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História

Depoimento de Ricardo Rehder Garcia de Figueiredo

História de: Ricardo Rehder Garcia de Figueiredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/12/2008

História completa

IDENTIFICAÇÃO Eu sou Ricardo Rehder Garcia de Figueiredo, nascido dia 19 de Dezembro de 1968 em Mococa, interior de São Paulo. FAMÍLIA Meu avô paterno, José Garcia de Figueiredo, era fazendeiro, tinha propriedades rurais em Mococa, sempre mexeu com terra tanto ele como o meu pai e eu também a gente acabou convivendo nesse meio. Minha avó, Maria Conceição Mourão Figueiredo, era do lar e tinha um dom muito legal, minha vó, ela que cuidava das finanças do meu vô, então isso era uma coisa que acho que marcou bastante a gente. Meus avós maternos é Inácio Rehder, ele era alemão, e minha avó Emília Castanheira Rehder. Do lado da minha mãe meu avô era cirurgião dentista, e minha avó era professora. Nós somos em cinco irmãos em casa, dos cinco irmãos eu tenho um veterinário, o irmão mais velho é veterinário, o irmão abaixo do mais velho, o Fernando, ele é capataz, é administrador de fazendas. Aí eu tenho uma irmã que é enfermeira padrão, depois vem eu sou veterinário, o meu irmão mais novo que é agrônomo. INFÂNCIA Eu vivi até oito anos de idade numa fazenda, Fazenda Cachoeirinha, que era interior de Mococa já dentro do estado de Minas Gerais. Então assim, a minha vida nessa primeira infância foi muito simples de meio rural, que eu acho que isso trouxe muito, muito embasamento, muitas conquistas pra minha vida. Esse meio rural pra mim ajudou muito a minha formação como pessoa e como profissional. Então, até oito anos de idade morei nessa fazenda, com meus pais e era uma convivência muito boa com animais e com os primos que iam pra lá. Depois disso morei, fui morar na cidade, a questão do estudo, conviver na cidade. A casa da fazenda era uma casa muito, assim, rústica mas uma casa bem gostosa, confortável, tinham quintais, pomares, uma coisa bem de fazenda mesmo bem gostosa. Era rural nós estávamos a seis quilômetros da cidade. ROTINA DE INFÂNCIA Bom, o que mais me lembro da minha infância até na primeira, na segunda série, se eu não me engano, eu morava lá ainda. Eu tinha muito o negócio de fugir, me esconder da minha mãe pra não ir pra escola, porque eu não queria ir pra escola eu queria ficar cuidando dos animais. Então, quando eu tava na educação infantil e no pré eu me escondia embaixo da cama que eu queria ficar na fazendo trabalhando. E minha mãe era uma briga muito grande com o meu pai que meu pai era dentista e não exercia a profissão de dentista, trabalhava na fazenda e minha mãe professora e queria porque queria que eu fosse pra escola. E eu sempre relutei muito, não porque eu não gostava de estudar mas pra mim o meio rural, os animais, as pessoas do meio rural eram muito mais importantes pra mim. É claro que depois na primeira, na segunda série a gente foi pegando o gosto e aí a gente não tem como. Mas era um meio muito simples, muito saudável, que eu tinha as crianças também dos próprios lavradores da fazenda eram meus amigos, meus irmãos também sempre convivíamos junto. Era muita liberdade, claro que com restrições, com precauções, meu pai era muito austero com isso, a minha mãe também. Mas eu tinha as questões, a molecagem de adiantar horário pra andar na tulha de café e aí ia. Era muito bom, muito bom, uma infância muito rica eu tive, graças a Deus. Dormir cedo pra acordar cedo. Adorava acompanhar a ordenha de manhã, adorava mexer com vaca, e isso eu tô conseguindo passar para os meus filhos. Que eu morei em Bodoquenha que é outra escola internato da Fundação Bradesco que é uma escola fazenda, lá conheci a minha esposa, me casei, lá tive os meus dois filhos. Agora eu tô em Canuanã que também é uma escola fazenda meio rural, e acho que era um grande sonho meu que era conciliar isso daí a questão da escola, com a questão do meio rural que eu tinha conflito, não queria ir pra escola na cidade mas queria ficar, entendeu? Então, eu tô conseguindo fazer isso com os meus filhos, é uma escola de alto padrão ainda com uma vivência de meio rural. E isso eu acho que é uma das coisas mais importantes pra mim hoje. Eu costumo falar, assim, que não é salário, não é emprego nada, mas o que eu tô proporcionando pros meus filhos. Isso é o que vale. BRINCADEIRAS FAVORITAS A tulha era um local onde se avolumava água, pra deixar o café inchar e depois tirar o caroço. E ali era tipo uma piscina de concreto, que a gente tinha água da cachoeira que descia, água corrente mesmo a gente só fechava aquela tulha com tábuas e ali era nossa piscina, então, na fazenda não tinha outra piscina era aquela ali. Então, essa era uma das brincadeiras mais preferidas. Que a minha mãe falava: “às três horas vão nadar, vocês podem ir nadar às três horas”, o meu irmão mais velho ia lá adiantava o relógio pra, tipo era uma e meia ele já colocava três e a gente ia nadar. Brincar de fazendinha, brincava de fazendinha, o que que era? Os nossos bois eram manga verde com palitinho, o curral de barbante com madeira, que eu acho que é uma coisa que as crianças perderam muito hoje essa questão de brinquedo de plástico, eu acho que é legal e tudo, mas você perde a criatividade. Então, naquela época não tinha e a gente tinha que usar a criatividade, brincávamos muito, e era uma coisa muito enriquecedora, uma coisa muito gratificante. É de pique - esconde que eu acho que até hoje as crianças brincam, subir nas jabuticabeiras pra chupar fruta, derrubar manga. São brincadeiras assim que eu acho que ficam perpetuadas nas gerações em gerações. A lembrança mais marcante realmente eram os momentos assim, com o meu pai com a minha mãe, com os meus irmãos, dentro dessa convivência rural. Então assim, o contato com as pessoas humildes, com as pessoas sem escola, sem escolaridade mas com uma vivência de vida, com uma riqueza de vida muito grande. Então assim, uma época que me marcou muito também era a época junina, das festas juninas, então a minha mãe que tocava sanfona, então, tinha festa junina em praticamente todas as casas dos colonos, então, a gente obrigatoriamente nós íamos nessas festas, e tinha na nossa casa também daí todos vinham a nossa casa. Então, eram lembranças muito gostosas, assim, de andar a noite na fazenda, minha mãe morrendo de medo de cobra, apesar de estar na fazenda há muito tempo mas ainda tinha e aí meu pai brigava com ela: “mulher, larga mão de ser fresca, onde já se viu não tem cobra aqui”, isso me marcou muito assim. E aí íamos a essas festa e aí aquelas festa juninas típicas do interior de São Paulo que era muito boa. As mangas, na época de manga, era uma coisa muito legal também porque tinham mangueiras longe de casa, então, a gente ia pegar essas mangas escondidos do meu pai. Tinha uma cachoeira que a gente ia pescar nessa cachoeira, era proibido mas a gente ia pra pescar mandi, pegava peixinho assim, era no fundo do pomar de casa, então quer dizer, dava desculpa que ia chupar frutas mas se ia pescar, as varas escondidas no mato, tava tudo armadinho, meu irmão mais velho. Porque era perigosa a cachoeira, era uma cachoeira de uns seis metros. Então, eram coisas, assim, que marcou muito assim a gente. E hoje a gente fala pro filho: “é proibido” mas a gente sabe que lá no fundinho eles vão tentar fazer. Então, é uma coisa que a gente sabe que marca muito a vida da gente. CIDADE/MOCOCA Mococa sempre foi uma cidade muito calma, muito calma, de pessoas, assim, de bons relacionamentos, nós tínhamos um relacionamento bom com as pessoas e Mococa tinha uma outra coisa que me marcou muito, inclusive agora nessa minha ida pra Mococa eu sempre vou na praça principal de Mococa, que a nossa brincadeira na época de criança nos finais de semana era ir pra praça. E a praça era o point onde as pessoas realmente se agrupavam, diferente de hoje, hoje são os barzinhos. E na praça era muito bom, eu juntava com dois ou três amigos meus e cada um levava o seu cachorrinho, Fox Paulistinha e nossa brincadeira era atiçar o cachorro nas pessoas, até o guarda chegar e a gente correr pra casa. (risos) Então era assim, arte mesmo, arte de moleque. Então, por prego na rua pra furar pneu de carro e aí sentava todo mundo lá na calçada esperando o carro passar, quer dizer, o cara na hora falava, e o primeiro carro a passar foi um tio meu, ele ficou muito bravo com a gente. Então, Mococa era muito isso era praça, era casa da vó, acho que casa da vó é uma coisa que me marcou muito. Era na cidade... As duas vós moravam na cidade. Então, casa de vó é muito aconchego, é muito, tem aquela questão da comida que comida da vó é melhor, não, não é a comida que é melhor é o aconchego, é o cuidado da vó com o neto. A Páscoa na minha vó era uma coisa, assim, formidável, juntava-se todos os netos com ovos de páscoa escondidos por toda casa, e tinha um quintalzão grande, e dava um determinado horário as crianças iam procurar os seus ovos. Então assim, Páscoa também era uma coisa muito gostosa também na minha vó. O Natal na minha vó Emília, na mãe da minha mãe, que o aniversário dela era dia 25 de dezembro, então, todos os Natais eram muito