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História

Depois do fim, um recomeço

História de: Maria Amélia Porto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/10/2019

Sinopse

Em seu relato, Maria Amélia relembra momentos de sua vida, começa contando sobre sua infância tranquila ao lado dos pais, passa também por seu casamento, que a fez interromper os estudos graças ao machismo do marido. O relacionamento não deu certo e acabou em divórcio, mas após passar pela tristeza da separação decidiu dedicar-se aos estudos e a encontrar um trabalho, assim entrou no Tribunal da Justiça. Por fim, registra seu desejo de viajar pela Europa.

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História completa

P/1 – Nome completo da senhora, o local e a data de nascimento?

 

R – Eu chamo Maria Amélia Porto. Eu  nasci em São Paulo no Bairro do Belenzinho, no dia quatro de Fevereiro de (1935?). Meus pais são o Dr. Samuel Porto Júnior, advogado e minha mãe Dinar de Assis Barreiro, professora.

 

P/1 – E o nome dos avós da senhora?

 

R – Os meus avos paternos é Samuel Porto e Amélia O Porto. E meu avô paterno foi advogado também e jornalista. Ele era do Ceará Fortaleza. A minha família, o nome Porto... Minha família é originária do Ceará, Fortaleza, e meus avós materno são Raquel de Assis Barreiro e Vicente Barreiros. Minha avó é Paulista de Lourena, conterrânea lá de Monteiro Lobato, amiga da Dona Purezinha (risos). Minha avó gostava muito de escrever e o meu avô ele é... Foi militar, mas ele morreu muito cedo. Ele era farmacêutico, só que ele morreu muito cedo. Minha avó criou os filhos com muita dificuldade. Ela era professora, também e criou os filhos com muita dificuldade, e depois o mesmo aconteceu com a minha mãe. (risos). Que a minha mãe, também ficou viúva muito cedo, e criou os filhos com grande dificuldade, também.

 

P/1 – Certo. E me conta como é que era o dia a dia da sua família? As relações dentro de casa? Com os irmãos?

 

R – É nos tínhamos uma relação boa. A gente é... Assim bastante dificuldade financeira, tudo. Era uma vida assim, um pouco dura, né? Muita dificuldade financeira, mas era um ambiente bom, assim alegre, saudável. A gente brincava muito, aquelas brincadeiras de antigamente, né? De roda.

 

P/1 – Mais como é que eram as brincadeiras?

 

R – Brincadeira de roda, de pique, de cabra-cega. A gente gostava muito de contar histórias, a gente tinha uma... Tinha uma senhora lá em casa, que trabalhava com a minha mãe, né? A Dona Iaiá e ela gostava muito de contar histórias, e contava historias de coisas, contava muita estória de assombração, também. Ai a gente de noite (risos) ficava com um medo danado (risos).

 

P/1 – Lembra de alguma estória que ela contava?

 

R – Uma, assim de momento, assim é... Contava, como é? A mula sem cabeça, ou como é? São histórias assim, não me recordo assim, sabe? Do...

 

P/1 – Sei.

 

R – Não me recordo, assim.

 

P/1 – Mas dava medo?

 

R – Ah! Demais, a gente adorava escutar as estórias, de dia, né? De noite dava um medo (riso) Era demais o medo, sabe? Mas foi um tempo bom, que a... Nós morávamos, fomos criados. Eu nasci no Belenzinho, mas depois nós moramos em Moema. E lá, era uma casa grande. Que dizer, a casa era uma casa velha assim, ruim, mas tinha um quintal muito grande. Tinha bastantes árvores frutíferas, tinha ameixa, tinha banana, goiaba, tinha um córrego que passava perto, era o... Atualmente canalizado, né? Ali perto do Ibirapuera. É o córrego do sapateiro, atualmente tá canalizado. Ah! Conheci, foi muito bom era um tempo adorável, São Paulo. Era uma Província, era muito boa, muito gostosa a vida naquele tempo. Não tinha violência, sem violência. A gente ia para o colégio, assim. Ah, sozinha ia e voltava sozinho, sabe? Ninguém molestava a gente. Era um tempo muito bom.

