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História

De cabeça erguida

História de: Vera
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Vera ajudava com o sustento de casa desde criança, lavando roupa e cuidando de crianças. Aos dezesseis saiu de casa, casou-se e teve quatro filhos. A segunda nasceu com síndrome de down e faleceu com sete meses de vida. Seus dois meninos envolveram-se com drogas e um deles entrou no Projeto ViraVida. Em seu relato, Vera fala sobre a transformação do filho, a importância do Projeto em sua vida e o sonho pelo qual está lutando.

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História completa

Eu nasci em casa. Minha mãe disse que estava conversando e sentiu uma dor, as contrações. E chamou a madrinha, que era parteira. E aí, de repente, assim, eu nasci.

 

Minha mãe trabalhava de doméstica. Meu pai trabalhava, mas tinha nós dentro de casa. Ao total quatro, comigo. O único que ajudava a minha mãe era eu, com lavagem de roupa. Aí lá na cidade tem uma igreja que dava pão. Aí eu ia buscar com meu pai, com minha mãe, pra ajudar dentro de casa.

 

A vida da gente era boa antigamente, o meu pai trabalhava, a gente já tinha o certo, depois que ele ficou desempregado, que ele ficou doente, aí teve AVC (acidente vascular cerebral), aí ficou meio complicado e eu fui ajudar também. Meus irmãos eram menores, mas só que eles tinham vergonha de ir na igreja pegar o pão. Aí quem ajudava minha mãe era eu. 

 

Aí quando chegava, eu ia pra casa dos outros, trabalhar mais a minha mãe pra poder pegar um trocado, que era diarista, né, doméstica, lavava roupa de ganho, tudinho, aí a gente recebia e fazia as comprinhas pra sobreviver, pra comer. 

 

Tinha vezes que eu ficava meio atacada porque era tanta responsabilidade na minha cabeça.  Às vezes eu não tinha tempo nem pra brincar, com tanta responsabilidade.

 

Eu estudava à tarde porque de manhã eu ajudava a minha mãe. Eu gostava de ir, era boa, só era distante. A gente ia a pé por aquele sol quente. Às vezes, eu ia mesmo só por causa do lanche. 

 

A melhor lembrança foi quando meu pai voltou a trabalhar, aí a gente voltou a uma situação razoável, não tudo bom, mas a gente tinha tudo direitinho. Meu pai nunca deixou faltar nada pra nós, não, quando ele trabalhava. Aí eu saí mais da casa dos outros, minha mãe ficou dentro de casa cuidando da gente, de nós, e melhorou mais.

 

Eu continuei estudando, depois eu fiz dezesseis, eu fui-me embora, aí comecei a trabalhar. O primeiro trabalho meu foi de balconista.


Eu me casei com meu primeiro namorado. Eu o conheci em frente de casa quando eu tinha treze, ele tinha dezenove. Fui morar aqui na minha casa, lutei pra pagar, paguei, estou com a posse. Aí tive quatro filhos. Convivi com ele dezessete anos. Não deu certo, a gente já se separou. Ele teve um relacionamento com outra pessoa e ele bebia muito. Quando eu chegava, às vezes, ele estava embriagado, aí eu não gostava, eu já estava cansada. 

 

Quando ele estava de folga ou quando ele não estava trabalhando, ele ajudava muito também. Em matéria de pai, ele pode ser o que for, mas ele foi um pai bom. Mas a gente separou, ele arrumou uma outra família daí pronto, as coisas sempre mudam. Ele ainda vê os filhos porque o menino vai lá, mas ele não vem aqui não. Quando ele quer vir aqui, ele vem aqui embriagado, eu não quero.

 

Eu tenho um com vinte e quatro, uma que estaria com vinte e três se estivesse viva, aí tem o outro que tá com dezenove, e tem uma menina com dezoito.

 

Enquanto eu trabalhava, eu pagava pra uma colega minha olhar as crianças. Naquele tempo a minha novinha já tinha falecido. Aí ficava com os três. Agora quando chegava do trabalho, eu ia fazer as coisas todinhas pra no outro dia, quando fosse trabalhar novamente, a menina ficava somente vendo eles. Deixava roupa lavada, passada, deixava já tudo organizado, ela vinha só pra olhar meus filhos. Eu coloquei tudinho na escola, eles estudavam. 

 

Meu filho que está no Projeto ViraVida, desde pequeno deu trabalho. Na escola era problema. Eu só vivia na escola por causa dele. Voltava pra escola, ia arrumar problema. 

Chegava na escola tinha mais falta do que tudo. Agora fazendo o quê? Foi pro shopping, ele e uma galera foram pra dentro do shopping. Aí um dia, quando vim almoçar: “Vera, olha, vai-te embora que o seu filho tá preso no shopping, foi pego roubando”. 

 

Ele tinha uns catorze anos, nessa faixa. Eu disse: “Você vai parar de me dar problema quando, menino? Pelo amor de Deus, me responde! Eu já tô que não te aguento”. Aí fui lá, cheguei no shopping, procurei a sala que ele tava, dei uns carão nele, conversei com o rapaz... O rapaz disse: “Não moça, tenha calma”. Eu falei: “Ó moço, mais calma do que eu já tenho, esse menino já nasceu dando problema e até hoje ainda, é muita paciência”. Ele veio se aquietar depois desse Projeto ViraVida. Na verdade essa vaga do ViraVida veio pra minha filha, mas eu disse: “Pelo amor de Deus, eu vou botar o menino porque esse menino vai me dar sossego”.

