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História

Desenhado para o esporte

História de: Maykell Araújo Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Maykell nos fala sobre as cercanias de sua cidade natal, Carmo da Cachoeira, junto da história de seus pais, que lá se conheceram, se apaixonaram e se casaram. Nos conta também sobre sua infância rodeada de brincadeiras nas ruas lamacentas, do futebol, do cinema, circo e dos acampamentos da Vanguarda do Brasil. Maykell depois nos fala sobre sua conexão com o futebol desde cedo através da Associação Cachoeirense de Esporte e de suas experiências ao jogar por times da região. Sabemos um pouco sobre a sua juventude – as músicas que ouvia, os bailes que frequentava e a responsabilidade que carregou ao se mudar para Alfenas com o intuito de passar no vestibular. Em seguida, nos conta como se mudou para São Paulo, entrou na EEFE/USP e integrou a primeira equipe do Projeto Esporte Talento (PET), em 1995. A partir daí, nos conta tudo sobre o cotidiano do projeto, seus desafios diários, o espírito de sua proposta e as mudanças que ocorreram a longo de 20 anos.

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História completa

Meu nome é Maykell Araújo Carvalho, eu nasci em Carmo da Cachoeira, Minas Gerais, tenho 44 anos, nasci em 26 de março de 1971. Meu pai é Fausto José de Carvalho, ele nasceu numa cidadezinha de Minas Gerais também, chamada Nova Resende, mas muito cedo ele se mudou pra Carmo da Cachoeira, fica no sul de Minas. Minha mãe é originária de Carmo da Cachoeira, Maria do Carmo Araújo Carvalho. Eu tenho quatro irmãos: o mais velho se chama Patrick, hoje formado em Arquitetura e Urbanismo, depois sou eu, formado em Educação Física, o Wendel, formado em Engenharia Agrícola, Valesca e Michele, que fizeram Pedagogia e Letras, atuam na área de educação. Morava em uma casa simples de interior, né, como diz Carlos Drummond de Andrade,, entre casas e bananeiras são todas iguais, então no quintal da minha casa tinha galinha, tinha porco, tinha um pomar, tudo isso se misturava ali, a rua era de terra, então a gente brincava muito na terra, no barro, quando tava chovendo, era uma rua de paralelepípedo e outra rua de terra, então dava pra cair de diferentes modos e brincar de diferentes modos. A gente não tinha muita opção, numa cidadezinha do interior, nessa época, era futebol ou era futebol, né, ou você brincava, assim, você tinha acesso a outras modalidades na Educação Física, mas era de forma muito incipiente, né, então era um contato, era uma vivência com atletismo, com corrida, com handebol, com basquete, vôlei. Eu pratiquei tudo isso, fiz caratê, mas fora da escola, né, então tive a oportunidade de experimentar também as lutas marciais, né, então eu acho que foi o conjunto dessa diversidade de oportunidades que foi, né, não teve algo que influenciou mais. Como eu disse pra você, eu sempre fui muito corporal e sempre teve, mas os meus irmãos também, entendeu, eu acho que é além da oportunidade de você praticar ou ter acesso a determinada atividade, eu acho que tem outros fatores aí que levam você a ir fazendo as suas escolhas, né, também das leituras, das experiências com os amigos e na interação com outros tipos de conhecimento, que eu acho que possibilita essas escolhas aí. Em 88 eu fui pra Alfenas estudar o segundo e o terceiro colegial, porque o meu irmão mais velho já tinha ido e ele já tinha planejado vir pra São Paulo, ele queria fazer USP, né, ele queria fazer, ainda tava tentando ver o que fazia, fez vestibular pra Ciência da Computação, aí ele não passou, logo depois ele fez pra Arquitetura e Urbanismo e passou. Lá fiquei durante dois anos pra completar aí o colegial, o segundo e terceiro ano, morei com um irmão e depois com um primo, né, foram dois anos, Alfenas é uma cidade estudantil, então tem de