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História

De estação em estação

História de: José Carlos de Oliveira Melo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

O depoente José Carlos de Oliveira Melo nos conta sobre sua infância em Catende, Pernambuco, com a família e seus irmãos e da sua estadia em Pirpirituba, onde iniciou os estudos, e em Maceió onde terminou o primário. Com o fim do relacionamento dos pais, José Carlos mudou-se para Recife com a mãe, onde ingressou na Rede Ferroviária do Nordeste através de um tio. Começou trabalhando num dos sítios que serviam à Rede e quando seu tio foi promovido o acompanhou a Itabaiana, onde começou a trabalhar fazendo diversos serviços na estação, por exemplo, como telefonista; depois, voltou com o seu tio e assumiu a posição de bilheteiro na estação Central. José Carlos ainda passou à área de bagagens recebidas; na sua narrativa ele descreve como funcionava este setor de onde coleciona uma série de histórias engraçadas. No mais, José Carlos nos conta sobre outras funções exercidas na Rede, de sua aposentadoria e sua ativa participação nas atividades da Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor José Carlos.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Obrigada por ter atendido nosso convite.

 

R – Foi um prazer.

 

P/1 – Obrigada. Eu quero começar a entrevista com o senhor nos dizendo seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – José Carlos de Oliveira Melo, nasci em Catende, Pernambuco, no dia 8 de abril de 1940.

 

P/1 – Muito bem. E o nome dos seus pais, senhor José Carlos?

 

R – Meu pai é Gregório Taumaturgo de Oliveira Lima e minha mãe era Beatriz Correia de Oliveira Melo. Falecidos.

 

P/1 – São falecidos?

 

R – São.

 

P/1 – Eles nasceram em Alagoas, é isso?

 

R – Alagoas, um em Santa Luzia do Norte, meu pai, e minha mãe em Atalaia.

 

P/1 – Qual era a atividade do seu pai?

 

R – Papai? Olha, quando eu era pequeno, papai era... Eu nasci no engenho que pertencia à Usina Catende. Uma grande usina que fechou. Papai tomava conta do barracão. O barracão, não sei se a senhora sabe, era onde ficavam “aprisionados” os empregados da usina.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É, porque hoje em dia não tem muito, mas o que acontecia? Você era trabalhador na cana, no corte de cana em geral e só tinha aquele barracão para fornecer alimentos e outras coisas. Então, você ia comprando, comprando, o preço lá em cima; quando era o fim da semana, você não tinha nem saldo, sempre ficava devendo. Você nunca podia sair dali. Ele não era o dono do barracão, ele era quem tomava conta. Depois, ele passou para a cidade, foi depois que eu nasci e lá ele foi gerente de um bar que pertencia a um tio meu. Pronto. Em 1946, meu pai, que nunca pegou numa colher de pedreiro, nunca pegou, foi trabalhar como mestre de obra, na construção de uma usina de açúcar no interior da Paraíba, um lugar chamado Pirpirituba. Daí, passamos dois anos lá; depois, ele saiu da usina, não sei por qual motivo e foi trabalhar na construção de uma estrada de rodagem que ligava Paraíba ao Rio Grande do Norte. Pronto. Aí o pai dele, que morava justamente num lugar chamado Coqueiro Seco, que é distrito de Santa Luzia do Norte, que é onde ele nasceu, pediu para ele voltar, aí nós voltamos para Alagoas. Em 1948, ele começou trabalhando como mestre de obra e aposentou como mestre de obra.

 

P/1 – Olha, que interessante. Quer dizer, quando o senhor nasceu, eles já tinham saído de Alagoas, não é?

 

R – Já.

 

P/1 – Já estavam...

 

R – Em Catende...

 

P/1 – Provavelmente atrás de trabalho?

 

R – É, porque esse tio meu trabalhava na Rede Ferroviária, era agente de estação, agente da estação de Catende. E, possivelmente, deve tê-lo chamado, uma coisa desse sentido. Não sei bem qual era. Depois, o bar que ele trabalhou era do meu tio.

 

P/1 – Do tio. E esse tio é irmão do seu pai?

 

R – Da minha mãe.

 

P/1 – Ah, irmão da sua mãe, quer dizer, cunhado...

 

R – Era, cunhado.

 

P/1 – Eles já eram casados?

 

R – Já, papai casou em dia 11 de janeiro de 1930.

 

P/1 – E essas cidades onde seus pais nasceram são próximas?

 

R – Não. Atalaia era uma cidade ferroviária e Santa Luzia do Norte é uma cidade que fica à margem da Lagoa Mundaú. Em Alagoas tem duas lagoas: a Mundaú e a Manguaba, que banha a área metropolitana todinha e, não sei, papai foi parar lá em Atalaia e conheceu minha mãe.

 

P/1 – Uma cidade ferroviária. E quando o senhor nasceu, já tinha outros irmãos?

 

R – Olhe, nós fomos nove irmãos. Cinco homens e quatro mulheres. Hoje restam três mulheres e eu. Morreu uma mulher e quatro homens.

 

P/1 – Mas quando o senhor...

 

R – Mas tudo pequeno, não é? Quando eu nasci, tinha só duas irmãs, que são duas das que estão vivas hoje. Posteriormente, em 1951, nasceu a mais nova, que vai fazer 59 anos agora. Pronto. Depois de mim ainda nasceram dois que morreram, foram dois meninos.

 

P/1 – Já lá nessas andanças dos seus pais.

 

R – Eu não nasci em Atalaia, onde moravam meus avôs, porque a gente morava nesse engenho. Mas todas as vezes que minha mãe engravidava, tinha o trem, ela ia para Atalaia e as minhas irmãs e todos meus irmãos nasceram em Atalaia, menos eu e a mais nova que nasceu em Maceió. Quer dizer, quando nós viemos da Paraíba, nós fomos para Maceió e ficamos até 1954.

 

P/1 – A sua mãe pegava o trem e ia até bem perto dos pais dela, provavelmente...

 

R – Até porque a mãe dela que tomava conta dela. Naquele tempo não tinha negócio de maternidade, tinha as coisas, era mais em casa, eram caseiros os partos.

 

P/1 – Quer dizer que o trem então facilitou a...

 

R – Facilitou! E não era uma viagem direta não. Ela pegava o trem em Catende, ia até uma cidade chamada Lourenço de Albuquerque, que é pertinho de Maceió, na área metropolitana de Maceió. Lá vinha um trem de Maceió que entrava para Palmeira dos Índios, que é uma cidade alagoana também, que era o terminal dos trens, naquele ramal. E Atalaia justamente, nessa linha que vai...

 

P/1 – Que vai para Palmeira...

 

R – Palmeira dos Índios, é.

 

P/1 – Então, o senhor passou parte da sua infância lá no engenho ou não? Porque...

 

R – Não.

 

P/1 – Dois anos... Saíram.

 

R – Não, eu quando saí de Catende tinha cinco anos.

 

P/1 – Ah, então, ficou...

 

R – Mas não foi, mas a gente já morava em Catende, ele não tinha um bar?

 

P/1 – É.

 

R – Era gerente do bar.

 

P/1 – Ah, então, não era no engenho.

 

R – Eu não sei qual foi a idade que eu saí do engenho para Catende.

 

P/1 – Sei.

 

R – Engenho Veloz, o nome era Engenho Veloz. Eu não sei qual foi a data mesmo...

 

P/1 – Mas de qualquer forma...

 

R – Mas foi pequeno.

 

P/1 – É. De qualquer forma...

 

R – A minha infânciazinha foi em Catende.

 

P/1 – Em Catende. Então, como era Catende quando você era pequeno?

 

R – Catende era uma cidade, porque tinha uma usina muito importante, que era a Usina Catende, que ficava na cidade mesmo. Tinha um rio, Rio Panelas, aí tem uma ponte que ia para usina. Era um centro açucareiro muito importante, mas, infelizmente, faliu quase tudo, hoje em dia nós temos muito pouco... Foi tudo transferido para São Paulo, não é? Nós éramos um pólo açucareiro importante, Alagoas, Pernambuco... Hoje, Alagoas é mais do que Pernambuco.

 

P/1 – É, não é?

 

R – É menor, mas tem mais usina em funcionamento do que Pernambuco.

 

P/1 – Mas você, na época que você era garoto, então você estava um pouquinho ali em Catende, brincava...

 

R – É, eu passei... Eu me lembro do fim da guerra.

 

P/1 – Ah, é? Da guerra de...

 

R – Da Segunda Guerra Mundial, que foi seis anos, de 1939 a 1945.

 

P/1 – Isso.

 

R – Me lembro quando terminou, foi uma festa na cidade... Quando fui para essa cidade do interior da Paraíba, não sei se eu já tinha completado ou não, mas foi em 1946, foi a época que eu tinha seis anos, cinco para seis anos, quando eu fui lá para Pirpirituba, na cidade...

 

P/1 – Voltando à Catende, seu pai tomava conta do bar e vocês moravam onde?

 

R – A gente morava em frente, na Rua da Matriz. Na cidade de interior, as ruas onde tem a igreja matriz é sempre Rua da Matriz. Em frente ao Catende Clube, que era o clube que tinha na cidade. Pronto, morávamos ali, que eu me lembre. A gente morou numa outra rua, diz uma irmã minha, como são lendas, que a gente morava na Rua Bela Aurora. Eu era pequeno mesmo e, muitas vezes, nessa casa, dizem – eu nem me lembro, porque eu estava na tenra idade, mas as minhas duas irmãs eram mais velhas, uma hoje tem 73 e a outra tem 77; era uma mocinha e uma menina – que ouviam arrastão de corrente dentro de casa e, muitas vezes, não tinha ninguém no quarto e minha rede estava balançando, dizem, como se fosse uma casa mal-assombrada.

 

P/1 – Mal-assombrada! Lá em Catende?

 

R – Em Catende, na Rua Bela Aurora. De lá a gente passou para Rua da Matriz, que era a rua que tinha a igreja, a praça e que descia e ia sair quase no bar onde papai era gerente.

 

P/1 – Esse Clube Catende era clube do quê?

 

R – Catende Clube é um clube feito o Clube Internacional do Recife, o Clube Português do Recife, um clube de eventos.

 

P/1 – Essas irmãs tomavam conta de você, José Carlos?

 

R – Olhe, eu sempre me dei muito bem com minhas irmãs, graças a Deus. Mamãe morreu faz dez anos agora, morreu com 89 anos e a gente nunca se desligou. A minha irmã mais nova é enfermeira no Hospital e Maternidade Ana Néri, aposentada já. Então, eu disse: “Olhe, para não perder o vínculo, nós vamos, de quinze em quinze dias...”, porque toda semana, na quarta-feira, até tem um colega meu que trabalha lá, que é Severino Lima, que foi comigo na Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste, o conheci lá. Aí quando era quarta-feira, era o dia de mamãe, ele dizia: “Hoje, Zé Carlos, eu não posso compromisso nenhum de tarde, que é dia de mamãe”. Toda quarta-feira ela estava na cadeirinha de balanço dela, esperando os filhos para tomar o café com ela. Então, a minha irmã disse: “Olhe, não vamos perder o vínculo. A gente se encontra de quinze em quinze dias, a gente faz um cafezinho na casa de um ou de outro”. Fora os eventos, porque é muita gente. Minha irmã mais velha tem nove filhos, tem dezoito ou dezenove netos. A outra tinha sete, morreu um, tem seis e tem um monte de neto. Eu tenho quatro filhos, então, é um monte de gente. Sempre tem... Esse mês de abril foi o meu aniversário, é o da minha irmã mais nova, é de sobrinho-neto, tem um monte de gente que aniversaria, não é? A gente sempre gosta de fazer os eventozinhos, mesmo que seja coisa simples, mas tem que ter reunião de família.

 

P/1 – Ah, que bom! Como chamam as irmãs que estão vivas?

 

R – Minha irmã é Maria Letícia, a mais velha, Maria José e a mais nova Maria Antonieta.

 

P/1 – Ah, que bonito! Vocês então saíram de Catende e voltaram para Alagoas?

 

R – Não, de Catende fomos para Pirpirituba, Paraíba.

 

P/1 – Em Paraíba.

