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História

Depoimento de Isabel Ferreira Rocha Lima

História de: Isabel Ferreira Rocha Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

História completa

IDENTIFICAÇÃO Isabel Ferreira Rocha Lima. Dia 02 de julho de 1967, em Formoso do Araguaia FAMÍLIA [Meus pais são] José Ferreira Lima e Nilza Rocha dos Santos. Meu pai é lavrador e minha mãe é do lar, sempre cuidava dos filhos. A história deles assim, de encontro, eu não seu muito bem. Mas ele é do Ceará, ela é do Maranhão. E trabalhando nas fazendas por lá do Maranhão, acho que se conheceram e se casaram por lá. Daí ele veio para cá, para a região, e minha mãe ficou; aí com um ano ele voltou para buscá-la e veio para essa região de Formoso, que foi onde eu nasci. Eu conheci minha avó. Da parte do meu pai, nós não conhecemos ninguém, nem um tio, nada. Ele saiu do Ceará com 18 anos e nunca mais retornou; então nós não conhecemos nenhum primo, nenhum irmão sequer. E da minha mãe, eu conheci a minha avó; quando eu tinha 4 anos de idade, ela faleceu. Mas eu me lembro muito bem dela – muito bonita, os olhos azuis, então ficou aquela imagem da minha avó na minha mente, bem alta. INFÂNCIA Eu recordo quando nós morávamos em Gurupi [TO]. Meu pai trabalhava fora, fazendo cerca, e deixava minha mãe com os filhos. Então eu lembro vagamente quando ele chegava, era aquela alegria, porque trazia as coisas. Passava uma necessidade terrível, então eu recordo quando ele retornava dessas viagens. Era muito bom. [Somos em] seis irmãos. Eu sou a única mulher; todos homens. E todos eles tiveram oportunidade de estudar, mas nenhum seguiu os estudos – todos pararam, até oitava, quarta série. E só eu que tive esse interesse, vontade de estudar, sempre queria crescer; ajudar a minha família era um desejo enorme, desde criança. Então só eu mesmo que dei essa alegria, em termos de estudo, para os meus pais. CIDADES / GURUPI Uma cidade pacata, mas tudo muito difícil. Então minha mãe passou muitas dificuldades, porque meu pai ficava fora e com tanta criança para cuidar... Eu lembro que meu irmão maiorzinho engraxava, vendia geladinho, vinha com um dinheirinho - que era com aquilo ali que a gente tinha que se virar e se sustentar, até meu pai retornar das viagens, que ficava 15 dias, um mês, dois meses fora, trabalhando nas fazendas. INFÂNCIA A casa era boa. Nossa casa era de tijolo, de madeira, cimentada – nessa época que eu tinha uns 4 anos e meio. Depois nós mudamos para a região de Formoso, daí nós não tínhamos casa, era nas fazendas dos outros, meu pai trabalhava. Então era casa de palha, era de todo o tipo, nunca tivemos; demorou muito tempo para a gente ter casa própria. Isso era muito triste. Minha mãe, aquele tanto de criança, as casa não tinham um aconchego melhor; as paredes – muitas vezes não tinha parede -, muita muriçoca. E eu me lembro que ela colocava os mosquiteiros e colocava três redes, uma embaixo da outra; quando o de cima mijava, molhava todos os outros que estavam embaixo. Então era muito sofrido nas fazendas ali. Nessa época das fazendas, eu lembro que a gente brincava com osso – dizia que o osso eram os bezerros, as vacas, fazendinha... Como eu não tinha irmã, era só menino, então minhas brincadeiras eram todas com eles: era de cavalo de pau, fazendinha de osso, era subir em árvore. Eu tinha um irmão que gostava que a gente subisse nas árvores e ele cortava a árvore para ver a gente cair. As brincadeiras eram mesmo mais de menino, e eu tinha que acompanhar – jogar bola, fazer aquelas bolas com leite de mangaba. E era a nossa diversão. O que mais me marca na minha infância é, pelo fato da pobreza que a gente vivia, é o carinho dos meus pais, a fé da minha mãe – ela é muito religiosa. Então assim, por mais humilde que fosse – e continua sendo – mas esse amor, o carinho, a dedicação pelos filhos foi o que marcou na minha vida. Com toda a simplicidade, era aquele zelo, tudo muito limpinho. Eu lembro da minha mãe com essa fé, com aquele carinho muito grande diante das dificuldades que a gente passava. [Fiquei na fazenda] até os 8 anos. O meu pai trabalhava na fazenda do doutor Armando - e ele via o sofrimento dos meus pais. Ele conseguiu a vaga para dois irmãos mais velhos aqui na escola de Canuanã [TO] na Fundação Bradesco. Daí esse dois irmãos vieram e nós ficamos na fazenda. E minha mãe chorava muito pela falta dos filhos. Então ele, quando vinha na fazenda, que via aquela tristeza da minha mãe, ele pegava o avião e vinha com o meu pai aqui na escola, visitar os meninos, para chegar e dar notícia para a minha mãe, que estava tudo bem e tal. Mas aí o doutor Armando, esse chefe do meu pai, o patrão dele – uma pessoa muito humana – ele foi e conseguiu emprego para o meu pai aqui, na fazenda do doutor Dante. Então, com isso, facilitou, porque foi bem na época do meu ingresso na escola – já estava até passando, já estava com 8 anos quando eu entrei aqui. Aí meu pai veio trabalhar aqui na fazenda, fazer cerca, essas coisas, e nós tivemos morando com minha mãe e meu aqui, próximo. EDUCAÇÃO A gente estudava aqui na escola e voltava para casa, porque era bem próximo, aí na beira do rio. Mas aí quando estava com 5 anos, me parece, meu pai foi embora; acho que acabou esse serviço de cerca, essa coisa, a fazenda já estava bem organizada e ele sempre braçal, já eram serviços mais modernos aqui. Aí ele teve que ir embora para Formoso, para trabalhar para outras fazendas. Daí ele voltou para a fazenda do doutor Armando novamente. E aí eu permaneci aqui na escola, fiquei em regime de internato. E meus irmãos tiveram que ir embora, os menores do que eu – porque eu sou bem no meio; tinha três acima, eu no meio e três para baixo, mais novos. Então aí esses mais novos tiveram que ir embora, porque minha mãe mudou para Formoso, então o menino que era da cidade não podia estudar aqui na escola. Aí ela foi embora com esse menores e eu permaneci. E os outros permaneceram até a oitava série, mas acabaram desistindo de estudar, não permaneceram aqui na escola. Daí eu fiquei só; então da quinta série em diante, eu já fiquei só aqui na escola, em regime de internato. E eles foram para a fazenda do doutor Armando. Aí depois é que mudaram para a cidade. Nessa época o pessoal que ficava internado. E só quem morava aqui na fazenda – a divisa é uma cerca – podia retornar para casa, e aí vinha todo dia. Então todos que moravam lá, filhos de funcionários da fazenda, ficavam lá. Mas se já fosse uma aldeia, do outro lado do rio, já tinha que morar aqui na escola. [Ficar sozinha era] muito triste; eu chorava dia e noite. Quando chegava época de férias, e que alguns iam embora e outros tinham que ficar trabalhando; então era um sofrimento só, porque a gente não conformava de não ver os pais, ficava muito triste, chorava. Depois acostumava. Passava um tempinho ali, os outros iam enturmando e ficava. Mas era um período que a gente sentia muito a separação. A minha vida aqui na escola era assim, muito boa. Porque eu era uma aluna muito dedicada, eu lembro muito bem da minha primeira professora – professora Luizinha – e pelo fato da minha mãe morar aqui perto, então eu agradava as minhas professoras, elas conheciam a minha mãe. Então era uma vida assim, até mais fácil em relação aos outros. Eu tenho recordações muito boas dos colegas, das amizades; um tempo de um convívio muito gostoso. O meu irmão mais velho, o Pedro – o apelido dele era Pedro Coxó – gostava muito de liderar o grupo, ele batia nos outros. Então ninguém me batia, porque diziam assim: “Olha, é irmã do Pedro Coxó; se bater, apanha”. Então eu tinha essa vantagem sobre os outros, porque naquela época tinha muita briga, muita rivalidade de aluno; a gente não tinha muito ocupação, não tinha televisão, éramos presos mesmo. Não podia banhar no rio, era bem seguro. E a gente entende que não tinha como ser diferente naquela época. então eu tinha essa vantagem em relação aos outros – ninguém me batia. Ele batia em todo mundo, era brigão, então era mais fácil. Eu lembro