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História

Depoimento de Alécio Gianinni

História de: Alécio Gianinni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Alécio Gianinne. Nasci no dia 21 de outubro de 1946 na cidade de Matão, no Estado de São Paulo. FAMÍLIA Meu pai é Geraldo Bento Gianinne e minha mãe é Ana Paganine Gianinne. Meus pais são filhos de imigrantes italianos. Que vieram para o Brasil, eram de Gênova. Vieram como todo imigrante italiano, vieram de navio pra cá. E acabaram chegando até na cidade, nas fazendas próximas de Matão para trabalhar na roça. E meus pais nasceram ali naquela região, Araraquara, Matão, tudo ali por perto. Então essa é a origem deles. Meu avô materno era Vitório e a avó materna era Maria. E o avô paterno não me lembro porque ele já tinha falecido na época em que eu nasci, e avó também eu não consigo me lembrar. Eu Tenho duas irmãs, uma chama Maria Alice e a outra Márcia. Eu sou o mais velho da família, e tenho as duas irmãs mais novas. INFÂNCIA A minha infância foi numa fazenda próxima a Matão, que era uma fazenda que pertencia aos ingleses na época, não me lembro assim o nome da empresa. E era uma fazenda que era sede de mais 21 outras fazendas que tinham naquela região ali. E eles tinham uma estrutura muito avançada, eles passavam toda aquela cultura inglesa pra nós que éramos ali. Então eu me lembro, depois de muito tempo eu resgatei assim na memória, quando eu entrei como professor que já naquela época tinha pré-escola ou infantil, que eles montaram essas escolas desde aquela época, em 1951, 52, era uma coisa que não existia na estrutura educacional do Brasil, mas nós tínhamos lá na fazenda porque era administrada pelos ingleses. Então a gente adquiriu várias culturas de inglês na época, então a gente tinha um algo a mais. Aí depois de 57 para Araraquara quando a fazenda começou a ser vendida, os ingleses desistiram e foram loteando. Aí o Moreira Salles comprou na época e foi em vez de ficar uma coisa só, foi loteada. Então nós fomos... Essa fazenda tinha uma coisa interessante ela cada, era chamada de sessões, cada fazenda tinha... cada uma produzia alguma... uma era café, a outra era algodão, a outra era gado, a outra criava só porcos, cada uma era especializada num determinado seguimento, uma outra era só açúcar. Então eles tinham toda essa visão desde aquela época lá. FAMÍLIA Meu pai trabalhava na central, na matriz, vamos dizer assim, hoje se chama matriz, na área de marcenaria. Então ele aprendeu ali a profissão dele, lá naquela época já tinha, e essa marcenaria fabricava tudo que as fazendas precisavam. INFÃNCIA Então, nessa casa era uma colônia, como toda fazenda tinha, mas era assim uma coisa imensa, muitas casas, só que não tinha, por exemplo, banheiro dentro de casa era tudo aquele, fossa fora, era tudo aquela... não tinha geladeira, tinha energia elétrica, mas não tinha geladeira, não tinha nada. E cada família tinha o seu espaço pra plantar a sua verdura, criar seu porco, sua galinha. Então a gente, cada um tinha uma vida independente e existia aquela troca, eu produzia isso, o outro produzia aquilo, então a gente trocava na época. Tanto que quando eu mudei pra Araraquara eu levei um susto, com aquela minha mentalidade de criança, quando eu vi pela primeira vez o que era uma quitanda vendendo as coisas, eu não imaginava que isso existia, porque lá era tudo troca. Então quando eu vi que tinha que comprar um mamão pra eu poder comer, uma banana, foi uma coisa estranha, aí depois a gente vai se acostumando. Mas ali era essa idéia de fazenda cada um ajudava o outro, trocava, matava o porco e dava pro outro a lingüiça, ou seja, lá o que for. Então essa, essa, minha infância foi muito rica, pescaria, caça a passarinho, nadar onde não devia, aquelas coisas. A casa, a casa era de alvenaria, já, mas não tinha forro, não tinha nada, muita criação de raposa em cima, que aquela coisa que às vezes caía filhote de raposa dentro de casa, mas era uma coisa que. Fogão a lenha, não existia ainda a gás naquela época, fogão a lenha a gente fazia, então quando ajudava a se aquecer quando estava muito frio a gente ia pra cozinha pra poder conversar. Ouvia muito rádio naquela época. Época da Rádio Nacional. Então a minha formação cultural talvez, foi de ouvir muito a Rádio Nacional que... Paulo Gracindo, César de Alencar, que eu me lembro naquela época, o Cabe Peixoto e a Emilinha Borba, os programas de auditório no Rio de Janeiro. Então eu fui ali, minha formação cultural foi feita ali, essa era um mundo exterior que eu conhecia que era só através do rádio. Muito programa Rádio Mairinque Veiga. Nem pensei que eu fosse lembrar disso (risos). As novelas da Rádio Nacional, então era a minha formação cultural foi através do rádio mesmo e tinha também voltando, por ser uma fazenda de ingleses, uma vez por semana tinha cinema lá na sede social. Então foi aí que eu comecei ver... a aprender também muita coisa através do cinema, daqueles filmes de faroeste, filmes italianos, na época que tinha muitos italianos e filmes franceses que hoje em dia é raro a gente ver no cinema, na televisão. Então eu acho que eu tive uma cultura rica nesse sentido. Não sei se... Olha, eu acho que ligado ao esporte, não sei, talvez porque minha formação professor de educação física, era uma coisa que marcava muito que a gente esperava com muita ansiedade era o Primeiro de Maio. O Primeiro de Maio reunia uma equipe de cada fazenda e iam disputar o torneio do Primeiro de Maio, lá. Porque lá, tinha um campo, assim, que pra mim era um máximo que tinha até iluminação naquela época, em 1953, 1954. Então, nós, esperávamos isso com muita ansiedade, porque conhecia pessoas diferentes, que vinham de todas as outras fazendas. Então, essa eu acho que é a mais marcante que lembro com muito carinho, que eu esperava como criança aquele momento pra ver as equipes jogarem, pra ver quem era o campeão, aquelas coisas. Então, eu acho que meu gosto por esporte partiu daí. Eu jogava como toda criança. Lá era um gramado assim, a gente não chamava de gramado a gente chamava era de pasto, vamos jogar no pastinho. Então, eu já jogava muito futebol nessa época. Então, a gente era que atraía, não existia outro esporte, talvez que eu me recorde naquela época. Então o Primeiro de Maio era o dia mais importante pra nós que morávamos ali, porque, por causa dessa confraternização, vamos chamar assim. Vida de menino, ali a gente não conseguia ficar sem amigos, porque todas as crianças, ali a gente vinha da escola de manhã, estudava logo cedo e a tarde era essa coisa: era sair pra nadar no riozinho, era pra caçar, era pra pescar. Então a vida nossa era essa não existia, nós não tínhamos, por exemplo, chuveiro, não existia nada disso era tudo a base da bacia, tomava banho na bacia. Eu já vinha tomado banho do rio mesmo, aquelas coisas, mas sempre aquele grupo de meninos, nunca tinha naquela época a gente não convivia com meninas, praticamente era isolado, a gente era só meninos que partiam pra essas aventuras diárias. Quando não estavam jogando bola tava fazendo essas outras coisas, é, ia a tal lugar buscar manga, buscar fruta, essas coisas que faz parte do dia-a-dia de uma fazenda, não era uma fazenda pequena, e a gente tinha muitas opções... EDUCAÇÃO É então, meu primeiro, que a gente fez o infantil ou o jardim de infância ou a pré-escola, pode-se dizer, lá pra depois começar, eu fiz lá até a terceira série do primário daquela época. Eu acho que era um ensino normal dentro dos patrões da época da escola pública, bem exigente com todas as condições, é o que era interessante lá, por exemplo, eu fui adotado por uma família de ingleses que eles me forneciam todo o material escolar, o uniforme, eram responsáveis também pela alimentação. Então eles adotavam uma criança, um aluno que talvez se destacassem, pra poder auxiliar. Como tem hoje a Fundação que auxilia milhares, mas lá cada família adotava um aluno. Mas o ensino era um ensino normal, assim. Tanto que quando eu saí de lá fui pra quarta série em Araraquara, fui fazer a quarta série em Araraquara, eu não senti muita dificuldade. Então com isso eu realizo que o ensino era igual, pra mim era na grande cidade... Era na fazenda, mais era uma escola estadual dentro da fazenda Tenho muita lembrança da minha professora dessa educação infantil ou do jardim de infância. Eu me lembro que ela, uma coisa que na semana da criança ela levava aquelas cestas cheias daqueles doces que eles faziam, doces caseiros, e foi quando a primeira vez que eu conheci um chocolate, eu não sabia o que era chocolate. Acho que devia ser importado da época, não me lembro, que foi quando até cheguei quando em casa e falei com minha mãe, comi um negócio diferente hoje, é meio mole, mas sabe, não era doce de abóbora, doce de mamão nem de batata. E aí foi então a primeira vez, eu me lembro. E existiam já, e essa escola tinha aquela vitrola que tinha que dá a manivela