 

R – Em Pirpirituba. É. Um lugarzinho que, na época, nem luz tinha.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Um lugarzinho... Meu pai foi trabalhar na construção de uma usina. Pronto. Aí nós voltamos em 1948 para Maceió e fiquei em Maceió até 1954.

 

P/1 – Então, você começou a estudar e...

 

R – Eu comecei ainda em Pirpirituba.

 

P/1 – Em Pirpirituba ainda?

 

R – Como é que chamava? A carta do ABC. Minhas primeiras letras foram lá no interior da Paraíba.

 

P/1 – Casa do ABC? Era uma escola?

 

R – Não, carta de ABC. Carteira de ABC, que hoje não se usa mais.

 

P/1 – Então, você começou a estudar lá?

 

R – Foi, lá. E vim para Maceió, foi em 1949 a 1953, eu fiz justamente este estudo que eu disse a você.

 

P/1 – Sei. Mas lá era o quê? Era uma escola?

 

R – Não, lá era, se não me engano, uma escola particular. A primeira, a outra não, foi o Grupo Escolar Dom Pedro II.

 

P/1 – E isso...

 

R – Em Maceió.

 

P/1 – Em Maceió.

 

R – Que hoje não existe mais, hoje lá o prédio é a Academia Alagoana de Letras.

 

P/1 – Sei. Nesta época que vocês estavam na Paraíba, seu pai estava na construção da usina e vocês moravam onde?

 

R – Ah, lá mesmo, no centro mesmo, num lugarzinho pequeno, era um lugarzinho muito...

 

P/1 – Não tinha luz na cidade?

 

R – Lá era assim: tinha luz, mas não sei quem é que estava vendo que não tinha instalações, não tinha a energia. Agora, lá na frente tem a igreja, tem o pátio da igreja e tem uma usina de beneficiamento de arroz, que é que tirava a casca, sabe como é. Nesse trecho tinha luz. Eu acho que era proveniente da usina.

 

P/1 – Da usina.

 

R – Bom, passamos dois anos lá e no escuro. Em casa era no escuro.

 

P/1 – Nossa, e o que era? O lampião que usava, senhor José Carlos?

 

R – Era candeeiro antigamente. Aqueles candeeiros, que sai aquela fumacinha assim, era isso.

 

P/1 – Certo. Mas divertido, não é? Dava pra brincar também ou...

 

R – Ah, dava, dava, brincava e sempre... Você sabe... Lá, não lembro muito bem, porque a gente passou umas dificuldades quando o papai foi embora; perdeu o emprego na usina e foi-se embora. Nós passamos inclusive fome. Não tenho vergonha de dizer não: eu passei fome na minha vida. O único lugar que eu não passei aperreio é aqui, que é a minha terra. Não é das minhas irmãs, não é do meu pai, mas é a minha terra. Esse mesmo tio que era o agente da estação de Catende, que tinha o bar, foi quem me trouxe de Maceió para cá... Porque mamãe já estava separada de papai, houve a separação. Eu me separei também de minha família, mas nunca faltou nada na minha família. Tinha uma casa muito boa, ainda hoje é da minha ex-mulher, com três filhos; dois homens moram com suas mulheres, as duas meninas não. Uma casou e tem um menino com 26 anos e um com 25, mas separou-se, a outra nunca casou, mas tem um menino com quinze anos.

 

P/1 – Quer dizer que foi muita dificuldade, mas nessas cidades que vocês moraram, vocês andavam sempre de trem, Zé?

 

R – Lá em Catende tinha o trem, não é? O trem que ia de Maceió, de Recife a Maceió e tinha um trem que ia de Recife para Catende todos os dias à tarde. Pronto. Em Pirpirituba tem um trem que ia de João Pessoa, que é capital da Paraíba, para Bananeiras e que passava por essa cidadezinha que era Pirpirituba. Sempre de trem.

 

P/1 – Sempre de trem?

 

R – Trem.

 

P/1 – Todas essas mudanças, colocava tudo na mala e ia...

 

R – De trem, sempre de trem. Na época, não tinha aquilo que tem hoje, o monte de ônibus e não tem trem, não é? Naquele tempo, o trem era muito mais útil.

 

P/1 – É, quer dizer que mesmo quando vocês foram para Maceió, vocês também foram de trem...

 

R – De trem. Quando eu vim de Maceió para cá, eu vim de trem.

 

P/1 – Eu queria entender isso, você ficou um tempinho em Maceió...

 

R – Nós passamos seis anos em Maceió. Foi quando eu fiz o meu curso de pré-graduação, de pré, não foi nem de pós. Porque, eu digo uma coisa a você: eu estudei pouco, mas foi um primário realmente proveitoso.

 

P/1 – Por que você acha, Zé Carlos?

 

R – Não sei o que ouve que...

 

P/1 – Aprendia muita coisa?

 

R – É, realmente, não sei. Eu nunca parei, sempre continuei lendo, eu gosto muito de saber as coisas de geografia, onde é que fica tal cidade, qual é a capital... Eu conheço, entre aspas, muitas cidades, muitas capitais famosas. Sei quais são as capitais de muitos países, pelo menos da Europa eu sei quase todas, assim que eu visualizo e gravo muito.

 

P/1 – Sei. Por que foi bem forte esse seu primário lá? Como é? Grupo Escolar...

 

R – Dom Pedro II.

 

P/1 – Dom Pedro II. Em Alagoas?

 

R – Em Maceió. Em Maceió, na capital.

 

P/1 – Na capital? E foi bem forte. Você lembra de algum professor dessa época?

 

R – Todos.

 

P/1 – É? Fala alguns para mim.

 

R – Bom, a dona Alba Cavalcante Cerqueira foi a minha primeira professora, sempre as professoras acompanhavam as turmas do pré-primário, que chamavam, que tinha as bancas, era dessa altura quase.

 

P/1 – Baixinha.

 

R – E as cadeirinhas pequenininhas. É como se nós fossemos todos... É, realmente era, eu tinha oito anos, oito para nove anos. Ela foi comigo no pré-primário, no primeiro e no segundo ano. Aí, ela adoeceu. Depois, chegou a dona Georgina. Essa aí tinha o nome estranho...

 

P/1 – É?

 

R – Dona Maria José Carrascosa. Era sobrenome, mas era carrasca mesmo (risos). Ela era de cor, mas era uma danada de ideia. Isso na segunda série. Na terceira e na quarta, foi a dona Júlia de Lima e Silva, ela era uma doçura de pessoa. É, essa eu me lembro.

 

P/1 – Que bom! Você era um bom aluno, Zé Carlos?

 

R – Olhe, me lembro muito bem que, pelo menos, eu sempre era o primeiro da classe, que os primeiros alunos ela colocava na frente. Eu sempre sentava na frente. Dificilmente eu ia para uma cadeira segunda ou terceira, mas quase sempre em primeiro.

 

P/1 – Então você já naquela época gostava de estudar?

 

R – Gostava de estudar. Realmente eu gostava.

 

P/1 – Ah, que bom.

 

R – Terminei em 1953. Em 1954, era para eu ter feito a admissão ao ginásio, que existia na época, que hoje é quinta série, mas por causa da separação eu parei. Aí, vim para cá.

 

P/1 – Então, você veio porque o seu tio mandou...

 

R – É porque o seguinte: meu pai tinha deixado a gente, eu e duas irmãs e mamãe, eram quatro pessoas. A minha [irmã] mais velha já era casada, casou em 1952 e tinha um filho; o marido dela era comerciário, quer dizer, ele, a mulher, um filho e quatro pessoas nas costas. Eu não trabalhava ainda, minha irmã também era novinha, tinha de dezesseis para dezessete anos, minha outra irmã tinha três. A minha mãe, sábia mãe, escreveu para meu tio, que é o irmão dela, que era o chefe da estação de Recife, chefe da estação Central, que era um cargo muito importante na época. Inclusive, com os agentes de estação, com o Borba, o José de Oliveira Borba que veio aqui, usava um boné. Porque eu também trabalhei em estação, aquele bonezinho azul. A Rede de estação do Recife era um boné vermelho, para diferenciar. Então, ela escreveu para ele, pedindo para arrumar alguma coisa pra mim, porque a situação estava difícil. Eu fui, aí mamãe escreveu pra ele. Ele arranjou um emprego para mim, não foi nem na Rede ainda, ele me arrumou no escritório que tinha muito conhecimento, aí a gente veio.

 

P/1 – Como é o nome desse tio, Zé?

 

R – É Gésio Correia de Melo, já é falecido também. Faleceu em 1975. E nós viemos, eu e ela. Ficaram lá, na casa da minha irmã mais velha, a minha irmã, a outra, e a pequena.

 

P/1 – Aí você veio com a dona Beatriz para cá?

 

R – Dona Beatriz para cá.

 

P/1 – Quer dizer que a dona Beatriz escreveu para ele e essa carta veio como? Veio por correio?

 

R – Pelo correio.

 

P/1 – Normal?

 

R – É, normal. Ele mandou uns passes para a gente, vim de graça no trem e viemos eu e mamãe. Não esqueço mais, dia 10 de outubro de 1954.

 

P/1 – Desde Maceió até aqui, Recife?

 

R – Recife, foi um dia todo, que o trem passava o dia todo.

 

P/1 – Vieram de trem também?

 

R – Trem! Ele mandou o passezinho...

 

P/1 – Que horas vocês saíram de lá?

 

R – Eram oito horas da manhã e a hora de chegada aqui foi às sete e 47 da noite. Chegamos um pouquinho mais tarde, porque o trem atrasou (risos). Pronto.

 

P/1 – Passaram, então, em todas as estações...

 

R – Todas as estações, de Maceió, Bebedouro, Fernão Velho, Cachoeira, Rio Largo, Lourenço de Albuquerque, aí pegava Nichó, Branquinha, um bocado de estações, Paquevira, Catende... Palmares, Ribeirão, Escada, um monte de estação.

 

P/1 – Passou por todas essas?

 

R – Todas essas.

 

P/1 – Você era um menino, você tinha treze anos...

 

R – Treze anos, ia fazer catorze anos.

 

P/1 – E você estava animado com a viagem, Zé Carlos?

 

R – Sabe que é, Claudia, é uma perspectiva... Eu vim com mamãe. Eu nunca tinha havido essa separação com mamãe, não é? Viemos. Eu, quando foi no outro dia, fui me apresentar no emprego. Cheguei lá e uma pessoa da estação foi me levar, eu sem conhecer aqui, ali no centro, na Avenida Guararapes. Ele me deixou lá e foi embora. Aí o rapaz me chamou, disse: “Você sabe datilografia?”. Eu disse: “Não”. Então, datilografia era importante na época, não é?

 

P/1 – Sim.

 

R – Passei ainda outubro, novembro, dezembro. Quando foi em janeiro, ele arranjou na Rede.

 

P/1 – Mas você sabia voltar para casa?

 

R – É porque eu sou muito observador.

 

P/1 – Sei!

 

R – Eu saí, Concórdia, não é? Porque não mudou nada, aquela não mudou nada, nem a Praça Joaquim Nabuco, era a mesma coisa há cinquenta anos. Existia a Avenida Guararapes alargada, só não existia a Avenida Conde da Boa Vista, que era bem estreitinha ainda. E a Avenida Dantas Barreto que também era estreita. Eu marquei por onde eu tinha andado, quando eu voltei, que eu desci, é por aqui, aí foi.

 

P/1 – Poxa, que bom, não é?

 

R – Quer dizer, eu sou muito observador, realmente sou, eu sou observador.

 

P/1 – Mas o que você achou quando chegou em Recife? Tudo bem que você chegou de noite, mas no dia seguinte, quando você...

 

R – No dia seguinte... No dia seguinte, eu fui para o emprego. Aí...

 

P/1 – Não viu muito o Recife.

 

R – Não, tinha um primo meu, ainda vivo, hoje ele tem 81 anos, foi como um irmão para mim, que era primo, filho desse tio meu. Os outros dois irmãos dele eram casados, só tinha ele de solteiro em casa. Pronto, foi quem me deu todo o apoio. Aí, me levava para cinema, me levava para conhecer, para campo de futebol: “Você vai torcer pelo Sport Club do Recife”. Eu disse: “Torcer pelo Sport, eu torço, está bom”. Eu não conhecia nada...