que nós éramos muito dedicados com os livros; eu lembro da cartilha que eu fui alfabetizada, o “Caminho Suave”. Então tinha muito material, nós tínhamos os livros, a biblioteca para pesquisar; mesmo sendo aquela época difícil, eu lembro que a gente tinha tanta pesquisa para fazer, a professora Patrícia exigia tanta pesquisa nossa. E eu gostava de estudar mesmo, pegava o livro e já ia adiantando alguns conteúdos. Nós tínhamos que ter um conhecimento, era muito exigido naquela época, era rígido o sistema – eu lembro que o professor apagava tudo que estava errado; tinha que apagar e fazer novamente. E eu acho que foi isso assim, que serviu muito na minha vida, de ser exigente, de cobrar. E me tornou assim; hoje eu sou uma professora assim. FÉRIAS ESCOLARES Quando voltávamos para casa nas férias era uma realidade diferente. Porque aqui a gente tinha de tudo; você tinha almoço, janta, lanche toda hora – até o lanche antes de dormir, tipo a ceia. E chegava na casa da gente, a gente sentia essa falta, de não ter aquela mesma realidade. O chuveiro... tipo, as mordomias que nós tínhamos aqui, que eu tinha aqui, chegava em casa, eu já não tinha. Eu lembro de uma das férias que ainda foi fazenda. Então eu achava estranho aquilo – pouca gente, simples. E aqui era muita gente, aquele convívio com muita gente. Mas aí, logo a gente se adaptava; quando era para voltar, a gente já não queria voltar – chorava, esperneava para não voltar. Então você tinha que se adaptar lá, depois voltar e se adaptar de novo aqui. Mas era bom. FUNDAÇÃO BRADESCO Eu recordo muito bem das aulas na segunda série, terceira, quarta, onde a professora era muito exigente em termo de tabuada, cobrava muito. E eu sempre fui uma aluna de destaque na sala; então eu sempre tirava notas boas, era elogiada – então isso era muito gostoso. E as outras turmas anteriores a nossa, chegava, não tinha segundo grau, tinha que ir embora. Então eu tive o privilégio de ter essa seqüência. Então nós éramos uma turma muito cobrada, porque foi a primeira turma de Magistério, então lá no primeiro ano, nós tivemos que dar aula para os filhos de funcionários. No primeiro ano de Magistério, nós já fomos trabalhar com os filhos de funcionários, no maternal. Então veio uma equipe de São Paulo, para assistir nossas aulas, nos avaliar; escolheram treze alunas e eu fui uma dessas escolhidas, para fazer esse teste. Então baseado no conhecimento que a gente tinha adquirido no decorrer dos anos interiores – de quinta, sexta, sétima, oitava série - nós tivemos que montar aquilo ali, planejar uma aula e dar essa aula para essa equipe de São Paulo. Eu lembro assim, que foi uma coisa muito... parece que estava muito além da nossa capacidade aquilo; você já pensou, dar aula para gente de São Paulo? Aí todo mundo queria nos ajudar, as colegas: uma cuidava do cabelo, fazia os cachinhos; minha mãe tinha comprado um vestido – a sorte foi esse vestido novo – arrumar o calçado. E todo mundo colaborou, para que fizesse uma coisa muito bem feita, como se fosse assim, algo estranho a nossa realidade. E realmente era, porque era a nossa formação que estava em jogo, era a nossa preparação. Então foi muito bom, fomos muito bem avaliadas, eram treze alunas. E a partir daí já começamos o trabalho de aluno e quase funcionário, porque nós nos sentíamos assim – aquela responsabilidade de tratar bem os filhos dos funcionários que eram nossos alunos, inclusive o filho do Rui, que era pequenininho na época. DORMITÓRIOS Tinha um dormitório especial para nós; era chamado “Dormitório das Moças”. Então as meninas, as menores, tinham aquela maior curiosidade de querer entrar no nosso alojamento e ver como é que era, tudo. Mas, na verdade, a diferença é que quem ainda estava nos dormitórios dormia em rede e nós já tínhamos beliche, o armário individual para cada uma, então isso facilitava. E as moças, as meninas adolescentes, tinham reuniões para nos orientar com questão a sexualidade. Enfim, todos os aspectos a Fundação se preocupava com a nossa vida aqui dentro, então isso foi muito positivo na nossa formação, por essa preocupação com tudo, de estar separando adolescente, de estar dando os espaços para cada um. Não cheguei a dormir no dormitório das crianças; no primeiro que ano que minha mãe me deixou aqui, eu ainda dormi. Só que eu fiquei com a cama, que eu era acostumada a dormir em cama e minha mãe deixou uma cama de campanha – que chamam aquela que fecha – e os outros dormiam em rede. Então todo mundo queria deitar na minha cama, porque todo mundo dormia em rede; aí era aquela coisa Aí depois que teve o alojamento para os maiores. Até então era rede; hoje chama dormitório, mas naquela época chamava de maloca, onde tinha as redes – tinha um pau no meio e rede para todos os lados. Amanhecia o dia, tinha que enrolar aquela rede e guardar. Tinha gente que fazia xixi. Aí fechavam a rede e aí quando era de noite e abria, aquele mau cheiro terrível no dormitório. Isso acontecia. Eram as moças de um lado e os rapazes do outro. Tudo muito distante; os rapazes ficavam no outro extremo. Quando dava 9 horas da noite, tocava o sinal; o guarda já saía olhando, menino para cá, menina para lá, e não podia sair mais dali de dentro do dormitório de forma nenhuma. Só que sempre a gente achava um jeitinho de querer não cumprir; ficava pirraçando o – hoje chama inspetor, mas nessa época a gente chamava de guarda – os guardas. Então era a pessoa que a gente mais implicava e são os que mais gostam da gente, os guardas – porque a gente dava muito trabalho para eles nesse sentido, de querer sair, ficar na calçada conversando, batendo papo. Muitas vezes a gente saía correndo ao redor do dormitório, só dava uma volta, só para ver ele correr atrás da gente. CAUSOS O seu Nonato era muito sério, evangélico. Então a gente saía, pirraçava ele na hora depois do sinal; daí ele vinha correndo. Aí quando ele chegava pertinho, a gente fechava a porta e ele batia na porta com a botinona; aí colocamos o apelido nele de “Botinão”. E a calça boca larga, né... A gente colocava muito apelido nele. Eu lembro uma época que ele disse: “Vou chamar o seu Dorian” – que era o chefe de setor. Aí o Dorian veio. Quando o Dorian vinha, a gente ficava todo mundo caladinho; quando o Dorian voltava, a gente aprontava de novo: jogava pedra, colocava apelido, saía do dormitório... essas coisas a gente aprontava demais, de colocar ele para correr atrás da gente. LAZER O lazer era muito restrito. Porque, por exemplo, tomar banho no rio; nós só íamos se a professora quisesse levar a turma. Se chegasse lá, alguém aprontasse, imediatamente mandava todo mundo sair da água; então a gente morria de vontade de tomar banho no rio, mas não podia. Lá alguma vez, mês de agosto, com muito calor, setembro, que resolviam levar todo mundo e a diretora autorizava, ia; quando a professora ia sozinha com a turma, se acontecesse isso, a gente já sabia que o banho estava perdido. Mas era uma coisa que nos atraía muito, essa questão do rio; todo mundo queria. Inclusive tinha aluno que fugia para ir pescar, para ir banhar escondido. E eu não fazia isso - eu morria de vontade, mas não ia. Uma brincadeira muito comum na nossa época era brincar de pique, de salva-latinha. E eu lembro de uma certa vez, a gente fazia o pique ali perto dos dormitórios e corria para se esconder na fazenda. A diretora nem imaginava que a gente fazia isso; se escondia por lá, embaixo das árvores e tal. E uma vez nós estávamos brincando de salva-latinha, aí a que ficou de gritar no pique demorou. Aí como ela demorou, nós falamos: “Tem alguma coisa errada...”