e tinha os disquinhos que eles tinham que contavam as historinhas e a gente é o que mais gostava... Eu não lembro bem como que era, eu sei que aquelas histórias da Branca de Neve. Então isso daí apareceu nas escolas muito depois e nós tínhamos lá porque eles tinham que traziam da Inglaterra, entendeu? E a professora era, eu me lembro, que ela era casada com um inglês, mas ela era brasileira. Então ela era a professora da educação infantil, que dizer, e tudo isso aí que eu tenho até hoje na memória então eu acho que me marcou, por isso que eu tô, mais foi um momento muito feliz da minha vida. MIGRAÇÃO A mudança foi em função da venda da fazenda, aí nós tivemos que sair de lá ou nós íamos pra Matão, o normal era sair dali e mudar pra cidade que pertencia a Matão ali. E meu pai, não sei por uma coincidência, arrumou um emprego em Araraquara. Então, nós mudamos pra Araraquara, e ele por coincidência tinha nascido em Araraquara, mas ele tinha ido logo menino pra Matão. E aí a gente foi pra Araraquara foi quando eu fiz a quarta série, lá em Araraquara, isso foi em 1957. Marcou bem que foi 57, porque logo em seguida foi a primeira vez que o Brasil foi campeão. Em 58 que eu passei a ouvir rádio, ouvindo futebol, isso me marcou. Então foi logo em seguida, um ano seguinte que eu estava lá que o Brasil foi campeão em 58. Então isso está na minha memória. Pra mim era uma grande cidade, já era uma coisa, mais carros, coisa que eu não via muito lá, ônibus. Isso pra mim tudo isso era muito esquisito, só sabia andar à pé não precisava e a gente... e a nossa maior preocupação, quando nós morávamos lá de transitar, era a questão de cachorro que atacava ou era vaca que avançava, entendeu? Ali não, ali, já não tinha mais nada disso, era carro, era ônibus e foi um susto como eu falei pra você anteriormente. Ter que comprar as coisas pra poder comer, uma coisa também é uma coisa muito íntima mas, papel higiênico eu nunca tinha visto. Eu nunca tinha visto, porque aí já tinha os banheiros dentro de casa, a gente tinha que usar o papel higiênico, tinha descarga, essas coisas que na minha cabecinha isso não era normal. Então foi assim um impacto muito grande até eu me adaptar e tal, mas depois aí que surgiram as amizades com as crianças da rua do local, a gente já começou, como gostava de jogar futebol. Então você vai fazendo amigos mais rápido. Então sempre essa sociabilização através do esporte ajudava muito, isso é importante, a gente frisar dessa maneira. Então, o esporte tem uma, essa capacidade de aglutinar. Então eu acho que comecei jogar futebol com as crianças. Então eu fui sendo aceito, pelo grupo, acho que isso fez eu esquecer todo aquele tempo. CIDADES Araraquara/SP Era uma cidade gostosa sem muito ainda movimento e ainda as ruas que eu morava naquela época era de terra mesmo, tinha ainda, a gente se reunia na rua normalmente pra jogar bolinha de gude, faziam aqueles buracos pra jogar, chamava de biroca, na minha época antiga chamava de biroca, hoje eu nem sei como chama mais. Jogava muita bolinha de gude, futebol na terra, e também tinha os locais que a gente podia ir pescar e nadar ainda tinha alguma coisa, não era muito, mais era uma cidade pacata ainda Araraquara nessa época, ainda era uma cidade pacata praticamente a mais de 40 anos atrás. 56 mais de 50 anos. Quase 50 anos. Então mas era uma cidade gostosa. [Fomos morar] Numa casa normal. A casa, ela tinha uma cozinha, uma cozinha, acho que dois quartos, nós éramos, era eu e minha irmã. Minha irmã mais nova nasceu em 58, foi quando nós tínhamos mudado, fazia um ano que estava lá. Mas era uma casa, pelo que eu me lembro agora, era uma casa confortável, porque já tinha forro, aí já tinha forro, tinha tanque de lavar roupa, coisa que lá na fazenda não existia, ela tinha que lavar, assim, com madeira, eu lembro que minha mãe esfregava a roupa numa tábua de madeira, tinha que trazer água na cabeça e jogar naqueles tanques assim, pra depois jogar enxaguar, mas tinha, aí foi quando a gente conseguiu comprar uma geladeira na época, aí já era fogão a gás, foi a primeira vez que passamos do fogão a lenha pro fogão a gás. E eu acho que tinha o conforto necessário da época, energia elétrica, água encanada, coisas assim, que agente não estava acostumados e a gente foi se acostumando. A rotina, eu acho que, meu pai trabalhava já mais próximo de casa, no caso ali, eu me lembro que era numa, essa casa agora que eu to lembrando, essa casa fazia parte do local onde meu pai trabalhava, a gente foi morar numa casa que pertencia a empresa, no caso. Então ele parece que estava mais próximo da gente, a rotina mudou nesse sentido mudou pra melhor não pra pior e minha mãe já começou a ter que trabalhar fora também, como doméstica na época pra poder fazer a gente ter um pouquinho mais de conforto, porque aí já, parece que lá, a vida lá era mais fácil, porque tava tudo na mão, aí minha mãe passou a ter que trabalhar como doméstica, ela lavava roupa fora. Então, nesse sentido a vida ficou um pouquinho mais difícil porque a gente não tinha companhia constante dela, e meu pai já tava um pouco mais próximo, mas ela teve que te começar trabalhar fora. Uma lembrança marcante, nessa de Araraquara? Eu acho que minha lembrança mais foi quando eu comecei a gostar da minha primeira namorada, acho que foi quando começou a despertar o interesse de namoro. Acho que deveria ter, acho que uns 14 anos, foi aquela coisa de paixão, talvez ela nem saiba que eu tenha gostado dela até hoje. (risos). Mas o nome dela é Maria Lúcia, você não consigo esquecer, mas é uma coisa tão íntima, mas nunca cheguei a namorá-la, foi... Platônico, exatamente. Foi de coisas assim. Foi a primeira vez também que eu entrei dentro de um teatro, acho que isso foi numa, na minha formatura da minha quarta série quando eu fui pra lá, foi no Teatro Municipal de Araraquara que hoje não existe mais. Aquelas coisas que eu tô começando a visualizar agora, aquelas coisas que tinha, como é que chama em cima, que o pessoal senta... Os balcões, tinha outro nome... Não é isso? Aquele teatro a coisa antiga mesmo, aquele palco. Foi a minha formatura que dentro de um teatro, coisa que eu nunca tinha visto na vida, o que era um teatro. Fala-se e via no cinema, nos filmes, mas aí isso me marcou também. Até eu me lembro que eu recebi um prêmio, eu não me lembro do que foi, na época da escola fui chamado lá, além de receber o certificado, porque naquela época dava-se muita importância, que você saía do primário e ia pro ginásio, aí existia até o tipo do vestibular que você tinha que passar pra fazer admissão, um exame de admissão pra poder entrar no ginásio. Se você não passasse nesse exame você tinha que estudar de novo pra poder fazer esse exame pra poder entrar no ginásio, e depois do ginásio pra ir pro cientifico, pro clássico que é daquela época, que hoje é o ensino médio, pro colegial tinha que fazer um outro exame. Era um trabalho de exclusão muito grande. Então, eu acho que foi a primeira vez, essa do teatro me marcou também. EDUCAÇÃO Depois que eu terminei a quarta série, aí eu fui pro ginásio. Foi onde eu acho que eu comecei a ficar tudo meio confuso porque eu tinha só uma professora, minha cabecinha começou a ficar meio pirada na época, eu me lembro bem. Então era naquela época tinha latim, ensino religioso. Pra mim era tudo muito esquisito aquilo lá, sabe? E eu senti muita. Aí eu comecei a sentir dificuldade mas eu fui superando, mas, aí eu acho que eu comecei a perceber que dentro de casa tava precisando, tava faltando alguma coisa, que era a situação financeira, eu comecei a querer trabalhar, quando eu fui pra 6° série, pra segunda série do ginásio na época, aí então, eu cismei que eu tinha que trabalhar, porque eu, não sei, eu não consigo lembrar na hora porque, mas eu quis trabalhar. Foi o ano que eu comecei a deixar o estudo de lado, eu achava que era mais importante ganhar dinheiro do que, foi quando eu comecei a ter dificuldade, aí eu comecei a estudar a noite, na 6° série na segunda série do ginásio, aí eu tive reprovações, foi um período meio difícil na minha vida nesse sentido. Então eu demorei muito pra voltar a entrar no eixo. Pra poder estudar, eu fiquei meio perdido, aí. Mas aí depois a gente embalou de novo. Mas foi uma época difícil eu me lembro agora, foi uma época difícil na minha vida. JUVENTUDE Ali, a gente tinha muita, depois dos 14 anos mais ou menos. O que a gente fazia muito era bailinhos na casa, dentro de casa, tinha, existia uma tal de sonata que era um aparelho um toca disco acoplado com o som. Então, quem tinha a sonata era o dono da festa. Então vamos levar isso pra tal lugar, vamos na casa de fulano levava os discos da época que era, no caso, já era um pouquinho antes de 60, por aí, já existia começando a Jovem Guarda nessa época, e aquelas músicas um pouco de música acho que castelhano também, música brasileira, agora eu não tô conseguindo... Época dos boleros...



