Busca avançada



Criar

História

Dando à luz a histórias

História de: Gilselda Laporta Nicolelis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

Sinopse

Na infância, se identificava com as artimanhas de Emília, personagem do primeiro livro que ganhou na vida, “Reinações de Narizinho”. Destacava-se nas redações e lia “que nem uma doida”. Sempre atenta ao entorno, a visão poética conduz sua história, que na infância encontra fascínio ao ver um ovo se chocar, e pavor ao ver a mãe, grávida, na cama sob “um mar de sangue”. Acredita que o escritor fica grávido da história, depois precisa dar à luz a ela.

Tags

História completa

P/1 – Então, para começar Giselda, eu te pergunto o nome completo, o local e a data de nascimento. 

 

R – O meu nome é Giselda Laporta Nicolelis. Eu nasci dia 27 de outubro de 1938, estou completando este mês, dia 27, 70 anos. Nasci aqui em São Paulo, no bairro da Liberdade, que era, na época, uma colônia mista, italiana e japonesa, então eu convivi com muitos japoneses, tinha muitas colegas nisseis no Colégio São José, lá da Rua da Glória. Eu nasci em um bairro com nome muito bom, que é Liberdade.

P/1 – Conta um pouquinho dos seus pais, qual o nome deles, o que eles faziam...

R – Meu pai era Vicente Laporta. Primeiro ele foi contador, depois advogado, depois educador, depois diretor das primeiras escolas técnicas de comércio daqui de São Paulo, depois ele teve a própria escola. Ele fundou o sindicato dos estabelecimentos de ensino particular do estado de São Paulo, funcionava ao lado da sala dele de advocacia. Então ele era amigo de todos os diretores e diretoras, padres, freiras. E até tem uma coisa muito interessante que aconteceu comigo no colégio das freiras e que envolve meu pai: eu tinha 11 anos e eu, desde nove, escrevo. E meu pai um dia perguntou para mim: "O que você quer ser quando crescer?". Eu disse: "Quero ser escritora". Ele falou: "Então você precisa começar a ler desde já". E a minha casa era uma ilha cercada de livros por todos os lados, tinha muito livro. A minha mãe também era uma grande leitora, e ele também. E quando eu tinha 11 anos – porque meu pai morreu muito cedo, morreu uma semana antes de eu completar 13 anos –, mas quando eu tinha 11 anos eu estava no que seria antes o segundo ginasial ou o primeiro ginasial, hoje seria sexta série, digamos, e a professora pediu que fizesse uma redação em classe, e eu fiz. Quando eu levei essa redação em classe a professora disse que eu era uma menina sem caráter, que eu tinha pedido pro pai escrever, que eu desonrei a classe. Eu voltei chorando pra casa, meu pai não falou nada. Quando foi no dia seguinte, eu estava em classe, no colégio, de repente entra o meu pai – que era ocupadíssimo – mais a diretora do colégio, que era freira – era colégio de freiras francesas, falava francês desde o terceiro ano − falou para a professora: "Olha, o meu amigo aqui, o doutor Laporta, me disse que ele, como educador, jamais faria uma redação para a filha dele. Que a filha dele escreve bem. Mas, como a senhora achou que não foi ela, nós vamos tirar a prova dos nove. A senhora vai dar uma redação aqui em classe". A professora "Tudo bem". Virou para mim "Então você vai escrever. Escreva o seguinte: Brasil, o país do futuro." Estava na moda o livro do Stefan Zweig, "Brasil, País do Futuro". Meu pai tinha toda a coleção, eu já estava lendo. Virou todo mundo para olhar para a minha cara, eu fiquei roxa de vergonha. Meu pai lá na frente, a diretora. Falei: "Bom, tem que ser, tem que ser. Vamos nessa". Peguei e comecei. Ah! Larguei brasa. Entreguei a redação, a diretora leu. Meu pai tirou os óculos, leu. “Pá”, me deu uma piscada. E entregou a redação para a professora. Aí quem ficou roxa foi a professora. A diretora perguntou "Qual é a nota que a senhora dá para a menina agora?" Ela falou: "Dou nota dez, com as minhas desculpas. Eu não sabia que eu tinha uma escritora na classe". E aí foi uma coisa linda, porque o meu pai foi como um príncipe encantado, assim, que apareceu para salvar a princesa. Quando eu cheguei em casa, falei: "Pai, por que que o senhor, tão ocupado com escola, dando aula, com o escritório, o senhor teve o trabalho de ir lá?" "Eu fiz isso pra você aprender que a gente nunca na vida tem que se conformar com uma injustiça". Então achei aquilo uma lição de vida maravilhosa. Só que 30 anos depois eu perdoei a minha professora, porque eu fui julgar um concurso numa escola... Acontece que quando eu estava nessa escola, um menininho nissei, japonesinho - filho de japoneses - ele escreveu um poema magnífico, e eu falei para a professora: "Olha, eu não quero fazer a mesma coisa que a minha professora fez eu passar. Esse menino é um grande poeta. Vamos dar o prêmio para ele". Só que nós começamos a ler aquele poema, "Bicho no pátio. Bicho no mato. Será bicho?", não sei o quê. Aí a professora falou: "Espera um pouco". E foi correndo buscar um livro didático. O poema era do Manuel Bandeira. O moleque copiou o poema inteirinho e assinou embaixo, o safado. Aí eu falei: "Está perdoada, professora, está perdoada". Porque às vezes você tem um escritor em classe, outras vezes você tem um malandro. Mas isso me marcou profundamente, porque meu pai era muito interessante. Eu estou contando isso, todas essas aventuras, num livro que vai sair publicado agora, chama-se “O Tigre da Caverna”. E que eu não conto como se fosse a minha vida, mas eu conto como se fosse uma menina num colégio de freiras. Eu fui muito levada, era a própria Emília. Meu avô me apelidou de Mariquinha Terremoto. Eu era realmente terrível. Eu era ótima aluna, mas era terrível, era muito contestadora. Minha mãe era professora, formada. Depois trabalhou como funcionária pública. Uma apaixonada por leitura, apaixonada por história do Brasil. Era uma historiadora amadora. Tem uma passagem muito interessante, que quando nós fomos ao Rio, 1954, meu pai já tinha falecido, ela pegou a família inteira - família eu digo, eu, a minha irmã, meu avô e minha avó, que morávamos juntos - foi a trupe pro Rio de Janeiro, visitar os museus, Quinta da Boa Vista, coisa e tal. Daí ela cismou que... Tinha lido num livro que era no Convento de Santo Antônio, que tinha lá no centro do Rio de Janeiro e ainda tem. Batemos lá a aldrava. Do museu veio um padre barbudo, um frade barbudo, falou: "O que é que a senhora deseja?" – Pessoal todo ali, eu tinha aqui uns 15 anos, a minha irmã, dez. – "Nós viemos ver a dona Leopoldina". "Ver a dona Leopoldina. Como é que a senhora sabe que ela está aqui?" Aí a minha mãe falou: "Eu vi nos meus livros".  A gente foi ver os despojos da Imperatriz Leopoldina. Ele pegou uma chave “desse tamanho”, nós descemos uma escada em caracol, lá no subterrâneo, abriu uma porta. As meninas com aqueles olhos assim, morrendo de medo. Abriu uma porta, fez “nhééé”, aquelas portas que faziam não sei quantos anos que não abriam. E estava lá o caixão tríplice... Porque os nobres não eram enterrados, eles eram colocados em caixões tríplices. O último era um caixão de metal. E com todos os filhos dela, que tinham morrido em criança, do lado dela os caixõezinhos. Aqui que tem um memorial, ali na frente do Museu do Ipiranga, que tem toda a família imperial, que depois trouxeram, inclusive, o corpo de Dom Pedro I de Portugal. Só que o coração dele ficou no Porto, por causa da campanha, que ele é o Pedro IV de Portugal. Então o padre falou "Não acredito que a senhora sabia disso. Poucas pessoas sabem disso". Então nós fomos visitar dona Leopoldina lá, no seu sono, que ela tinha morrido1826. E a gente foi visitá-la em 1954. Foi um momento de muita emoção, de ver ali o caixão da primeira imperatriz brasileira. Então eu me criei numa família muito interessante, que o pessoal dava muito valor. E também, quando eu me casei, o meu sogro, que é o Nicolelis, ele tem uma história interessante de família também, porque a família dele veio de Pérgamo, que hoje é Turquia e antigamente era Grécia, era possessão grega, no mar Egeu, então eles são descendentes de gregos. Ele também me estimulou muito, então eu sempre brincava com o meu marido "Separo de você, mas não tiro o nome de seu pai, porque seu pai me deu..." Ele viu o primeiro concurso que eu ganhei, que era o Prêmio Governador de Estado, o Prêmio Monteiro Lobato. Ele viu no jornal e disse: "Minha nora, concorra". Faltavam 15 dias. Sentei na máquina, escrevi cem páginas e ganhei o prêmio. Entreguei 15 minutos antes de fechar, e quem me deu o prêmio foi o Mário Donato, que é o autor de Presença de Anita. Muitos anos depois, na Academia Paulista de Letras, eu comentando com o Mário Donato que eu tinha ganhado o prêmio, ele falou: "Fui eu que te dei o prêmio". Eu falei: "Então nós estamos empatados, porque quando eu era criança minha mãe escondia três livros que eu não podia ler, porque ela achava que uma donzela não podia ler. “Presença de Anita”, do Mário Donato, “Lucíola”, do José de Alencar e “O Crime do Padre Amaro”, do Eça de Queirós. Ela trancava. Ela ia pro trabalho, eu achava a chave, abria, sentava embaixo da escada e ia procurando as passagens mais, digamos assim, picantes". Ele morreu de rir. Falei: "Olha, você foi a minha primeira leitura proibida e você me deu meu primeiro grande prêmio". Você vê o que é a vida, o rolar da vida, é muito interessante isso. Ele falou: "Eu fiquei encantado com a sua história". Eu falei: "Eu escrevi em 15 dias".