. Aí nós fomos ver o que é que estava acontecendo no pique – era a Zuleide, que inclusive é professora aqui. Aí chegamos lá, estava a Zuleide brigando mais a Selma, de cabelo, rolando no chão, que a poeira estava levantando. Aí tivemos que separar a briga para poder continuar. E nessa época, já tinha os que namoravam; então nós brincávamos até cinco para ás nove. Cinco para ás nove a gente parava a brincadeira e corria lá para baixo, no galpão, para ver os casais se beijando. Aí eles beijavam – davam um beijinho – e iam embora. Então nós, os menores, corríamos para assistir o beijo: “Vamos, vamos... está na hora da despedida”Tudo escondido. Beijo na boca, beijinho de selinho – naquela época era só um selinho mesmo. A direção nem imaginavam que isso acontecia. Então a gente tinha um horário marcado – até cinco para ás nove. Então voltava, assistia a despedida e voltava para o dormitório, tomar banho e dormir. Era uma rotina isso aí, não tinha como fugir disso aí. E aos sábados tinha festa no galpão – a gente chamava galpão, hoje eu não sei o nome – e aí a festa era de 7 ás 9. Então lá, quem tinha namorada dançava o tempo todo; quem não tinha, ficava ali pelos cantos assistindo e depois saía para ir brincar de novo de salva-latinha, porque não tinha outra coisa para fazer. E pular corda, queimada – era o jogo preferido nosso, brincar de queimada. Aí depois foi melhorando, construíram as quadras, aí tinha handball, volley. Mas no começo era tudo muito simples mesmo, eram só as brincadeiras de correr um atrás do outro. PROFESSORES Eu tive uma professora de Língua Portuguesa, a professora Noêmia, ela marcou muito. Inclusive hoje a minha preferência é Língua Portuguesa, e tem tudo a ver com o que ela foi antes: muito educada, tranqüila, exigente – a gente tinha que apagar todos os errinhos de português. Hoje alguém me fala... diz que eu tenho o olho biônico: eu olho daqui assim, eu já enxergo o erro de português, já vou corrigindo. E isso eu aprendi com essa professora, professora Noêmia. A minha primeira professora, Luizinha, também eu tenho um carinho enorme por ela e ela por mim; até a gente se vê ainda, ela mora em Gurupi. E tinha um professor, o professor Gilmar, ele era muito de marcar o aluno. Então como eu era aluna considerada aluna nota 10 – só gostava de tirar 10, 9 –, quando eu tirava um 8 com ele em geografia, ele fazia questão de falar para a sala inteira: “Olha, Isabel, você tirou 8...” – para mostrar que eu não era aquilo tudo. Então ele falava assim, como algo negativo, então isso também me marcou; esse lado de negativo dele, de perseguir o aluno. Se a gente entrasse atrasado na sala... ele entrou; se você entrasse em seguida, ele já batia a porta na tua cara e você ficava de fora mesmo. Então tem esses tipos de professores que marcam, os bons e aqueles que deixam alguma coisa que não foi muito positiva na vida da gente. Comigo nunca aconteceu, mas com alguns colegas já aconteceu isso, dele bater a porta e ter que ir para a secretaria: “Por que você está fora?”. Tinha que ir se justificar por lá. ENSINO Pelo fato de fazer parte da primeira turma que fez o Ensino Médio aqui, o Segundo Grau Técnico em Magistério, nossas aulas eram juntas com Agropecuária – nós éramos 15 meninas e 18 meninos, os rapazes. Então as aulas, na maioria, no primeiro ano, era todo mundo junto; depois que foram separando. E a gente se sentia mesmo assim, como cobaias: por ser a primeira turma, tivemos que estagiar muito cedo, assumir essa responsabilidade. Eu recordo que, ao mesmo tempo que a gente estudava, a gente tinha uma obrigação muito grande com o nosso estágio. E no primeiro ano, a gente teve que dar aula para os filhos de funcionários. E no segundo ano em diante, nós dávamos aulas para os funcionários da escola e da fazenda que não tinham segundo grau – não é segundo grau... que não tinham de quinta a oitava. Aquele Telecurso 2000, um livro dessa grossura, eu era bem magrinha e eu lembro que eu dava aula para o gerente do escritório da fazenda; então aquilo tremia as bases, dar aula para o gerente da fazenda Então era gerente, vigias, essas pessoas que trabalhavam nas casas de funcionários. Então nós tínhamos que dar aula para eles. E eu fui perceber isso um bom tempo depois: que o livro era tão grosso e tão pesado, que eu escrevia com as duas mãos no quadro, porque o livro pesava e aí eu passava para o outro aqui para poder copiar no quadro, porque só o professor que tinha o livro, aluno não tinha – que hoje é EJA, aquela época chamava supletivo. Então nós tínhamos uma responsabilidade enorme, tanto em aprender como em estar repassando isso para outras pessoas. TELECURSO Nós estudávamos durante o dia e a noite nós dávamos aula para esse pessoal. Na época não tinha televisão. Era o livro; era só o livro da professora e os alunos copiavam. Era chamado Telecurso 2000, que é o mesmo, o nome não mudou, da Fundação Roberto Marinho. Inclusive eu tenho até vontade de adquirir um livro desses para contar a minha história, de quando eu iniciei como professora, tão jovem, que isso aconteceu comigo e eu fui perceber um bom tempo depois, já como profissional, foi que eu percebi que eu escrevia com a mão direita e a esquerda. Utilizava a metodologia porque muita coisa tinha que ser copiada no quadro, para o aluno ir aprendendo. A TV já é bem mais recente na história aqui na história da escola, porque quando eu saí, não tinham televisão para nós, alunos. Alguns funcionários, que já tinham nas suas casas, era muito chuviscado – a gente não tinha nem paciência de querer assistir. Eu lembro que a gente fugia do dormitório para assistir o Rock’n’Rio, na época. Isso me marcou muito, que tinha um colega nosso que a mãe dele era enfermeira aqui na escola, aí a gente saía escondido, depois que dava o sinal, ia para a casa dele para assistir televisão. Mas para nós, alunos, não tinha televisão, nem computador, nada disso. CURSO DE FORMAÇÃO Na época, foram duas turmas, Agropecuária e Magistério. Eu queria muito fazer Agropecuária na época, porque foi a época que fundou o projeto Rio Formoso, então eu tinha aquela perspectiva de ir como técnica agrícola para trabalhar na minha região e tal. Só que a diretora, a tia Santa, não permitiu. Ela disse: “Não. Agropecuária não é curso para mulher, é para homem” – então tivemos que fazer o Magistério. E foi uma experiência muito válida para nós, pelo fato de estar iniciando esse processo do ensino médio aqui, porque nós éramos cobrados pelo de fato que diziam assim: “Olha, vocês estão tendo um privilégio que a turma anterior não teve”. Então, na verdade, eu faço parte da quarta turma; a terceira teve que ir embora da escola, sem perspectiva; porque a primeira foi para São Paulo, a outra para Conceição. E a terceira a Fundação já não deu conta mais, de encaixar tanta gente. Então eles foram embora. E o que foi válido aqui, dessa turma, do terceiro, eles voltaram para estudar junto conosco – a maioria voltou, porque estavam sem estudar, estavam parados. Para você ver o tanto que, na época, na região, era difícil isso. Então eles voltaram para estudar junto conosco. E a responsabilidade sempre é maior, porque nós éramos a turma que estava a frente. Mas as aulas eram muito boas; eu lembro da professora Benvinda, em termo do estágio nossa, a cobrança. Era muito puxado. Então quando eu fui para a faculdade, não tive dificuldade nenhuma, porque eu lembro que os conteúdos que eram passados na faculdade, a maioria eu já tinha visto aqui; então da Pedagogia, eu tinha visto aqui no Magistério. Então foi um curso muito bem feito para nós, naquela época. NAMORO Eu e uma outra colega, nós quebramos todo o protocolo da escola, porque eu namorei com funcionário. Ele foi para a Conceição e voltou como funcionário, era professor. E aí eu comecei a namorar com ele. Ele disse que quando foi embora, eu era uma menina, nem me conhecia; quando voltou, disse que achou aquela moça bonita e tal, diferente, era amigo do meu irmão e começou esse namoro. E eu trabalhava no setor – na época eu trabalhava com a Luzia, que era supervisora nossa, de ensino médio – e ela sabia do namoro, só que a gente achava que não sabia. Então depois que a gente formou, ela disse que eu não fui mandada embora pelo fato de ser uma das melhores alunas; mas se não, teria sido mandada embora pelo fato de estar namorando com funcionário. Mas era aquele namoro de olhar, porque você não podia beijar, abraçar – você já pensou uma aluna com funcionário? Era muito difícil... Então aos sábados tinhas as festinhas, que eu já citei, então tinha uma colega minha de turma que o pai dela trabalhava aqui, era funcionário – o pai e mãe. Então ela marcava os encontros na casa dela. Aí a festa era aqui, nesse galpão aqui de cima, no colégio dois, e nós íamos encontrar lá na casa dela. Mas era aquele encontro assim: dava um beijo, eu saía por uma porta, ele pela outra; era rápido demais, para não levantar qualquer suspeita. Dava um abraço, um beijo e saía por lá. Só que a Luzia, a supervisora, ela sabia. Quando foi na nossa formatura, a Dinalva – que é essa colega minha, inclusive até hoje, ela mora em São Paulo, já estive lá visitando, é uma amizade assim, muito bacana – ela foi falar para a Luzia: “É, Luzia, eu nunca aprontei nada aqui na escola. Eu nunca namorei, num sei quê...”