 

P/1 – E como que era a escola? Como que era o colégio? Os estudos?

 

R – Ah! O colégio! Estudei no colégio Grupo Escolar Cezar Martinez, em Moema atrás da Igreja Nossa Senhora Aparecida, em Moema. No largo de Moema. Era ótimo. A minha professora, que é uma professora que marcou muito assim, que eu lembro com muita saudade dela, foi a dona Alzira Barbante. Se não me falha a memória ela ainda é viva. Ela mora ali mesmo em Moema. Ela foi minha professora nos quatro anos, né? Do primeiro ano primário até o quarto ano primário. Então era um tempo bom demais, eu gostava. Era um tempo, um tempo ótimo. Depois eu estudei, esse tempo fiz o grupo escolar, depois comecei a trabalhar muito nova, por necessidade financeira.Com quatorze para quinze anos. Ai comecei a namorar meu ex-marido, que eu comecei a namorar ele com quinze anos. Casei com dezoito, quer dizer que, foi meu primeiro e único namorado. E depois tive... Casei, morei em São Paulo, tive a minha! Primeira filha, Eloiza Helena. Depois foi meu marido, ser comerciante. Ele resolveu mudar para o Rio de Janeiro, tentar a vida lá no Rio de Janeiro. Nós mudamos para o Rio, lá no... Mas eu estava grávida da minha segunda filha, da Tânia Amara. E vivemos lá um tempo. Eu tive a Tânia Amara, vivemos um tempo, assim. Depois não sei, acontece que nós tivemos um, eu... Sei lá, um desentendimento, sabe? Acabamos por nos separar, uma coisa que eu não desejava, mas infelizmente num... A gente não tinha, não tinha clima mais, de união, sabe? E eu... Nos separamos.

 

P/1 – No Rio mesmo?

 

R – No Rio eu morava no... Esse tempo eu morava na Baixada Fluminense, na cidade de Nilópolis. E foi uma coisa muita sofrida, foi uma coisa que eu sofri muito. Esse tempo na minha vida, essa separação me marcou muito, sabe? Mas tudo na vida é passageiro a gente... As feridas cicatrizam, e a vida continua.

 

P/1 – E a senhora continuou no Rio?

 

R – Não. Ai voltei para São Paulo. Voltei para São Paulo porque justamente, também não estava bem de saúde, eu tive... Tava assim, tive problemas, assim... A separação, tudo. Me deixou com problemas psicológicos, pode se dizer, né? Então eu fiz tratamento. Depois comecei trabalhar, trabalhar e estudar, então fui terminar. Ai fui terminar, ai fiz o... Terminei o ginásio, lá onde a minha mãe mora. Vim morar com a minha mãe, em São Paulo. Voltei a morar em São Paulo, na casa da minha mãe, com os meus filhos e morei lá na Freguesa do Ó. Na Freguesia do Ó, e estudei no colégio da Vila Brasilândia, fiz o terc... Fiz o ginásio na Vila Brasilândia. Ai, trabalhava numa Empresa no Automóvel Clube do Estado de São Paulo. Ali na Rua Martins Francisco, ali em Santa Cecília.

 

P/1 – Para fazer o que?

 