 

Ele provou maconha. Disseram a mim que ele tinha cheirado loló. As pessoas diziam assim: “Ô Vera, eu vi seu filho, usando droga”. Uma vez levou uma surra dos traficantes, jogaram ele dentro do canal. Ele brigava na rua e dentro de casa. Uma vez eu deixei uma menina aqui tomando conta dele, e ele puxou a faca pra matar a menina. Eu ficava doidinha procurando pessoal pra poder ficar com eles pra eu trabalhar. Teve uma vez que eu não aguentei esse menino, eu fui na DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente) pedir uma internação pra ele. 

 

A minha filha não, nunca me deu problema. Nunca me deu problema essa menina, graças a Deus, eu boto a mão no céu pra ela. E tenho o mais velho também que deu muito problema com droga. Hoje em dia, ele trabalha, vive a vida dele, casou-se, mas fui obrigada a botar ele pra fora, dei-lhe quatro oportunidades dentro da minha casa. Teve uma vez que ele chegou dentro de casa muuuito drogado, ele até me ameaçou. Ele olhou pra minha cara assim e disse: “Eu vou mandar os caras lhe matar”. E eu disse a ele: “Sai da minha casa agora”. Foi. Chegava dentro de casa assim, drogado, teve uma vez que ele trouxe arma pra cá. Pegou a arma. Foi pra uma gafieira ali, uma dança e meteu bala pra cima, pra se mostrar. Muito doidão de pedra, maconha.

 

Agora, o outro era mais calmo, só ficava alterado quando usava droga. Graças a Deus, parou, saiu, parou de se envolver com droga. Ele ficou melhor, parou de ficar arengando dentro de casa, tornou-se um filho bom. Quando entrou no ViraVida ainda deu muito trabalho lá também. Mas foi mudando, conseguiu mudar muito. Eu sei, porque eu participava de tudo lá. Ele: “Mainha, vai ter isso. Mainha, vai ter aquilo. A senhora vai?”. Eu disse: “Vou”. Porque ele viu que eu estava ali, sempre ali participando, dando a maior força, o maior apoio. Porque não adiantava, eu colocar ele num projeto assim e não frequentar quando acontece uma reunião, tem uma festinha lá pras mães, uma coisinha ou outra. Não adiantava. Ele ia dizer logo: “Minha mãe não tá apoiando em nada”. Houve muita melhora na vida do meu filho.

 

Ele trabalhava de manhã, terminou os estudos, aí ficava trabalhando de manhã, no depósito, e à tarde ele ia pro curso, pro Projeto ViraVida. Ele está fazendo Auxiliar Administrativo.

Hoje em dia, tá uma pessoa totalmente mudada, totalmente mesmo! Hoje em dia, eu me orgulho dos meus filhos, eu tenho orgulho dos meus três filhos, eu tenho. 

 

Nessa região, o que a pessoa mais encontra é droga. Sorte daquela mãe que mora aqui hoje em dia que não tenha o filho envolvido nas drogas. E se tiver filho assim, que entrasse no projeto, é muito sorte, bota a mão pro céu, porque o projeto muda mesmo a vida do ser humano. Eu tiro pelo meu filho, ele foi jogado dentro do canal, o rapaz disse na minha cara: “Não atirei nele porque eu tava sem revólver”. Eu ainda fui me agarrar, fui me atracar com esse homem, ainda fui pra cima dele. Eu disse: “Se você matasse meu filho, eu matava você também”. Foi, eu disse isso a ele. O ódio assim que eu fiquei porque você ver, mesmo assim, ele estando errado, eu não passei a mão em cima da cabeça dele, eu conversei com o rapaz, que um dia haveria de chegar e bater no meu filho um monte pra poder espancar meu filho e jogar dentro do canal. Ele não é bicho. Nem com animal a gente faz isso, imagine com um ser humano, não é não? Aquele impulso de mãe. Mas eu quase que morria também por causa disso, eu fui pra cima mesmo das pessoas, dos traficantes, não quis saber de nada, não.

 

Esse projeto ajudou muito a minha vida, como ajudou a vida de muitas mães aqui dentro.

 

Eu já sofri tanto na vida, já lutei tanto, e hoje em dia eu tenho a minha casa, tenho o meu trabalho, sou digna de mim mesma, tenho respeito pelos outros. E criei meus filhos sempre assim, pode andar de cabeça erguida em todo lugar que chegar. A gente lutando consegue tudo na vida.

 

O meu maior sonho era trabalhar. Estou trabalhando. Eu trabalho de auxiliar de cozinha, trabalho em um restaurante. Agora de dezembro pra janeiro, eu vou me inscrever no curso de Enfermagem.. Porque eu me formei de recepcionista hospitalar, tenho diploma aí, tenho tudo, agora quero fazer de Enfermagem.

 

Eu lutei muito em hospital com minha mãe e com meu pai e vi que fica muita gente no hospital jogado, só, sem família aparecer, os enfermeiros não cuidam direito. É. E se com fé em Deus eu conseguir me formar em Enfermagem, eu vou cuidar dos pacientes e vou dar carinho pras pessoas.

 

Nesta entrevista foram utilizados nomes fantasia para preservar a integridade da imagem dos entrevistados. A entrevista na íntegra bem como a identidade dos entrevistados tem veiculação restrita e qualquer uso deve respeitar a confidencialidade destas informações.

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