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História de: Getúlio Luna Mariano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Nascido em Juazeiro do Norte, Getúlio Luna nos conta sobre como se constituiu a construção das malhas ferroviárias em estados do Nordeste. Criado com avós até os 5 anos, mudou-se para Juazeiro para morar com seus pais e, em 1950, mudou-se para Crato. Estudou na adolescência em Colégio jesuíta e, depois, formou-se em Engenharia e, no quinto ano, começou a estagiar no Departamento de Estradas e Rodagens (DER), ramo no qual permaneceu até sua aposentadoria. 

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História completa

P/1 – Getúlio, em primeiro lugar, muito obrigada por ter vindo e atendido ao nosso convite. Eu queria começar a entrevista com você dizendo o seu nome completo, local e data do seu nascimento.

 

R – Eu me chamo Getúlio Luna Mariano. Nasci em Juazeiro do Norte, no Ceará, em 16 de dezembro de 1934.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Antonio Mariano Filho, comerciante de calçados na cidade de Juazeiro do Norte e depois transferido para o Crato, lá no Ceará também, onde vivi alguns anos.

 

P/1 – E o nome da sua mãe?

 

R – Josefa Luna Mariano.

 

P/1 – Seu Getúlio, o senhor conheceu os seus avôs?

 

R – Conheci meu avô da parte do meu pai, Antonio Mariano Filho, o Antonio Mariano. Avós eu conheci as duas, Mãe Marica, e, minha avó materna, dona Ângela Luna Alencar, que me criou até os quatro, cinco anos. Eu não sei porque me colocaram para lá, para minha avó tomar conta, fiquei lá até os cinco, seis anos, parece que fiz alguma escola lá na Barbalha, depois fui morar no Juazeiro do Padre Cícero, onde fiz o Colégio Salesiano.

 

P/1 – Essa sua avó morava em outra cidade?

 

R – Barbalha, bem pertinho, a dez quilômetros e eu morava lá. Em determinada época que o meu pai morava em Juazeiro com minha mãe, me levaram lá para o Juazeiro, me tiraram da minha avó.

 

P/1 – O senhor voltou então...

 

R – Voltei para a casa dos meus pais.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho, minha mãe teve 14 filhos.

 

P/1 – O senhor fica onde nessa escadinha?

 

R – Eu fico mais ou menos no meio. Hoje, somos só cinco irmãos, três moram em Fortaleza, um no Crato, quatro, e eu aqui, cinco.

 

P/1 – O senhor estava contando que fez um pouquinho de escola...

 

R – Fiz o fundamental e o ginasial no Colégio Salesiano do Juazeiro do Padre Cícero. Lá tinha um Colégio Salesiano, quando foi nessa época, nos anos de 1950 mais ou menos, a família mudou-se para o Crato e fui fazer o científico lá.

 

P/1 – No Juazeiro do Padre Cícero, na sua escola, que era o Salesiano, como era? Era difícil, rigorosa?

 

R – Salesiano é essa educação de jesuíta, de padres católicos, bem rígido. Quando você entra, a primeira coisa você fica em fila, tocava o sino e tinha que assistir a missa, todo dia tinha que assistir a missa. Primeiro assistia a missa e ia para as aulas, tudo controlado, muito rigoroso, escola muito boa.

 

P/1 – O senhor e mais alguns irmãos estudavam lá ou só o senhor?

 

R – Eu e um outro irmão que era um ano mais velho que eu.

 

P/1 – O senhor falou Juazeiro do Norte e Juazeiro do Padre Cícero, tem diferença?

 

R – É a mesma coisa, pessoal chama Juazeiro do Padre Cícero, Juazeiro do Norte, no Ceará, porque tem Juazeiro da Bahia, então, o nome do município é Juazeiro do Norte.

 

P/1 – Daí todo mundo mudou para o Crato.

 

R – Todo mundo mudou para o Crato.

 

P/1 – Lá o senhor também continuou estudando.

 

R – Lá continuei estudando, fiz o primeiro científico no Colégio Diocesano do Crato. O Salesiano não tinha, só tinha até o Ginasial. Aí, fui fazer o científico no Crato e, no ano de 1952, vim para Recife.

 

P/1 – Mas como eram as cidades, Juazeiro, Crato, na época da sua infância?

