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História

Depoimento de Rui Moura Gonçalves

História de: Rui Moura Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/12/2008

História completa

IDENTIFICAÇÃO Rui Moura Gonçalves, nascido em 14 de dezembro de 1953 na cidade de Itacajá, Tocantins. FAMÍLIA O meu pai é Valdemar Gonçalves Lima e a minha mãe Antônia Moura Lima. O meu pai era militar é falecido e a minha mãe doméstica. Itacajá fica na divisa com o Maranhão, no leste do Estado, na divisa com o Estado do Maranhão. Fica a cento e vinte, cento e trinta quilômetros de Pedro Afonso [TO]. Na realidade eu não nasci em Itacajá, eu nasci numa fazenda do município, que era do meu avô. Nasci na zona rural numa fazenda, que era no município de Itacajá e posteriormente meus pais mudaram para Pedro Afonso. Na realidade não era Pedro Afonso, era um bairro chamado Bom Jesus, hoje é cidade, Bom Jesus do Tocantins, nós mudamos para lá. E Itacajá eu vim conhecer só depois de 15 anos, eu não a conhecia. Isso em 1959 quando o meu pai foi para Brasília, na época da construção, o pessoal ia muito para ajudar a construir Brasília. E nós ficamos com o meu avô em 59, 60 e 61. Nós éramos dois irmãos só. E aconteceu uma coisa engraçada, que meu pai era muito novo na época, casou jovem demais. Ficou três anos em Brasília sem voltar, quando ele voltou queria retornar a Brasília de novo, meu avô não deixou. Foi quando ele entrou na polícia, na época Polícia Militar do Estado de Goiás, e nós mudamos para Miracema de Tocantins, próximo a Palmas. Nós ficamos em Miracema até 65. Meu pai sofreu um acidente na época, e esse acidente fez com que ele fosse afastado. Aposentou. Aí nós retornamos para Pedro Afonso. INFÂNCIA Fiquei quatro anos nessa fazenda. Tenho [lembranças], e como tenho. Era uma fazenda na beira de um rio chamado Rio Negro, uma fazenda muito bonita. O pátio dela era enorme. Naquele tempo o pessoal tinha o hábito de fazer aqueles pátios bem grandões na frente, bem limpinhos, como se fosse um campo de futebol. Meu avô criava muita ovelha, naquela época, a diversão nossa era montar em ovelha. O sonho da criançada era montar em ovelha e tomar banho no rio. Era assim, tinha a fazenda que era do meu avô, e perto tinham outras fazendas de irmãos dele, sobrinho, terminava sendo quase que um povoado. Então era muita gente para ser zona rural. Era assim, final de semana aquela coisa extremamente animada, porque o pessoal juntava tudo. Aquilo era uma festa. Agora a minha lembrança é essa, quer dizer, era montar em cabrito, ovelha. Mais ou menos quatro anos, foi quando nós saímos de lá. Por incrível que pareça, nós tínhamos um primo que morava em Tocantinha, e ele foi passar umas férias conosco. Nós nunca tínhamos visto bola, a criançada, ele levou uma bolinha daquelas, não sei se vocês conhecem uma bolinha vermelha dura, de borracha. O pessoal gostava muito de jogar queimada com essa pequenininha. Levou uma bolinha daquelas para lá. Nós ficamos assim extremamente entusiasmados com a bola, futebol e nós começamos a jogar bola. Ele ficou dezembro e janeiro e nós fizemos um campinho. E, quando ele foi embora, a bola furou e aí como é que joga. Meu avô falou assim: “Faz com a bexiga de boi, quando matar o boi faz a bola”. Nós assoprávamos a bicha não pegava o formato, não ficava redonda. Um tio nosso falou: “Eu sei como é, eu faço”. Tem um pau chamado mangaba, não sei se você conhece, tem látex, tipo de seringueira, você corta e ela pinga aquele leite. Você faz uma, aí começa a passar isso para colocar o formato na bola, põe ela do jeito que você quiser. Nós aprendemos a fazer bola. Foi por incrível que pareça, quando eu comecei a jogar bola, futebol, a nossa diversão era jogar bola. Ninguém queria sabem nem de pescar, era o dia todo, enfim. Nós mudamos para cidade de Pedro Afonso, Bom Jesus eu tinha quatro anos, a minha irmã cinco, nós éramos só dois irmãos nessa época, os dois mais velhos. O pessoal naquele tempo tinha o hábito de ter duas casas, uma casa grande na frente, tinha quarto, sala. Uma coisa que não me sai da memória é que o meu avô tinha um rádio, aquele rádio Semp grandão, ele ficava em cima de uma mesa, lá no canto da parede. E a sala era enorme, mais ou menos assim uns 15 por dez, só a sala, no fundo tinha o quarto do meu avô e tinham mais dois quartos. Tinha outra casa que é onde ficava ele chama de dispensa, fogão, a sala de jantar, vamos dizer assim, com paiol de arroz, onde guardava tudo que é mantimento, aonde fazia comida, aonde a gente comia. A sala era só para receber visita. Fazenda é tudo cheio de varal, aquilo armava lá dez, 15, 20 redes. Naquele tempo ninguém dormia em cama, era tudo na rede mesmo. Então armava 15, 20 redes naquele negócio lá. Agora, o negócio era de noite assistir o rádio, a Rádio Nacional, essas rádios mais antigas, Tupi. E esse rádio ainda existe até hoje, está com meus tios lá em Pedro Afonso. A gente guardou. Para criança é muito difícil, a gente não se ligava muito. A única coisa que a gente se ligava é que o meu avô brigava demais, a gente não se ligava muito no que se passava lá, notícia, a gente não se ligava nessas coisas. A única coisa que eu lembro é que ele brigava demais porque ele queria assistir alguma coisa, a meninada ficava fazendo bagunça, ficava brigando, brincando, enfim. Mas lembrar dos programas, não tem jeito. MIGRAÇÃO Foi quando o meu avô veio para Pedro Afonso. Ele vendeu essa fazenda e comprou uma próxima a Pedro Afonso, a nove quilômetros. Aí construiu uma casa na cidade e ficou dividido. Foi quando o meu pai foi a Brasília. Então a minha mãe eu e a minha irmã ficamos morando com a minha avó na cidade e o meu avô ficava na fazenda quando houve a separação, porque até então na fazenda nós não morávamos na casa do meu avô. Tinha a casa do meu avô, mas a casa do meu pai ficava do lado e do outro tio meu do outro lado. Então os filhos moravam ali, em torno. Quando da vinda para Pedro Afonso houve essa separação. Meu pai viajou, o meu avô ficou na fazenda e nós ficamos na cidade com a minha mãe, só que mantidos pelo meu avô. O meu pai se mandou. O meu avô é que mantinha. Nós começamos a estudar, na época. Comecei a estudar com seis anos, depois parei mais ou menos um ano, naquele tempo, diziam que era muito novo para estudar. Diziam que tinha que estudar com oito, nove, dez anos, ir para escola. Tinha aquela coisa que criança nova demais não podia estudar, e aí nos tiraram. Até uma professora nossa lá, a Dona Maria do Carmo: “Não, está muito novo, tem que deixar crescer mais”, não sei o que. Nós paramos de estudar, voltamos quando nos mudamos para Miracema [TO], já com oito anos mais ou menos, a gente começou a estudar em Miracema. Só que em Miracema nós ficamos só cinco anos, aí retornamos a Pedro Afonso, e fiquei lá até vir para cá. EDUCAÇÃO Nós morávamos numa praça e tinha um campo de futebol. Na frente da praça era um campo de avião, a pista de avião ficava na frente, o colégio ficava do lado direito da nossa casa, na praça, era um colégio municipal. Quando dava, no intervalo do recreio, tinha uma rua atrás e os meninos gostavam muito de jogar peteca, bola de gude, de vez em quando eu fugia para ir jogar bola de gude. Como ficava perto, a professora avisava em casa. Quando espantava o meu pai estava atrás de mim. Quando vinha, já viu como é que é. Um chicote na mão, um cipó, quer dizer, quando chegava, se mandava. Então isso marca muito pela professora que o nome era Dona Ivete. Ela era muito, toda professora antigamente era muito austera, muito caxias. Tinha que ser o preto ou branco, o certo ou errado, não tinha esse negócio de mais ou menos. Eu até gosto de falar para os meus meninos um exemplo assim, a diferença em questão de educação. Eu ainda fiquei de castigo em cima de caroço de milho. Estava até falando com ela aqui há pouco. Aprontava as coisas, colocava os carocinhos de milho no chão, você de joelho. Quer dizer, a maneira da educação, há 30 anos atrás, não era muito fácil. Na verdade palmatória era assim. Na terceira série eles chamavam de sabatina, ou seja, você ia estudar tabuada, o professor te colocava no pé do quadro, todos os alunos, e perguntava para você. Você errou, perguntava para ele. Ele acertou quem dava a palmatória em você era ele e tinha um detalhe, às vezes, você ficava depois de uma menina e você ficava com pena. Quando era na mão do cara o nego puxava o que dava, porque sabia, quando era a vez dele o cara não alisava, batia para valer. Quando você ficava na frente da menina, que a menina errava normalmente as mulheres tinham mais dificuldade, na época era tabuada mesmo. Então o cara tentava dar uma bolinha ali meio faz de conta, não adiantava porque quem ia dar a mão era ele, a professora chegava e puxava. Isso era toda sexta-feira em pé do quadro, errou o bolo cantou. E era assim também, o colégio tinha as tabuadas quando tinha as palmatórias. Qualquer ato de indisciplina que você cometia o professor não batia já da terceira série para cá, mas chamava o pai. Tinha lá a sala da diretora, o pai chegava, entrava, te chamava, entrava, fechava a porta, os colegas tudo fora. E ali o pai palmatória, mesmo da brava. Funcionava assim, no colégio que eu estudei, não sei de lá para cá. Terceira e quarta séries era mais ou menos nesse estilo. O colégio existe até hoje, Colégio Alfredo Nasser era o nome do colégio onde eu terminei o primário. Alfredo Nasser era uma grande personalidade do estado de Goiás na época. Na época também, quando a gente terminava a quarta série tinha o Exame de Admissão. Você não entrava na quinta série do ginásio direto, você tinha que fazer igual vestibular hoje, você fazia uma prova de Português, Matemática, Redação e Conhecimentos Gerais, para entrar no ginásio, na época. E aí eu dancei, dancei feio, fiquei. Como era só uma vez por ano eu fiquei um ano sem estudar. Aí meu pai falou: “Bom, já que você não está estudando, o negócio é ir para roça”. Foi um ano assim, bem complicado porque o meu pai tinha acabado de comprar uma fazenda. Não tinha nada, a casa era de palha, as paredes eram de palha, não tinha nada. O meu pai estava trabalhando na fazenda fazendo umas cercas, ficamos lá só eu, minha mãe e um irmão nosso, bem mais novo, na época com dois anos. Então eu segui assim, a gente não tinha ninguém e os vizinhos mais próximos ficavam a seis quilômetros. Foi um ano de sofrimento, mas de aprendizagem. Foi quando eu resolvi realmente, falei: “Pelo amor de Deus, eu tenho que fazer alguma coisa ...” Na época eu tinha 13 anos mais ou menos, foi o ano todo na roça mesmo, para valer. Era uma região que tinha muito coco, babaçu. A gente juntava coco e quebrava durante o dia, eu e minha mãe, quebrávamos, à noite, não sei se você sabe o processo, ela ia torrar o coco, eu ia pisar até transformar em farelinho. Quando ele se transformava em farelo você pegava, punha numa panela, cozinhava, a gordura subia. Depois você tirava, punha em outra panela que eles chamavam de apurar o óleo e ficava óleo de coco, por sinal super gostoso até. A gente tinha uma bicicleta e ficava a 18 quilômetros de Pedro Afonso. Quando era sábado eu pegava o óleo que tinha, cinco litros, dez litros, tudo que tinha feito, e se mandava para Pedro Afonso, eu saia cedinho. Tinha que ir lá vender aquilo e comprar açúcar, café, as coisas que a gente precisava. Mas eu tinha que fazer de uma maneira tal que tinha que chegar antes da noite cair, que a minha mãe não ficava só, tinha medo. Então foi um ano assim, na verdade foi um ano que marcou para caramba a minha vida como pessoa, como ser humano, em todos os sentidos, porque foi bastante sofrido. E eu falei: “Eu não vou mais ficar reprovado na admissão”. Quando foi em novembro eu voltei e paguei um professor particular para me dar aula. Eu só ficava em português, era só aula de português. Ele me deu aula um mês. Aí passei e retomei a vida normal na cidade de Pedro Afonso. TRABALHO NA ROÇA A rotina da roça é o seguinte, vamos dizer que é dividido assim em dois períodos básicos. Por exemplo, o período de outubro, novembro e dezembro é o período que você está plantando. É capinar, rastelar, plantar, cuidar da lavoura, ou seja, limpar, tomar conta. Você passa aquele período todo envolvido com a roça, com o plantio em si, que seja milho, mandioca. Na época plantava basicamente milho, mandioca e arroz. Então esses três meses você basicamente ficava envolvido nisso aí. Quando era a partir de fevereiro você ficava envolvido com a colheita, colher, secar. Imagine secar arroz naquele tempo que você não tinha quadra de cimento, você não tinha secador. Nem lona porque lona, esses encerados são bem já para cá que começou a surgir. Então você secava em banda de couro de boi. Eram três, quatro bandas de couro de boi, colocava aquele tantinho de arroz, todo dia mexendo, mexendo, até ele chegar ao ponto ideal para ser armazenado. Essa atividade era num determinado período, no outro, você já tinha atividades diversas. No nosso caso, no período da seca era