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História

De ursinho a Marquês de Rabicó

História de: Ricardo Gouveia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Filho de Tatiana Belinky e Júlio Gouveia – nomes importantes da televisão brasileira –, Ricardo Gouveia nasce na passagem do Ano Novo de 1942 para 1943, dando sequência a uma vida que se concretiza nos palcos. Ele nos conta um pouco sobre a infância e as brincadeiras de atuação que o levam a se consagrar como ator ainda aos 12 anos. Vive momentos importantes da consolidação da TV brasileira atuando como Marquês de Rabicó na primeira adaptação televisiva da obra de Monteiro Lobato, Sítio do Picapau Amarelo, em 1958. Retornando ao presente, Ricardo nos fala um pouco sobre a convivência direta com Tatiana Belinky e das memórias de sua infância.

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História completa

P/1 – Bom dia, Ricardo.

 

R – Bom dia, José.

 

P/1 – Queria te agradecer por você ter conseguido driblar a chuva e chegar no Museu da Pessoa.

 

R – Cheguei antes dela, ela vai cair já.

 

P/1 – Então, queria te perguntar primeiro qual o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Eu nasci em São Paulo, na Pro Matre Paulista, em 31 de dezembro de 1941, e só fui registrado em primeiro de janeiro de 1942.

 

P/1 – Ah, você nasceu no Ano Novo!

 

R – Bem na passagem!

 

P/1 – Qual é a primeira lembrança que você tem pequeno, mas que você se recorda dessa atividade de seus pais ligados à televisão, ao teatro?

 

R – É mais velho que a minha memória, desde criança pequena eles já faziam teatro amador, desde sempre.

 

P/1 – E você os acompanhava nessas atividades?

 

R – Também sempre, até depois de adulto.

 

P/1 – E quando criança, como era isso? Você se lembra de algum momento que marcou, de você ir a televisão com eles?

 

R – Televisão lembro, porque já foi bem depois, eu já tinha doze anos, já tinha feito teatro, já era veterano com doze anos. Já era veterano e estreei no dia do meu aniversário, na noite de 31 de dezembro, na Tupi, que tinha inaugurado um ano antes.

 

P/1 – E você estreou com o quê?

 

R – Com a peça Os três ursos, eu era o ursinho.

 

P/1 – E você gostava dessa?

 

R – Adorava. Até hoje adoro.

 

P/1 – E como é que foi o Sítio? Você se lembra desse momento deles estarem pensando a criação do Sítio? O Sítio é 1952, não é isso?

 

R –  É de 1952, sim, se não me engano. O Sítio, de fato, foi um convite, porque meus pais na época faziam teatro para a prefeitura. Aliás, essa peça que eu estreei na televisão, eu já tinha feito no teatro, em inúmeros teatros, teatros da prefeitura e cinemas, patrocinado pela prefeitura.

 

P/1 – Então eles estão convidados.

 

R – Sim, aí eles foram convidados para apresentar na televisão essa peça, “Os três ursos”, que foi quando eu estreei na televisão. E o negócio foi tamanho sucesso que convidaram eles para fazer um programa fixo, toda semana, sem saber o quê. Eles queriam uma coisa brasileira. Não sei se foi minha mãe, meu pai que disse que “uma coisa brasileira tem que ser o Sítio do Picapau Amarelo.” E foi assim que começou. Aliás, começou de fato na antiga TV Paulista, que hoje é a Globo, canal cinco, e o primeiro e segundo episódio do Sítio foram apresentados na Paulista. Depois foi para a Tupi.

 

P/1 – Ah, dois episódios.

 

R – Dois episódios, os dois únicos que meu pai escreveu. Do terceiro em diante foi minha mãe.

 

P/1 – E você participou sendo qual personagem?

 

R – Do Sítio eu era o Marquês de Rabicó, o porquinho.

 

P/1 – E como é que era o figurino do Marquês?

 

R – Ah, era uma malha de corpo inteiro, cor-de-rosa – o que não fazia a menor diferença porque a televisão era em preto e branco –, sem máscara, um capuz com as orelhinhas e com o rosto de fora.

 

P/1 – E o Júlio ensaiava com vocês?

 

R – Ensaiava, o meu papel não era um papel assim importante. Era quase figurante, aparecia de vez em quando.