R – Eu era auxiliar de escritório. Auxiliar de escritório e trabalhava lá. Gostava do meu serviço, tudo. Trabalhava lá e tudo. Ai por acaso, veio um oficial de justiça dizendo que... Para intimar um colega meu, e eu perguntei: “Já algum concurso lá no fórum?”. Assim, eu gostaria de trabalhar no poder judiciário, tudo. Mesmo porque acho que é um pouco assim, de coisa, porque o meu pai era advogado, foi advogado e o meu tio chegou a ser desembargador do Tribunal de justiça, e não sei, é coisa assim de família, né? “E vai ter um concurso lá”. Quer dizer, veja bem meu tio, meu avô... Meu tio já era falecido, já era ninguém, hã... Meu pai era vivo ainda, mas meu tio já era falecido e tudo. Ai eu entrei no... Fiz concurso tudo, assim bonitinho, aguardei a chamada ai fui trabalhar. E trabalhei 18 anos no tribunal de justiça. Eu adorei trabalhar no tribunal de justiça, que é uma coisa que eu gosto da área, não é? Da área de justiça. Eu gostei, trabalhei 18 anos no Fórum Regional da Lapa. Trabalhei em várias sessões, trabalhei no processamento do cível, do processamento e depois no criminal. Trabalhei também dez anos em sala de audiência, fazendo audiências com os juizes, com os juizes, e eu adorava o meu serviço. Sempre gostei muito do meu serviço. Mas agora por questões... Eu aposentei, assim um pouco antes do tempo, mas para cuidar da minha mãe, que a minha mãe ta com 83 anos, tá? Não esta totalmente esclerosada, mas parcialmente esclerosada e ela é uma pessoa de... Assim de temperamento difícil, sabe? E a única pessoa que se dá mesmo com ela. Minhas irmãs não se dão muito com ela, sabe? Elas não se afinam muito bem. Então eu tenho mas paciência com ela e tudo. Trouxe ela para minha casa e estou cuidando dela.

 

P/1 – Como é que é essa relação de separação da senhora e a sua volta ao estudo? A senhora queria estudar, enquanto estava casada? A senhora voltou...

 

R – Ah! Sim eu casei muito nova, que eu falei que casei muito nova. Então eu sempre desejei estudar. Voltar a estudar, sempre desejei voltar e só depois que eu separei então, é que eu voltei a estudar. Eu sempre desejei estudar e gosto de estudar, atualmente estudo.

 

P/1 – Sei. Enquanto estava casada?

 

R – Não dava para estudar, não dava porque, tinha três filhos e meu marido ... Muito machão, sabe? Não dava (risos). E como, é mulher, esposa é para ficar em casa, cuidar dos filhos. Ele acha esse negócio de estudar fora, assim, num...

 

P/1 – E a Senhora não concordava?

 

R – Não, não concordava com ele, mas ele achava que mulher era para ficar em casa, cuidando dos filhos, tomando conta das crianças, lavando roupa, cozinhando, e só isso. Mulher é para isso, e fim. E eu sempre, eu descordava disso, porque afinal eu queria estudar, queria melhorar, sei lá, progredir. Então eu só voltei a estudar depois que separamos.

 

P/1 – E ai a senhora foi trabalhar no fórum?

 

R – Não, primeiro eu trabalhei (numa clínica?). Depois fui trabalhar no fórum.

 

P/1 – Certo. E como era o dia a dia no trabalho do fórum?

 

R – Ah! O trabalho do fórum era assim, o trabalho com...

 

P/1 – As atividades que a senhora exercia ali?

 

R – Eu era...Trabalhei algum tempo na sala de audiência. Trabalhei dez anos na sala de audiência, trabalhei diretamente com os juizes, né? Então eu fazia depois... Eu via as pessoas fazendo depoimento, datilografava sentenças. Trabalhei na parte criminal, sentenças de... Como é que se diz, sentenças condenatórias ou absolutória, por que o juiz, é... Trabalhei mais na parte criminal e... Depois trabalhei no cartório também, na seção administrativa e ai eu ganhei, assim não... Por merecimento, porque trabalhava. Sempre fui assim, sempre trabalhei bastante, lutadora, tudo mais. Então eu ganhei uma chefia, na seção administrativa e exerci um tempo, a chefia, mas depois eu voltei a trabalhar na sala de audiência, e trabalhei com vários juizes. Uns atualmente, são desembargadores, mas eu gostei demais de trabalhar, assim na sala de audiência e ultimamente trabalhava no cartório. Uns 70... e 85. E quando inaugurou a regional da Lapa, foi de 85 a 92, eu trabalhei no cartório. Até 19... Eu aposentei agora em fevereiro de 1992, então trabalhei no cartório e trabalhava no processamento, processamento da... A parte processual.

