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História

Dar de si para mudar o mundo

História de: Elmo da Silva Amador
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/08/2009

Sinopse

Elmo da Silva Amador é um estudioso da Baía da Guanabara sob todos os aspectos: geologia, manguezal, assoreamento, população, história. Essa dedicação gerou um livro referência na área e resultou no que ele chama de ponte conhecimento-militância. Sempre engajado na luta política, descobriu na militância ambiental um caminho para a resistência durante a Ditadura. Vindo de uma família pobre, morou em regiões violentas do Rio de Janeiro o que aguçou sua crítica social. Em seu depoimento falou sobre a infância difícil, a morte violenta de seu irmão, seu casamento e a experiência de ter filhos e netos.

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História completa

Meu nome é Elmo da Silva Amador, nasci em Itajaí, Santa Catarina, no dia 22 de agosto de 1943. Meu pai era marinheiro e minha mãe, professora primária. Meu pai fazia longas viagens, praticamente não o via. A Baía de Guanabara era o grande porto do Brasil e meu pai ficava bastante tempo no Rio de Janeiro. Isso nos levou a mudar para lá. Foi uma mudança radical, meu pai ganhava pouco e minha mãe deixou de trabalhar. Vivemos em situação de extrema penúria. Moramos em Caxias, na Baixada Fluminense. Caxias marcou muito a minha vida! Foi a fase dos sete aos 12 anos, uma infância livre, muito natureza, bicho. O lado ruim era que a Baixada era muito perigosa. Eu vi muitos corpos, muitas pessoas mortas. Era uma casa de um quarto só com três filhos. Para ganhar um dinheirinho eu tinha que ajudar minha mãe a vender doce no campo de futebol. Eu passei a ver o mundo com um olhar muito crítico. Essa desigualdade me marcou muito em termos de militância social e mais tarde, militância política.

 

Meu primeiro estudo foi com professoras particulares e com minha mãe. Colégio eu só fui ter mais tarde, o colégio Duque de Caxias, em Caxias. Minha mãe era muito preocupada com meu futuro e pediu para eu morar em Florianópolis, com parentes de lá. Eu tive essa experiência, que foi ruim, aos 14 anos. Consegui uma boa escola, mas emprego, nada. Voltei para o Rio e fomos morar num lugar muito ruim, na Cordoaria, atrás da Central do Brasil. Era um lugar horroroso, cheio de bandidos. Essa área serviu de cenário para o assassinato do meu irmão, aos 17 anos. Era uma pessoa maravilhosa, o mais inteligente da família.

 

Fiz o científico no Colégio Cardeal Leme, em Ramos. Tive um professor comunista que me influenciou muito. Naquela época eu já era diretor do grêmio estudantil.

Quanto aos empregos, fiz de tudo: engraxate, catava ferro velho na rua, pegava revista velha para vender. Meu primeiro emprego para valer foi de trocador de lotação. Outro emprego importante foi de bancário, no Banco Nacional. Era um bom emprego, mas eu era revoltado e muito politizado. Fiz piquete de greve na porta da minha própria agência e fui demitido.  

 

Também fui vendedor de livros de casa em casa, aquele tipo “vendedor-xaveco”. Eu me dei tão bem que treinava os novos vendedores. Um desses caras que treinei fazia cursinho de teatro no Conservatório Nacional de Teatro. Vi um outro mundo. Aquelas pessoas leves, fazendo arte. Fui chamado para fazer parte de uma peça, gostaram da minha voz. Fiz o curso de teatro. Lá conheci a Zulmira, minha esposa. Eu era militante do Partido Comunista e tinha que criar um núcleo político do Conservatório, ligado às artes. Isso fez com que eu me aproximasse dela. Nos casamos e fiz o curso de Geografia. Meu pai era tímido mas adorava falar de suas viagens! Eu diria que essas histórias foram uma primeira motivação para ser geógrafo: essa curiosidade de ver o mundo.

 

Na universidade também fiz parte do núcleo político, o maior núcleo que existia, com mais de cem pessoas do Partidão. Isso em 67. Teve a fase das passeatas e eu participava de todas. Era o auge da repressão, da Ditadura, uma época de muita militância estudantil. Essa época foi um barato, a gente vivia intensamente, só pensava em política. Comecei a fazer uns treinozinhos de guerrilha. Fui ligado à Colina (Comando de Libertação Nacional) e tinha amizade com o pessoal do MR-8. Minha função era prestar apoio à guerrilha. A repressão foi braba! Diversos aparelhos caíram, o pessoal foi preso. Dei muita sorte porque ainda não tinha entrado na guerrilha propriamente dita. Fui pego, mas consegui provar que não tinha participação. Fui obrigado a me desgarrar dos meus grupos políticos e isso me doeu profundamente.  

 

Comecei a dar aula na universidade, mas era muito visado: minhas aulas eram gravadas. E na universidade eu fazia pesquisa desde o início na região da Baía de Guanabara. Comecei em 69 com a parte de geologia e não parei mais. Estudei os manguezais, sedimentos, assoreamento, a parte histórica do entorno e a degradação ambiental. Foi minha tese do doutorado. Reuni muitas dessas informações em um livro que foi muito importante na minha vida e que dá uma visão holística da Baía da Guanabara, nos diversos planos: geológico, histórico, ambiental, homem, natureza, relações de conflito. O conhecimento gerado passou a ser usado como instrumento de militância. Eu sempre fiz essa ponte: conhecimento-militância. O conhecimento servia de munição para a militância. Foi a primeira reserva de manguezal que se criou no Brasil, gerada por um movimento ambientalista. Nós conseguimos incorporar a Baía de Guanabara como área de relevante interesse ecológico e de preservação permanente. E conseguimos gerar um instrumento legal para impedir novos grandes aterros.

 

Até hoje a gente continua tendo enfrentamentos. Por incrível que pareça - não estou com saudade da Ditadura, de jeito nenhum - mas acho mais difícil conseguir vitórias hoje do que naquela época. Hoje a gente tem mais dificuldade em um embate contra o poderio da Petrobrás, por exemplo.

 

Minha militância atual, na fase de vovô, aposentado, é participar do conselho gestor da APA (Área de Preservação Ambiental) de Guapimirim, do Comitê da Bacia Macaé e Rio das Ostras, onde sou secretário executivo, e do Comitê da Bacia Hidrográfica Baía de Guanabara. Atuo ainda no Conema (Conselho Estadual de Meio Ambiente) e no Conselho Estadual de Recursos Hídricos.

 

Na Ditadura Militar uma das bandeiras que conseguia passar era a questão ambiental. Foi uma resistência que permitiu uma coisa importante: a difusão de conhecimento ambiental. O grande público hoje tem uma imagem consolidada da importância desses ecossistemas. Militância é isso, é dar de si para transformar o mundo: em termos políticos, mais humano, mais justo; em termos ambientais, mais sustentável, para que a água e os elementos da natureza perpetuem.

Editado por Raquel Lima

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