festivos, assim. Meu avô era um alemão sorridente, brincalhão, uma pessoa assim, muito pra cima. Então, eram épocas e datas que me marcaram muito também. ADOLESCÊNCIA Adolescência, na medida do possível, que toda adolescência é problemática, que a gente passa, acho que todos nós passamos de um problema, assim, falta de identidade, falta de e aí vai. Mas foi muito boa também. Eu acho que a adolescência é uma fase importantíssima na vida de um ser humano, e que a pessoa tem que ter muito suporte, muito respaldo, e muita informação. Que eu acho que é um momento crítico que a pessoa tem que saber passar, vai ter os problemas, vai ter os conflitos, mas tem que saber transpô-los. Também foi uma adolescência muito boa nesse convívio de meio rural/urbano, eu tinha muitos amigos, um grupo de cinco, seis, grupo de amigos da mesma faixa etária, então, sempre tava junto, sempre participava das festas juntos, tinha as meninas da mesma série na escola. Foi uma adolescência também bem tranqüila também. Muito boa. Eu fiquei em Mococa até os meus 17 anos quando eu passei na faculdade e fui estudar em Alfenas, Minas Gerais. Então, até 17 anos eu vivi em Mococa. FORMAÇÃO Eu fazia já a educação infantil na época. A pré-escola na Escola Oscar Vilares no município de Mococa a seis quilômetros. Minha mãe como era professora ela vinha, trazia os filhos, deixava a gente na escola de manhãzinha, e a gente saía da escola, geralmente tava eu e minha irmã que é a mais velha que eu, a gente saía da escola e íamos pra casa do meu avô materno, na casa do vô Inácio. Então, a gente chegava na casa do meu avô ele e a vó já tinham almoçado, então ficava o nosso pratinho lá feito e isso é outra coisa que me marcou também. Eu lembro que meu avô fazia questão de por todo o tipo de comida que tinha no almoço ele colocava nos nossos pratos, tanto pra mim como pra minha irmã. E minha avó sempre foi, assim, muito materna mesmo, muito protetora, meu avô sempre foi muito bravo, e ele ficava do lado esperando a gente comer abobrinha, berinjela, beterraba e ai de quem não comesse. Detestasse ou não você tinha que comer, e a minha vó sempre: “Inácio, não faça isso com os meninos” Eu lembro que a gente comia primeiro, eu pelo menos comia primeiro a abobrinha pegava tudo num garfo só e pum (risos) Engolia porque eu não dava conta, odiava, e depois comia com calma as outras coisas. Mas ele era muito bravo, né? Então, a nossa vida era essa. A gente trazia o lanchinho pra escola, ficava até as 11 e meia na aula, íamos pra casa do meu avô, almoçávamos lá e no final da tarde o meu pai vinha resolver algum problema da fazenda na cidade e levava a gente de volta pra fazenda. Então assim, essa questão de passar o dia na cidade que às vezes me fazia ficar na fazenda, entendeu, porque eu queria participar das coisas da fazenda. Tinha que ficar o dia todo fora. O Colégio Oscar Vilares, é um colégio municipal, muito boa escola. Na época as escolas municipais e estaduais eram realmente as melhores escolas dos municípios. Então assim, eram escolas organizadas, com disciplina, que tinha realmente respeito tanto dos alunos para os professores e funcionários, como os funcionários e professores para os alunos. Então assim, eu aprendi muito nessa escola. E na época teve ainda, na minha sexta, sétima série teve um pouquinho de inconstância na escola e começou a mudar muitos colegas meus pra outra escola também estadual, que era a Barão e eu não quis mudar, falei: “não eu quero ficar no Oscar Vilares porque eu acho que estou aqui desde o pré, então eu quero ficar aqui”. Fiquei até a minha oitava série nesse colégio, e não me arrependo de maneira nenhuma, acho que tive uma formação muito boa nesse sentido. Aí no meu ensino médio, na época era o colegial, como meu pai apesar de ser fazendeiro e nós tínhamos problemas financeiros, acho que como a grande maioria das famílias naquela época. E tinha uma escola estadual, uma escola profissionalizante que dava o curso técnico em eletrônica e técnico em eletrotécnica e eu não tinha aptidão nenhuma pra isso, nunca tive. Mas como o meu pai tava numa situação difícil e a minha mãe: “Ricardo, vamos tentar quem sabe você não gosta o ensino médio é concomitante.” Eu não quis fazer muita questão falei, “eu vou”, né? Falei: “vou, faço o primeiro ano e vejo exatamente o que é da minha praia, o que eu gosto ou não”. Entrei, fiz o primeiro ano, acho que foi muito bom pra mim, foi muito importante pra mim, mas eu vi que realmente não era o que eu queria. Na João de Paula – agora eu não me lembro – escola profissionalizante e técnico eletrônico e eletrotécnica em Mococa também. Chamava-se eletrotécnica, daí eu fiz o primeiro também porque vários colegas meus também foram pra lá. Aí fiz esse primeiro ano lá, mas eu resolvi sair, aí que eu passei a ir pra um colégio particular, na época era a escola Gama. Aí fiz meu segundo e terceiro ano em colégio particular pra me preparar pro vestibular no final do terceiro ano. Geralmente as aulas eram de manhã, e a tarde tinha alguma coisa prática, alguma coisa de aprendizado prático. Mas era turno o dia todo, o dia todo. LEMBRANÇA MARCANTE A minha professora de primeira séria, Dona Maria Helena uma pessoa, assim, que eu tenho um apreço muito grande por ela, apesar de não ter contato mais, mas é uma pessoa assim, acho que todo professor de primeira série marca muito a vida de uma pessoa, por isso que eu acho que a gente tem que ter um foco muito forte nas primeiras séries. Porque eu acho que a primeira série é meio que você corta realmente seu cordão umbilical com a família, você começa uma outra etapa da tua vida. E a Dona Maria Helena sempre foi cuidadosa nesse sentido e é uma pessoa que me marcou bastante. Outro professor que me marcou muito também, o professor de sétima série de língua portuguesa, o professor Tiago, um professor muito bravo, muito austero assim, mas exigente e eu acho que isso também me ajudou muito com relação a minha formação a essa questão com a língua portuguesa que eu acho que é um dos pontos em que a sociedade está se perdendo e perdendo a cada dia mais, né? A gente tá deixando de lado a língua portuguesa e partindo pra outras coisas que eu acho que não é legal. E eu tenho uma formação boa nesse sentido e procuro melhorar a cada dia muito nesse sentido, e eu acho que é devido a ele, professor Tiago, a professora Rosa Barizon também que era de português. E aí depois no ensino médio aí tem os professores que vinham do cursinho de Ribeirão Preto pra dar aula pra gente, então, tinha o professor Edmundo que dava biologia. Tinha o professor de química também, o professor Eduardo de química era uma pessoa maravilhosa. São pessoas que me ajudaram também na minha formação profissional e pessoal também. Sempre foi bom, o desempenho na escola sempre foi bom. Eu lembro que a primeira nota baixa que eu tirei foi na sétima série até fiz um edital num jornal lá de Canuanã esse ano falando sobre os professores, e a importância de um professor na vida da gente. Eu lembro que tinha um colega meu de turma, o Gaspar, que ele era muito “CDF”, o Gaspar, e eu nunca fui de “CDF” eu sempre estudei o necessário, assim, mas sempre tive facilidade em guardar os conteúdos. E o Gaspar ficava esperando a nota da prova minha pra ele ver a nota dele, pra ver assim: “ó, tirei mais que você” Ele sempre fazia isso. E nessa vez eu tirei “D” numa prova de português e ele tirou “C” ou “B”, não me lembro, e ele acabou comigo, e pra mim aquilo lá foi a morte, não pelo “D” mas pelo Gaspar ficar me... Eu falei, “que cara”. Eu me esforcei mais ainda com o português, com o professor Tiago, porque eu vi realmente que eu não sabia tudo do que eu imaginava, né? Então assim, me marcou muito essa nota baixa no “D” mas depois sempre foi um bom aluno, sempre foi de “B” pra “A”, na época das notas antigas. As notas eram assim, nota “A”, “B”, “C”, “D” e “E”, aí tinha professor que usava “A +”, “A -”, mas sempre fui aluno de nota “B” e “A”. A minha mãe no começo, quando eu comecei a estudar, né, até a pré, até a educação infantil, a minha mãe dava aula nas escolas rurais. Que é uma coisa legal também que me marcou bastante, então às vezes quando ela ficava em casa sem empregada ela levava um de nós junto com ela. E eu já tive várias oportunidades que eu fui com ela nessas escolas rurais que eram aquelas multi seriadas, que era de primeira a quarta série numa sala só, e isso, eu acho que isso me marcou muito também e eu começava a me perguntar um dia quando eu entrei na Fundação eu falei assim: “Ricardo, mas porque essa sua afinidade com educação. Aonde que nasce isso, da onde que vem isso?”