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História

De comércio de frutas à fábrica de roupas

História de: Salvador Scutti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

Descrição da família. A infância e os tempos de juventude passados na fazenda Toriba. Descrição de como conheceu a esposa. A fazenda e as funções que exercia. A abertura do próprio negócio e os desafios enfrentados. A Segunda Guerra Mundial e o funcionamento do armazém. A abertura do comércio de frutas. Viagens e mudança para São Paulo. O trabalho no Mercado Municipal e no Ceasa. Impressões de São Paulo e volta para Matão. O desenvolvimento do comércio de frutas e a montagem de uma fábrica de roupas. O comércio exterior, as novas modalidades de comércio e o trabalho com confecções. Trajetória de vida.

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História completa

P/1 – Então diga o seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R – Salvador Scutti, nascido em Matão, Estado de São Paulo, 24 de julho de 1928.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Julio Scutti e Benta Maria Ragazzi.

 

P/1 – E do seus avós paternos?

 

R – José Ragazzi e Lavínia Roda.

 

P/1 – E os maternos?

 

R – Ah, tá invertido.

 

P/1 – Tudo bem.

 

R – Maternos é que é o José Ragazzi e paternos é Salvador Scutti e Rosa Furlan.

 

P/1 – E qual que era a atividade dos seus avós?

 

R – Lavradores.

 

P/1 – E dos seus pais?

 

R – Meu pai começou como lavrador, depois ele trabalhava com caminhão de aluguel, caminhão próprio.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Era do lar.

 

P/1 – Qual é a origem do nome da família Scutti?

 

R – A origem deve ser italiano, porque são descendentes de italianos.

 

P/1 – Qual a região da Itália?

 

R – Do paterno, é Altino e materno é de Mantola.

 

P/1 – E quantos irmãos o senhor tem?

 

R – Irmãos, são...

 

P/1 – Irmãos, irmãs.

 

R – Quatro, dois irmãos e duas irmãs.

 

P/1 – Bom, vamos falar agora da sua infância, como era o local onde morava, a casa, a rua, o bairro?

 

R – Bom o início mesmo foi na fazenda, onde o meu pai trabalhava, depois quando chegou a época de escola mudamos pra Matão. Morava sempre em casas de aluguel, casas popular, num tinha condição de morar em casas boas, até chegar a idade de trabalhar, né?

 

P/1 – E como que era a casa lá na fazenda?

 

R – Aí eram casas boas, bem ampla, bem arborizado, aí já era casa bem melhor.

 

P/1 – O senhor morou, passou a infância na fazenda até?

 

R – É, parte foi na fazenda, né?

 

P/1 – Mais ou menos até quando, pra gente tentar situar.

 

R – Bom, quando nós viemos pra cidade, eu tinha mais ou menos, deveria ter uns seis anos mais ou menos, depois na cidade de Matão, antes de trabalhar eu tive a fase escolar, quatro anos de escola. Aí, quando completou 14 anos, começou no batente, precisou trabalhar no pesado.

 

P/1 – E da sua infância, o que o senhor lembra de brincadeiras, o que se fazia?

 

R – Jogo de bola, normalmente maior parte era jogo de bola, futebol e brincadeira de moleque naquele tempo era brincar de golfinho, de cruzado, você tinha diversas brincadeiras, né?

 

P/1 –Conta uma dessas brincadeiras, como era?

 

R – É o golfinho era aquela dois pauzinhos montado em cada lado, com bastão jogava a bola, o outro até que não voltasse ia contando ponto, quantas vezes ia e voltava, contava ponto, e aí quando chegava naquela no que se combinava ganhava a partida, né?

 

P/1 – E assim o senhor aprontava muito com a molecada?

 

R – (Riso) De vez em quando, sempre precisar aprontar.

 

P/1 – Então conta uma arte, uma situação que o senhor...

 

R – Ah, eu sempre fui assim, um garoto pacato, nunca fui de muita malvadeza, sempre, quer dizer, os pais eram muito severo, então a gente não tinha muita liberdade pra aprontar não, não é que nem hoje, que a molecada tá mais solta, mas nosso tempo era, mesmo na escola se aprontasse alguma coisa, chegava em casa a repressão vinha, não tinha muita folga não.

 

P/1 – E na fazenda, como era a casa, a divisão da casa, os cômodos?

 

R – Era uma casa boa, uma casa de tijolo à vista, na maioria delas, toda forrada, assoalhada, quarto, cozinha, banheiro, quintal grande, podia criar galinha à vontade, foi uma fase boa da vida da gente, embora pouco dinheiro, mas se vivia bem.

 

P/2 – Quando o senhor fala na maioria delas, as casas da fazenda, era uma só ou era mais famílias que moravam?

 

R – Não, porque aí eles dividiam, por exemplo quando eram camaradas em geral tinha as colônias, aí já era uma casa inferior. Quando era uma posição melhor então já era casa tipo empregada, então você já tinha uma casa mais confortável, e eu praticamente sempre fui privilegiado porque sempre morei em casa boa na fazenda, né?

 

P/1 – E ainda falando um pouquinho dessa casa, o senhor se lembra assim como que era o fogão, o banheiro?

 

R – O fogão, no começo era lenha, inclusive a fazenda fornecia lenha pra todos empregados. Depois com o tempo apareceu o gás aí ninguém mais mexeu com o fogão de lenha e sumiu o fogão de lenha.

 

P/1 – Nessa fazenda por exemplo, o banheiro era dentro de casa, fora da casa?

 

R – Na casa de empregados era dentro de casa.

 

P/1 – A de colono que era fora.

 

R – A de colono já era fora.

 

P/1 – O senhor se lembra do cotidiano da casa, o que acontecia, como era o dia-a-dia da casa, horários?

 

R – É, normalmente você levantava cedo porque tinha que manter o horário na empresa, então ­­­normalmente você começava o trabalho às 6 horas da manhã. Quer dizer, praticamente era das 6 da manhã às 6 da tarde, então sobrava muito pouco tempo pra ficar em casa. Levantava já em cima da hora, corria pra picar o cartão e só saia às 6 horas da tarde, uma hora pra almoço, almoçava na própria empresa, já levava o almoço.

 

P/1 – Mas quando o senhor era menino, acompanhava o horário do seu pai?

 

R – Sempre acompanhava. Só quando ele saia a viagem pra fora da cidade, então não tinha condição de acompanhar. Mas quando estava na cidade, sim.

 

P/1 – E nessa época o senhor acompanhava o trabalho dele também, ia visitar o local de trabalho?

 

R – Não, porque era caminhão de aluguel então não tinha lugar certo, então ele saia ficava difícil pra acompanhar.

 

P/1 – Fala dos seus estudos, da escola que freqüentou, quais as lembranças que o senhor tem desse período aí da escola.

 

R – É a escola praticamente foi só o primário, não tive condição de fazer além do primário. Naquela época era difícil, então me lembro bem da primeira professora, dona Iolanda, era bem enérgica, depois segundo e terceiro ano também foi a mesma professora, dona Maria e depois, terceiro e quarto ano aí foi uma bem brava mesmo. Foi a dona Nésia, aí foi de lascar viu, ou aprendia ou contava, não tinha brincadeira na classe do jeito que tem hoje, tinha muito respeito, ninguém aprontava em sala de aula não.

 

P/1 – E as brincadeiras com os amigos?

 

R – É, só na hora de recreio, o recreio era muito rápido, então não tinha muito tempo, jogava bolinha de vidro, bolinha de gude e era por aí só.

 

P/1 –Acha que essa participação na escola, essa formação na escola, ajudou?

 

R – Ajudou, porque deu início pelo menos à minha atividade, mas o que valeu foi mesmo o primeiro emprego. Daí por diante que essa companhia inglesa aí então a gente aprendeu muito, praticamente foi uma escola.

 

P/1 – Antes da gente entrar na questão da companhia, o senhor tem mais alguma lembrança que marcou, do período escolar?

 

R – Mais os amigos, muitos deles já não existem mais hoje, já morreram, tinha um que era amigo de verdade mesmo, até ele chegou a trabalhar na rádio Record, Durval de Souza, morávamos vizinho aqui em Matão, depois ele mudou pra São Paulo foi artista da Record, era comediante, muito gozado, foi uma boa fase.

 

P/1 – Vamos pular um pouco, fala da sua juventude, o senhor tinha grupo de amigos?

 

R – Tinha.

 

P/1 – Saía, fazia o quê?

 

R – Alguns passeios, mas era muito pouco, porque naquele tempo condução era difícil, ninguém tinha condução, da fazenda pra cidade era ônibus só, que a fazenda fornecia só em fins de semana. Agora hoje é diferente, hoje todo mundo tem carro próprio, hoje a molecada sai, mas naquele tempo a barra era pesada, não tinha facilidade nenhuma.