 

P/1 – Está bom! (risos)

 

R – É. Mas gostei, não é? Não me arrependo não. Pronto. Aí comecei a trabalhar dia 20 de janeiro na Rede Ferroviária, que a Rede tinha umas propriedades no interior, tinha sítios, sítios grandes e tinha plantação de banana, de cana, essas coisas, mandioca... Tinha um departamento lá, que era o Departamento de Combustível, de onde vinham bananas e outros derivados, outras coisas lá para vender. Então, ele falou com o chefe do departamento que era um engenheiro e eu fiquei trabalhando lá. Eu trabalhei lá três anos, agora eu constava como se fosse empregado da folha do engenho, não da Rede.

 

P/1 – Sei.

 

R – Por isso que esses anos eu perdi, em termos de contagem de tempo. Só comecei a contar o meu tempo a partir de primeiro de janeiro de 1960, pronto. Trabalhei três anos lá, quando foi em 1958 ele foi promovido a inspetor do tráfego e foi trabalhar em João Pessoa e me levou para lá, para o interior, uma cidade chamada Itabaiana. Trabalhei dois anos lá em Itabaiana. Lá eu conheci a mãe dos meus filhos, namorei, noivei e casei lá, com vinte anos de idade. Casei novo.

 

P/1 – Bem novo!

 

R – Se eu vivesse com ela hoje, nesse ano a gente ia fazer cinquenta anos de casado.

 

P/1 – É? Olha só! Mas nessas propriedades, o que você fazia, Zé Carlos?

 

R – Eu trabalhava como uma espécie de um auxiliar de vendas, era quem vendia, extraía recibos...

 

P/1 – Ah, você vendia as coisas...

 

R – É, era, tudo o que vinha, era.

 

P/1 – Então essa era a sua função...

 

R – Função, pronto. Em Itabaiana era uma estação, eu fui ser telefonista. Trabalhei dois anos lá como telefonista. Trabalhei também na bilheteria e em algumas outras funções na estação.

 

P/1 – Sempre com o apoio desse seu tio?

 

R – Ah, sempre. Quando ele voltou para cá, em 1960, ele me trouxe de volta.

 

P/1 – Trouxe de volta.

 

R – Trouxe...

 

P/1 – E vocês quando chegaram, você com a dona Beatriz, vocês moraram...

 

R – Morei dez meses na casa dele. Mamãe foi ser a governanta da casa dele, porque a minha tia, tia por afinidade, era uma pessoa que vivia uma vida boa, tinha sempre empregada em casa e minha mãe, modéstia à parte, cozinhava muito bem. Mamãe foi tomar conta da cozinha dela e para ajudar no leite da minha irmã que tinha três anos. Os trens tinham uns vagões de primeira classe, eles eram fofos, quer dizer, eram acolchoados e tinham encosto de cabeça. O encosto era cáqui. Cáqui era um tecido feito jeans. Cada vagão tinha 48 cadeiras. Então, mamãe ficava lá de noite, quando ela terminava todo o serviço, lavava e colocava na goma, porque tinha que ser na goma, e passava ferro, para ajudar enquanto eu não estava trabalhando ainda.

 

P/1 – E entregava para o pessoal...

 

R – É, meu tio era o chefe de estação e ela recebia, pronto. Quando foi em junho de 1955, ele trouxe um ex-cunhado meu que morava em Maceió, que era o marido da minha irmã, veio trabalhar em Recife também, na Rede, ele o colocou. Como ele não tinha nem o estudo que eu tinha, que era o primário, ele era do interior, de Caruaru, só assinava mesmo o nome, foi ser vigia. Quando foi em agosto de 1955, veio o resto do pessoal. Ele arrumou casa e também arrumou emprego para a minha outra irmã.

 

P/1 – Ah, que bom! Também na Rede?

 

R – Não, foi no Cinema São Luiz.

 

P/1 – Sei.

 

R – Eu ia falando agora em cinema, com o motorista... Ela trabalhava, não era no cinema, era no escritório do Cinema São Luiz, do Severiano Ribeiro. Ela trabalhou de 1955 até 1958, quando ela casou e nós fomos morar junto com o meu cunhado...

 

P/1 – Já foi fazendo a sua vida.

 

R – Cada um tinha que ajudar. Lá era uma mulher e dois filhos, já tinha outro filho. E nós éramos quatro. Aí, minha irmã trabalhava, ajudava alguma coisa, eu também dava. Pronto.

 

P/1 – Então foi assim. E, justamente, você lembrou bem agora essa questão do cinema que até eu ia te perguntar, que você ia com seu primo, no cinema?

 

R – Ah, ia muito.

 

P/1– Que cinema que você...

 

R – O primeiro cinema que eu fui aqui, no dia 11 de outubro de 1954, Cinema Trianon, que também já acabou, que ficava na Avenida Guararapes.

 

P/1 – Nossa, senhor José, por que você lembra a data?! (risos)

 

R – E o filme foi “A Nau dos Condenados”.

 

P/1 – Olha!

 

R – É.

 

P/1 – Você nunca tinha entrado num cinema?

 

R – Não! Em Maceió, eu ia muito ao cinema, ia. Assim, tinha um que era mais luxuoso, mas não tinha nem ar-condicionado, o cinema de Maceió não tinha. Eu ia mais ao cinema mais barato. Porque eu sempre gostei de ler, gostava de revista em quadrinho, aí eu vendia na porta do cinema, trocava por outro, sempre foi assim. Pronto.

 

P/1 – E o Cine Trianon ficava onde?

 

R – Tem a Ponte Duarte Coelho?

 

P/1 – Sei.

 

R – Lá é o Cinema São Luiz, não é? No outro lado, na esquina, é o Trianon e do outro lado o Arte Palácio.

 

P/1 – O Arte Palácio e, depois lá, o São Luiz, que é onde foi que sua irmã trabalhava.

 

R – É. Minha irmã trabalhava.

 

P/1 – Sei, sei. Você gostou então da “A Nau dos Condenados”?

 

R – Ôxe! E outra coisa, minha irmã trabalhava no Cinema São Luiz e toda semana ela tinha direito a dois ingressos e sempre me dava um para eu ir, no Moderno, da mesma empresa, não é? O Moderno São Luiz, que era o cinema da empresa do Severiano Ribeiro...

 

P/1 – Tinha muito cinema aqui em Recife?

 

R – Tinha muito, tinha muito.

 

P/1 – Você falou em vários já.

 

R – Todos os subúrbios daqui tinham um cinema.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Aqui no centro tinha o São Luiz, Trianon, Arte Palácio. Depois o Veneza, que também acabou, que era na Rua do Hospício. Esses quatro. Aí tinha, na Casa Amarela, o Coliseu. Lá onde eu moro, perto de Areias, eu moro no Jardim São Paulo, tinha o Guararapes. No Cordeiro, tinha o Brasil. Eu sempre tesava...

 

P/1 – Vendo...

 

R – Não, ia naquele tempo...

 

P/1 – E aquele que a gente passou que você falou que era? Que cinema que era? Quando nós viemos pra cá você falou que ali era um cinema e tinha sido demolido.

 

R – Ah, o Politeama. Pronto, tinha o Politeama.

 

P/1 – Exatamente, é.

 

R – Ali foi um auditório da Rádio Tamandaré, depois a Rádio Tamandaré passou para Avenida Cruz Cabugá e aí ali foi um cinema muito tempo.

 

P/1 – É, a rádio, na época, que transmitia ao vivo os programas.

 

R – É, tinha programa de auditório.

 

P/1 – É, você chegou a ir em algum, não?

 

R – Cheguei.

 

P/1 – É?

 

R – Quando a Rádio Tamandaré já era lá na Avenida Cruz Cabugá.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R – Que era o Variedades de Fernando Castelão. Não sei se você já teve a oportunidade de ver...

 

P/1 – Sim.

 

R – Agora está passando umas propagandas da TV Jornal, que vai fazer cinquenta anos e passa algumas coisas do passado.

 

P/1 – Olha!

 

R – Presta atenção no canal dois, que aqui é canal dois. Aí, aparece justamente o Fernando Castelão na época, ele morreu agora a pouco, com 81 anos, ele apresentava, qual era mesmo o nome do programa? Era um programa de domingo de noite: “Você faz o show”. Ele trazia os maiores artistas da época! Nelson Gonçalves, Ângela Maria, aquele pessoal todo, é memória viva da televisão pernambucana.

 

P/1 – Que bom! E você gostava disso tudo, então.

 

R – Tudo!

 

P/1 – Então, o seu tio, já deu para perceber que era um homem super importante, influente, não é?

 

R – Importante, foi muito importante na minha vida e na vida da minha família.

 

P/1 – E depois ele foi lá pra João Pessoa e o levou?

 

R – Levou.

 

P/1 – E lá você foi telefonista, o que mais você foi lá?

 

R – Lá eu trabalhei mais como telefonista, como bilheteiro, que vendia bilhetes para os trens e trabalhei também na bagagem.

 

P/1 – E você não era ainda da Rede, não é? Como é que...

 

R – Assim, na época, quando eu saí de vender banana, eu não tinha a idade, não tinha servido o Exército ainda. Eu tinha que primeiro servir o Exército para poder entrar. A gente ganhava como eventual. Todo mês o agente da estação me colocava com um nome diferente, porque não podia ser o mesmo para não criar vínculo, não podia trabalhar desse jeito com o meu nome.

 

P/1 – Então um mês você era...

 

R – Pedro não sei das quantas... É, era assim.

 

P/1 – Nossa!

 

R – Era irregular, mas...

 

P/1 – Que coisa! E o dinheiro vinha como?

 

R – O dinheiro eu recebia na estação mesmo.

 

P/1 – Um dinheirinho lá que...

 

R – Era um salário mínimo.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Hoje corresponde a 510 reais, não é? Na época, eu me lembro, eram 270 reais. Cruzeiro, não era real ainda, cruzeiro.

 

P/1 – Mas era um dinheiro bom? Dava pra...

 

R – Bom, oxê! Eu dava a mamãe que pagava o aluguel de casa, era um dinheiro que dava, que rendia mais do que hoje. Pronto. Aí, quando foi em 1959, eu servi o Exército. Só que lá no interior não tinha, não era Exército, era uma facção que chamava Tiro de Guerra.

 

P/1 – Tiro de Guerra.

 

R – Eu servi o Tiro de Guerra.

 

P/1 – Lá em João Pessoa? 

 

R – Em Itabaiana.

 

P/1 – Ah, Itabaiana.

 

R – Itabaiana, é. Eu servi o Exército lá, podia trabalhar e servir, porque não tinha quartel, era uma casa alugada que a gente tinha somente umas aulas práticas e, quando tinha, a gente ia para o campo, sim. Pronto. Quando foi em novembro de 1959, eu tirei a minha...

 

P/1 – Identidade?

 

R – É a reservista, não é? De segunda categoria. Pronto. Fui pra João Pessoa, fiz os exames; quando entrei, uma pessoa interessada, era inspetor, tudo era mais fácil. Já a partir de primeiro de janeiro eu entrei como funcionário, que naquele tempo a gente fazia três contratos: eu fiz o contrato de seis meses de janeiro a junho; o outro, o segundo contrato, de julho a dezembro, foi em Recife de novo e o terceiro. Depois acabou o contrato, aí fiquei somente mesmo a partir da Consolidação das Leis do Trabalho.

 

P/1 – CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]?

 

R – CLT.

 

P/1 – Que função que você entrou, Zé Carlos?

 

R – Agente Auxiliar, depois Auxiliar de Estação, que mudou, não é? Mas era Agente Auxiliar de Estação.

 

P/1 – Zé Carlos, deixa eu te perguntar, tinha muita gente que trabalhava como eventual assim como você?

 

R – Tinha!

 

P/1 – Com troca de nome? Tinha bastante gente?

 

R – Tinha, tinha. Em todas as estações maiores, porque Itabaiana é uma estação grande, estação de entroncamento, que ia para Sousa, para Natal e para João Pessoa. Então era estação grande, considerada grande, sempre tinha.