. E eu fiz muita relação nesse sentido da minha mãe, que meu pai sempre foi muito zona rural, muito, assim, uma pessoa muito trabalhadora, esforçada, mas era uma pessoa muito dura. Meu pai sempre foi muito assim, apesar de ser assim eu me lembro de ser uma pessoa muito dura aquela questão de zona rural. E meus irmãos também, aquela questão do machismo é uma questão muito forte lá em casa e eu nunca fui isso, eu sempre fui mais sentimental sempre fui mais emotivo e meus irmãos acabavam comigo por causa disso: “Chora a toa” “Você é mole” (risos) E eu começava a voltar pra mim, por que isso? Da onde vem isso? Esse lado sensitivo e eu acho que muito isso da minha mãe dela ser professora, de eu estar indo junto com ela nesses locais. Minha mãe deu aula também numa escola que tinha em Mococa que era pra crianças carentes, chamava Artesanato e era uma escola, assim, que o aluno ia, passava o dia todo na escola e tinha aula normal, e a tarde ele tinha aula de marcenaria, trabalhava na horta da escola, cuidava de animais tipo porco, então, os alunos participam dessas atividades e eu gostava demais de um lugar como esse, eu tinha, assim, uma adoração por isso, eu achava que aquilo ali realmente fazia a pessoa aprender, não só escola, de ir ficar dentro de uma sala quatro horas ali fechada, eu acho que tinha que ter algo mais na escola, e quando a minha mãe começou a trabalhar no Artesanato e eu também ia com ela algumas vezes, eu tinha aí meus sete, nove anos, eu me identifiquei muito a isso e meio que sem querer eu acho que fui construindo isso em mim. Assistia às aulas, ia a horta junto com os alunos. Acho que sem querer eu meio que construí isso, o que eu queria pra mim. E quando eu entrei na Fundação Bradesco, eu vi exatamente o que eu queria, o que o Ricardo queria na vida dele, conciliar essas duas coisas, a escola, a formação que é fundamental pra pessoa como profissional e como pessoa também, mas também o meio rural que eu acho que o homem tá muito mais ligado a terra. Então, eu tinha muita essa vontade de unir isso aí e consegui através da Fundação Bradesco com a escola de Bodoquena, então, isso pra mim foi muito forte também. Então, eu acho que daí surgiu esse lado meu de educador, esse lado terra, esse lado sensibilidade, esse lado coração. Acho que vem tudo nessa mescla aí um pouquinho. O meio rural sem dúvida nenhuma,influenciou a escolher essa carreira, e a minha relação com os animais, eu sempre tive uma relação muito próxima dos animais. Eu tenho uma adoração por vaca de leite, e isso vem do meu pai. E aí eu acho fundamental, acho que é muito rico isso a influência dos pais na formação da criança, não de influenciar, de induzir “oh você faz isso”, não, mas de influenciar do quanto a gente pode ser bom, do quanto a gente faz o que gosta. Tanto o meu pai mostrou isso pra mim e minha mãe mostrou isso pra mim também como professora. Então, eu tinha uma relação muito forte com os animais, com bovino, sempre gostei demais de aves, de suínos, então, veio daí essa minha vontade de ser veterinário. E antes de eu partir realmente pra veterinário eu também tinha uma vontade muito grande de ser médico, mais a questão da pessoa, de poder dar assistência pras pessoas, poder conviver com as pessoas, e mais pelo lado sensitivo meu, esse lado emotivo. Mas daí realmente eu vi que não era medicina veterinária mesmo a minha praia. Quem sabe me aperfeiçoar nessa questão do bovino de leite, na questão de grandes animais, de pequenos também. E aí veio dessa questão da fazenda, questão de produção de viver muito isso, de ter muito isso na pele. Aí eu parti pra veterinária. Com 17 anos fui pra Alfenas. Eu lembro que não foi muito boa a minha saída de Mococa não, porque eu lembro que tinha que fazer Tiro de Guerra, em Mococa era obrigatório cumprir Tiro de Guerra. E meu pai sacaneou um pouquinho comigo nisso daí, porque ele chegou assim: “Ricardo, pra você ir fazer universidade o ano que vem, você tem que antecipar o seu Tiro de Guerra”, porque se você deixar pra fazer o seu Tiro de Guerra ia coincidir com o meu primeiro ano de faculdade, os meus 18 anos que eu tinha que fazer Tiro de Guerra, então, meu pai falou assim: “se você entrar na faculdade você não vai poder fazer, você vai ter que fazer o seu Tiro de Guerra”. Só que meu pai esqueceu de falar um detalhinho: se eu entrasse na faculdade eu era liberado do Tiro de Guerra, né? (risos) Então, eu acho que ele sacaneou comigo nisso daí. Daí ele falou: “Então, Ricardo, você faz o seguinte: se apresente como voluntário, com 16 anos pra você prestar o Tiro de Guerra com 17, daí você vai prestar o teu Tiro de Guerra no terceiro ano.” Eu estava me formando. “Daí você está aqui em Mococa, aqui com a gente fica mais fácil”, né? E o bestão entrou nessa “vamos lá”, né? E assim, com uma esperança enorme de ser liberado porque eu não queria fazer Tiro de Guerra, não queria porque eu achava que era uma coisa de macho, aquela coisa de brutão, que não era o que eu queria, não era a minha praia. Daí eu falei assim: “não quero fazer”. Daí falei: “não tudo bem, tem uma lógica nisso daí, vai ser muito pior eu fazer Tiro de Guerra numa faculdade junto com pessoas que eu não conheço”. Vamos lá, me apresentei como voluntário e batata Voluntário não é dispensado de maneira nenhuma, se eu tô como voluntário como que eu vou ser dispensado? Fiz o Tiro de Guerra em, eu entrei em 86, acho que fiz o Tiro de Guerra. E a minha formatura aconteceu no mesmo ano. Então, eu fiz o ano todo dez meses de Tiro de Guerra no final do ano me formei no ensino médio. Teve festa normal. Aí prestei vestibular no final do ano também e entrei. Tudo junto. Vestibular, formatura do ensino médio e Tiro de Guerra. Mas hoje eu falo que o Tiro de Guerra foi muito importante pra minha vida, foi fundamental. Porque eu também tinha que cortar um pouquinho o cordão umbilical com a família, e o Tiro de Guerra faz muito isso. Você começa a ter convivência com mais isoladamente com grupos de amigos da mesma idade. Nessa época eu comecei a beber, que eu não bebia, que eu era muito certinho, acho que até os meus 16 anos eu era muito reto, assim, eu não precisava ser tanto. Então, nessa época, por exemplo, ia pras boates com o Tiro, o batalhão inteiro nessas boates, e assim, um bebia whisky, o outro bebia Campari, outro cerveja e quem encontrava um com o outro, bebe, né? Não é que eu virei um alcoólatra, de maneira nenhuma, mas eu quebrei muito isso, entendeu? Então, eu acho que foi legal, foi bom pra mim isso, foi um preparativo pra eu sair de Mococa realmente e ir pra Alfenas, no ano seguinte. Aí no final do ano prestei vestibular e passei na universidade em nono lugar, e aí quando os amigos do meu pai descobriram que eu passei em nono lugar na Universidade de Alfenas, todo mundo ficou desesperado: “Carlos, Carlos, esse menino passa na federal, põe ele pra prestar na federal, o fazele fazer federal”, e eu não queria, eu queria ir pra uma faculdade próxima, mais zona rural. Porque na realidade eles queriam me mandar pra Belo Horizonte pra morar com meu irmão mais velho, e meu irmão mais velho sempre foi a “sarna” na minha vida, terrível o Aluísio, cara Terrível, eu não queria morar com ele. E aí eu acabei passando em Alfenas, prestei FUVEST, medicina, porque eu ainda tinha alguma coisa lá medicina falei: “vou prestar FUVEST medicina, quem sabe eu passo.” Prestei, não passei, fiquei, assim, na... Depois de dez pessoas na lista de chamada e realmente FUVEST é uma coisa complicada, e optei realmente por fazer veterinária em Alfenas. E foi uma visão muito acertada, muito boa. Porque eu convivi com pessoas, assim... Eu entrei numa república que eram de pessoas que estavam se formando, então, eu fiquei só um ano com eles, e pessoas que estão se formando em medicina veterinária numa cidade de Alfenas, rapaz Tudo que eu achava que não ia ter contato eu tive contato nesse meu primeiro ano em Alfenas. De uma vez só, né? Alfenas é uma cidadezinha do interior, na época ainda era praça ainda, por exemplo, final de noites você ia pra praça, você não ia pra boate. Então, as vizinhas, que tinham senhoras, vizinhas nossas que adoravam a nossa república, e a gente foi sempre muito ligado a elas, assim, sempre foi muito carinhoso com elas também. Então, foi uma convivência muito boa. Mas esse primeiro ano em Alfenas foi assim... Aí que eu perdi um pouquinho lá, a minha “calourice” no Tiro de Guerra, em Alfenas então aí que acabou realmente. Aí eu vi realmente o que era o mundo, de viver numa cidade sozinho, ter que conviver com pessoas que tem hábitos de vida diferente do seu. E foi muito legal também. E a faculdade, então, foi muito gratificante, me identifiquei muito ao curso. Ele era fora da cidade, mas tinha como ir a pé e eu gostava muito de andar, ia sempre a pé pra escola. E tinha um colega meu de república, o Márcio, Márcio Pereira Lima, que ele tava um ano e meio na minha frente, e o Márcio sempre foi muito “zueiro”, uma pessoa assim, boníssima, mas “zueira” demais e eu acabei meio que sendo padrinho do Márcio, vamos falar assim. Então, por exemplo, ele tinha dependências que eu tava fazendo e eu sempre ajudei, então, meus cadernos eram os roteiros de estudos dele, então, eu sempre me liguei muito nessa pessoa. Ele de Mococa também, uma pessoa muito amiga minha hoje, e uma pessoa que também me ajudou muito, porque apesar dele ter esse lado “zueiro” era uma pessoa que me entendia muito também. Então, uma pessoa que me ajudou bastante também. E acho que a vivência numa faculdade, acho que os cinco anos de faculdade, é uma vivência não só de universidade mas de vida, e é muito importante para o ser humano e ele me ajudou bastante. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Eu formei em dezembro de 91, minha formatura foi em janeiro de 92. E eu tinha uma coisa na cabeça: que eu queria trabalhar em cooperativa de leite, que eu queria mexer com gado de leite. Antes eu tinha trabalhado na fazenda do meu pai e do meu tio. Então, com o meu tio durante os cinco anos de faculdade eu dava assistência pra ele durante cinco anos. Eu ia pra fazenda, eu trabalhava, eu ajudava. Então, quer dizer, eu já punha em prática o que eu tinha de vivência na faculdade. E com meu pai também. Mas eu punha muito mais em prática minha vivência de fazenda. Então, quer dizer, eu fui sempre, eu era muito chato na fazenda, então por exemplo, na ordenha de leite, ordenha das vacas, os funcionários odiavam que eu estava por perto porque quando eles tiravam a ordenhadeira eu ia lá ver no peito se tinha sobrado leite ou não, e se sobrava eu falava: “ó, faltou leite aqui, tem leite aqui ainda”. E eles ficavam “p” comigo porque às vezes eu falava e eu tinha, 17 anos ainda, e eu falava isso perto do meu pai e meu pai ia lá e chamava a atenção. Porque não podia deixar. Porque era leite que estava-se desperdiçando e poderia trazer problemas pro animal. Então, eu fui sempre muito “cri cri”, muito metódico, assim, era uma pessoa, assim, se é pra fazer vamos fazer bem feito. Então, eu comecei a colocar isso muito em prática até antes de entrar na universidade, e depois que eu entrei numa universidade aí reforçou mais esse meu lado ainda. Então, quando eu me formei já tinha uma vivência prática muito forte, e eu costumo sempre falar: “Eu tive duas universidades na vida: a de vivência no meio rural, que eu aprendi a lidar com pessoas através dessas pessoas mais humildes, e a vivência com os animais. E a vivência da universidade, que eu acho que também é uma formação que não tem outro local pra você viver dessa maneira”. Mas formalmente mesmo eu comecei a trabalhar quando eu entrei na Fundação Bradesco, em junho de 92. Eu me formei em janeiro, e em junho eu comecei a trabalhar na Fundação Bradesco. FUNDAÇÃO BRADESCO Comecei a trabalhar na Fundação Bradesco em junho de 92. A maneira como conheci a Fundação Bradesco é uma história muito boa. Como estava falando, eu queria trabalhar em Mococa numa cooperativa de leite, e surgiu uma vaga numa dessas cooperativas de leite lá em Mococa, hoje no Leite Mococa que se tem hoje, na época, já tinha. Só que fiz a entrevista, eu acho que perdi, não consegui a vaga, isso foi eles que me alegaram, não consegui a vaga porque precisavam que tivesse um carro para poder deslocar nas fazendas e eu não tinha, e quem conseguiu a vaga foi um colega meu de república e colega de faculdade, o Marzinho, e ele tinha carro. E eu fiquei muito magoado com aquilo, muito bravo com aquilo porque recebi um retorno simplesmente num telegrama: “Seu currículo não será aproveitado nesse momento.” Daí liguei lá: “Por quê?” Daí eles falaram: “Ah, você não tem carro”, falei: “Bom”. Depois disso falei: “Sabe de uma coisa, não fico mais em Mococa”. Porque achava que eu poderia contribuir muito com a vivência que tinha em fazenda, o Marzinho não tinha vivência nenhuma em fazenda, não que ele fosse melhor, pior que eu, melhor, não é isso, acho que era o que eu queria, entendeu? Falei: “Bom, eu não fico mais em Mococa” Aí o meu irmão mais velho, o Aluísio, que é a ferida, a casca de ferida da minha vida. Sempre foi desde pequeno, se formou em veterinária, casou-se com uma veterinária em Minas Gerais e se mudou para Campo Grande no Mato Grosso do Sul para trabalhar na Lagoa da Serra que era uma empresa de sêmen, de reprodução bovina. Estava lá um ano e pouquinho e essa esposa dele, a Rosarinha, tinha um conhecido também de Belo Horizonte, que morava em Campo Grande, que ele dava assistência à fazenda Bodoquena que era vizinha da Fundação Bradesco. E ele ficou sabendo que na Bodoquena, na Fundação Bradesco Bodoquena precisaria de um veterinário. Aí esse amigo falou para Rosarinha, a Rosarinha falou para o meu irmão, falou: “Oh, quem sabe o Ricardo não quer?” E eu falei: “Olha, eu vou, vou conhecer, vou ver o que é”. Só que antes da Fundação Bradesco também surgiu outra vaga para ser administrador de uma fazenda em Juty próximo a Dourados também no Mato Grosso do Sul, então, surgiram as duas coisas meio que juntos. Eu fui para Fundação Bradesco, fiz entrevista, na época, o Francisco era o diretor, pessoa muito boa, competentíssima, que também me ajudou muito. E fez essa entrevista comigo, e assim que terminei a entrevista falou: “oh Ricardo, é você que vai ser contratado”. Eu fiquei, “Caramba Por que será? E antes de passar na entrevista com o Francisco, o assistente administrativo fez entrevista comigo, daí ele virou falou assim: “olha, se o diretor te chamar é porque você vai ser o contratado”. E eu fiquei esperando, ele me chamou, no final da entrevista: “não, Ricardo, era você mesmo”. E eu fiquei muito com aquilo: por quê? Aí essa entrevista foi em maio, comecinho de maio. Nesse ínterim até 10 de junho quando fui contratado surgiu esse outro emprego para mim em Juty, e eu fui lá ver essa fazenda. E quando cheguei lá na fazenda, o fazendeiro assustou na hora que me viu, eu fiz uma entrevista inicial em São Paulo, acho que com o filho dele, não sei, quando cheguei na fazenda ele assustou, a mesma reação que vocês tiveram hoje, “nossa, muito novinho”Muito novinho para lidar, para administrar uma fazenda. Daí ele virou para mim, na minha cara, falou: “não, na realidade queria o seu irmão”, na hora que ele falou aquilo eu falei: “pô, eu não vou fazer nem mais força para esse emprego”. E eu estava na fazenda dele e a minha cunhada ligou lá: “Ricardo, saiu o emprego da Fundação Bradesco você tem que estar lá amanhã, se você não tiver lá amanhã você perde a vaga”, o Francisco gostava muito de fazer isso, o Francisco é doido, e eu fiquei desesperado. Ou vem ou tchau e benção. E começou a chover nessa fazenda e a estrada de terra e não tinha como sair dessa fazenda de estrada de terra. Daí chegue e falei assim: “agora te pego danado, você falou que queria meu irmão, agora que vou te dar o troco”. Sentei com esse fazendeiro, Sérgio, acho que Sérgio Prandini daqui de São Paulo. Sentei com ele falei: “olha Seu Sérgio, saiu o emprego para mim na Fundação Bradesco, é a minha opção, é o que quero, então preciso ir para lá é o meu emprego, tenho que estar lá até amanhã” falou: “não, não tem como você ir hoje”, falei “Seu Sérgio, ou o senhor me põe nesse avião, o senhor está aqui, o senhor me leva, o senhor dá um jeito, me leva até onde o primeiro ônibus tiver, eu preciso ir”. E eu já fiquei muito bravo com esse fazendeiro que vim em São Paulo fazer entrevista e ele falou: “não, então está bom, a gente se encontra na fazenda, vou de avião amanhã e aí a gente se encontra na fazenda, daqui três dias você está lá”. Três dias de ônibus. Eu falei: “Pô, porque que não me levou de avião junto Esse cara acabou comigo Não, está bom”Daí deixei ele tão doido, tão doido que ele pôs o motorista dele no caminhãozinho e me levou para pegar o ônibus. Chegou no Juty, o ônibus já tinha passado, perdi o ônibus, falei: “Companheiro, pega esse caminhãozinho e vai atrás desse ônibus até encontrar”. Conseguimos chegar um pouquinho antes de Carapó, ele parou o ônibus entrei no ônibus e fui para Campo Grande. Cheguei em Campo Grande no final da noite, no outro dia era seis horas da manhã, o ônibus para Bodoquena, eu só cheguei na casa do meu irmão, tomei um banho rapidinho, levei “mala e cuia”. Cheguei lá às dez e meia em Bodoquena e comecei o meu trabalho lá em Bodoquena. E em Bodoquena comecei a administrar o setor de pecuário veterinário, tinha 23 anos na época, e que na época tinham alunos muito mais velhos do que eu. TRAJETÓRIA FUNDAÇÃO BRADESCO Lembra do meu primeiro dia. O internato é uma coisa muito forte na vida da gente. A gente chega ao local como internato, que mil pessoas, lá em Bodoquena eram 1.200 pessoas convivendo num ambiente, numa comunidade fechada, que você tem que em uma semana conhecer todo mundo, saber as pessoas que você vai ter que se relacionar, com relação ao trabalho, e são as mesmas pessoas que você vai se relacionar no seu lazer. Então, é uma coisa muito doida, assim. E Bodoquena é uma escola muito planejada, muito organizada, e eu nos primeiros 15 dias errava a minha casa, não sabia onde estava a minha casa mais. Eu entrei umas duas ou três vezes em casas erradas, porque é tudo igual. E assim, mas você tem que aprender, você tem que se virar. Então isso já é uma lição de vida já, você se virar. Se a pessoa tem essa disponibilidade você tira isso de letra, se não tem é complicado. Por isso gosto muito de falar assim: “para morar no internato tem que conhecer, não adianta fazer uma entrevista de fora e depois chegar lá para trabalhar. Não, tem que ir lá, conhecer, saber o que é”. Porque foi muito forte esses dois primeiros meses. E o meu primeiro dia de trabalho sentei com o assistente administrativo e ele me olhou e falou assim: “Ricardo, as pessoas que você vai coordenar são esse grupo de 13 pessoas que você tem, você não vai ter problema nenhum salvo com uma pessoa só, que esse você vai ter problema” Eu falei: “Quem Egídio?”, ele