tudo, cara, enfim, mas eu tava muito focado nessa época aí e também não tinha muita grana e tinha a responsabilidade aí também, o propósito de passar aqui na USP, né, de fazer faculdade aqui. Então eu não fiz muita farra, não, embora eu tenha morado com uns colegas lá que, até da minha cidade, que gostavam de um baseadinho (risos), então era frequente lá, mas nessa época eu tava tranquilo, tava focado, eu era muito esportista nessa época, tomava cerveja, tal, mas tava sossegado. Então foi um momento muito de foco nos estudos, né, então eu tinha essa noção de que era colégio particular, né? E aí depois morei um ano em Taboão da Serra com a minha tia, depois aí o meu irmão passa na faculdade, aí a gente foi morar em Pinheiros, na Teodoro Sampaio, né, aí ele trabalhava, ele começou a fazer faculdade e trabalhar, dar aula em escola, ele não tinha habilitação, mas se contratava, né, nessa época se contratava, ele deu aula lá no Taboão da Serra, no Parque Pinheiros. Então aí foi possível, aí quando eu entro na faculdade também, eu fui atrás das bolsas trabalho, né, que na época era permitido por dois anos e era alguma coisa pra ajudar também. Entrei na EEFE, na Escola de Educação Física, curso de licenciatura, de 91 a 94, me formei em 94. A faculdade sempre é uma fase muito gostosa, muito intensa, mas interessante que, assim, aquela vida esportiva que eu tinha no interior na faculdade eu acabei não tendo muito, eu não me vinculei, participei de alguns campeonatinhos internos, mas não me vinculei à atlética, não fui de participar de campeonatos universitários, né, então é engraçado que essa parte eu não vivenciei muito, não. Assim, eu sempre fui muito aplicado ali, né, mas logo que possível eu busquei as bolsas de apoio da pró-reitoria de assistência social, né, que era a Coseas, né, que tinha os programas que hoje é chamado de permanência, naquela época era assistência estudantil. Então eu aproveitei, fiz estágio no CEPE, o que pintava de estágio eu fazia e aí tinha essa bolsa, eu peguei os dois anos também, mas a faculdade foi muito bacana, foi muito bom. Eu já, eu comecei a atuar no CEPE antes de me formar, porque tinha alguns cursos, algumas clínicas que eles contratavam estudantes pra ajudar nas clínicas, né, e um curso de futebol infanto-juvenil também, que estava reativando aqui, a gente teve a oportunidade de se vincular temporariamente, né, e ter essa experiência. Então acabou sendo natural essa vinda, aí logo em 94 o Ayrton Senna teve o acidente, em 95 inicia o Projeto Esporte e Talento, né? A gente experimentou e tem feito, é uma das linhas de ação fortes do PET e do PRODHE, né, agora, mais recentemente, a questão de experimentar formatos de competição mais apropriados pedagogicamente para a criança, pro jovem, que garanta a permanência dele em relação à prática esportiva, pra que a prática esportiva se torne um hábito. Se tem muito essa ideia comum... Como eu ia dizendo, no universo do esporte, da competição infanto-juvenil, tem muito essa ideia de que se o garoto ou a garota não se tornou profissional, então acabou, não dá pra mais nada. Tanto que se você perguntar pras pessoas: “Por que você parou de fazer esporte?”, ela: “Ah, eu entrei no mercado de trabalho, não dá tempo”, mas muitos deles vão dizer que a interrupção foi porque: “Ah, não deu nada, eu não virei nada no esporte, não é pra mim”, então essa ideia de que aquilo não é pra mim. Porque a única perspectiva que, ao longo dos anos, a sociedade e os profissionais dessa área sempre passavam é que eu tenho que ter uma ascensão social ou eu tenho que me tornar um profissional do esporte, eu tenho que ser bom no esporte, e não que o esporte é um bem cultural, é um valor que tá ligado à própria essência do ser humano, que é movimento, né, e que é uma das práticas corporais que ele pode se apropriar e fazer parte da sua vida