 

R – Como eu estava comentando, aquele interior do Ceará, o cariri do Ceará, são umas dez cidades, entre elas Juazeiro, Barbalha, Crato, Missão Velha, são umas dez cidadezinhas, todas elas tinham uma ligação muito forte com Pernambuco, com Recife propriamente dito, porque Recife era a terceira capital do Brasil, tinha portos, tinha grandes lojas atacadistas, tinha estradas. Você não tinha acesso a Fortaleza via rodoviária praticamente, se você quisesse ir para Fortaleza tinha que pegar um trem, de Crato a Fortaleza, eram dois dias de viagens. Os comerciantes não queriam perder esse tempo todo. Como Fortaleza não tinha porto comercial, o comércio do meu pai, couros, calçados, todo ele era feito em Recife. O comércio de tecidos de toda aquela região vinha do Recife através desses grandes armazéns que o Recife tinha, o Tecidos Cardoso S/A, eles vendiam em grosso, recebiam de navio, tinha os armarinhos que distribuíam para o Nordeste todo.

 

P/1 – Mas eram cidades grandes, confortáveis?

 

R – Crato é uma cidade boa, tem faculdade. Juazeiro é a mais, assim, o nível cultural é como Rio e São Paulo, a gente sempre comparava lá. O Juazeiro do Norte era para ganhar dinheiro, trabalhar e gastar no Crato. Lá é que tinha as boates, os cabarés, tudo era por lá.

 

P/1 – Na época que o senhor era criança, também era assim?

 

R – Eram sim, cidades boas.

 

P/1 – Na sua infância o senhor brincou bastante?

 

R – Não, sempre me considerei uma pessoa normal, fui reprovado na escola, eu passei. Nunca fui o pior aluno, também nunca fui o melhor aluno, brincava demais, fui uma criança que brinquei demais. Tinha uns amigos lá, uns cinco, seis amigos, a gente saía para caçar cobra, a gente fazia umas balas, não sei o quê, caçavamos e matávamos as cobras. Tomava banho de rio, me amorcegava, chama-se amorcegar, nos caminhões, o caminhão passava e a gente se amorcegava. Fiz tudo pirueta de criança.

 

P/1 – Tanto no Crato quanto em Juazeiro?

 

R – Não porque no Crato eu já era mais velho, já tinha 16 anos. Eu passei de ser criança brincando de carrinho para vir para Recife ser homem.

 

P/1 – O senhor passou direto.

 

R – Passei direto, não tive aquela fase, brincava de carrinho, tudo que era de carrinho, bicicleta, não sei o quê, todas aquelas coisas, coleção de sabonete Eucalol, coleções de sabonete não sei o quê. Aquele dinheiro de maço de cigarro, a gente trocava dinheiro por maço de cigarro. Toda criança viveu aquilo naquela época.

 

P/1 – Como assim trocar dinheiro por maço de cigarro?

 

R – Porque cada maço de cigarro tinha um valor. Cigarro Selma, cigarro não sei o quê. Cada nome tinha um valor, então, a gente desmanchava o maço de cigarro e aquilo ali jogava, sei lá, jogava bilhar, jogava tudo. Jogar chumbinho, soldadinho de chumbo, quem não tinha soldadinho de chumbo? Toda criança tinha que ter uma coleção de soldadinho de chumbo para jogar e derrubar como se fosse boliche. Depois, os tempos mudaram. Hoje, os meus netos passam o dia todo com a maquininha aqui: “Zisss.” O dia todinho, rapaz, impressionante: “Mas, meu filho...” “Não vovô, estou jogando aqui.” O pai vai para os Estados Unidos e traz dois, três joguinhos daqueles, pronto.

 

P/1 – Então, o senhor brincou bastante...