falou: “Ah, o Henrique é um técnico agrícola do setor de bovino”, eu perguntei: “Por que eu vou ter problema com ele?” “Não, ele não aceita orientações, ele acha que ele é o veterinário, tudo para ele está difícil, não quer mudar as coisas que ele faz”. E eu agradeço muito ao Egídio de ter falado isso, porque cheguei já no Henrique diferente. Como cheguei no Henrique? Eu era novinho, tinha 23 anos, ele tinha aí seus 26, 25, ex-aluno de Canuanã [TO], técnico agrícola estava lá em Bodoquena há oito anos, há dez anos, e eu falei assim: “eu tenho que ir devagar com esse rapaz, porque como vou chegar aqui e falar não, é desse maneira, eu não tenho vivência alguma aqui em Bodoquena”. Até hoje, eu conheço o Henrique ainda, ele está lá em Formoso voltou para Tocantins, não está na Canuanã mais, mas é um dos melhores amigos que tenho até hoje de tão bom que foi o nosso relacionamento. E como que foi esse relacionamento. Muito naquela questão de ceder, eu cedia, ele percebia e cedia. Nunca bati de frente, mas sempre quando achava que tinha razão, eu explicava tecnicamente para ele por que e sempre o deixei falar o que ele pensava. Então foi muito bom o Egídio ter me falado dessa maneira porque eu poderia ter criado uma situação, um ambiente muito ruim para mim se eu não soubesse disso. Por isso que eu acho que é fundamental a gente conhecer as pessoas primeiro antes de estar tomando algumas atitudes, algumas decisões, a gente tem que deixar a pessoa se expor, deixar a pessoa falar para ela demonstrar quem ela é. Principalmente quando a gente está num cargo de chefia, as pessoas meio que se mascaram um pouco, acho que elas meio que se escondem um pouquinho. E eu acredito muito nisso, as pessoas tem que ficar muito à vontade. Então eu acho que em Bodoquena o meu primeiro dia foi bem isso, o Egídio me colocou isso do Henrique, e aí no primeiro dia fiz questão de conhecer todas as pessoas que eu ia trabalhar no meu setor e conhecer o local que ia trabalhar. Então assim, todo mundo olhava para mim com muita desconfiança. Ninguém acreditava que um veterinário de 23 anos, cara de menino que realmente eu tenho, tinha uma feição de moleque, ia dar conta do recado. E os funcionários procuravam testar, então, por exemplo, puseram um dia cavalo para andar num pasto sujo cheio de espinho, achando que eu não ia dar conta, e eu falava assim: “ah danado, você vai ver se não vou dar conta” Então aonde ele ia, eu ia atrás, deitava no arreio, porque tinha vivência na fazenda e eles não sabiam, aí depois começaram: “opa, espera aí essa pessoa apesar de ser novinho ele tem aí uma preparação”. E teve um ponto, assim, fundamental no meu relacionamento com os alunos, que foi num parto de uma vaca que fiz, que o peão falava: “Não, vamos matar essa vaca porque esse bezerro aí já está morto, não tem mais como nascer”. E estava tendo aula prática nesse local, nesse dia e eu falei: “de maneira nenhuma, vamos tentar, sou veterinário tenho que tentar até as últimas circunstâncias”. E quando comecei a fazer o parto da vaca, tentar virar o pescoço do bezerro, porque ele estava com o pescoço para trás, os alunos começaram a sair da sala e começaram a vir ver. Aí eu falei assim: “pelo amor de Deus, ou é agora ou nunca mais Ou consigo conquistar esses meninos agora ou nunca mais”, porque os meninos também não confiavam em mim. Porque era muito novinho, tinha alunos com 27 anos, e eu tinha 23. Eu falei assim: “Ou conquisto agora ou não conquisto nunca mais”. E falei: “Eu vou fazer, vou salvar esse bezerro”. E aí consegui virar o pescocinho do bezerrinho, tirei a bezerrinha, a bezerrinha nasceu sem respirar, aí eu falei: “Agora vou sacanear o ‘cabra’ também, o peão que falou aquilo”, chamava Alfredo, falei: “Alfredo, pega os pés desse bezerro e levanta para cima, que isso tem que levantar para tentar tirar o líquido do pulmão”, eu falei: Levanta e segura” Ele chegava a tremer porque a bezerra era grande, e eu fazia massagem e vi que saía muito líquido e aí na hora que vi que liberou o pulmão, consegui voltar a fazer a bezerrinha respirar e os meninos perceberam isso. Porque o peão falava alto para os meninos: “Não, isso aí não salva mais não” ele falava alto para os meninos, ele queria mesmo me aprontar uma. E a bezerrinha viveu. Depois daquilo os meninos começaram a conversar comigo diferente. Começaram a me procurar, a me perguntar, porque eles não perguntavam, eles perguntavam só para o Henrique. Eu não ficava preocupado com isso não, falei: “Eu vou mostrar, vou provar quem sou”. Então assim, foi muito forte para mim no começo em Bodoquena, essa questão de ter rejeição das pessoas pelo fato da minha idade. Foi muito importante para mim porque consegui me preparar, entendeu, ver de outras maneiras, atingir aquelas pessoas através do trabalho, que acho que a gente só consegue realmente mostrar quem a gente é através de trabalho e fatos, e também através da relação das pessoas. Eu acho que o ponto fundamental é isso: a gente saber se relacionar, porque se a gente não tem esse dom de relacionamento a gente se queima. Depois que você “queimou o teu filme” para você voltar é muito mais dificultoso. ALUNOS Eram em torno de 1.200 alunos. Mas era desde a educação infantil até o terceiro ano do ensino médio, profissionalizante técnico pecuário. TRAJETÓRIA FUNDAÇÃO BRADESCO Eu coordenava os setores da pecuária. Então tinha o bovino de leite, avicultura, suinocultura e apicultura. Cada setor desse tinha os funcionários, que eram responsáveis, então abaixo do veterinário tinha os técnicos agropecuários, que eram os responsáveis efetivamente pelos setores, abaixo deles tinham os outros funcionários, no caso do bovino de leite o ordenhador, no caso do frango o zelador. Então, era um grupo de 13 funcionários que eu coordenava. E abaixo dos funcionários tinham os alunos que cumpriam escala, como eles faziam o curso técnico agropecuário, eles tinham que também fazer uma parte prática para aprender, então diretamente eu tinha contato com os alunos. Então, como que era o meu relacionamento com eles? Por exemplo, eu ia medicar uma vaca, não medicava nenhuma vaca antes de chamar os meninos para ver e acompanhar e para falar para eles o que era. Então, isso era muito legal também, quer dizer, eu via essa importância dos meninos se prepararem. E aí a gente foi quebrando e o relacionamento era muito bom, era muito próximo, assim. Era uma informação prática, exatamente. E a minha prioridade primordial era o aprendizado dos meninos dos setores, que eles tinham as escalas e eu tinha que zelar por isso para eles. E a minha função secundária era a produção de leite, de frango, de suíno para consumo próprio no refeitório. Então era muito isso, então tinha a questão da produção e questão da aprendizagem, que era mais ou menos aquilo lá do Artesanato que eu falei lá da minha mãe, que tinha aprendizagem e a questão prática. E isso é muito forte tanto em Bodoquena como em Canuanã. Eu acho que isso é receita infalível para aprendizagem de uma pessoa, não só dessa vivência do artesanato com a minha mãe, mas também no meio rural, de saber lidar com pessoas humildes, pessoas sem escolaridade, pessoas que, às vezes, aquilo que ele tem de dez anos, de 15 anos é a verdade, você saber mostrar de outras maneiras, outros caminhos, isso me ajudou bastante também. CIDADES / BODOQUENA Eu entrei em 92 em Bodoquena, como médico veterinário. Acho que consegui montar uma estrutura boa de trabalho, principalmente de equipe, acho que foi muito legal para mim esses cinco anos, e legal para mim como pessoa nesses cinco anos de Bodoquena como veterinário. E aí as pessoas começaram a perceber em mim esse dom de se relacionar. Daí em 97 fui convidado a ser assistente de direção administrativo, porque daí quando passei a ser assistente de direção administrativo, eu era responsável pelo veterinário. Eu era responsável pelo agrônomo que lidava com a parte de horta, grandes culturas, pelo médico que era responsável pela área de saúde, pelos dentistas, pela nutricionista, pelo chefe da manutenção, então, tinha que começar, a partir daí, entender de pintura, de um monte de coisa, pela informática, pelo almoxarifado e pela contabilidade. Quer dizer, então o meu leque que era pequenininho, quando passei para assistente abriu em uma abrangência enorme. Isso foi muito complicado para mim no começo. Por que era muito complicado? Porque o Ricardo veterinário tinha que ser um, e o Ricardo assistente de direção, o vice-diretor, tinha que ser outro. E as pessoas começaram a cobrar do Ricardo o vice-diretor, que permanecesse o Ricardo veterinário, que aquele Ricardo muito próximo, muito dado, entendeu? E um cargo de direção a gente não pode mais ser desse jeito e eu não entendia isso. Eu achava que tinha que continuar aquela pessoa próxima, humilde, dada, trazendo isso junto a um cargo de tanta responsabilidade, de muito mais responsabilidade que era veterinário. TRAJETÓRIA FUNDAÇÃO BRADESCO Quando passei para assistente de direção até falei para algumas pessoas que acho que a gente quando passa para um cargo de direção a gente muda de instância, a gente muda até de local, de andar de trabalho, é uma coisa muito esquisita. E