P/1 – Giselda, e como é que eram seus avós?

R – Ah, os meus avós... O meu avô paterno, que é Laporta, ele nasceu na Itália. Mas eu descobri que Laporta é espanhol, é de Barcelona, é árabe. O meu avô morreu antes de eu nascer. Minha avó paterna convivi pouco. Minha grande influência foram meus avós maternos. Depois que meu pai morreu, eles vieram morar com a gente. Minha mãe trabalhava, e eu fui criada com a minha avó, que olhava a gente. Eram grandes contadores de histórias. Minha avó cantava, declamava, foi criada em colégio de freiras também, no interior. Até hoje eu aproveito histórias que meu avô contava. E como a televisão apareceu só em 50, aqui em São Paulo – que eu conto no livro também – a gente ouvia muita novela de rádio, a gente ouvia muita rádio e fazia muito sarau em casa. Então minha mãe tocava piano, eu escrevia roteiro de peça, lençóis velhos viravam manto de rainha, papelão virava coroa, vaso de flor dourado virava o cetro do rei. E então eu escrevia o roteiro da peça, eu com a minha irmã representava, minha avó declamava, minha mãe tocava, meu avô também era músico. A gente fazia muito sarau dentro de casa, era muito rico esse negócio, assim, muito criativo. Vinham as tias do interior, um monte de professoras de zona rural, (grávidas?), em lombo de burro. Contavam cada história, tudo. E eu lá, escutando, escutando. Já era um micróbio do escritor. E ouvi histórias. Tem causos que já foi até publicado, história que meu avô contava e coisas assim... Bandoleiros do interior. Por exemplo, meu avô paterno era um grande fazendeiro de café em Borborema. Ele perdeu tudo com o crack da bolsa de 29. Ele era um homem muito rico e praticamente perdeu tudo. E o meu avô contava que, no interior, como não tinha banco e aparecia de vez em quando uns cangaceiros, tinha um bandoleiro famoso da região que aparecia, que quando chegava, todo mundo trancava a porta, botava as tranca, se enfiava debaixo da cama. Pessoal pegava patacão de ouro, que tinha muito patacão de ouro, botava dentro de umas botijas e enterrava no quintal. E muita gente morria sem contar onde estava, então tem muito tesouro por aí. E botava dentro de colchão, botava na barra de cortina... Então tem uma história muito saborosa com isso que meu avô contava. O negócio foi o seguinte: a minha avó casou muito nova, casou com 15 anos com meu avô. O pai do meu avô era o prefeito de Tatuí, era o português que era prefeito de Tatuí. E ele fundou a loja de maçonaria lá de Tatuí. Então de tarde ele era o grão-mestre e de manhã ele ia na missa. Ele era bem brasileiro, ficou bem brasileiro. Ele, para agradar, acho, ia na missa. Porque eu acho – veja que interessante –, eu acho que como o sobrenome dele era Rocha Leão, eu acho que ele era descendente de judeus sefarditas de Portugal. Depois de muitas gerações que pegaram nomes, todo mundo que tem nome de bicho, nome de árvore, nome de mineral... Então ele era, provavelmente, judeu. Por parte de mãe eu tenho judeu para depois ter o árabe... Ele, quando minha avó casou, muito nova, foi morar na casa desse meu avô e da minha avó, que logo faleceram. E a minha avó começou a ter um sonho, em que vinha, assim, um sininho tocando e uma voz dizia para ela no sonho: "Cave. Cave. Na terceira laranjeira, da segunda fileira". E ela acordava meu avô, “Você não quer cavar?” E ela teve esse sonho por muito, muito tempo. E meu avô dizia assim: "É isso que dá casar com criança, fica tendo esses sonhos. Tenho mais o que fazer". Eles acabaram se mudando, e a casa estava muito judiada. Ele, até por uma questão de solidariedade, alugou para um cara muito pobre, que não tinha nem como pagar o aluguel. E de repente, o homem começou a reformar a casa. Daí quis comprar a casa. O cara estava quase falido, comprou outro negócio. Veio para São Paulo, pra "Sum Paulo", como eles falavam, comprou roupa para a família inteira, veio tratar os dentes. Enricou, como eles costumam dizer. Enricou, o cara. E comprou a casa. Então a minha avó a vida inteira ficou aperreando o meu avô dizendo "Por que é que eu não peguei a pá?" Porque eles achavam que o cara que foi morar lá teve o mesmo sonho, cavou debaixo da laranjeira e encontrou algum tesouro. Aí o que é que aconteceu na cidade? Depois que o cara ficou rico e que era um negócio, assim, milagroso, os caras começaram a derrubar as laranjeiras velhas lá, cavaram o quintal. Porque o cara, na realidade, ele foi limpar o quintal que estava muito cheio de planta. A mulher tinha medo de bicho, de aranha, escorpião. Então começou o arrasta pé lá, de todo mundo. E quem gostava é quem vendia. O cara começou... As casas velhas começaram a se valorizar. Teve um boom de casa velha lá, porque achavam que tinha tesouro enterrado. E provavelmente tinha. Até hoje pode ter, porque se a pessoa morria sem contar onde escondeu, cheio de árvores no quintal... Sem falar as cortinas e os colchões.

 

P/1 – Conta um pouquinho, essa hora do rádio...

R – Na minha casa eu ouvia rádio, as novelas da Rádio São Paulo. Desde nove horas da manhã eu ficava com a empregada na cozinha, ouvindo a novela. E o que é interessante – e também conto no meu livro –: tinha uma atriz, que na rádio acho que Difusora, cinco horas da tarde, ela se assinava como Madame du Jour, ela respondia cartas. E eu tinha uma empregada que tinha um caso lá... Era anos cinquenta, então aquele negócio todo de sedutor de donzela, casar virgem, aquela coisa que era mais costumeira do que hoje em dia. E muito preconceito também. Então o que aconteceu? Ela estava com um caso meio enrolado, achando que o cara estava querendo seduzi-la, e ela não sabia escrever. Então ela pediu para mim. Eu mandei um monte de carta para a Madame du Jour, como se fosse a minha empregada. "Madame du Jour, eu estou preocupada porque o meu namorado... Eu estou achando que ele quer me seduzir, depois não casa comigo" Mandei um monte de cartas. E a gente todo dia, às cinco horas da tarde, ligava o rádio. Ela tinha um monte de gente que escrevia. Aí um dia ela: "Querida leitora Fulana". Era ela, e ela começou a pular na cozinha, eu com a empregada, eu tinha uns dez anos. Por isso que eu falei para você que eu fui muito terrível. Aí ela falou assim: "Que carta bem escrita!" Eu "Que beleza". "Parabéns por essa carta bem escrita. Olha, você está muito certa. Ele não vale nada. Termine com esse namoro porque ele quer te seduzir e não vai casar com você". Quando acabou, nós dançamos abraçadas lá. Eu pela carta bem escrita e ela por saber que o namorado não prestava. Então tinha essas coisas. E tinha, nas novelas na Rádio São Paulo, tinha uns galãs maravilhosos. Tinha um galã que tinha uma voz que parecia um anjo do céu. E não tinha revista de fofoca, então eu escrevia para os galãs pedindo fotografia. Tinha uns que eram bem arranjadinhos. Só que o que era o meu querido mesmo, que eu era uma fã alucinada dele, quando veio a foto, eu fiquei desapontadíssima, porque foi o contrário do conto de fadas. O meu príncipe virou sapo, porque ele era feio demais. Ele tinha o rosto todo marcado. Muito magrinho e todo marcado. Tinha uma voz, assim, que parecia um diamante bruto. E continuou, continuou sendo meu ídolo, porque ele tinha uma voz maravilhosa. E a rádio era tudo voz, então você não faz idéia do dono da voz.  E era muito mágica a coisa, porque você não sabia como era o personagem. Quando começou a televisão, a gente era televizinho. Até a minha mãe ter dinheiro pra comprar televisão a gente era televizinho. Quem tinha televisão recebia os vizinhos. Naquele tempo os vizinhos eram bem amigos e hoje, muitos continuam, mas hoje tem vizinho que nem se conhecem, principalmente em apartamento. Aqui era tudo casa, então a gente ia lá, estourava pipoca... Então a gente televizinho e tudo mais. Quando a minha mãe comprou a primeira televisão, os vizinhos que vieram na nossa casa. E o meu avô tinha problema de ouvido, era surdo. Era deficiente auditivo, como fala hoje o politicamente correto, que dá na mesma, mas é politicamente correto. A minha mãe que comprou o primeiro aparelho de surdez, primeiro aparelho de fazer barba elétrico, era tudo novidade. Só que eu falava muito alto, porque ele era surdo, tinha que falar pro avô escutar. Só que quando ele ligava o aparelho, ele muito metido, dizia para mim: "Escuta, quando você falar comigo me avise que eu desligo o aparelho, que você me dá estática". Porque eu falava... Acostumei a falar alto. E eu também tenho um pouco de problema de ouvido.