. E a Luzia:“Mas tem uma coisa que, se eu falar, você não vai acreditar...”. “Pode falar, Luzia. Eu não tenho nada para esconder.”. Disse: “E os encontros que você marcava para a Isabel com Jodivan lá na sua casa?”. Aí a Dinalva desmontou. E ela falou mais; falou: “Dinalva, eu pensei muitas vezes de surpreender vocês lá nesses encontros.” – porque ela ficava na porta, vigiando, quando o Jodivan chegava e tudo, e a Luzia pegou e revelou isso. Então acho que, na verdade, a gente não fazia nada escondido; eles acabavam sabendo, porque um acabava entregando o outro. Mas o nosso namoro era muito... eu sabia do risco que estava correndo, mas foi uma coisa que, naquela fase da adolescência, aconteceu e durou – eu namorei com ele 83, 84, dois anos. E em 84 eu fui embora e ele pediu para sair da escola também, foi embora para Ribeirão Preto, fazer faculdade. E nessa brincadeira nós namoramos nove anos, até casar. COMEMORAÇÕES Eram muito bacanas. Eu lembro do desfile, do primeiro desfile na escola; foi uma coisa linda. Eu tenho fotografias desse primeiro desfile, era muito... A escola tentava trazer tudo lá de fora para cá. Nós fazíamos o Dia de Ação de Graças, no mesmo estilo que faziam lá em São Paulo, a gente acabava fazendo aqui também – mas tudo muito mais simples. Mas sempre tinha as comemorações: o Dia do Índio, tinha festa na aldeia, nós ficávamos loucos para participar. Então tinha ano que a tia Santa deixava as turmas irem para a Festa do Índio, outras não iam; quem ficava, ficava muito triste. Nós tínhamos todas as comemorações. Jogos, vinha o pessoal de Gurupi jogar; eu lembro que nós fizemos uma excursão – fazia a quinta série – fomos numa excursão em Gurupi. Gurupi era muito distante, muito fora da nossa realidade. Então fomos nessa excursão. Eu me lembro muito bem que fomos de caminhão, em cima de caminhão, passear em Gurupi. Eu não tinha roupa, minha mãe acabou que deu um dinheiro para o meu irmão comprar roupa para mim lá; e ele foi e gastou o dinheiro todinho comprando picolé e essas coisas para ele e para os colegas. COMUNIDADE INDÍGENA Nós trocávamos alimentos com eles, até as índias vinham e traziam mamão, cana. E na época, a escola nos dava um desodorante, mas era tão fedido que ninguém conseguia usar. Então nós guardávamos esse desodorante para trocar com mamão e cana com as índias. Era muito divertido, elas já sabiam com quem que iria trocar as coisas. Então nós, que éramos da turma um pouco maior, a gente pedia para os outros: “Oh, você não quer o seu perfume, não?”. “Não”. “Então me dá, que a gente está juntando”. Eu lembro de uma vez, com a Lílian, nós fizemos isso. Aí juntamos aquele tanto de coisas e trocamos por um tanto de mamão, de cana. Mas no princípio, eu tinha muito medo; eu escondia, quando minha mãe morava na fazenda, eu escondia debaixo da cama, porque tinha um índio que dizia que eu era índia, que ele ia me levar de volta para a tribo. Então isso me causava muito medo; eu demorei muito tempo para acostumar com índio, mas depois foi tranqüilo. Convivi com os índios que foram alunos. O Reinaldo, Tica. Inclusive eu achava eles muito bonitos, tinha uma colega que namorava com um deles. Era normal. GLÓRIA PIRES Na época da visita dela, nós tínhamos que cuidar da limpeza dos quartos, da alimentação, nós que ajudávamos nos setores. E tinha uma colega, a Rosa, que cuidava de uma viadinha, da filmagem. E por azar, a viadinha morreu; a gente dizia que tinha sido a Rosa que tinha matado a viadinha da filmagem. E a Lílian, muito custosa, cuidava justamente do quarto da Glória Pires. Eu cuidava do Fábio Barreto, que era o diretor, eu e uma outra colega – não lembro qual - nós cuidávamos desse quarto. E achava cachimbo, cueca para todo lado, aquelas coisas. E para nós era uma festa cuidar disso, era uma honra estar aqui cuidando desse povo. Ela se pintava ali na... hoje eu nem sei o que é que funciona ali, mas ela tinha um local lá, onde ela era maquiada. Então nós ficávamos tudo louco para ir vê-la de perto. Só que nessa época tinha pouco aluno, era época de férias. Mas ela não dava muito abertura assim, para gente, de conversar, essa coisa não. Nós queríamos estar sempre vendo. Ela ia para praia, a gente queria ir junto, acompanhar, para estar vendo ela por lá. E eu lembro que ela, uma vez, ficou de topless; nossa, mas foi um escândalo aqui Meu deus E saía só de biquíni no meio da vila, então isso causava um reboliço para nós, porque tudo era anormal. E a Lílian, uma vez, foi com ela para a praia, foi junto. Aí a Lílian pegou e tirou a sandália – ela falou que a areia estava quente, a Lílian foi e tirou a sandália. Ela falou: “Calça a minha sandália, Glorinha...” – acho que isso fomos nós que já inventamos, esse Glorinha. E aí ela passou direto, não calçou a sandália da Lílian. Então isso virou uma gozação tão grande, a gente quase matou a Lílian, porque era em cima, aquela tietagem louca. Mas isso tudo foi muito divertido para nós. O Nuno Leal Maia já era mais simples; ele fazia exercício, tinha barra aqui, mais ou menos nesse local por aqui. Ele vinha fazer ginástica, corria, tudo; a gente ficava muito próximo, dava mais atenção. Agora ela, não; a Glorinha não dava muita atenção, não. ARTE E RELIGIÃO Tinha uma parte artística e tinha o momento religioso. Isso também foi uma coisa que contribuiu muito assim, para a nossa vida profissional, porque falar em público, usar microfone, é uma coisa difícil; isso é uma coisa que muita gente tem dificuldade. E esses eventos que a escola fazia facilitou muito para nós. Eu me lembro que no primeiro momento religioso, eu tremia tanto que as pernas batiam uma na outra, de tanto nervosismo. E, com o tempo, isso foi ficando rotina na nossa vida. E as apresentações de teatro – eu lembro que a Dinalva gostava de imitar Michael Jackson, fazia do mesmo jeito, vestia as roupas e vinha para o palco. Nós apresentamos uma peça do macaco, e a Dinalva tinha que cair, só que ela caiu na hora errada. Isso deu uma gozação tão grande E eu era a narradora – eu sempre queria fazer o papel de narradora, não queria me expor, ser macaca, essas coisas, eu não gostava; aí minhas colegas desconfiavam: “Isabel, você não quer fazer papel, esses que estão se expondo....”. Eu falei: “Realmente”. Aí eu tive que fazer, uma época, fazer um papel que não fosse só de narrar, para estar no grupo. Mas isso tudo era contribuição para a nossa formação, de estar falando em público, estar expondo as idéias. A escola sempre foi muito aberta a isso. CAUSOS A nossa turma era uma turma muito unida. Eu lembro uma certa vez, que a gente fazia as provas e não era aquela questão... eu nunca fui de colar; era de estar conferindo se os outros acertaram, se está todo mundo igual. Aí a gente acabava conversando. Aí o professor: “Ué, o que é que foi?”. Falou: “Não, a gente está só conferindo se está tudo certo...”. Aí eu tinha a mania de dizer: “Fulana, a sua está errada, corrigi aí. Não é isso, é isso aqui.”