isso tem sido, assim, uma luta muito forte minha para conseguir quebrar esses degraus. Que eu acho que se o veterinário lá embaixo, ou se o vaqueiro lá embaixo consegue entender a dimensão da Fundação, ele consegue trabalhar muito melhor. E eu acho que naquela época a gente não conseguia ver isso, eu como veterinário não conseguia ver essa dimensão do que era a Fundação Bradesco. Não tinha uma impressão formada, achava que a minha responsabilidade ali era veterinário dentro daqueles setores e a minha abrangência era aquilo ali. E não era, a minha abrangência era muito maior. A minha abrangência era não só naqueles setores pequenos, aquela coisa ali fechada, restrita, mas ela ia além, ela atingia os alunos, na formação deles e atingia os alunos no mercado de trabalho e também atingia a Fundação como um todo que o meu trabalho ia contribuir diretamente para o desempenho da Fundação como um todo nacionalmente. Então, isso tem sido muito forte na minha busca profissional, fazer com que meus funcionários entendam isso. E isso tem melhorado bastante na Fundação Bradesco, tem melhorado muito de oito anos para cá, eles têm sido uma busca muito incessante tanto aqui da matriz como também das próprias escolas. Eu acho que hoje as pessoas conseguem entender o papel deles, apesar de ser um vaqueiro, que só ordenha vaca de manhã e a tarde, ele sabe a importância da Fundação Bradesco regionalmente, que seja Canuanã e no território do país. Então, acho que isso é muito forte que, na época, não tinha isso e foi muito importante, muito dolorido para mim também. Porque sentia que eu tinha que mudar a minha visão, sentia que meu cargo exigia que meu foco de visão abrangesse um campo muito maior e tinha que fazer isso de uma forma natural, sem perder o vínculo com as pessoas porque para mim era importantíssimo continuar com aqueles vínculos, porque ali agora não era um técnico, eu era um gestor. Então era muito mais importante saber gerir a relação, saber gerir os problemas interpessoais do que saber medicar uma vaca, medicar uma vaga para mim agora ficou em terceira instância, em quarta instância. Virou hobby. E isso era muito difícil, porque as pessoas falavam assim: “Rehder, você não é mais o Ricardo veterinário”, e eu costumava dizer assim: “Não, eu realmente não posso ser mais”. E isso gerou meio que uma época de instabilidade no Ricardo profissional. 97 e 98 foram dois anos complicados, 98, 99 um pouquinho ainda, porque as pessoas se distanciaram, porque você passa a ser vice-diretor você muda de casa, então quer dizer, você passa de padrão B para padrão A, então, as pessoas já não vão mais na tua casa: “agora mora lá com o diretor”. E aí você começa a ficar muito isolado também, e sou uma pessoa muito coração, eu gosto de proximidade de pessoa e isso mexeu um pouquinho comigo. Só que daí comecei a partir do seguinte, falei: “Olha, acho que tenho que saber muito bem o seguinte o que é amigo e o que é profissional”, e comecei a falar assim: “Olha, as pessoas que considero realmente amigos não vou deixar elas se distanciaram de mim e elas também vão ter que ter essa percepção, sem eu falar, e também não vão querer ter esse distanciamento”. E foi isso. Então 98, por aí, já começou a entrosar um pouquinho, começou a estruturar um pouquinho mais o meu trabalho. Em 2000, nós passamos por problemas sérios em Bodoquena, mas foi muito bom também para mim e foi assim um ano de muita mudança na minha visão de profissão, profissional. E aí a partir daí a gente começou realmente a estruturar um trabalho importante como vice-diretor. Então, 2000, 2001, 2002 foram anos, assim, magníficos. E em 2001 entrou um diretor novo em Bodoquena, saiu o Jean que é uma pessoa que me ajudou bastante também e aí entrou o Rogério, também, que é uma pessoa assim, que eu acredito que ele me norteou, assim, de uma forma muito inteligente, o Ricardo de hoje. Eu acho que ele me moldou bastante, o Ricardo de hoje. Ele me mostrou muito esse lado, esse lado do sensitivo, esse lado do ouvir as pessoas que eu já tinha como administrar isso. Então, acho que ele me ajudou bastante e também me ajudou bastante no sentido de cobrar, que como eu era muito coração, não cobrava como cobro hoje. Então, ele me ensinou muito isso, como ser coração mas também como cobrar. E com isso acho que nós estruturamos um trabalho muito legal em Bodoquena 2001, 2002, 2003, e no final de 2003 fui convidado a ser diretor de Canuanã. Costumo dizer que os anos ímpares para mim são anos formidáveis na minha vida. Tirando só 92 que fui contratado na Fundação, que acho que foi o nascimento de toda uma história de vida minha. Em 93, conheci a Arlete que é minha esposa. Ela foi para Bodoquena contratada como professora veterinária para dar aula no curso técnico. Em 93, eu a conheci e começamos a namorar. Casamos em 95, tivemos o primeiro filho em 97, e aí em 99, fui convidado a assumir a escola como diretor interino. Em 99, eu estava achando até estranho não estava acontecendo nada de diferente em 99, no final do ano chegaram a Ana Luísa e o Seu Antonio Carlos: “Olha Ricardo, o Jean está saindo e você vai ser diretor interino até a gente conseguir outra pessoa” eu falei: “Não, sem problema nenhum”. Assumi como assistente de direção, assumi a escola até vir o Rogério. A Valéria foi para lá, me ajudou bastante, fizemos um trabalho muito bom. No final de 2000, o Rogério chegou. Aí em 2001 nasceu a minha filha Gabriela, de novo em 2003 falei: “Caramba, não acontece nada de diferente esse ano”. Aí no dia 19 de dezembro na véspera de eu sair de férias, o Jeferson me ligou: “Ricardo, tem uma proposta para você, ser diretor de Canuanã, o que você acha?” Eu falei: “Aí veio a notícia de 2003”. DIRETORIA / CANUANÃ Falei: “Olha Jefferson, antes de mais nada, eu quero conhecer, não vou te falar sim ou não antes de conhecer o local”. E aí acho que vem – Deus é uma coisa muito forte também na minha vida, e até então não era muito, acho que era religioso mas não era uma coisa, assim, e a cada ano eu acho que as pessoas vão envelhecendo e a gente vai se apegando mais na espiritualidade – e aí falei assim: “Deus é uma coisa muito mágica”. Antes de eu receber esse convite a Arlete foi em Canuanã em 2003, em junho de 2003, fazer um trabalho de pluralidade cultural, o trabalho do portal indígena que a Fundação tem um trabalho nessa questão. E a Arlete como orientadora era responsável por esse trabalho em Bodoquena. E ela foi em Canuanã e voltou deslumbrada, falou: “Ricardo, a escola não é bonita, a escola é feita, os prédios são mais velhos, mas o ambiente é uma coisa maravilhosa, o clima é uma coisa gostosa, a gente se sente em casa” Ela falou: “Que lugarzinho gostoso” ela falou para mim. Mas até então não passava nada na nossa cabeça, nem na dela e nem na minha. Aí em 2003, o Jeffferson veio com essa conversa, no dia do meu aniversário. Então, eu falei assim: “Olha Jefferson, quero conhecer” “Então, está bom Ricardo, você sai de férias quando você voltar você volta a me ligar que a gente organiza a sua ida para Canuanã”. E aí nós fomos em Canuanã no comecinho de fevereiro, daí foi eu, a Arlete e o Jefferson, lá conhecer. O diretor de lá estava indo para Cuiabá que era outra escola da Fundação e eu cheguei em Canuanã, assim, na segunda-feira e fiz questão de conhecer tudo, falei: “Jeferson, eu quero conhecer a escola toda, não posso vir para cá achando, tendo uma visão, assim, muito superficial e depois que vou ter que administrar isso aí, eu quero conhecer tudo”. Então, andei em toda a escola, fui setor por setor junto com o Jefferson e com o Élson também junto e chegou na quarta-feira eu já estava decidido, não tinha falado nada para o Jéferson, mas eu já sabia o que queria. E o que mais me moveu ir para Canuanã foi a vontade de mudança. De sair de Bodoquena, não porque Bodoquena estava ruim, eu adorava Bodoquena, tinha um vínculo de amizade, um vínculo de profissional muito fácil, estava muito tranqüilo para mim. E eu queria coisa nova, alguma coisa já me falava: “Ricardo, está na hora” “Está na hora de você alçar vôos maiores” E cheguei em Canuanã vi uma escola muito grande, então dava para fazer muito coisa. E uma escola que era fácil de acertar, senti isso em detalhes. Em coisas de acabamento, em coisas, assim, de ajustes. Chegando em Canuanã nessa minha visita senti essas possibilidades de poder fazer em Canuanã coisas que já estava querendo fazer em Bodoquena. Não que não conseguisse fazer em Bodoquena, claro que conseguia, mas em Canuanã eu poderia ser o Ricardo. Lá em Bodoquena, eu era o Ricardo assistente administrativo, mas tinha o Rogério diretor. Então, lá poderia ser o Ricardo e colocar coisas que o Ricardo acreditava que até então não conseguia colocar para fora. Então, achei que estava na hora de começar a caminhar com as próprias pernas. E aí conversando com a Arlete, a minha esposa, fomos lá e eu acho que a Arlete é uma das pessoas mais importantes da minha vida - eu sempre falo assim: “que o homem tem duas oportunidades de se dar bem na vida: a primeira possibilidade é acertar na loteria, com o dinheiro você não tem como não se dar, você se vira. E a segunda possibilidade é casando