quebrar coco para tirar óleo, e a diversão era pescar, juntar o que fosse de vizinho possível e jogar bola. Jogar bola entrou no sangue, na época. Era pescar e jogar bola, pescar e jogar bola. Na época da seca era quebrar coco o dia todo, sentava no chão com um machado de vez em quando machucava o dedo, aquela coisera toda. Na época, por exemplo, de junho e julho, era um período que eles chamam de desmatar. Você tinha que desmatar a roça, derrubar e depois tocar fogo para, quando chegar outubro, você estar com ela pronta, fazer a cerca. Naquele tempo arame era privilégio para poucas pessoas, você fazia a cerca com a própria madeira que tirava da roça, cortava e fazia a cerca de madeira. O arame era privilégio assim para poucas pessoas que compravam até então, porque a maioria das pessoas criava porco solto e tinha que ter uma proteção para o porco para não entrar, porque senão ele entrava e acabava com tudo. Eles chamam cerca de cana, você bota uma vara deitada, depois fazia uma faixinha e fechava. Aquela cerca durava três anos no máximo, estava começando a cair. Por isso que as pessoas não faziam roça sempre no mesmo local, fazia no máximo dois anos em cada local. No terceiro ano já derrubava tudo de novo, entrava na mata virgem e já ia para frente. Mas a rotina da fazenda era essa e no nosso caso não tínhamos gado. Quando tem gado é diferente, já muda um pouco. É você olhar o gado, por no curral, tirar leite. Você já diversifica a rotina. Mas no caso, na época, como não tinha gado ainda a rotina era basicamente só agricultura mesmo, não tinha outra atividade. E é interessante assim, a gente não pagava ninguém, mas também não dava conta de cuidar da roça sozinho. Então havia um sistema, não sei se o pessoal usa hoje, a gente trocava de serviço, permutava. Vamos supor, eu ficava uma semana trabalhando na sua roça, quando era na outra semana você vinha na minha, fazia tipo um mutirão. Vamos supor, esses três dias são na roça de fulano, juntava três, quatro, cinco pessoas, os vizinhos em torno, é para fulano. Aí capinava, arrancava, plantava e deixava plantadinho. Terminava o de fulano e vinha para o outro e fazia a mesma coisa limpar, plantar. Fazia aquilo para você não ficar sozinho, porque sozinho não é fácil não. Aquele tanto de chão para você capinar sozinho é complicado. Então as pessoas trocavam o dia de serviço sem correr valor, dinheiro nenhum, era troca mesmo. Eu trabalhava um dia, depois eu recebia aquele dia de volta. Na época da colheita era a mesma coisa, as pessoas faziam muito isso naquele tempo. Não sei se hoje, eu penso que hoje é muito diferente, mecanizado, as pessoas não usam mais, não tem mais aquele negócio de enxada. O cara paga um trator, vai lá, prepara a terra, planta e pronto, não tem mais negócio de enxada, é muito raro. EDUCAÇÃO Voltei para escola, estudar, fiz o ginásio. Quando eu estava fazendo, na época, hoje é oitava série, que era quarta série foi quando eu servi o exército. Naquele tempo Pedro Afonso tinha Tiro de Guerra, faz parte da Décima Região Militar. Eu fazia a oitava série e servindo o exército. Agora, 72 foi um ano assim extremamente tenso. Foi basicamente em cima daquele auge da Guerrilha do Araguaia, 72, 73, 74, foi assim, estava no auge. E quando a gente estava servindo, por quatro vezes nós ficamos lá enquartelados, armados, esperando o avião para ir para o Pará, para a construção do Araguaia, aquela região onde o pessoal da guerrilha ficava. Foi assim, a gente não sabia se estudava, não sabia se, enfim, foi confuso demais. Uma tensão por que, para gente na época é como se aquele pessoal que estava ali fosse tudo gente extremamente perigosa, era que nem um bicho podia chegar matar. A visão era essa até porque nós éramos soldados e o exército tinha esse papel, quer dizer, tudo que eles falavam era aquilo que interessava. A gente tinha a maior preocupação, as mães então, a gente até que não, garotão, jovem, doidinho, às vezes ficava com vontade de ir. Agora, os pais, as mães, aquele choro, a gente ficava. Por duas vezes chegamos a nos arrumar, a fazer treinamento especial, para ir para o Araguaia. Então, foi um ano bem difícil, mas muito difícil, para nós que servimos o exército na época, como eu disse aquele pessoal não merecia viver, não tinha sentido, tinha que ir lá e matar mesmo, jogar, enfim, aquela coisa de soldado mesmo. Na realidade a gente recebia um treinamento para aquilo também, dentro do quartel não se falava outra coisa. Eu não sei o pessoal, eram más¬¬¬¬¬¬, matava famílias, que eram inimigos do país, aquela coisera toda. Mas isso foi um ano só terminou nós demos baixa, alguns, outros não deram. Eu nunca gostei muito, apesar de minha família ser basicamente de militar. Eu nunca gostei muito de ser militar, dei baixa, saí. Foi quando surgiu o Colégio Agrícola de Pedro Afonso, eu comecei a estudar o Segundo Grau. A fase da Escola Agrícola foi uma fase interessante porque não tinha em Pedro Afonso, na época, Segundo Grau. Só tinha o que eles chamavam de formação de professor. Não era Magistério não que davam o nome, na época, do curso era Normal. Então só tinha o Normal. E uma coisa curiosa é que, naquele tempo, o machismo era tão grande que homem não fazia Normal, quem fazia era mulher. Assim como a mulher não fazia um curso lá que era basicamente para homem, então existia essa coisa. Com só tinha o Normal, eu não tinha condição nenhuma de sair para estudar fora, enfim, não tinha jeito. Só tinha duas saídas, ou ficava sem estudar ou então ia para polícia. Aliás, havia uma pressão muito grande do meu pai, dos meus tios, que eram todos militares, para ir para polícia. E para polícia eu não queria ir. Foi quando surgiu o Colégio Agrícola, foi inaugurado em 73. Eu terminei o ginásio em 72, o colégio foi inaugurado em 73 e nós fomos a primeira turma do colégio. Muita dificuldade porque, como era um colégio estadual e era novo, faltava professor. Mas a gente conseguiu fazer um bom colégio, de certa maneira. Quando eu me formei o colégio adotou um sistema de escolher os melhores alunos. Eles faziam uma votação entre professor, diretor, toda a equipe, o corpo docente do colégio, para escolher os melhores alunos. Até então porque eles tinham muita dificuldade, ainda estavam tendo dificuldade para contratar professores para área técnica. Agrônomo não queria ir a Pedro Afonso para dar aulas, veterinário nem pensar. Naquele tempo agrônomo só Goiânia, o veterinário mais perto era só Goiânia, então o cara não vinha de Goiânia nem a pau para ser professor em Pedro Afonso, mas nem de jeito. Então eles fizeram uma escolha foram três escolhidos, eu e mais dois colegas. Só que os dois colegas casaram na época, só tinha eu, solteiro. Nós ficamos lá em Pedro Afonso quando terminou o colégio, aguardando a liberação. Era um contrato pelo Estado, pela Secretaria da Educação em contato na época, que hoje é o Ibama, que seria o IBDF, era Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal. Então eles estavam arrumando dois contratos para gente ficar dando aula em Pedro Afonso. O contrato pela Educação já tinha saído, já tinha sido homologado pelo secretário direitinho e tal. Nós estávamos aguardando o contrato do IBDF, para termos um salário um pouquinho melhor. E quando foi em fevereiro, essa história é muito engraçada. Em fevereiro foi quando a atual diretora daqui, a dona Santa, foi em Pedro Afonso. Só tinham dois colégios agrícolas em Goiás. Tinha um, se não me engano, em Rio Verde. Lá no sul, e outro em Pedro Afonso. Como estava mais próximo, ela resolveu ir a Pedro Afonso. Só que ela foi numa época errada, ela foi em fevereiro. Ela devia ter ido em novembro, dezembro, antes de terminar o ano letivo, mas ela foi em fevereiro. Então, quando chegou lá, só tínhamos nós três. Nós éramos um grupo pequeno, nos formamos em 22 alunos só, os outros todos já tinham se mandado, nós nos formamos em dezembro. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Em janeiro aquela coisa começou a demorar, os meus colegas todos já trabalhando, a gente lá e aquele negócio dependendo de política. Sem dinheiro, eu falei: “Eu vou arrumar alguma coisa”. O meu pai, aquela região era uma região que muita gente tinha carro de boi. Eu falei: “Eu vou trabalhar”. E tinha uma fazendinha perto lá do meu tio. Então o que eu fiz? Eu fui tirar lenha. Naquele tempo, em 75, na região eram poucas pessoas que tinham fogão a gás, a maioria era a lenha. Fogão a gás era uma raridade, em 75 e eu fui tirar lenha. Eu falei para o diretor, o doutor José Edgar, diretor do colégio: “Olha, qualquer coisa eu estou no mato”. Às vezes, quando chegava um político, ele chamava a gente: “Vamos lá”. Aquele negócio de ficar rodeando político, aquela coisera toda. Eu falei: “Estou no mato cortando lenha”. Saia cedinho, só voltava à noite. Eu almoçava lá na casa do meu tio, ficava pertinho de onde eu estava tirando e ficava o dia todinho. Quando a Santa chegou lá eu estava tirando lenha no mato, socado lá, foi uma luta para me achar e ela tinha que voltar no mesmo dia. Localizaram-me, eu vim, ela já tinha ido lá em casa, conversado com os meus pais. Eu fui para casa do que era o diretor nosso, o doutor José Edgar. Conheci a diretora que perguntou se eu queria vir. Mas como eu não quero? Doido para trabalhar, e estava meio preocupado com essa questão, se o contrato do Estado ia ou não sair. “Não, eu vou sim”, eu falei. “Bom, dona Santa”, o doutor José, “agora nós vamos discutir o salário”. Eu sentei, um pouco com vergonha, meio tímido. Ela falou: “Olha, eu tenho autorização da minha empresa para pagar”. Era complicado aquele negócio de moeda, mas era mil. Eu não sei se eram mil cruzeiros, se era, sei lá, mas era mil, não lembro bem o nome da moeda na época. Ele falou: “Não, mil o rapaz não vai não”. Meu Deus do céu, eu nunca tinha visto mil cruzeiros na minha vida. Mil cruzeiros? Eu quase pulava da cadeira. Ele falou que eu não vinha. “Mil, mas de jeito nenhum”. Aí eu pensei: “Não é possível”. A Santa tinha o hábito de morder a unha quando ela ficava meio, ela começou a morder a unha e falou: “Não, eu pago mil e 300”. Era um milhão e trezentos, sei lá, uma coisa assim, só sei que era mil. Ele falou: “Não, por mil e 300 ele não vai não”. Eu não agüentei mais, rapaz, eu levantei fui lá para fora, falei: “Eu não agüento isso aí, eu não agüento”. Fiquei lá fora. Um paga, não paga, um vai não vai. Eu falei: “Sabe de uma coisa, eu vou acabar com essa confusão agora”. Eu sentei, falei: “Eu vou falar que eu vou por mil e 300 e acaba com esse trem”. Eu lembro dela falando assim: “Bom, então nesse caso eu vou abrir mão do rapaz, vou procurar outra pessoa”. Esse é que era o medo, aquela preocupação de querer trabalhar, o medo era esse. Para mim quanto maior fosse o valor, melhor, lógico. Cheguei lá sentei impressionante, quando eu digo: “Agora é a minha vez”. Eu parei, quando ela falou: “Não, doutor então vamos fazer o seguinte, eu pago mil e 500”. Eu ia falar que ia por mil e 300. Foi engraçado, é uma coisa que marca tanto porque, quando eu cheguei aqui, conversando informalmente eu falei: “Não, por mim eu estava quase falando que vinha por mil e 300”. Ela queria retrair. Eu falei: “Não, de jeito nenhum. Foi um acordo, nós combinamos lá mil e 500 e pronto”. E vim para cá. Quando cheguei aqui no dia 25 de fevereiro, debaixo de uma chuva, só tinha água e uma meia dúzia de meninas. Era período de férias, devia ter uns 30 alunos aqui, nessa época já. E só mato, isso aqui não existia não, isso aqui era mato, onde nós estamos. Vou mostrar para vocês aonde é que era a escola. Era só aquele cantinho ali na beira do rio, isso aqui era serradão, mato, mato, mato, isso tudo era mato. Mas isso não me assustava porque também onde eu fui criado foi no mato, a minha vida toda, a minha adolescência toda, quer dizer, fazenda, o que eu gostava, o que eu sabia tinha a ver com fazenda. Então não me assustou essa parte não. O que me assustou mesmo foi a quantidade de água. Apesar de eu morar na beira do Rio Tocantins, mas só tinha água no leito do rio, fora do rio não tinha água. Quando eu cheguei aqui, que estava o rio aqui, onde se dizia que era só água, você ia lá era só água. Todo lado que você girava ali era só água. Na realidade nós ficávamos praticamente fechados por água, isso me assustou. Eu falei: “Santo Deus, essa água vai subir aqui numa velocidade incrível”. Assustava todo mundo, porque nós ficávamos só vendo esse pedacinho aqui, que não tinha água. Você olhava aqui embaixo, aonde tinha essas casas, lá embaixo era só água, ficava enterrado. Isso era só água. O rio vinha de lá para cá e começava a ter um lago que eles chamam Lago da Mata Azul vindo de lá para cá, então começava a fechar tudo. Cheguei exatamente na pior época, que tinha o maior volume de água. Então isso me assustou demais, era um dos grandes motivos que ninguém queria vir para cá. A pessoa, às vezes tinha colega que vinha para cá, passava um mês e ia embora. Ah, não fica aqui não. E eu agüentei fiquei, não tinha