. E terminava discutindo alto, a professora acabava escutando, porque queria que todo mundo acertasse a mesma coisa. E teve uma passagem engraçada, já no final do ano, todo mundo já tinha passado, todo mundo já tinha nota, eram quinze meninas. E aí o professor Anacleto, de português, trabalhando lá os versos, rimas, estrofes; aí ele pediu para colocar a resposta – era terceto – e a Olga foi e colocou, ao invés de colocar terceto, colocou tripilha. E foi e passou a cola para a Lílian, tripilha também. Aí o professor chegou e deu uma bronca: “Tem gente, que porque está achando que já passou, não precisa se preocupar, quase colocou tripa na prova”. Aí nós fomos olhar as provas e descobrimos que tinha sido as duas que estavam colando e colocaram lá tripilha, que não tinha nada a ver com o conteúdo de língua portuguesa. Tinha uns apelidos; nós fazíamos rodinha na frente aqui do pátio, tinha um banco e nós reuníamos para conversar. E fazíamos a hora do fuxico. Mas saía cada coisa, que você nem imagina Um dizia uma coisa, e eu e a Dinalva desvirtuávamos o assunto. Começava num que não estava muito por dentro – ele dizia uma coisa boa – e aí quando chegava na gente, a gente mudava: falava uma aberração com outro, uma fofoca, uma coisa. Aí quando a coisa chegava lá no final, totalmente distorcida, mas dava uma confusão danada “Quem fez isso, que colocou meu nome numa palhaçada dessa?” É que alguém tinha ficado com fulano, namorado, ou isso ou aquilo; inventava algo assim, que não era verdade. Mas teve uma época que isso foi muito marcante na nossa turma. Juntava o agro e o Magistério para fazer essa rodinha, a hora do fuxico. Chamava ligação sem fio, tinha vários nomes. Inventava com nome de funcionário, essas coisas assim. Chegava no final: “É verdade isso?”. “Não, não é verdade. É só gozação...”. FORMATURA A nossa formatura acho que foi uma das mais privilegiadas. Porque, na época, tinha uma equipe de repórteres do Rio de Janeiro, ou era São Paulo que estavam por aqui. Então eles que entregaram nosso certificado, juntamente com a direção da escola. E teve toda aquela comemoração: o plantio da árvore, colação de grau, missa e a formatura em si, o baile. Então aquela preparação foi muito badalada; para nós, foi uma forma muito gratificante que a escola realmente se empenhou em oferecer algo novo para nós, e muito marcante. Houve muito choro, aquelas despedidas. Então é uma separação muito grande esse momento da formatura. A gente se emociona, sabe? Porque é algo que marca na vida da gente, na hora que vem esse elo e separa. Tanto que eu falei para a Damaris, que as solenidades que eu já vim aqui, é um filme na vida da gente que volta. E só quem é aluno de Canuanã que sente essa emoção, essa alegria, de ter convivido, de passar por aqui. Na mente da gente fica mil e uma interrogações: “Meu Deus, e agora? O que é que eu vou fazer? Será que eu vou conseguir trabalho?”. E a escola sempre colocava muito claro para gente, que na vida vocês terão dificuldades, mas com o conhecimento que vocês adquiriram aqui, com a vivência, vocês vão superar. E realmente foi uma das turmas que, eu acho, tem dado muitas alegrias, para a Função Bradesco – foi a primeira turma – porque todos foram absorvidos muito rapidamente no mercado de trabalho. Quando se falava assim, na segunda ou terceira: “É aluno da Fundação Bradesco” – já era um referencial. Porque nós fizemos a diferença por onde a gente passou, em termo de educação. Falava: “É aluno da Fundação” – e todo mundo ficava de olho. TURMA DE FORMANDOS Alguns que foram para o banco, em Goiânia. O Djalma foi, depois retornou; teve o Paulo Afonso, depois voltou - foi aluno aqui na escola. A Dinalva esteve no Bradesco, depois ela foi para São Paulo, trabalhou no Banespa. Estão todos, assim, muito bem empregados hoje, todos tiveram carreiras, ou no Bradesco ou fora, mas que estão bem. Teve a Feliciana, que é professora também na mesma escola que eu trabalho. E há aquela união; sempre a gente quer estar com a equipe da Fundação Bradesco, porque sabe que o compromisso, a responsabilidade, é diferente. Tem o caso da Felicita, a Eliene, a Creuza – todas são professoras com referência, que são bem aceitas em qualquer escola. Então isso dá aquela alegria para gente, saber que nós fizemos parte da primeira turma que saiu daqui e conseguimos, dentro daquilo que fomos preparadas; todo mundo já fez faculdade, já fez pós-graduação e esta aí, no mercado de trabalho. VISITAS DE SÃO PAULO Para nós, alunos, era excelente. Nós ficávamos super felizes, porque sabíamos que eles viriam e já ficávamos naquela expectativa. Mas nós trabalhávamos para caramba, para deixar tudo muito arrumadinho, tudo limpinho. E o seu Carlos, eu lembro que uma época ele fez uma surpresa, porque pegaram muita coisa, jogaram numa sala e não arrumou, deixou tudo bagunçando. Ele chamou, deu uma bronca, mandou arrumar tudo aquilo ali. Até a comida melhorava. Então quando eles vinham a gente ficava vendo a preocupação dos funcionários, porque, para nós, sabíamos que com certeza viriam melhoras. Melhoras que a gente fala é assim: caprichar melhor no cardápio; questão de, muitas vezes, até ser menos rígidos com a gente. Então nós gostávamos muito. O seu Carlos vinha, tinha o Carlão, João Cariello. Mas teve uma visita que isso marcou na minha vida: foi a vinda do seu Amador Aguiar aqui na escola. Eu era criança e lembro da preparação da escola para recebê-lo. Pelo fato que eu sou muita grata a Deus pelo seu Amador ter criado essa escola. E a oportunidade que eu tive, e que muitos tiveram, foi graças a essa escola - eu me emociono muito quando eu me lembro dessa visita dele aqui. E nós cantávamos várias músicas, preparamos durante meses, cantando, é música de Roberto Carlos, para recebê-lo. E realmente recebemos de uma forma muita bonita, muito gostosa. Eu lembro direitinho dele sentado ali, e a gente cantando; ficava em pé, sentava e cantava. Naquele momento, eu acho que eu não sabia o tanto que aquilo que representava de estar cantando para o seu Amador Aguiar, porque foi graças a ele que nós tivemos essa oportunidade de estudar, de ser alguém na vida. Porque se ele não tivesse feito essa escola aqui, com certeza meu futuro era outro; eu não teria tido a menor condição de ter feito segundo grau, de estar trabalhando, porque eu vejo muitos, da minha idade, que não tiveram essa oportunidade de estudar, que é da mesma região, que são da Ilha do Bananal, por falta de oportunidade. Então essa escola aqui, realmente foi algo que eu considero divino, de Deus ter usado o seu Amador Aguiar para criar essa escola aqui. Então a visita dele aqui foi muito marcante na minha vida; nunca esqueço do rostinho dele. E sempre ele é mencionado nas formaturas, e isso nos dá aquela alegria, aquela satisfação, dele ter vindo aqui nos conhecer, conversar com a gente, chegar pertinho – alguns até a oportunidade de sentar no colo dele. Eu me lembro muito bem de cantar... Era um pai. Na verdade, foi um pai para todos nós. AMADOR AGUIAR Ele era muito tímido, o seu Amador. Ele falava muito pouco. Mas nas palavras dele, assim, era sempre da gente querer ser o melhor. Sempre era nesse sentido, da gente valorizar, de querer ser alguém na vida, porque a oportunidade estava sendo dada. Então ele era de falar muito pouco, mas muito carinhoso, muito atencioso. Ficava assim, olhar atento para aquilo que a gente estava cantando, se emocionava. Então foi muito marcante a visita dele para nós. E eu lembro dos ensaios, o tanto que era gostoso – todo mundo de uniforme, tudo arrumadinho, nas filas, para cantar, para recebê-lo. Muito bom. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Na época, tinha a possibilidade da escola arrumar emprego para alguns alunos, para ir para Itajubá, São João del Rey, para algumas escolas – aqui na escola. Então a tia Santa deixou aquela expectativa para nós. E provavelmente eu iria para Itajubá. Só que, na verdade, minha me disse que orava 24 horas para eu não ir. E quando eu menos esperava, ela foi no prefeito e conseguiu uma vaga para mim, de professora. Então eu comecei a trabalhar, fiquei dois anos de contrato na rede estadual, e chegamos bem na época que estava abrindo uma escola. Foi construída aquelas escolas de mutirão, então mês de abril iniciou a escola; e o quadro dos professores – eu me lembro muito bem – nós éramos quatro. Todos os quatro tinham terminado aqui e conseguimos a vaga lá: eu, Darziléia, Feliciana e a Rosa. Aí em dois anos teve o concurso, eu fiz, passei e continuei. Depois fiz faculdade - com dois anos que eu tinha saído, teve o primeiro vestibular da FAFICH, que hoje é UNIRG, a Faculdade de Gurupi. Eu passei em décimo-segundo lugar, fiquei muito feliz; até hoje eu lembro da emoção que foi saber aquele resultado – antes vestibular era mais difícil, era concorridíssimo, era uma oportunidade para poucos; graças a Deus, isso hoje está se expandindo mais. E aí consegui, fiz a faculdade. Naquela época, foi quatro anos e meio – a Pedagogia não era só três anos, quatro anos; era quatro anos e meio. E daí continuei minha vida escolar. E sempre estudando, nunca parei; inclusive, estou concluindo agora outro curso de pós-graduação, na área de gestão educacional e metodologias de ensino. E faço algo que eu gosto. A educação, por mais que não seja tão valorizada, mas é algo assim, que eu gosto de fazer, porque foi aquilo que eu aprendi aqui. E a minha vida profissional teve essa trajetória de passar por concurso. Depois, o governador quando dividiu o estado de Goiás, o governo do Tocantins, antes o acesso nosso era automático; aí, entrou um governador e ele derrubou o nosso acesso. Aí voltamos para receber como professor nível 1. Aí, graças a Deus, depois teve concurso, eu já tinha pós-graduação e hoje eu sou concursada como nível de pós-graduada, tanto na rede municipal como na rede estadual. E isso facilitou melhor salários da gente. E sempre atuando nessa área mesmo, da educação. Nessa escola que eu iniciei, em abril de 1985, eu fui professora três anos, de primeira série; trabalhei depois com terceira e quarta. Depois trabalhei de quinta a oitava, com língua portuguesa. E tive a oportunidade também de ser coordenadora pedagógica. Fui diretora também dessa escola. Depois eu fui convidada para ser coordenadora pedagógica da escola da cooperativa. Depois a cooperativa fechou. Então quando a cooperativa fechou, o gerente, que é Carlos Valadão, um ano anterior eu fundei uma escolinha com amiga minha, só para ensino infantil e de primeira a quarta, no ano de 98. E no ano de 99, a da cooperativa fechou. Então o presidente me chamou, tinha outras pessoas que estavam interessadas na escola e tudo. E ele me chamou e falou: “Olha, Isabel, a escola é sua”. Então foi praticamente um presente de Deus para mim, porque financeiramente eu não tinha nenhuma condição de comprar uma escola. E aí, assumimos a escola, os alunos ficaram na escola como bolsistas – a empresa pagava para eles estudarem. Então foi muito bacana, eu fiquei três anos nessa escola. E, ao mesmo tempo, trabalhava na rede estadual, como professora, não podia deixar. Então era diretora da minha escola, em parceria com duas colegas – que também ex-alunas aqui de Canuanã – e ao mesmo tempo trabalhando na outra rede. Só que depois eu fui convidada para a Secretaria Municipal de Educação e aí é um cargo que exigia muito da minha pessoa, então eu tive que pedir licença, afastei do Estado e assumi a Secretaria de Educação, no ano de 2001 a 2004. Então foi um período que foi onde eu tive a oportunidade de conhecer melhor o município de Formoso, porque eu visitei todos os cantos desse município. Porque como professora, você vive dentro quatro paredes; e como secretária, você é secretária do município. E isso foi tão gratificante para mim, porque, a princípio, eu trouxe toda a minha equipe - de diretores, coordenadores, auxiliares - aqui na escola de Canuanã. E juntamente com o diretor, o seu Élcio, na tentativa de mostrar para eles uma outra realidade. E foi muito válida essa visita e as parcerias que fizemos; porque, na verdade, e o que eu queria mostrar para a minha equipe, da Secretaria da Educação, o diferencial que a Fundação é em termo de disciplina, organização, compromisso, a competência que as pessoas procuram desenvolver diante de qualquer cargo que assumem. E isso fez um diferencial a frente da Secretaria de Educação de Formoso. Inclusive as pessoas falavam: “Isabel, a história de educação de Formoso, vai ser o antes e o depois da sua passagem por essa Secretaria”. E realmente, porque procuramos fazer um trabalho de compromisso mesmo, de vestir a camisa, de visitar todas as escolas rurais, de estar presente. E nessa trajetória, eu tive um apoio muito grande da Fundação Bradesco, com dia de voluntariado, com oficinas, nas feiras culturais; então um apoio muito grande do professor Joacir, do Lucrécio, Élcio, Cacilda, Sandra - todo a equipe – o Doutor Cícero, os alunos da escola iam visitar a escola, fazer projetos em parceria. E isso foi um diferencial realmente, porque mostrou uma realidade que está, tão próxima, mas que muitos não conhecem. Então eu sou muito grata a Fundação Bradesco, porque eu falei, até um cargo desse, que é um privilégio de poucos, a Fundação esteve presente na minha vida. Então eu só tenho realmente a agradecer a Fundação Bradesco por tantos benefícios que tem me concedido. ENSINO NA ZONA RURAL Nós procuramos, a princípio, trabalhar a valorização do profissional, porque antes os professores da zona rural – que o município é muito grande, tem muitas escolas rurais, eram 16 escolas rurais na minha época – o salário do professor era, alguns me parece que era pela cara, 130, 167; enquanto que o professor da cidade, era 335. Então a primeira coisa que nós fizemos foi equiparar o salário do professor da zona rural com o urbano. Porque não tinha porque um professor receber cento e pouco, o outro receber 335. Então equiparamos o salário. Depois, trabalhamos em função do plano de carreira, que é a valorização que o professor precisa, enquadrando cada um; muitos professores já tinham terminado a faculdade, continuavam recebendo lá seus 335. Outros já tinham terminado a pós-graduação, a mesma coisa. O outro que só tinha Magistério, recebia... Então fizemos um plano muito bem elaborado, com a valorização do professor e de acordo com o nível, com progressão vertical, horizontal. Onde hoje tem professor que está com 10 anos, ele tem um vencimento; se ele está com 5, é outro; se ele tem 15, é diferente. Então que recebia 335, o mínimo hoje é 450. Reduzimos a carga horária – era de 24, nós reduzimos para 16 em sala e 4 de hora-atividade. Então o professor que tem nível superior, é na faixa de 650, se ele está iniciante - porque isso varia, de acordo com a progressão vertical -; um pós-graduado é novecentos, mil e pouco, chega até a mil e trezentos reais. Então para você ver a diferença, de cento e pouco para mil e poucos reais. Então graças ao trabalho sério, comprovado; o atual prefeito tentou derrubar isso, mas não conseguiu, porque era uma coisa muito bem elaborada, de acordo com a lei. Então não achou como mudar essa realidade. Trabalhamos também em função do Plano Municipal de Educação – pouco municípios no Brasil têm seu Plano Municipal de Educação. E essas visitas em Brasília, junto com Cristovão Buarque, com Tarso Genro, era tudo na tentativa de conhecer e fazer o melhor para o município. Então eu buscava e tentava implantar de acordo com a nossa realidade. Então poucos municípios no Brasil têm um Plano Municipal de Educação elaborado. E eu tive o privilégio de desenvolver esse trabalho no nosso município, deixamos o plano montado; a gente lamenta por não estar sendo seguido, não estar sendo valorizado, mas pelo menos todo mundo tem o conhecimento de que foi feito o máximo em termo disso, da valorização do aluno, de implantar essa questão da disciplina, da vivência mesmo. De não se permitir que se grite com aluno, que trate bem, que respeite; mudamos a vivência dentro da escola. Isso foi mudado. Hoje é um clima de harmonia, de alegria, de todo mundo entender que eu sou professor porque existe aluno; então o meu produto, o meu cliente, é o aluno. Eu tenho que respeitar, eu tenho que valorizar, tenho que amá-lo em primeiro; porque se eu tenho um salário, que é o que supre as