com a mulher certa”. E eu sempre pedi isso muito a Deus, quero casar com uma pessoa que me leve para frente, não que eu fosse uma pessoa parada, mas eu queria uma pessoa que me puxasse e a Arlete é formidável para isso. É uma pessoa, que nunca está satisfeita, sempre instigando, procurando melhorar e muito, ela tem uma visão muito profunda. E aquele ditado: “atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher” e realmente tem, eu tenho uma grande mulher atrás de mim, e não falo nem atrás, ela está na minha frente também. E conversando lá com a Arlete em Canuanã, e ela falou assim: “mas Ricardo, pensa, nós vamos ficar longe de tudo” eu falei: “Arlete, mas pensa o que a gente pode fazer aqui, pensa o que a gente pode trazer de novo para essa escola, o que a gente pode ajudar, o que a gente pode mudar aqui nesse local”. O tanto de coisas boas, a gente começou a ver: “olha, esse local a gente pode reformar desse jeito, aquele lugar a gente pode fazer isso”, começamos a sonhar. E daí na quarta-feira fui sentar com o Jeferson e ele perguntou: “e aí Ricardo?” Ele sempre ficou com o pezinho atrás e a fala dele era assim: “Ricardo, por mais que você se decida em não vir isso de maneira nenhuma vai desabonar na tua carreira profissional, de maneira nenhuma” Mas você sabe que no fundo eles sempre tão esperando que a gente vá claro A mesma coisa quando eu vou fazer uma proposta de designação de funcionário, eu tô fazendo porque sei que ele vai aceitar, não vou sugerir para alguém que acredito que não vai aceitar. “E aí, o que você acha Ricardo?” Eu falei: “Não, Jeferson, a gente já decidiu, a gente quer vir”. Ele falou: “ah, eu sabia que você viria”. Na quinta-feira, ele já me apresentou como diretor para o quadro de Canuanã, eu já conhecia várias pessoas em encontros e a receptividade foi muito boa. E nessa primeira vez a Arlete fraquejou, nessa primeira vez que foi feita uma reunião com os orientadores e com os chefes de setores e com a direção na época da escola. E aí o Jeferson apresentou eu como diretor, a Arlete como orientadora profissional e abriu a fala para ela primeiro e ela não conseguiu falar, começou a chorar, por ser tão forte, a gente sair de Bodoquena, até hoje para mim é forte. Foi em março de 2004. E assim, ela começou a chorar e eu falei: “Agora que ela precisa de mim, eu não posso amolecer”, falei: “Agora tenho que me segurar”. Porque eu que sou o chorão de casa, a Arlete não é, eu choro por qualquer coisa. E ela começou a chorar e no final falou assim: “É muito forte o que a gente está deixando para trás”. E aí depois ela parou de falar e eu comecei a falar e falei da minha expectativa, da vontade de realmente ir para Canuanã, pedi o apoio de cada um deles e a receptividade deles foi muito boa, foi muito forte isso para gente, realmente eles me deixaram em casa, tinha a Cacilda que era a assistente pedagógica lá que era uma pessoa formidável. Então assim, daí nós voltamos para Bodoquena e aí foi uma das coisas mais duras para mim que é ficar em Bodoquena sem ter que ficar em Bodoquena. Eu estava lá há 12 anos, então assim, tudo que eu vivi em Bodoquena, toda aquela minha primeira fase em Bodoquena, as dificuldades que passei lá, os problemas. E aí comecei a ver que tinha um mês só para aproveitar Bodoquena. E aí esse último mês foi de acerto, aí veio aquela correria de mudança, e mexe daqui, mexe dali. E aí o meu filho fazendo aniversário, fazia aniversário no comecinho de março. Daí falei assim: “bom, vou fazer uma festa de aniversário para o André e aí também vai ser uma festa de despedida minha”. E fizemos isso e foi muito bom. Foi muito gostoso de ver a alegria que o pessoal ficou da gente está indo para um lugar melhor, de estar crescendo. E por outro lado também de perder uma pessoa querida. E nós ainda muito mais por deixar vínculos de amizade, porque sempre falo também que internato também não é só emprego, você quando sai do internato você perde o emprego, você perde a tua casa, você perde o seu vínculo de amigos, os teus amigos você perde porque eles ficam e você perde toda uma convivência de fazenda, um ambiente de família. MUDANÇAS E eu sempre pedia muito a Deus, porque quando cheguei em Bodoquena tinha alguns funcionários de cinco anos, que a escola na época tinha cinco anos, se não me engano, cinco, seis anos, que já queriam sair de Bodoquena, “não agüento mais isso daqui, quero sair, não concordo com isso, não concordo com aquilo”. E sempre pedi muito a Deus que se eu saísse de Bodoquena, saísse muito bem de Bodoquena, não queria sair como algumas pessoas saem, assim, magoadas, que é: “Eu nunca mais volto aqui”. Eu sempre pedi isso muito a Deus: quero sair de Bodoquena assim, quero ter amigos em Bodoquena, saí muito bem de Bodoquena. E Deus fez isso de uma forma maestral comigo também, porque eu saindo, indo para Canuanã como diretor, eu não saí da instituição. E no dia da saída foi um desespero, eu fui de Bodoquena mirando, chorando, desesperado, eu, a Arlete e o André. Ele estava triste por deixar a cidade. Nasceu em Bodoquena, tinha um amiguinho dele que nasceu junto, éramos vizinhos de casa, que hoje são um dos melhores amigos nossos. Então ele se desestruturou também. Daí eu falei assim: “André, vamos combinar o seguinte, porque ele não queria ir: “Nós vamos para Canuanã, nós vamos crescer, acho que a gente precisa mudar e em julho você volta para cá”, porque eu tenho um irmão que trabalha em Bodoquena, falei: “Em julho você volta para cá, vem aqui na casa do teu tio fica aqui em julho nas férias”. Daí ele concordou, falou: “Não pai, então está bom”. Em julho, realmente mandei ele para cá, foi uma amiga nossa nos visitar em Canuanã e mandei ele de volta e foi muito bom isso para o André, porque acho que criança é diferente de adulto, adulto a gente consegue, por mais que seja doído, mas você consegue administrar. Por quê? “Ah não, hoje eu tô indo como diretor, eu tenho possibilidades de fazer”. Criança não, criança é muito imediatista, o que ele pensa que ele perdeu? Os amigos, até hoje ele fala desse amigo dele, apesar de Canuanã ter rio, ter pescaria, mas ele sempre lembra ainda com muita saudade do coleguinha dele. Então, foi muito bom para ele ter vindo em junho. E para nós, Canuanã nos absorveu de uma maneira tão forte e eram tantas as coisas que eu precisava mudar em Canuanã, tanto eu como a Arlete, tanta coisa que a gente via e não concordava como estava e precisava realmente mudar que isso nos absorveu de uma tal maneira que Bodoquena ficou saudade, uma saudade muito boa, entendeu? Uma coisa muito forte era muito coração Bodoquena, mas se perguntarem hoje: “Ricardo, você volta para Bodoquena no final do ano?” Eu não volto, não volto, porque sei que hoje eu sou muito mais Canuanã. DESAFIOS O maior desafio em Canuanã eram as mudanças que precisavam fazer, mudanças no trabalho mesmo. Mudança assim, mudança que falo desde a postura de um funcionário, a procedimentos de trabalho. Mudança de vida, mudança de estilo de vida, mudanças de relacionamentos. Em Canuanã não conhecia ninguém, não tinha amigos em Canuanã, eu tinha pessoas que eram meus funcionários, que querendo ou não teriam que me aceitar, porque eu era o diretor. Então, a relação em Canuanã também era diferente do que em Bodoquena, em Canuanã eu era o diretor, então as pessoas se aproximam da gente diferente. Isso é uma coisa ruim, porque se aproximam realmente para se aproximar por algum interesse, entendeu? E eu fiz muita questão de deixar muito claro para as pessoas que o Ricardo profissional é um e o Ricardo pessoa é outro. Em Canuanã, eu trabalhei muito essa questão sou muito ligado ao quadro de funcionários, sou muito próximo, fiz muita questão de ir nos setores, pessoalmente ir andando conversar com o vaqueiro, conversar com o zelador, com o faxineiro, e as pessoas começaram a quebrar esse gelo diretor/funcionário comigo. Então, por exemplo, eles não me chamam de doutor, porque antes eles chamavam o outro diretor de doutor, eles não me chamam, eles me chamam de Ricardo. Eu acho que tem que ser assim, eu tenho 37 anos, tenho funcionários lá com 60, como é que uma pessoa de 60 vai me chamar de senhor? Isso está fora de questão da minha formação como pessoa, meu pai não me ensinou isso, eu que sou o mais novo que tenho que chamar o mais velho de senhor. Então, criei muito isso lá em Canuanã e sempre procuro estar muito junto com eles e tenho hoje dois assistentes que também fazem a mesma coisa. Claro que os dois assistentes têm que ser mais enérgicos: “olha, isso não pode, tem que ser assim” E o diretor também, mas a gente tem que ter essa proximidade, tanto minha, quanto os dois assistentes e todo o quadro porque as coisas ficam mais fáceis. E a gente tem criado um ambiente muito gostoso em Canuanã nesse sentido, muito produtivo, muito harmonioso, muito humano, e isso tem sido muito legal. COLEGAS DE TRABALHO Criei, já tenho. Eu acho que o importante é que a gente tem que conhecer as pessoas e saber as certas para aquele serviço certo que você vai pedir, e eu acho que o maior desafio da gente é isso. Quando a gente entra num local que a gente não conhece, tem que primeiro conhecer e saber quais as