gostava. Minha mãe não enxergava, minha mãe teve um problema de, sei lá, um tipo de sarampo que diz que ou atacava o coração ou a vista, pra ela atacou a vista, então ela tinha um problema. Mas a minha mãe tinha uma mão tão boa que ela pegava uma planta, um galho de planta assim, ela não enxergava, plantava ao contrário e a planta ficava linda! (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – Tanto que as vizinhas nossas levavam vasos pra mamãe cuidar, porque lá brotava tudo.

 

P/1 – (risos)

 

R – Sei lá, nas mãos dela tudo brotava.

 

P/1 – Certo. E você se lembra de alguma outra doença que seus pais tiveram? Sua família?

 

R – O meu pai nunca ficou doente. Uma vez ele teve, acho que chama antraz, é um monte de furúnculo, é, parece que chama antraz. A única vez que ele ficou ele teve isso e ficou sem trabalhar, até não podia mexer muito; depois ele teve câncer e morreu.

 

P/1 – Ah! Câncer do quê?

 

R – Morreu com câncer, acho que foi na próstata, tenho impressão que foi. Ele nunca teve nada, ele teve isso, meu pai, ele era magrinho, magrinho! Comia muito bem, comia mesmo. Ele só gostava de gente que comesse bem perto dele.

 

P/1 – (risos)

 

R – Ele gostava de ver mesa bem farta. Português gostava disso, mesa com um monte de coisa. Ele não queria coisa de um dia para o outro, ele não comia, mandava jogar tudo fora. Então, mas ele gostava de comer muito e gente que comesse bem. Ele nunca ficou doente, nunca teve nada, magrinho, magrinho, magrinho. E ele pegou, teve câncer e morreu com 86 anos, lúcido, que estava um monte de gente, amigas minhas, tudo lá em volta da cama, ele falando o nome de cada uma.

 

P/1 – Você lembra como foi o tratamento dele? Ele fez radioterapia?

 

R – Fez, não, radioterapia ele não chegou. Ele operou, mas já era muito tarde.

 

P/1 – Certo. E atualmente, com quem você mora?

 

R – Com mais três irmãs.

 

P/1 – Na mesma casa?

 

R – Na mesma casa, a mesma casa, antiga, bem velhinha!

 

P/1 – E como é o cotidiano de vocês hoje? Como é o relacionamento de vocês?

 

R – Bom, a minha irmã mais velha que está lá não para em casa, é a que sai mais, viu? Nós temos problemas assim de ir dormir tarde. Meu pai morreu há vinte anos e estamos com problema de inventário, já vendemos, ih! Estamos com problema de inventário. Então nós saímos demais pra providenciar, vivemos em banco, mexendo com advogado. E casa grande e velha sempre tem um monte de probleminha. Quer dizer, é isso, nós quase não saímos. Sábado fomos numa festa de aniversário de uma senhora, amiga da gente, fez oitenta anos, fez uma missa lá na Igreja da Cruz Torta [Paróquia Nossa Senhora Mãe do Salvador], teve um jantar e foi uma festa lá. A gente vai em festa de amigos, sempre os nossos amigos também vão às nossas festinhas. (risos) É Natal e passagem do ano, reúne todo mundo em casa. É... Casa grande, sempre muito movimenta, sempre tem gente chegando, gente saindo.

 

P/1 – Como é essa casa? Descreve pra gente.

 

R – Tem quatro, tem um jardim bem grande, tem um terraço, tem uma salinha, onde está o telefone, uma sala bem antiga. Tem um móvel antigo que era do papai, tem uma discoteca. (risos) Tem o telefone, uma mesinha com algumas fotografias, depois tem uma sala grande que é a sala de visita, tem outra sala que é a sala de televisão, tem a sala do jantar, tem a cozinha e tem os quartos lá em cima.

 

P/1 – É sobrado?

 

R – É, sobrado.

 

P/1 – E tem quintal?

 

R – Ih, se tem! (risos) Nós temos quase mil metros de terreno lá. Nossa! Lá é uma floresta, tem duas jabuticabeiras, uma mangueira, bananeiras, mexeriqueira, laranjeira, tem tudo lá. É um pomar.

 

P/2 – E a senhora planta alguma coisa hoje?

 

R – Ham?

 

P/2 – E a senhora planta alguma coisa, hoje?

 

R – Se planta? Nossa! Tá cheio de mexerica lá, não dá nem pra pegar. Acho que os vizinhos olham e falam assim: “Que pena. Que desperdício. Tudo apodrecendo naquela árvore”. Não dá nem pra pegar. Tá tudo, a laranja, tá tudo lá.

 

P/1 – Certo. Você quer fazer mais alguma pergunta?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – Pra gente encerrar a entrevista: se você fosse mudar alguma coisa na sua vida, o que você mudaria?

 

R – Eu acho... Não, eu acho que não. Eu acho que eu estou bem, eu não mudaria nada, não. Se eu pudesse voltar e não ficar doente, mas eu não fiquei porque eu quis, nem sei como eu fiquei se a minha mãe era tão brava, dava óleo de fígado de bacalhau no inverno, ela cuidava muito da gente, nem sei como é que eu fui pegar a doença. Mas nós tivemos problema de tuberculose, eu tive um tio que morreu tuberculoso; era irmão gêmeo do meu pai, não, meu pai tinha dois irmãos gêmeos. Chamam-se José Eugênio e João Eugênio, um deles morreu com tuberculose, e uma tia, Stella, também morreu de tuberculose. Talvez fosse um pouco de atavismo, será? (risos)

 

P/1 – (risos)

 

R – A gente não sabe.

 

P/1 – Eles tiveram tuberculose na mesma época que você?

 

R – Não, eram meus tios muito ______, minha tia Stella nem conheci, morreu muito antes. Meu tio, Eugênio, acho que eu conheci, mas não me lembro. E depois os dois filhos do tio Eugênio também morreram de tuberculose, era o (Beni?) e a Laís. Tivemos bastante caso na família.

 

P/1 – Alguém chegou a falar que era coisa de família, ou não, era doença da época? Chegaram a levantar essa hipótese?

 

R – Não, não. Mas agora eu estou pensando, realmente nós tivemos muito caso, mas era uma família mais ou menos grande e era normal que fosse assim. Será que não?

 

P/1 – (risos)

 

R – Não sabemos, somos leigas!

 

P/1 – É. (risos)

 

R – Em medicina. (risos)

 

P/1 – Depois a gente vê, não é? (risos)

 

R – É, depois a gente vai ver isso.

 

P/1 – Tá ok! Eu queria agradecer a sua ajuda e a sua entrevista. Você quer falar mais alguma coisa?

 

R – Não, eu acho que eu não fui muito... Não foi muito bom pra vocês, mas...

 

P/1 – Foi sim, foi sim.

 

R – Em todo caso, eu tive boa vontade.

 

P/1 – Foi sim, foi sim. (risos) Muito obrigada.

 

R – Nada, imagine.

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