 

P/1 – Certo.

 

P/2 – Como é, que é a vida do aposentado?

 

R – A vida de aposentada? Eu ainda não senti, ainda porque eu aposentei... Como eu falei, aposentei em fevereiro, né? Em fevereiro, em março eu tive a infelicidade de quebrar o pé, num buraco da Sabesp (risos). Então eu não senti, mas eu estou fazendo a Escola Livre da terceira idade, Faculdade Livre da Terceira Idade, da Fundação e Sociologia Política de São Paulo na Rua General Jardim. Estou adorando, sabe? Estou achando ótimo, e um tipo assim de reciclagem, né? Você estuda Português, Redação, Sociologia, Antropologia, Metodologia e Folclore também, e eu estou achando... Estou adorando. Estou adorando, sabe? E a turma muito boa, são todas pessoas assim, na mesma faixa de idade, a professora é ótima, vale citar o nome dela que é uma pessoa maravilhosa, Zuleica de Paula uma lutadora também, muito assim. Uma pessoa maravilhosa, uma excelente pessoa, né? Então eu adoro lá a faculdade, e faço segundas e quartas. Eu vou na parte da tarde, da faculdade e nas sextas feiras, sempre tem palestras na Biblioteca Monteiro Lobato que eu também costumo frequentar. E faço aulas de terças e quintas, de manhã. Faço aula de cerâmica na Casa da Solidariedade, ali na Rua Guaianazes esquina com a Alameda Nótima. É do Fundo da Solidariedade Palácio dos Bandeirantes. Eu também adoro fazer, Sabe? Eu gosto... Eu nunca fiz assim, trabalhos manuais, né? Mas agora comecei a fazer e estou ... Acho que é uma ótima terapia, e estou adorando. Eu tirei até uma carteira de artesã na (Artepac?). Eu faço flores, é faço flores, em especial rosas (riso) e violetas, que eu gosto mais de fazer. Mas faço arranjos também. Se vocês quiserem conhecer os meus trabalhos, eu posso dar o endereço.

 

P/1 – Claro.

 

R – Vocês dão uma chegadinha lá em casa, tomam um cafezinho comigo. Conhecem os trabalhos.

 

P/1 – Claro! Deixa eu perguntar uma coisa para senhora, dentro desses cursos que a senhora faz como que são os colegas? O relacionamento com os colegas?

 

R – Ah! Eu adoro.

 

P/1 – As outras pessoas?

 

R – Eu me relaciono, graças a Deus, acho que é um temperamento. Eu me relaciono bem com qualquer pessoa, tanto na fase da mocidade, com meus netos, que meus netos, meu neto mais velho tá com... O Julinho esta com nove anos e meio. Tanto assim com criança como a juventude. Adoro a juventude, sabe? Acho a juventude formidável. Com pessoas assim da minha faixa de idade, também. Me relaciono bem, graças a Deus, me relaciono bem com todos eles, e eu acho ótimo. Lá no... Tanto na faculdade como lá na Casa da Solidariedade é ótimo o nosso relacionamento. É ótimo, sabe? Eu adoro aquilo lá. A gente faz aqueles trabalhos, fazendo trabalho de cerâmica, que agora nós... Até posso convidar vocês. Nós vamos ter uma exposição dia 19, 20 e 21 de Novembro, aqui na Rua Guaianazes esquina com Alameda Nótima.

 

P/1 – Certo.

 

R – E nós vamos ter uma exposição de trabalhos. E nós estamos fazendo os trabalhos para apresentar, vai ter assim, tipo de um bazar, né?

 

P/1 – Certo. E a senhora participa de alguma outra associação?

 

R – Ah! Sim eu também conheço o SESC Pompéia, eu faço excursões.