 

R – Brinquei bastante, apanhei bastante.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Aos 16 anos de idade, vou contar essa peripécia: no ano de 1950, meu irmão mais velho foi ao Rio de Janeiro assistir a Copa do Mundo no Maracanã. Quando terminava o jogo, a gente só tinha rádio, não tinha televisão, saía dizendo quantas pessoas se acidentaram, se machucaram na saída. Então, no dia que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no outro dia eu cheguei para mamãe e disse a minha mãe que meu irmão Gilberto tinha se acidentado lá na saída. Uma brincadeira de menino. Isso numa segunda-feira, o jogo foi no domingo. Daí a pouco, chega a minha irmã: “Getúlio, mamãe está se acabando de chorar na casa da vizinha com aquela sua história.” Aí, eu fui lá, “Mamãe, aquilo era brincadeira, não sei o quê.” “Então, venha cá.” Pegou a palmatória, eu tinha 16 anos de idade! Rapazinho já, me deu uma dúzia de bolo de palmatória. Se a senhora perguntar quantas palmatórias eu joguei em cima do telhado, perde as contas.

 

P/1 – Você pegava e jogava?

 

R – Pegava e jogava. Mandavam fazer outra. Apanhei muito de palmatória.

 

P/1 – Na escola, seu Getúlio, tinha uma matéria que o senhor gostava mais?

 

R – Tinha, me dei muito bem com química. Me lembro bem que química, tudo o que fazia nas experiências lá com o padre, eu fazia bem feitinho. Minhas notas em química eram ótimas. Quando estudei aqui, fiz vestibular para Engenharia, queria ser engenheiro, aí, pensa também na modalidade química, eu também fiz, mas nunca exerci.

 

P/1 – Aí, o senhor sai de lá e vem para Recife. O senhor vem para estudar?

 

R – Vim para cá para estudar aqui porque lá não tinha Faculdade de Engenheria no Ceará e vim fazer o segundo científico aqui. Eu tinha um parente chamado o senhor José de Anchieta Ribeiro da Silva, ele é vivo hoje, é um cidadão religioso, católico, beleza, casou virgem. A gente mexe muito com ele porque naquele tempo não tinha menino virgem, as empregadas logo se encarregavam de desvirginar o menino cedo. Papai disse: “Você vai marcar um encontro entre você e José de Anchieta.” ele já era professor do Colégio Nóbrega, estudante de Engenharia. Fui para uma Associação Discente Acadêmica (ADA), fica a Rua do Príncipe, 526, onde hoje é a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). Aquilo era um pensionato que tinha mais de 110 estudantes, posso citar entre os colegas que estavam lá, Doutor Jaime da Fonte, Doutor Amauri Medeiros, uma infinidade de médicos e engenheiros que se formaram estudando na ADA, vinham do interior, estudavam no Colégio Nóbrega que era em frente, era só atravessar a rua e pagava a pensão lá na Associação Discente Acadêmica. Eu vim para cá em 1952.

 

P/1 – Por que o senhor decidiu ser engenheiro, senhor Getúlio?

 

R – Olhe, acho que deve ter sido porque tenha facilidade para matemática. Sempre no momento é assim, ou desenho. Você confunde muito engenheiro, na época, com desenho, pensa que ser engenheiro é ser desenhista, é ser arquiteto.

 

P/1 – Os seus pais gostaram da sua decisão, apoiaram?

 

R – Apoiaram. Papai era comerciante, analfabeto, escrevia tudo, mas nunca fez curso. Um irmão meu não, tinha um irmão, mais velho, esse era estudioso, comunista, prestista, só tinha Prestes no mundo para ele. Esse fez Comercial, era o mais velho, ficou trabalhando com o meu pai, era quem ajudava a gente mais nova a estudar fora. Meu pai e esse meu irmão mais velho, Gilberto.

 

P/1 – Veio sozinho?

 

R – Vim sozinho, fui para essa pensão, mas nessa pensão tinha dez colegas meu do Crato, parentes. Era cheio de gente, não foi sozinho.

 

P/1 – O senhor veio como? Veio de trem, de ônibus?

 

R – Não sei dizer, mas Recife, você vinha de trem até Cajazeira, depois pegava ônibus para Campina Grande, depois vinha para cá, era uma confusão. Às vezes, tinham os ônibus que saíam de Crato, dormia em Caruaru, de Caruaru chegava aqui. Saía daqui, dormia em Salgueiro, de Salgueiro nós chegávamos lá. Era sempre um dia e meio de viagem de ônibus.

 

P/1 – E o senhor já tinha vindo a Recife antes dessa data?

 

R – Não.

 

P/1 – Que impressão o senhor teve da cidade?