 

P/1 – Mas como é que era essa história do rádio que você vira locutora, quando...

R – A minha família era matriarcal. As minhas bisavós ou avó eram todas abelhas rainhas, era um matriarcado. Todas trabalhavam, desde a minha bisavó trabalhava, ela tinha joalheria no interior. Ela vendia jóia, ela tinha Snooker. Menina não podia jogar Snooker, bilhar... Snooker e bilhar são diferentes. Então eu, de noite, arrumava a mesa do bilhar, convidava a minha prima e jogava. Eu era uma jogadora... Eu venceria qualquer um. Só que não podia, uma donzela não podia jogar de dia. E na sala dela, que era enorme, funcionava a primeira rádio difusora de Tatuí, e tinha os autofalantes na praça. Tinha aqueles discos de vinil, que agora estão voltando à moda. Os jovens estão colecionando. Tá voltando a febre do vinil. Moda de viola, aquela coisa com a vitrolinha ali, com mãozinha de você... Para colocar e tirar. O microfone, as fichinhas. "Anuncie na loja do Toninho. Pano bom e baratinho. Compre pão na padaria do Zezé". Porque lá no interior todo mundo tem apelido, então se você chegasse e perguntasse "O senhor Fulano de tal", ninguém sabia. Se falasse "O Tião da padaria", todo mundo sabe quem é. “O filho da boneca”, qualquer coisa nesse sentido. Então às vezes o locutor, que chamava de speaker, faltava. E eu estava de férias. A minha bisavó não tinha dúvida, ela chegava e dizia: "Ó, menina, se vire. Dê conta do recado". Eu adorava aquilo. Eu sentava na coisa, ligava tudo e punha, dedicava: “o Toninho, não sei o quê dedica essa música para a menina de vestido rosa que faz o footing lá na praça. Um anda para um lado, outro anda para o outro, chamava footing. Então eu ficava lá, e eu rezava... Rezava, não, eu torcia pro cara não aparecer, para eu ser a locutora. Então, eu adorava aquilo. Eu tive umas experiências, assim, fascinantes. E a casa era tão grande, tão grande. Tinha um pomar enorme. A gente comia fruta do pé, frutas de todos os tipos. Inclusive eu lembro que a primeira cena fascinante da minha infância foi eu sentada do lado do galinheiro, o pintinho bicando e saindo do ovo. O pintinho saindo, eu ouvi aquele barulhinho e fiquei olhando. De repente eu vi o pintinho sair do ovo. Aquilo foi mágico. E eu fui parar na diretoria, no segundo ano, no colégio das freiras, porque eu tinha uma professora muito caretona. Eu levantei a mão e perguntei: "Professora, por onde sai o ovo da galinha?" Nem perguntei por onde saía o bebê, perguntei por onde saía o ovo da galinha. E fui parar, praticamente, na diretoria, porque isso não era pergunta que uma menina educada fizesse. Por sinal, quando eu andava com o meu pai, eu olhava para trás e olhava dentro de boteco, virava, virava. E ele me puxava pela mão e dizia assim: "Menina, olhe pra frente. Meninas bem educadas só olham para a frente". E sabe o que eu respondia para ele? "Mas pai, é pro lado e para trás que as coisas acontecem". Então eu já era realmente um micróbio de escritor, porque o escritor é um grande fofoqueiro. É um fofoqueiro. Como eu sou formada em jornalismo, eu tenho alma de repórter. Eu recolho histórias fantásticas desse Brasil profundo, que eu chamo. Porque às vezes eu conto em livro e as pessoas pensam "mas você inventou isso?" Eu falei: "Não, eu escutei". Então realmente, você conversando com as pessoas... Mas isso aí é, com as devidas proporções, o Balzac, ele saía nas ruas de Paris com um caderninho e encostando nas pessoas para ouvir o que as pessoas falavam. 

P/1 – Você viveu entre interior e capital?

R – Eu morava em São Paulo, morava na Liberdade. Mas quando chegava férias − tinha aqueles três meses de férias no final do ano e um mês de férias no meio do ano − a minha avó nos levava... Minha avó nessa altura não trabalhava, porque ela também tinha tido loja no interior, então ela pegava as netas, tomava o trem na Sorocabana, a Maria Fumaça, e nós íamos lá para a casa da mãe dela. Da mãe dela e do padrasto dela. Inclusive tem uma história fantástica com o padrasto dela também, que eu conto no livro. A minha bisavó veio casada com italiano, depois ela casou-se com um rapaz polonês. E ela teve um casal de filhos do primeiro marido italiano e mais três filhos do segundo casamento, teve cinco filhos. Mas a única que deu descendentes foi a minha avó, a filha mais velha dela. Porque ou morreram ou casou tarde, a única que deu descendentes foi a minha avó. Curioso foi a filha mulher que deu descendência. E ele não teve netos, porque os filhos dele não tiveram filhos. Ele tem uma história muito interessante que remete à história do Brasil. Quando ele chegou − ele chegou com 16 anos −, foi ser grumete num navio que fazia a costa brasileira. E um dia o comandante reuniu toda a tripulação, desesperado, e falou: "Olha, eu estou com visitas ilustríssimas a bordo, e o cozinheiro caiu doente. Quem é que, pelo amor de Deus, vai fazer o almoço?" E provavelmente esse comandante falava algum idioma estrangeiro, porque o meu bisavô torto, que eu chamava “vô gordo”, que eu chamava porque ele era imenso, ele parecia o papa João Paulo II: grandão, com os bigodão, loiro, de olho azul. Um homenzarrão. Ele provavelmente falava alemão, falava polonês ou já estava no Brasil, já alguma coisa, falava. "Eu costumo ajudar o cozinheiro. Eu vou fazer o almoço". E fez. Fez tutu de feijão, couve à mineira. Um polonês! Com 16 anos. Quando acabou o almoço, o comandante chegou e falou: "Olha, a visita ilustre gostou tanto, o casal ilustre de visitantes gostou tanto da sua comida que eles querem conhecer você". Aí ele contou que chegou lá, era um velhinho de barbas brancas, de casaca. Uma senhora também velhinha, idosa. Diz que ele deu duzentos mil réis pra ele. Isso em mil oitocentos e oitenta e pouco. Ele demorou três meses pra gastar, porque era um dinheiro tão grande que ele nunca tinha visto na vida, e ele estava precisando de roupa. Ele era um cozinheiro maravilhoso. Ele era alfaiate, mas cozinhava que era uma beleza. Então, quando a gente ia comer lá a comida dele, ele dizia: "Olha, meninas. Vocês não se atrevam a reclamar da minha comida, porque o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina comeram e adoraram". Então ele cozinhou para o imperador sem saber que estava cozinhando para o imperador.

P/1 – Que ótimo. E como é que era essa viagem de trem?

R – Era muito divertida. Era a Maria Fumaça, precisava fechar a janela pra não ir aquela brasa no olho. E aí ia parando, ia parando; São Roque, Santo Antônio, Barueri... Acho que Barueri. Ia parando até chegar a Tatuí. E era aí que o pessoal vendia pamonha, vendia amendoim, vendia cocada, a gente ia comendo. A gente tomava o trem aqui, acho que oito e meia, oito horas, chegava onze e meia em Tatuí. E quando a gente chegava tinha o único táxi da cidade esperando a gente. Quando chegava na casa que tinha a praça, tinha a Rua Onze de Agosto, a casa era bem na esquina, era um casarão, que depois virou até rodoviária, de tão grande. E estavam os dois velhinhos já sentadinhos na cadeira de vime esperando a gente. Sentadinhos, esperando a gente. Era a maior farra quando a gente chegava. E tem uma passagem muito boa também lá: Tinha uma vizinha da minha bisavó que o genro dela era repórter do Cruzeiro, trabalhava pra o David Nasser, aquela coisa e tal, e ele vivia lá pro Xingu. Vinha com o Orlando Villas-Bôas, os irmãos Villas-Bôas. E ele era um homem, assim, um homenzarrão. Ele vivia vestido com roupas que parecia um Indiana Jones daquela época, com bermudão cáqui. Ele usava um chapelão tipo Indiana Jones mesmo, e tinha o rosto meio marcado, não sei se ele tinha tido acne... Ele era um cara que chamava atenção. Um dia ele chegou lá com três índios do Xingu, pelados. Ele botou um calção no índio, porque o pessoal estava acostumado com índios aculturados ali. Ele chegou com três índios de cocar, todo pintado de urucum e com aquelas coisas todas, com as penas. Ele botou um short nos índios. E a sogra, coitada, teve que hospedar os índios. Ele saía pela cidade, indo lá pela praça, e a molecada − eu junto − atrás pra ver os índios. Então a gente não sabia se eram os índios mais espantados com os civilizados ou a gente espantado com eles. Então tinha a conversa lá dentro de casa, minha bisavó falava para o bisavô, para o “bisavô torto”, que a gente falava, "Como é que esses índios vão tomar banho?" Porque índio toma banho de rio. Então a empregada, velha − tinha uma empregada bem velha −, ela dizia: "Ah, Dona Paulina, tem problema não. Qualquer tina d'água dá pra tomar um banho". "Mas como é que ele vai comer? Índio gosta de peixe. Aqui não tem peixe" "Ah, índio gosta de mandioca. Tem mandioca no quintal. Traz do sítio, mandioca". Então foi muito divertido. Aí, quando foi embora, todo mundo achou que o cara era um doido de viajar com os índios, e eu achei ele magnífico, achei ele um personagem de ficção, porque, realmente, ele andando com os índios lá pela cidade foi muito diferente, muito interessante, porque vieram direto da selva.