 

P/1 – Tem contato?

 

R – Excursões, geralmente eu faço excursões. Eu gosto demais de viajar.

 

P/1 – Sei.

 

R – Podendo viajar... E atualmente eu não estou podendo viajar, por causa da minha mãe que eu estou com... A minha mãe em casa e não estou podendo viajar por causa da mamãe, né? Porque estou tomando conta dela.

 

P/1- Certo.

 

R – Mas eu adoro viajar. E viajo sempre que eu posso. Eu viajo, e eu faço muitas excursões pelo SESC Pompeia, sabe? Eu frequento também o grupo do SESC Pompeia, apesar de agora, eu estar um pouco afastada por falta de tempo, mas têm excursões ótimas. Agora no mês de agosto nós fizemos no Imbu, estivemos em São Roque e...

 

P/1 - Pra que são estas excursões?

 

R – As excursões são... São pessoas assim tudo nessa faixa de idade, tudo. A gente vai passear, vai... Agora esse mês nos vamos. A turma vai para Blumenau para Oktoberfest, aliás, Blumenau! Não. A Oktoberfest é... É uma outra minha amiga que nós viajamos juntas também, e ela vai. Até eu era para ir agora a Oktoberfest que eu fui em 1990.

 

P/1 – Sei.

 

R – Adorei, sabe? Mas agora não vai dar, justamente por causa do problema da minha mãe, sabe? Ela me convidou para ir, também. Vai ela e filha, né? E não vai dar, esse ano. Agora foi a última excursão do SESC Pompeia, foi em Holambra, eu adorei também. Foi um... Assim, aquelas flores lindas, maravilhosas, tulipas, né? Tem aquelas coisas... Tudo... E em holandês, né? As casas, estilos, as pessoas, as vestimentas, eu achei lindo.

 

P/1 – Qual foi a coisa que mais marcou na vida da senhora?

 

R – A coisa que mais marcou na minha vida? O nascimento dos meus filhos.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque foi um momento muito especial, foi um momento lindo. A primeira filha Eloisa Helena nasceu assim bonita, assim grande, bonita. Nasceu com quatro, mais de quatro quilos, assim. Foi um momento mágico, sabe? A Tânia Amara também foi, ela nasceu... A Heloisa nasceu em São Paulo. Tânia Amara nasceu no Rio, até o dia tava uma trovoada assim... Deu uma chuva assim, que encheu tudo, lá no Rio de Janeiro. Foi um... Teve um temporal terrível lá, quando entrei na casa... Na maternidade, tinha água, assim pela cintura não, pelas pernas, sabe? De tanta água que tinha. E depois meu filho também, que eu tinha duas meninas, não esperava mais ter menino, sabe? Ah! sei lá, tem duas meninas ta ótimo. Tá? Tudo bem, né? E de repente assim, aconteceu. Veio o Reinaldo que é um filho lindo, maravilhoso, e eu acho que é um dos momentos mais felizes da minha vida. Foram esses e também outros assim, quando eu recebi meu...

 

P/1 – Fala dos outros?

 

R – Quando eu me formei, quando recebi meu diploma do ginásio. Aquilo foi uma grande alegria para mim. Quando eu recebi o diploma também do técnico de secretariado, também foi um momento assim muito gostoso, sabe? Foi um dia muito feliz. O nascimento do meu neto, também foi um dia muito feliz na minha vida. Quando nasceu o Julinho assim, o primeiro neto foi... Deixou encantada

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ah! Porque... não sei, é uma renovação. É como se fosse um filho também, sabe? É o neto. é! O neto é duas vezes filho (risos).

 

P/1 – E qual é o sonho da senhora?

 

R – Meu sonho?

 

P/1 – É?

 

R – Eu tenho um sonho, meu sonho é viajar, conhecer a Europa. Em especial os países de origem latina. Ah, Portugal, Espanha, Itália, França. Esse é o meu sonho. Se Deus quiser vou realizá-lo (risos). Estou juntando meu dinheirinho ai para ir para lá.