 

P/1 – Vamos voltar por causa aqui dessa interrupção do telefone. Você estava falando como era seu personagem.

 

R – Eu estava falando que o personagem não era importante, era uma espécie de figurante. Acho que não precisa dizer isso.

 

P/1 – E você pôde conviver com esses atores todos da primeira geração do Sítio. A gente tem aqui Edy…

 

R – Edy, David José, eles não foram os primeiros, teve outros antes. David José foi o segundo ou terceiro Pedrinho. A Edy foi a segunda. Mas eles ficaram até o fim, foram os que ficaram mais tempo. A Lúcia Lambertini que era a Emília.

 

P/1 – E era tudo ao vivo?

 

R – Tudo ao vivo. Tinha um ensaio três horas antes de ir para o ar, só.

 

P/1 – Ah, um único ensaio?

 

R – Um único. Os atores recebiam os textos na véspera para decorar e tinha um ensaio três ou quatro horas antes de começar, e seja o que Deus quiser. Em geral, Deus queria bem, dava certo.

 

P/1 – E como que era o estilo do Júlio de dirigir?

 

R – Dependia da inspiração dele. Ele era muito bom diretor. Era psiquiatra, então ele aplicava isso à direção dos atores, dava muito certo. Mas de vez em quando ele ficava bravo, ficava furioso, ameaçava arrancar os olhos com saca rolha. “Se não decorar o texto eu arranco seus olhos com saca rolha!” (risos)

 

P/1 – E a Tatiana, durante as transmissões do programa ela estava no estúdio?

 

R – Não, ela estava em casa, sentada na frente da televisão, roendo a unha. Tem até uma fotografia dela nessa posição. Não sei onde anda essa fotografia, não me peça, mas chegou a ser tirada.

 

P/1 – Ela ficava roendo a unha lá, torcendo...

 

R – De nervoso, torcendo.

 

P/1 – Ah, que interessante. E o jeito da Tatiana produzir, ela batia à máquina?

 

R – Batia à máquina em uma incrível velocidade. Ela fazia direto no stencil do mimeógrafo, para copiar. Ninguém tinha que refazer. Já fazia direto no estêncil e já ia para os atores.

 

P/1 – Porque hoje ela já gosta mais de ficar naquela poltrona.

 

R – Ah, sim, aquela poltrona. Ela não pode mais escrever à máquina. Não tem mais força na mão. Escreve à mão agora, mas continua trabalhando.

 

P/1 – Ela contou que parou de contar os livros no centésimo?

 

R – Os livros... É, ela fez bem mais de cem. Acho que está mais para duzentos do que para cem.

 

P/1 – Ela escreve à mão e depois quem passa para o computador?

 

R – Minha filha, Nyra.

 

P/1 – Então é operação em família?

 

R – É.

 

P/1 – A gente estava fazendo o verbete “b”, de banana, porque o David contou que quando ele vai visitar a Tatiana, ele leva pencas de banana para ela.

 

R – Ela conta no livro dela, Transplante de menina, ela conta que foi a primeira coisa que a impressionou no Brasil. Ela chegou, viu aquele monte de banana no porto e não acreditou. Achou que era o país mais rico do mundo. Que lá na Rússia diz que banana se comprava uma vez por mês e uma banana que era dividida em pedacinhos pela família, de tão caro que era.

 

P/1 – quando você era criança, você estava se alfabetizando. A Tatiana contava histórias para você?

 

R – Contava, contava, não me lembro muito bem, mas contava. Contava histórias. Eu aprendi a ler muito cedo também, eu mesmo lia. Então foi igual a ela, aprendeu a ler cedo. Acho que ela aprendeu mais cedo ainda, mas eu aprendi cedo.

 

P/1 – E como é que você viu a sua mãe, com 60 e poucos anos, iniciando na carreira da literatura infantil?

 

R – Iniciando formalmente, porque não era de fato um início, ela sempre escreveu.

 

P/1 – Mas assim como texto, não como teatro. Ela começa em 1986 mais ou menos,  pela Ática, não é?

 

R – Foi pela Ática, Operação do Tio Onofre, se chamava. Aliás, eu adaptei para teatro, tenho uma peça de teatro dessa história dela.