 

P/1 – E qual que era a diversão?

 

R – A diversão era jogar futebol, e passear, algum piquenique, alguma coisa dessa natureza, só.

 

P/1 – Não tinha uns bailes na cidade.

 

R – É baile tinha.

 

P/1 – O senhor freqüentava os bailes?

 

R – É, mas nunca fui afim de dança e coisa. Nunca fui.

 

P/1 – O senhor se lembra quando saia com os amigos, como era a moda da época, como é que todo mundo se vestia?

 

R – É, não era tão sofisticado como hoje, era normal calça, camisa, paletó, não tinha muita diferença. Só que hoje tem muito mais qualidade, muito mais variedade, naquele tempo tinha muita pouca opção de fazer, pelo menos pra nós tinha pouca opção, né?

 

P/1 – Se usava chapéu?

 

R – É, às vezes usava. Agora a gente vê algumas fotos daquele tempo e fala: “Nossa mas não é possível, né?”

 

P/2 – Os amigos com quem o senhor saia, quem eram eles?

 

R – É, eu me lembro de um deles, chamava ele de Mur, Edmur Franco, também trabalhava na fábrica de óleo tinha diversos deles, né?

 

P/2 – Era amigos da vizinhança ou da escola?

 

R – É da vizinhança, morava na própria comunidade.

 

P/1 – E, além de ter esses bailes tal, tinha alguma outra coisa assim?

 

R – É a maior parte das vezes era jogo de futebol, né?

 

P/1 – Futebol mesmo.

 

R – Futebol era o que mais predominava.

 

P/1 – Cinema tinha?

 

R – Cinema tinha. Inclusive na fazenda tinha uma sala de cinema. Em Matão também.

 

P/1 – Bom, falando de juventude e tal, como era a paquera na época, como é que se arrumava namorada?

 

R – Sempre aquele básico, passou, olhou, gostou, quer dizer aí precisava dar em cima pra ver se vingava alguma coisa. E na sede também, tinha muitas meninas mais ousadas que começavam a assediar, então precisava responder, né?

 

P/1 – Isso acontecia mais na fazenda, na cidade?

 

R – É, mais na fazenda. Foi praticamente onde eu passei mais a mocidade.

 

P/1 – Quer dizer essa fazenda tinha muita gente, que morava lá.

 

R – Tinha, chegou uma época de ter mais do que na cidade, era uma companhia muito grande, então ele sempre tinha em torno de mais ou menos 10, 12 mil pessoas, então era bem grande.

 

P/1 – E o senhor pode contar como foi o seu primeiro namoro, como é que conheceu a primeira namorada?

 

R – É, a primeira namorada firme mesmo foi a que atual minha esposa, aliás uma grande mulher.

 

P/1 – E como é que o senhor a conheceu ?

 

R – É... morando lá na fazenda, começou passar, olhar, começou naquilo lá, quer dizer, aí já começou a nascer o namoro, começou a conversar e namorar, namoramos pouquinho, quase 10 anos. Foi uma fase boa também da vida, o namoro, é uma fase boa, se bem que o casamento é muito bom, já fazem 42 anos que nós somos casados.

 

P/1 – Mais os dez de namoro?

 

R – E mais os dez, teria completado as bodas de ouro, né?

 

P/1 – E o senhor se lembra desse período do noivado, do dia do casamento?

 

R – É, o dia do casamento foi uma festa muito bonita. Primeiro teve o almoço, quer dizer, naquele tempo não tinha esse negócio de buffet, então era a família que fazia, era mais na maneira de assar, do frango assado, leitoa, macarronada, era comida de verdade. E depois na janta também daí foi chopps, mas foi uma festa muito boa, marcou bem a memória da gente.

 

P/1 – Isso aí o senhor estava na fazenda já?

 

R – Já estava na fazenda.

 

P/1 –Fale um pouco da fazenda, como era, no geral?

 

R – Bom a fazenda era uma companhia muito grande, era mais ou menos 23 mil alqueires de terras, então era muito grande, era subdividido em 23, 24 fazendas, cada uma tinha suas benfeitorias, colônias, terrenos de café, três delas tinha armazém de fornecimento para empregados, tinha em Boa Vista, Araruba e Niagara. E as demais, tinha uma delas que tinha farmácia, duas tinha farmácia, então era uma fazenda na época era muito, tinha bastante conforto.

 

P/1 – E no início essa fazenda era de café?

 

R – De café e gado.

 

P/1 – E o seu pai que começou a trabalhar na fazenda, né?

 

R – Não, fomos nós que começamos trabalhar, eu e meu irmão. Meu irmão começou um pouco antes, eu comecei em 1943, meu irmão começou em 42 e eu trabalhei como empregado de 43 até 58.

 

P/1 – O senhor teve várias atividades dentro dessa fazenda, o senhor pode...

 

R – Iniciou trabalhando na fábrica de óleo, depois da fábrica de óleo mesmo passei pelo laboratório da fazenda, fazia muita experiência de óleos essenciais.

 

P/1 – Na fábrica de óleo, o senhor trabalhava com o que?

 

R – Era serviços gerais. Aí depois eu passei pro laboratório. No laboratório eles tinha uma extração de óleos essenciais e no laboratório fazia essa experiência pra ver o rendimento da destilaria, então eu trabalhava nessa parte. Aí depois eu passei na sede da fazenda aí, onde tinha um depósito de fornecimento pros empregados de gêneros alimentícios, tipo de cesta básica e eu trabalhei nesse almoxarifado. Até mais ou menos eles construírem um armazém que foi o armazém geral da fazenda, que era um armazém mais completo, aí já era secos e molhados, tecidos aí já era completo. Era um bom armazém pra época.

 

P/1 – E aí o que o senhor fazia lá na fazenda, no armazém?

 

R – Eu trabalhava de escriturário aí e depois em 53 eu passei a ser encarregado do armazém até 58.

 

P/1 – Ah, o senhor trabalhava na parte do escritório?

 

R – No escritório.

 

P/1 – Como que era atividade do armazém, o objetivo dele o que era?

 

R – Era fornecimento de gêneros pros empregados da fazenda. A maioria era empregados, cada empregado tinha um cartão de autorização de limite de compra e a gente obedecia aquele limite. E quando precisava de algum suprimento, então o interessado ia pro encarregado dele ver se tinha condição de aumentar ou não. Mas normalmente se cumpria o estabelecido.

 

P/1 – E o empregado tinha esse cartão, esse cartão funcionava?

 

R – Lá tinha o nome do empregado e o valor que ele podia gastar. Era uma ficha de crédito, ele podia chegar até naquele limite.

 

P/1 – Isso era descontado do salário?

 

R – Descontado do salário, descontava em contas correntes. E mensalmente renovava o valor e coisa, então de mês pra mês às vezes fazia diferença.

 

P/1 – No armazém, o que o pessoal gostava de comprar além dos gêneros de primeira necessidade, o que o pessoal mais buscava?

 

R – Por incrível que pareça, a pinga saia muito, viu, inclusive neste armazém que nós tivemos em Cambuhy, acho que vendia mais pinga do que arroz e feijão. Era impressionante, naquele tempo a turma bebia bastante.

 

P/1 – E além da pinga, tinha alguma outra coisa ,ou não?

 

R – As outras bebidas já era, como era mais cara também, já saia menos, né.

 

P/1 – Vendia-se roupas também no armazém?

 

R – Nesse armazém da Cambuhy tinha tecidos, louças, ferragens, bebidas.

 

P/1 – E de onde vinha todas essas mercadorias?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – A fazenda comprava dos fornecedores?

 

R – Dos fornecedores.

 

P/1 – E como era isso ?

 

R – Aí o empregado era beneficiado, porque a fazenda aplicava uma porcentagem insignificante em cima do produto, então o preço ficava bem competitivo, então o beneficiado era o empregado que naquele tempo também não ganhava muito, então ele era beneficiado com preço bom, né?

 

 

P/1 – E o empregado da fazenda ia também na cidade comprar alguma coisa, tudo.

 

R – Ele tinha liberdade, ele não era obrigado a comprar só na fazenda, então ele tinha liberdade. Se ele tivesse condição de suportar pra esperar receber o pagamento livre de despesa, então ele ia procurar onde... alguma outra coisa que ele quisesse comprar. Ele tinha liberdade pra comprar na cidade em qualquer lugar. Não era obrigado a comprar só na fazenda. Na fazenda a maioria comprava os mais necessitados, que dependia de crédito e coisa e mais vantagem do preço melhor, sempre a fazenda fornecia um preço melhor.

 

P/1 – Voltando à na infância, o senhor se lembra da, como é que era, o que o senhor fazia na casa da sua mãe, lá na fazenda?