 

P/1 – A senhora ainda vai para lá?

 

R – Ah! Se Deus quiser eu vou (risos).

 

P/1 – (risos).

 

R – Eu estou juntando meu dinheirinho, que estar difícil porque a gente aposentado não ganha... Ganha pouco, não é? Mas a gente sempre guarda um pouquinho, né? (risos).

 

P/1 – E como é que vai ser sua viagem?

 

R –Ah! Essa viagem é... Viagem dos meus sonhos (riso). Eu acredito que o ano que vem talvez eu possa ir, era. Eu até inclusive até perdi... Eu ia viajar este ano com uma senhora espanhola... Assim, uma conhecida, né? Mas não deu, e justamente por causa do problema da mamãe, né? Porque ela não queria, não quis ficar com a minha irmã e era, não sei... Aquela coisa toda. No fim eu acabei desistindo, né? E também por causa que o dólar subiu muito (risos).

 

P/1 - E porque que a senhora escolheu esses países, Portugal, Espanha?

 

R – Portugal, Espanha?

 

P/1 – É?

 

R – Porque eu acho que eu tenho minhas raízes né? De... Alemanha, também eu gosto muito de Alemanha, porque a minha avó, a minha avó paterna era filha de Alemães e, eu acho que tenho assim alguma... Como fala? Influência, né? A minha mãe tem ascendência espanhola. A bisavó dela era Espanhola, né? Eu acho lindo a Espanha, as músicas, as danças, as... Tudo. Os vestuários, eu acho lindo. As músicas espanholas, as músicas flamengas. Ah! Eu adoro, eu acho lindo, e Portugal também tenho a... Família do meu pai têm origem de Portugal. Meu nome é Porto, é uma das mais famosas cidades de Portugal. E a Itália também, por causa da Itália, por causa da... Acho que assim, por causa da religião, do...Eu sou católica, apostólica e romana, né? Acho que é por causa da igreja, depois eu gostaria também de conhecer aqueles... Vê assim, Roma. Aquelas coisas que você lê na bíblia, que você vê, que você ouve na igreja, né? Os teatros romanos onde os cristões eram sacrificados, né? Então não sei, dai é muito difícil na minha cabeça. Escutava muito a minha avó contar essas histórias de cristão, e aquela coisa toda. Então ficou muito, no fim na... Então, eu tenho vontade de ver o Coliseu, antes que acabe, né? (risos).

 

P/2 – Vocês comemoravam as festas religiosas? As comemorações?

 

R – Ah! Comemorava sim. Todas as festas religiosas que a minha família é de ... Muito católica, religiosa. Então natal, páscoa, sempre comemorando em família assim, sempre.

 

P/2 – Como é que era as comemorações?

 

R – Era assim. Ah, reunia a família inteira, né? E com a páscoa, a minha avó... tinha o jardim, né? Ela escondia assim, os ovinhos. A gente ia procurar os ovinhos, no dia de páscoa, era um barato (risos). A gente escondia assim, os ovos, a gente ia procurar no jardim (risos). E natal também, a minha sempre... Apesar da pobreza assim, a gente estava numa situação financeira meio dura, né? Mas a gente sempre comemorava, tinha vestido novo, sapatinho novo, um brinquedo, e era muita alegria.

 

P/2 – E o quê que tem de diferente de como era antes, da comemoração de hoje?

 

R – Ah! Hoje em dia a família esta toda espalhada. Esta toda... Alguns morreram. Faleceu meu irmão, faz dois anos e meio, assim. Morreu rapidamente em 35 dias, de câncer. Então foi uma coisa, assim. Depois sei lá... Acabou, sabe? A família não ta mais unida, sabe? Foi, era mais unida, hoje em dia esta mais dispersa.

 

P/2 – Sei.