ninguém. Colocaram alojamento, só que esqueceram de falar para mim que, naquele tempo a energia era mecânica, que nove horas o motor apagava. Eu fui para o alojamento, deitei, ali pensando, enfim. Sozinho, sozinho. De repente a energia “paf”, tudo escuro. Tinha isqueiro porque eu fumo, mas vela e muriçoca, eu não dormia, muriçoca, muriçoca, a noite todinha. Eu não consegui dormir de jeito nenhum. Agora voltando lá atrás, no dia que eu cheguei, aconteceu uma coisa interessante. Quando nós descemos do avião o rapaz nos pegou numa Kombi, era o Messias, funcionário da escola. Quando nós descemos, ali embaixo, era a casa onde morava a diretora. Na hora que ela desceu da Kombi, a gente tinha mais ou menos assim umas 15 a 20 crianças, falaram assim: “Bença”, e ela “Deus te abençoe”, para todo mundo e entrou. Eu desci aí o menino começou: “Bença tio”. “Deus te abençoe”. “Bença tio”. “Deus te abençoe”. Eu nunca tinha abençoado ninguém. Eu não tinha sobrinho, não tinha. Aquilo secou, ficava só “Abençoe”. Era ruim demais, demais, demais. Tudo bem. Eu falei: “Eh, esse trem aqui está complicado. Se tiver que dar bênção a esses meninos todos eu tô ferrado”. Quando foi de manhã ela falou: “Olha, você vai tomar café, almoçar, aqui pertinho”. “Ta bom”. Acordei com uma fome, eu falei: “Eu vou tomar café”. Quando eu saí vieram uns cinco meninos: “Bença”. “Deus te abençoe”. “Bença”. “Deus te abençoe”. “Bença”. “Deus te abençoe”. Lá na frente tinha mais outro grupo: “Bença, bença”. Eu falei: “Danou-se”. Fui, tomei café, falei: “Eu tenho que dar um jeito nesse negócio”. Era todo dia, todo dia assim e os meninos só aumentando. Os meninos foram chegando. Eles estavam chegando da casa dos pais para iniciar o ano letivo. Eu falei: “Ah, eu tenho que dar um jeito nesse trem”. E um dia, passando no corredor do alojamento, que a gente chamava de maloquinha na época, moradinha e aquele menino jogando bolinha de meia, uma habilidade. Eles faziam aquelas bolas de meia e pegavam aposta, quem dava mais toque. Eu fiquei olhando, olhando. Já tinha me informado antes sobre se tinha time de futebol. “Não, não tem”. Eu falei: “Meu Deus São poucos os que jogam bola, tem o campo lá, mas já está meio largadão”. Na realidade uma das grandes paixões minhas é jogar bola. Enfim, eu pensei: “Eu vou embora, mas vou embora mesmo”. Mas não falei nada. Quando eu vi aquele menino jogar, aquela habilidade. Também não tinha muito que fazer, esse era o problema. Não fazia nada. Fiquei um mês praticamente sem fazer nada, nada, aquela ociosidade danada. Eu ficava ali vendo os meninos jogar bola, bolinha de meia. E aí, quando eu chegava lá no alojamentozinho para jogar bola, que vinha tomar a bênção, eu pegava na mão: “Deus te abençoe”. Aí dava uma bisca. A bisca é um tapinha. É, um tapa, uma cachuleta. Eu falei: “Oh, dar bênção é para o tio, para o pai, para mãe e tal”. E às vezes eu dava uma bisca um pouco mais. Então aquele que eu dava a bisca não vinha mais me dar benção. E aí começou, ele falou: “Olha, não dá benção para o Rui não porque toda vez que a gente dá benção ele dá uma bisca na gente”. Então aquele condicionamento, em cinco meses ninguém mais me deu uma benção, ninguém. Eu falei: “Graças a Deus”. Naquele tempo aqui ou você saia de avião ou então rodava 390 quilômetros para chegar a Gurupi, que dá 130. Eu sei que 390 quilômetros. Saí aqui, Araguaçu. Ia por cima. Por cima, pegava a BR 153. Só na BR você rodava 200 quilômetros para ir para Gurupi, a não ser de avião. E surgiu uma necessidade deles procurarem professor em Gurupi, eu falei: “Olha, acho que eu consigo em Pedro Afonso”. Mas na realidade não ia conseguir professor coisa nenhuma, ia embora, na verdade, eu ia embora. E o cara que era vice-diretor, o Renato, um cara bem jovem também, tinha uns 25 anos mais ou menos. Eu não tinha 22 anos, um meninão. Nunca tinha saído da minha casa para nada, nada. Nunca sai da casa do pai nem da mãe. E quando eu sabia que tinha uma proposta de emprego lá eu falei: “Eu não fico aqui de jeito nenhum”. Eu falei: “Olha, eu acho que eu consigo alguém em Pedro Afonso. Vocês me dão uma oportunidade para ir lá”. Aí eu arrumei a minha roupa toda na malinha, e coloquei um cigarro dentro da mala. Nós íamos de carro, uma Kombi. Eu saí daqui mais ou menos três horas da manhã, ele passou lá no quarto, eu coloquei a mala no bagageiro da Kombi. E tem uma casa ali, nesse tempo morava um senhor chamado Valderez, que a esposa dele ia a Gurupi [TO], acho que ao médico fazer um tratamento, ia com a gente. Naquele tempo o pessoal daqui tinha um negócio de mandar peixe, que a facilidade de pegar peixe é enorme. Aquelas caixas de peixe. Ele mandando peixe para os parentes dele lá, aí arrumar esses peixes dentro da Kombi. O rapaz falou: “Vem tomar um café aqui, eu passei café”. Eu entrei. O quê que o Renato fez o diretor? Ele sentiu que eu não voltava mais, pegou minha mala e deixou lá na casa do senhor Valderez. Fui embora. Quando eu cheguei a Araguaçu [TO]. E outra coisa, assim, cara do meio da roça, você tinha o maior medo de andar com os documentos, com certidão, tudo, dentro do bolso. Ele desconfiou porque eu pedi minha carteira: “A minha carteira, deixei a minha carteira em casa, não sei o que”. Ele desconfiou. Depois ele falou para mim: “Eu desconfiei, no dia que você me pediu sua carteira eu senti que você ia embora”. Eles não tinham assinado ainda minha carteira naquele período de experiência, aquela coisera toda. “Então, no dia que você me pediu a carteira eu senti que você ia embora”. Ele deixou minha mala. E, como eu disse, o hábito de colocar a carteira, certidão de nascimento, coloquei tudo dentro. Fiquei só com a identidade, no bolso, CPF. Aí não teve jeito, tive que voltar. Consegui. Aí realmente eu fui, trouxe um colega meu para cá, melhorou bastante. Ele tocava violão, cantava razoavelmente bem. Nós começamos a mudar um pouquinho a parte que eu diria, de diversão. Ele gostava muito de jogar bola. Nós começamos a montar time de futebol, arrumamos o campo, arrancamos mato, passamos, colocamos trave, demos assim uma girada. Começamos a treinar os meninos. Eles tinham uma habilidade assim fantástica para jogar bola. Nesse mês de abril, eles tinham me pago um salário. Quando eu voltei, passei em Gurupi, comprei [um monte] de bola com o meu dinheiro. Que eles não tinham bola, naquele tempo chamava bola de capotão. Então não tinha, era só bola de manguaba igual eu falei para você, que fazia com bexiga de boi. E aí eu comprei bola, comprei mico, e trouxe. A gente começou assim, dei aula de Educação Física cinco anos, futebol. E fomos montando um time de futebol. Nós chegamos a ter aqui nessa região o melhor desses times amador, talvez dos melhores nessa região aqui. Isso em 81, 82. Só garotão dessa Ilha do Bananal aí que nunca tinha visto bola. Então futebol é uma coisa que está no sangue do brasileiro. E de lá para cá, meu irmão, passei muitas coisas aqui. Então, naquele primeiro momento tinha uma dificuldade muito grande de encontrar os professores. Demais. Olha, a Fundação praticamente ninguém conhecia. A Escola de Canuanã []TO], na época chamava Escola Doutor Dante Pazanezzi, ninguém conhecia. Quando se falava, nem pessoas que moravam aqui próximo, em Gurupi, achavam que a gente morava na aldeia, que a escola era na aldeia. É, porque era uma aldeia. E aqui você morava em casa de palha, tipo aldeia, que não tinha nada. Então esse era um dos maiores problemas, porque a escola ninguém conhecia. Por incrível que pareça, já com mais de três anos, quatro anos de existência, as pessoas de Gurupi quando falava Escola de Canuanã, “Mas aonde é isso?” Quando falava assim: “Não, é na beira do Rio Jaguaré”, mas aí a pessoa não podia enganar. Falava: “Não, é na beira do rio, próximo à Ilha do Bananal”. “Ah, na Ilha do Bananal?” As pessoas, mesmo as pessoas que moravam aqui pensavam que Ilha do Bananal era só água e índio. “Na Ilha do Bananal? Ah, não, então não.” Mas também tinha um motivo muito forte. Na área de professor, naquele tempo o aluno terminava o magistério, ele já estava trabalhando. Então porque que ele ia sair de lá para vir para cá? A facilidade de trabalho era muito grande para quem dava aula. Então, o cara não vinha mesmo, a não ser aquelas pessoas que tinham espírito mesmo de conhecer, de: “Não, vou lá, vou conhecer, vou ter um desafio”. Então não vinha tanto é que os primeiros professores da Escola de Canuanã vieram de Porto Nacional, os primeiros funcionários. Na verdade naquela época, aqui de cidade grande só tinha Gurupi, Porto Nacional, e Paraíso, bem pequenininho. Araguaína [TO], Miracema já era uma cidade, Porto Nacional, Miracema, Pedro Afonso, são as cidades mais velhas do Estado de Tocantins, Peixe, só que Peixe não cresceu. As cidades da beira do Rio Tocantins são: Peixe, Porto Nacional, Miracema, Tocantina, e Pedro Afonso. E vinha lá embaixo Tocantinópolis, Araguaína já era bem mais jovem. Tocantinópolis é uma cidade lá no Pico do Papagaio. Então, e o que aconteceu? Porque as primeiras pessoas que vieram de Porto abriram caminho para os outros. Era um amigo: “Não fulano, venha. Aqui é legal”. E assim, então a pessoa vinha igual Pedro Afonso. Quando eu vim para cá, às vezes surgia uma necessidade, sabia que tinha um colega, então ligava, ia a Gurupi e ligava: “Olha, aqui é...”, jogava aberto, “aqui é assim, mas é bom por isso e isso e isso”. Então nós chegamos numa época, em 82, 83, que os funcionários daqui eram basicamente de Porto Nacional e de Pedro Afonso, exatamente por esta questão. A gente já estava aqui, dava informação, a pessoa vinha. Então era basicamente Pedro Afonso e Porto Nacional. Mas aí também a escola começou a criar, foi quando se formou as primeiras turmas. Já começou a abrir um leque assim bem grande. Mas na década de 70 era difícil demais, demais. Era quase impossível arrumar gente para vir para cá, exatamente por ser um pouco desconhecido e as pessoas assustavam quando falava Ilha do Bananal, índio, água. Essas eram as coisas, água e índio, porque realmente assustava, você ficava basicamente seis meses, você saia, não ficava seis meses, você saia. Mas era um custo muito alto, por exemplo, para você fretar um avião para ir a Gurupi era um salário de professor, do mês. Então o custo era muito alto. As pessoas só iam em caso de extrema necessidade para Gurupi. As pessoas se assustavam por isso. A Belém-Brasília já era asfaltada. Não tinha asfalto era daqui até a Belém-Brasília. Eram 110 quilômetros de chão, hoje nós temos só 20 que não são asfaltados, na época eram 110, até a Belém-Brasília, no trevo, que não tinha asfalto. COMUNIDADES Os índios ficavam muito na deles. Na década de 70 por aí, ficava muito índio lá e a gente aqui. A gente visitava muito a aldeia, índio andava aqui demais. Quando a gente começou a jogar futebol a gente jogava sempre com índios. Futebol aqui, futebol lá, voleibol. Então nós tínhamos um intercâmbio assim na área de esporte bem interessante. Na época surgiu um chefe de posto chamado Eliseu, ele era índio. Eliseu, ele é falecido. Então ele começou a mudar um pouquinho a visão do índio. Criou escola na aldeia. Começou a pleitear da escola a possibilidade de índio vir estudar na escola. Antes, índio lá e a gente aqui. Como eu disse as diferenças, era intercâmbio de futebol. No dia do índio as pessoas iam para festa, participavam numa boa. Então o relacionamento com os índios, assim, perfeito, excelente até então, porque apesar das pessoas acharem, os índios são pessoas de fácil relacionamento. Relacionar com índio é uma coisa extremamente fácil e é gostoso até. São pessoas extremamente francas. Índio é muito franco. Se o índio é seu amigo, é seu amigo, não tem jeito dele deixar de ser, não existe uma possibilidade. Então esse relacionamento foi muito grande. Às vezes, por exemplo, a escola dava muita coisa. O próprio funcionário. Às vezes o índio passava, pedia uma coisa, você dava. Qualquer coisa, você dava para o índio. Que índio também tem esse lado, pede bastante, principalmente as índias. Os índios homem não pedem, mas eles botam a impressão, acho que botam as mulheres para pedir. Então o relacionamento foi ótimo. Agora, a partir de Eliseu que começou a mudar. Foi quando ele começou a pleitear da escola a possibilidade de colocar índios para estudar aqui. E começou pelos filhos dele. Os primeiros índios vieram estudar aqui em 81. É assim, tudo uma coisa soma com a outra, ligado uma coisa a outra. Na época, eu disse lá atrás sobre a Guerra do Araguaia, o banco tinha uma fazenda chamada Capra no Pará, uma fazenda enorme. Então, quando surgiu a escola aqui, os pais não queriam deixar os filhos virem para cá de jeito nenhum. Aí surgiu uma conversa que o banco trazia os filhos para cá, estudava um tiquinho. Quando ficava rapazinho, pegava tudinho e mandava para fazenda, para Capra, para trabalhar de graça. Então surgiu aquela, o pai, Nossa Senhora, era difícil demais. Você tinha que ir à casa do pai argumentar, explicar. E nisso surgiu uma pessoa aqui