 

R – Não sei não, faz tanto tempo. Eu sempre gostei muito do Recife, eu sou um amante do Recife.

 

P/1 – Mas o senhor devia estar animado, né? Dezesseis anos, para estudar.

 

R – Estava animado.

 

P/1 – O senhor continuou e foi fazer vestibular.

 

R – Fiz o vestibular. Passei no vestibular da Escola Politécnica de Pernambuco, fiz os dois, mas passei no da Politécnica e fiz o meu curso normal. Ainda hoje, me surpreendo porque fui para o quinto ano, último ano da escola, com duas dependências nas cadeiras mais difíceis, que eram Concreto e Estabilidade e me formei na data certa, até hoje, não sei como. Devo ter estudado muito para poder passar porque tinha medo de chegar no dia da minha formatura e o meu pai dizer: “Ô meu filho, eu botei você aqui, paguei tudo e você não se formou. Que história é essa?” Lá, todo mundo, só pensava em ter um engenheiro na família.

 

P/1 – O senhor é o primeiro formado da família? Porque o Gilberto ficou lá.

 

R – Sou. O Gilberto ficou lá, o Paulo que é um ano mais velho que eu, faleceu aos 18 anos. Eu tinha 17, ele foi no Exército de avião, lá no Juazeiro, um amigo dele caiu, ele caiu também, faleceu. Eu nem vi, estava aqui. O Gildo Formoso, eu tenho um irmão Gildo, um talento, formado em Engenharia.

 

P/1 – Depois do senhor.

 

R – Depois de mim, é um dos caçulas.

 

P/1 – Naquela época, o vestibular era muito disputado? Como era seu Getúlio, tinham muitos candidatos?

 

R – Era difícil, tinha muitos candidatos.

 

P/1 – O curso também?

 

R – A gente fazia o Curso Pernambucano, tinha um tal de Curso Pernambucano aqui, vários cursos, entre eles o do Salomão. No Pernambucano, a gente fazia um curso particular, pagava por fora para fazer o curso, senão não passava no vestibular.

 

P/1 – Era um preparatório?

 

R – Era um preparatório para o vestibular.

 

P/1 – E pelo que o senhor está contando a faculdade também era bem difícil, né?

 

R – Era, não era fácil, não.

 

P/1 – Tinha que estudar bastante.

 

R – Na Universidade Federal, então, era dificílimo. Passar na Federal não era brincadeira, não.

 

P/1 – O senhor na faculdade em que data? Em 1954?

 

R – Eu entrei em 1955 e saí em 1959.

 

P/1 – Tinha uma perspectiva boa para engenheiros nessa ocasião, não tinha, seu Getúlio? O Brasil estava crescendo, como é que era?

 

R – Estava crescendo... Quando fui para o Ceará, porque estudava Engenharia, estudava também Filosofia e Matemática naquele Monsenhor lá na Solidário. Estudei Filosofia e Matemática lá, me formei em Matemática e, quando terminei, estagiava no Departamento de Estradas e Rodagens (DER), fiz concurso no DER e era estagiário na área de Engenharia.

 

P/1 – Em que ano da faculdade?

 

R – No quarto, quinto ano. Quando terminou o ano, deu certinho de eu ficar empregado lá no DER. Aí, Cid Sampaio, que assumiu o Governo, não quis empregar ninguém.

 

P/1 – O senhor com um ano como estagiário?

 

R – Dois anos.

 

P/1 – Como era o trabalho, o que o senhor fazia?

 

R – Era trabalho no escritório de engenharia. A gente ia lá projetar estradas, por exemplo, a Serra das Russas, antes dessa nova, eu trabalhei muito no projeto dessa estrada Serra das Russas.

 

P/1 – O senhor gostava desse tipo de trabalho?

 

R – Gostava, gostava. A caminhonete vinha, pegava a gente, levava para o DER e trazia às onze horas. A faculdade era de noite, na Politécnica, então conciliava, e ainda dava aulas em uns cursos aí. Quer dizer, eu fui um rapaz muito ativo, tomava minhas cervejinhas gostava, namorador demais, não podia ver uma saia.

 

P/1 – Mas também ciente do que estava fazendo?

 

R – Normal. Tudo normal.

 

P/1 – O governador não aproveitou...

 

R – Aí fui para o Ceará.