 

P/1 – Bastante gente.

 

R – Gente. 

 

P/1 – Como é que era quando o trem chegava lá na estação? Era uma festa? O pessoal recebia?

 

R – Ah, sempre foi, não é? Porque era assim de gente, porque lá em Itabaiana tinha um trem, todo dia chegava um de noite, que era o que ia de Recife para Itabaiana, saia de madrugada para Recife, segunda, quarta e sexta. Segunda e sexta, ele ia para Sousa e Natal. Em Itabaiana, fazia e desfazia a composição e ia para Sousa e para Natal. Na quarta-feira, era só para Sousa. E de Itabaiana tinha o de João Pessoa para Campina Grande todo dia de tarde. E tinha um trem de Campina Grande para João Pessoa todo dia de manhã. E tinha um trem que saía quando chegavam os trens nas terças e sábados. Os dois trens originados de Sousa saia um trem pra João Pessoa, com o pessoal que vinha de Natal e de Sousa. Era uma...

 

P/1 – Então sempre movimentado.

 

R – Sempre movimentado.

 

P/1 – Sempre muita gente?

 

R – Sempre. E tinha um trem de Recife para João Pessoa que era terças, quintas e sábados.

 

P/1 – E essas composições sempre mistas, Zé Carlos? Sempre...

 

R – Não, tinha um carro de bagagem que levava encomenda. Carga era uma coisa, em vagões fechados e num trem específico, trem de carga. E bagagem era uma tarifa mais cara, mas era entrega, digamos, no outro dia entregava. Assim, entregava não, chegava na estação, que aqui não tinha entrega porta a porta não. Os clientes iam buscar as encomendas na estação. Aí era muita coisa, medicamento, filmes... Em todas aquelas estações tinham os filmes, aqueles rolos de filmes eram transportados pelo trem.

 

P/1 – Que iam para o cinema das cidades.

 

R – Das cidades do interior. Entendeu? Pronto. De noite a estação era assim... Aquelas menininhas, rapazinhos indo para arrumar namorada, aquelas coisas de gente jovem, não é?

 

P/1 – A estação também servia para fazer o footing?

 

R – Também. Domingo de manhã tinha um trem, o trem que sábado ia para João Pessoa voltava domingo de manhã, nove e pouco da manhã. Era quando terminava a missa. Aí o pessoal vinha para a estação, que era bem pertinho da Estação Itabaiana. Então foi uma vida, para o meu gosto, muito boa, eu gostava.

 

P/1 – Então, eu queria que você me explicasse um pouquinho mais essa coisa das bagagens, porque você estava ali como auxiliar de estação. Então você fazia um pouquinho de tudo, não é?

 

R – Fazia, fazia.

 

P/1 – Ajudava bastante o tio, não é?

 

R – Ajudava.

 

P/1 – Enfim, me conta um pouquinho essa coisa de bagagem, quer dizer, o passageiro, digamos que ele estivesse saindo de Recife para Itabaiana. Ele levava a sua mala...

 

R – Nos vagões tinham as redes para colocar coisa pequena que era considerada bagagem de mão, então ali ela fazia parte. Agora, se ele tinha um móvel para transportar, então ele tinha que despachar, ia no vagão-bagagem.

 

P/1 – Ou uma mala maior também?

 

R – Não, só se fosse mala mesmo. Mala baú, como se chama. Mas mala de mão, não.

 

P/1 – Não, aí lá é que nem existe no avião.

 

R – É, botava naquela rede que tinha para se colocar as bagagens.

 

P/1 – Qualquer outra coisa ia no vagão de bagagem?

 

R – É, tinha que pagar.

 

P/1 – Ah, tinha que pagar?!

 

R – Ah, era pago.

 

P/1 – Não tinha direito a levar uma mala, que coisa!

 

R – Não, mala sim...

 

P/1 – A de mão sim, a outra ia na bagagem...

 

R – A outra tinha que despachar.

 

P/1 – O baú então tinha que despachar?

 

R – Tinha que despachar.

 

P/1 – Era caro?

 

R – Olhe, eu não posso avaliar. Não era tão caro não, porque se transportava muito.

 

P/1 – Muito?

 

R – Muito mesmo, os vagões de bagagem iam lotados mesmo. Como para João Pessoa não tinha trem todo o dia daqui, o pessoal queria despachar uma bagagem de qualquer coisa para João Pessoa ou estações além de Itabaiana, que o trem terminava em Itabaiana. Aí, a pessoa despachava, quando chegava em Itabaiana, descarregava. De lá ia para a baldeação... De manhã, passava o trem de Campina Grande para João Pessoa, aquela bagagem que veio no trem da noite a gente fazia a baldeação para aquele outro trem. E ia para as estações, o seu destino.

 

P/1 – Então, quer dizer, o vagão de bagagem carregava tanto bagagem de passageiro como também essas outras encomendas?

 

R – É, é.

 

P/1 – Ele tinha as duas coisas. Já teve caso de, por exemplo, ter um vagão de passageiro e dois de bagagem?

 

R – Não, para bagagem não. Bagagem era somente um.

 

P/1 – Um só?

 

R – Agora, passageiro era...

 

P/1 – Tinha que enfiar sempre tudo ali...

 

R – É.

 

P/1 – Num só?

 

R – Agora, de passageiro tinha os de primeira classe e os de segunda. O trem para Itabaiana não tinha restaurante, porque era perto. Agora os trens para Natal, para Sousa, Maceió, tinha um vagão-restaurante. Eram duas primeiras o restaurante e duas segundas, que eram passagens mais baratas, porque a coisa era de...

 

P/1 – De madeira.

 

R – De madeira.

 

P/1 – Era dura, não é?

 

R – E era a metade assim.

 

P/1 – Não tinha um encosto...

 

R – Não tinha não.

 

P/1 – Mas quem era da primeira e da segunda classe, todo mundo frequentava o mesmo vagão-restaurante ou tinha...

 

R – Podia... Mas, normalmente, as pessoas que viajavam de segunda classe levavam seu farnelzinho ali, sua bananinha, seu sanduichezinho de queijo, essas coisas, porque não podia pagar, não é? Que a diferença era, quer ver? Deixa eu ver se me lembro aqui. Uma passagem de primeira para Recife custava oitenta cruzeiros, na época. Itabaiana a Recife. A de segunda custava sessenta. Uma diferença quase de 50%.

 

P/1 – Boa, é, uma diferença boa.

 

R – É. Eu vendi muita passagem para Timbaúba. Timbaúba é uma cidade de Pernambuco muito grande, a cidade, pólo calçadista muito grande, não sei se hoje ainda é. Mas era um pólo calçadista. Dava uns 27 quilômetros de Itabaiana para Timbaúba. A primeira custava quinze cruzeiros e vinte centavos e a segunda era onze cruzeiros e quarenta centavos. Uma diferença muito grande. Aí, o pessoal ia viajar muito de segunda, que era o pessoal que: “Ah, é segunda, vou fumar cachimbo”, cuspia no chão, aquele negócio, era uma...

 

P/1 – Era mais bagunçado?

 

R – Era.

 

P/1 – É mesmo? Porco? Mas na primeira ninguém...

 

R – Na primeira não, era um pessoal mais...

 

P/1 – Já era mais...

 

R – Como sempre, não é? É...

 

P/1 – Fala um pouquinho desse vagão-restaurante. Tinha uma cozinha, tinha garçom, como era?

 

R – Ah, ele tinha o salão com as mesas. Era assim: mesa e cadeira, assim e assim, certo? Dava para quatro pessoas cada mesa.

 

P/1 – Encostadinho do lado da janela?

 

R – É, na janela e ficava o salão.

 

P/1 – Sei.

 

R – E tinha lugar de botar os copos, as garrafas, para não derrubar.

 

P/1 – Sei. Com aquele...

 

R – Porque balançava muito, não é?

 

P/1 – Lógico.

 

R – Curva, tudo, para não derramar. Pronto. E lá no fim, numa parte do vagão, tinha a cozinha.

 

P/1 – E servia o quê? Que tipo de...

 

R – Tudo!

 

P/1 – Tudo, Zé?

 

R – Era almoço completo, era todo o pessoal da tripulação que era o pessoal que trabalhava, fazia refeições também, é...

 

P/1 – O pessoal do próprio trem comia...

 

R – Também. E fora os passageiros.

 

P/1 – Os passageiros. Então podia sentar lá, pedir um café...

 

R – Tudo o que quisesse. Bebida...

 

P/1 – Bebida...

 

R – Tinha tudo.

 

P/1 – Tinha bastante bebida? O pessoal bebia bastante nesses...

 

R – Não, eu não sei, porque realmente eu nunca frequentei. As viagens que eu fiz com mamãe, que a gente veio, não é?

 

P/1 – Com o dinheiro contadinho...

 

R – Sem... Quase sem dinheiro. Vim com um sanduíche para comer durante o dia todinho, eu nunca me sentei realmente... Não, já me sentei. Já me sentei uma vez, eu fui a serviço para Pombal, na Paraíba, e tinha um trem que fazia o percurso de 23 horas, quase 24 horas de viagem, que era o trem de Fortaleza para Recife. Esse trem correu ainda uns dois anos. Era um trem com ar-condicionado, era um trem bem mais moderno. E eu peguei o trem e fui levar até um televisor que tinha se quebrado, eu trabalhava já no comercial, no Serviço de Reclamações que eu trabalhei. Mandaram restaurar o televisor, que tinha caído na viagem, e eu fui levar em Pombal, 400 e tantos quilômetros.

 

P/1 – Nossa, longe!

 

R – Desci para Pombal. Fui de noite, eu e o televisor, entreguei ao agente da estação e, de manhã, eu voltei nesse trem, que era esse trem que fazia Fortaleza-Recife. Aí eu tomei café da manhã no restaurante. Já era um restaurante mais sofisticado, porque era um trem mais... Um trem com ar-condicionado e os outros trens normais nossos não tinha nada disso.

 

P/1 – Muito bom. Então você estava lá trabalhando, quer dizer, já estamos em 1960, aí você foi contratado...

 

R – Aí eu fui, trabalhei seis meses em Itabaiana...

 

P/1 – Isso.

 

R – Aí em junho eu vim pra Recife.

 

P/1 – Aí já tinha casado e veio com a mulher?

 

R – Não. Casei em dezembro. Eu vim noivo.

 

P/1 – Ah, você veio noivo?

 

R – Vim noivo, fui trabalhar na bilheteria, que eu era bilheteiro lá. Trabalhei na bilheteria durante seis anos.

 

P/1 – E na de Recife, a Central?

 

R – Na de Recife, seis anos. Trabalhei seis anos na bilheteria, depois sai da bilheteria e fui trabalhar na bagagem. Trabalhei mais seis anos na bagagem.

 

P/1 – Também aqui em Recife?

 

R – Cheguei a encarregado da bagagem, em Recife, da bagagem recebida, porque tinha dois tipos de bagagem: a bagagem recebida, que é as que vinham do interior e dos outros lugares, e a expedida, que era a que mandava as coisas para os diversos locais, que ia medicamento, que ia tecido, que ia os filmes. E o de lá pra cá, tinha uns trens que vinham aqui do sertão, traziam ovos, galinha, queijo, manteiga, entre outras coisas. Aí era bagagem recebida. Eu fui trabalhar na bagagem recebida e cheguei a encarregado. Depois, como não ganhava dinheiro a mais por causa disso, eu entreguei: “Não quero não”. Os agentes de estação ganhavam mais do que eu e os encarregados chefiando sem ganhar nada?! Não me interessa mais, eu entreguei. Quando foi em 1972, eu trabalhava na bagagem, tinha uma senhora que trabalhava no Serviço de Reclamações, no Departamento Comercial. Como a bagagem era num prédio antigo, quer dizer, uns armazéns grandes, ainda hoje têm na Central, essa senhora trabalhava no Serviço de Reclamações e fazia leilão de mercadoria. Depois de noventa dias que não procuravam a mercadoria, a gente recolhia para o abandonado. A mercadoria não perecível, de alimento. Aí ela disse: “Seu Zé Carlos”. Eu comecei a ajudá-la. Eu ajudei ela a fazer um leilão. Ela disse: “Seu Zé Carlos, você não quer trabalhar comigo?”. A estação era horrível. A gente não ia para frente de jeito nenhum. É a dona Marinete. A dona Marinete, o pessoal falava muito dela, falava que ela era muito exigente. Conversava muito, conversava mesmo, mas era altamente competente.

