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História

De bicho papão para bicho de estimação

História de: Maria Luzia Serraglio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2016

Sinopse

Maria Luzia Serraglio viveu sua infância na região do Grande ABC, onde descobriu duas paixões: o vôlei e o desenho. Em seu depoimento ela relata também como foi descobrir que estava com diabetes, o impacto em sua vida e como ela conseguiu transformar uma notícia ruim em uma motivação para levar uma vida mais saudável e feliz.

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História completa

Na minha família eu brinco que sou meio que uma ovelha negra, porque fui pioneira em muitas atitudes. Meu nome é Maria Luzia Serraglio, nasci em Presidente Bernardes no dia 25 de agosto de 1969. Meus pais João Bruno Serraglio e Maria Lorenzoni Serraglio, se conheceram em encontros da comunidade local que eles viviam por indicações de família e trabalhavam na lavoura, no sítio que era do meu avô, por um bom tempo, até a família estar completa. Depois eles vieram tentar a sorte na cidade grande, que no caso era Santo André, em 1973. Nós somos em quatro irmãos, são três rapazes e eu que sou a caçula. Eu vim muito nova para Santo André, com quase quatro anos de idade, então eu tenho pouca recordação de onde eu nasci. Mas o que eu guardo na memória são sensações, cheiros, lembro de ações da minha mãe chamando a gente pra se reunir na casa, lembro da minha mãe quarando roupa, coisas assim. Eu tenho lembranças muito gostosas da minha infância. Tinha um jogo, em italiano fala tômbola, que na verdade é bingo e a gente gostava de brincar. Aquilo era muito bom que a família inteira se reunia em volta da mesa e jogava tômbola. Eu lembro da gente brincar no quintal de cabana. A gente jogava um pano em cima do limoeiro que tinha e entrava debaixo pra se esconder, fazia de conta que estava fazendo comida, tudo era muito fazer de conta, mexia, fazia, buscava.

 

A escola é um capítulo à parte porque todo mundo ia pra escola menos eu. Eu morria de vontade de ir pra escola, eu era louca, alucinada pra ir à escola. E naquela época não existia pré-escola pública, era só particular e a gente estudou só em escola pública, não tinha condição de pagar escola. E eu, ainda por cima, fazia aniversário no segundo semestre, então eu tinha que entrar na escola com sete anos de idade, não podia entrar com seis. Aí teve um ano que todo mundo ia pra escola e eu fiquei o ano inteiro, sentava na calçada e chorava porque eu queria ir pra escola e via todo mundo indo. Quando eu fui pra escola eu fiquei muito feliz. E o pessoal do meu bairro ia todo mundo junto, então tinha crianças que estavam no segundo, no quarto, no quinto, no sexto ano e era todo mundo no mesmo período. A escola ficava duas quadras abaixo de casa e a gente ia todo mundo junto. Na época da escola eu tinha um sonho de ser desenhista, eu sempre gostei de desenhar. Quando a professora falava que no final da aula ia ter um desenho pra colorir eu ficava feliz da vida. E hoje eu trabalho com direção de arte que tem tudo a ver com desenho.

 

Uma outra paixão no meio do caminho era jogar vôlei. Eu comecei a jogar vôlei com oito anos de idade até os 16, que eu parei porque eu comecei a trabalhar, mas eu adorava jogar voleibol. E eu ia jogar bola no Pedro Dell’Antonia, que é estádio municipal de Santo André. Então eu jogava bola na escola, era da seleção da escola de vôlei, e treinava no estádio municipal. E lá tinha o ginásio onde a Pirelli locava pra treinar e nós ficávamos encantadas. E teve um dia que teve pré-seleção pra equipe mirim e eu e mais umas meninas lá fizemos o teste e passamos e nós fomos convidadas pra fazer parte do time, pra treinar na Pirelli. Eu fiquei muito feliz e fui cara casa contar para a minha mãe muito empolga, porém ela achava que jogar bola não era profissão e eu não consegui seguir no Vôlei. Então a minha adolescência eu passei jogando bola. Eu era uma menina moleca, pra mim roupa legal era um agasalho esportivo, uma joelheira bem resistente pra cair e não machucar o joelho pra dar peixinho. Tudo se resumia ao voleibol, até as paqueras eram em volta de voleibol, tudo era legal no voleibol. O pessoal todo da rua era mais velho que eu, eles já iam pro bailinho, pra domingueira. E eu lembro que eu tinha 13 anos de idade eu alterei a minha carteirinha da escola para eu assistir A Lagoa Azul no cinema. Era 14 anos, eu tinha 13. Aí, data de nascimento, 1969, eu puxei a perninha ali, virou um oito, maravilha, fui assistir A Lagoa Azul no cinema. Com essa carteirinha eu conseguia ir na domingueira, que era 14 anos pra cima também e lá conheci o meu primeiro namoradinho, que eu lembro que minha mãe ficou muito brava comigo, mas meu irmão, que eu chamo de nenê, ele sempre estava tentando cuidar de mim, de alguma forma ele cuidava e é assim até hoje.