R - Boleros, muitos boleros, coisas assim. Então a gente ia dançar, tinha muito, por exemplo, aqueles cantores que era o Orlando Silva, o Nelson Gonçalves, é Francisco Alves e alguma coisa, já era um pouco antes da... que eu me lembro. Mas a gente era baseado nisso, ou se não tava no bailinho a gente ia no cinema, cinema era uma coisa assim, mais difícil, mas ia no cinema também, mas era mais namoro nesses bailinhos que a gente criava. Então levava a sonata junto e juntava, aí que começamos a conviver com as meninas, na época de criar esses relacionamento, os namoros, aí começou a aparecer os namoros nessa época. É então aí fiquei em 60, fiquei em Araraquara até 65. Quando eu completei 18 anos aí eu fui pro quartel que eu fui pra Brasília, você vê, aí foi uma mudança na minha vida radical. É naquela época não tinha contingente lá no Planalto Central. Então eles recrutavam todos os jovens daqui de São Paulo e Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Eles recrutavam aqueles que tinham de 1 metro e 70 pra cima que o meu era 1 metro e 70 raso pra cima eles convocavam pra ir pra Brasília servir o quartel, lá. Então em junho de 65 nós tomamos um trem, ali em Araraquara, fomos até Cordeirópolis, de Cordeirópolis fizemos uma baldeação e pegamos um outro trem e fomos até Pirassununga, dormimos uma noite ali em Pirassununga no quartel de Pirassununga, dali um ônibus pegou todo mundo e fomos desembarcar em Brasília, aí foi aquele desespero. Brasília estava... Não tinha quase nada, Brasília com cinco anos de idade, naquela, época, estava tudo ainda na estrutura de concreto. E aquela época difícil de terrorismo, problema militar ali a coisa estava pegando fogo. Eu passei um ano, ali, alerta. E eu fiquei, praticamente, o ano todo sem voltar para Araraquara, nunca tinha saído de dentro de casa, de repente fui embora pra Brasília louco pra voltar e eles não me liberavam. Não me liberavam por causa dessa situação de perigo na concepção deles, e aí só em julho de 66 que eu voltei pra casa, aí depois, acho que fiquei um pouco tempo ali em Araraquara. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Em 68 fui embora pra Campinas trabalhar na CPFL. Fui trabalhar na CPFL 68, aí resolvi terminar meus estudos, porque eu tinha interrompido tudo isso aí, tentei estudar lá na época que eu estava em Brasília, mas não dava porque tinha muita gente, um dia sim, um dia não, a gente montava guarda nos palácios e tal, não tinha. Então não consegui terminar meus estudos lá, aí em Campinas voltei a estudar e me formei na faculdade, aí comecei a dar aula foi, comecei a dar aula no SESI. Aí e logo no ano seguinte na Fundação, aí eu passei no concurso do Estado, aí foi aquela situação de aula manhã, tarde e noite sem parar, aí nunca mais parei de dar aula. CIDADES Campinas/SP Olha, Campinas era uma delícia, já me assustei em relação à Araraquara. (risos), mas Campinas era uma cidade assim que tudo que eu imaginava que eu poderia, que eu pensava tinha ali, coisa que... mas era uma cidade ainda sem aquela explosão, de população como teve de... acho que de 75 pra frente que Campinas começou a cresceu muito, quando foi implantado os conjuntos habitacionais, aí começou a aparecer muita. Campinas na realidade ia dali de Via Anhanguera, do lado de lá da Via Anhanguera pro sentido pra Viracopos ali, não tinha nada. Então os conjuntos habitacionais começaram a aparecer ali em 75 por aí, acho que foi justamente na época que a Fundação Bradesco foi criada ali na fazenda Sete Quedas, juntamente com essa explosão de população em Campinas. Aí Campinas cresceu demais e a Fundação coincidentemente também começou pequena, porque quando eu comecei na Fundação era tudo estrada de terra pra chegar até a escola, era difícil acesso, e eu ai lá pra dar três aulinhas só, mas sabe aquela coisa quando você acredita, fala não. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu saí da CPFL que eu trabalhava o dia inteiro ganhando relativamente, não me lembro quanto na época, mas eu já dava aula no SESI à noite e durante o dia eu trabalhava na CPFL. Aí um amigo meu que trabalhava, que começou a trabalhar na Fundação em 75, ele veio falar comigo: “olha, tem uma escola que eu tô trabalhando lá, é do Bradesco, é uma escola boa, você não quer ser o professor”. Ninguém queria dar aula lá porque era longe, longe e as aulas eram muito poucas, “mas você, que você acha, não quer ir lá”, “ah, vou...vou ver” e sabe quando você vai conhecer o local, você, alguma coisa diz pra você que aquilo lá tem futuro, tinha futuro, mesmo não era naquele momento, não era aquele momento e eu acho que eu tava pagando pra ir lá dar aula, porque era distante, era barro, era terra, era poeira. Então foi quando eu falei pra minha esposa, “olha, é isso é escola tal, eu tô na CPFL, mas se eu quero partir pro campo de professor esse é meu caminho, que você acha?”. Ela falou, “olha, se você acha que é isso que você quer”, a gente tinha já, era casado naquela época, ela falou, “olha, você decide, o que você decidir está decidido eu vou estar do seu lado”. Aí eu larguei o emprego, um emprego de praticamente de 68 a 76, quase dez anos. E falei, não, é isso que eu quero, vou dar aula. Aí é aquilo eu comecei a dar aula na Fundação, ia lá, era praticamente uma dia na semana, ia lá e dava aula. Era, só tinha uma classinha pra dar aula, uma classinha no bom sentido. Uma classe. Aí no ano seguinte já eram duas classes, aí a gente foi crescendo junto com a escola, e a escola foi evoluindo. Aquelas crianças também que eram filhos de funcionários que saíram daqui de Osasco e foram morar lá na fazenda e crianças que moravam na zona rural ali próximo da fazenda também, que eram filhos de agricultores, que também atendiam na época. Então a gente foi crescendo junto com essas crianças não tinha nem lugar, nem quadra, não tinha nada pra dar aula lá na época assim. Tinha a escola, mas não existia quadra, não existia nada. Então a gente ia lá no pasto, dava aula no pasto também pras crianças, tinha uma época que eu dei aula na rua mesmo ali de terra ou no pátio da escola. A escola tava naquela, em formação, é diferente das escolas da Fundação de hoje quando eles constroem já a entregam completinha. Naquela época não, a escola foi crescendo conforme foi aumentando, foi indo classes e sendo agregada. Então foi aumentando a população de alunos foi aumentando a escola. Hoje é uma escola de praticamente 2 mil e poucos alunos. Mas ela foi crescendo junto e a gente também foi. Aí foi construindo quadra. Então a gente teve que passar por várias situações antes de ter uma quadra desportiva que era o que a gente mais desejava na época. Quer dizer, lá. Não sei se alguém que é de lá comentou, o que o Banco fez? Ele criou uma estrutura nessa fazenda de construir os prédios onde que tinha a marcenaria, tinha o setor de transporte e tinha as casas que ele construiu pros funcionários morarem dentro da... [No mesmo estilo da Cidade de Deus]. Exatamente. Era uma mini... era a segunda Cidade de Deus... Só que com menos gente. Então ele tinha que dar estrutura pra essas crianças saírem daqui com a família e estudarem lá dentro da fazenda. Então eram poucos alunos, tanto que a Ana Cleide foi uma delas. Que foi nessa ida pra lá. Eu acho que eles queriam aumentar outras, colocar outros setores aqui e deixar essa parte mais braçal, pra lá. Porque ali, eu me lembro, o Banco, por exemplo, o Banco ia montar uma agência, então tudo era feito lá. O Seu Amador Aguiar não dependia... Tudo, tudo que você pode, a serralheria. A parte gráfica ficou aqui. Então era gráfica, marcenaria, então era tudo. A hora que saía, por exemplo, ia inaugurar agência na tal. Saía vários caminhões com tudo, marceneiro, os equipamentos. Tinha dois dias pra montar a agência então ia a equipe toda. Então tudo era produzido lá, de tudo que você podia imaginar, o que tinha numa agência era feito lá. Sai daqui também. Então aí Campinas foi criada a escola. Então é como eu falei, ela foi feita para atender aquele momento, aquelas crianças e depois conforme foi crescendo foi indo mais setores pra lá, mais departamentos. Aí então foi aumentando o número de alunos, aí a gente começou a atender mais a comunidade, passou a atender a comunidade, então a escola foi crescendo, evoluiu muito, a escola foi, e tornou-se uma referência. Isso que eu acho que... e a gente tornou-se uma referência junto com a Fundação, porque eu acho que isso aí é importante, porque a gente cresceu com ela porque acreditou. O que mais me atraiu talvez tomar