P/1 – Conta, você conseguiria descrever um pouquinho, assim, a Liberdade nesse período? O bairro, aquela... O centro de São Paulo.

R – O bairro era uma coisa muito interessante, porque tinha a colônia japonesa e a colônia italiana. A japonesa com peixaria, com loja de discos, com aquelas musiquinhas, com aquelas vozinhas bem ardidas, tocando aqueles instrumentos diferenciados. Lojas de boneca japonesa, coisa e tal. Tinha uma gráfica muito grande, parece que por destino, do lado tinha a gráfica do Tribunal de Contas, ali, uma gráfica enorme na esquina. Eu nasci na rua Conde de Sarzedas, no alto de uma ladeira. Na São Paulo velha, São Paulo antiga, histórica. E tinha os italianos. Então tinha, em frente da minha casa, um casal de italiano, baixinho, que eles faziam macarrão caseiro. Eu ia com o meu pai comprar o macarrão caseiro. E eu achava gozado que eles punham para secar o macarrão no varal de roupa. Então um dia, eu, muito atrevida, a própria Emília, cheguei pro italiano, lá pro velhinho, falei: "Mas você não estende roupa aí nesse varal onde você pendura o macarrão?" Ele falou: "O que, menina? O que bambina? No, no". Ele ficou bravo. Eles estendiam, e compravam macarrão fresco. Agora, o que era muito interessante é que a gente convivia muito bem. Eu tinha muitas colegas nisseis no colégio de freiras. Só aceitava mulher. Naquela época, duas mil e quinhentas mulheres. Mas as colônias não se casavam entre si, mais até por desinteresse da colônia japonesa. Porque a colônia japonesa não permitia, o filho mais velho, principalmente, tinha que casar com japonesa para cuidar dos pais. Os italianos também não faziam muita questão, mas o japonês... E hoje em dia, o que eu achei muito curioso é que o meu filho, cientista, estudou Medicina na USP [Universidade de São Paulo], ele conheceu a minha nora, colega dele na USP, e ela é neta de japonês. Casou. Eu que morei na Liberdade, os meus netos são mestiços de japonês. Mas, ela já é sansei, porque é assim: o que vem pro Brasil é o issei. Depois é o nissei, sansei e yonsei. Então a quarta geração, e tem já a quinta. Meus netos são yonsei, quarta geração. A minha nora é sansei, mestiça de português. E com uma bisavó índia, tupi. Então meus netos têm cinco ou seis etnias. Eles têm português, do pai dela e do meu bisavô; italiano, espanhol, grego, japonês e tupi. E são lindos, porque são exóticos. E hoje em dia, a coisa mais comum de se ver... Mas foi difícil a mãe dela casar com o pai dela, a família dela não queria porque ele não era descendente de japonês. E hoje em dia já tem outro sobrinho meu que casou-se também com uma moça nissei. É muito engraçado, porque ele é loiro de olho azul, meu sobrinho. Meu filho também. E os filhos deles saíram japonesinho de tudo, tudo. Cabelinho espetado, pretinho. Então isso aí é o Brasil. Eu acho isso maravilhoso, é a nossa mestiçagem. Por isso é que nós somos tão bonitos, somos bonitos por isso. É a nossa vitamina batida no liquidificador de todas as etnias.

P/1 – E qual era o nome da sua irmã e como que era o relacionamento com ela?

R – A minha irmã é Vera Lúcia. Ela agora continua assinando Rocha Laporta, porque é divorciada. E ela é outro ramo da arte, é professora de arte. Ela é formada pela FAAP [Fundação Armando Alvares Penteado], continua sendo professora. Ela leciona numa escola, acho que da USP, aquela escola experimental da USP, ela é muito hábil. Eu não sei desenhar nada, nem uma gota d'água, e ela é uma professora de desenho muito hábil. Ela veio eu já tinha cinco anos, então eu digo que eu nasci princesa, porque eu fui a primeira filha, a primeira sobrinha, a primeira neta e a primeira bisneta. Reinei absolutamente, soberana, cinco anos. Aí quando a barriga da minha mãe começou a crescer eu achei que já vinha alguma coisa ali para atrapalhar o meu poder. E o pior de tudo: quando eu tinha cinco anos eu acordei no berço, meu pai telefonando desesperado para o táxi. A minha mãe teve placenta prévia. Então você imagina, uma criança de cinco anos acorda no berço e vê a mãe num mar de sangue na cama. Então foi o primeiro trauma, ela me deu o meu primeiro trauma. Mas foi um relacionamento... De vez em quando a gente brigava e tudo mais. Por causa de ciúme. E sabe o que eu fiz pra ganhar a atenção da minha mãe? Eu não tive dúvidas. Eu, quando a minha irmã nasceu, eu passei, acho que anos, fazendo xixi na cama. Muito simples. Para a minha mãe acordar toda madrugada. E outro dia eu, lendo agora uma tese de uma psicóloga aí, diz que é mesmo, realmente, por ciúme. Mas o relacionamento é bom. 

P/1 – E o primeiro contato com os livros? Conta quais foram os primeiros livros que você leu.

 

R – Primeiro eu fui alfabetizada por uma professora que tinha acabado de se formar. Ela fez uma classe na casa dela e reuniu toda a molecada da rua. Então tinha menininha negra, menininha japonesa, descendentes. Menininha de todo tipo aquela turminha. Ainda tinha direito a suco e o bolo da mãe dela, que era amiga da minha avó. Então em três meses eu fui alfabetizada por essa professora. É que ela queria treinar, então eu fui a cobaia dela. E era boa professora, porque as freiras - eu fui para o colégio de freiras, Colégio São José, lá da Rua da Glória, que agora infelizmente fechou e virou faculdade de Direito - as freiras exigiam que você entrasse alfabetizado. Então eu já entrei alfabetizada. Primeiro livro que eu ganhei foi Reinações de Narizinho. E depois ganhei a coleção inteira, que eu tenho até hoje. Tudo capinha dura, mas está vivo. Daí eu comecei a ler que nem uma doida, porque tinha uma estante enorme lá no escritório do meu pai, em casa. E eles tinham coleções. O meu avô foi colega de grupo escolar em Tatuí do Paulo Setúbal, do escritor, do historiador, que é o pai desse que faleceu agora, que é o Olavo Setúbal, o dono do banco Itaú. Então, eles eram colegas de escola. Então, tinha a coleção completa do Paulo Setúbal. Daí veio o meu amor pela história do Brasil, porque ele era um grande historiador e um grande romancista. E coisas maravilhosas os livros dele, eu devorava. Tinha a coleção completa de Stefan Zweig, de Machado de Assis, de José de Alencar. E por aí vai. De escritores estrangeiros traduzidos. Eu lia feito louca, inclusive os proibidos, que eram os melhores. E daí comecei já a escrever alguma coisa. Entrei no colégio, dos sete aos dezoito eu fiquei no colégio. Aí comecei a procurar uma faculdade que me desse elementos para ser escritora, só que no Brasil não existia, então eu fui fazer jornalismo. Fiz a Casper Líbero, que era uma faculdade nova, eu me formei 59 pra 60, 1960. E éramos quatro ou cinco alunas no meio de todos os alunos homens. Foi muito interessante, porque eu não tinha irmão, e meu pai morreu cedo, e eu só tinha de homem na casa o meu avô, que era idoso. Eu estudei num colégio com 2.500 meninas. E aí caí numa faculdade que era zero, zero, zero por cento. Porque eram cinco alunas na classe para, acho, que uns trinta colegas. E eu achei aquilo maravilhoso, porque eu não tinha irmão. Tanto que até hoje meus melhores amigos são homens. Acho que é porque eu sentia falta do elemento masculino na minha vida, de trocar ideias e tudo mais. Eu tenho grandes amigos. Tenho amigas, mas grandes amigos homens também. É um negócio que te faz falta. E hoje as escolas mistas, eu acho maravilhoso, porque você convive com o outro sexo. E eu fiz a faculdade. Me formei. Casei. Não entrei na faculdade para arrumar marido, porque antigamente diziam que entrava para arrumar marido. Mas eu entrei praticamente noiva. E eu me formei. Minha mãe me deu a primeira Olivetti portátil, porque eu quebrei várias. Eu quebrava, ela repunha. E agora faz alguns anos que eu já escrevo em computador. Aí comecei a escrever. Só que eu fui que nem o poema de Camões, demorei 14 anos e não ganhei a Lia. Eu demorei 14 anos pra publicar a primeira história. Porque eu tentava... Olha que curioso, eu tentava publicar contos para adultos, romance para adultos, e eu acho que não era o meu caminho. Eu me formei em 59 para 60. Quando foi em 70 abriu uma editora nova aqui em São Paulo, chama-se Editora do Escritor, eu fiz contato com eles e tudo mais. Quando foi em 72 eles abriram uma coleção, um livro, uma antologia, primeira antologia infantil do Brasil, chamava-se “Histórias Bichos”. E a organizadora, Eiko Suzuki, ela, que é uma escritora, arquiteta, de família japonesa, o pai dela foi professor lá da Mackenzie e tudo mais. A família dela introduziu o teatro Noh no Brasil, uma família muito culta. Ela falou: "Você não quer tentar escrever uma história pra criança?" "Ah, vou tentar". Sentei e escrevi uma história, “Floresta em Chamas”. E foi aprovado. E me encantei porque desde criança eu contava muita história pra criança, então eu me encantei e percebi que eu tinha jeito pra escrever pra criança. E aí comecei a escrever pra criança. Comecei a publicar devagarinho. Em 74 publiquei meu primeiro livro “Coruja Lelé”. Em 77 a Pioneira, do Enio Guazzelli, abriu a primeira coleção, aquela grande coleção, quero dizer. Já existia uma coleção, acho que da Brasilense, “Jovens do Mundo Todo”, que também foi da década de 70, mas eu não tinha entrado. Mas, abriu a Pinju em 77, e eu entrei com um livro infantil. E começaram a aparecer, deu um boom tremendo de literatura infantil e juvenil. Acabei entrando para a Brasiliense, para “Jovens do Mundo Todo”, em 80. A Moderna abriu coleção, me chamou, fui a primeira autora que respondeu. O primeiro livro infantil da Moderna foi o meu.