 

P/1 – Sei.

 

R – “Senhor Zé Carlos, você não quer trabalhar comigo?”. Eu falei: “Quero”. “Mas tu é doido, rapaz, vai trabalhar com essa mulher, essa mulher é muito chata”. Para sair da estação, eu faço tudo. Ela me requisitou e não podia sair de uma função para outra, porque eu ia ser escriturário e eu era auxiliar de estação, mas como ela tinha muita influência, era competente mesmo, ela falou com o chefe do Departamento de Pessoal e ele autorizou. Aí fui pra lá. Ela fazia eu trabalhar do meio-dia às seis horas. Eu trabalhava de manhã na bagageira, sete às onze e uma às cinco. Senti muita diferença não, porque tem que almoçar cedo, mas tudo bem. Lá ela me ajudou, me ensinou o serviço dela todinho. Eu era muito observador. Tinha uns mal-entendidos com ela? Tinha, porque a minha opinião, eu estava certo, eu sempre batia forte. É por isso que ela gostava de mim.

 

P/1 – Que bom!

 

R – Não brigava. Mas discordava e ela... Com três anos que eu estava com ela, ela aposentou-se. Quem ainda ocupa o lugar? Zé Carlos.

 

P/1 – Que beleza!

 

R – Mas só que, como existiam políticas, eu perdi o lugar. O chefe de departamento me chamou, alegou o que não era verdade, porque eu não tinha científico, eu não podia assumir um cargo daqueles, que aquilo lá era um cargo de chefia. Ela tinha o salário dela e tinha uma gratificação. Chefe de Serviços. “Você não pode, não sei o que...”. Mas eu, tudo bem. Deram para um rapaz, um homem, que me ajudou muito depois, eu fiquei. Ele veio de outra repartição, não conhecia nada. Eu dominava, não é? Quando foi em 1978, surgiu uma oportunidade. Houve um negócio de um plano de cargo e salário que foram criados alguns cargos. Aí, a esse menino que eu ajudei muito lá, eu pedi e passei de auxiliar de estação... Eu já tinha feito prova, já era agente de administração, era mais que auxiliar de estação, aí passei para supervisor. Imagine só. Eu ganhava na época dois mil e 900 cruzeiros. Passei a ganhar doze mil cruzeiros!

 

P/1 – Nossa!

 

R – Imagine.

 

P/1 – Ficou rico!

 

R – Para o que eu era, não é? Foi, doze mil cruzeiros que eu nem acreditava!

 

P/1 – Caramba, Zé!

 

R – Isso foi em 1978. Eu morava numa casinha minha mesmo, numa casinha modesta, aí já aluguei uma casa melhor, no outro bairro. A minha eu aluguei... E saí como supervisor, era supervisor, hoje em dia é assistente, que é a mesma coisa.

 

P/1 – Sei.

 

R – Hoje eu tenho o cargo do nível médio, não é?

 

P/1 – Muito bom!

 

R – Não prevaleceu, eu disse: “Aquele lá disse a mim que eu não podia subir, porque eu não tinha o segundo grau”.

 

P/1 – Sei.

 

R – Eu não assumi agora?

 

P/1 – Pois é!

 

R – Entendeu?

 

P/1 – Então! Zé, vamos voltar algumas coisinhas que eu fiquei com dúvida?

 

R – Vai lá.

 

P/1 – Desses seis anos de bilheteiro, que horário você trabalhava na Central de Recife?

 

R – Na Central de Recife? Lá em Itabaiana eu fui bilheteiro, mas em Itabaiana eu morava perto da estação. E, toda madrugada, o vigia: toc toc toc. Ia bater para me acordar, porque o trem saía às quatro e dez da manhã. Então, eu tinha que estar na estação no máximo três e meia para vender os bilhetes. Toda madrugada o vigia ia me chamar, só que quando ele batia na porta eu já estava acordado, porque a gente pede e se acostuma. Eu vim para Recife, aí variava muito, porque eu fui cobrir as férias. Tinha umas férias acumuladas, tinha um bilheteiro: “Vamos colocar”. Aí eu comecei a trabalhar. Sempre era, os trens que saíam às seis horas, tinha que sair de casa às cinco horas, morando longe. Tinha que pegar transporte, ônibus, trem não tinha naquela hora. Pronto, trabalhei. Depois, eu assumi uma bilheteria efetivo. Deixei de ser folguista, passei a efetivo. Vendia para Salgueiro, até Salgueiro, não é? Caruaru, Arco Verde, Sertânia, que é uma reta.

 

P/1 – Sei.

 

R – E eu vendia para Itabaiana, para Natal, para Sousa, então...

 

P/1 – Cada bilheteiro vendia um trecho ou a pessoa chegava e pedia o bilhete que ela queria?

 

R – Não. Tinha bilheteria, digamos, primeira classe Sul, só vendia para Maceió e adjacências. Primeira classe Norte, era Natal e a primeira classe Centro. Tinha a segunda classe Sul, tinha a segunda Centro e Norte. Eu fiquei na segunda Centro e Norte. Domingo, eu trabalhava dia de domingo. De manhã, tinha o Salgueiro saindo às cinco e dez, tinha chegado às quatro horas da manhã. Quando era seis e quarenta, saía um trem de Capina, eu fazia o trem, ia para casa ou para servir o Exército, quando eram duas horas tinha que estar lá de novo para vender para Itabaiana e para São Caetano, que tinha dois trens. Isso foram seis anos.

 

P/1 – Seis anos. Então, sempre o bilheteiro chegava uma hora antes...

 

R – Mais ou menos, não é? É, mais ou menos, tinha que chegar. Ah, é.

 

P/1 – Era bastante corrido na...

 

R – Era.

 

P/1 – É?

 

R – Era. Naquele tempo a situação dos ônibus, das estradas, não eram pavimentadas todas. Hoje em dia não.

 

P/1 – Usava muito o trem?

 

R – Trem. Usava muito, muito mesmo.

 

P/1 – E o seu horário de trabalho era o quê? De seis horas?

 

R – Não, eu não tinha horário assim.

 

P/1 – Não tinha.

 

R – Eles nos davam, inclusive, na época que eu tinha duas bilheterias, um acréscimo de quarenta horas fixas de extraordinário, porque eu trabalhava em duas bilheterias só que tinha uma folga por semana, mas tinha dia que eu perdia, não é?

 

P/1 – Sei.

 

R – Entendeu?

 

P/1 – E você que fazia o relatório, por exemplo, pegava o dinheiro, entregava?

 

R – Ah, porque os bilhetes são os cartões. E a gente, na época, tinha as estações todinhas, tinha os caixilhozinhos cheios de bilhetes. Pronto. Aí já tinha prática, que eu quero uma passagem pra Salgueiro aí em cima. E aí em cima. Pronto. Depois que o trem saía, tinha que fazer o mapa diário, um mapazinho diário, prestar conta ao agente financeiro. Eu não ficava com o dinheiro. O trem saía, pegava o trem e entregava ao agente financeiro. Pronto. Quando era no fim da semana, fazia o mapa semanal. Depois, passou para dez dias, não era mais semanal, era período de dez dias, faziam três mapas. No fim do mês, fazia o apanhado todo e tinha que bater.

 

P/1 – E vocês bilheteiros que faziam?

 

R – Faziam, é.

 

P/1 – Tinha algum fiscal que lia depois?

 

R – Tinha, tinha fiscalização, tinha. Os fiscais, de vez em quando, davam uma incerta, não é? Para ver, para conferir os bilhetes, sempre existia. Graças a Deus nunca aconteceu comigo, mas tinha cabra que tirava lá do meio e vendia. Eu sei que ele tem que pagar depois! Porque se ele tirava, aquilo era seriado, era contado. Mas, às vezes, chegava lá: “Tchu!”, tirava. Às vezes, o fiscal pegava. Aí já viu, não é?

 

P/1 – É. Aí era mandado embora!

 

R – Não era, não, era não.

 

P/1 – Só uma punição.

 

R – É, uma punição, recolher o dinheiro, essas coisas assim.

 

P/1 – Sei. Mas era muito corrido, porque se você tinha que entregar o mapa logo na hora que o trem saía e se já tivesse que vender o ouro? Era uma correria, não é?

 

R – Não. Só tinha trem atrás do outro no domingo... O trem saía às seis horas, não, o primeiro era às cinco e dez. Eu saia, abria a bilheteria às seis horas, aí dava tempo de fazer. À tarde, saía um trem às quatro e dez e outro às quatro e meia. Eu deixava para fazer depois, porque era um mapa diferente. Aí eu ficava até cinco, cinco e tantas... Pronto.

 

P/1 – E ali você só vendia o bilhete...

 

R – Só, só o bilhete.

 

P/1 – Teve alguma vez que alguém chegou: “Ah, me dá o bilhete, eu não tenho dinheiro”?

 

R – Não. Comigo não. Porque os bilhetes eram baratos, não é?

 

P/1 – Eram baratos?

 

R – Se fosse no subúrbio, porque o subúrbio era diferente, era barato, parece que era um cruzeiro e cinquenta. Mas os da gente não, os da gente eram sempre bilhetes caros, porque eram por 300 quilômetros, 400, 500 quilômetros, então eram bilhetes caros, na época.

 

P/1 – Depois você foi pra bagagem?

 

R – Em 1966, eu fui para bagagem.

 

P/1 – Essa coisa de bagagem que eu queria também perguntar um pouquinho mais. Então já entendi, tinha bagagem de mão, o passageiro levava ou aquela coisa que ele despachava.

 

R – É.

 

P/1 – E sempre só um vagão?

 

R – Só.

 

P/1 – E se não coubesse, ia no outro trem?

 

R – Nunca aconteceu não, que eu saiba não. Porque o passageiro dificilmente despachava as bagagens, porque sempre era bagagem de mão. O que o bagageiro levava era justamente isso, os filmes ou a farmácia, despachava caixas de medicamento e não era obrigatório do cara viajar. Ou o laboratório aqui despachava num destino...

 

P/1 – E dava um jeitinho de caber naquele vagão?

 

R – Não, sempre...

 

P/1 – É. Quem que arrumava a bagagem lá?

 

R – Ah, tinha um pessoal lá.

 

P/1 – Tinha?

 

R – Tinha um conferente. No interior não, no interior ele despachava, recebia e conferia. Já em Recife não. As capitais tinham o balanceiro para pesar, chegava a comanda com cinco caixas de medicamento para tal lugar. O balanceiro pesava, vinha a nota. Aí vinha com uma nota e colocava o peso na nota e a pessoa ia lá para bancada, tinha uma bancada na frente, onde eram feitos os despachos. Depois do despacho efetuado, se pagava no caixa, aí vinham para o armazém para uma pessoa, digamos assim, cinco caixas de medicamento para Maceió. Aí vem, cinco caixas de medicamento. Aí tinha um conferente que ele via lá, pegava o despacho, tinha um discozinho deste tamanho assim, como destino da estação. Maceió, aí tinha a procedência era em branco, botava na hora.

 

P/1 – Na hora.

 

R – Procedência: Recife, Maceió. Cinco volumes, aí pegavam cinco discozinhos daquele e colocava pelo número do destino e pelo número do conhecimento. Tinha um conhecimento com número.

 

P/1 – Tinha um número?

 

R – Tinha um número de conhecimento.

 

P/1 – O valor tinha a ver com o peso e o destino?

 

R – É, não pagava pelo valor, pelo peso.

 

P/1 – Pelo peso. Então...

 

R – E a distância, porque tinham as tarifas de acordo com a distância.

 

P/1 – Então, você disse que transportava tecido, quer dizer, muitos comerciantes...

 

R – Naquele tempo é muito, muito mesmo.

 

P/1 – É?