essa decisão de trabalhar na Fundação foi essa filosofia. FUNDAÇÃO BRADESCO Conhecimento Nada, não sabia, nem sabia que existia ou que existia alguma coisa da Fundação Bradesco. E foi quando ele falou, eu fui lá ver, sabe, é uma coisa inexplicável você sente, eu ia deixar uma coisa, deixei uma situação segura que era um emprego na época era uma economia mista, a CPFL naquela época. Pertencia a CESP e tinha regalias e tal, mas eu falei “não, o meu negócio não é ficar aqui” como eu já tava dando aula eu parti pra alguma coisa. Foi quando eu senti, fui lá, senti, ele falou como era a filosofia, qual era o objetivo da Fundação. A seriedade talvez, alguma coisa me atraiu porque eu não sabia nada. Então foi algo que me marcou, eu não sei bem... Inexplicável sabe, pra assumir aquilo lá, porque tudo era difícil pra chegar lá na escola, era muito difícil, muito difícil. E não sabia nada da Fundação. FUNDAÇÃO BRADESCO Alunos Então, os alunos eram muito dependentes. Acho que... tudo os professores, muitos me lembro que precisavam até dar banhos em alguns que não tinha essa questão de higiene, principalmente aqueles da comunidade, que passaram. A gente ensina muita coisa pra eles não só conhecimento, mas o básico, o básico, pra poder... que é o normal. Eu acho que a gente... eu me lembro uma vez que, uma coisa muito importante, eu não me lembro o ano, mas foi até quando a professora Luiza era a orientadora, foi até ela que teve essa idéia. Num dos dias de planejamento do início do ano, um dos dias nós fomos visitar os nossos alunos no local aonde eles moravam, porque o objetivo era tentar entender o porquê de cada um, de como eles eram fora da escola, sabe? Pra gente poder trabalhar melhor com eles lá. Então nós fomos ver, eram muitos moravam em favelas, em casa de um cômodo só, isso foi marcante acho que na, pra mim principalmente, a gente entender toda aquela situação que tinha na escola, o porquê que ele tinha aquela reação. E a gente fez uma, dividimos os professores assim em equipe, fomos com autorização, é lógico, das famílias antes. Pedimos se podíamos ir lá, conhecer, e conversar com eles. E talvez essa situação ajudou muito a escola a crescer porque passou a entender melhor a comunidade que eles viviam. E a escola tinha que trabalhar com a situação por causa da dificuldade que eles tinham. E eu acho que eles eram carentes de tudo nesse sentido. Foi quando a Fundação começou a... porque uma Fundação tinha um trabalho diferenciado das outras escolas que se preocupavam não só com o ensino, ali o ensino didático, então ela trabalhava, ela procurava auxiliar no todo, isso era o diferencial da Fundação. Eu acho que isso foi muito importante no crescimento de todo mundo aí. Ali, ali é o seguinte, ficava a PTC Campinas na divisa com Valinhos, ali próximo da escola, foi implantada a primeira... feito pelo, se eu não me engano, o governador Carvalho Pinto a reforma agrária. Tem um bairro lá que se chama Reforma Agrária. E lá foi quando ele fez a divisão dos lotes e entregou pra essas pessoas, os agricultores. Então era pessoas que moravam em sítios ou eram arrenda... trabalhavam nesses sítios, então vinham desse bairro chamado Reforma Agrária e dos bairros mais próximos aqui da escola. Num dos mais próximos já começaram a aparecer as favelas, as favelas ali por perto, que eram os bairros mais distantes de Campinas. Então era, tinha esse pessoal da zona rural próxima e tinha o pessoal da favela. Então era um, situações diferentes, de pessoas diferentes, crianças com vivências diferentes e a gente tinha que saber administrar e mais os filhos dos funcionários que moravam lá dentro. Então eram três realidades diferentes que a gente trabalhava ali. Olha, a gente se dava muito bem. As crianças parece que elas queriam cada vez mais, elas eram carentes de conhecimento, de oportunidades, acho que eles se propunham muito a fazer tudo que você gostaria que eles fizessem, entendeu? Principalmente na minha área, que era minha área de educação física, essa oportunidade de jogar, ter um esporte em uma quadra, coisa que eles não tinham, com regras. Eu acho que eles queriam demais. Mas a escola em si, não só falando da minha área, era uma convivência bem harmoniosa. Eu acho que, porque a escola tinha toda essa estrutura de atendimento, era uma convivência bem harmoniosa mesmo entre alunos, professores, de respeito. Existia aquele respeito, aquela vontade de querer aprender. A equipe foi aumentando. Aí a administração começou a aumentar a equipe administrativa também, porque eram três professores quando começou depois passou a ter da quarta pra quinta série e começou a aumentar as classes. Foi crescendo, aumentando funcionários de apoio. Então só quando eu saí de lá em 99 nós estávamos ali com quase 150 funcionários entre professores e equipe de apoio, que quem começou com quatro, cinco em 75, em 99 já tava perto de 150 entre professores e equipe administrativa. Alunos foi assim de, acho que de 100 alunos pra quando eu saí de lá tava praticamente com 2 mil alunos. A gente teve muito os cursos técnicos que foram importantes pra região, nós fomos, os cursos técnicos da região foram referência de qualidade, a gente conseguiu implantar uma referência de qualidade que eram os cursos de eletrônica, processamento de dados, administração de empresas. Devido a seriedade acho que do trabalho, a competência dos profissionais, e nós passamos a ser referência na comunidade. Tanto que as empresas começaram a querer os nossos alunos, a procurá-los, pra que eles fossem. Hoje em dia os nossos alunos, eu encontro com muito deles, estão na Motorola, essas grandes empresas na área de tecnologia. Então hoje eles são gerentes. Então nossa escola foi uma referência muito boa por causa da seriedade do trabalho. DESAFIOS É porque a escola quando começou se preocupou, tinha uma preocupação daquela população carente de oportunidades. Conforme a escola foi crescendo, os desafios foram aumentando, não é? A necessidade do mercado foi mudando, então a gente teve que ter uma visão mais ampla do mercado de trabalho, porque na realidade a escola era uma escola técnica, nível técnico. Então a gente teve que melhorar muito a qualidade dos professores, a qualidade do ensino, uma mais competência de cada profissional. Então a escola teve que se adequar ao novo esquema da necessidade do mercado. Eu acho que a escola teve uma guinada pra melhor principalmente quando a professora Luiza assumiu, ela teve essa visão assim da mudança assim de segmentos, de necessidade de melhoria da qualidade, não só... Quer dizer, não era uma escola que se preocupava só com a parte social, mas sim com a qualidade, com a qualidade do ensino. Foi quando apareceram os cursos de melhoria de qualidade de trabalho dos professores e profissionais. A gente teve que realmente correr atrás e ela deu essa visão de qualidade, de melhorar a qualidade de ensino mesmo da escola em todos os sentidos. Tanto no atendimento aos alunos pedagógico, educacional, e a parte técnica também, então nós tivemos, a escola teve que se transformar pra poder atender as exigências de mercado. E ela foi vencendo e com... Eu acho que ela sempre teve um pouquinho a frente, sabe? Ela procurava não só vencer, mas dar um passo mais a frente de qualidade. Eu acho que a Fundação por isso ela foi referência, passou a ser referência porque ela tinha algo mais. Eu acho que o importante são os detalhes. Os detalhes, coisas diferentes para que você possa, porque igual, o normal todo mundo faz. O que a escola tinha de importante? Ela não se preocupava só com o detalhe do conhecimento, era a postura do aluno, o respeito, como ele tinha que ter um ensinamento global. É esse, nossos alunos se diferenciavam dos demais por causa disso, ele não era um aluno só com conhecimento teórico, ele tinha que ter respeito, postura, conhecimento. Então ele se diferenciava no mercado por causa disso no dia-a-dia. Então era um aluno que sabia quando ia pra uma, ser entrevistado como que ele tinha que se postar, respeitar o próximo, a ética. Então a escola procurava atender todos os, então um ensino mais global. Eu acho que essa era a nossa, é a nossa diferença até hoje, a Fundação. Eu acho que meu maior desafio, passar da na minha área de professor de educação física pra parte administrativa. Foi meu maior desafio esse relacionamento interpessoal, com as pessoas. Porque você tinha um relacionamento com aluno, e era mais, vamos dizer, mais light. Como professor de educação física você é um, é aquele queridinho, porque você atende as necessidades deles. Agora, você relacionar com pessoas de mesmo nível, professores, então acho que foi meu maior desafio foi esse daí de conseguir vencer essa etapa, e poder continuar, fazer um trabalho de acordo com a qualidade da Fundação Bradesco. Então minha mudança foi um desafio que eu tive que vencer, de terem me indicado, e eu não decepcionar. Então eu acho que esse foi... Aí depois tudo é conseqüência. Então você vai tendo que crescer, tendo que estudar mais, focar um outro conhecimento não só na área específica de educação física, mas na área de relações humanas, administrativa, econômica. Então conhecer toda uma estrutura. E não esquecer de que também a gente é professor, isso é o mais importante. Esse eu acho foi o maior desafio. FUNDAÇÃO BRADESCO Mudanças Não, eu vejo o seguinte, existia a diretriz mas cada, o que foi importante eu acho desse período foi a, como é a palavra... é ousadia, sabe? De querer mais. A Fundação falava “olha, vocês tem que trabalhar assim”, mas ela não se contentava só com aquilo. É cada um tinha [liberdade], mas nem todos, hoje a gente vê dessa maneira. Falavam “olha, vai fazer isso”, “e se eu fizer algo mais?”