 

R – Isso é uma coisa, que me deixa às vezes triste, que eu acho que a coisa mais bonita é a união da família. Tudo, tudo começa com a família, então a união da família é uma das melhores coisas da vida. Infelizmente hoje em dia, a gente não consegue assim aquela harmonia, aquele entendimento, não sei se a minha vida corrida, vida agitada, é tanta coisa hoje...

 

P/1 - Se a senhora pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que a senhora mudaria?

 

R – Se eu pudesse mudar, ah, eu pediria a Deus para unir muito a minha família, em especial eu, meus filhos, até meu ex-marido, e as minhas irmãs.Queria muito arrumar uma união total, assim entre a minha família. E assim, muito amor, carinho, assim universal, sabe? Um amor universal, que todo mundo se entendesse, e aquelas, que as palavras de Cristo “Amai uns aos outros como eu vos amei”. Então que isso fosse universal, que não houvesse tanta violência, tanta corrupção, tanta, sabe? Tudo que não é bom, então sei... Eu acho o seguinte, o mundo iria melhorar se as palavras do Cristo fossem respeitadas. “Amai a Deus e amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”. Então isso era o ... Se isso fosse, se as pessoas fizessem isso, esse mundo seria muito melhor.

 

P/1 – Seria isso que a senhora falaria para os mais jovens?

 

R – Falaria, falaria para os mais jovens. Eu falo sempre pro meu neto, (risos) pros meus netos, né?

 

P/1 – Certo.

 

P/2 – E da sua experiência de vida, o que é que a senhora gostaria de dizer?

 

R – Da minha experiência?

 

P/2 – É?

 

R – Olha, minha experiência de vida, foi uma experiência de muita luta, de muito sacrifício. De... Eu sempre lutei com muita dificuldade, com mais, com.., Gostava muito de trabalho, em fim, sabe? Não tem um... O trabalho, eu adoro o trabalho, sabe? Tudo que eu faço, com muito amor. Tudo que eu faço, desde de fazer uma comida, um arroz, um feijão, uma coisa mais simples que seja, até fazer uma flor, tudo faço com amor. Procuro fazer tudo com amor. Em tudo que eu faço, eu procuro transmitir amor e carinho, e tenho um carinho assim, em especial pelas pessoas mais idosas, as crianças carentes, sabe? Aquilo, aquelas coisas às vezes assim, uma criança que às vezes você vê assim, na rua. Quando você está atravessando o trânsito, não sabe? aquilo me_______ sabe aquilo. Aquelas coisas, às vezes, uma criança assim, que as vezes você vê assim, na rua no (barulho). Quando você esta atravessando o trânsito, não sabe? Aquilo me choca, sabe? E tanta pobreza, tanta miséria, sabe? Num país tão grande, tão bonito como o nosso, e a gente devia ter uma vida melhor, sabe? Tudo depende do... Depende não é só dos governantes, de todos, não é? Falo, depende do povo, em geral. Uma das coisas que me deixou assim, muito triste outro dia, que eu amo a minha cidade. Eu sou paulistana e eu amo a minha cidade. Eu passei na Praça da Sé. Me chocou demais, ver tanta sujeira na Praça da Sé, sabe? Aquela, o pessoal comendo melancia, jogando todos os caroços no.... Aquilo me deixou, sabe? Chocada, viu? E tantos trombadinhas, e tanto, sabe? Tanta miséria, tanta coisa, sabe? A gente podia ter um país melhor, e acho que a gente devia, para ter um país melhor, depende da gente. Se cada um fizesse um pouco, tudo ia melhorar.

 

P/1 – Se fizesse um pouco do que? Como que a senhora poderia melhorar?

 

R – Assim, melhorar, dar... Melhorar assim, mais amor, mais carinho, mais trabalho. Trabalho também, que trabalho dignifica o homem, sabe? Nada de o... De encostar, as...De esperar do céu, esperar o governo fazer. Cada um precisa dar de se, sabe? Cada um precisa dar de si. Por exemplo, você vê, eu estou faxineira. Eu tinha uma faxineira, trabalhou comigo cinco anos. Olha não deu sorte! Que ela ganhou a loteria. Não trabalha, mais tudo bem.