 

R – Muito tecido, muitas coisas, inclusive tem uma característica do pessoal da bagagem; quando era no fim do ano as firmas sempre presentearam as pessoas com qualquer coisa, caixa de bombom, caixa de sabonete, e era uma corrida para pessoa atrás das firmas, era uma corrida, viu?

 

P/1 – É?

 

R – Atrás das cestas de Natal, muita gente. Principalmente o rapaz que trabalhava na expedição. Já recebida não, porque a gente recebia coisa velha, a maioria. Aí não tinha nada disso, porque eu trabalhei na recebida, na expedida não trabalhei não.

 

P/1 – Ah, na expedida você...

 

R – Trabalhei não.

 

P/1 – Mas você sabia as histórias também, não é?

 

R – Sabia, porque Marcelo Velez, aquele ali é um cara altamente preparado, trabalhou, foi encarregado da bagagem, da bagagem expedida, era bem ali... Pena que não deu para vocês verem agora que estão fazendo uma reforma ali, não é? Tem umas máquinas ali. A bagagem recebida era naquele primeiro armazém, a expedida. Depois tiveram que derrubar para fazer o prédio, aquele prédio novo, os outros armazéns todinhos. Onde eu trabalhava na bagagem recebida era um armazém grande, ficou bem reduzido a pouco mais do que isso. Dia de segunda-feira, não podia nem entrar, porque chegava trem na sexta, no sábado e no domingo. E os trens que chegavam domingo vinham cheios de bagagem; para a gente entrar na segunda-feira era um sacrifício!

 

P/1 – Nossa!

 

R – Foi quando eu entreguei o cargo: “Não quero trabalhar de encarregado de bagagem para não ganhar dinheiro”. Aí foi quando ao Marcelo, que era o encarregado da bagagem da frente, que era junta, deram mais um extraordinário para ser encarregado das duas bagagens. Aí era assim...

 

P/1 – Então, eu só queria entender um pouquinho da expedida, depois você vai me explicar da recebida. Mas, digamos, as cinco caixas foram pra Maceió.

 

R – É.

 

P/1 – Quando chegava na estação, alguém ia levar na farmácia ou o dono da farmácia...

 

R – Não, tinha que vim buscar, não tinha entrega porta a porta não. Inclusive, depois, quando eu já estava trabalhando no Desenvolvimento Comercial, na Reclamação, que Reclamação era para pagar avarias, falta, essas coisas, quando faltava mercadoria que não se recuperava, a Rede pagava. Criaram uma tal de uma firma lá para fazer esse porta a porta, pelo menos aqui. Mas deu uma confusão!

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Deu uma confusão, porque não deu certo. A Rede pagou tanta coisa...

 

P/1 – Que perdia, não é?

 

R – Perdia, porque é o seguinte, tinha o vagão coletor, tinha vagão fechado, que era vagão cheio de açúcar, vagão cheio de milho, cheio de cimento, esse aí era fechado. Mas tinha vagão que a gente fazia a bagagem expedida e eles faziam lá que eram pequenas remessas. Enchia um vagão e saía fazendo as entregas, como se fosse um trem de passageiro.

 

P/1 – Sei.

 

R – Só que demorava mais, porque o trem de passageiro era no mesmo dia e o trem de carga demorava que só, não é? Pronto. Muitas vezes a mercadoria que ia para tal lugar ou para esse lugar aqui, passava pela estação aqui. Aí tinha que devolver, aí gerava o quê? Um percurso indevido, e o responsável pagava, pagava por aquele percurso indevido.

 

P/1 – Sei.

 

R – Ainda bem que não se extraviou. Pior quando extraviava, que ele pagava era tudo.

 

P/1 – Então. Aí você estava lá na recebida, não é?

 

R – Recebida.

 

P/1 – Aí você falou: “Recebida era tudo coisa velha”.

 

R – A maioria.

 

P/1 – O que o pessoal mandava?

 

R – Ah, era móvel... Ah, como eu disse, tinha também a parte que chegava muita galinha, banana, ovos...

 

P/1 – As galinhas vinham fechadinhas?

 

R – Não, numas grades.

 

P/1 – Numas grades?

 

R – Numas grades. É, porque tinha, no trem de carga, os vagões grade mesmo, era gradeado para transportar justamente animal. Na bagagem, tinha uma parte que tinha, mas era pequenininha, para carregar pequenos animais, como cachorro, transportar coisa pequena. A bagagem tinha uma parte que era livre, tinha umas gradezinhas, na bagagem, nos vagão-bagagem.

 

P/1 – Certo, então vinha galinha, vinha ovo, vinha...

 

R – Aí, justamente no trem de passageiro eles mandavam... As galinhas vinham nas grades dentro da bagagem, nesta parte onde eu falei, e os ovos, o queijo, vinham dentro do vagão mesmo. Havia muito, toda semana vinha de Afogados da Ingazeira, de Sertânia, daquela parte do sertão, não é? Galinha, aquelas galinhas que chamam caipira.

 

P/1 – Sei.

 

R – Não é galinha de granja não, é galinha caipira. Até bode, que eu contei uma história no outro dia lá...

 

P/1 – Mas conta essa história, porque a gente não gravou. Mandaram um bode, é isso?

 

R – E isso aí saiu até no jornal, que a gente tinha um jornal, o Informativo RN. E os redatores pediam para que a gente mandasse alguma história que você conhecesse. Então, tinha essa história: o despacho número tal – porque tudo era despachado – comeu o despacho número tal. Aí era assim. Transportava muita verdura, não é?

 

P/1 – Sei. (risos)

 

R – E nesse vagão vinha um bode e não sei como foi, o bode soltou-se ou ficou muito perto e comeu umas alfaces, um bocado de verdura que vinha. Aí o cara, o agente da estação, passou um telegrama, que tinha que telegrafar qualquer irregularidade: “O despacho número tal comeu o despacho número tal”. Já pensou?

 

P/1 – Que era um bode então?

 

R – Que era o bode que tinha comido. Como eu contei outra história, que na estação tinha um conferente para fazer os embarques e conferir a mercadoria. Esse era casado com uma prima minha. Isso não é mentira, não. É coisa que realmente aconteceu. Não saiu no jornal, mas a gente sabe que aconteceu. Dois casos com ele. Ele era assim, tão parado no tempo, que depois ele tinha um moinho de cana, não tem aqueles negócios de cana?

 

P/1 – Sei.

 

R – Que hoje tem aquele motorzinho. Mas antigamente era na mão, para fazer caldo de cana. Esse rapaz, não sei como foi... Tinha umas rodas que rodavam, uma em cima da outra, não é? Feito uma moenda, uma engrenagem. Ele colocou o dedo e puxou a alavanca. Foi parar no posto médico. Teve sorte de não esmagar o dedo, sabe? Pois esse rapaz, Azevedo, é casado com uma prima minha. Ele estava com um despacho na mão e o pessoal tinha uma letra meio... Também, não é? O pessoal da bagagem. O Marcelo mesmo, tem uma letra que muita gente não lia. Era uma caixa de medicamento. Aí, ele foi procurando, procurando, procurando... Chegou um de lá e disse: “Azevedo, está procurando o quê?”; “Rapaz, é uma caixa com médico dentro”. Mas foi uma gozação: “Ah, porque você é burro, é uma caixa com medicamento”. Outra vez, ele mesmo. Aí se despachava muito pneu usado, semi-novo, não era pneu velho, semi-novo. Tinha lá uns pneus usados que iam para o interior. Aí ele estava procurando, procurando, procurando. E chegou um: “Está procurando o quê, Azevedo?”; “Rapaz, o que eu estou procurando aqui? Dois perus usados”. (risos) “Ah, rapaz, que peru usado o quê? Isso é pneu, não tem nada de peru usado!”. É assim. Quer dizer, tem coisa muito...

 

P/1 – Nossa...

 

R – Era, era, ele era muito atrapalhado mesmo! Que colocou o dedo e machucou, é assim. Em 1976, a gente teve uma prova, uma prova pró-forma, porque eles deram todos os elementos para gente... Só caiu aquilo. Ele não passou na prova para agente de estação.

 

P/1 – E ele era conferente?

 

R – Era conferente.

 

P/1 – Mas que coisa! (risos)

 

R – Era casado com a filha desse tio meu, desse bendito tio que eu tinha, que dizem que essa prima minha era meio atrapalhada e estava encalhada, aí deu ela para casar e deu emprego. (risos)

 

P/1 – Está perdoado! Está perdoado! (risos) Então você estava falando, vinha muita coisa e tal. Mas eu fiquei pensando aqui o seguinte: vinha tudo, alguém montava lá na estação – vamos usar de novo o exemplo de Itabaiana –, alguém punha lá todas as coisas.

 

R – Era.

 

P/1 – E vocês tinham que tirar tudo para fora e ficar procurando, não é isso, porque vocês não sabiam...

 

R – É, porque no trem ia um condutor só para aquilo. Ele era responsável, ele conferia, ele tinha que estar na hora, digamos em Recife, para conferir.

 

P/1 – Para conferir e ver mais ou menos onde ficava, não é? Porque...

 

R – É. Fazia de acordo com as estações.

 

P/1 – Sim.

 

R – Para as estações mais longe, ele colocava lá na frente, e para aquelas mais perto, mais perto da porta.

 

P/1 – Ia organizando.

 

R – É. E quando chegava lá, ele tinha um mapazinho, um dos agentes da estação recebia, assinava como recebeu, em ordem.

 

P/1 – Sei, sei. Então...

 

R – Para não haver... É, é.

 

P/1 – Era mais ou menos...

 

R – Porque acontece o seguinte: o trem na estação tinha muito pouco tempo.

 

P/1 – Então!

 

R – Dependendo do tempo, tinha que correr, não é?

 

P/1 – Tinha que correr.

 

R – Às vezes, colocava uma caixa trocada igual, uma caixa parecida com a outra...

 

P/1 – Pois é.

 

R – O laboratório mandava “n” caixas para oito, dez estações. Oito, dez destinos diferentes, mas caixa parecida. Muitas vezes, ficava uma que era pra ir e a outra ia no lugar.

 

P/1 – Era, não é?

 

R – Aí gerava o quê? Um percurso indevido.

 

P/1 – Um percurso indevido. E aí o responsável, então, tinha que pagar...

 

R – Era. Aí tinha que ver, no caso seria o condutor.

 

P/1 – Sim.

 

R – Porque ele que devia estar mais organizado, que se ele arrumou na procedência, não é isso. Ele tinha que tomar cuidado para não pagar.

 

P/1 – É lógico. O que mais você recebeu de muito estranho que você lembra para contar para a gente? Teve alguma coisa muito esquisita? Não lembra?

 

R – Agora não...

 

P/1 – Era tudo mais...

 

R – Essas coisas que a gente marca mais são as que a gente vê, não é?

 

P/1 – É. Eu queria agora falar do seu períodozinho na questão de reclamação.

 

R – Ah, trabalhei dezoito anos.

 

P/1 – Dezoito anos?

 

R – Saí como chefe do serviço.

 

P/1 – É, então.

 

R – Aquele cargo que a dona Marinete deixou para mim que eu consegui depois, com esse outro colega, porque teve a oportunidade.

 

P/1 – Pois é. Você contou para ela depois isso?

 

R – Ela soube, porque ela morava perto de mim.

 

P/1 – Ela deve ter ficado feliz quando você conquistou o cargo.

 

R – Com certeza.

 

P/1 – Então, você estava dizendo que depois de noventa dias, se as pessoas não fossem buscar, fazia leilão.

 

R – Não, recolhia para o leilão, deixava lá. A gente fazia leilão uma vez por ano. Juntava o que era mercadoria não perecível, confecções, outras coisas mais...

 

P/1 – É? Que tipo de coisa? Tecidos, o que mais?

 

R – Os leilões que eu fiz, eu me lembro bem de mais de móveis. Mas tinha peças de carro e outras coisas mais, assim, era o que a gente mais fazia. Quando havia um acidente de trem de carga, no caso, um trem de açúcar virava, aí aquilo que não podia prosseguir vinha para cá e a gente vendia, não era nem mais leilão, era uma espécie de concorrência.

 

P/1 – O que era perecível...

 

R – É, o que era perecível, fazia logo, não podia esperar.