minhas necessidades, é porque eu tenho um aluno. Então eu tenho que fazer o melhor por esse aluno, procurar fazer o melhor por ele. Enfim, nós implantamos a metodologia da Escola Ativa nas escolas rurais, uma metodologia que permite ao aluno passar até um mês ajudando o pai na fazenda, no assentamento, colhendo; e depois ele volta, sem prejuízos. O transporte escolar não existia em nenhuma escola dessas rurais; hoje, praticamente todas – na época, foram implantados, então são atendidos. O aluno mora distante, de quinta a oitava, não tem professor, então ele vem para cidade fazer. Então nós criamos assim, um sistema diferenciado do que existia antes. Implantamos a Escola Ativa nas escolas rurais e o transporte escolar. Implantamos também a parte cultural - no município, não havia nenhum evento que resgatasse, que valorizasse a cultura do município, um município de 43 anos, 44 anos vai completar esse ano. Então dentro da Secretaria de Cultura, nós implantamos essas feiras, que era o momento da culminância de todo um trabalho de resgate histórico-cultural, e lá inclusive tem um centro cultural enorme, com várias salas, onde implantamos aula de violão, capoeira, artes plásticas, dança, informática. Eu fui tão audaciosa, que eu implantei informática de quinta a oitava série com um laboratório com cinco computadores – e conseguimos atender todos os alunos de quinta a oitava série, inclusive na zona rural. Fomos na Lagoa da Onça, levamos os computadores e cumprimos a carga horária lá com os alunos; era uma festa quando chegava o computador lá na escola. Na Cobrape, que é mais distante ainda – quase 90 quilômetros – a gente levava o professor com os computadores e implantamos. E hoje isso dá uma tristeza na gente, ver que tudo isso acabou, foi tirado, foi cortado. Dentro da parte de cultura, tivemos a professora Marinês, que inclusive saiu aqui da escola e foi para lá, trabalhar comigo: “Então, Marinês, eu quero que você faça um resgate dos pioneiros da cidade.”. Foi um trabalho fantástico; pena que não tivemos o privilégio de concluir. Quando o trabalho estava lá pelo meio, foi interrompido por cessar o nosso mandato. Mas é uma coisa que ficou na minha mente, fiquei apaixonada por isso. Porque é importante valorizar as pessoas que construíram a cidade, que contribuíram com seus costumes, enfim. Mas eu tenho fé em Deus que a gente ainda vai poder continuar esse trabalho, valorizar as pessoas que estão no nosso município. É um trabalho de formiguinha; é aos poucos que a gente vai construindo, a história não se faz da noite para o dia – vocês são prova disso, que estão aqui, fazendo história. Mas foi uma trajetória muito boa, eu considero um doutorado na minha vida, o quanto que eu aprendi, o quanto que eu busquei. Inclusive implantamos o Conselho Municipal de Educação. Então foram três feitos que deixou a educação organizada, implantada e funcionando: o Plano de Carreira, o Plano Municipal de Educação e o Conselho Municipal. O primeiro ato do prefeito, quando entrou, foi derrubar o Conselho – não entendendo ele que o Conselho iria simplesmente fazer com que as políticas educacionais fossem implantadas e seguidas a risca, da melhor maneira possível para o município, contemplando a educação infantil, o ensino fundamental e, posteriormente, o ensino superior. Mas está na história, está registrado, está documentado, isso é que é importante, porque futuramente tudo isso pode ser aproveitado e continuar um trabalho que deu muito trabalho, mas que também muitas alegrias. E no final de 2004, quando estava encerrando esse pleito, nós concorremos ao prêmio de Qualidade de Educação Infantil - um prêmio nacional - em cada estado brasileiro, foram selecionados cinco projetos; dos cinco projetos, quatro foram de Formoso do Araguaia, das escolas municipais. Então isso foi uma alegria muito grande, porque eu a frente, lutando, vamos fazer, vamos documentar, vamos enviar. E dos cinco, quatro foram de Formoso; dentro desses cinco, um era o estadual, então nós conseguimos o projeto “Brincando com o Vovô”. Daí que fomos para Brasília, no mês de outubro, receber a premiação do Ministro Tarso Genro. Então coroamos um trabalho com um prêmio, de nível nacional, que foi muito gratificante para mim, como professora, como educadora, e para o município de Formoso do Araguaia. FAMÍLIA O Jodivan sempre se dedicou a política. Ele foi candidato já por quatro vezes – não ganhou na primeira, ele ficou como suplente; e depois ele conseguiu, três mandatos consecutivos. Nós demoramos um pouco a ter filhos; a gente já estava com quase quatro anos de casado quando tivemos a Giovana. E enquanto eu estava trabalhando na escola Coopejava, a Giovana lá junto comigo, o Jodivan Junior. Então quando eu fui para a Secretaria, essas crianças sentiram muito: “Mãe, volta para a escola. Vem ser diretora da escola”. Mas aí não podia, então eles tiveram que se contentar com o pouco, a vida corrida, muitas viagens. Mas, graças a Deus, eu procuro, o pouco tempo que eu tenho com eles, é um tempo de qualidade. Porque, a princípio, eu percebi que eu chegava em casa e começava a dar bronca: “Porque que esse calçado está fora, por isso, por aquilo...”. Depois eu falei: “Sabe que isso não é importante? O importante é eu aproveitar”. Então eu chego em casa, eu deitava, rolava em cima dos meninos e brincava, corria atrás – mesmo cansada. Mas sempre procuro dar o melhor, desse pouco tempo que eu tenho com os meus filhos, dar atenção, dar o carinho, dar a bronca na hora necessária. E são crianças saudáveis, graças a Deus a Giovana já vai fazer a sexta série, o Junior vai fazer a quarta. E estão se desenvolvendo. Gostam de esportes – a Giovana faz karatê, faz natação; todos os dois já fizeram informática. E vão passando o tempo. ÁREA DE EDUCAÇÃO A educação é algo que a gente, na trajetória, descobre que muitas pessoas não deveriam estar nessa área, porque não fazem o que gostam; estão ali simplesmente porque não tiveram outra opção. Mas tem muitos que, porque não tiveram outra opção, mas que chegam lá e se encontram – foi o que aconteceu comigo. Eu não queria essa área de educação, mas depois eu vi que era ali mesmo; que a minha missão era na educação. Então eu sou feliz com o que eu faço. Por onde eu passo, eu gosto de deixar algo ali, uma sementinha. Acho que foi nessa trajetória na Secretaria, onde os professores mais tiveram formação continuada, capacitações, trazia gente de Palmas [TO], de Goiânia, de Belo Horizonte [MG], para trazer algo diferente. E sempre pessoas muito abençoadas; eu me sinto muito privilegiada por Deus, pela minha história de vida e pelas oportunidades que eu já tive. De conviver com pessoas fantásticas, que gostam de ajudar, que gostam de colaborar. E sempre procurei passar isso para as pessoas; tanto que, como eu disse, eu trouxe a equipe aqui, na Fundação, para mostrar que é possível as pessoas agirem diferente, serem diferentes, quando elas querem. E sempre faço questão de conversar com os pais dos alunos, como professora, como secretária, como diretora. Eu sempre digo: “Valorizem os professores dos filhos de vocês”. E para os professores: “Valorizem os alunos de vocês, porque o futuro deles depende da gente”. Aquilo que eu trabalho com ele dentro da sala de aula, vai ser o diferencial na vida dele, vai fazer a diferença na vida dele se eu tiver a preocupação de passar coisas boas para o meu aluno. Não só passar o conteúdo, o conhecimento, porque informação você adquire em qualquer lugar; a informação está aí, nos jornais, revistas, computadores. Mas a vivência, a experiência de vida, a gente, com uma palavrinha, consegue passar muita cosia. DESAFIOS Na época que assumi a Secretaria, achei um ciclo muito vicioso, de que se morresse a cachorra da madame não tinha aula; se acontecesse qualquer coisa anormal na cidade, era motivo para não ter aula – todos os alunos voltavam para casa com os livrinhos de baixo do braço. E eu mudei essa realidade, mostrando que o calendário era importante e os alunos dependiam daquilo, de ser