que teve uma influência muito grande, chamado Domingos Pereira. Ele era gerente da Canuanã, bem na época para trás um pouquinho, ele tinha fazendas aqui. Então ele conhecia muita gente. Ele teve uma influência muito grande para convencer os pais a deixarem os filhos virem estudar aqui, muitos não deixavam e outros tantos vieram e fugiram, voltaram. Assim, a escola tinha uma Kombi, a gente até brincava, a única função dela era ir atrás do aluno. Chegava de manhã a gente contava muito. Contava, vamos dizer que era igual gado porque, um, dois, três, fulano, ia chamando. “Fulano, fulano, cadê fulano?” “Ih, tia, fugiu”. “Ah, fugiu?” Ia lá, corria. Mora, na barreira, pegava a Kombi e se mandava. Chegava lá, falava: “Não, mora daqui a 20 quilômetros”. Aí pegava um cavalo, selava e, então era aquilo assim, principalmente final de semana. O pessoal tinha essa coisa assim, na realidade a escola deixou de ter dificuldade para receber aluno a partir basicamente de 77. Até 76 havia certa resistência para os pais deixarem os alunos vir para cá. Deixar aluno de sete, de oito vir para cá, mas nem pensar. Vinham de nove, de dez, de 11, de 12. De oito anos, nove anos os pais não deixavam porque muitos acreditavam que realmente o banco queria só dar um pouquinho de formação, deixar eles crescerem um tiquinho, ter suporte para servir de trabalho escravo na Capra, na fazenda que ficava entre Conceição do Araguaia e Redenção, naquela Região ali. Então era muito difícil. Além disso, você imagine pegar alunos da Ilha do Bananal. A única coisa que eles sabiam fazer estudar, tinha a escolinha rural, estudar na zona rural, tomar banho a hora que bem quisesse pescar a hora que bem quisesse, e ir à festa, sem disciplina, sem regras, sem nada. De repente põe numa escola aonde o forte eram regras e disciplina, hora para tomar café, para almoçar, para jantar, para lanchar, para dormir, para levantar, para ir para o colégio, para ir trabalhar. Não era fácil. O rio, o índio não podia tomar banho no rio. O rio está aí na beiradinha, mas não podia tomar banho no rio. Tanto é que a gente fez uma cerca separando a escola do rio. Então esse era um dos grandes motivos que fazia também com que uma grande parte dos alunos fugisse. Quer dizer, eles achavam que não tinham liberdade. Um outro grande problema é também porque a gente não tinha lazer para criança, a gente não tinha lazer, não tinha uma quadra, não tinha uma piscina, não tinha o lazer mesmo. Na época, o que a gente fazia com os meninos e uma coisa que eles gostavam, era pescar. Então a gente pegava aí um grupo de alunos e ia pescar. Pescar e assar peixe. Ia pescando, tratando, temperando, a turma já ia assando e comendo. Esse era um dos lazeres que a gente fazia mais e infelizmente muito mais só com os alunos homens. As meninas sempre ficavam mais restritas. Então essa dificuldade que a escola teve de aliar essa coisa de fazer o aluno entender que o objetivo deles aqui era estudar. E às vezes ele ficava seis meses aqui, já estava bem. Aí ficava um mês na casa dos pais e começava tudo de novo. Ficava um mês vivendo do jeito que ele queria, sem limites, sem regras. Quando chegava era praticamente um recomeçar, vamos dizer assim. Eu até gosto de falar que as pessoas que lidavam diretamente com a educação na época aqui eram pessoas assim, enfim, você tinha que tirar o chapéu. Eu lidava muito com a educação, mas a minha obrigação não era que nem a do professor, da diretora, da orientadora. A minha função era um pouco diferente. Lidava bastante com os jovens, mas não tinha aquela obrigação. Mas o professor, a diretora, era um trabalho bastante complicado você pegar jovens de nove anos, dez anos, 11 anos. Como brigavam, porque lá era uma região, eu diria assim, não vou dizer bruta, mas quase isso. O que aluno brigava, de tapa mesmo porrada. O que mais tinha era aluno com a cabeça furada com pedra, enfim, era tipo aquele negócio, não leva desaforo para casa. Brincou com o outro, o outro não gostou, disputava era no tapa. E mudar isso que era uma cultura, era a cultura desses meninos, essa questão de ser machão. Comigo aqui, não vem que não tem. É muito complicado. Então isso em 76. Porque na realidade eu não falo de 75 porque eu não vivi. Quer dizer, imagino que era muito pior 74, 75 imagino que era muito pior porque em 76 ainda tinha essa dificuldade, 77, essas dificuldades, imagina em 73, 74, 75. E a alimentação, meu irmão? Essa que era dura, porque nós não tínhamos geladeira. Não tinha geladeira, não tinha energia. Então era carne, vamos dizer carne fresca só uma vez, no dia que matava, depois vinha carne de sol, que tinha que secar, peixe, basicamente isso. Aí vinha abóbora, mandioca, mas tudo comprado. A escola não produzia nada, verdura, que a própria região não tinha. Você ia comprar verdura em Formoso, não tinha. Ia comprar verdura em Gurupi, como? Também não tinha grandes supermercados, não tinha nada. Então a alimentação nossa era à base de carne, peixe, peixe famoso chamado pirosca. Alunos nossos, hoje já com seus 40 anos, falam assim: “Nossa, quando me lembro daquele pirosca de caldo”. O pirosca é o pirarucu. É o pirarucu. Então a alimentação era terrível nesse sentido, se comparando com outras épocas. Mas não é porque a escola não tinha condição de oferecer, não tinha era condição de ter, de comprar. Então era macarrão, ovos, também compravam fora, peixe, a carne. Logo surgiu a padaria, mas não conseguia padeiro. Todos os padeiros que vinham para cá eram pessoas que vinham aprender a fazer de qualquer jeito, não encontrava um padeiro para vir para cá. Tinha a padaria, tinha uma estrutura, mas não tinha quem soubesse fazer. Eles faziam umas roscas aí que Deus me livre. Se não comesse ela demais, se não comesse, de tarde ela virava pedra. Era desse tamanhozinho assim, se jogasse na cabeça furava. Então, o início foi muito difícil. Agora, o problema sério mesmo era esse, conseguir colocar na cabeça dessa molecada que o objetivo era estudar, que ele tinha que abrir um pouco a mão e que a disciplina era necessária. Na realidade era uma disciplina bastante, eu diria assim, bem dura a parte de disciplina da escola. Se você olhasse os regulamentos, jogaram alguns fora, não sei, talvez não. A gente olha assim: “Nossa, mas não é possível. A gente fazia isso aqui?” Mas o aluno que viveu aquela época também não tem nada contra, até agradece: “Olha, se não fosse isso eu teria ido embora.” E uma coisa interessante é que os alunos que conseguiram ficar aqui, que são os alunos da primeira turma, foram os alunos mais beneficiados durante todo esse tempo, foram os mais beneficiados foi aquele grupinho que entrou aqui na primeira série, segunda série. Quando eles se formaram, terminaram o ginásio, não tinha segundo grau, foi quando o senhor Amador Aguiar veio aqui a primeira vez. E o quê que eles fizeram? Orientados pela diretora eles pegaram o senhor Amador na beira do rio batendo pauzinho lá no pé de amêndoas, num banquinho. Sentaram o senhor Amador lá, falaram que eles não iam mais ter condições de estudar, que todos eles iam voltar para Ilha do Bananal, era tudo orientado, tudo papapá. Aí o senhor Amador ficou extremamente emocionado, mas não disse nada, não falou nada, enfim, ficou calado. Ele voltou para São Paulo, chamou a equipe dele lá, inclusive o senhor Carlos e deu um prazo: “Vocês têm tantos dias para receber tantos alunos aqui. Se virem com alojamento, colégio, emprego, papapá.” Foram todos para São Paulo, alunos que nunca tinham andado nem em Gurupi. Todos, todos foram para São Paulo, alojamento, alimentação, tudo, tudo. Alguns foram para o banco, outros foram para fundação, outros foram para Gastro (Gastroclínica). Todas as empresas ligadas ao banco começaram a colocar alunos da escola de Canuanã para trabalhar e estudando, ou seja, eles continuaram com a mesma mordomia que tinham, quer dizer, muito mais. Eles tinham colégio de graça, alimentação, moradia e ainda tinham o seu emprego. Quando eles terminaram o segundo grau, os que foram para faculdade ainda a Fundação bancou uma parte da faculdade, modificava o horário de trabalho, toda aquela coisera. Na realidade foram os alunos pioneiros, esses caras tiveram um privilégio em termos de oportunidade ímpar na vida, porque é muito difícil ter essa oportunidade. Ou seja, estudar numa instituição que te dá tudo de graça até a tua formação em nível de terceiro grau. Isso é difícil de acontecer, isso não acontece duas vezes. O que aconteceu com eles foi isso, desde a primeira série até o terceiro grau, formação do curso. Muitos fizeram Direito, outros Administração, vários cursos diferentes. Então foi uma turma que, quase todos ficaram ligados ao banco. Depois foram saindo. Talvez alguns permaneçam até hoje, eu não sei. Mas a grande maioria que conheço não está mais no banco. Mas são pessoas assim que devem a sua formação, não profissional só, mas como pessoa mesmo, basicamente 100% à escola, à Fundação de maneira geral. E não são só eles são centenas de jovens que devem isso. A gente não consegue mensurar, medir assim o quanto essa escola tem definido a vida de centenas de jovens. Com a escola eles são isso, sem a escola eles não seriam não vou dizer não seriam nada. Eles estariam aí na ilha sendo vaqueiro, casado, um monte de filhos. A gente conhece vários que não vieram ou alguns que vieram e voltaram. Estão aí com um retirozinho, mora numa ilha, cuida um pouco de gado, com um monte de filhos, sem condição de colocar os filhos para estudar fora. Aí vêm para Fundação. O interessante é que hoje são vários filhos de ex-alunos que estudam aqui. São vários, tem demais filhos de ex-alunos que estudam na escola hoje. Então, é difícil falar da Fundação. Voltaram muitos. Por exemplo, aqui nós tínhamos o senhor Osvaldo. Ele voltou para Gurupi, mas voltou ligado à empresa, para trabalhar na Fundação. Ficou muito tempo no Departamento de Compra em Gurupi, depois veio para cá, ficou com a gente no Departamento de Contabilidade. Mas ele não chegou a concluir o terceiro grau lá, veio concluir aqui. Agora, o ano passado ele foi convidado para ser vice-diretor numa escola em Roraima, Rondônia, Acre. Da Fundação. Em Goiânia nós temos o Edmilson. Ele ficou no banco muitos anos, saiu já tem uns quatro anos. O Edmilson era diretor do Cartão de Crédito em Goiânia, na Regional de Brasília, chegou à diretoria do Bradesco, chegou a ser Diretor do Bradesco na Regional de Brasília. Também saiu, teve uma oportunidade melhor, enfim. Nós temos o Adecildes, esse é uma história estupenda. O Adecildes era desse tamanho assim. Quando ele foi para lá, foi o único dos homens, que teve oportunidade na vida, que optou por fazer Técnico de Enfermagem, curso médio ele foi o único homem. Então eram gozações na época porque os meninos daqui da Ilha do Bananal: “O que? Fazer Enfermagem, dar banho em homem, pegar nisso, pegar naquilo, papapá, nem pensar”. Ele optou por fazer Enfermagem. Ele foi trabalhar no hospital em São Paulo, na Gastroclínica, hospital ligado ao Bradesco. Ele ficou lá o tempo todinho, aí prestou vestibular para Administração Hospitalar. Terminou o curso de Administração Hospitalar, passou a administrar uma área do hospital. Por motivo de família, os pais dele, ele resolveu vir mais para cá, veio para Goiânia. Ficou cinco anos como diretor de um dos maiores hospitais de Goiânia que é o Santa Genoveva, um dos grandes hospitais de Goiânia. O mais antigo e o maior hospital de Goiânia. Ele foi diretor ali vários anos, saiu para ir para o Estado. Hoje ele é o Diretor da Secretaria da Saúde do Estado de Goiás. É uma equipe. Estive com ele o ano passado, no mês de julho. Ele tem uma equipe de mais ou menos uns duzentos funcionários, administra todos os hospitais estaduais da região de Goiânia, de Goiás, aliás. São histórias bem assim. A mulher dele é enfermeira, é formada Enfermeira Padrão, já tem um filho. Ele só tem um filho. Então, você olha para trás, a gente que conhece, é por isso que eu falo, quer dizer, se não fosse essa Instituição, jamais chegaria lá. E todos os outros. Lá em Goiânia nós temos mais dois ex-alunos nossos que trabalham um no Bamerindus e outro no Itaú. Eu não me lembro de alguns que ainda permaneçam no Banco, não lembro. Mas para todos foi assim um privilégio ímpar. AMADOR AGUIAR Normalmente, durante os anos que eu estive aqui o Senhor Amador veio aqui quatro vezes. E ele tinha um detalhe interessante, o senhor Amador. Ele chegava e falava assim: “Oh”, vamos supor, hoje é terça, “sábado eu quero ir para Canuanã”. Acabou. Ele não avisava: “O mês que entra...” Não tinha isso não. Era: “Sábado vou para Canuanã”. Você imagina a loucura lá. Aí, o seu Carlos, aquele pessoal de lá para cá, chegava aqui, era correria, lógico, para arrumar, limpar, ajeitar aqui. O senhor Carlos, o Antônio Carlos, o senhor Jorge, sempre, o senhor Antônio, sempre vinha alguém com uma equipe. A parte mais de visual, da escola estar pintada, roçadinha, limpa, a horta estar arrumadinha, o pomar estar arrumado, o