 

R – É uma das coisas também que mais ou menos, uma vez por semana que fazia era torrar café também. Tinha que escolher o café, tirar todas as impureza, botar no torrador e ficar mexendo até dar o ponto de torrado. E estendia num pano limpo pra esperar ele secar, pra tirar o calor dele pra poder guardar. Ou guardava moído ou tirava, moía em grão só de acordo com a necessidade. E era muito bom.

 

P/1 – O senhor tem boas lembranças da época.

 

R – Tenho.

 

P/1 – O senhor trabalhou como encarregado do armazém até...

 

R – 1958.

 

P/1 – E depois disso?

 

R – Depois disso nós partimos pra vida particular, pro negócio particular. Porque em 58 houve o encerramento da companhia agrícola então na aquisição da Walter Moreira Salles, aí começou o loteamento, então eles indenizaram todo o pessoal que estava na ativa. Então aí os armazéns foram arrendados, então a fazenda não ficou, quem era interessado pra comprar determinada área de terra ele comprava, tinha preço pra toda... o que ele tinha interesse, tinha negócio, se ele tivesse intenção e condição de comprar ele compraria qualquer quantidade de terra, grande pequena.

 

P/1 – Nessa época o senhor fez o quê depois de trabalhar como encarregado?

 

R – É aí eu e meu cunhado montamos um armazém na fazenda Cambuhy, também fazenda da própria companhia, pra fazer fornecimento a empregado dessa fazenda. Como a gente já conhecia o esquema, então facilitou pra que a gente entrasse nesse negócio. Mas infelizmente durou só dois anos, porque o propósito daquilo que foi contratado, o fazendeiro não cumpriu com o pagamento, então a gente também não suportou a carga pra manter, pra financiar, ele também não era possível, então durou dois anos só.

 

P/1 – E a atividade que o senhor fazia nesse período de dois anos lá, o que era?

 

R – Era um armazém praticamente, não tão completo desse que eu sai mas pelo menos a cesta básica cobria também completa. Então fazia-se uma despesa normal, vendia já no mesmo esquema de ordem, também, que trabalhava antes, só que o fazendeiro que comprou aquela área não cumpriu com aquilo que foi prometido, que foi combinado. Fazia fornecimento no mês seguinte pagar, quer dizer, você compra um mês, dois meses, três meses e num recebe, aí ficou sem condição de continuar. Aí nós paramos. Dois anos só e já paramos.

 

P/2 – E como era o armazém, as características?

 

R – Era um barracão, era um salão só, aí nós montamos as prateleira e tal e coisa, parte ficou pra servir o público e parte ficou pra depósito.

 

P/2 – Tinha o balcão?

 

R – Balcão.

 

P/2 – E os clientes vinham compravam ou vocês chegavam a entregar?

 

R – Normalmente, o esquema era mandava o pedido e a gente entregava na casa Esse era o mais normal. Mas tinha também quem vinha fazer compras no próprio armazém, mas normalmente eles mandavam o pedido com antecedência, a gente aprontava e enviava. A gente mesmo fazia a entrega.

 

P/1 – O senhor vendia pra colonos da fazenda Cambuhy?

 

R – Isto.

 

P/1 – E aí quem se obrigava a pagar era...

 

R – Era o fazendeiro, que ele descontava em folha. Só que ele só descontava mas não repassava pra nós, aí não teve condição de continuar.

 

P/1 – E como é que o senhor se reergueu depois desse baque?

 

R – É, aí a gente ficou lá nesse período de dois anos, aí então abriu venda pra pessoal de fora da fazenda, e fomos teimando até conseguir receber aquilo que era devido por ele. Mas demorou bastante. Foi uma luta meio brava.

 

P/1 – E voltando um pouco, na época da guerra, da Segunda Guerra como é que ficou a situação lá dentro da fazenda?

 

R – É, o que influiu mais aí foi quando houve o racionamento de combustível, que a gasolina praticamente desapareceu, foi na época de 43, 44, mais ou menos, aí o problema transporte, quer dizer transporte praticamente ficou muito limitado. E naquela época também teve muita perseguição pra estrangeiros também, mesmo na própria Cambuhy teve isso daí. Italiano, japoneses, alemão, muita gente perdeu rádio, perdeu arma de fogo.

 

P/1 – E o que o senhor se lembra mais sobre isso?

 

R – Não, o pessoal ia lá por exemplo, o pessoal do governo, ia por exemplo se tinha um italiano lá por exemplo ele não podia ouvir o rádio, porque sei lá o que podia resultar ele ouvir notícia da guerra. Mas ele perdia o bem dele, não sei se chegaram devolver, acredito que não devolveram mais.

 

P/1 – E o governo estava sempre atrás de rádio?

 

R – É rádio, arma de fogo, e os visado era o estrangeiro, o italiano, o alemão, japonês, esse pessoal passou maus momentos.

 

P/1 – E como era o alistamento, quem era convocado, como é que era?

 

R – Eu na minha época fiz alistamento e a classe inteirinha foi dispensada. Não servi o exército, a classe toda ficou excluída.

 

P/2 – Por que? Teve algum motivo?

 

R – Não, acho que não, na época acho que não tinha necessidade. Não fiz nem o Tiro e nem servi o exército, então dispensaram, a classe ficou totalmente dispensada.

 

P/1 – Durante esse período, como ficou o abastecimento, já que não tinha a gasolina, estava racionada.

 

R – Não, tinha, mas era moderado, então cada um reservava aquele racionamento pra coisa mais necessária, né.

 

P/1 – Mas o abastecimento de gêneros alimentícios, de mercadorias?

 

R – Não chegou a faltar. Houve racionamento por exemplo de sal, que dependia de coisa, farinha na época também teve racionamento, açúcar, mas era um racionamento que a própria Prefeitura às vezes fornecia pra família, conforme a família tinha direito a tantos quilos de sal, vamos dizer assim. Então teve momentos de apreensão.

 

P/1 – E o senhor acompanhou a guerra?

 

R – É a gente sempre acompanhava, né?

 

P/1 – Como?

 

R – É através de jornal, noticiário, pelo rádio sempre dava notícias, jornal.

 

P/1 – E o que se ouvia muito nessa época no rádio, quais eram os programas mais ouvidos?

 

R – Era jornal, jornal falado, novela era tudo no rádio, você só ouvia, só tinha voz, não tinha imagem. Então era meio esquisito, agora hoje tá uma beleza, hoje você vê tudo, aqui novela assistiu, você chegou assistir novela no rádio?

 

P/1 – E o senhor se lembra dessas, o senhor escutava muito o rádio?

 

R – É, eu era obrigado, porque mulher, por exemplo, novela é indispensável, quer dizer, qual a mulher que não assiste uma novela. Tem um rádio só em casa, você é obrigado a assistir junto. Naquele tempo até, pouca gente podia ter rádio. Nossa, o primeiro rádio que nós compramos foi um sacrifício tremendo, pagar um punhado de parcela, e a prestação a longo prazo. Hoje tem um punhado de televisão, temos no banheiro, temos no quarto, um na cozinha, coisa melhorou muito.

 

P/1 – Então, quando o senhor trabalhava lá no armazém, quais os equipamentos que tinha pra pesar, pra registrar, essa coisa toda, vendia-se a granel?

 

R – Não, tudo pesado na hora. Não tinha pronto assim, era tudo a granel e pesava na hora. No escritório, com muito custo, às vezes a gente conseguia uma máquina de somar, era tudo somado na mão. Hoje, você pega dois mais dois, vai na maquininha, naquele tempo você fazia coluna quilométrica e tudo na memória. Eu até hoje gosto ainda de exercitar, eu faço muita soma na, sem usar máquina.

 

P/1 – O senhor se lembra, consegue descrever como era a balança?

 

R – A balança uma Filizola, essa de um prato só, de capacidade 20 quilos. E naquele tempo também ela não tinha sacaria plástica, embalagem plástica, era tudo saco de papel. Você tinha lá os caixotes acomodados com mercadoria a granel, arroz, feijão, açúcar e ia pesando, é cinco quilo, pesa cinco quilo, é oito, pesa oito e daí por diante, era um sacrifício tremendo.

 

P/1 – E qual era o horário de funcionamento do armazém?

 

R – Bom, o armazém na fazenda era das 6 da manhã às 6 da tarde, naquele tempo não tinha horário de comércio. Naquele tempo era clareou, tá trabalhando.

 

P/2 – Todos os dias?

 

R – Todos os dias, sábado só domingo que era folga.

 

P/1 – E quem mais ia comprar era a mulher ou o marido?

 

R – Aí mais ou menos, porque a maior parte mandava o pedido pra receber em casa. Só quando tinha que comprar uma coisa extra ia escolher pra ver panela, tecidos, bebida. Isso não ia na despesa, isso daí cada um ia comprar no armazém, aí tinha condição de escolher, de ver preço, ver tamanhos e coisa.