. É isso que eu acho que a Fundação esperava de todos os seus diretores, é criar mais. Então ela conseguiu abrir o leque, foi aonde que ela incentivou os cursos de aperfeiçoamento, eu não falo reciclagem, mas, esses caras vão me bater, pessoas se atualizarem, ela procurou mostrar que a escola que evoluir mais, não se contentar apenas com aquilo que a Fundação dá, dava pra gente. Então a gente foi crescer junto e foi quando a escola de Campinas teve uma evolução muito grande dentro do cenário da própria cidade, como dentro da própria Fundação, foi destaque, foi referência. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL [Passei a vice-diretor] Em 86. Antes não era uma outra diretora, era a Ana Luiza... Não, quando eu assumi a Ana Luiza já era diretora, foi ela que me convidou, a Ana já era diretora na época, ela ficou com a gente até 91, de 86... eu convivi com ela como diretora já tinha conhecido como professora, ela era orientadora, e depois ela passou a diretora, eu ainda continuei como professor, aí depois em 86 ela me convidou pra ser o assistente. Então ela já era diretora, eu tive com ela lá até 91, depois a Ana Cleide, que também era assistente, assumiu a direção e eu era responsável pelo período noturno, então os cursos técnicos eram sob a minha responsabilidade que eram a noite. Então eu trabalhava a tarde e noite, e a Ana Cleide era, trabalhava durante o dia como assistente, a Ana Luiza era a diretora geral da escola. Aí a Ana Luiza veio pra Fundação aqui em Osasco e eu continuei como responsável do período noturno e a Ana Cleide assumiu a direção geral e a Maria Teresa passou a ser a vice no lugar da Ana Cleide na época. CASOS MARCANTES Olha, como professor eu consegui, acho que dentro da minha área uma coisa que eles não tinha, era conhecer outros esportes a não ser o futebol. Que quando eu falei pela primeira vez pra eles o que era jogo de handebol, por exemplo, quando eu via que eles aprenderam. Então aquela sensação de você ensinar a uma outra coisa que eles não tinham nem sabiam que existiam, pelo menos naquela época ali em 77, acho que por aí, 78, que começou a aumentar o número de alunos. Então eu comecei, então aquelas crianças que eu via na rua que eles estavam brincando de uma outra coisa que não fosse futebol. Então eu acho que isso foi glorificante pra mim porque eles incorporaram, uma idéia diferente. Isso na minha área é importante tirar aquilo que tava enraizado que era o futebol. Não que eu não goste, não é isso, mas eles têm essa oportunidade de uma cultura diferente, eu acho que isso pra mim foi gratificante como professor em relação ao aluno e... Acho que assim, que eu me lembro é isso daí, de tentar mudar essa cultura que neles, que eles tinham de futebol, talvez. As competições que a gente fazia de atletismo ali, passei a dar... que existia uma outra situação do esporte sem ser o futebol. Competições de salto, corridas, essas coisas que eles passaram a, a cultura esportiva deles, o cultural deles passou a ser diferente. A criança que vivia ali, morava na zona rural, essas coisas. Eu acho que é isso. Então, foi um desafio muito grande, eu acho que, que nem eu falei pra você, sair de uma quadra de esportes e ir pra uma sala, uma mesa, muda a roupa, muda tudo. Eu tive que correr, como se diz, atrás do prejuízo que era aprender muito sobre administração, economia, tive que... Esse relacionamento, porque você se relacionar de professor para professor é uma coisa, agora que você passa pro outro lado você tem que saber como também administrar isso daí. Acho que foi uma fase, essa adaptação minha foi difícil. E isso é uma coisa que ficou pra mim, procurei não deixar transparecer, mas eu acho que eu consegui porque a convivência que eu tive, quando tinha que chamar a atenção, chamava a atenção não só do aluno como do funcionário. Mas eu acho que foi um desafio que foi muito bom, bom mas foi o momento mais difícil pra mim na escola. Essa transformação de sala de aula pra ter que cobrar mais, entendeu? Porque antes a cobrança era só do aluno, agora você ter que cobrar de um profissional que estava junto com você, mas eu tinha que incorporar essa nova função. Eu acho que esse foi o momento mais difícil. E tornou-se gratificante porque a gente conseguiu auxiliar, a direção da escola nessa mudança, nessa transformação, nessa evolução que a escola teve nesses anos todos. Eu acho que um momento assim marcante, foi a visita da Margareth Thatcher que a gente teve que fazer toda uma estrutura de receber uma pessoa importante. Então houve um envolvimento de todo mundo que foi assim marcante realmente, porque tudo deu certo, sabe? Tudo deu certo. A Ana Cleide tava assumindo a direção naquele momento. Então, teve que ter um, a Ana Luiza tava vindo pra cá, Ana Cleide tava assumindo, e a gente tava ali com um momento muito importante da escola, é lógico, houve vários momentos, mas esse eu achei que foi muito marcante pelo fato inusitado de uma visita assim. A presidência do banco querendo saber como a coisa ia ser e, sabe aquela pressão? E a gente conseguiu com muita calma, muito trabalho fazer com que tudo desce certo. E eu acho que momentos de alegria eu tive muitos na escola, nas formaturas, que a gente ia. Aquelas crianças que começaram ali na educação, na pré-escola, e depois estavam com 18 anos, foram entrar ali com 6 anos, e saindo com 18, 17 anos formados, e a gente participou dessa vida deles, fez parte dessa história. E muitos já trabalhando, aqueles também, acho aquele pessoal da educação de jovens e adultos, que a gente conseguiu criar oportunidades, porque eu convivia muito com eles, porque era a noite, aqueles que chegaram lá, que muitos anos que não estava estudando e depois conseguir receber o certificado de ensino médio ou do fundamental. Coisa que evoluíram, ali na escola, cresceram juntos. Acho que foram fatos marcantes, porque você se relaciona com pessoas, com seres humanos, porque a coisa material não tem tanto assim, mas as pessoas podendo, essas oportunidades que foram dadas e eles aproveitaram essas crianças. (risos) A gente teve várias situações de alunos, questão de namoro... É tinha que ser evitado, a gente não fala proibido. E quantos alunos que eu flagrei assim, se beijando, e tal, e de repente você chegava e eles tentavam achar uma desculpa que não estavam fazendo aquilo. (risos) Isso outros também, uma coisa que eu peguei, depois muitos deles hoje estão casados que começaram lá se beijando ali às escondidas. Ou fumando no banheiro também peguei várias vezes alguns alunos. Tentei mostrar pra eles o quanto mal, chamava na minha sala, “olha, você não imagina, eu sei e tal que isso é um vício mas se você não...”