gado estar arrumado. Então era assim, sempre foi assim uma loucura. Mas a parte mais interessante de tudo isso é que era a época que nós tínhamos mais ganhos. Às vezes a gente queria, dependia de um instrumento, de uma ferramenta qualquer para melhorar nosso trabalho, você ficava aquela burocracia, ia para mesa de um, mesa de outro, mesa de outro. Então era uma época que a gente inteligentemente usava para conseguir tudo aquilo que vinha batalhando. Por exemplo: “Ah, o senhor Carlos vem mais fulano e fulano”. Aí o quê que nós fazíamos? Cada responsável por cada área juntava, falava: “Olha, aqui eu preciso disso, disso, disso, disso.” O outro lá: “Papapá”. Na hora que chegavam, cada um ia, quer dizer, não era achar que era a diretora, ia como se fosse uma coisa nossa. “Bom, senhor Carlos, faz tempo que eu tento isso, tento isso. Agora vocês chegam, enfim, se nós tivéssemos isso estaria assim, assim, assim. Se tivesse isso estaria assim, isso estaria assim”. Aí autorizava. Então era a época assim que a gente, além do prazer de vê-los. O senhor Amador era uma pessoa assim, é difícil de descrever, não dá nem, não dá. Mas assim, aquele prazer de conhecê-lo. A primeira vez foi uma coisa, para nós era como se viesse o Papa visitar a Escola de Canuanã. O senhor Amador Aguiar, nossa, para gente que trabalhava, para o aluno, era coisa difícil para descrever a empolgação, a expectativa. Então cada vez que vinha era essa confusão, mas uma confusão boa. A escola ficava limpinha, toda organizadinha. Ele vinha. O senhor Amador chorava, nesse galpão aqui. Ele já tinha um problema, já estava bem acentuado o problema dele de Mal de Parkinson. O quê que a escola fazia? Pegava os meninos, fazia homenagem, um grupinho de dança, uma musicazinha, os meninos faziam música [com o] nome do senhor Amador. Ele se emocionava, um dia ele chorou nesse galpão. Ele chorava e muita gente chorava junto, porque era muito emocionante. Nessa penúltima vez mesmo que ele veio que estava bem, foi muito emocionante a homenagem das crianças, a emoção que ele estava sentindo. O pessoal ficava até preocupado, o médico, para não ter muita emoção, aquele negócio todo. Mas como que não tem. Para gente a visita dele, não era só dele. Para nós o senhor João Carrielo vinha aqui, o senhor João vinha aqui a cada dois anos. Era uma beleza. O Sr. João Carrielo era uma pessoa que não dá também para descrever a importância dele. Eu não sei da Fundação, mas na Escola de Canuanã ele é tão decisivo ou mais do que o próprio senhor Amador. O senhor Amador que idealizou, vai fazer uma escola ali. O senhor João foi aquele homem que, quando chegou aqui e conheceu a gente, abraçou e, quer dizer, defendia, peitava, conseguia as coisas. Então se, por exemplo, a escola aqui de Canuanã, sem o Sr. João Carrielo, sem o senhor Antônio Perez e sem o senhor Carlos talvez estivesse longe do que é hoje, com certeza. Foi aquele tripé que abraçou a coisa até então porque, quando o pessoal vinha aqui, a gente tem um ponto muito forte que é a simplicidade, vinha o pessoal, a única preocupação nossa era trabalhar. Ninguém preocupava se era feriado, se eram seis horas, cinco horas, a gente queria trabalhar, queria ver a coisa. O envolvimento com o aluno era assim uma coisa extremamente intensa, mas muito forte. Eles chegavam aqui viam, aquela coisa, aquela vontade, aquela união. Então o cara não tem jeito, se apaixonava, abraçava. Quando a gente pedia alguma coisa e às vezes demorava, porque a burocracia é complicada, mas normalmente quando era Canuanã , eles terminavam liberando. CAUSOS [Na época da gravação de Iracema, a atriz Glória Pires] A gente acompanhou, mas nem tanto. Teve um grupo de alunos que acompanhou bastante e o pessoal é muito recatado. Eu pelo menos não cheguei a ter contato, só a vi e se não me engano o Nuno Leal Maia. Só vi, eu não tive contato. Agora os alunos, [alguns] meninos tiveram bastante contato, foram lá onde eles fizeram a gravação, na praia. Mas a gente, eu não tive muito contato com eles não. Também não sei muito, só sei que foi uma revolução isso aqui, para meninada, artista da TV Globo, papapá. Mas foi uma coisa interessante que era o seguinte, para nós a nossa energia chegou aqui em 86. O carro chefe de qualquer desenvolvimento, principalmente em nível de comunicação, é a energia, chegou em 86. Logo em seguida veio a televisão através de antenas parabólicas. Anterior a isso nós não tínhamos televisão na escola, não tínhamos telefone, a comunicação era feita via rádio amador. Então a gente não recebia o jornal escrito e falado nem pensar porque não tinha televisão. A gente não recebia jornal. Então a gente ficava como se aqui fosse um mundo, a gente vivesse num mundo, e passou dali era outro. Você não tinha informação no campo político, no campo financeiro, questão de ouvir um jornal, ler um jornal, ver a televisão. Você não tinha esse tipo de informação, só via rádio e não era todo mundo que tinha o hábito de ligar o radiozinho ali e ouvir a notícia não. As pessoas que vinham que já tinham tido contato, é que abriam certo espaço. Depois a escola começou a buscar esse espaço, que também a Fundação tinha um outro problema, aquela questão de não abrir. A escola não aceitava nada, de ajuda vamos supor assim. Receber visitas na área cultural demorou muito, intercâmbio cultural. Mas quando veio foi uma beleza. Até pouco tempo o aluno aqui não podia se envolver com política, ele tinha que ouvir. A escola não permitia que, vamos supor, um candidato viesse aqui e fizesse um palanque ali. Mudou um pouco também isso, o que aconteceu é o seguinte, os alunos saiam daqui para votar, não sabiam, não conheciam. Votavam para pessoas que pediam, sem a menor noção do que estavam fazendo. De 86 para cá é como se fosse uma outra a escola até 86 e de 86 para cá. Foi quando veio energia, água tratada que nós não tínhamos televisão, telefone. Enfim, uma mudança bastante acentuada, foi até difícil para gente que vinha de lá, acompanhar, principalmente na área de educação. As leis mudaram, nossa, foi complicado demais. Mas a verdade é que a Fundação praticamente ela teve duas épocas, até 86, de 86 para cá foi diferente, bem diferente. Porque você já imaginou isso aqui, como eu disse, não tinha televisão, não tinha energia, não tinha telefone, não tinha geladeira. Tomar coisa gelada nem pensar. Bem tempo depois eles compraram uma geladeira que ficava no ambulatoriozinho lá. Aquilo era só para manter uma vacina, uma coisa assim. Era muito difícil. Então você não tinha nada que o mundo, outra cidade tinha há tempos. A gente veio a ter isso a partir de 86, esse lado moderno, tipo televisão, energia, água gelada, a carne fresca a qualquer hora, o frango. Apesar de que nós começamos a criar frango em 82. Já tínhamos frango na escola, frango de corte. Mas era assim, um lote pequeno, abatia para consumir em dois dias no máximo. Fazia, deixava pronto para amanhã. Os frangos iam crescendo, nós íamos lá, matávamos mais uma quantidade. Mas já em 82 nós começamos a criar suíno, ave de postura também. O bovino de leite nós começamos, até uma história engraçada isso. Em 77 nós começamos a criar bovino de leite aqui. O senhor João Carrielo nos enviou um presente quase que de grego porque não tinha curral, não tinha pasto, não tinha nada, nada, só serrado. Ele pegou um dia, falou que queria conversar comigo, rádio amador. Eu fui, ele falou: “Olha, está chegando aí cem vacas para você tomar conta, vaca G, leiteira.” Chegamos, foi montado dentro de Formoso do Araguaia, estava aqui ó, isso no mês de março. Chega aqui, como é que chegam? Cem vacas vieram até ali, daqui a uns 20 quilômetros, ficou lá esse gado. Quando nós trouxemos esse gado para cá, você imagina, não tinha curral, não tinha cerca, não tinha pasto, não tinha estrutura nenhuma, nenhuma. E a gente não teve outra saída além de alugar um pasto na Ilha do Bananal, do outro lado do rio, colocar esse gado lá, que aqui não tinha como e começar a fazer a estrutura. Nós atravessamos no verão. O rio é seco. A gente atravessou lá, mas ficava só nessa época seca. Ficava lá maio, junho, julho, agosto, setembro e outubro, quando era em novembro a gente trazia para cá. Começamos a arrumar um pedaço de serrado aí na Fazenda Canuanã, a escola não tinha área, só tinha um pedacinho dela aqui, não tinha terra nenhuma. Eles liberavam lá 10 alqueires esse ano, a gente ia lá, arrumava, formava, no outro ano arrumava mais cinco alqueires, fomos caminhando. A nossa criação de bovino aqui foi assim de uma maneira surpreendente, sem estrutura, sem nada, nada. O colégio está aqui, o nosso primeiro curral nós fizemos ali na frente, o primeiro curral. Você imagina fazer um curral aqui, criando gado aqui dentro? Assim, primeira lavoura de arroz, primeira colheita de uma hortaliça, isso aqui é uma coisa assim extremamente raro, o local que nós fizemos a primeira horta, quando eu cheguei não tinha. O que eles fizeram comigo? Falaram: “Olha, a sua função aqui é criar um setor agropecuário”. Olhava, só tinha água, isso é que me assustou. Foi uma das coisas que me deu vontade de ir embora, que eu olhava mais um, olhava, perguntava: “Mas onde é que...”. Ele falou: “Olha, vamos começar logo com uma horta porque o retorno é rápido, a verdura tem com 30 dias, com 60, com 90 está produzindo”. “Mas aonde vamos fazer uma horta aqui, que só tem água?” Arrumaram um cantinho ali, um pedacinho enxuto lá. Arrumaram um rapaz para trabalhar comigo. Aí falou: “Criar pomar, plantar arroz, feijão, milho, mandioca, criar paca, enfim”. E nós começamos. Em 76 a gente já tinha alface, tomate, essas verduras mais fáceis de serem cultivadas, pimentão, jiló, quiabo, couve. E naquela época você falar em produzir repolho, “Ah, não, repolho não dá. Ah, beterraba, nem pensar. Couve flor, Nossa Senhora, couve flor aqui não existe, a região não produz, é quente”. Então assim, aqueles mitos de coisas que não produzia. Quando foi em 78 eles me arrumaram uma viagem a Goiânia. Tinha um cara em Goiânia, que era de Pedro Afonso, na época ele era coronel da polícia. Era muito amigo do meu pai, e eu estive com ele. Falando sobre isso, ele falou: “Eu conheço um cara aqui que vai te ajudar”. Pegou o telefone. A minha surpresa foi tão grande que o cara nada mais, nada menos do que uma das maiores autoridades em agricultura do Estado de Goiás, chamava-se Antônio Figueira, professor da UFG (Universidade Federal de Goiânia), da Escola de Agronomia. Nós conversamos, expliquei, ele falou: “Não”. Pediu para o Coronel: “Leva ele na faculdade amanhã, na UFG”. Ele me deu uma série de materiais, deu variedade de tudo que era coisa, variedades que eles estavam experimentando, testando, variedades ainda não aprovadas. Então ele me abriu um canal, e me deu material didático à vontade. Então ele abriu um canal assim na produção de hortaliças nossa aqui, ela foi decisiva. Nós passamos a produzir tudo, repolho, couve flor, beterraba, tudo, tudo. E sempre que pintava, eu comecei a fazer um trabalho de experimento aqui. Ele me dava lá, vamos supor, 15 variedades de tomate. Testava, em experimento da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e me dava. Eu ia trabalhar esse tomate aqui. De alface, várias variedades. Então eu comecei a fazer um trabalho mais ou menos nesse sentido, e o campo abriu. Nós passamos a produzir tudo na época, a nossa alimentação com isso melhorou. Mas tinha um negócio interessante, foi um outro problema de cultura, fazer com que esses meninos entendessem que comer tomate, alface, papapá, era muito mais prático do que comer pirosca. Sabe o que eles faziam? Eles, ah, botava no prato tinha que comer. Alface, papapá. Não podia desperdiçar. Não. O menino pegava e enfiava debaixo do forro da mesa, as verduras, punha até no bolso para não comer, não podia deixar no prato. Ia deixar o prato lá no barracão, ia voltar, “Come alface, come isso”. Então botava no bolso, botava debaixo do forro, quando descobriram que estava debaixo do forro, aí não colou mais. O inspetor ficava lá olhando, observando. De vez em quando levantava o forro, aquilo, sobrava umas folhinhas debaixo. O menino amassava aquilo ali, saia com ele na mão ou no bolso. Não era ele que lavava a roupa mesmo. Então foi uma batalha, a gente tinha que ir a sala de aula, “Olha, verdura é bom”. Mostrava as vantagens, e isso e isso, comparava o valor de um para o outro. Pode não ser tão saborosa, pode não encher a barriga como arroz, feijão e carne. Então a gente começou esse trabalho assim ia à sala, conversando assim numa roda. E surpreendentemente o nosso trabalho teve uma resposta muito grande com os alunos que eram ligados ao futebol, porque jogavam bola, comecei a mostrar a importância disso para eles que praticavam esporte, parará, parará. Comecei a observar, e aí uma fase de orientação o Aroldo falou: “Bom, a partir de hoje quem não comer verdura não joga bola. Quem não comer verdura não joga bola”. Esse grupo começou a gostar, apesar de que tem algumas verduras que até hoje, a