 

P/1 – Quer dizer que a companhia dava o direito lá da pessoa tá comprando uma certa quantidade de certo valor.

 

R – Inclusive era pro armazém todo, pra compra toda, né?

 

P/1 – Mas tinha limitação de produtos?

 

R – Não, aí de primeiro atendia a despesa que era o principal, depois a sobra cada um gastava aquilo que bem entendia.

 

P/1 – E depois que o senhor montou esse primeiro negócio que durou dois anos, montou o que mais?

 

R – É, aí depois em 64 nós fizemos uma sociedade. O Orlando, meu irmão, meu cunhado Milton e eu, aí nós formamos à Comercial de Frutas Matão Ltda., isso em 64, trabalhar com frutas pro mercado em São Paulo, beneficiava aqui, mandava pra São Paulo em consignação. Isso foi até, porque em 70 eu precisei ir pra São Paulo. Ou eu ia vender em São Paulo, ou se não, tinha que parar o comércio de fruta porque a consignação que você fazia e o preço bom que acontecia lá, você não recebia aqui. Você só ouvia dizer do preço bom, só que você não percebia ele. Aí em 1970, nós resolvemos de aumentar participação no comércio, então resolvemos que precisava ir um pra São Paulo. E eu fui escolhido pra ir pra São Paulo, mas necessariamente no Parque Dom Pedro, aí então depois começamos a perceber bons resultados e tivemos a felicidade de eu levar o meu cunhado Nelson, que ajudou muito. Então aí fizemos bom negócio porque a fruta que a gente mandava era muito boa, uma qualidade muito boa, variedade bastante. Então lá a gente fez muitos negócios bons.

 

P/1 – E esse novo negócio era dentro da fazenda Cambuhy também ou já era em outro local?

 

R – É, nossa, o Orlando aproveitou o próprio barracão do armazém, instalou uma máquina de beneficio de fruta e aí começou. Beneficiava de dia até completar a viagem, à noite, mandava pra São Paulo e de manhã cedo já estava no Mercado Municipal e aí a gente vendia lá.

 

P/1 – E na região o senhor vendia também ou só vendia ...

 

R – Não, só fazia venda, porque era uma fruta trabalhada, já polida e coisa, então aqui não tinha necessidade de vender, este tipo de coisa só fazia porque o mercado de São Paulo exigia esse tipo de qualidade, né?

 

P/1 – E como era o beneficiamento das frutas?

 

R – É, beneficiamento passa por um processo de, primeiro de seleção, de escolha, tirar podres, tirar defeitos assim maiores. Depois, passa por uma esteira de lavação, lava ela, depois passa pra uma outra esteira pra polir e secar, depois cai numas bandejas com tamanhos classificados, aí as embaladeiras vão embalando por tamanhos, porque tem diversos tamanhos, de acordo com a bitola da fruta, mais a caixa.

 

P/2 – Quais eram as frutas?

 

R – Bom, aí as variedades todas, laranja pêra, natal, valência, laranja lima, abacate, laranja bahia, baianinha, ponkan, tangerina cravo, morgote, tinha muitas variedades, tinha naquela época era variedade e qualidade tinha muito, hoje já não existe mais isso, pelo menos na nossa região, não tem.

 

P/1 – E o senhor comprava as frutas nas fazendas aqui?

 

R – É, comprava as frutas nas fazendas, tipo assim. Via lá, avaliava o pomar, comprava ou ele fechado, ou comprava por peça, por ano e aí determinava tipo de pagamento por mês, por colheita. Então, tinha diversas variedades de condições de compra e de pagamento. Trabalhava muito com limão, naquela época também, limão a gente sempre comprava pomar fechado. Tinha tantos mil pés, comprava ele por ano, por exemplo, o que desse naquele ano era nosso e por um preço combinado, ou pagava mensal ou pagava no ato.

 

P/1 – Se desse algum problema na colheita, o risco era seu?

 

R – Ah, sempre era eu o risco. Comprou fechado, o risco é seu. Aí tempera, fica por nossa conta, aí tem chuva de pedra, vento, por exemplo o próprio tratamento você tinha que tratar a fruta, porque se não ela muda de qualidade, trabalhava com muita manga também, manga é uma coisa que requer muito trato, na ocasião, manda pra São Paulo, era uma pintura de fruta, era uma manga adem em São Paulo nunca viu um produto daquela natureza, bem trabalhado. Que aqui você trabalhava muito bem aqui na, o Orlando e o Milton então apanhava a fruta quando estava no ponto exato de colheita, que ela já estava querendo madurar, então só chegava no barracão lá, pra uniformizar maturação, aí embalava, no dia seguinte estava em São Paulo. E aí no mesmo dia estava na feira. Que a feira lá em São Paulo, o Mercado Municipal abria às 4 horas da manhã. Então todo dia às 3 horas da manhã eu precisava tá lá já, pra ver o que chegou, como é que estava entrada de fruta, pra se basear em preço. E o tempo era muito curto pra trabalha. Quer dizer, abria pro público às 5 horas e o feirante tem pressa pra comprar. Porque às vezes ele tem feira longe, então ele tem que se abastecer rapidinho e ir pra feira, pra montar o negócio dele também, né?

 

P/1 – E era o senhor que ia pra São Paulo pra ver essa?

 

R – Fazer a venda, eu e o meu cunhado Nelson.

 

P/1 – E o senhor viajava freqüentemente?

 

R – Não, depois eu mudei pra São Paulo, eu só fiquei cinco meses pra até a molecada aqui terminar o primeiro semestre, depois mudou pra São Paulo a família toda. E eu fiquei em São Paulo de 70 a 78 quase 79, depois voltei pra cá novamente porque aqui tinha, já era a época da indústria, né?

 

P/1 – Como é que foi essa mudança pro senhor sair de Matão e morar em São Paulo?

 

R - Ah, foi barra pesada, a começar do horário de trabalhar. Que aí você precisava levantar todo dia no mínimo às 3 horas da manhã, num perder hora nunca, era proibido, senão não tinha ninguém que vendesse, e tá no mercado no mínimo aí pelas 3 e meia pra ver o que chegou, andava os romaneios de frutas, você sabia antes de descarregar o que tinha vindo, que a gente já conhecia as procedências, já sabia que tipo de qualidade que tinha e já procurando fazer algum negócio fora, pra ganhar tempo. Tudo o que você pudesse vender lá fora, que não precisasse descarregar, você ganhava tempo e espaço, porque o espaço lá era muito pequeno, pois era uma barraca dentro do Mercado Municipal então era o espaço era irrisório. Então você tinha que sair da mercadoria a qualquer custo, não podia bobear não, era tempo limitado. Passou a época de feira, o que sobrou, umas já não alcançava o preço que você vendeu cedo. E se sobrasse pro outro dia, então, você estava fuzilado. Porque aí você não tinha lugar pra descarregar a viagem no outro dia. Então necessariamente você tinha que sair da mercadoria no dia.

 

P/1 – Aí vendia, quem era os compradores?

 

R – É, compradores não tinha assim efetivo não tinha nenhum. Alguns, que já conheciam mercadoria às vezes comprava no dia, já sabia se amanhã viesse a mesma fruta, então fazia uma reserva. Mas dificilmente calhava de ser a mesma coisa, mas normalmente eles passavam pela barraca e via se era a mesma coisa. Então, se gostou da mercadoria anterior, acabava levando a que tinha chegado. Mas tinha muita mudança de fruta. Trabalhava com muita fruta . Era limão, manga, abacate, variedades de tangerina . Então, às vezes recebia dois caminhões por dia, às vezes tinha condição de descarregar um, depois não tinha condição de descarregar o outro, então você precisava batalhar bastante pra vender, então precisava ir atrás de cliente a qualquer custo, a qualquer preço às vezes, pra sair da mercadoria. Que se sobra pro outro dia é pior.

 

P/1 – Enquanto o senhor estava em São Paulo, os outros sócios estavam em Matão?

 

R – É, comprando, embalando, cuidando da compra de fruta aqui, né?

 

P/1 – E toda comunicação entre o senhor e São Paulo?

 

R – Telefone, todo dia telefone. Saber se tinha saído bem, se tinha saído mal, se podia aumentar, diminuir, aí controlava, né?

 

P/1 – O transporte era feito por vocês mesmos ou contratado?

 

R – Não, era transportadora. Mas num compensa ter, já naquele tempo não compensava ter condução própria.

 

P/1 – Era muito caro?

 

R – É, caro, e a gente, os recursos caminhava tudo pra matéria-prima, pra compra de pomar então não sobrava pra fazer investimentos extras. Então, que tinha muita coisa pra investir. Se fosse investir, tinha que comprar fazendas, com produção, pois isso também não era possível, né?