 

P/1 – Sei. Tinha um prazo? Por exemplo, ficou lá um engradado de galinha. Que prazo tinha mais ou menos?

 

R – Que eu me lembre, de galinha a gente nunca fez.

 

P/1 – Não?

 

R – Não.

 

P/1 – Mas o açúcar...

 

R – Agora açúcar, porque o açúcar ia um vagão com 600, 800 sacos de açúcar, e virava. Normalmente, os acidentes eram mais no período de inverno. E outra coisa: no meu período no comercial, eu fui a muitas baldeações. Virava um trem, eu ia para o local...

 

P/1 – Ah, para poder acompanhar...

 

R – É, para fazer a baldeação, acompanhar, ver tudinho e trazer o que dava e colocava no vagão e depois trazia para a estação Cinco Pontas. Uma estação que hoje, eu não sei como, vão fazer umas casas lá e é difícil ali, o Cabanga ali, entendeu? A gente fazia, tinha gente que já sabia, que sempre comprava, não é? A gente nunca ficou com nada; colocou para vender, vendia.

 

P/1 – Você também contou um caso interessante que você foi entregar uma televisão, quer dizer, a pessoa mandou...

 

R – É, tinha vindo essa televisão que se quebrou na viagem. Aí a gente recolheu, mandou consertar e fui levar lá em Pombal. Pronto. Inclusive, não me lembro se eu levei no próprio vagão ou foi na bagagem com recomendação, porque já tinha havido a quebra.

 

P/1 – Quer dizer, mas a Rede mandou consertar? A Rede...

 

R – Mandou consertar, eu fui levar tudo por conta da Rede, com diária, com tudo...

 

P/1 – Era uma espécie de seguro então, não é?

 

R – É, porque a Rede é responsável. Eu que transportava...

 

P/1 – Eu acho que qualquer coisa que punha no trem...

 

R – A gente mexeu num vagão, por isso ou por aquilo, má arrumação ou não, caía um objeto desses. Pronto. Aí quebrava, então a gente pagava.

 

P/1 – Vinha solto no vagão ou tinha algumas correias...

 

R – Não, não tinha não.

 

P/1 – Não, não tinha.

 

R – Agora, as mercadorias, era uma que sustentava a outra.

 

P/1 – Sei. Fazia um...

 

R – É. Entendeu?

 

P/1 – Um quebra-cabeça.

 

R – Porque no caso do vagão de carga, o vagão já é compacto. No vagão cabiam 840, os maiores. No começo era menos, uns 600, digamos, 600 sacos de açúcar. Então, era compacto. Só se houvesse um acidente que virasse ou, às vezes, os vagões estavam furados; ou chovia, molhava, mercadoria como açúcar era perecível, não é? Como cimento, essas coisas. Mas os vagões de bagagem sempre saiam bem arrumados, o pessoal sabia arrumar direitinho. E numa viagem de trem de passageiro, não tinha muito, era normal, era um balancinho normal. Não dava pra... Só tinha uma coisa que, inclusive...  Ah, vou contar um! Na bagagem recebida, o nome dele era Mário, não sei qual era o sobrenome. E mudança, jarra de barro não tinha garantia, sem responsabilidade. Ele quebrava todas elas. É, aí ficou chamado Mário Quebra-Jarra (risos). Porque, a gente pobre tem “n” coisas, não é? Era cama velha, colchão, aí vinha jarra, jarrinha. Normalmente, quando a bagagem vinha para derrubar, para ficar, em Recife, nunca acontecia não. Quando era baldeação, vinha de Itabaiana para Catende, vinha para Recife, descarregava, passava para o outro lado para embarcar, para ir para Catende no outro dia, digamos.

 

P/1 – Tinha que tirar todas as mercadorias e...

 

R – É, porque tinha as baldeações, como eu falei. Ele quebrava todas as jarras. Não pagava, aí dizia: “Não, é sem responsabilidade da Rede”. Era o Mário Quebra-Jarra, como ficou conhecido.

 

P/1 – Ele quebrava sem querer?

 

R – Não, era de propósito mesmo! (risos) Que era muito ruim transportar. Aí você pensou uma jarra deste tamanho que vinha cada uma, vinha uns potezinhos a mais, cada jarra que deixavam para a gente transportar aqui, era horrível. Ele quebrava e ficou conhecido como Mário Quebra-Jarra. Tinha também os sabidos que passavam a mão nas galinhas dos outros, sempre teve. Teve uma vez um, esse ainda é vivo, na bagagem recebida, aí faltou lá umas galinhas, porque também galinha todo mundo botava, era por cabeça, a pessoa botava sessenta cabeças e declarava quarenta.

 

P/1 – Ai, caramba!

 

R – Para pagar menos. A turma já sabia da mutreta. Aí, faltaram umas galinhas lá, numa grade lá. Aí encontraram um anel desse cara dentro da grade. (risos)

 

P/1 – Mas que ladrão bobo!

 

R – É. Nunca deu nada, porque sempre tinha mais. Era assim: muitas histórias para contar. (risos)

 

P/1 – Boas histórias. Ótimas. E me fala da questão das reclamações. O pessoal reclamava muito?

 

R – Eu trabalhei na reclamação, nós tínhamos uns registros, as fichas, e dona Marinete se deu muito bem comigo, porque eu que trabalhei em estação sabia de todas aquelas coisas. E tinha na bagagem as avarias em geral, tinham as avarias por acidente e tinham as faltas por violação. Porque tem a falta, digamos, vai uma caixa de medicamento, faltou a caixa toda, então pronto. Mas se chega no destino com a caixa rasgada faltando medicamento, digamos, então se chama violação. Tinham as perdas e as avarias, as avarias eram os acidentes. Pronto. E, também, muito roubo.

 

P/1 – Era?

 

R – Teve um caso que ia um bocado de açúcar daqui para o Ceará. Vagões, trens enormes e tinham uns selos, que aquele selo e nada era uma coisa. Era com um aramezinho de plástico ou de chumbo. Aí, cortou: “Puff”.

 

P/1 – Para fechar o vagão?

 

R – Para fechar o vagão. Aí começaram a colocar cadeado. Só que quando chegava lá, os cadeados não... Tinha uma chave de cá e outra chave de lá. Quando botava, a chave não abria, que era outro cadeado.

 

P/1 – Ah, olha só!

 

R – Aí eu digo: “Rapaz, isso aí só pode ser...”. A gente tem experiência, não é? Tinha uma estação chamada Paquevira, no município de Canhotinho. Fica depois de Quipapá. Quipapá, Paquevira. É uma estação que é a última estação do Estado de Pernambuco para pegar Alagoas. A outra estação é Serra Grande, Serra Grande já é Alagoas, é uma usina, ela vinha assim, fazia um rodeio para ir para lá. Digo: “Isso aí só pode ser em Paquevira”, que era onde havia redução que, às vezes, o trem era muito grande, aí eles reduziam, levavam um bocado para lá e... Eu sei que eles descobriram que era em Serra Grande. A próxima estação. Eram vagões de faltar 100 sacos de açúcar!

 

P/1 – Nossa. E o cara abria, pegava...

 

R – Abria, pegava, já tinha caminhão preparado para levar.

 

P/1 – Nossa!

 

R – Descobriram. Descobriram que era um agente de estação que estava... Foi demitido, mas entrou na justiça e na época ganhou um bilhão de cruzeiros.

 

P/1 – Vixe Maria!

 

R – E a gente pagando... Eu trabalhava na reclamação, era conta, era pagamento de indenização, era uma coisa seríssima mesmo.

 

P/1 – Vocês também eram responsáveis por isso, quer dizer, não só de receber a reclamação, mas também de...

 

R – A gente fazia o seguinte: quando os processos eram gerados aqui, quem preparava era eu.

 

P/1 – Sei.

 

R – Aí ia para o Departamento Financeiro, lá eles faziam o pagamento. Quando os processos, as faltas, eram geradas lá, porque eu também faltava aqui, não é? Eram geradas lá: denúncias de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte eram aqui. Ceará, Sergipe, Bahia era outra regional. E a gente pagou muito, foi muita coisa.

 

P/1 – E você falou do acidente, quer dizer, quando tinha um acidente, eles te chamavam pra você ir lá...

 

R – Aqui dentro do Estado.

 

P/1 – Sei.

 

R – Sempre eu ia.

 

P/1 – Dentro de todo Pernambuco?

 

R – É. Eu fui uma vez em Aliança, que nós também tivemos umas carretas, uns caminhões graneleiros quem carregavam açúcar, aquele preto, demerara. E quando houve acidente em Escada, eu ia. Eu fui em muitos acidentes.

 

P/1 – Avisavam e você...

 

R – É. Outra coisa, eu fui resolver muitos problema de Natal, que tinha um moinho de trigo. Em Cabedelo, tinha um moinho de trigo, eu fui resolver muitos problemas lá. Tem uma vez que a Refinaria de Açúcar do Norte, RAN, que era em Prazeres, estava com um bocado de fatura para pagar a Rede, de transporte, mas estava com um bocado de falta de açúcar. Aí, me chamaram, disseram: “Zé Carlos, vai lá para resolver isso, que a gente está com um bocado de dinheiro para receber e eles só pagam se receberem o que a gente deve aí”. Inclusive, eu não tive conhecimento de nada registrado, mas quando chegou lá, levei os formulários no escritório da usina, que é ali em Prazeres mesmo, ali como quem vai para Pontezinha. Apresentei-me, o carro me levou lá, eu levei os termos todinhos, tal, tal, tal. Preparei todas as indenizações, tudo, porque a parte tinha que assinar o pedido. Assinaram, eu levei, com poucos dias resolveram.

 

P/1 – Que bom!

 

R – Acho que eu só não ganhei uma medalha porque era dinheiro que deviam à Rede, de frete. Aí eu fiquei conhecido, não é? Eu resolvi uma coisa que era da minha alçada. E assim, eu fui para Cabedelo no mês de eu me aposentar, eu me aposentei no dia 31 de julho de 1990. No dia 10 de julho de 1990, eu fui para Cabedelo, já estava aposentado praticamente. Fui lá e tinha uma pendência também, de muita coisa para gente receber, depois que a gente pagasse a ele, que era os trigos, porque faltava muito trigo. Qualquer coisinha, bastava romper um lacre daquele, chegava lá faltando, eles já aproveitavam também. Às vezes, a diferença de balança, que pesava aqui no porto e pesava lá. Balança que tem as taras, aquele negócio todo... Mas fui, passei uns três dias, fui na quarta, quinta e sexta, voltei no sábado. No mês que eu me aposentei, mas deixei tudo resolvido.

 

P/1 – Que bom.

 

R – Então, graças a Deus, eu deixei um leque muito grande de amizades, apesar das minhas limitações de estudo, essas coisas, mas eu me dedicava muito ao que eu fazia.

 

P/1 – Agora a gente já vai fazer o encerramento, certo? Para não cansar tanto.

 

R – Não, eu acho que eu falaria até amanhã (risos). Se fosse o caso, não é?

 

P/1 – Acho que nós ficaríamos ouvindo até amanhã! (risos) Caixa com médico dentro foi ótimo. (risos)

 

R – Essa todo mundo que trabalhava na bagagem sabe. Tem poucas pessoas agora, porque morreu quase tudo.

 

P/1 – Que pena, não é?

 

R – Esse aí ainda é vivo.

 

P/1 – O Mário ainda é vivo?

 

R – Não, o Mário não é...

 

P/1 – Zé Carlos, então você ficou nessa função até se aposentar?

 

R – Por dezoito anos.

 

P/1 – E por que você resolveu se aposentar? Já estava no tempo?

 

R – Sabe o que é? Eu já estava vendo que a empresa já estava na ladeira.

 

P/1 – Já era anos 1990, não é?