P/1 – Qual era o livro?

R – “Um Dono Para Buscapé”, que está vivo até hoje, tem mais de 60 edições. Ele já vendeu mais de 300 mil livros. Eu calculo que eu tenha, talvez, uns sete milhões de livros vendidos. Já vendi muito livro. E foram abrindo coleções, da FTD, Saraiva, todo mundo me chamando, e eu muito louca. Eu acho que nasci pra escrever, nunca parei de escrever, escrevo diariamente. Eu, essa semana, fiz um levantamento que eu queria fazer, "Meu Deus, quantos livros eu já escrevi?" Porque eu já participei de umas 12 antologias, mais ou menos. Eu cheguei ao total de 125. E desses 125, mais ou menos 65 estão vivos. Porque alguns foram destratados, outros eu não quis reeditar, alguns eu reeditei, outros ficaram datados. Então eu escrevi muito. Abri a coleção, onde eles me chamavam eu mandava. E eu costumo dizer que mesa de escritor é como um forno de padaria, sempre tem pão quente. Então eu estou sempre escrevendo. O cara fala: "Tem livro?". Agora mesmo a Positivo, lá de Curitiba, abriu uma coleção de livro de enigmas, de mistério, e me convidaram, eu escrevi também. Então, ampliei. Eu já trabalhei com 40 editoras. De Rio, São Paulo, Minas, Paraná, interior do Rio, interior de São Paulo. Agora estou praticamente trabalhando com editoras em São Paulo. Eu trabalho com a Moderna, com a Saraiva, que comprou a Atual. Porque é assim, às vezes eu estou numa editora, ela outra compra. É como se um reino comprasse outro. Então eu vou junto com as pulgas, com o mobiliário. Eu tenho livro agora pela Moderna, pela Saraiva, que comprou a Atual, comprou a Formato, comprou a Siciliano agora também. Eu tenho livro pela Editora do Brasil, pela FTD, que tinha acordo com a Quinteto, também juntou tudo, pela Scipione, pela Escala. Agora a Positivo, do Paraná. E assim vai. Mas a maior parte está na Moderna, FTD e Saraiva, a maior parte dos livros.

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho, só pra tentar entender um pouco a sua trajetória anterior, contar um pouquinho dessa época de faculdade. Você trabalhava? Como é que era?

R – Eu botei na minha cabeça que eu ia ser escritora, eu queria ser escritora profissional. Como o meu pai tinha uma escola, então praticamente a gente dirigia essa escola. Eu casei... Eu tinha, digamos, muita sorte, porque eu tive uma infraestrutura que me permitiu só ficar escrevendo. Porque geralmente o escritor, no Brasil, ou no mundo todo, ele é professor, ele é bancário, ele é médico, ele é advogado. Então ele escreve nas horas vagas. E eu botei na minha cabeça que eu queria ser uma escritora profissional. Até o Enio Guazzelli brincava "Você é o único escritor profissional que eu conheço". Porque eu tinha uma infraestrutura familiar, que eu tinha um rendimento que eu podia ficar escrevendo. E até teve uma época que eu tentei ser redatora. Eu fui procurar emprego em firma de publicidade, essa coisa e tal, como redatora. Você sabe que uma vez eu fui numa firma aqui em São Paulo e era um senhor, ele falou: "Não contrato mulher. Não contrato mulher". Mas estou falando de 30 anos atrás. "Não contrato mulher". E outra coisa, eu ia procurar emprego, "Você tem experiência?" Eu dizia: "Mas como? Se é o meu primeiro emprego, como é que vou ter experiência?" "Ah, mas a gente não contrata também quem não teve o primeiro emprego". Então ficava nesse paradoxo. Eu não tinha o primeiro emprego, não me contratavam ou porque eu era mulher... Eu falei: "Ó, quer saber de uma coisa? Acho que o meu destino não é ser funcionária de ninguém”. E como eu sempre fui muito rebelde, muito questionadora, eu falei: "Acho que eu não vou durar muito, não", porque eu não sou muito de ficar fechada dentro do lugar. A minha mãe foi funcionária pública a vida toda, inclusive eu tenho um livro que eu conto isso. Então, aquilo de eu chegar, ver aquelas pessoas sentadas ali anos a fio, 20, 30 anos sentada no mesmo lugar, trabalhando com a mesma coisa, aquilo me dava uma agonia... Não dá, não era pra mim, não era pra mim.