 

P/1 – E esses anos que o senhor morou em São Paulo, o que o senhor sentiu da cidade mesmo, o senhor sentiu bastante diferença de morar na ...

 

R – Estranha bastante, uma porque, o que estranhava mais é o trânsito, porque você saía do mercado às 5, às 6 horas da tarde, 5 e meia, 6 horas, já pegava o trânsito pesado. Se era de carro, você chegava em casa você levava às vezes duas horas pra chegar em casa. Então chegava em casa, toma banho, jantar e dormir, não tinha outra coisa pra fazer. Não dava pra passear, não dava pra fazer nada, só sobrava o domingo pra dar uma saidinha.

 

P/2 – E o bairro que o senhor morava lá?

 

R – O bairro era Parque São Jorge, Tatuapé. Mas cedo era fácil, pega a Radial Leste, você tá em cinco minutos você tá no mercado. O duro era a tarde, a tarde era um transtorno tremendo, que teve uma certa altura também desse negócio, que nós fazíamos o Ceasa também, era Parque Dom Pedro e o Ceagesp, eu trabalhava cedo no Mercado Municipal e à tarde, no Ceasa.

 

P/1 – E como que era o negócio no Ceasa?

 

R – No Ceasa depois passou o Nelson pro Ceasa. O Nelson ficou tomando conta do Ceasa e eu fiquei no Parque Dom Pedro. E pra me ajudar na saída do Nelson, arrumamos um empregado. Eu precisava de dez empregados pra fazer o que a gente fazia, que lá era muita tensão, porque lá o negócio é muito rápido. Vendia muito limão em caixa assim pra despejar e o cara fazia hora, às vezes tentava sair sem pagar, precisava correr atrás do cara pra pegar, foi uma barra pesada viu, aí era tarefa do Nelson.

 

P/1 – O senhor lembra de alguma história?

 

R – Ah, muitas vezes o Nelson precisava sair correndo atrás de cliente que tentava sair sem pagar, porque era muito tumultuado o comércio cedo. Então usava muito esse sacoleiro vai lá, vira na sacola, vira no saco uma caixa de fruta e fica fazendo hora aí, não paga na hora, depois faz que esquece e sai sem pagar. Então precisa ir atrás pra num perder, se não como é que ia fazer pra acertar conta aqui.

 

P/2 – E tinha muito disso?

 

R – Tinha bastante, já naquela época era... porque o Parque Dom Pedro já era um local também muito pesado. E muita gente de fora, muito, então o fluxo de gente era muito grande, então ficava difícil pra, barraca pequena, muita fruta, então causava muita confusão.

 

P/1 – E o pagamento era à vista ou tinha pagamento a prazo?

 

R – Quando a gente conhecia algum feirante que você tinha confiança nele, então você fazia com que ele fosse na feira, vendesse, voltasse pra pagar Ou pagava no dia seguinte, mas durante o tempo que nós tivemos lá no Mercado, nós fomos bastante feliz porque nós praticamente não perdemos nada. Arriscamos bastante e não perdemos. Se for fazer as conta o que perdeu, não se perdeu nada em São Paulo. Agora se fosse hoje já não diria a mesma coisa. Que a coisa mudou muito.

 

P/1 – E o que o senhor achava da cidade de São Paulo nessa época?

 

R – É, eu acho que era mais tranqüila do que hoje, porque hoje, desde o trânsito, tá um inferno. Hoje, se faz frio, tem congestionamento, se chove, Deus me livre, então, num tem mais jeito. Pra quem precisa se locomover tá uma coisa muito ruim. E num falando da segurança, que a segurança aí, eu se tivesse em São Paulo ainda, fatalmente eu teria sido assaltado. Porque à tarde, normalmente a gente ia pro banco com pacotes de dinheiro, eu pagava tudo em dinheiro naquele tempo, ninguém trabalhava com cheque quase, era só dinheiro. A gente ia praticamente com um malote de dinheiro pro banco todo dia e era onde você passava, já ficavam olhando, e sorte que o banco era na Cantareira em frente, ficava pertinho, sempre tive sorte nunca fui abordado, nunca fui assaltado, graças a Deus essa parte foi muito boa.

 

P/1 – Quando o senhor começou a trabalhar com banco, de colocar, fazer depósito?

 

R – Ah eu sei, lá o banco eu usava só pra fazer depósito, porque lá não pagava nada eu só depositava e fazia remessa pra Matão. Mandava cheque praticamente quase diariamente pra Matão e aqui eles cobravam aqui e assumia os compromissos, liquidava os compromissos que foi assumido. Praticamente lá o banco era só pra depósito e bastante depósito.

 

P/2 – O senhor tem saudade de alguma coisa lá de São Paulo que marcou?

 

R – Ah, do movimento tenho saudades. O que se vendia, a maneira que a gente trabalhou, isso daí deixa saudades.

 

P/1 – Tinha os amigos lá?

 

R – É, que durante o dia no Mercado também era, quando acaba o movimento, tinha muita brincadeira aí, os outros na barraca, o Nelson era muito descontraído, então o pessoal brincava muito com ele, então aí era divertido. Agora na hora do vamos ver, ninguém dava confiança pra ninguém, aí cada um queria vender mais rápido pra ficar livre da coisa, porque se não entortava.

 

P/1 – E o senhor se lembra das brincadeiras, o que é que rolava?

 

R – Ah, tinha muito de jogar fruta um no outro, um ia na barraca do outro pra tirar fruta... Que normalmente esse pessoal, a boca da caixa é a fruta melhor que tem, então nêgo ia lá já tirava uma da boca, o cara já ficava louco da vida logo, mexeu na melhor, e o Nelson era arteiro, porque o Nelson era muito querido, nas barracas, todo mundo tinha muita amizade com ele, muito brincalhão, então ele cativava o pessoal.

 

P/1 – Aí depois o senhor ficou lá até 1978, né?

 

R – É, depois em 77 nós montamos essa unidade aqui de extração de suco, de óleos essenciais e suco, aí eu voltei pra Matão, aí num saí mais de Matão.

 

P/1 – Quais as lembranças que ficaram do tempo que ficou em São Paulo?

 

R – É, a lembrança que a gente tem é que era muito serviço, quer dizer, tinha muita escrituração pra gente fazer também, porque cada caminhão de fruta que ia, mandava um romaneio, com fruta estipulada, tipo, quantidade de caixas e eu, na ordem que a gente fazia, a gente, da maneira que vendia, botava no romaneio pra que eles ficassem ciente aqui, cada tipo de fruta que pegava. Então aqui eles estavam ao par de tudo que se passava em São Paulo. Se foi bem vendido, se foi mal vendido, aí se baseavam, se compravam mais, se compravam menos, mas o tempo de São Paulo foi uma fase muito boa, porque foi bom o resultado.

 

P/1 – Nessa época os seus filhos passaram estudar lá também?

 

R – É, o Dudi, a Cristina, o Fernando ele entrou na escola lá, o Fernando e o Dudi. O Fernando, o caçula entrou na escola lá. Ele não tinha idade ainda, agora o Dudi freqüentou escola lá e a Cristina, a mais velha, também fez faculdade em Mogi das Cruzes, viajava todo dia pra Mogi. Depois quando nós voltamos pra Matão ela ficou numa república em Mogi e terminou os estudos.

 

P/1 – Só mais uma coisa sobre as frutas lá no Mercado, a coisa toda chegava num caminhão em caixas, caixas de madeira?

 

R – Em caixas de madeira, caixa de mercado, cada barraca cada firma, tinha seu emblema na caixa. Inclusive naquele tempo tinha um carimbo, ela valia tantos reais, tanto o valor da época da moeda, então você vendia a fruta e vendia a caixa, a caixa tinha um valor, né.

 

P/1 – Quer dizer, a caixa também era vendida.

 

R – A caixa era re-utilizada, então ela vai pro cliente e voltava e você pagava o depósito, quando o cliente levava, pagava o depósito, quando devolvia ele recebia o depósito. Agora só aqueles que eles tinha muita confiança levava fruta e caixa sem pagar e acertava depois, mas precisava ser muito bom pra fazer isso, porque se não fazia não.

 

P/2 – Bom seu Salvador, ainda assim falando mais um pouquinho sobre São Paulo, ali enquanto o senhor estava vendendo as frutas, tinha algum tipo de fruta que era mais procurada, que era mais vendida?

 

R – Daquelas que a gente recebia?

 

P/2 – Isso.

 

R – Mais a coisa era questão de fruta da época. Por exemplo, se é uma fruta boa que você estava recebendo, automaticamente tinha preferência. No caso de manga, por exemplo, quando recebia, o cliente levava, gostava, já encomendava pro dia seguinte se chegasse a mesma mercadoria, guardar tantas caixas, e assim por diante.