 

P/1 – Você adaptou? Vamos falar um pouquinho disso porque o Alcir, que foi o primeiro desenhista desse livro, ele teve aqui contando um pouco dessa história e o pessoal da Ática também. Parece que eles pediram à Tatiana alguns livros, ela fez quatro livros de uma vez: Medroso, medroso, História de fantasma, Operação do Tio Onofre, e que eles aceitaram todos os livros.

 

R – Operação do Tio Onofre foi o primeiro, os outros todos vieram depois. E essa eu peça escrevi – a Operação do Tio Onofre – porque um grupo de teatro, não vou dizer quem é, encomendou para ela. “Não, nós queremos montar Operação do Tio Onofre, nós temos patrocinador, fazemos e acontecemos.” Então minha mãe não estava muito afim. “Você não quer fazer?” Eu disse: “Está bom, faço.” Sentei lá e fiz. Eles pegaram a peça e sumiram, nunca mais se ouviu falar deles, não montaram nada. A peça está aí até hoje.

 

P/1 – Mas a peça está aí.

 

R – Está aí. Isso já foi na era do computador, estava no computador.

 

P/1 – A gente está recolhendo em um verbete essas coisas assim, histórias da Tatiana, o jeito dela ser. Como é que você define o temperamento da Tatiana?

 

R – Agora você me fez uma pergunta difícil. Essa é difícil. Não sei muito lhe responder não. Ela é uma pessoa muito complexa. Ela não tem um temperamento, tem muitos.

 

P/1 – Fala então alguns episódios que você viveu... Jeitos da Tatiana ser.

 

R – Ah, eu não gostaria.

 

P/1 – Tá.

 

R – A gente também fez um verbete sobre gatos. Ela gosta bastante de gatos?

 

P/1 – Gosta, gosta, nós temos. Quer dizer, ela tem quatro gatos em casa. Mas um é dela, outro é da minha mulher e os outros dois são da mãe da minha mulher. Mas estão na mesma casa. Tem quatro gatos lá, mas o dela vive no colo dela.

 

P/1 – Ela gostava também de outros animais?

 

R – Gosta. Cachorro gosta, sempre. Sempre teve bicho na minha casa. Inclusive os mais estranhos. Já teve uma Irara, um quati, muito porquinho-da-índia... Até uma jaguatirica já teve. A jaguatirica meu pai ganhou de algum fã, veio em uma gaiola. Ela ficou uma semana só e teve que mandar embora, foi para o zoológico.

 

P/1 – É, um perigo.

 

R – Um perigo e o que cheirava mal! (risos)

 

P/1 – E Ricardo, nos 80 anos da Tatiana vocês fizeram uma surpresa para ela?

 

R – Sim, foi uma festa no Buffet França, grande.

 

P/1 – Ela sabia da festa, mas não sabia que ia ter uma surpresa?

 

R – Não sabia o que era a festa. Não sabia o que era a festa. Foi surpresa mesmo.

 

P/1 – E o que aconteceu na festa, foi uma coisa com os personagens do Sítio?

 

R – Foi, entre outras coisas. Passaram lá umas projeções com trechos de entrevistas na TV Cultura, porque do Sítio original – não existia videotape na época – não tinha nada, no máximo algumas fotografias. Mas tinha esses trechos desse programa que a Cultura apresentou, que a minha prima Sílvia conseguiu lá. E reuniram, todo o pessoal da época que há décadas não se via, estava todo mundo na festa. Tão bonita a festa! Muito!

P/1 – Tem mais alguma coisa, Marisa?

 

P/2 – [Tem] uma coisa que achei legal quando entrevistei a Edy Lima. Ela conta que a Tatiana comentava com ela, na época que surgiu a TV, que ela ia para a casa de vocês para assistir televisão. Ela disse que a Tatiana falava para ela: “O Ricardo também faz teatro, ele brinca de teatro.”

 

R – Brincava mesmo, no porão. Não tinha garagem.

 

P/1 – No porão?

 

R – No porão. Montamos eu com a molecada da rua. Montamos um teatrinho com cobertores e lençóis se dividindo, cortina, camarins. Tinha tudo lá, só não tinha pé direito, a gente tinha que andar abaixado.

 

P/1 – Que bacana, e vocês faziam coisas lá?

 

R – Fazia teatro lá. Por isso que eu te disse: a vida inteira, sempre.

 

P/1 – Então, Ricardo, eu acho que basicamente é isso, eu queria te agradecer.

 

R – Muito bom, eu que agradeço.

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