Então, eu sempre tive um espírito muito liberto e tudo o mais. Então eu falei: "Não. Se o meu destino é ser escritora, eu vou tentar até conseguir". E até que eu consegui. Agora, foi muito bom, porque eu acho que o artista, principalmente o artista criado − que eu falo do artista criador − ele tem que ter certa experiência de vida para fazer alguma coisa que presta. Porque no começo você é muito maniqueísta, você ainda tem aquele maniqueísmo. Você separa muito as coisas. E como dizia o Jorge Amado, você precisa ter compaixão pelos seus personagens. Você vê que até as prostitutas do Jorge Amado são encantadoras. Então você precisa ter aquela compaixão, e essa compaixão você adquire com a sua vivência. Você precisa sofrer um pouco, eu acho, nesse sentido de ter um amadurecimento, uma compaixão pelos seus personagens, você não julgar os seus personagens. Que eu sempre digo que o escritor, ele corre atrás da história. A história te escolhe. Eu costumo dizer que o escritor fica grávido da história. Quantas vezes eu sinto que a história está crescendo dentro de mim, que eu estou ingurgitada daquela história. Eu estou grávida daquela história. Quando a história quer nascer, ela me pega pela mão, aonde eu estiver eu tenho que abrir o computador e tenho que escrever. Eu tenho que parir a história. E outra coisa também: o personagem manda em você. Eu já quis matar personagem que quis viver. Eu já quis que personagem fosse embora, ele quis ficar no lugar que ele estava. Eu já ressuscitei personagem, porque eu matei e ele não se conformou, fiz aparecer, tipo assim, por engano, que reconheceram por engano. Então a história te escolhe. Você é como se fosse um instrumento daquela história. E é um processo. O processo criativo é uma coisa muito interessante, porque às vezes você sonha com o seu personagem. Eu tenho muita inspiração debaixo de água corrente, chuveiro. Porque a água, em psicanálise, é a vida, eu tenho muita inspiração com água, um insight. É uma coisa muito interessante, a criatividade. Uma vez eu tinha um livro que era um menino, chama “Melhores Dias Virão”, está publicado pela Saraiva. É um menino que é malfeitor, ele é marginal, e ele escapa de um grupo de extermínio e compra uma passagem, ele vai pra onde o ônibus levar, nem sabe pra onde. Durante a viagem, à noite, ele começa a pensar que se ele tivesse sido um menino de uma família estruturada, um pai que desse orientação pra ele, ele não tinha caído na marginalidade. E então chega uma hora que ele olha pro céu e peita Deus. Ele diz pra Ele: "Olha, se você existe, e a minha mãe diz que você existe, me responda: ‘O que eu devo fazer?’ Esta aí a sua oportunidade de você provar que existe". E eu, deitada na cama, tirando uma sonequinha da tarde, dizia: "Meu Deus do Céu, como é que Deus se manifesta? Como é que pode ser a epifania de um Deus?” Fiquei lá quietinha, assim, na cama. De repente eu vi, assim, na minha imaginação, o menino, rapazinho no ônibus, andando. Vi a alvorada, vi o sol nascendo. Falei: "Tá aí". Pulei da cama, abri o computador. Então o sol começa a nascer, como uma epifania, uma epifania de um Deus. E um velho − que ali tem que ser um velho mesmo, não pode ser idoso porque é um arquétipo − um velho que tá sentado do lado dele fala: "Para onde você está indo, meu filho?" Esse homem vai dar um emprego para ele. E no final do livro ele fala: "Olha, eu preciso te contar..." − porque o livro todo é uma entrevista para um jornalista, contando a vida dele −, ele fala: "Olha, eu preciso contar para o senhor que o senhor foi tão bom pra mim". O Homem é um luthier, ele faz instrumentos de corda, e ele se transforma num aprendiz de luthier. Então ele fala: "Preciso contar para você". Ele falou: "Não precisa me contar. Eu logo imaginei". Então, o sol nasce como uma epifania do Deus. São coisas, assim, que saem num insight. E achei um insight tão bonito. E tem um livro também, que se chama “O Corpo Morto de Deus”, que eu tirei de um poema do Fernando Pessoa, que é assim, "O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus é um mito brilhante e mudo – o corpo morto de Deus, vivo e desnudo". Então pus “O Corpo Morto de Deus”. Fiz um livro em que um serial killer se acha um deus grego. Então eu peguei − e dei o crédito − uma tese de uma psicanalista americana, que ela pegou sete deuses gregos e comparou com sete psiques de homens. Então o tipo psicológico de um determinado homem correspondente a cada deus. Daí eu peguei essa tese e criei as minhas profissões. Por exemplo, o Hades, o nome grego, que é o deus das profundezas, eu fiz um psiquiatra. Por exemplo, o deus do mar, do oceano, das ondas, aquela coisa toda, que é o irmão do Zeus... Agora me foge o nome dele; eu falei: "Puxa, aquele mar, aquelas ondas, revoltas", eu escolhi o maestro. E por aí eu fui. E esse cara que acha que é um deus, ele resolve matar outros deuses. Ele cisma com um determinado cara, que ele acha que é Apolo, que é o Hades, o que for o deus grego, e ele vai matar. Cada vez que ele mata, escreve e manda pra uma editora. Então o livro tem duas partes. Tem a vida da editora, da moça que é editora da editora, que trabalha no editorial. E o CD que ele vai recebendo, com os crimes. É assim, primeiro ele mata e depois escreve. Depois ele antecipa. Ele começa mandar primeiro pra ela, depois ele mata. Então chama “O Corpo Morto de Deus”. Eu trabalhei com a mitologia grega, com uma coisa muito interessante também... Eu já tinha trabalhado, e dentro desse livro eu gosto muito do Dionísio, do deus grego, que é aquele deus nascido duas vezes. O Zeus era muito promíscuo, ele era casado com a Hera, mas ele era muito promíscuo. Ele tinha muito filho com as mulheres mortais, como Hércules e tudo mais, e ele se apaixona por uma princesa espartana e promete para ela, antes de conquistá-la, que ele nunca vai negar um pedido dela. E a Hera, que é a mulher dele, chega para a princesa − agora também me fugiu, porque é tanto nome grego... − ela chega e fala assim: "Ele não é deus nada. Fala pra ele mostrar, para ele fazer uma epifania aí, para ele mostrar que é deus. Ele não é deus nada, é um sem vergonha. É o meu marido, que ele vive transando por aí", não sei o quê. E ela, boboca: "Olha, você diz que é deus. Estou esperando um filho seu, você vai provar que você é deus. Não quero mais nada com você". Ele fala: "Eu não posso, meu amor. Querida, eu não posso provar que eu sou deus. Se eu provar que eu sou deus, você torra, porque eu vou lhe mostrar em todo o meu esplendor". Ela falou: "Não, eu quero" − aquela coisa que a mulher faz para o homem dela, ou vice versa. − Então, ele pega e fala: "Tá bom. Você quer, eu me mostro". E ele se mostra em todo o seu esplendor, faz a epifania. Ela torra. Ele fica com pena, tira o filho da barriga dela e põe na coxa dele. Então, Dionísio, que é o Baco para os romanos, que é o deus nascido duas vezes. Fiz ele sendo um ator, porque como ele era das bacanais e das representações, no meu livro ele se transforma num ator. Como ele nasceu da coxa de Zeus, ele se tornou imortal, porque os filhos do Zeus com as mortais não eram imortais. Ele desce até o inferno, lá do Hades, e resgata a mãe dele, transforma ela em imortal, e leva pro Olimpo. Então ela pelo menos ganhou isso da ressurreição e se transformou em imortal. É muito lindo, essa mitologia grega é uma coisa muito bonita. E esse livro ficou muito bonito, porque é um livro policial e ao mesmo tempo mistura o cara maluco lá. E na última linha, da última página, você vai descobrir quem ele é, porque ele se transforma, ele se traveste. Ele mata às vezes como homem e às vezes como mulher; ele se traveste para mata, ninguém sabe o sexo do serial killer ou da serial killer.

P/1 – Conta um pouquinho... Você estava falando um pouquinho pra gente do seu processo...

R – Do meu trabalho, do processo.

P/1 – Conta um pouquinho desse processo quando você não era ainda escritora profissional, quando você senta, que você passa 14 anos escrevendo. Conta um pouquinho como é se interessar pela literatura infanto-juvenil. Como era esse ambiente da época, que estava surgindo, toda essa... Revista Recreio...

R – Então, eu caí na literatura infantil por acaso. Eu comecei a perceber que o Brasil era um país muito complexo, com esse Brasil profundo, que a gente chama, com tantos problemas. Comecei a dar vazão à minha psique jornalística, e comecei a fazer pesquisa de campo, então cada livro meu... Eu tenho um livro sobre AIDS, tenho sobre drogas, tenho um livro sobre alcoolismo, livro sobre deficiência mental... Tudo como ficção. Eu faço muita pesquisa e entrevisto. Eu comecei a entrevistar profissionais. Eu comecei a pedir entrevista em consultório mesmo. Eu tinha muito médico na família, meu filho também é médico, minha nora. E meu marido é advogado, foi juiz de direito. Então lei e medicina eu tinha em casa, mas não outras coisas. Comecei a fazer pesquisa. Os meus livros você pode pegar que a pesquisa ali está perfeita.

Eu tenho um livro sobre uma menina que eu conheci, que foi adotada por uma professora, que a mãe teve rubéola, a mãe da menina era funcionária da professora, faxineira da professora, ela teve rubéola na gravidez e a menina nasceu surda e ficou muda. A pessoa não nasce muda, a pessoa nasce surda. E a professora pediu para a mãe deixar a menina com ela, pediu a guarda da menina e ela escreveu a menina em escola de deficientes. Quando eu conheci a mãe e a menina, numa escola − a mãe adotiva −, a menina já falava sete palavras. Eu fui fazer pesquisa porque eu tinha uma prima que era fonoaudióloga. E o livro ficou tão perfeito, a história dessa menina, que um dia telefonou um leitor querendo se consultar comigo, achando que eu era otorrino. Naquela época que eu escrevi o livro, se dava muita ênfase à pessoa surda aprender a falar, o deficiente auditivo. Hoje em dia se ensina mais a libras, que é a linguagem de sinal brasileira, a libras é muito boa. Tem a linguagem universal também, a inglesa. Tem a libras, que foi criada aqui, por um brasileiro. Então hoje se dá mais ênfase na parte de comunicação, leitura labial, nem tanto de falar. Pode falar, claro, mas vai mudando o conceito. Mas o livro ficou muito bom, chama “A Voz do Silêncio”. Então eu tenho livro assim. Por exemplo, quando eu fiz um livro, “Os Guerreiros do Tempo”, sobre AIDS, eu fui entrevistar o doutor David Uip, que é um grande infectologista. Ele leu o meu livro três vezes, foi gentilíssimo. Leu três vezes meu original e falou que leu como médico, como leitor e como pai. Ele gostou demais, ele me cumprimentou. E fora isso, eu faço pesquisa. Eu assino revistas científicas, assino quinhentas mil revistas. Scientific American Brasil, eu assino Mente e Cérebro, assino duas, três revistas semanais, assino revistas de História. E coleciono tudo que sai na mídia.

 

P/1 – Giselda, conta um pouquinho de um livro seu que é sua grande parceria com Ganymédes, que é o...