 

P/2 – E tem alguma coisa que mudou na sua vida , no momento que passou a viver em São Paulo, dessa experiência que teve lá em São Paulo?

 

R – Não, foi normal.

 

P/2 – E o senhor não tem nada que ficou na sua lembrança por ser uma cidade diferente, por ser uma cidade grande, coisas que o senhor viu que o senhor se lembra?

 

R – A única coisa que marcou foi a vida sacrificada que a gente levou em São Paulo, que a gente não teve tempo de usufruir a cidade, por exemplo, então praticamente a minha estada em São Paulo foi trabalhar só. Não tinha tempo pra conhecer assim detalhadamente, quer dizer, você tinha que levantar às 3 horas da manhã, você ia fazer o quê? Não tem nem pensar em sair, e a própria família ficou prejudicada com isso, porque se o chefe não sai, quer dizer, o pessoal fica em casa, então isso daí que foi ruim.

 

P/2 – O senhor tirou alguma lição de vida, alguma coisa que aprendeu pra seu enriquecimento durante esse tempo em São Paulo?

 

R – É, eu acho que como lição de vida foi válido. Porque a gente tem outra maneira de encarar a coisa, quer dizer, mesmo assim pra efeito de negócio, por exemplo, melhorou bastante, porque a gente viveu mais essa vida de negócios, então pra isso daí foi muito bom, eu acho que a gente ganhou muito com isso.

 

P/2 – E por que o senhor resolveu voltar pra Matão?

 

R – Não, porque aí naquela ocasião aí, nós mudamos a empresa pra essa unidade de extração de óleos essenciais e fábrica de suco e eu precisava voltar mesmo. Que também, eu era mais útil aqui do que em São Paulo, que aí já tinha diminuído a remessa pra São Paulo, a gente tá mais aqui, com essa unidade de fabricação, né?

 

P/2 – Então me conta, o senhor saiu de São Paulo, voltou pra Matão e aí como é que foi?

 

R – Aí nós continuamos com a fábrica até, ela nasceu em 77, nós continuamos até 87, quando foi vendida.

 

P/2 – E o senhor resolveu mudar do comércio pra uma fábrica, teve algum motivo?

 

R – Não, porque naquela ocasião sobrava, já no final, sobrava muito refugo de fruta de barracão e a gente tinha dificuldade pra colocar em outras fábricas. Então, como já trabalhava com muito volume muito grande de limão, então a gente já botou uma unidade pra extração de óleo essencial de limão. E aí foi melhorando, até chegar no ponto de ser uma pequena fábrica de suco concentrado. Então aí o aproveitamento era total. Se a fruta não servia pra mercado, automaticamente ela ia pra indústria. E além dessa fruta, a gente comprava outros pomares, do jeito que faz outras fábricas normalmente, que compra a fruta, você faz uma posição de fruta pra suco concentrado. Que aí a gente já exportava bastante, exportava praticamente toda a capacidade da fábrica, então precisava de muita fruta.

 

P/2 – E como que era o funcionamento da fábrica, como era a fábrica?

 

R – É, a fábrica de início ela tinha quatro extratoras, um evaporador de 10.000 libras, depois da segunda etapa já passou pra oito extratoras, mais um evaporador, e praticamente dobrou a produção. Agora, a gente moía muito limão, limão na época a gente tinha, o volume era muito grande, além do nosso limão, a gente comprava de terceiros. Então, na safra eles não tinha colocação dessa mercadoria. Era só fábrica mesmo. Então, a gente moía muito limão.

 

P/2 – A procura do limão era maior?

 

R – Não é que a procura, aqui sobrava muito limão na safra e o mercado não aceitava, o mercado interno não aceitava, então só tinha uma solução, fábrica. Então aí a gente aproveitava esse volume grande de fruta pra esmagar e aproveitar o óleo essenciais de suco.

 

P/2 – O suco vocês embalavam?

 

R – É, o suco era emtamborado, era exportado e o óleo essenciais também era exportado também e além do limão taiti também a gente fazia o limão siciliano também serve pra suco e óleo, né?

 

P/1 – E exportava pra onde?

 

R – É normalmente o limão siciliano era pro Japão, e o taiti era pros Estados Unidos.

 

P/2 – E como era a negociação com esses mercados?

 

R – É, ia o representante comercial fazia contato, troca de amostra, se estava dentro dos padrões do país deles, fazia o negócio e marcava época de embarque e fechava o câmbio.

 

P/2 – E a forma de pagamento era tudo intermediado?

 

R – É era tudo intermediado, tudo carta, em exportação é carta de crédito, entregou, recebeu lá, pagou, então não tem erro.

 

P/2 – Como vocês conseguiram fazer contato com o mercado externo?

 

R – Nós tínhamos um representante comercial. Ele viajava também pra fora, então ele fez contatos lá fora, mas normalmente era troca de amostra e envio de amostra, eles analisava a amostra, que era uma cópia fiel do produto. Então não tinha como dar errado, então de cada bate de produto você tira uma amostra, representava 40 e tantos tambores do produto. Então, se fosse mais tantos bates, tantas amostras você mandaria daquele volume, então eles analisavam as amostras, o produto tá de acordo, fechava negócio.

 

P/2 – E as embalagens eram as mesmas?

 

R – Embalagem era tudo tambor de 260 quilos e o óleo era tambor também.

 

P/1 – Quando voltou pra Matão o senhor foi morar na mesma casa ou foi uma outra casa?

 

R – Não, aí eu morei numa outra casa, aí já era na cidade. Aí não voltei mais pra fazenda, aí já voltei pra cidade, Matão.

 

P/1 – No centro, no bairro?

 

R – Centro.

 

P/2 – Não quis mais ir pra fazenda?

 

R – Não, porque também já não tinha, depois pra fazenda, pra cada filho você precisa ter um carro, já não tinha na época, então aí ficava difícil. Então na cidade aí já a locomoção era mais fácil, porque aí o pessoal se virava melhor.

 

P/1 – Das lembranças que o senhor tem, quando chegou a televisão, mudou muito a vivência na sua casa?

 

R – Ah sempre melhorou, né?

 

P/1 – Quando foi que o senhor teve a primeira televisão?

 

R – Primeira televisão acho que foi em mil e novecentos... eu já estava em São Paulo quando foi a primeira televisão, foi 71, 72, parece que foi.

 

P/1 – É, dessas mudanças assim de tecnologia, o que mudou mais a sua vida ?

 

R – É, a televisão mudou bastante, quer dizer, abriu muito campo, ensinou muita coisa boa, apesar que tem muita coisa ruim também. Quer dizer, acesso à condição também foi uma coisa muito boa, que até aí você não tinha condição de ter um automóvel, então isso aí vai melhorando, né?

 

P/2 – Bom, no caso o senhor participou de duas fases, uma fase como comerciante e depois mudou pra parte de indústria. Quais são as principais diferenças nesses dois tipos de função?

 

R – É, que a parte comercial você tá mais em cima aí assistindo e coisa, e a parte industrial praticamente você participa de uma outra maneira. Aí é mais maquinário quer dizer, é mais, fica na parte de compras, então aí é um mundo diferente, que hoje uma fábrica de suco praticamente você só tem a escolha que é manual, o resto é tudo automatizado, tudo automático, ninguém põe a mão em nada. Agora o comércio, por exemplo, você tá lá assistindo, vendo descarregar, vendendo, participando aí no ato, então é uma coisa mais ativa aí, né?

 

P/1 – E essa empresa de sucos durou até quando?

 

R – É de 77, que ela nasceu, até 87 que nós vendemos. Mas depois ela teve uma fase que ela continuou ainda, na mão de outros donos, né?

 

P/1 – E desse período até 87, praticamente foi só fabricação ou tinha algum comércio junto?

 

R – O comércio nós ficamos até 80 só, e depois a parte de comércio nós passamos pra esse sócio que entrou em 81, 82, onde o box que tinha no Mercado nós passamos pra essa empresa. Então, como a gente já trabalhava com frutas, eles continuaram também com comércio interno, Ceasa e Parque Dom Pedro.

 

P/1 – E depois que o senhor acabou a sociedade da empresa de suco, o senhor fez o que?

 

R – Bom, aí quando nós vendemos a nossa participação na Central Cítrus, aí eu comprei esse complexo onde funcionava a fábrica de óleo, que hoje é Scutti Armazéns Gerais, que loca espaços. Então aonde foi o meu primeiro emprego eu acabei comprando aquele local.

 

P/2 – E a fábrica ali também?

 

R – Não, a fábrica de óleo não existe mais hoje, só a parte civil, só.