gente mesmo não vai. Começou a gostar e a coisa foi essa questão assim, mas levou tempo. No início o desperdício era enorme. Já pensou, você batalha para produzir, por exemplo, cenoura. Cenoura é gostosa e arrancar ela ali e comer verdinha, a raizinha? Você chegava lá, estava o pé murchinho, você arrancava só o pé, a raizinha eles tinham comido e jogado fora. Mas quando batia aqui no centro de alimentação era diferente, a resistência era muito grande. Mas foi assim, a qualidade da comida foi excelente. FUNDAÇÃO BRADESCO Em 76, 77 e 78 eles não tinham obrigação nenhuma com atividades. Ajudavam, mas era assim, eu chegava, arrumava um grupo: “Oh, vamos fazer isso comigo, vamos fazer uns canteiros hoje, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”. Então, aquilo às vezes você juntava um grupo: “Fiquem me esperando aqui”. Quando você chegava lá daqueles cinco, três tinham fugido. Mas eu tinha, por exemplo, sempre os que jogavam bola comigo, sempre, até porque eles sabiam que, como eles falavam, não podia se sujar comigo. “Se eu não ajudar o senhor Rui ele não vai me deixar treinar, não vai me deixar jogar bola”. Nós começamos a sair para jogar fora, arrumar jogo em Formoso. Então eles faziam o possível e o impossível. Mas quando foi em 78, não dava mais, nós criamos uma área que era o pomar, começamos a formar um pomar de cítricos, laranja, mexerica, limão, e banana. Então começamos já a produzir arroz e milho, a atividade agrícola começou a se expandir. Ou a gente se organizava para que o aluno participasse efetivamente com horários, com regras, ou então a gente não tinha condição nenhuma de melhorar a alimentação, que o objetivo nosso naquela época era só melhorar a nossa alimentação e didático, a parte didática. Quando se criou o ginásio nós criamos uma matéria chamada Técnicas Agrícolas, desde a quinta série. Eu trabalhava no campo, mas dava aula aqui na quinta série de Técnicas Agrícolas mostrando para o aluno sempre a importância da agricultura e da agropecuária na vida familiar, na vida de cada um. Então eu cheguei um dia a falar: “Não da para trabalhar mais. Você pega no laço”. Por quê? Porque era só um determinado grupo que trabalhava, os outros não faziam nada assim em termos, era só para limpar o pátio mesmo, sei lá. Nós sentamos, foi quando resolvemos criar a equipe de setor com regras, com horários, aí sim. Por exemplo, quem estudava de tarde, na parte da manhã ia para o setor, dividia, vamos supor, tantos para cá, tantos para lá, tantos para cá. Nós já tínhamos pecuária de leite, tínhamos avicultura. Não, nós não tínhamos avicultura. Tínhamos o pomar e a horta e a que a gente chamava de manutenção geral, que era parte da escola, manter a escola limpa, capinar, rastelar, enfim, dentro da escola, pintar, essas coisas. E o setor de alimentação, que passou a trabalhar aluno também dentro do refeitório, em 78, ajudando a fazer comida, fazer mistura, aquela coisera toda. E os setores foram aumentando. Aí começou as vantagens. Aluno começou a trabalhar no consultório dentário, dentista, consultório médico. A cada ano que passava essa questão do setor passava a ter uma visão diferente. Por exemplo, o setor agropecuário, passamos a dar aula dentro do setor. Isso as aulas já começaram, em 82 já tínhamos o segundo grau. Então o aluno do segundo grau dava aula para aluno do ginásio ou do primário que trabalhava. Vamos supor, qualquer assunto sobre cultura de qualquer coisa, manejo de bovinos. Os próprios alunos faziam esse, desde a terceira série o aluno começava a ter aula no setor. E essas aulas eram dadas pelos alunos do segundo grau. A visão do setor foi tendo uma, assim, bem diferente do que aquele só trabalho. Ela passou a ter uma importância na aprendizagem, eu diria que definitiva, uma coisa fatal na formação do aluno do curso. Porque quando ele terminava o ginásio, entrava no segundo grau, já tinha um conhecimento enorme na área agropecuária, tanto sobre as aulas porque ele também trabalhava. Ele sabia plantar cenoura, plantar tomate, já sabia tirar leite, cuidar de um bezerro, cuidar de um frango, enfim, ele sabia tudo, praticamente sabia tudo e ainda tinha um pouco de conhecimento técnico. Como eu disse 86 foi quando surgiu energia, água tratada. A televisão começou com antenas. Quem podia comprava antena parabólica, era cara para caramba. Era interessante que, para você comprar antena parabólica, as primeiras pessoas que compraram fizeram um consórcio. Juntava cinco, fazia um consórcio. Esse mês você comprava, outro mês você comprava, que era tão cara a antena parabólica. E também em termos de estrutura da escola, nessa época a escola já foi para mil e tantos alunos. Uma coisa que eu esqueci de falar lá atrás, a escola veio de 80, a escola começou com 83 crianças, vamos dizer assim. Quando eu cheguei, em 75, aqui tinha 180 alunos. Veio subindo, subindo. Em 81 foi para 350, em 82 foi para 750, dobrou. Quando foi a partir de 86, nós fomos a mil e 200, foi quando criou toda essa estrutura. Foi a época da reforma, que teve uma grande reforma aqui. Exatamente, alojamentos, o hospital, ambulatório, o refeitório, o setor de alimentação com estrutura, quer dizer, a escola começou a mudar a visão no sentido profissional. Antes quem tomava conta da alimentação, um menino qualquer podia chegar lá e tomar conta do setor de alimentação. Mudou, tinha que ser nutricionista, começou a haver aquele profissional específico para cada área. Surgiram os grandes projetos, de avicultura, estendeu-se a parte de pecuária, a parte de pecuária de leite. A escola vinha com duzentos, trezentos litros de leite, hoje a nossa faixa é setecentos, oitocentos, novecentos, mil litros de leite/dia. A escola começou a trabalhar para ser auto-suficiente, em produção de arroz somos auto-suficientes, em produção de milho. Não compramos milho, carne, ovos, frango, não compramos leite nem queijo. Então foi assim uma época que houve uma transformação muito grande, estou mais falando no setor agropecuário. Então, muito grande na auto-suficiência, carne de suíno, enfim. Alguns projetos não deram certo. Nós tivemos um projeto de arroz irrigado, não deu certo. Nós tivemos um projeto de criar frango para abastecer a região, para vender, não deu certo por questão, eu diria assim, não foi pelo projeto, foi por questão de lei. É lei, foi questão de lei, empresa filantrópica, mais ou menos por aí. Mas, nos colégios a transformação foi muito grande. Por exemplo, antes a escola, a parte de colégio era na mão de duas, três pessoas. Tinha a diretora que administrava a escola como um todo, tinha o vice-diretor que hoje é o diretor administrativo e tinha uma ou duas orientadoras. Era muita gente, muito aluno. Eles criaram uma estrutura em termos da orientação. Vinha um orientador profissional, uma orientadora pedagógica, aliás, uma orientadora educacional, um profissional, uma pedagógica lá de primeira a quarta série, uma pedagógica de quinta a oitava série, uma pedagógica de segundo grau, e ainda havia uma diretora pedagógica. Eles criaram uma estrutura muito grande dentro da escola. O professor de Matemática tinha que ser formado em Matemática, professor disso tinha que ser professor específico. Acabou aquela, professor de Geografia tinha que ser formado em Geografia. Ou seja, foi a fase de extrema modificação no sentido positivo. Tem o lado negativo, quer dizer, vem a televisão, vem a informática, o aluno recebeu muito mais, tem acesso a informações que antes ele não tinha, informações boas, outras nem tanto. Outra coisa também, o aluno só saia daqui a cada seis meses. Daí para frente, de 95, 96 para cá basicamente, eles começaram a sair final de semana para ir à casa dos pais. Tinha os recessos escolares, quatro, cinco dias o aluno sai. Então houve assim uma mudança muito, muito grande. Esse foi o grande objetivo na questão do aluno sair finais de semana, nos recessos, além do financeiro. Você imaginou, cinco dias sem alunos aqui, o custo que fica um exemplo. E a escola trabalha em cima de previsão orçamentária, se você imaginar a escola sem nenhum aluno durante cinco dias, o que não economiza em alimentação, energia. ALUNOS Na realidade, dos anos 90 para cá, basicamente de 95 para cá, especificamente no meu caso, eu me afastei um pouco dessa área de acompanhamento do aluno. Eu me liguei muito mais na parte de produção mesmo. Agora, já na década de 70 e de 80, apesar de trabalhar na área de produção eu me envolvia muito na área da educação. Até então, como eu disse, eu dei aula até 85. Eu dava aula à noite, às vezes de manhã ou de tarde, dependendo do horário. Eu me envolvia bastante. Ou seja, eu estava ali no eixo da equipe que, eu diria assim, na equipe de educação mesmo, de orientação, professores. Já de 85 para cá eu me afastei um pouco, até porque a escola, como eu disse, diversificou, ela modernizou essa coisa, quer dizer, colocou profissionais competentes em cada área. Então eu só participo assim, mensalmente existe uma reunião que eles chamam de reuniões pedagógicas. E a gente, como é responsável pelo setor, a gente participa. Naquela reunião você se envolve e tem conhecimento dos índices da escola, de aprovação, dos índices de tudo, dos projetos desenvolvidos pelos professores, dos projetos desenvolvidos pelo setor. Naquele momento você tem conhecimento. Mas no dia-a-dia nos envolvemos com alunos, mas só aqueles alunos que fazem parte da equipe do setor. Lá são, na média 60 alunos, você se envolve no dia-a-dia, mas no grupão de maneira geral não. Mas essa dificuldade de o aluno voltar, ela em grande parte, eu esqueci de falar uma coisa interessante, em grande parte ela se dava mais em função dos pais, porque os pais ainda não tinham consciência do que era realmente ter o filho dele estudando. Então, qualquer desculpa que o filho dava, ele acreditava. Falava: “Ah, pai, lá fulano fez isso comigo”. Aí o pai zangava. Eles vinham aqui, queriam saber aquele jeitão. E uma coisa que eu esqueci de falar, que me impressionou muito, que me assustou muito na escola quando eu cheguei aqui, é porque tinha a Fazenda Canuanã aqui. Então a Fazenda Canuanã era cheia, era peão que não acabava mais. A fazenda tinha 30 e tantas mil cabeças de gado. Isso aqui era um município. Para você ter uma idéia, a fazenda de um extremo ao outro, daqui lá dá 60, daqui lá dá 40, são 100 quilômetros assim, que era a Fazenda de Canuanã, e mais ou menos 30 assim, que era desse rio aqui ao outro Rio Formoso lá. Tudo era Fazenda Canuanã. Era uma coisa enorme. E por incrível que pareça, as pessoas andavam armadas com revolver exposto igual militar. Então isso me deixou apavorado naquela época. O pessoal andava com revólver e cartucheira cheia de bala, o revolver amarrado na perna igual militar hoje. Nem militar não anda assim. Mas antes militar era assim, era revolver meio dependurado, amarrado naquela correia na perna, o pessoal aqui era assim. O pessoal chegava da Ilha do Bananal com revolver. Aí a escola proibiu: “Ninguém anda mais armado aqui dentro, nem revolver, nem... Se vier vai deixar lá fora no seu arreio, na sua cela, mas aqui dentro não se entra mais armado”. Aquela coisa me assustou demais. Assustava todo mundo que vinha. Você via o pessoal andando na rua com revolver, sacudindo de um lado e de outro igual soldado, militar. E aí vinha aquela coisa. Quando os pais vinham aqui, quem tomava essa coisa, principalmente para resolver problema de aluno, para não reclamar, tinha que ter muita habilidade, tinha que ter muita sensibilidade. E às vezes, por exemplo, a direção encaminhava. Vamos supor que o aluno reclamou de um problema que houve comigo lá na horta, quando o pai vinha a direção encaminhava aquele pai para mim. Eu que ia conversar com ele, explicar, mostrar o que aconteceu, o que não aconteceu, papapá. E nessa época eu aprendi uma coisa assim muito interessante. Cada vez que eu ia discutir uma coisa com o pai ou com aluno eu sempre, porque as primeiras vezes eu tive muita dificuldade em conseguir me entender com a pessoa porque eu queria que ele pensasse igual a mim, eu não ia conseguir nunca. E, por incrível que pareça, quem me disse isso, na primeira visita dele aqui, com um ano e meio que eu estava aqui o senhor Carlos veio aqui e eu não o conhecia. Ele gostou muito de mim, a gente conversou bastante, eu fui falar para ele de alguma dificuldade que eu tinha. Aí ele falou: “Olha, Rui, é o seguinte. Quando você for conversar com esse pessoal você tem que entender que eles são pessoas analfabetas. Então, quando você for falar, você tem que pensar igual a eles. É como se você estivesse no lugar dele. Você nunca queira que ele pense igual a você, você não vai conseguir resolver conflito nenhum nunca. E outra coisa”. É questão de lição de vida o que ele disse para mim. Ele falou: “Olha, tem outra coisa. Você nunca se preocupa em ser bonzinho, só justo e humilde. E quando você tiver dificuldade para resolver as coisas com a cabeça, deixa o coração falar.” Então são coisas assim que as pessoas passam