 

P/1 – Voltou pra casa?

 

R – Fui para a Fortaleza, disseram: “Eu tenho um emprego para você no DER do Ceará.” Eu cheguei lá, me levaram para a Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA).

 

P/1 – Lá mesmo?

 

R – Lá mesmo. Tinham cinco lugares para eu escolher, estavam instalando as residências lá. Escolhi Iguatu, que fica perto do Crato. Vou para Iguatu porque todo fim de semana eu vou para o Crato e não deu outra, passei a engenheiro residente em Iguatu, fiquei lá 1960, 1961, 1962.

 

P/1 – Três anos.

 

R – Três anos como engenheiro residente. Viajando para lá e para cá, novo, 25 anos.

 

P/1 – Quais eram as funções do engenheiro residente?

 

R – Era administrar os trens, manter a linha em condições para os trens passarem. A missão dele basicamente é essa.

 

P/1 – Então, tinha bastante trabalho?

 

R – Muito trabalho e era uma época que a Rede estava em um programa de... Tinha dinheiro para aplicar em investimentos, então, tinham muitos investimentos. Fui tomar conta de um lugar chamado Usina de Tratamento de Dormente, apareceu lá um programa de soldagem elétrica, soldagem aluminotérmica de trilho, aparecia mecanização da via, modernização. Era muito serviço.

 

P/1 – Essa usina ficava lá mesmo?

 

R – Ficava perto de Fortaleza.

 

P/1 – Então, o senhor também estava em uma distância que tinha que vir...

 

R – Não, aí eu já... Eu passei lá no interior, em Iguatu, 1960, 1961 e 1962. Em 1963, vim para Fortaleza, foi um engenheiro me substituir. Foi lá em Fortaleza que eu passei a tomar conta dessa Usina de Tratamento de Dormentes, outras coisas, outras metodologias que apareceram, novas. Muito investimento, muito dinheiro, muito trabalho.

 

P/1 – E esse seu ingresso na Rede foi porque o senhor estava procurando...

 

R – Estava procurando. Cheguei lá, um amigo meu me apresentou, me levou lá para o Diretor, ele disse: “Nós estamos procurando engenheiro. Você é cearense? Você quer ir para onde?” Aí, pronto, não teve...

 

P/1 – Lá em Iguatu, o senhor tinha uma casa que era da Rede...

 

R – Tinha uma residência, uma casa, tudo direitinho.

 

P/1 – Era boa a casa?

 

R – Era, grande, boa.

 

P/1 – E ela ficava numa vila, perto da estação?

 

R – A casa do engenheiro residente ficava dentro da cidade, em frente da estação, lá. Boa, danada. Empregado, com tudo direitinho.

 

P/1 – Aí, o senhor foi para Fortaleza.

 

R – Em 1963, eu fui para Fortaleza.

 

P/1 – Uma outra função ou...

 

R – Com outra função, fui ser chefe lá em Fortaleza, sempre crescendo lá na função. Isso foi em 1963, quando foi em 1965 eu casei. Morei em Fortaleza cinco anos, até 1970. Dois filhos meus nasceram em Fortaleza. Quando foi em 1970, criou-se aqui em Recife o Sistema Regional do Nordeste, e o chefe que veio dirigir a regional era meu chefe de Fortaleza. Veio para cá, instalou, tudo mais, ôpa... E houve uns problemazinhos aqui, ele teve que mudar uma pessoa e ele me convidou. Porque na Politécnica, quando me formei, tinha uns dez colegas meus que coincidentemente ficaram na Rede Ferroviária. Isso em 1960, uns dez colegas meus que se formaram comigo em 1959 ficaram na Rede Ferroviária, colegas de faculdade, certo? Então, o meu chefe, esse rapaz, quando veio para cá em 1970, dez anos depois, precisou de uma pessoa que não queria mais que fosse daqui, porque a regional pegava São Luís, Ceará, Pernambuco e Bahia. Então, lá na Diretoria tinha todos pernambucanos, exceto ele que era cearense, que veio de lá. Ele teve esse problema e quis colocar no lugar dessa pessoa alguém de um outro lugar e me chamou. Como era um cargo muito bom, ganhava três vezes mais. A minha esposa, nesse tempo eu era casado, era de Alagoas, quando a mãe dela queria ir ver ia no Ceará e eu morando no Recife era mais fácil. Tudo isso, com esse relacionamento de dez engenheiros já nesse negócio, que me conheciam, que me relacionava bem, ele me chamou. Acho que isso foi um dos fatores pelos quais eu vim pra cá, o relacionamento com os colegas de faculdade, o cargo bom e um salário três vezes maior. Aí, eu vim.