. Não sei se muitos mudaram mas a gente tinha que aproveitar aquele momento de trauma, de o diretor ter pego. Isso não foi uma vez, foram várias vezes. Mas de namoro eu acho que foram os mais que marcantes nesse sentido de você mostrar que tudo tem seu momento, a hora certa, o lugar certo. Mas peguei várias vezes namoro. Também tem a noite, facilita mais, todos os gatos são pardos e qualquer lugarzinho é um... (risos) É, e eu não sei se vocês conheceram a escola de Campinas, é dentro de uma fazenda imagina, então sem muro, sem nada, com muito jardim. Nossa, então era uma escola, ali só o visual da escola durante o dia já é agradável pra você se sentir bem lá, porque não existe grade, não existe muro, não existe nada. Aquela amplitude. Já inspira. Aquele verde, aquela escola, aquele verde, aquela coisa. Então... é momentos de alunos que ás vezes, a gente, de briga assim, de um aluno com outro, você tinha que ser duro e ao mesmo tempo você tinha que tentar mudar a questão da violência, mostrar pra eles. Eu acho que foi isso que mais me marcou principalmente a noite. [São momentos] Do educador porque você tem que ser firme e ao mesmo tempo você tem que ser pai pra eles, porque se não a punição não vai mudar. Se você puni-lo você não vai mudar. Então você tem que ser firme na hora e depois você tem que chamar, tentar mostrar qual é o caminho certo. Eu acho que essa é a nossa função de educador. Exatamente. Eu acho que isso aconteceu muitas vezes, muitas vezes, porque a gente tentou melhorar a vida deles, nessa oportunidade. É aquilo que eu falei, não é só educar no conhecimento, você tem que mostrar no global, na postura, na maneira de ser, no respeito. E isso a gente passava, tentava passar muito pra eles. Normalmente, [você lembra do aluno] que dá mais trabalho. Olha, eu tenho assim vários alunos especiais, mas eu acho que o, eu tenho um menino que ele não começou desde o início na escola, mas ele se formou no curso de eletrônica, é um menino que eu hoje, ele fez o curso técnico de eletrônica, um aluno carente muito estudioso. Aí ele passou a fazer estágio lá na Motorola, aí depois ele se formou engenheiro, hoje ele é engenheiro chefe na Motorola está aqui em São Paulo, na área de marketing. Esse menino me marcou muito pela, é Danilo Rabetti, eu não esqueço dele até hoje. Pela assim, simplicidade dele, era uma criança que tinha muita dificuldade financeira em casa e hoje, não que eu tenha contato com ele, não precisou do contato, ter o contato, mas é que a gente quer ou não quer encontra com alguém e pergunta, “e o fulano?”, “ah, o...”, outros falam “ixi o cara está uma fera” sabe? Não sei o que. Hoje eu sei que ele é engenheiro na Motorola na área de marketing. A formação dele é de engenheiro mas, “vixi o homem está com tudo” eles falam. Encontrei com um ex-aluno outro dia e ele tava, perguntei dele “ii ele está lá em São Paulo agora, viaja pro mundo inteiro”. Quer dizer, a gente se sente muito bem por causa disso porque foi cria da gente, no bom sentido. E uma criança que tinha muita dificuldade sócio-econômica, mas aproveitou a oportunidade que a Fundação deu pra ele, foi sempre um aluno dedicado e tanto que hoje ele está aí no mundo. Eu tenho vários mas eu acho que ele é o que me marcou. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL É e aí esse longo período como assistente lá em Campinas, aí a Fundação me convidou se eu gostaria de assumir a direção lá em Registro. Num lugar assim que era um desafio pra mim, não sei se pode dizer um desafio, mas era uma nova etapa da minha vida, porque você ser assistente é uma coisa, você ser o diretor é outra história. Toda a responsabilidade é você que tem que assumir, não que você não divide, mas... É você que é o responsável, e pra um lugar completamente diferente que a gente foi criado, criado vamos dizer profissionalmente, que foi a escola de Campinas. Então todo aquele conhecimento, aquele padrão que a gente tinha você ia ter que transferir pra lá também. Porque eu não sabia como é que eu ia encontrar a escola lá. E eu acho que em Registro a comunidade é completamente diferente. A clientela diferente de alunos. Um pessoal um pouco mais fechado, e você quando você chega, todo mundo, com o pé atrás. Aí aquela fase de adaptação, aí a gente viu que a escola precisava ter, tava faltando vida, eu acho que a escola lá tava faltando vida, um pessoal muito sem iniciativa. Então a gente tinha que chegar lá e dar uma dinâmica diferente, dar uma reanimada no grupo. Faltava assim ousadia a equipe lá estava muito, há muito tempo, uma mesma direção, acho que se criou, acostumou. Então a escola precisava ter assim uma dinâmica diferente, ela tinha que ousar mais. Estava faltando ousadia da equipe. E apesar de eu não ter ficado muito tempo lá eu acho que consegui motivar a equipe tanto a administrativa, quanto a equipe de professores, que a escola começou a ter mais projetos, eu acho que começou a se envolver mais na comunidade também. Porque ali realmente é mais, a clientela ela é mais carente em relação a escola de Campinas. Então a gente precisava colocar essas crianças, ter mais desafios pra eles, pra eles poderem também criar mais, aprender mais. E não só eu consegui dar uma mudança na parte pessoal das pessoas, mas também a escola, mudei a cara da escola, a gente reformou a escola inteirinha. Tirou, sabe, aquela imagem que tinha, e eu pra mim foi muito gratificante a saída de Campinas, com toda experiência que a gente tinha, toda a retaguarda. E pra escola de Registro conseguimos fazer uma nova escola. Acho que a escola de lá conseguiu aparecer mais dentro do contexto da própria Fundação. Não que não tinha pessoas competentes, não é isso, eu acho que a gente chegou com projetos diferente, maneira de tratar, relacionamento com o grupo. Eu acho que lá hoje a escola deve estar com outra cara lá, mas eu gostei muito dela. Então era uma criançada muito passiva, sabe? Eles eram muito passivos, talvez pela circunstância da população que teve uma influência muito de japoneses, muito japoneses, então era aquela criação de submissão. As crianças eram muito em função da administração que tinha anterior. As crianças não tinham, parece que elas queriam mais, mas não, mas elas já não eram criançada assim muito quieta, quieta nesse sentido. Não que não tinha os problemas normais que aluno tem, mas precisava fazer que essas criançadas tivessem mais criatividade. Só que aí eu percebi que não eram os alunos eram os próprios professores que não davam essa oportunidade porque eles não ousavam. Então aí eu acho que depois as crianças começaram a mudar o perfil, o perfil mais criativos, mais dinâmicos. Mas era um lugar muito gostoso pra se trabalhar porque a escola ali é o local mais importante que tinha pra eles. A valorização, acho que eles valorizavam a escola que tinham, o que a escola, a Fundação oferecia que era muito mais do que outras escolas oferecem. Então, não era só a instalação mas no todo. Eu acho que a criançada ali, muito boa. Eu acho que aquela coisa, muito tempo uma mesma administração, é inconsciente, eu acho que é inconsciente, eu acho que a pessoa acaba se acomodando e que todo mundo acaba tendo que a mesma cara. Então quando você chega, e eu era mais aberto, as pessoas tinham medo de conversar, de expor as suas idéias e eu tenho essa facilidade, eu tenho certeza disso, que as pessoas não tem medo de vir falar quando elas precisam, sabe? E eu gosto de ouvir as pessoas e falo na hora. Isso é bom, ou não é, vamos ver se vai dar certo. Então as pessoas passaram a ter mais liberdade pra fazer algo diferente, ou como eu sempre, “vocês têm que ousar, vocês não podem ter medo de errar, só errando que a gente vai ver se está certo ou não”. E eles não tinham... Era tudo quadradinho. Foi quando essa mesma coisa que a Ana Luiza fez lá, que ela fazia com que a gente fosse, a equipe tentava aprender mais, fazer coisas diferentes, então tinha que estudar mais. Porque só aquilo que você aprendeu ali isso não vai sair disso, não vai ter diferencial, são os detalhes, essas coisas. Então eu procurei dar essa injeção na equipe que eles tinham que correr atrás e tudo isso refletiu em função em que? Em função da escola, dos alunos. A equipe era a mesma, eu praticamente mudei muito pouco, mas quando eu saí de lá já estavam mais dinâmicos. Não é porque eu estou falando de mim, não é isso não, não tenho preocupação porque eu sei o que eu fiz, eu tenho certeza disso e a escola saiu, quando eu saí de lá, ela tava com uma cara diferente, todo mundo mais vibrante, sabe? Com medo de, não ter medo de fazer as coisas diferentes. Então eu acho que foi isso que a escola estava precisando. Eu acho que no fim eu colaborei com a Fundação, pra mim não foi um bom negócio ir pra lá. (risos) Não, foi um péssimo negócio. Longe de tudo, financeiramente não tive nada, mas é aquela coisa, puxa vida, eu tantos anos como assistente, eu acho que tava na hora de eu... Fechar o ciclo e mostrar tudo que eu aprendi e poder ir lá pra tentar ajudar, eu acho que... É se pode ser chamado de missão, missão. Eu senti, eu sabia que a gente ia ter toda uma retaguarda pra poder fazer essa transformação. E eu realmente eu tive todo o apoio nos momentos difíceis. O apoio da Fundação pra poder fazer as mudanças necessárias. Não foi só, que eu falei, não foi só a mudanças das pessoas e também a gente mudou todo o visual da escola, conseguimos mostrar pra Fundação que a escola precisava de reformas. Coisas que estavam lá encruadas há muito e tempo e ninguém... Aí a escola foi totalmente reformada, tudo isso ajudou, eu acho que ajudou e a gente, eu praticamente ficava direto na escola porque eu tava lá sozinho, a minha esposa ia e ficava ás vezes 10 dias voltava pra Campinas. Então eu vivia a escola porque eles não tem nada pra fazer (risos), nada. Ou era escola, ou era a escola, então a gente tava ali dia e noite praticamente. E eu não me casava porque acho que eu tava fazendo uma coisa que eu tava gostando de fazer. Mas não no sentido de querer ser aquela pessoa chata que tava ali toda hora não, era no sentido de eu converso muito com as crianças, eu gosto de conversar e ouvi porque, “mas está gostando e tal”, “o que você fez hoje?”, “o que o professor deu que você mais gostou?”