cumprido, de ser valorizado o tempo da criança na escola. Então se faltava o professor, o aluno não ia embora; nós teríamos alguém, que iria receber para dar aula para aquele aluno ali. Então isso mudou na mente dos professores. E isso foi muito difícil, foi um desafio enorme, porque tudo que é novo gera uma certa insatisfação. Mas depois foi muito positivo, porque os pais é que me agradeciam, dizendo: “Nossa, mas agora está bom. Meu filho não perde aula, meu filho está sempre tendo aula”. Então se falta alguém, mas a gente sempre procurava ter alguém disponível, ou um outro, de outro horário, para vir e trabalhar com qualidade – não era só o aluno ficar na escola. Então isso gerou, mas a princípio. Depois, todo mundo entendeu e foi muito... Foi um desafio. FUNDAÇÃO BRADESCO Levei tudo que aprendi na Fundação para a minha carreira. Porque quando eu cheguei lá, a primeira coisa, a primeira série – passei três anos consecutivos na primeira série. Então eu tinha aquela preocupação tão grande de que meus alunos teriam que aprender ler – porque, naquela época, entrava na primeira série sem saber de nada; não sabia nem pegar no lápis. E minha diz que, de noite, eu ficava: “Lê, Fulano...” – eu falava o nome dos alunos – “...Lê, Fulano. Ba,be,bi,bo,bu...”. Dormindo E eu ficava muito feliz, porque quando dava meio de setembro, todos os meus alunos já estavam lendo, já estavam alfabetizados. Então isso dava muita alegria E graças a aquilo que eu aprendi aqui; o Magistério bem feito que eu fiz aqui serviu para toda a minha etapa. FAMÍLIA Eu sempre tinha comigo aquela coisa de que eu precisava ajudar meus pais – tanto que, quando eu estava na quinta série, eu ensinei meu pai assinar o nome dele, porque eu morria de dó de ver ele colocar o dedão em toda coisa. E, na época, ele era guarda; quando ele mudou para a cidade, ele foi ser guarda da Cibrazen, que é uma empresa federal. E ele continuava com o dedão. Aí eu convenci meu pai que ele precisava aprender a fazer o nome. E ele aprendeu a fazer o nomezinho dele; eu fiquei muito feliz quando eu vi que ele não colocava mais o dedão. E aquela vontade enorme de ajudar a minha família, em todos os aspectos, porque até a questão da moradia era muito precária onde nós morávamos. O doutor Armando até nisso nos ajudou – ele que foi o patrão do meu pai: ele conseguiu um lote para nós, mas muito distante do centro da cidade, bem isolado. E lá meu pai fez um barracão – e eu não queria mudar para lá, porque era muito longe. Minha mãe: “Não pode fazer, que nós vamos”. Chegava lá, tudo muito limpinho, mas eu não gostava de morar naquilo, porque morava aqui em casas boas, alojamentos bons. Então eu tinha aquela vontade enorme de ajudar meus pais a terem uma casa própria, de ter uma condição melhor. E com isso, com os meus primeiros salários, muito pouco, mas nós conseguimos fazer a casa, juntava com o do meu pai – isso nos dois anos, porque logo dois anos depois, eu fui para a faculdade. Então o que eu ganhava, dava para pagar a faculdade somente. Mas voltar para os meus pais foi muito, nesse sentido de ajudá-los. E até hoje, eu sou assim, o esteio da minha família, praticamente – de ajudar um, de ajudar o outro. E fazer o que for possível para ajudá-los. PROJETO DO VOVÔ Esse projeto foi da Escola Municipal Dom Alano. A professora Núbia, junto com a equipe da Secretaria, elaborou esse projeto onde o objetivo do projeto era resgatar as brincadeiras antigas dentro da escola. Porque a criança de hoje os brinquedos são bem mais modernos. Então convidava os avôs das crianças, através dos pais, trazia os avôs para confeccionarem brinquedos antigos, brincar com as crianças, conversar. As crianças faziam visitas até as casas dos idosos. E foi um projeto que, na verdade, não teve só esse cunho da brincadeira; ele também valorizou muito o idoso, de trazê-los para a escola, fazer confraternizações, festas. Então isso foi muito positivo. E os projetos que foram premiados nesse ano, todos tinham esse cunho de extrapolar os muros da escola, de sair das quatro paredes. Porque o aprendizado de gerações diferentes é muito bacana. Então com fotos, nós evidenciamos tudo o que aconteceu no decorrer do projeto. E, graças a Deus, foi o vencedor por isso, por buscar esse resgate e trabalhar a história do município. A vinda da Fundação, no município e no estado do Tocantins, no Brasil onde você chega hoje tem um aluno da Fundação, é muito positivo isso. Porque sem essa escola aqui, com certeza, o nível dos profissionais que hoje estão no mercado de trabalho, seria bem diferente. FUNDAÇÃO BRADESCO/ IMPORTÂNCIA HISTÓRICA É uma educação diferente. Prova disso é a convivência, a disciplina que um aluno da Fundação Bradesco tem. Da mesma forma que um aluno do sistema militar tem um diferencial, o aluno da Fundação Bradesco tem um diferencial também. Em termos do compromisso, da competência desse aluno, da disciplina, a organização é outra. Então, no Brasil não é diferente; a forma de organização do Bradesco, em todos os cantos, a gente percebe que é muito levada a sério. E isso que faz a diferença. Eu acredito que para vida da Fundação Bradesco, o exemplo de vida de Amador Aguiar, a vontade dele, os objetivos dele, vão permanecer nessa instituição por muitos e muitos anos. AVALIAÇÃO/PROJETO MEMÓRIA Se torna uma história mais verdadeira, o mais real possível. Porque quando você busca a memória das pessoas, dos fatos, isso se torna mais real, mais fascinante e mais interessante. Então eu acredito que vai ser um trabalho que a Fundação Bradesco vai ter a alegria de estar produzindo, distribuindo para o Brasil inteiro a sua história dessa forma, contada pelas pessoas que fizeram parte dessa vida. Porque ela está na vida de muitas pessoas. E com certeza vai ser uma história muito gratificante, porque cada um vai contribuir com algo proveitoso. AVALIAÇÃO / ENTREVISTA É bacana voltar ao passado, reviver a história de vida da gente. Começou ontem a noite, quando a Damaris disse: “Você já pegou muita coisa?”. Eu falei: “Já, já peguei alguma coisa...”. Mas na verdade, eu tinha acabado de colocar o baú de fotos na minha frente, na sala de TV. E aí eu comecei – eu fui terminar era quase 11 horas da noite, olhando tantas e tantas coisas. E ali a gente já vai revivendo esses momentos aqui, vendo a formatura. Inclusive eu vim, uma época, para ser madrinha de um aluno. E o ano passado também, eu vim no final do ano, agora em dezembro, para ser madrinha de um aluno e o Jodivan, padrinho de uma aluna. Então isso é muito gratificante para gente, reviver esses momentos, lembrar da vivência aqui, da história. E inclusive, sempre que a gente se encontra com aluno da Fundação, funcionário, tem histórias que você morre de rir. É muito gostoso. Quando se encontra dois, três alunos da Fundação Bradesco, só quem é aluno do Bradesco para saber a emoção, a alegria de compartilhar essa cumplicidade nossa, os apelidos, as brincadeiras – são tantos e tantos apelidos. As brincadeiras, as coisas que a gente aprontava. Eu lembro que, uma vez, fomos roubar um queijo – sem nenhuma necessidade de pegar esse queijo... Então tudo isso é muito gostoso de ser lembrado na vida da gente, a nossa infância, juventude, a formação. Tudo é muito bacana. PROFESSOR ÉLCIO A nossa convivência já foi como profissional; já foi através das visitas aqui, através das parcerias. Mas foi uma pessoa que teve uma importância enorme na vida da escola e na minha vida também, pelo fato de ter sido, na época dele, que houve essas parcerias, de me ajudar, de tentar estar presente em todas as convocações que nós fazíamos lá na sede do município. Ele sempre disposto a ajudar, colaborar. Ele inclusive disse para mim, numa dessas feiras lá e nas palavras dele, ele disse, para comunidade inteira, que eu era uma das indicadas para qualquer cargo hoje na Fundação Bradesco. Eu fiquei muito feliz, muito emocionada, muito agradecida, a Deus e a ele, por reconhecer que a gente viveu aqui, saiu e deu conta do recado.

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