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História

De tanto sofrer, aprendi a viver

História de: Miriam Duarte Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/08/2009

Sinopse

Miriam Duarte Pereira desistiu dos estudos no ensino médio e casou-se muito cedo, aos 18 anos. Teve três filhos que acabaram se envolvendo com drogas e outros delitos, resultando em passagens pela Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor]. Ao se defrontar com essa difícil situação, descobriu que, junto com outras mães, poderia ter um papel importante na resolução dos problemas que ocorriam naquela instituição: decidiu se dedicar profissionalmente à essa causa e continuar os estudos, mesmo depois da morte de dois de seus filhos. Apesar da dificuldade que enfrentou com seus filhos, só tem a agradecer o aprendizado que essa experiência trouxe.

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História completa

Meu nome é Miriam Duarte Pereira. Nasci na capital de São Paulo em 30 de agosto de 1962 e morei em um cortiço, na Vila Ema. Minha adolescência foi tranquila porque minha mãe era muito sistemática, não deixava ter amigos: amizade, só com os primos. Eu estudei só até a oitava série. Quando entrei no ensino médio, minha mãe descobriu que meu pai tinha outra mulher e ele foi embora de casa. Como eu era muito apegada a ele, não quis mais estudar.

 

Meu marido foi meu primeiro namorado. Peguei um ônibus para tentar um emprego e ele era o motorista. Quando a gente começou a namorar, eu tinha 17 anos. A gente namorou oito meses, engravidei e casei. Quando engravidei, fiquei com muito medo da minha mãe. Foi meu marido que falou: “A senhora tem que conversar com sua filha. Ela precisa fazer pré-natal, está grávida”. Vi o ódio no olhar dela, mas depois ela perguntou: “Você vai casar porque está grávida ou porque gosta dele”? Respondi: ”Vou casar porque gosto dele”. Quando meu primeiro filho nasceu, eu precisei muito da minha mãe porque eu tinha 18 anos. Fiquei grávida de novo depois de um ano e nove meses. E ainda tive um terceiro filho.

 

A gente morava na Cohab e pagava a prestação do apartamento: a condição financeira não era boa. Quando meus filhos entraram na adolescência, percebi que não poderia atender aos desejos deles. Quando não dava para ir à feira, o caçula reclamava: “Vou sair dessa casa. Abro a geladeira, está vazia, não tem o que eu quero”. Isso machucava a gente. Logo eles começaram a sair para a rua. Como fui criada muito presa em casa e achei muito ruim, deixava. Foram se desinteressando da escola, pegando outras amizades.

 

O mais velho começou a ficar rebelde aos 13 anos. Ele foi trabalhar com minha tia aos 12 anos. Trabalhava no período da manhã, estudava à tarde. Começou a matar aula para dormir. Logo quis trabalhar o dia inteiro e estudar à noite. Não concordei, mas ele me convenceu. Comecei a levá-lo para o trabalho, buscar, levar para escola à noite. Quando ia buscar, ele não estava mais na escola. Começou a ir para as favelas, usar drogas. Não quis mais saber da escola, do trabalho, de nada. O negócio dele era ficar no meio daquele grupo, usar drogas. Uma amiga me falou do  Cedeca [Centro de Defesa da Criança e do Adolescente]. O Cedeca não tinha estrutura nenhuma naquela época. Quando teve o Proerd [Programa Educacional de Resistência às Drogas], da Polícia Militar, na escola onde o caçula estudava, fui conversar com o coronel, mas também não obtive ajuda. Logo esse filho mais velho foi parar na Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor [Febem]. Tentei algumas casas de recuperação, mas ele fugia. Ele morreu, assassinado pelo polícia, 12 dias depois de fugir de uma dessas casas de recuperação. Antes do falecimento dele, os outros irmãos também se envolveram com drogas. Teve uma época em que meus três filhos estavam na Febem. Foi muito difícil para mim. Pegava a foto dos meus filhos pequenos e falava: “Meu Deus, onde eu errei”? Meu marido se distanciou, achava que era sem-vergonhice.

 

A primeira vez que fui visitar meu filho na Febem Imigrantes foi horrível. Os meninos todos sujos, o cabelo do meu filho estava duro. Quando o meu segundo filho, Michel, foi apreendido (por estar de carona em um carro roubado), o primeiro, Jones, foi pego porque não cumpriu as regras da Liberdade Assistida. Eu achei melhor, pelo menos sabia onde ele estava. O Michel aprendeu a dirigir com os meninos dentro da Febem e quando saiu, com 16 anos, começou a roubar carro para treinar.

 

Eu tinha vergonha de conversar com as pessoas porque eu sentia que elas olhavam para mim me culpando. Quando o Jones estava no Tatuapé, teve rebelião. Foi lá que eu conheci a Amar [Associação de Mães e Amigos da Criança Adolescente em Risco]. Quando eu conheci essa associação, pensei comigo: “O meu problema é muito grande, as mulheres têm um filho, eu tenho três envolvidos nesse problema. Vou precisar muito de apoio”. As mães da Amar se encontravam na praça da Sé, conversavam, anotavam as informações sobre o que tinha acontecido nas unidades e iam para o fórum, conversar com os promotores. A gente mal sabia escrever, mas fazia as denúncias.

 

Em 2003 teve uma rebelião na Vila Maria. Fui lá e a direção ficou me observando. Quando viram que eu estava tranquilizando as mães, pediram para eu entrar e ver os adolescentes. Eu entrei e meu filho estava lá. Conversei com todo mundo, conversei com meu filho como se ele fosse um dos meninos, não misturei as coisas. A direção começou a perceber que a gente podia ajudar. Quando meus filhos saíram da Febem, eu continuei indo lá: “Tem outros lá, tem outras famílias”. Quando eu descobri o Cedeca, a Amar e o Al-Anon, descobri que podia contar com alguém. Descobri que que não estava sozinha e que, junto outras pessoas, podia fazer alguma coisa. Hoje eu me considero uma pessoa muito forte e com muita esperança neste mundo.

 

Nesse meio tempo voltei a trabalhar. Fui trabalhar em uma creche, como auxiliar de cozinha. Fui me apaixonando pelas crianças, mas o meu negócio é o adolescente. Saí da creche e fui para a Amar. Lá fazia denúncias, ia para porta da Febem quando tinha rebelião. Um dia, passei no Cedeca e falei: “Estou procurando emprego, tem vaga para educadora”? Eu tinha que tomar um ar diferente, tomar novos rumos, conhecer coisas diferentes. Quando eu fui para o Cedeca, comecei a perceber que não adianta ter a prática e não ter a teoria. Fiz o ensino médio à distância e depois, vestibular para História. Como não formou turma, acabei fazendo matrícula em Pedagogia. Mas ainda vou fazer faculdade de História...

 


A morte do meu filho mais velho ficou por isso mesmo. Quando me recuperei da morte do primeiro, o caçula foi assassinado, levou um tiro nas costas. Meu filho do meio às vezes está bem, às vezes se desespera e procura as drogas. Eu acho que ele sente falta dos irmãos. Eu não me arrependo de ter sido mãe deles, agradeço todo dia. Eu me descobri graças aos meus filhos, graças ao sofrimento, aprendi a viver. Eles me ensinaram muito.

 

Editado por Raquel de Lima


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