 

R – É. Eu saí com trinta anos de carteira assinada, que eu fui de 1960 a 1990. Fora aquele tempo que eu trabalhei lá com banana, em Itabaiana, não contou. Podia se aposentar com trinta anos, com cinquenta de idade eu tinha, não é? A gente tem uma lei, a Lei número 8.186 de 21 de maio de 1991 que garante a paridade, se eu ganhava cinco mil reais na ativa, eu saía com os mesmos cinco mil. Ainda hoje tem. A gente está muito defasado, mas o pessoal do metrô se aposentava e tinha a chamada complementação, ganha como se tivesse trabalhando. Então, eu digo: “O que é que eu estou fazendo mais aqui?”. Eu tinha idade, trabalhei 35 anos, que realmente foi 35 anos, os trinta da carteira e os cinco eu trabalhei antes. Então eu saí moço, muito moço mesmo, mas não parei, porque desde 1992 que eu estou na Associação. Dezoito anos faz que eu estou na Associação.

 

P/1 – Então, me conta também da Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste. Quer dizer, você já saiu e foi para lá ajudar o pessoal?

 

R – Eu me associei em 1990. Quando foi em 1992, aquele gordinho que disse que não vinha, que trabalhava no sindicato.

 

P/1 – Seu Ivo Raposo?

 

R – O Ivo me indicou, estavam precisando de um tesoureiro. Eu ia passando na hora e ele disse: “Olha quem deve ser o tesoureiro, o Zé Carlos”. Aí, me chamaram. Esse tempo eu fazia parte do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Nordeste, na parte dos aposentados. Fazia parte de lá, o pessoal do Partido dos Trabalhadores, eu não gostei muito não, apesar de eu ser um pouco da esquerda, mas o pessoal do PT [Partido dos Trabalhadores], ah, deixa pra lá, não é? Chamaram-me, que o primeiro tesoureiro não quis. Aí eu fui pra lá ser tesoureiro, passei oito anos como tesoureiro ali. Hoje eu sou o segundo. Eu era o primeiro, eu e seu Severino de Lima Pereira era o segundo tesoureiro. Agora quando foi em 2000 a gente saiu, ficamos como sócios e na parte do conselho. Pronto. Aí quando foi em 2006, parece, eles me chamaram de novo pra lá. Tinha um segundo tesoureiro que não quis, entrou na chapa e depois saiu, não pode ficar um tesoureiro só lá, porque quando um sai o outro fica. E eu já tinha experiência, aí Oliveira, Zé de Oliveira Borba era o tesoureiro: “Ah, tudo bem, a gente trabalha junto”, porque num lugar daquele só pode trabalhar gente de confiança.

 

P/1 – É verdade.

 

R – Porque se... Não tem muito dinheiro não, mas de qualquer maneira...

 

P/1 – Mas é, para mexer com dinheiro tem que ter confiança. Você está nessa chapa...

 

R – Estou, continuo, como segundo tesoureiro.

 

P/1 – É que tem eleição amanhã...

 

R – É, só para confirmar, não é?

 

P/1 – Tá certo.

 

R – Ninguém quer.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar, então você foi do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Nordeste quando você estava trabalhando?

 

R – Não, depois de aposentado.

 

P/1 – Depois de aposentado.

 

R – Eu ainda passei a eleição, que foi em 1991, mas eu desisti, caí fora, porque eram muito radicais.

 

P/1 – Sim, mas vamos falar fora dessa época aí. O sindicato dos ferroviários sempre foi muito atuante, Zé Carlos?

 

R – Mais ou menos. Era mais patronal. Veio a melhorar em 1988 que foi a eleição de Valmir, um rapaz muito preparado, muito culto, muito... Morreu dias antes de assumir, foi um acidente.

 

P/1 – De carro?

 

R – Acidente de carro. Ele foi para o Rio Grande do Norte dirigindo um carro de um cunhado dele, ele e o vice-presidente do sindicato, eles iam tomar a posse em junho, ele morreu em maio.

 

P/1 – Nossa...

 

R – Eles foram para Goianinha, lá no Rio Grande do Norte, e vieram embora de noite. Ele não tinha muita experiência em estrada, o carro não era dele. Virou o carro, ele morreu, o outro quebrou o fêmur, pronto. Aí assumiu o outro, mas... Aí foi na época que começou a Rede a... Aí acabou.

 

P/1 – Mas nem lá atrás, nos anos de 1960, lá pra trás, o sindicato não era...

 

R – Não, foi e foi realmente, foi bem atuante. Inclusive Eldo Souza da Costa Almeida fez parte de chapa de sindicato, ele sempre foi sindicalista.

 

P/1 – Zé, o que significou para você, para sua vida, esses anos todos de trabalho na Rede?

 

R – Será sempre a minha vida, porque é de onde sempre eu tirei o meu pão, continuo tirando. Eu hoje, como disse, sou separado, mas graças a Deus deu para conciliar a pensão e vivo com outra, mas nunca me aperreei, porque sempre tive os pés no chão. Eu hoje tenho um enteado meu, que parece que assimilou um pouco a minha vida. Já outro irmão dele, mais velho, foi assassinado o ano passado. Não sei o que foi que houve. Hoje esse menino é casado, é evangélico, tem 25 anos, eu tenho uma neta linda! Olhe, eu sou muito, eu sempre fui muito apaixonado por criança. Os meus, os netos, mas eu não tive oportunidade de conviver muito com meus netos assim, como eu convivo com essa que mora em cima. Tem uma casa em cima e ele...

 

P/1 – Como ela chama?

 

R – Camila Eduarda. Com sete meses, mas está a coisa mais linda do mundo! Gordinha, foi uma benção. A avó dela perdeu um filho e isso foi o que deu um alentozinho na vida dela, porque ela ainda hoje sofre. Perder um filho com 26 anos, solteiro, ser assassinado como ele foi, mas a menina veio na hora certa. Deus fechou uma porta e abre sempre uma janela, não é? Não é isso?

 

P/1 – Então foi importante nesses anos todos?

 

R – Foi muito importante. Porque olha, às vezes, a gente faz uma coisa que não está planejada, porque o amor, o gostar, principalmente, no homem, mulher, é uma coisa que a gente, de repente, descortina. Foi o que aconteceu comigo. Eu sempre dizia que eu sofri com a separação, a de papai com mamãe, e eu nunca tive assim planos... Eu não vou dizer que eu fui santinho, não fui, a gente não pode dizer que é santo, mas tinha quatro filhos, vivia relativamente bem, de repente aparece uma danada na minha frente. Aí já viu, não é? Aí a gente perde a cabeça... Faz quase vinte anos já. Mas por outro lado, ganhei uma família de cara, que me tem o maior amor, a maior consideração, todos, que a família é grande. A minha mulher tem sete irmãos, quatro homens e três mulheres.

 

P/1 – Você é da família?

 

R – E eu sou considerado... Quando eu adoeci, meu Deus do céu, não só a minha família, os meus filhos, mas a minha mulher, esse filho dela que mataram também me deu muita assistência e os irmãos, todo mundo com a maior preocupação, sozinho lá no hospital... Então, houve uma compensação, não é? E a vida é assim mesmo...

 

P/1 – É isso aí. Zé, mais alguma história que você queira contar para gente, que você queira registrar?

 

R – Não.

 

P/1 – Você já contou...

 

R – Sobre a ferrovia eu não tenho mais muito o que contar, porque, como eu disse, foi e é a minha vida. Sinto uma saudade muito grande, eu moro em frente a uma oficina que era da Rede, tudo fechado, tudo abandonado, as locomotivas todas só os cangaços, aquela coisa toda, quer dizer, não é somente lá. Aquela turma ali é muito dedicada, porque a gente não ganha nada, não é? É uma dedicação total, ninguém quer entrar ali, por quê? Se tivesse um salário bom, pelo menos um salário mínimo pagar para cada um, mas não tem.

 

P/1 – Mas encontrar com os amigos e bater papo não tem preço.

 

R – É muito bom, é muito bom! Muito embora muita gente não considere isso assim, porque deixa de pagar, deve... Se vier algum beneficio, vem para todo mundo, mas a gente luta para conseguir os benefícios. Eldo mesmo é um lutador. Então, a gente vai levando aquilo ali até um dia, quando não tiver mais nada, fecha, entrega ao Governo, porque aquilo é nosso. Nós compramos aquilo ali. A gente vivia na estação, que hoje estaria difícil, porque está tudo fechado, não é? Onde a gente vivia está fechado pra fazer aquela reforma que é o Centro Cultural do Banco do Brasil, vai ser. Então a gente estaria o quê? Jogado por aí, em qualquer lugar, não é isso? Então estamos ali, compramos aquilo, até não foi tanto sacrifício, porque a gente juntou e comprou. Pronto. Temos sempre um mês que a gente trabalha no vermelho, mas a gente tem um azul guardadinho lá no banco para compensar, não é isso?

 

P/1 – Então, Zé Carlos, o que você acha dessa ideia de contar a história da ferrovia com a participação de vocês?

 

R – Ah, é muito bom. É, porque vai resgatar... A gente tem um fotógrafo, já morreu, Alcindo, ele era funcionário e era fotógrafo. Ele fez muitas histórias, escreveu um livro inclusive que a gente tinha um livro lá e levaram o livro da gente. Tem um rapaz, esse trabalhou pouco na Rede, ele é escritor, estou até com o livro dele lá na gaveta, que ele me vendeu: “Trem e Trens”. Eu nem li, nem tive tempo, comprei a semana passada, José Calvino de Andrade Lima. Eu ia passando na Rua Matias de Albuquerque, ali por trás da Rua Nova, aí: “É rapaz, opa!”. Ele está com uma banquinha, vendendo livro, inclusive os que ele publica mesmo, aí eu comprei um, dez reais. Ele também conhece muito de ferrovia. Se houvesse tempo...

 

P/1 – E você gostou de dar esse depoimento, fazer essa...

 

R – Adorei, gostei muito. Olhe, eu digo a você o seguinte, a princípio: “Por que é que eu vim fazer?”. Agora que eu estou vendo porque é que vocês fazem aqui, não é?

 

P/1 – Pois é.

 

R – Quando é um depoimento desses, podia ser dado lá dentro da associação, dentro do ambiente, mas me surpreendeu além da expectativa. Isso foi muito bom, estou vendo que o negócio é muito sério mesmo. A gente vai saber alguma coisa depois disso?

 

P/1 – Vai, depois vai virar uma série de coisas, quem sabe um livro, não é?

 

R – Ah!

 

P/1 – Mas de qualquer forma, tudo isso é porque essa sua gravação vai ficar para sempre, não é?

 

R – Eita!

 

P/1 – E você vai poder mostrar para a Camila Eduarda, quando ela estiver entendendo...

 

R – Se Deus quiser, porque eu digo o seguinte: eu estou com setenta anos, gostaria de viver pelo menos mais quinze ou vinte, para ver essa minha neta crescer. Não para educá-la, porque a educação é dos pais, não é isso? Mas ajudando no que for possível, inclusive economicamente, porque ele trabalha ganhando um salário mínimo e tal, não tem muitas condições. Eu ajudo sempre; no que eu puder ajudar, eu ajudo. Ele começou a trabalhar ontem, estava desempregado. Mas para ele, para ela e para a minha nora, não falta nada.

 

P/1 – É, então.

 

R – É, não vou deixar faltar nada.

 

P/1 – Você vai chegar lá com certeza.

 

R – Eu quero ver essa menina crescer, porque...

 

P/1 – Vai ver.

 

R – Olhe, é bonita. Eu vi essa menina semana passada, que era aniversário da minha irmã. Aí eu a levei. Foram a minha mulher, o menino dela, a esposa e ela. Não deu para quem quis lá... Eu tenho um neto com 25 anos, é o segundo neto, que ele mora com a avó. Ele disse: “Vovô, que menina bonita! O senhor deixa eu pegá-la?” (risos). Eu nem pensava que ele fosse tão assim com criança, não é? Que tivesse aquela afinidade. Uma das minhas filhas disse: “Papai, ela é muito bonita, viu?”.

 

P/1 – Que bom!

 

R – E é mesmo...

 

P/1 – Veio para unir a família. Zé, muito obrigada...

 

R – De nada, Claudia.

 

P/1 – Pela sua entrevista, pelo seu depoimento, foi muito bom, gostamos...

 

R – Eu que digo, foi ótimo.

 

P/1 – Que bom!

 

R – Adorei! Adorei mesmo.

 

P/1 – Obrigada, Zé.

 

R – De nada.

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