 

P/2 – O senhor não chegou a trabalhar na fábrica?

 

R – Não, na fábrica cheguei a trabalhar mas em 43, só que em 87, de fábrica já não existia mais nada, então era só a parte de barracões.

 

P/1 – E quem é que loca o espaço do armazém?

 

R – É meu filho, eu, nós tomamos conta.

 

P/1 – Não, mas quem é que ...

 

R – Ah, sim, é pra, usa-se pra sementes, tem uma fábrica de tinta instalada, tem metalúrgica instalada lá dentro, tem serralheiro lá instalado, mas o forte é pra sementes, estocagem de sementes, é o que ocupava a área maior.

 

P/1 – E por que é que o senhor optou por fazer um negócio de locação?

 

R – É, porque a finalidade foi abrir empresa Scutti Armazéns Gerais, pra trabalhar de fato com armazenagem. Mas pra concluir como armazenagem, então faltava alguma coisa ainda, como balança, faltava alguma coisa ainda pra, e a dificuldade também pra chegar no governo e você conseguir autorização pra explorar armazenagem. Isso também não é fácil, então não havia facilidade de procura de espaço, então nós optamos por alugar espaço. Mas nada impede que volte a ser uma armazenagem pra tipo Banco do Brasil, agora tá aparelhado pra isso, que nós estamos montando uma balança também.

 

P/1 – Aquela balança de caminhão?

 

R – É, balança rodoviária.

 

P/2 – E o senhor ficou um certo tempo no comércio, e o que aconteceu com o comércio, como era quando mudava a moeda do país, tinha alguma influência?

 

R – Influência sempre tem, porque até que o pessoal se acostume com a nova moeda, também sempre traz problema, né?

 

P/2 – O senhor se lembra de alguma coisa que tenha acontecido ...

 

R – A mais drástica foi esta última aí, essa transformação aí do real aí, essa foi uma coisa que, o pessoal tinha tanto dinheiro, daí a pouquinho ficou com um pouco real, tá certo que valeu mais, mas foi quanto, acho que foi 2,75 não foi, meio complicado.

 

P/1 – Mas naquela época de inflação, que o dinheiro, às vezes a gente tinha uma inflação mensal aí chegou até 28%.

 

R – Ou até mais.

 

P/1 – É, isso trazia dificuldades ao negociar os produtos?

 

R – Não, pelo contrário, acho que o pessoal se enganava mais Porque hoje comprava por cinco, amanhã valia 10, então tinha muito negócio, depois do real a coisa veio no normal, quer dizer, praticamente deu uma parada assim em negócios, quer dizer a hora que o pessoal tinha um terreno, vendia com um facilidade, casa vendia com uma facilidade e hoje por exemplo já não vende com facilidade. Quer dizer, o pessoal ganhava aí numa transação, ganhava 200, 300, 500 reais, ele praticamente passava um mês de... não precisava trabalhar de empregado pra sobrevivência. E esse tipo de negócio praticamente acabou, já não é tão fácil vender as coisas do jeito que eles vendia no tempo de inflação. A inflação ajudava a vender, mas enganava muito. Era uma coisa enganosa, porque pensava que estava ganhando, mas não estava ganhando não. Estava trocando, mas tinha facilidade pra negócio, principalmente tinha facilidade.

 

P/2 – Bom, no início, lá quando o senhor começou com o armazém, mexer com comércio, as pessoas pagavam em dinheiro.

 

R – Dinheiro.

 

P/2 – E como foi quando mudou e como começou as pessoas a usarem cheque, a fazer pagamentos com cheque?

 

R – Olha, eu comecei a perceber pagamento em cheque praticamente quando foi pro Mercado em São Paulo. Então em São Paulo era normal você vender prum cliente, vamos dizer do Rio Grande do Sul, quer dizer, normalmente já mandava esperar, bom, pré- data o cheque pra 15 dias, só que nesses 15 dias, até você depositar esse cheque aí, ele já vinha mais vezes fazer compra e era o mesmo esquema. Então, quando ia botar aquele primeiro cheque que tinha pré -datado pra 15 dias e voltava, ele estava com a coleção na mão, aí ele já estava perdido, pois eu vi muita gente no Mercado quebrar por vender fiado, por facilitar e coisa.

 

P/1 – O que vocês vendiam, faziam esse tipo de negócio ou não?

 

R – Não, muito raramente, mas só quando conhecia muito o cliente, sabia que não ia dar problema, então a gente vendia. Mas normalmente, quando você tá com mercadoria boa, você pode escolher o cliente. Quando você tá com mercadoria ruim, às vezes você é obrigado a, porque em São Paulo acontecia uma coisa muito engraçada, porque quando nós começamos, a gente não conhecia nada de Mercado além de mandar fruta pro Mercado, lá do movimento de Mercado praticamente a gente conhecia muito pouco. Então, aqui como o pessoal queria melhorar a imagem da empresa, então tudo quanto era fruta defeituosa e coisa, eles não misturavam, porque a intenção da maioria do pessoal do Mercado, é enfeitar a boca e botar a mercadoria ruim pra baixo. Quer dizer, o cara vira a caixa, já não é a mesma coisa que ele comprou. E nós já partimos do princípio de fazer uma coisa diferente, fazer qualidade. Então por isso nós tivemos sucesso. Então, o pessoal antigo lá do Mercado, quando via, a gente recebia lá umas caixas de fruta defeituosa: “Olha lá, caipira do interior tá querendo inventar moda aqui em São Paulo, né?” Só que depois de quatro, cinco, seis meses, por exemplo a nossa barraca já era a referência de qualidade e preço. Por uma questão de trabalhar direito. Só que eles também precisaram mudar o sistema de trabalhar, que o cliente que comprava uma caixa nossa, virava, era tudo igual, quer dizer, ele ia voltar pra comprar a nossa. Preço por preço, ou um pouco mais caro, ele ia levar a nossa, não ia levar a deles. Se eles viram a caixa deles não ia ter o mesmo padrão de fruta, então isso aí ajudou muito a gente, qualidade.

 

P/2 – E além da qualidade, vocês tinham alguma estratégia pra chamar freguês, alguma coisa?

 

R – Não, a estratégia aí é qualidade. A qualidade por si ela chama, que o cara passa, viu é fruta bonita, comprou uma vez, viu que é coisa boa, ele volta a comprar. Isso aí é automático, isso aí não tem segredo nenhum, a qualidade que faz a venda.

 

P/2 – E devedor, o senhor teve algum caso que precisou cobrar?

 

R – Não, eu praticamente no tempo que nós tivemos em São Paulo, nós num perdemos nada, se falar que nós perdemos foi coisa assim insignificante que nem leva em conta. Durante todos esses anos que nós tivemos lá, praticamente num perdemos absolutamente nada.

 

P/1 – Qual era a diferença de negociar em São Paulo, no aspecto assim de confiabilidade das pessoas e daqui do interior?

 

R – É, porque você vai lá, é um mundo estranho em São Paulo, porque aqui no interior você já conhecia muita gente mesmo, você já tem, pelo menos você tem uma idéia mais ou menos do que a pessoa é. Agora em São Paulo, você não conhece ninguém, nós conhecemos depois de um contato lá direto, aí de meses e coisa, e aí foi ganhando confiança, a gente ver os demais também dizendo que o fulano é bom, então nunca deu problema, então você vai embarcando nele. Se ele te pede uma facilidade, você automaticamente dá, se ele foi pontual, você torna a retornar também o benefício. E se ele mancou, você já tenta receber aquele lá e num dá mais. E foi isso aí que nós fizemos e acabamos num perdendo, aliás tivemos muito sucesso em São Paulo, graças a Deus, tivemos.

 

P/2 – O senhor teve alguma dificuldade pra se adaptar nesse tipo de venda quando chegou?

 

R – Não, a gente estranhava a falta de amizades, que aqui tinha bastante, lá não tem, no começo eu fiquei em hotel, porque a família ficou mais seis meses aqui até concluir o primeiro semestre, depois que mudou, quando a família mudou, já normalizou, aí viajava toda semana pra Matão, voltava pra São Paulo, aí foi trabalhoso.

 

P/2 – O senhor tinha a ajuda da sua mulher na feira, com as frutas?

 

R – Não, ela só ficava em casa, tinha muita coisa em casa pra cuidar (riso) e a molecada toda na escola.

 

P/1 – E depois que terminou o negócio de suco, o senhor abriu o armazém e abriu mais um negócio também, com um sócio, de...

 

R – Depois na venda da Central Cítrus, nós fizemos uma participação da Confecções Elite, aí em Matão. Eu tenho uma pequena parte na Elite, tinha maior, mas por dificuldade da venda acabou num concluindo o pagamento, então fiquei com menos participação. Então, hoje eu comprei uma parte e tenho menos, num conclui aquela totalidade, que a venda que nós fizemos também num foi um cara positivo e acabou não pagando, gerando ação e demoramos quase 11 anos pra receber a venda, atrapalhou barbaridade.