R – Ganymédes foi irmão que eu não tive, e inclusive a gente brigava bastante. Ele era um gênio. O cara escreveu mais de 150 livros, e era teatrólogo, tradutor, restaurador de imagens, o que pudesse imaginar. O cara vivia lá em Casa Branca, e não tinha internet naquela época. Então a gente escreveu os três livros pelo correio. Eu mandava o primeiro capítulo na segunda-feira, e como ele escrevia muito rápido, na quinta ele já estava mandando de volta. Nós escrevemos três livros assim. O terceiro, que foi o “Awankana”... Não sei se foi o terceiro, assim, em ordem certa. Nós escrevemos o Awankana e ganhamos o Jabuti. Depois de muita briga o meu editor, na época o Enio Guazzelli, me fez reescrever o livro cinco vezes, me deixou maluca. Ele disse que já sonhava com aqueles nomes de incas. E a gente recriou um mistério, a gente recriou toda a história inca. E aminha irmã, como é professora de arte, ela tinha viajado muito pelo Peru, e ela trouxe muitos livros de lá, eu aproveitei muita coisa. Ela me emprestou esse material, esse acervo, e eu mandei xérox pra ele também. Foi muito interessante, porque a gente criou um filho, um suposto filho do Atahualpa, aquela coisa. Teve um mistério e depois a gente trouxe o mistério quinhentos anos pra frente, num museu de antropologia aqui do Brasil. E o mais curioso de tudo − você vê como o escritor, às vezes, tem um feeling, ele é meio bruxo − ele, o Ganymédes, criou um suposto décimo planeta. E não haverá de ver, como diz o caipira, que agora não estavam achando o décimo planeta? Eu dei até um pulo na cadeira. Aí nós escrevemos isso em 1984. Ganhamos o Jabuti em 1985. Ele aventou esse décimo planeta do livro. E a gente brigava muito. A gente discutia muito, brigava. A gente brigava, ele não abria as minhas cartas e ficava de mal comigo. Ele encontrava comigo na Bienal "Não estou abrindo as suas cartas. Você me deixou muito bravo", não sei o quê. Pra gente fazer as pazes. Então realmente, uma grande amizade, como irmão mesmo, que tinha até as brigas. Por incrível que pareça, acho que uns quinze dias antes de morrer ele me telefonou convidando para escrever uma antologia que ele estava organizando, que cada autor ia escrever sobre um animal, e eu escolhi o elefante. E ele ainda falou no telefone pra mim: "Você não pode imaginar o quanto eu gosto de você". Então foi a última coisa que eu ouvi dele. Não só colega, praticamente um irmão. Um irmão escolhido, que isso que é o melhor. Porque é muito engraçado, tem um livro de uma psicanalista americana que eu gosto muito, que é um livro maravilhoso, “Mulheres que Correm com os Lobos”, a Clarissa Estés fala que ela fez uma tese do zigoto errado. Que, às vezes, assim, brincando, a cegonha está levando um monte de zigotinho. E ela erra da chaminé e joga o zigoto errado. Eu, na minha família, apesar de ter uma família muito interessante, eu era tão irreverente que às vezes eu achava que eu era meio zigoto que caiu errado naquela família, porque o artista, quando já nasce artista, aquela história de olhar para o lado e as coisas acontecem para trás. Ele realmente destoa. Eu sempre destoei muito. Não tanto da minha casa, porque a minha casa era de gente muito inteligente, muito pra frente, muito moderna. Mas da família em geral, da família lá do interior. Então, quando eu falei que eu queria fazer Jornalismo, meu pai já tinha morrido, então todo mundo "Bom, quando muito vai ser advogada". Porque naquele tempo era assim, enfermeira, professora. Entrava na faculdade para casar, para arrumar marido. Quando eu falei que ia ser jornalista, todo mundo chamou a minha mãe de louca. Disse que jornalista era aquele boêmio que ficava de violão em punho no bar da esquina, tomando cachaça. Que como que uma menina de família ia estudar Jornalismo? Então você vê que eu já era meio zigotinho, meio errado lá. Não tanto na minha casa, na família mais conservadora, essa coisa. Agora, quando eu comecei a publicar livros e tudo, aí corria todo mundo atrás de autógrafo, achava lindo. Mas até chegar a esse ponto, principalmente os anos... Como o Balzac dizia: "Você está preparado para passar dez anos desconhecido? Você quer ser escritor? Você está preparado para passar dez anos desconhecido? Para amargar no anonimato? Está preparado para não ganhar nada?". Inclusive um menino, um dia na Bienal, chegou pra mim e falou: "Dona Giselda, meu sonho é ser escritor. Meu pai falou que eu vou morrer de fome, quer que eu seja médico". "Ah, estude Medicina, porque você vai demorar a ganhar dinheiro com arte. Estude Medicina, mas não desista do sonho de ser escritor. Tem muito médico, tem grandes médicos escritores". E deixa eu te contar uma história da minha bisavó, essa é muito boa. A minha bisavó, na Itália, ela nasceu em Lucca. Ela nasceu na Toscana, lá no berço do Michelangelo, do Leonardo da Vinci, aquela coisa e tal. A minha bisavó, os pais dela morreram de uma peste que deu lá na Europa, e ela foi morar com o tio que era muito rico. Tinha uma tia, a mulher dele, e um único filho. Minha bisavó estudava em colégio de freiras. Quando ela voltava da escola, em frente à casa dela tinha aquelas casas enormes, de vários andares, que ainda tem na Itália. Tinha uma senhora, também muito abonada, amiga da tia dela, que alugava uma mansarda pra um compositor pobre. Minha bisavó devia ter uns 14 anos, ele tinha uns 27. E ele era um homem muito bonito, de olhos verdes e compositor. A minha bisavó contava que ele era tão pobre, tão pobre, tão pobre, que ele queimava partitura para não morrer de frio naquele inverno gélido da Toscana. E quando a minha bisavó voltava do colégio, ele fazia pequenos raminhos de flores silvestres e jogava pra minha bisavó e dizia pra ela: "Menina bonita, casa comigo?". Ela chegava e dizia − como seria na linguagem de hoje − "Tia, tem um gatão lá em cima. Gatão de olho verde, muito bonito, que quer casar comigo". "Não se atreva a olhar pra cima. Esse infeliz pensa que vai ser um novo Verdi". Isso eu estou falando de mil oitocentos e oitenta para quase noventa, oitenta e pouco. "Não, você não olhe para cima porque esse cara vai morrer miserável, não tem nem o que comer. Você está proibida". E ela queria que a minha bisavó casasse com o filho dela pra riqueza não sair da família. E a minha bisavó brigou com a madrasta. O tio era bom, mas a madrasta-tia, a madrasta era muito ruim. Ela pegou e saiu da casa da tia, foi ser governanta da casa de uma amiga. Imagina, menina que estudava em colégio de freira, bordava fio de ouro, ser governanta da outra casa. E acabou casando com o cocheiro da senhora lá, que era um romano muito bonito também, de olho verde, que falou: "Vamos casar? Vamos pro Brasil? Você é órfã mesmo.” E o irmão dela já tinha imigrado pra Tunísia, irmão mais novo. "Ah, vamos casar". E vieram embora pro Brasil. Sabe quem era o compositor pobre? Quando ela me contou eu tinha uns 12 anos, que eu falei: "Nonna! Como é que você não casou com ele?" Era o Puccini, era o Puccini. Aí ele foi adotado por um duque de Milão, foi pra lá e... Ele era meio malandrinho, porque fugiu com a mulher de um negociante que tinha um filho bebê, uma filha bebê ou um filho bebê e uma filha mais velha. Ela fugiu com o bebê, com ele. Ele já tinha 27 anos e outro dia eu peguei o retrato dele na internet, um gato mesmo. Era lindo o Puccini. E ele morreu com 66 anos, em Viena. A minha bisavó morreu com 80 anos, aqui em São Paulo. Ele era 14 anos mais velho. E já essa história toda da minha bisavó, o irmão foi pra Tunis. Aí veio a Primeira Guerra, a Segunda Guerra. Ela perdeu completamente − eu conto também no meu livro − o contato com esse irmão. Ela tem a minha idade, e um dia ela está no cinema em Tatuí, lá na boca de sertão, que era uma boca de sertão, caminho de bandeirantes, perto de Itu. E começa a passar - antes do filme vinha um jornal, tinha aquele jornal nacional "Notícias do mundo, notícias da guerra. Entram os aliados em Tunis", em fevereiro de 1943, "Entram os aliados em Tunis. Libertam dos nazistas". Aí vai um repórter e vai entrevistar um senhor que está na frente de uma loja, de gorrinho, de crochê, fumando um cachimbo. E fala: "Como é seu nome?" "É fulano" "De onde você é?" "Eu sou de Lucca. Eu imigrei aqui com 18 anos". Quando ela olha, em cima, o nome da família: era o irmão dela. Depois de cinquenta anos ela viu o irmão dela. Ela lá na boca de sertão, assistindo um filme. Daí diz que ela começou a chorar no cinema, que a vontade dela era se levantar e dizer em italiano pra ele: "Sono io, sono io. Anche tu podere vedere me?" “Sou eu, sou eu. Você também pode me ver?” Cinquenta anos depois, o irmão dela lá.