pessoas chaves, porque é aquilo que eu falei, não adianta pedir alguma coisa que aquela pessoa não vai conseguir me dar retorno, tenho saber pedir aquele determinado serviço para aquela pessoa chave que realmente ela vai me dar retorno. Isso já tenho hoje em Canuanã, eu acho que conheço já 70 por cento das pessoas já, acredito que não conheço cem por cento delas, algumas já conheço, acredito que sim, até que me provem o contrário, mas acredito que conheço e costumo confiar muito nas pessoas. Só que confio, mas tenho que amarrar algumas questões para também me dar suporte para essa confiança ser perpetuada. Em Canuanã, já tenho as pessoas chaves a quem posso realmente pedir e confiar determinadas, e delegar algumas atribuições. FUNDAÇÃO BRADESCO / CANUANÃ Uma coisa importante também, muito forte em Canuanã é o respeito que as pessoas têm pela Fundação Bradesco. Isso é uma coisa muito forte, é uma coisa muito grandiosa. No passado e atualmente. Eles têm um respeito pela Fundação Bradesco Canuanã, e pela Fundação Bradesco matriz muito grandioso, é uma coisa muito pele, sabe? Eles defendem a Fundação Bradesco até a morte, então é uma coisa muito forte em Canuanã. Você vê que as pessoas se doam realmente para causa. E aí quando eles começaram a perceber que um diretor também se doava, que o diretor também era muito próximo não deixava ter tratamentos diferentes, fazia aquele tratamento único, desde que seja o vice até o vaqueiro, eles começaram também a ser mais eles, se doarem mais e serem mais transparentes. E isso aumentou muito mais a credibilidade da Fundação Bradesco na região. Eu costumo ir muito nos setores com aquelas pessoas humildes, costumo muito ir em casas de alunos, casas de pai de aluno, então, por exemplo, tem visitas de crianças eu vou, e aí eles começam a se surpreender: “Nossa, o diretor na minha casa” Então, isso também facilitou bastante, porque acho que nosso papel é esse, a gente tem que ter um vínculo de amizade muito forte com a escola, com os funcionários e alunos, e também além escola, com a comunidade. E isso acho que a gente está conseguindo em Canuanã. PARTICIPAÇÃO DOS PAIS Vencer essa diferença traz um resultado melhor. Por exemplo, em reunião de pais, eles te conhecendo, sabendo quem você é já tendo este vínculo, eu já fui na casa dele a vice-diretora já foi, o vice-diretor já foi, quando você pede alguma coisa ou dá alguma orientação, as coisas ficam muito mais fáceis. Eles acreditam, têm muito mais credibilidade na empresa, na Fundação Bradesco, e também na pessoa que está a frente da empresa, porque eles estão vendo que o que você está pedindo não é para você, entendeu, e para uma coisa muito maior. Eu costumo fazer muito isso: “Olha, eu tô exigindo o documento do senhor, pai, não é para o Ricardo diretor, é para Fundação. Veja, é por quê? Por isso” Eu costumo ser muito claro nisso, acho que a gente tem que ser muito transparente. Da mesma forma que um filho faz uma coisa que vai ao contrário do que a gente pede, chamo o pai e a gente conversa, assim, têt-à-têt, eu acho “olha, seu filho fez isso, não é por aí” até o pai entender que o filho realmente está errado, eu só libero o pai quando realmente percebo que o pai acredita e confiou no que a escola está falando, porque se ele sair da minha sala desacreditando no que estou falando e acreditando no filho aquele pai vai fazer com que 30 pais fiquem contra a escola. Então, as vezes, eu fico duas horas numa sala, falando com o pai até que sinto realmente que “realmente, o diretor tem razão”. Porque acho que é trabalho de formiguinha, não pode cansar disso, isso a gente tem que falar, falar, falar até a gente conseguir amarrar as coisas. ROTINA DA ESCOLA Nós temos em torno de 950 alunos todos moram dentro da escola, é uma escola regime internato que os alunos podem sair nas saídas de calendário. Então, em torno de 40 dias, a cada dois meses, tem uma saída grande que as crianças vão para casa. E como que é isso? Alguns pais nos finais de semana podem buscar os seus filhos, mas obrigatoriamente tem quatro reuniões de pais em todo o ano, sempre ao término do bimestre que obrigatoriamente os pais têm que ir à escola para saber como é que os filhos estão com relação à nota, com relação ao comportamento. E são nesses momentos que a gente cria um vínculo, um momento de comunicação com os pais desses alunos. Então, nessas reuniões a gente procura fazer o que? Ter várias atividades, de orientação aos pais em relação a sexualidade, com relação as normas da escola. Mostrando trabalhos dos alunos, e também temos um momento da direção com os pais para mostrar para os pais o que teve de mais importante naquele bimestre e o que terá de mais importante que vai refletir na vida dos seus filhos a partir do decorrer do ano letivo. E aí depois dessa reunião a gente fica a disposição, fico numa sala junto com a assistente pedagógica atendendo aos pais, que querem falar com a direção. Então é um dia que a gente fica das sete da manhã até as sete da noite atendendo pai, realmente a gente não tem como sair da sala, só saio nessa hora de reunião que vou para falar com o grupo todo. Mas eu não gosto que fique só nesse contato, então sempre quando tem pai na escola, eu procuro ir lá, conversar, sempre pergunto como é que está, sempre procuro ouvir, porque acho que quando a gente ouve começa a perceber como é que estão as coisas. Então faço questão de parar o pai e perguntar: “pai, como é que está, teu filho está bem, a escola como é que está?” Sempre nesses momentos a gente pega alguma coisa, então, “não, está tudo bem” E nesses horas é: “não, seu Ricardo, tem um filho meu que não está aqui ainda e eu quero que ele venha”, nessas horas que eles se sentem mais a vontade porque ali é conversa de pátio. Então, acho que isso é fundamental e a gente ir nas casas deles, então, a gente vai, senta, não é só eu, o diretor, os dois assistentes, toda a orientação e o secretário. Então, isso a gente tem feito já, a escola já fazia, a gente tem fortalecido, para saber onde mora, com quem que está, como é que é a família, como é que é a estrutura da família. Porque acho que é só a gente conhecendo isso: onde a pessoa mora, como mora, como são os seus pais e os seus parentes, a gente consegue fazer um trabalho na escola. Se eu pegar alguma coisa aqui de São Paulo, teoria, as que são mais importantes, os teóricos aí os mais renomados pegar e querer colocar em prática em Canuanã ou em qualquer outro lugar sem entender a história da região, a história dos pais, eu não consigo. Então, acho que é importante isso conhecer a região, os pais, o estilo de vida, a cultura desse povo, pegar essa teoria, que tenho que ter essa fundamentação teórica, adequar ela dentro desses moldes, dessa cultura, tudo, e adequando também dentro das normas da escola. Acho que é um triângulo para que a gente possa fazer um trabalho que realmente alcance os nossos alunos. Eu acho que é por aí. A gente tem muita preocupação com os alunos pequenos de primeira a quarta série. Então, primeira série eles entram com sete, oito anos, nunca tiveram escola na vida deles é aquela questão que falei da professora de primeira série. De primeira a quarta série, que são pequenininhos, os pais que quiserem, que morarem mais próximos da escola eles podem ir no sábado, domingo e levarem os seus filhos para suas casas e a gente tem estimulado isso, a criança passa de segunda a sexta, final de semana em casa. A gente tem trabalhado muito isso, e isso tem trazido bons resultados para gente. Que o pai tem tido, tem estado mais na escola, conhece mais a rotina da escola, conhece mais como que é o trabalho da escola com seu filho e também o filho sai o final de semana para também se desligar um pouquinho da escola, do convívio de internato, do convívio com os outros coleguinhas de morada, de alojamento, então isso tem sido muito positivo. Os alunos que têm acima de 18 anos, os pais também podem dar uma autorização e eles podem sair também no final de semana, que acho que é outra coisa também que desafogou e ajudou bastante a escola. Porque é assim, como é que eu vou falar para um homem ou para uma mulher de 18 anos: “meu amigo, olha, o namoro aqui dentro é permitido somente no final de semana, não pode ter relação sexual, que é uma norma da escola, um namoro comedido”. Como é que eu vou falar isso para um homem de 21, 22 anos que tem uma vida sexual ativa. Então, isso ajudou bastante também. Eles saem no final de semana, o pai autorizou pode sair sozinho, sai no final de semana, vivem a vida deles. Eu acho que essa questão de cidadania também é muito forte a gente tem que estimular isso, eles têm que sair com responsabilidade, por exemplo, não pode ter bebida alcoólica ou qualquer outro tipo de droga dentro da escola, saem no final de semana, querem beber? Bebem com responsabilidade, com tranqüilidade, não dentro da escola, então isso tem sido muito positivo também para gente. Porque é um internato, são 1.200 pessoas dentro de uma escola fechada, convívio 24 horas por dia, então, se a gente não tiver algumas válvulas de escape nesse sentido as coisas ficam complicadas.

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