 

P/1 – O senhor lembra qual o nome desse chefe que chamou o senhor?

 

R – Elzir de Alencar Araripe Cabral, ele faleceu recentemente. Todo mundo aqui era louco por ele, um cidadão do maior respeito, da maior competência. Todo mundo aqui ficou louco por ele.

 

P/1 – Então, o senhor veio de mudança, com dois filhos.

 

R – Aí, vim, coloquei os meninos dentro do carro e desabei aqui. Aluguei uma casa, pronto, e estou aqui desde 1970.

 

P/1 – Quais eram as funções?

 

R – Agora já era Regional. A Regional, como eu disse à senhora, pegava da Bahia a São Luís do Maranhão. Era para supervisionar, tocar, todas as obras da chamada Área de Engenharia nesse pedaço de chão, do Maranhão até a Bahia. Passei quatro anos dentro de avião, do Maranhão para Bahia para trabalhar, fiscalizar, tocar obra, mas nunca trabalhei tanto na minha vida! Nessa época eu tinha... Quarenta anos, né? Foi de 1970 a 1974. Em 1974 eu fiz 40 anos, foi de 36 a 40. Eu estava no pique da minha condição física, como disse à senhora, muita coisa para fazer, não faltava investimento, não faltava dinheiro para tocar as coisas. Foi uma época beleza na minha vida.

 

P/1 – Que tipo de obras eram?

 

R – São mais ligadas ao setor que sempre fui ligado, a linha, ou via permanente, os trilhos. Era o quê? Trocar os trilhos, os dormentes. Naquele tempo, os trilhos eram colocados em cima de terra, por isso que quando o trem passava tinha aquela poeira toda, teve de trocar toda essa terra por pedra britada. Um programa de lastreamento da via. A técnica, os trabalhadores viviam muito isolados, então, teve que juntar trabalhador e fazer equipes motorizadas. Era um programa em cima do outro de modernização. Muito trabalho.

 

P/1 – O senhor pegou a troca do dormente de madeira por concreto também ou isso foi depois?

 

R – Lá não, lá não houve essa troca de madeira por concreto. Ainda hoje as linhas... Esse negócio do dormente de concreto apareceu no Metrô de Recife (METROREC), só o metrô que tem dormente de concreto.

 

P/1 – O trem normal, não?

 

R – Não, o trem não tem dormente de concreto é todo de dormente de madeira. Eu fui à Amazônia, entrei lá na mata da Amazônia para ver como eles tiravam o dormente, como é que cortava e tudo o mais. Fui em São Paulo fazer um convênio para ver como é que preservava o dormente, enfim.

 

P/1 – Isso tudo nessa época?

 

R – Tudo nessa época.

 

P/1 – O senhor tinha uma equipe ou o senhor estava praticamente sozinho?

 

R – Eu nunca carreguei ninguém, impressionante. Onde chegava tinha lá, nunca montava uma equipe. Trabalhava com as equipes que encontrava. Evidentemente, um ou outro, com o tempo, o que achava que se adaptava mais, mas nunca fui um homem para ter, vamos dizer assim: “Onde Getúlio vai, leva fulano.” Secretária então, nada.

 

P/1 – O planejamento dessas obras era feito na regional?

 

R – Na Administração Geral, tudo era feito na Administração Geral.

 

P/1 – Então faziam, chamavam o senhor...

 

R – Chamavam, ia lá, eu tinha muito relacionamento com um engenheiro chamado Nelson Ribeiro de Castro. Ele me chamava, nós todos, tinha sempre reunião lá na Administração Geral, estava sempre indo ao Rio de Janeiro para pegar os programas, levar os planos, dizer onde que é para fazer. Trabalhei muito na Rede Ferroviária.

 

P/1 – Quando o senhor chegava para executar essas obras contratava mão de obra...