 

P/2 – E a confecção, ela industrializa, produz o que?

 

R – Artigos esportivos, calção, shorts, bermuda, camisa de futebol, bola de futebol, meias, tem parte terceirizada e parte, hoje a Elite tem uma filial em Iturama, tá com projeto lá em Frutal também, tem alguma coisa lá, de lavanderia, tinturaria e tem diversas facções aqui no estado também, tem uma em Mutuca, Matão tem, Taquaritinga, tá com movimento bom.

 

P/2 – O senhor resolveu mudar de ramo e partir pra confecção, teve algum motivo?

 

R - É questão de negócio, porque praticamente você fica no administrativo, você não partilha da produção, é um negócio.

 

P/2 – E o senhor sente falta do contato direto com as pessoas?

 

R – É, faz falta.

 

P/2 – O que é que o senhor mais sente?

 

R – É, essa falta do convívio em São Paulo era muito gostoso, amizade, isso daí faz muita falta. A gente criou muita amizade lá, então a nossa barraca era um ponto de referência lá, sempre com muita gente, então isso aí era bom. Quer dizer, de caipira que a gente era, virou um ponto de referência no final, né?

 

P/1 – Quer dizer que atualmente nesse negócio das confecções, o senhor só acompanha administrativamente?

 

R – É, administrativamente, é, a confecção é um negócio muito complexo, tem que ter cada pessoa certa, na posição certa, se não fica difícil, é estilista, é gerente de fábrica, é corte, preparação, envolve muita coisa.

 

P/1 – E o senhor cuida da parte de vendas.

 

R – Não, a parte de vendas fica outro departamento.

 

P/1 - Parte comercial o senhor não tá envolvido.

 

R – Eu fico só na parte de diretoria, então o que se resolve, então isso daí eu faço parte.

 

P/1 – E atualmente, o que o senhor faz nas horas de lazer?

 

R – Nós, aqui na antiga fábrica nossa, eu tenho uma chácara, onde é a chácara de lazer, então lá é muito gostoso, lá tem um campinho de bocha, tem passatempo no fim de semana, reúne os amigos lá e passa umas horas lá jogando bocha e vai passando o tempo.

 

P/2 – O senhor faz compras, vai ao comércio?

 

R – Faço, eu ajudo bastante a mulher, porque ela não dirige, então preciso fazer compra, preciso ajudar.

 

P/2 – O senhor gosta de fazer?

 

R – Ah, eu já acostumei, primeiro não fazia porque ela saia e fazia tudo, mas agora praticamente quem faz a compra sou eu, ajudo bastante ela, quando ela tá muito atarefada, então preciso ajudar.

 

P/2 – E tem lugares específicos que o senhor sempre vai?

 

R – É supermercado, açougue, quitanda, mais supermercado, né?

 

P/1 – Tem alguma coisa especial que o senhor gosta de sair pra comprar?

 

R – É, uma carne prum churrasquinho, isso aí a gente já vai escolher pessoalmente, escolher uma cervejinha, um vinho.

 

P/2 – O senhor gosta de fazer um churrasquinho?

 

R – Ah, é bom, eu tenho um lugar muito gostoso lá pra fazer.

 

P/2 – O senhor faz sempre?

 

R – Ah, normalmente faz.

 

P/2 – Reúne a família.

 

R – É, os filhos, os netos e vamos lá pra chácara.

 

P/2 – O senhor tem uma chácara.

 

R – É.

 

P/1 –O que mais incomoda o senhor no comércio atual?

 

R – Que mais incomoda hoje é a falta de honestidade da maioria, de uma grande parte pelo menos da clientela. Aproveita o embalo, que a situação diz que não tá boa e aproveita e atrasa, isso daí é constante, hoje tem muita inadimplência.

 

P/1 – Mas quando o senhor vai comprar, o que mais incomoda ?

 

R – Ah, espera. No supermercado, você vai pegando, então não tem demora nenhuma. Mas você vai num lugar onde tem fila e coisa, já é o veneno, né?

 

P/1 – E o atendimento atual nas lojas, o senhor acha que mudou muito do que era antigamente?

 

R – Ah, eu acho que hoje eles estão se cuidando mais, porque hoje, se não tiver um atendimento bom, a clientela foge. Hoje, a preocupação é atender bem. Aquele que não tá atendendo bem, ele tá botando fim no negócio dele, eu acho, né?

 

P/1 – E atualmente, quem é que mora junto com o senhor?

 

R – Eu, minha mulher e o Dudi, Salvador Filho.

 

P/1 – E quantos filhos o senhor tem mesmo?

 

R – Três.

 

P/1 – Tem netos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos?

 

R – Três.

 

P/1 – Três também, e os netos atualmente o que eles fazem?

 

R – Bom, a primeira, é a filha da Cristina, ela está cursando colegial ainda, tem 11 anos.

 

P/1 – Estuda, né?

 

R – Estuda, a segunda é a filha do Dudi, tá com 16 anos, também estuda e o terceiro tá com 7 meses, é o caçulinha, filho do Fernando.

 

P/1 – E os seus filhos, o que eles fazem atualmente?

 

R – É o Dudi trabalha comigo, a Cristina é dentista e Luiz Fernando é engenheiro de alimentos.

 

P/1 – Todos continuam morando em Matão?

 

R – Matão, bebeu água de Matão, não sai mais. (riso)

 

P/2 – No caso do seu filho, ele continua no comércio aí com você?

 

R – Continua.

 

P/2 – E os outros dois, o senhor gostaria que eles tivessem continuado no comércio...

 

R – Não, a Cristina tem vida própria, é dentista tem consultório próprio, então não faz nem sentido ela ser outra coisa. Já fez aquilo que gosta, então tem que continuar. Agora o Fernando, nós estamos praticamente no final de uma implantação de uma unidade aí pra indústria também, pra ele seguir naquilo que se formou, né?

 

P/1 – Bom, a gente tá já caminhando aí pro final, queria que o senhor falasse alguma coisa sobre a sua trajetória de vida , o que o senhor mudaria?

 

R – Nessa altura, mudar o quê ?

 

P/1 – Alguma coisa que acha que poderia ter mudado, ter feito de uma maneira diferente.

 

R – É, talvez se tivesse a experiência de hoje, talvez teria feito investimento em outras áreas, por exemplo, na ocasião que a gente tinha condição e não fez. Você comprar mais terras e investimentos diversos, não ficar só dependendo de uma coisa, que nós tivemos condição de comprar muitas fazendas e não compramos nada. Quer dizer então, foi uma época que passou e praticamente você ganhou e num levou. Então isso aí eu acho que se fosse hoje, eu compraria, um bem durável, quer dizer então eu acho que isso é fundamental pra família, pra segurança, né?

 

P/2 – E nesse tempo que o senhor passou aí na carreira, trajetória da vida do senhor tirou alguma lição de vida, alguma coisa que ficou guardada.

 

P/1 – Que o senhor gostaria até de deixar pra outras pessoas assim, qual que é a lição.

 

R – A lição que ficou, eu me sinto satisfeito porque durante todo esse tempo eu só procurei ajudar, num prejudiquei ninguém, aí eu me sinto feliz por chegar até aqui na condição que eu tô. Num dei problema pra ninguém, num fiquei devendo pra ninguém, num prejudiquei ninguém, isso me satisfaz bastante.

 

P/1 – Tem mais alguma coisa que a gente não perguntou, que o senhor acha que a gente deveria ter perguntado e que gostaria de falar?

 

R – Ah, eu acho que foi tudo abordado, né?

 

P/2 – E o que o senhor acha de tá aqui falando pra gente da sua trajetória profissional, da vida do senhor no comércio?

 

R – Ah, eu acho muito bom porque foi uma maneira de lembrar muita coisa que passou e a gente no dia-a-dia acaba não lembrando. E agora fui forçado a lembrar e se bem que a gente ficou devendo muita resposta ainda, mas a gente promete de te entregar essas datas e coisas que ficou faltando e assim de memória fica difícil de, mas eu acho que do mais, está tudo bem.

 

P/1 – O senhor gostou da experiência de dar entrevista?

 

R – Ah, valeu a pena.

 

P/1 – Então, em nome do Museu da Pessoa e do SESC, gostaria de agradecer a sua presença aqui, de ter contado a sua história, e muito obrigado por tudo.

 

R – Estamos sempre à disposição.

 

P/2 – Eu agradeço também, muito obrigado por ter comparecido, e de ter dado a entrevista.

 

R – Fique à vontade, se tiver outra oportunidade, a gente voltará.

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