 

A escolha profissional da minha faculdade foi bem pontual. Tinha uma professora de ciências na escola e ela era muito boa professora, mas eu não imaginava que ela fazia teste vocacional. E sempre no final do ano tinha uma feira de uma escola de cursos, que ela queria que a gente fosse. E eu tinha na cabeça que eu queria fazer Arquitetura, porque tinha desenho e eu queria desenhar. E foi essa professora em uma conversa que tivemos que me apontou a oportunidade de fazer o curso de propaganda, que na época eu não sabia o que era e que envolvia desenhos. Mas depois de pesquisar sobre o curso eu decidi fazer o colégio técnico em Propaganda. Na metade do segundo ano eu procurei estágio. O colégio pedia hora estágio pra você ter o diploma técnico e eu consegui um estágio em um balcão de anúncios que tinha lá em Santo André, comecei a trabalhar e não sai mais. E desde esse meu primeiro salário eu já pedi pro meu pai parar de pagar o colégio. E é incrível, na época o meu salário era meio salário mínimo e eu pagava o colégio, a passagem porque não tinha vale transporte, e ainda sobrava um troquinho para ir ao cinema e na domingueira. Depois eu mudei para uma agência maior e depois fui fazer cursinho, porque não entrei direto na faculdade, devia a ter perdido algumas matérias de vestibular por causa do colégio técnico e após um ano de estudos no cursinho eu entrei na Metodista.

 

 Eu sempre quis trabalhar com criação dentro da área da propaganda, mas eu demorei um pouco para conseguir, trabalhei bastante na área de produção, mas sempre fiz com muita paixão, eu adorava o que eu fazia. Após essa agência maior que eu fui em Santo André, uma pessoa que trabalhou comigo e é muito querida, me indicou para uma outra agência e lá eu trabalhava no estúdio e cursava a faculdade a noite. E foi nessa época, do último ano da faculdade que eu descobri que tinha diabetes. Eu estava com sintomas típicos de diabetes, eu passei a beber muita água, fazia uma quantidade de xixi absurda, passava no bebedouro, bebia água e corria pro banheiro; voltava do banheiro, bebia água, voltava pra prancheta, logo tinha que ir de novo lá. Uma vez eu fiz a conta, eu bebi cinco litros de água em um dia, fora outros líquidos, chá, suco, café, leite e perdendo peso. E não sabia o que estava acontecendo. Eu estava passando por um médico que era um ginecologista e minha mãe falou para eu comentar com o médico sobre os sintomas, porque ela sabia que eram sintomas de diabetes devido a minha avó paterna ter sido diabética. E depois de alguns exames e médicos eu descobri que estava com diabetes. Quando eu passei com o endócrino que caiu a minha ficha, conversando com o médico ele me passou o tratamento e eu perguntei em quanto tempo eu estava curada e foi aí que descobri que não tinha cura e nesse momento foi um baque. Eu pensei “Eu sou doente, eu vou estar doente o resto da minha vida. E quanto vai ser o resto da minha vida?”. Eu saí do consultório, estava sozinha e a casa da minha mãe ficava uns três quilômetros andando. Eu fui andando e até a esquina da minha casa eu fui chorando. No começo eu tive que ouvir tanta coisa ruim de gente mal informada que eu ficava chocada e inclusive o meu relacionamento não deu certo na época devido a essa falta de informação das pessoas. A mãe desse meu namorado era uma pessoa muito influente na vida dele e na época eu não tinha como me defender com conhecimento, eu não conhecia o que conheço hoje sobre diabetes e para a mãe dele, na cabeça dela, eu não geraria filhos saudáveis. E ela convenceu ele, mesmo gostando de mim, a pular fora. Aí eu tinha medo de falar que eu era diabética em qualquer lugar que eu ia. Hoje eu sou voluntária na Associação de Diabetes, então eu trabalho com a educação em diabetes voluntariamente. Qualquer pessoa que se aproxima de mim, recém-diagnosticada no diabetes eu vou falar os cuidados que ela tem que ter, mas na sequência vai ouvir: “Você vai comer doce, você não vai amputar sua perna, você não vai ficar cega porque você vai ter conhecimento, você vai aprender a andar e você vai ficar bem. Pelo contrário, é a oportunidade de você ter uma qualidade de vida melhor. Porque o tratamento de diabetes, tirando a parte de medicamento, o tratamento alimentar, a atividade física, atitude e conhecimento é o que todo mundo deveria ter pra ser saudável, então você tem uma oportunidade de ser saudável e você vai ficar bem”. No começo quando eu descobri eu escutei uma vez que não poderia gerar filhos e isso me deixou muito preocupada, porque eu sempre tive o sonho da maternidade e conversando com o meu médico posteriormente ele me explicou que eu poderia sim e isso me tranquilizou um pouco naquele momento, mas essa falta de informação das pessoas que falam ou agem sem saber, já tinha criado traumas em mim e eu não falava que era diabética porque tinha medo de afastar as pessoas de mim. Mas depois com o tempo me adaptei completamente a nova rotina que eu tenho de alimentação, exercícios físicos regulares e tudo o que uma pessoa diabética precisa fazer para se manter saudável e eu sempre segui todas as recomendações médicas, sou muito regrada nessa questão