 

P/1 – Giselda, e essa memória, vou aproveitar esse ensejo pra te perguntar de uma outra pessoa. Você falou do Ganymédes, quero lhe perguntar sua relação com a Stella Carr...

R – A Stella Carr também foi uma grande amiga. Nós começamos juntas na Pinju. Eu publiquei dez livros na Pinju, ela publicou dez livros na Pinju. Ela escreveu vários livros também com o Ganymédes. Outra que escreveu com o Ganymédes também foi a Maria Thereza Noronha, também escreveu vários livros com o Ganymédes. Fomos as três que escreveram, as três irmãs do Ganymédes, que escreveram livros com ele. E ela foi uma grande amiga, uma escritora maravilhosa, uma pessoa maravilhosa. Ela, inclusive, escreveu um livro muito bom de antropologia, O “Homem do Sambaqui”, foi um livro famoso. Ela foi convidada até pra ir para Paris, para fazer um curso lá e ela não foi, por motivos pessoais. Ela era muito talentosa, era dirigida para livros de mistério. Então depois os livros dela foram todos pra Moderna. Fazia muito tempo que eu não tinha contato com ela, às vezes eu falava com ela por telefone. Uma escritora muito talentosa. Inclusive ela começou a escrever com a filha. Outro também que faleceu agora há pouco tempo, que também era um escritor muito talentoso é o Elias José, que eu conheço de décadas, apesar de ele morar em Minas. Porque eu fui conhecê-lo quando ele ganhou o Jabuti aqui, acho que na década de setenta, ainda. E eu fui com a minha família toda lá, prestigiá-lo. Ele conheceu a minha filha pequenininha. Outro dia, quando foi cem anos de FTD, que teve um banquete muito bonito, ele veio com a família toda, em 2002, falou: "Nossa, essa aqui é a menininha?". Que já era uma mulher, já era quase mãe.

P/1 – Então, Giselda, queria perguntar, você falou que não sabe desenhar nada. Então, como é a sua relação com o ilustrador dos seus livros, ou a ilustradora?

R – De vida e morte, às vezes. Tem um ilustrador, por exemplo, que é um rapaz que está começando, ele é jovem. Ele me ligava, eu dava sugestão. Então muitas vezes o ilustrador faz a capa e vem uma capa, assim, horrível, que não dá. Eu pego, peço pra mudar, porque eles me mostram as ilustrações, o do meio, do miolo, e da capa, e eu dou muito palpite. Então tem ilustradores maravilhosos que lêem o livro, pegam o espírito da coisa. Outro dia eu tive uma disputa com o ilustrador. Como é que um ilustrador vai querer recriar o que o escritor escreveu? Ele tem que se manter fiel ao que o escritor passou. Então às vezes eu tenho uns embates com o ilustrador, com o revisor. Uma vez eu escrevi um livro com toda aquela metalinguagem do jovem, de ser você passar do erudito para o popular. O meu livro virou Ruy Barbosa. O meu livro virou aquele “juridiquês”, “advogues”. Eu fiquei histérica. Falei: "Não, você vai ter que voltar tudo com o que eu escrevi. Eu tive um trabalhão para escrever uma linguagem adequada para o jovem." Pessoas que às vezes não tem prática. E outra coisa, o português é uma língua muito cacofônica, tem muito cacófato. Você, quando vai corrigir, tem que falar alto. E às vezes a pessoa enche o meu texto de cacófato quando vai corrigir. Aí eu cuido. Mas eu passo revisão em tudo, leio tudo. Eu gosto muito de fazer quarta capa também, e precisa ter muito cuidado, porque às vezes a pessoa pode, sem querer, passar um preconceito. O livro pra jovem, pra criança, tem que ter muito cuidado com isso, preconceito. Uma vez eu estava organizando uma coleção. Organizei duas coleções para uma editora e uma professora do interior me mandou um livro que ela teve a coragem de escrever, que o banheiro do pobre era fedido e o banheiro do menino rico era cheiroso. Falei pra ela: "Olha, minha filha, enquanto você não mudar a sua mentalidade, você não pode escrever nem pra adulto, quando mais criança, porque você é uma pessoa preconceituosa". Falei na cara dela, ela ficou minha inimiga pra sempre.

 

P/1 – Giselda, e como você vê essa geração que revolucionou um pouco a literatura infanto-juvenil, dos anos 70 e 60, que você faz parte também? Como você vê essa transformação da literatura infanto-juvenil brasileira naquela época?

R – Olha, a minha geração, quando eu era menina, só tinha o Monteiro Lobato. Tinha pouquíssimos autores infantis brasileiros. A gente deve ao Monteiro Lobato a tradução dos grandes clássicos, não tinha autor. A primeira coleção mesmo, que começou, foi a do “Jovens do Mundo Todo”, do Caio Graco Prado. E ele era um editor muito interessante. Quando eu entrei lá, em 79, mandei o primeiro livro. Ele não corrigia nada. Ele não censurava nada, não corrigia nada. Porque às vezes tem algumas coisas que, às vezes, dependendo do tipo da editora, você fala alguma coisa e eles falam "Ah, não sei o quê. Não dá para maneirar?". Então eu não digo “censura”, mas certo aconselhamento. E como eu tenho muitas editoras e muitos livros, eu tiro de um, boto no outro. E eu sou adotada em colégio judaico, em colégio protestante, de todo tipo de ramificações do protestantismo. Eu sou adotada em colégio católico, em colégio maçônico, em colégio islâmico. E o último reduto meu foi um colégio protestante mais conservador, que eles diziam para o divulgador: "Livro da Giselda não entra aqui porque ela é muito libertária". Daí tiveram, nem vou dizer exatamente o que é, mas eles tiveram um problema no colégio, que o único livro que existia tratando daquele problema era o meu. Eu entrei triunfalmente pela porta da frente. Tanto isso é verdade, que uma vez eu contratei uma agente literária, uma alemã, que vivia aqui em São Paulo, acredito que esteja viva. Ela era agente literária da Patrícia Highsmith, aquela grande autora que faleceu há pouco tempo, e ela pediu que eu fizesse uma sinopse de todos os meus livros, em inglês. E eu tinha um cunhado que era tradutor juramentado, falava sete idiomas, ele fez. Só que ela falou: "Olha, seus livros são ótimos. Só que na Europa e nos Estados Unidos eles não vão ser adotados porque eles são muito conservadores, e você escreve textos muito libertários". Então o único que houve interesse na Alemanha foi um livro meu sobre a floresta amazônica, sobre garimpo, que é o “Macapacarana”, que é o meu livro que já ganhou vários prêmios, meu livro mais premiado. Ganhou APCA [Associação Paulista de Críticos de Arte], tudo. É sobre a floresta amazônica, é um tema de biodiversidade, essa coisa e tal. A Alemanha se interessou, mas depois não deu certo. Então eu não consegui publicar fora porque os meus temas são, digamos assim, tabus, talvez. A Europa, colégios europeus e colégios, assim, de primeiro grau, high school, eles são muito conservadores. Os meus livros não entrariam como livros, digamos assim, que constassem de uma lista indicados para serem lidos. Eu, inclusive, durante a ditadura, tive livro censurado. Porque eu ganhei um concurso no Rio em 75, durante a ditadura, com uma história muito bonita, de uma tia minha que tinha tido um caso de amor impossível, que não deu errado. Eu ganhei o segundo ou terceiro lugar no concurso no Rio de romance para adulto. Como prêmio, fui incluída numa coleção de uma editora aqui em São Paulo, mas, para meu azar, o livro entrou numa coleção meio erótica, porque eles tinham que encaixar o livro, encaixaram nessa coleção. E bateu a censura e queimaram todos os livros. Então foi um dos seiscentos e poucos livros que foram destruídos. Depois esse livro, dez anos depois, foi reeditado por uma editora, para juvenil. O livro era tão inocente que foi reeditado para juvenil. Era uma história de amor. Então eu tive livro queimado, destruído, a editora foi até à falência.

 

 P/1 – Giselda, a gente vai chegando ao final. Queria fazer a pergunta de praxe do Museu da Pessoa, que é: o que você achou de contar um pouco da sua história pra gente, de participar do projeto?

R – Olha, eu fiquei muito feliz de terem me convidado. Eu já conhecia o Museu da Pessoa das outras entrevistas, de pessoas, do povo e várias pessoas. Fiquei muito honrada, muito feliz. Estar na companhia dos meus colegas e contar a minha vida. Porque ser artista no Brasil é uma luta. Então eu comecei do nada, não conhecia ninguém e foi até ótimo, porque se você tem talento, você vai em frente. Publiquei a minha história em 72, o primeiro livro em 74, tenho mais de 30 anos. E foi muito bom, porque eu amadureci como pessoa, passei por momentos bons ou maus da vida. E amadureci, fiquei uma pessoa mais compassiva e capaz de olhar os meus personagens e as pessoas mesmo, de uma forma mais compassiva. E sou muito feliz, porque eu sou uma pessoa que... Me sinto realizada, porque eu consegui fazer aquilo para o qual eu nasci. Eu nasci pra escrever. Eu vivo para escrever.

P/1 – Obrigado pela entrevista.

R – Eu que agradeço.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+