. Então tudo isso era coisas, essas informações que eu pegava e tentar passar para os meus orientadores da época ali, pra que “olha, acho que é bom você ver isso”. E porque o maior feedback que você tem se a coisa está funcionando são, os maiores interessados são os alunos. Então toda, dentista “você tratou o dente hoje, o que ela fez?”. A gente é muito próximo, é muito próximo. Então é, isso eu herdei da minha área, e a gente dá essa liberdade pras pessoas conversar com você. Não adianta você se colocar aqui atrás e não ouvir. Porque quando você se expõe você está sujeito a receber, a ver coisas que você não gostaria. Então você tem que ouvir até aquilo que você não gosta e saber administrar isso daí, não ficar com raiva da pessoa, porque no fim a pessoa está sendo sincera. Então isso me ajudou muito, muito lá, mas tudo isso foi um aprendizado que eu tive na escola de Campinas de muitos anos, porque principalmente trabalhando com adolescente do curso técnico. Onde que eu tive um aprendizado de conhecer as pessoas porque às vezes pessoas, alunos que você tinha uma idéia e não era aquilo e você tinha que mudar, você tinha surpresas agradáveis e desagradáveis. O ser humano é fogo, você pensa de uma vez, você pensa de outro, você tem que aprender com eles. E cada dia eu aprendi uma coisa diferente, tem hora que você tinha que ser duro, bravo, e tem hora que você tinha que dar aquele abraço, no bom sentido, pra que ele entendesse que você queria o bem dele. E o professor é a mesma coisa, você tem que quando chamar a atenção, você chama a atenção firme aí depois você mostra o caminho pra ele, “olha, mas se você fizer assim você vai”. É, ser humano não é fácil não. Mas eu, talvez foi os melhores anos dentro da Fundação mesmo não gostando de lá. Eu não aconselho ninguém morar pra aquele lado de lá. (risos) O trabalho era 24 horas, modo de dizer. O problema é quando chegava sábado e domingo. Solidão, não tinha o que fazer. Então você arrumava coisa pra, eu procurava evitar de ir na escola. Porque eu falei: "Eu tô ficando neurótico, se eu fizer isso". Eu acho que também não pode ser tão fanático. Mas eu vivia a escola integralmente, e olha não me cansava, levantava todo dia às 4 horas da manhã, dava a minha caminhada, os meus exercícios, quando era 6 e meia eu já tava na escola, eu tava ficando fanático já. Mas eu conseguia porque eu tava gostando daquilo que tava fazendo. Nem a Fundação sabia disso nem precisava saber, o importante era a gente fazer o que queria, pelo menos a gente fazia o melhor. Então eu acho que foram os melhores anos, que eu mais me senti satisfeito profissionalmente. Fiquei de agosto de 99 a abril de 2002, foi pouco tempo mas eu acho que foi suficiente. (risos) Foram vividos intensamente. Eu acho que... mas era muito desgastante. Quando a minha mulher não ia pra lá, porque as filhas estudando em Campinas, ela trabalhava, naquela época ela ainda trabalhava, e depois ela parou por isso que ela conseguia ficar dez dias comigo, porque se não ia ser um... aí chegava de sexta-feira a noite vinha pra Campinas, segunda-feira de madrugada já tava lá. FAMÍLIA Olha, eu quando cheguei em Campinas em 68, eu tinha uma namorada em Araraquara e fui trabalhar em Campinas. Aí conheci a minha esposa num baile de festa do chopp. Aquela coisinha e tal namorava lá, aí começou a paquerar aqui (risos). Aí já deu uma de sem vergonha, começou a conduzir as duas coisas ao mesmo tempo, depois resolvi assumir o lado de cá. A gente começou a se identificar mais aqui, então eu comecei a namorar em 68 a Cristina, e depois nós nos casamos em 72, foram poucos anos de namoro. Foi quando ela me incentivou eu voltei a estudar, aquela coisa toda. Talvez isso que me trouxe pro lado dela. Aí ela me deu aquele incentivo e eu comecei, voltei a estudar, e aí eu quando me formei era casado, já tava casado, não tinha filho mas a gente casou em 72, eu me formei em 73 na educação física. 73 foi isso mesmo. Aí 75, ainda 74 eu continuei trabalhando na CPFL, em 75 eu comecei a dar aula no SESI, então foi esse ínterim. Aí depois a minha primeira filha nasceu em 75, a Daniela, é 75, e depois Vanessa nasceu em oitenta... depois de sete anos que a Vanessa nasceu, então hoje uma está com 30 e a outra já está com 23. E as duas se formaram na Fundação, foram alunas da Fundação. As duas se formaram no mesmo curso, processamento de dados, só que a Daniela no ensino superior ela foi pra área de administração, economia, e a Vanessa esse ano está se formando em odontologia, termina graças a Deus (risos), curso de odontologia, a Daniela acabou de casar, faz uns 15 dias, e a Vanessa está se formando, eu espero que agora ela pegue o caminho dela. (risos) Ela está estudando ainda, terminou agora. Ela sempre gostou de esportes, eu não sei se foi uma influência minha, que eu sempre depois que eu fiz, eu nunca parei de fazer atividade física, desde quando eu entrei na faculdade. Eu gosto muito de correr, eu praticamente corro todo dia, mais pensando em mim agora. Quando eu dava aula, dei aula pra adultos, ginástica pra adultos, como se fosse academia mas era no SESI, eu trabalhava com adulto nessa época. E eu me preocupava com os outros. Hoje não, hoje eu gosto, prazer, sinto prazer em correr pra mim, como se diz. E a Vanessa sempre procurava me acompanhar quando ela começou a ter consciência um pouquinho, e tal, ela corria comigo tanto que a gente participou de competições de corridas junto, um incentivava o outro. Aí depois ela disparou, ela começou a jogar futebol, gostava de futebol, aí eu acabei mudando um pouquinho a cabecinha dela, aí falei, “futebol pra mulher não, eu acho que não...”. Aí ela começou a ver que a coisa era meio pesadona, ou meio era meio pesado, aí ela começou a jogar tênis, só que começou um pouquinho tarde mas se saiu bem. Aí depois ela começou a ter que fazer estágio por causa do estudo na Fundação e ela não teve mais tempo de treinar e tal então ela parou. E só começou a correr comigo porque a gente não depende de nada pra você correr. Aí ela fez estágio se formou na Fundação. Aí quando ela entrou na faculdade de odontologia ela, a atual técnica dela, via ela correndo, pedalando no local ali, e começou a, convidou ela pra treinar com ela, “eu sou técnica disso, você conhece...”, nem sabia o que era triatlon. E hoje ela aí nesses quatro anos, três anos mais ou menos... é três, quatro anos, ela começou faculdade e treino, faculdade e treino. Então a faculdade dela foi sempre quase período integral. Então sobrava um espaço ela tava pedalando, ou ela tava correndo, ou ela tava nadando, ela tinha que treinar. E nesses quatro anos agora ela vai ter, ela conseguiu chegar no profissional, ela pertence a elite do triatlon hoje, com Carla Moreno, Sandra Soldan. Mas ela ainda tem muito que... Vixi, eu não gosto nem de assistir as competições dela que eu começo a chorar, sabe? Essas coisas. Às vezes em Santos tem, quando ela está chegando no final da corrida, que é a última lá, eu venho correndo junto com ela e falo: “vai, vai, vai, vai” e aí espero ela passar lá, mas é... Eu não me meto, às vezes eu falo meio assim, “não, eu acho que você deve fazer isso, você está pedalando desse jeito”, mas eu não posso falar muito porque senão, não adianta a técnica. A técnica tem muita competência, e hoje em dia ela... Mas ela se sacrificou muito porque ela estudava o dia inteiro, de sábado ela saía pra pedalar assim, por exemplo, 80, 100 quilômetros pedalando, de Campinas ia até Mogi Mirim e voltava pedalando. Namorar nem pensar porque não tinha tempo, mas é, eu falo muito dela porque eu acho que diz muito de mim. E a Cristina que teve sempre, uma pessoa que sempre me botou pra cima. Em todos meus momentos decisivos ela foi importante. Quando eu saí da CPFL que eu fui trabalhar na Fundação, quer dizer, a mesma coisa que eu ganhasse 100 reais hoje, eu fui passar a ganhar 10 Reais, a proporção era mais ou menos essa. E ela falou “é isso que você quer?”, “é isso”, “você segura a barra?”, “seguro”. Então pra mim foi a coisa mais importante que aconteceu porque aí a Fundação entrou na minha vida pra sempre. E também quando foi pra Registro porque eu deixei uma vida estabilizada, que era tranqüila, com casa, como todo, e fala “vai pra lá ficar distante, você agüenta firme aí? Tudo bem? Você não vai ficar, chegar lá e ficar me infernizando?”