para gente e a gente não esquece nunca. A partir daí eu peguei isso para mim e comecei a levar isso para os meus colegas. “Olha, faz assim, assim. O resultado é esse”. Porque na realidade o objetivo nosso, quando o pai vinha, era simplesmente convencê-lo a deixar o filho, só isso, não tinha outro objetivo. Era só convencê-lo: “Pelo amor de Deus, não tira o seu filho, deixa o menino aqui. Ele está achando ruim, não é fácil, mas amanhã o senhor vai agradecer”. Esse era o objetivo nosso, a gente tinha que ter todos os argumentos possíveis para convencê-lo a isso. Mas a partir de 80, como eu disse, as coisas começaram a mudar porque eles viram a importância que a escola tinha na Região, eles começaram a ver a diferença. Por quê? É a coisa, a parte bonita. Uma grande parte dos meninos que começaram a estudar começou a alfabetizar os pais. Tem vários exemplos, chegavam em casa nas férias e ensinavam os pais a ler e escrever. Isso trouxe, houve uma mudança de consciência. A escola começou a fazer reunião com pais muito mais direcionados à parte de vida, do mundo, a importância da escola, do pai, da mãe, a importância da família na sociedade. A gente começou a fazer reunião nesse sentido, ou seja, educando os pais. Antes da reunião nós chegávamos para os pais: “Olha, seu filho reprovou, seu filho teve tanto em Matemática, tanto em Português, bebebê, bebebê, seu filho cometeu esse ato de indisciplina, seu filho ficou de castigo por isso”. Então mais ou menos era assim. Depois houve essa mudança de comportamento na equipe. Também, por esse outro lado, em função dos alunos, uma grande parte começar a alfabetizar os pais. E aí houve o inverso. A procura de vagas começou a superar, o número de alunos candidatos começou a superar o número de vagas. Foi uma outra dificuldade enorme porque a escola, vamos supor, tinha 150 vagas na primeira série, tinham lá trezentos, quatrocentos querendo. Você ia olhar, sabia que daqueles pelo menos a metade precisava de verdade, mas não tinha como atender, nem tem até hoje, hoje está pior ainda. Começou esse conflito e a escola começou a por regras assim. Primeiro de preferência, alunos que moram na Ilha do Bananal. Se não tiver alunos que moram na Ilha que preencha o número de vagas nós vamos para região do município de Formoso do Araguaia, as fazendas. Aí é que o bicho pegou, as pessoas começaram a enganar. O cara morava em Gurupi, um amigo tinha um retiro na Ilha do Bananal ele vinha fazer a inscrição do aluno como se ele morasse na Ilha, instruía a criança para dizer: “Não, lá é assim, assim”. Quando você ia descobrir que ele não morava e nunca morou e nem conhecia a Ilha do Bananal, já estava com três, quatro, cinco, seis anos. Vai mandar um rapaz desses embora? Nem pensar. Ele não teve culpa nenhuma. Quando foi bem para cá, a escola instituiu uma outra regra, que dura até hoje. Várias inscrições, são cem vagas na primeira série, tem trezentos candidatos, vamos supor, seleciona cento e cinco. Vamos visitar casa por casa, não importa aonde, essa equipe são secretárias, uma orientadora, sempre eles se revezam, casa por casa. É uma maneira que a escola achou de não cometer injustiça, deixar de dar uma vaga para uma criança que realmente mora na Ilha ou mora aqui para uma que mora no Gurupi, no Formoso, que o pai ou bem ou mal tem condição, mora num local aonde tem escola. Eles fazem isso hoje. O custo é alto? É. Você imagina o cara andar duzentos quilômetros nessa Ilha do Bananal aí, de carro. O carro atola, é complicado. Mas houve mudança nesse sentido. E, como eu disse lá atrás, a questão da resistência dos pais, é porque eles não acreditavam. A partir do momento que eles passaram a acreditar. FAMÍLIA Bom, eu conheci minha esposa aqui. Ela era professora, eu cheguei aqui, como eu disse, em fevereiro, ela chegou em abril. Um mês depois. Nessa viagem que eu fiz em abril, para arrumar as professoras em Pedro Afonso, quando nós voltamos para Gurupi a gente deu uma olhada em Gurupi e ela foi uma das pessoas que vieram. E a gente casou cedo, novo, ainda bem. A gente começou a namorar, ela chegou em abril, começamos a namorar em maio de 76 e nos casamos em outubro de 77, exatamente no dia 21 de outubro. Tive três filhos, os três homens. E os nomes são engraçados, é Ruite, Robson e Rubens. E o esposa, Maria do Carmo. E a gente constituiu uma vida assim. E minha mulher trabalhou aqui até 95. Aí nós chegamos num impasse bastante interessante e difícil de tomar. Nossos filhos, o primeiro tinha terminado o segundo grau, estava se formando. Aqui na escola. O segundo não quis fazer segundo grau aqui, tem aquela coisa de jovem. Nós tínhamos e temos uma casa em Gurupi, meu sogro morava lá, ele ficou lá. Mas quando foi em 95, nós começamos a ter muita dificuldade com ele, era garotão de 12, 13 anos, com avós. Minha mulher estava bastante cansada, questão de sala de aula. E nós tomamos uma decisão, ela mudar, ela pedia demissão da empresa, mudava para Gurupi exatamente para ficar com os filhos, e eu ficava aqui. Nós já tínhamos estradas mais favoráveis. Então chegava sábado meio dia, pegava o carro, todo final de semana. Ia sábado meio dia e voltava segunda-feira quatro horas, cinco horas da manhã, todo final de semana. Depois a gente começou a inverter, eu ia um final de semana, ela vinha outro, ia um, vinha outro, a gente ficava invertendo. E os filhos foram crescendo. O meu filho, o do meio, que é o Robson, foi o primeiro a iniciar a faculdade, em 99, na UNIRIO [Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro] fazer curso de Administração. Começamos a pagar a faculdade. Em 2000 o outro mais velho prestou vestibular na UFG [Universidade Federal de Goiás] em Goiânia para Musicoterapia e também passou, mudou para Goiânia. Começou o meu dilema, vamos dizer assim, um filho em Goiânia, filho em Gurupi e eu aqui. Quando foi em 2003 o outro mais novo também entrou na faculdade de Educação Física. E o meu menino, o segundo que é o Robson, ele trabalhava numa empresa, na época ele começou a trabalhar na Celtic Empresa de Energia do Estado de Goiás, Tocantins. Ele prestou o concurso para Polícia Civil no Estado de Tocantins e passou, deixou a empresa Celtic. E nesse meio tempo ele casou, casou em 2000, casou garotão. Namorava a menina, a menina engravidou casou, é pai daquela menina, da Ana Beatriz. Entrou na Polícia Civil, e resolveu parar de estudar, mandou trancar a matrícula na Faculdade de Administração. O mais velho terminou o curso dele o ano passado, em março foi a formatura dele. Continua em Goiânia, trabalha em Goiânia, na prefeitura. Ele trabalha numa ONG chamada Cidadão 2000, que é ligada à prefeitura de Goiânia. Casou agora em junho, a mulher dele também é Musicoterapeuta, era colega de faculdade e continua a vida dele lá. O outro, o Robson, que é o da Polícia Civil, mora em Gurupi, tem aquela filha. A mulher dele está no oitavo período de Fisioterapia. O meu filho mais novo vai fazer o sexto de Educação Física. Tem uma história. Hoje minha mulher, quer dizer, como os filhos crescerem. Porque o plano era esse: “Você vai para lá, daí a dois, três anos eu vou embora”. Essa era a idéia. O tempo foi passando, foi passando e a gente foi ficando e hoje ela mora aqui, quer dizer, não tem mais necessidade nenhuma, não tem mais filho pequeno. Os filhos terminaram os seus cursos, estudaram, se tornaram homens. Então aquela fase de adolescência, que precisava de uma pessoa ali mais próximo, passou e hoje ela mora aqui. Estamos só nós dois, igual começamos lá em 77, só os dois, e os filhos por aí. Mas assim, na questão de família, é uma outra coisa que a escola nos ensina bastante, essa questão da importância da família. E a gente quando casa, você às vezes pensa, idealiza. De repente você põe os pés no chão e, enfim, a coisa não é bem como você imagina. Mas no sentido de realizado como pai e como esposo eu acho que não tenho muito a reclamar não. Primeiro pela esposa e pelos filhos que eu tenho. Meus filhos não bebem, não fumam. Tem um que bebe mais ou menos, mas têm dois que não bebem de jeito nenhum. Quer dizer, isso é muito raro. E um bebe, mas não fuma. Eu sou fumante, essa é a questão. São três jovens um futuro promissor, cada um já praticamente com a sua vida começada, só depende deles. Tudo que eu e a mãe podíamos fazer, a gente fez que era de dar condições para estudar, para fazer um curso superior, ou seja, se preparar para enfrentar essa vidona, esse mundão, que não é fácil. A concorrência hoje é brutal. Tenho uma neta que é uma coisa maravilhosa, não precisa nem falar. Hoje ela tem cinco anos. COMUNIDADES Viche Maria. Eu vou te citar um exemplo. O ano passado, a eleição para prefeito foi o ano passado. Foi. O ano retrasado, a Secretária de Educação em Formoso do Araguaia é uma ex-aluna nossa, a Isabel, foi secretária durante quatro anos. Foi considerada uma das melhores Secretárias de Educação do Estado de Tocantins. Ela fez um levantamento, quase 60% dos professores de Formoso do Araguaia são ex-alunos. E Formoso do Araguaia mesmo, nesses quatro anos, foi considerada uma das cidades que teve maior evolução na educação do Estado de Tocantins, tanto é que uma secretária não vai receber um título de uma das melhores do Estado se os seus professores não fizerem por onde. Quer dizer, não tem jeito. E quase 60% dos professores do Formoso do Araguaia eram ex-alunos. Eram não, são ex-alunos. A Região sabe, todo mundo sabe que a Região foi antes e depois da criação da Fundação. E você vai ao Estado hoje, uma grande parte do funcionário público estadual são ex-alunos. Em qualquer cidade que você vá você tem ex-alunos em prefeituras, em secretarias, no estado, Polícia Militar, enfim. Hoje, para você ter uma idéia, uma das maiores autoridades da Universidade Federal do Estado de Tocantins é um ex-aluno nosso. Ele é doutorado em Reprodução Vegetal, é um ex-aluno nosso. É a maior autoridade em Reprodução Vegetal do Estado de Tocantins, quer dizer, ele é um dos responsáveis pelo programa de experimentos no Estado de Tocantins, através da Universidade Federal de Tocantins. Então, a importância que a escola tem, sem contar a agropecuária. Por exemplo, a escola foi pioneira em inseminação artificial. A primeira fazenda a trabalhar inseminação artificial foi a escola. Nós começamos a inseminar aqui exatamente em 1979, só o gado de leite. Depois houve a transferência da Pecplan (Pecuária Planejada) para cá, hoje quase todo o rebanho dessa região é oriundo da Pecplan Fundação Bradesco. Todo o rebanho bovino da raça Nelore tem origem aqui na Pecplan. É um trabalho que a escola fazia, tinha uma equipe, veterinários, toda uma equipe. E começou a se trabalhar no melhoramento genético do rebanho na Região. Então todo o rebanho, basicamente, dessa região, é oriundo do rebanho nosso, foi a primeira região a começar a trabalhar com melhoramento genético através da inseminação artificial. Nós não somos muito acima é na agricultura, que a gente mantém aquela coisa só mesmo para se manter. Agora, na área de educação não tem. Por exemplo, o ano retrasado, o Governo Federal tem um programa de gestão de escola, escolhe a melhor escola em cada estado. No ano retrasado a melhor escola do Estado de Tocantins, uma escola em Gurupi, a diretora é ex-aluna. Que escola é assim, quando a diretora é um ex-aluno normalmente quase todos os professores são. Porque na hora que surge uma vaga, ela fala: “Vou buscar a fulana que estava lá”. Então foi considerada uma das melhores escolas do estado de Tocantins. Você vai lá, só são ex-alunos. Nós temos exemplo de alunos que tiveram problemas, têm, mas coisas raríssimas. Eu costumo falar que um dos maiores orgulhos, prazer que a gente tem, que nem outros tantos colegas que estão aqui desde o começo acompanhando essa evolução passo a passo, às vezes cheio de dificuldades. Mas você vê que uma grande parte, 90, 95% dos alunos, eu gosto de falar, que se deram bem na vida. Agora, quando você fala assim, às vezes, as pessoas, quando fala que se deu bem na vida você imagina. “Tem um bom emprego, enricou, ganhou dinheiro”. Não, não estou me referindo a isso. É achar o seu espaço ali dentro da sociedade com respeito e dignidade, não importa se trabalha de zelador num colégio, se é guarda num banco, não importa. Mas eles acharam o seu espaço ali dentro da sociedade, e com respeito e dignidade. E se a gente for olhar isso, mesmo casado, morando num assentamento, às vezes têm muitos que casaram, arrumaram uma posse. Mas são pessoas que acharam o seu espaço dentro da sociedade e são pessoas honradas e simples. Então é uma das coisas que deixa a gente feliz, deixa, porque a gente sabe que naquele caboclo ali, naquela menina, naquele rapaz, tem pelo menos uma pontinha da sua unha ali. Pelo menos uma pontinha tem ali naquele sujeito, que está ali dentro. E sem contar o engrandecimento. A gente não trabalha para isso, mas é gostoso demais. Você trabalha com a educação, você se forma aqui. Daí dez anos, ela foi sua professora, você encontra com