 

P/1 – (risos).

 

R – Mas acontece que, eu não consigo achar uma faxineira. Não consigo uma faxineira que faça um serviço, conforme eu gosto. Porque eu sou chata. Eu gosto das coisas muito, muito certinha, muito arrumadinha. Eu sou chata, e eu não consigo achar uma faxineira, que faça o trabalho direito, pra mim. Eu não sei se é porque eu exijo muito, não sei porque... Mas, sabe? Todo mundo quer ,ninguém quer trabalhar, quer ganhar, sabe? Não está procurando trabalho, está procurando serviço, então eu fico... (risos) Danada da vida.

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa que eu devia ter perguntado antes. A senhora lia almanaques?

 

R – Almanaques?

 

P/1 – É revistinhas aqueles (almanaques antigos?)?

 

R – Ah! sim, eu sou uma devoradora de livros, leio tudo(riso). Tudo que me cai na mão, eu leio. Aqueles almanaques antigos?

 

P/1 – É?

 

R –Ah! Sim.

 

P/1 – O que é que eles tinham? O que é que atraia na senhora pra senhora ler?

 

R – Ah! Tinha receitas, tinha aquelas coisas de... Como é? Semeadura? Por exemplo no mês tal planta não sei o que.Tinha umas piadinhas, tinha umas... Tinha tanta coisa naqueles almanaques.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma piadinha?

 

R – Ah! Eu sou péssima para guardar piadinha, essa coisa eu sou péssima (riso).

 

P/1 - A senhora falou que escrevia poesia?

 

R – Escrevia poesia quando eu tinha uns 15 anos. Eu escrevia poesia (riso)

 

P/1 – E a senhora não lembra de nenhuma?

 

R – Não, eu não lembro, assim de memória, assim não lembro.

 

P/1 – E sobre o que é que eram as poesias?

 

R – Ah! Seria poesias de amor (riso). Seria poesias de amor, a gente quando esta apaixonada, o amor faz... Eu acho que o amor faz a gente produzir, né? Assim, principalmente para escrever poesia, para escrever tudo, pelo menos pra mim, né? É uma coisa minha. Se eu estou bem assim...Eu gosto muito de escrever.

 

P/1 – A senhora ainda escreve?

 

R – Escrevo, agora escrevo (risos). Escrevo assim, tipo de um diário, sabe? O que aconteceu comigo no dia, se eu estou chateada, alegre. Se eu estou bem, eu escrevo (risos)

 

P/1 – Certo. E para a gente terminar, deixa eu perguntar para senhora. Você quer perguntar alguma coisa?

 

P/2 – É, a senhora acha importante ter deixado registrado a sua história de vida, aqui? E por quê?

 

R – Ah! Eu acho importante, muito importante porque, quando eu deixar esse... esse planeta, né? E como registro pros meus netos, bisnetos, tataranetos. Eu acho que isso é muito importante...

 

P/1 – E teria mais alguma coisa que a senhora queria dizer?

 

R – Não, eu quero agradecer a vocês duas, são simpáticas a Cláudia e a...

 

P/2 – Kit

 

R – Kit? Quando eu era pequena eu tinha o apelido de kiki (risos).

 

R – Gostei muito de vocês. A mocinha ai também, é uma simpatia e o garotão.

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa, o que é que a senhora gostaria que fosse feito com esse depoimento também?

 

R – Eu? O que fosse feito?

 

P/1 – É?

 

R – Que fosse divulgado se fosse possível.

 

P/1 – Claro! Será (risos).

 

R - (riso)

 

P/1 – É isso mesmo.

 

R – Agradeço a vocês, que foram tão gentis, atenciosas e como é que chama a...?

 

P/2 – Fátima.

 

P/1 – Certo.

 

R – Gostei do teu cabelo (risos).

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