. Porque eu precisava de tranqüilidade, e alguém pra apoiar, porque não adianta você estar bem no trabalho se em casa, você chega em casa e só ouve. Aí ela falou “não...” Então ela segurou bem e foi decisiva na minha vida, em todos os momentos. É lógico que eu devo ter sido também (risos) mas se não fosse o apoio dela muita coisa tinha mudado. Acho que tinha mudado. Sempre foi na área de educação também. Era professora e passou a ser diretora, e chegou até supervisora na área, na rede municipal lá em Campinas. Então sempre nós tivemos a mesma conversa, os diálogos relacionados à educação. Isso ajuda muito, você sabe disso, porque se um é economista e outro educador a visão é completamente diferente. Eu acho que isso me ajudou muito, por isso que eu acho que deu certo até hoje. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E aí. Aí eu me senti... eu saí mais da Fundação, eu pedi pra sair, porque eu não agüentava mais assim, teoricamente, morar lá, sabe? Não que eu tava tendo problema, mas sabe aquela coisa eu queria estar mais próximo de casa, queria... não tinha dado o meu tempo, eu já tava com tudo assim, burocraticamente aposentado, com a previdência privada já pronta pra receber, tem tudo essas coisas. Então eu falei, “olha, eu acho que se foi uma missão, eu acho que eu fiz o melhor aqui em Registro”. Aí eu conversei com a Fundação, “olha, acho que eu vou sair, não dá mais, deu meu tempo”. Aí a Fundação entendeu. Aí só fui esperando até preparar alguém pra assumir lá no meu lugar isso foi em outubro, por exemplo, em outubro eu falei com a Fundação e só fui sair em abril do ano seguinte. Então deu aquele tempo de maturação, aquele tempo de preparação, pra sair uma mudança sem trauma. Isso porque quando alguém sai de repente de um lugar quebra aquela seqüência. Então, aquela pessoa que ficou já conhecia o mesmo esquema, já era da própria escola. Então é até importante, eu acho, alguém da cidade, que é dali mesmo, não vai ter que se adaptar, que foi o meu caso. Mas eu... Aí eu, em abril eu saí, aí dá aquele vazio. No primeiro mês ainda se acha que você está de férias e tal. Mas aí quando chegou lá pra agosto, aí a minha mulher também já tava em casa ela já não trabalhava mais. Porque a gente, eu trabalhava manhã, tarde e noite, aí depois fui pra Registro, a gente só namorava teoricamente, porque ficava dez dias juntos (risos) ela tava ótima. E nesse sentido, aí depois você começa a conviver todo dia junto, manhã, tarde e noite, é um período difícil. É difícil não é fácil não. Aí você tem que se readaptar de novo, porque não tinha aquela convivência todo dia junto, era só nos momentos que você chegava, passava os problemas, isso e aquilo. Aí eu falei, “ah, não vai dar não”, aí eu resolvi voltar a dar aula. Quando voltei em 2003 como era, eu era efetivo no Estado, como professor, eu me exonerei pra poder ir pra Registro, eu preferi me exonerar, quer dizer, muitas coisas eu deixei tudo em função de um objetivo que era ir pra Registro. Eu tinha 22 anos de efetivo no Estado. Me exonerei e fui pra lá sabendo que não ia, e esperava nunca mais voltar no Estado. Mas em função disso falei, “puxa vida, minha função é ser professor, e eu vou voltar”. Aí voltei, me inscrevi novamente, e voltei a dar aula em 2003 e estou até hoje. Até hoje estou dando aula, e já vou me aposentar de novo no Estado. (risos). Daqui a pouco me aposento outra vez eu vou fazer, o ano que vem faço 60 anos, praticamente vai dar uns 30 anos de professor na rede pública. AVALIAÇÃO Fundação Bradesco Olha, eu acho que importante é a Fundação em si, eu acho que é uma instituição que dá muita oportunidade pra nós profissionais que trabalham nela, sabe? Eu acho que só não evolui quem não quer. Eu acho que, é que eu falava pros professores: “você que se demite, é você que se demite, não sou eu que demito você”. Quando tinha que demitir alguém, porque a Fundação, ela procura dá todas as oportunidades pra as pessoas crescerem. Então eu acho que é uma instituição que está na minha vida mesmo depois de eu ter... e meus filhos que ainda estão lá são frutos disso. Eu acho que a formação que elas tiveram, por isso que hoje, uma se formou dentista outra economista na área contábil e financeira, porque tiveram uma boa base. Acho que isso da Fundação não tem nada que pague, a seriedade do trabalho. Ela é uma empresa, uma instituição que todas as oportunidades pras pessoas crescerem se quiserem. Está ali, se você propor, que nem eu falava pros meus funcionários: você tem que ousar, se você não for atrás você não vai evoluir nunca e a Fundação da essa oportunidade pra você. Eu acho que essa filosofia de trabalho de seriedade, foi isso que me atraiu, talvez naquele primeiro dia que eu fui conhecer escola, parece que eu senti o que me falaram o que era Fundação. Então, eu consegui visualizar isso aí aquele dia, e que está até hoje com muito mais possibilidades com essas pessoas que estão hoje administrando a Fundação, que é uma visão muito dinâmica, sabe, e a Fundação a tendência é de crescer cada vez mais. Eu acho, que se eu tiver que falar, eu agradeceria a Fundação. FUNDAÇÃO BRADESCO Importância para o ensino no Brasil Eu acho, que se a educação brasileira tivesse essa filosofia de administrar com seriedade aquilo que está fazendo, pensar no aluno. A gente tem que trabalhar em função do aluno, que tudo que se propõe a fazer é pra melhorar a educação brasileira. Então esses alunos que tem essa oportunidade de estudar na Fundação, eles já saem na frente pela seriedade do trabalho, acho que a educação é uma coisa muito séria, é isso que a Fundação faz, que a educação brasileira está precisando, a seriedade, tudo que se faz, faz com responsabilidade, tudo que se aplica hoje na Fundação é em função do aluno, isso talvez é que a educação brasileira poderia tentar copiar essa filosofia, e os alunos, o povo brasileiro que teve essa oportunidade, acho que hoje tem mais de 120 mil alunos pra mais é uma coisa rara. Eu acho que, eu vejo pelas minhas filhas é uma coisa próxima e outros que a gente acompanhou que eles são diferentes por eles terem essa oportunidade de estudar na Fundação, pela seriedade. Acho que tudo se é feito na Fundação é com seriedade, e cobra-se disso, isso que é o mais importante, a cobrança, se você dá 1 real que é pra chegar no aluno esse um real é cobrado, esse daí não é desviado, não vai chegar 20 centavos no aluno, não. (risos). AVALIAÇÃO Projeto Memória É, eu acho que esse é o melhor caminho, porque quem conta a historia? Quem viveu a história. Se você não pode contar, você pode até contar pelos olhos dos outros, mas se você contar com os olhos de quem vivenciou, eu acho que ela é muito mais fidedigna e mais real. Eu acho que a iniciativa foi excelente, acho que não poderia ser de outra maneira e pessoas que ajudaram a Fundação crescer que é hoje. Então acho que é importante essa pessoas que começaram desde há 50 anos atrás começaram, e a gente deu uma pequena parcela. Mas é a historia contada por quem viveu, não por alguém que vai contar através de outros ou com outros olhos. Eu acho que esse resgate da historia da Fundação Bradesco é fundamental, acho que é uma coisa que vai ficar marcada por resto da vida. É o que eu falo, acho que foi uma alegria muito grande, o convite e a lembrança, acho que só a lembrança pra mim foi tudo deu poder contar um pouco do que eu sei, do que eu vivenciei na Fundação, acho que isso é uma demonstração de gratidão, de a gente ter também feito um trabalho sério, dentro de uma instituição séria. E então até hoje a gente ainda ser lembrado pra poder contar um pouquinho daquilo que vivenciou.

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