ela e fala: “Nossa, professora, mas lhe devo isso, aconteceu isso. Se hoje eu sou assim, devo a isso, aprendi e sou grato a isso. Tal tempo você fez isso comigo, eu fiquei “p” da vida, mas logo depois eu reconheci que foi para o meu bem”. Você entendeu? E é por isso que existem professores, existe gente na educação. É por isso, porque o resto não compensa. FUNDAÇÃO BRADESCO / IMPORTÂNCIA HISTÓRICA Eu vou só voltar um pouquinho atrás. Um dia desses nós tivemos um encontro de alunos egressos aqui na escola, já foi para o terceiro ano seguido. O pessoal vem de fora trocar experiência, trazer para o aluno nosso, sua vida, as dificuldades, enfim. E a gente esteve conversando com um peãozinho e aí o menino disse uma coisa. Ele trabalha no Incra e está no último ano de Agronomia. Ele falou assim: “Seu Rui, hoje se nós tivéssemos o poder, todos nós ex-alunos, alguns ex-funcionários da Escola de Canuanã, se nós tivéssemos o poder e a capacidade de nos unir em torno de um objetivo, ninguém nos segurava. Mas é verdade, vamos supor, na área política, na área social, ninguém segurava porque são tantos. Porque outra coisa que a escola ensina, graças a Deus, é acreditar no ser humano, na sociedade, no Brasil, acreditar que a gente, não importa se A, B, C faz isso ou assado, mas que nós somos capazes de cada um fazer um pouquinho, mudar alguma coisa”. Então ele me disse isso, eu fiquei raciocinado, falei: “Mas ele tem razão”. Se junta, dentro do Estado de Tocantins, a gente mudava, eles, pelo que cada um é, que cada um ocupa, a inteligência que eles têm, a formação que eles receberam, como eles vêem o futuro, como eles foram educados, como eles foram formados. Então eles seriam capazes, tranqüilamente, de fazer isso. Tanto é, acabei de citar um exemplo, quando se junta um grupinho em determinada instituição o resultado é obvio. Eu acabei de citar o exemplo da Secretária de Educação de Formoso, acabei de citar o exemplo da Escola de Gurupi, que é aonde um grupo de ex-alunos é maior volume. É destaque na certa. Agora, em termos de Brasil é uma conseqüência, não tem jeito, porque o aluno nosso não está só no Tocantins. Mato Grosso é um dos estados que nós mais temos ex-alunos. O Pará, hoje o Sul do Maranhão, o próprio São Paulo, Minas, Goiás. Então, esses estados nós temos ex-alunos demais. Tanto Mato Grosso como Mato Grosso do Sul, Bahia que divisa com o Tocantins. Nós temos ex-aluno espalhado nesse Brasil inteiro. Quando chega o final do ano, começam a se formar, os alunos, você começa a receber e-mail, telefone do Brasil inteiro: “Ah, eu preciso de um técnico para isso, eu preciso de um técnico para isso”. Então às vezes você chega a ponto de, quando nós vamos sair todo mundo sai com a direção. Às vezes, nem sempre. Também existe uma dificuldade muito grande em nosso jovem é isso, ele sair de uma escola dessas com tudo. Ele vai para uma fazenda que às vezes não tem nem energia. E já aconteceu comigo, aconteceu com centenas. O impacto é muito forte. Chega de noite, sozinho, escuro, alimentação não tão boa quanto a que ele tem aqui. E esse é o lado que a escola está trabalhando demais para fazer o aluno ver que ele tem que passar por isso, tem que passar senão ele não vai sair daqui e ir para o céu. “Ah, vou arrumar um emprego aí”. Então hoje nós temos essa dificuldade em conseguir fazer. Um outro problema é que os nossos meninos estão fazendo o segundo grau, muito novos, 18 anos, 19 anos, no máximo 20 anos. São muito jovens, para encarar um serviço numa fazenda, chegar ali e mexer com peão, mandar peão, lidar, são muito crianças, ainda. Essa parte é muito complicada hoje. De uns dois anos para cá a gente tem essa dificuldade. AVALIAÇÃO/ PROJETO MEMÓRIA Eu disse para você no começo que um dos grandes problemas que nós tínhamos é que a escola era fechada. A própria Instituição não permitia a divulgação, não permitia uma visita. Se, por exemplo, alguém, uma autoridade qualquer solicitasse uma visita aqui, a diretora tinha que ligar para São Paulo e passar por uma série de avaliações, aquela coisera toda. A Fundação praticamente não era divulgada, ninguém conhecia. No começo conhecia através dos ex-alunos: “Ah, estudei na Fundação”. “Fundação?” E de uns anos para cá a Fundação me parece que mudou essa visão. Agora, essa questão de divulgar, para nós você não imagina, eu até brinquei agora, se fosse por mim eu ficaria aqui só tomando café. Ficava aqui uma hora, duas horas, três horas, quatro horas, cinco horas falando da fundação, especificamente da Escola de Canuanã, não jantava, não almoçava, não tomava café, ficava aí horas. Mas esse trabalho é magnífico. Você já imaginou. É livro que vocês vão publicar? Não sei se os livros vão ser só para Instituição ou se vão dar para bibliotecas, se vão mandar para terceiros, eu não sei. Mas você imagina, assim, você como ex-aluno. Você está lá, vamos supor, vamos colocar bem longe, lá em São João Del Rei, lá na ¬¬¬terra dos mineiros. Você estudou aqui. Aí, de repente você vai numa biblioteca pública ou numa própria agência do Bradesco, o livro lá. Você, de repente vai rever toda a sua história, quando você chegou aqui, a dificuldade, o que você aprendeu as malandragens que você vê que são demais quando faz. Você vai rever tudo. Como é que você se sente? De repente pode ser até no momento que você está para baixo para caramba por “n” motivos da vida. Você pega um livro daqueles e está lá Fundação. Você pega lá uma parte sobre a Escola de Canuanã, está lá: “Aqui quem falou foi o senhor Fulano, quem falou foi o senhor Fulano”. Nossa, você, quer dizer, se estiver para baixo com certeza você sobe. Mas não tem jeito. E o ex-funcionário. O resultado de um trabalho desses não tem preço. Para quem já passou aqui, para quem está aqui e também para quem vai passar amanhã o aluno entra, daqui dez anos ele vai pegar um livro desses e ver: “Estudei lá. Eu também, um pouco depois, faço parte dessa história. Convivi com essa história, vivi uma parte dela. Acho que é coisa assim e são 50 anos. É a metade da vida. Ah, quem dera a gente durar cem anos. Mas é eu diria assim, a metade da vida das pessoas, de uma Instituição. Quando nós comemoramos dez anos da Fundação Bradesco foi uma emoção muito grande, foi uma baita festa. Veio jornalista, trouxeram jornalista da Folha de São Paulo, Globo, Manchete, Jornal de Brasília, tudo que foi jornal e revista, Isto É, Veja, todos eles tiveram profissionais aqui. Então a gente pensava assim: “Nossa dez anos”. A gente pensava: “Será que eu vou estar aqui nos 20 anos? E nos 30?” Então quando foi comemoração dos 30 anos, para gente que estava nos dez e que estava nos 30 anos foi uma coisa fantástica. Quer dizer, a emoção foi muito forte, as pessoas que nem eu, o senhor Antônio que era aposentado, o cara não consegue falar nada porque a emoção toma conta e não tem jeito. E 40 anos, da Escola de Canuanã, quem está aqui, quem vai fazer parte dessa história. É onde entra esse trabalho que vocês estão fazendo, não importa a época em que você esteve, que você vai estar. Direta ou indiretamente você vai fazer parte dessa história, desse livro, enfim, desse trabalho. A gente falou muito assim sobre a parte de trabalho. Agora, tem uma coisa que sempre fez com que as pessoas aqui tivessem uma vida profissional aqui dentro mais longa, porque não é fácil. Se você imaginar, não é fácil, porque aqui não é que nem uma escola comum. Aqui você, quer queira quer não, você está envolvido durante o dia todo. Não tem aquele negócio de ser oito horas, não tem jeito. Oito horas é o compromisso lá no meu setor, de chegar lá. Eu entro às seis horas saio às 11, entro as 13 saio às 16 horas. Mas fora dali não existe, não tem como. Se você vai aqui, tem uma criança no pé de manga. Você tem que chegar lá, parar: “Filho, desce daí.” Às vezes o menino manda você tomar lá não sei aonde, xinga: “Ah, não é da sua conta”. Alguns não fazem isso, mas a grande parte faz. Você tem que ter paciência: “Oh, filho, desce daí. Você vai quebrar o braço”. Você tem que arrumar um jeito de convencê-lo a descer. Às vezes você está até descendo para almoçar ou jantar, apressado. Você corre até o risco de chegar, o restaurante ter fechado. Mas você não pode passar e fazer de conta que não viu. Então o envolvimento é toda hora, todo dia. Não tem negócio de sábado, domingo. Você estando aqui, não saindo da escola, aquilo é todo dia. Mas por outro lado existe a parte que nos deixa assim bastante tranqüilo, porque a gente é uma comunidade, que vive muito de brincar, não dispensa uma gozação. Você pisou na bola, meu irmão, com qualquer coisa, você pode ficar sossegado que o pessoal vem mesmo. Então não adianta, isso cria uma relação muito forte. E outra vantagem nossa é que a gente não tem lógico, no horário de trabalho de cada um é fulano, mas passou daí não tem diferença se é diretora, se é diretor, se é professor, se é zelador, não tem diferença esse relacionamento, não tem diferença. Não tem negócio de senhor Fulano, senhor Beltrano, sim senhor, não senhor. Não existe isso. Então isso faz com que todo mundo fique à vontade. E a brincadeira é assim, faz parte da nossa cultura. Às vezes você pode até ir para uma brincadeira um pouquinho mais pesada às vezes, mas ela faz parte. E principalmente as coisas, que o aluno faz, muita besteira, besteira demais. Lógico, faz parte, é jovem, se não fizer tem alguma coisa errada. Se o aluno não tentar burlar as normas: “Ah, é proibido tomar uma cervejinha”, ele vai achar um jeito de trazer uma latinha escondida, vai tomar. “Ah, é proibido namorar segunda-feira”. Ele vai dar um jeito de namorar segunda-feira. “Ah, tem que, não pode matar serviço”. Sempre que ele puder vai matar serviço. É normal e faz parte da formação do jovem. E a gente tem que resolver de um jeito meio brincalhão, porque se você não fizer assim... Porque é assim, você não é nem pai, nem tio, você não é nem uma coisa nem outra. Mas ao mesmo tempo você é pai, você é tio. Eu não sei se vocês estão entendendo. Ou seja, na prática eu não sou nem pai, nem tio, nem avô, nem nada, de sangue. Mas na prática eu sou pai, sou tio, sou avô, sou irmão. E dependendo da situação, eu vou ter que atuar como pai ou como irmão ou como um tio. De uma forma ou de outra tem que escolher um personagem desses para atuar. Eu, particularmente, eu gosto de atuar muito mais como irmão, porque aí vou na gozação. AVALIAÇÃO /ENTREVISTA Quando o Ricardo me ligou, isso tem mais ou menos um mês talvez, ele não afirmou, ele falou: “Há essa possibilidade, você aceita?” Eu falei: “Rapaz, mas é com todo prazer”. Quando foi agora a semana passada o Manoel me ligou, depois eu conversei com você. Para mim, pessoalmente, para minha família, para os meus amigos, as pessoas que me admiram, que me respeitam, eu diria que isso é quase uma homenagem. Eu me sinto assim. É como se eu estivesse sendo homenageado. Não sei por que, mas é como se eu estivesse sendo homenageado. E eu fico extremamente feliz, mas feliz demais por fazer parte, por poder ajudá-los. E é uma coisa que não tem preço. Não tem preço isso aqui. Tanto é que eu disse, aquela hora que eu fiquei aqui, até então porque eu não estou trabalhando, matando serviço. Ah, eu é que agradeço. Eu quero só complementar uma coisa. É uma coisa que eu sempre digo, aliás, que eu sempre falo para colegas, para alunos e uma maneira também de me eximir das minhas falhas. Tudo que eu fizer, de certo ou de errado, a única responsável chama-se Fundação Bradesco. É verdade, porque a Fundação é responsável pela minha formação. Quem me fez foi a Fundação Bradesco. Eu cheguei aqui não tinha experiência profissional, não tinha experiência como pessoa. Então, qualquer coisa que eu vier a cometer, coisas boas, outras nem tanto, a Fundação é responsável, eu não tenho culpa nenhuma. A última vez que eu conversei com o senhor Carlos tem dois anos, ele ficou emocionado. Eu falei: “Senhor Carlos, se a Fundação fosse uma pessoa, uma mulher, um homem, eu seria capaz de todo dia cedo levantar e beijar os seus pés”. Ele falou: “E eu também”, pelo que essa empresa me deu. Um trabalho digno, uma família, quer dizer, graças à Fundação eu consegui constituir uma família com dignidade, com padrão de vida razoável, escola para os filhos. E acima de tudo, eu me considero uma pessoa muito rica em termos assim, como diz o pai da Lílian, o senhor Antônio, de sabedoria. Ele gosta de brincar, o senhor Antônio: “A gente não fica velho, a gente fica, cada ano que a gente envelhece fica mais sábio”. E a fundação tem isso porque a gente convive com pessoas de vários níveis, e a gente aprende a tirar de cada um, o que ele tem de bom e o que ele tem de negativo a gente deixa um pouquinho de lado. Eu tive essa sorte de conviver com pessoas assim fantásticas, tanto profissionais locais como da matriz, pessoas que eu admiro, respeito e enfim, eu vou admirar sempre. É isso meu amigo, eu fico muito feliz de estar aqui, pode ter certeza disso.

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