toda, né, é por isso que a gente vem agora discutindo o esporte, o movimento esportivo ao longo da vida. Mas a questão da competição infanto-juvenil sempre foi um embate, sempre foi um tema de bastante discussão dentro do PET e continua até hoje no PRODHE. Então a gente experimentou desde o torneio mirim, que era pra garotada até 11, 12 anos, né, torneio mirim, desde os festivais esportivos, mas mudando o instrumento pedagógico, não só adaptando o espaço, mudando o material, mas criando instrumentos pedagógicos que estimulassem a garotada a enxergar o jogo e os técnicos, os professores a detectarem outro tipo de coisas que aparecem dentro daquela situação esportiva, daquele ambiente esportivo, né? O potencial que tem de aprendizagem em todos os sentidos, né, não só aprendizagem daquilo que é específico do esporte, das suas técnicas e dos seus movimentos, mas de tudo o mais que envolve, que é a interação que promove, que é o, né, que é a questão de você entender o que que é o trabalho individual, o que que é o trabalho em equipe, o que que é a frustração, o que que é o ganhar, o que que é o perder, o que que isso significa, né, como isso impacta na minha vida, entendeu, o valor da atividade física, né, qual o conhecimento que eu tem disso, o quão importante isso é pra mim, não só naquele momento. Embora pra criançada, pro jovem aquele momento é o que tem mais significado, mas aí é mais uma tarefa nossa e a gente sempre discutiu muito isso não só com os profissionais de Educação Física e Esporte, mas de Psicologia, de Pedagogia, que posteriormente fizeram parte da equipe, e esse eu acho que foi o grande diferencial do PET, é você ter abarcado tantos outros profissionais de outras áreas, inclusive da área de arte, advindos da ECA, entendeu, com outros olhares, que possibilitaram você abordar o esporte de outro jeito. Então a gente teve experiências mais diversas possíveis, a OLIPET, que é a Olimpiada do Projeto Esporte e Talento, ela é um dos grandes legados desse processo, ela já tá na 16ª edição, então a gente vem experimentando uma série de coisas, formatos, instrumentos pedagógicos, recursos pra potencializar a aprendizagem esportiva, enfim. O PRODHE nasce por volta de 2000, ele é gestado aí 2008, e oficialmente é lançado em 2009, aí com a equipe já mais restrita, você já não tinha o apoio financeiro, a aliança, mas isso já vinha sendo trabalhado pelo próprio instituto, não foi surpresa, né, e alguns profissionais manifestaram a intenção de permanecer, outros já se dirigiram pra outras atividades ou foram por outros caminhos. Bom, qual é a minha perspectiva aí, as minhas expectativas em relação ao futuro? A gente vem internamente conversando bastante sobre isso, né, enquanto grupo a gente vem trabalhando isso, conversando, né? Tamo comemorando 20 anos, então a gente tem traçado aí alguns cenários e discutido como essa ideia, essa proposta, hoje o programa tá institucionalizado, vamos dizer assim, ele é um programa do CEPEUSP, né? O próximo desafio é que esse programa não fique dependente de pessoas, esse grupo, por exemplo, que hoje está, se esse grupo, por n motivos, pelo tempo ou por algum outro motivo, ele passa, como esse programa permanece ou não? A gente tem plena consciência de que ele teve um impacto importantíssimo nesses 20 anos pra discussão do esporte de modo geral, no terceiro setor de modo particular, mas pro esporte de modo geral ele tem contribuído, por quê? Porque desde 2003 a gente vem se envolvendo com as conferências municipais, estaduais de esporte, quando da criação do Ministério do Esporte pelo Governo Lula, né, então a gente se envolveu em todas essas discussões, então nessas conferências, se inspirando nos documentos que foram criados e retroalimentando as nossas discussões e as nossas ações, os nossos eventos.

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