 

Quando eu estava com 26 anos eu dei entrada num apartamento. E na época a minha família achava que era muito caro e eu estava assumindo uma dívida muito grande. Mas eu confiava que eu conseguiria. Meu décimo terceiro, férias, tudo virava parcela do apartamento. E aí eu tive esse namorado que desistiu por causa da diabetes. Depois eu namorei com uma outra pessoa cara que era estudante de Medicina, também não deu certo. Eu falo que ou eu fui trocada por outra pessoa ou foi o problema do diabetes, não tive sorte na vida amorosa. Também tive um outro relacionamento que foi traumatizante, foi uma decepção muito grande, e eu acho que deixou minha vida sentimental sem muita perspectiva E o apartamento começou a ser construído, foi entregue e foi bem na época que eu estava em crise desse relacionamento de grande decepção. Eu peguei as chaves e eu estava montando os móveis no apartamento pra morar com essa pessoa. Então eu tinha saído do relacionamento, terminei de montar o apartamento, falei: “Agora, eu vou morar sozinha”. E eu moro nesse apartamento até hoje, não pretendo sair nunca, porque eu adoro. E foi ótimo, mudou bastante coisa, a responsabilidade de ter sua casa, de fazer sua comida. E aí depois disso o que mudou bastante foi minha vida profissional. Eu trabalhei muitos anos com healthcare em agência e eu me tornei diretora de arte eu tinha 26 anos, foi quando eu fui convidada a fazer criação mesmo. E Depois de um tempo trabalhando em agências eu recebi uma proposta de trabalho incrível, que se eu encontrasse uma lâmpada enferrujada na praia, esfregasse e saísse um homem gordinho azul lá de dentro eu não conseguiria fazer um pedido tão completo como esse. Estava tendo a oportunidade de trabalhar de casa mantendo o meu salário na época. Foi maravilhoso. E a minha vida mudou tudo. Trabalhar em casa, eu trabalho pra caramba e sou disciplinada, tenho horário de almoço, tenho horário pra começar, horário pra terminar, mas a vida mudou tudo, inclusive para eu tomar decisões de realizar coisas que eu queria pra mim. Então eu comecei a praticar atividade física com 27, porque tinha ficada um tempo sedentária e estava com alguns problemas já aparecendo. E foi dessa retomada na atividade física na época que descobri novos amores, além do vôlei eu também gostava muito de corrida e natação. E Desde então eu não parei mais.

 

Trabalho em casa, tenho um cachorro que é a coisa mais fofa desse mundo, o nome dele é Google. Porque eu também sempre quis ter um bicho em casa, mas trabalhando fora não tinha condição porque passava seis horas por noite em casa com sorte, então seria muito egoísmo ter um bichinho lá que passasse a vida solitariamente. Mas depois que eu estava há dois anos trabalhando em casa já e eu tinha feito uma viagem, que foi muito importante na minha vida. Eu fui fazer uma peregrinação. E eu nunca tinha ido pra Europa e eu conheci um peregrino bem experiente, amigo de corrida e ele comentou comigo que tinha uma peregrinação na Itália, de São Francisco de Assis. E eu sou devota, apaixonada, amiga, tudo, de São Francisco e fui nessa viagem. E eu voltei com uma vontade muito grande de ter um amiguinho canino em casa. Quinze dias depois veio a oportunidade, o Google apareceu. Eu falei: “Ah, isso é coisa de São Francisco, né?”, que ele é o protetor dos animais. Tenho esse amiguinho meu em casa, que é uma maravilha. E o plano é realizar meu sonho de maternidade, porque se eu não geri eu vou criar. E eu consegui entrar na fila de adoção. Aí passei por toda a avaliação, foi aprovado, e desde janeiro estou na fila. Estou grávida do coração.

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