 

R – Cada chefe desses, por exemplo, do Ceará, ia lá e falava: “A programação é essa aqui, manda tocar isso, pápápá.” Ele fazia, quem tocava as obras eram os locais. Eu ficava só supervisionando, fiscalizando, vendo por que é que estava atrasado, aquele negócio. Fazendo os relatórios, dizendo quais providências precisava tomar.

 

P/1 – E teve muito problema?

 

R – Demais. Tinha um coronel na Bahia que era um problema, o coronel. Problema, problema. Um coronel já bem cansado, não tem mais dinamismo, não tinha mais. Tudo era devagar demais.

 

P/1 – Ele era o responsável?

 

R – Para executar os serviços lá chegava: “Cadê?” “Não.” “Não, como?” Um problema na Bahia. Mas no Ceará não, tudo foi bem, no Maranhão tudo foi bem, aqui ia muito bem.

 

P/1 – Algum acidente, alguma coisa que tenha sido mais traumático para o senhor resolver?

 

R – Não.

 

P/1 – Isso foi de 1970 até...

 

R – De 1970 a 1974.

 

P/1 – Bastante tempo, né?

 

R – Quatro anos. Quando foi 1974, mudou a administração. Eu saí do cargo e perguntaram: “Você quer voltar para o Ceará?” Eu estava com família aqui, estava com dois filhos aqui, tinha construído uma casa: “Não, não quero mais voltar, não.” Aí, fui ficando. Fiquei como assessor, coisa e tal.

 

P/1 – Na própria Regional?

 

R – Na própria Regional, dando a minha colaboração lá. Cheguei um ponto sem poder mandar nem em um servente. Depois, fui ser Superintendente Administrativo Financeiro. Eu sei que quando foi 1988, que deu o meu tempo, se der para aposentar me aposento, tratei da minha aposentadoria. Porque recebia integral e uma complementação, era bom, para mim era bom me aposentar, cuidar da minha vida. Eu estava com 52 anos, novo ainda. Como diz Fernando Henrique, se aposentar com 52 anos é uma vagabundisse. Não devia acontecer mais.

 

P/1 – Nesse seu tempo todo, queria só voltar um pouquinho, faltou perguntar o seguinte: tinha escritórios nesses lugares? Como era a estrutura, senhor Getúlio? Por exemplo, esse coronel, ele era chefe de algum escritório ou era uma coisa da estação. Como funcionava?

 

R – Veja bem. Como é que foi constituída a Rede Ferroviária? A Rede Ferroviária não foi nada mais do que, como o rapaz falou numa linguagem, tinha a Rede de Viação Cearense (RVC), que foi dos ingleses, não sei o quê. Tinha a Rede Ferroviária do Nordeste (RFN), que foi não sei de quem. Tinha a Viação Férrea Federal do Leste Brasileiro (VFLB), cada uma trabalhando diferentemente. Às vezes, não podia ir de um lugar para outro porque aqui a linha era de um jeito e ali era do outro. Aí, Juscelino Kubitschek criou essa Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) para integrar o sistema ferroviário e todo mundo passar a seguir as mesmas instruções, trabalhar do mesmo jeito. Então, foi que ele dividiu principalmente em nas Superintendências Regionais.

 

P/1 – E abaixo da Regional?

 

R – Abaixo da Regional tinham as chamadas Divisões. Então, tinha Regional Nordeste que era um órgão administrativo, gerente, tudo o mais e tinha as Divisões. Primeira Divisão: São Luís do Maranhão. Segunda Divisão: Cearense. Terceira Divisão: Nordeste. Quarta Divisão: Bahia. Quem era o chefe da Divisão da Primeira, mandava na estrutura dele lá. Quem era o chefe da Segunda Divisão, cuidava dos seus departamentos, tudo direitinho. Agora, a orientação era recebida da Regional.

 

P/1 – Que por sua vez recebia...

 

R – Que por sua vez recebia da Administração Geral.

 

P/1 – Uma estrutura simples, né?

 

R – É, tudo direitinho e tudo organizado. A Administração Geral fazia os planejamentos, por exemplo, vamos acabar com as locomotivas a vapor. Vai poder acabar com as locomotivas a vapor, está tudo com locomotiva a diesel. Os programas funcionavam assim.

 

P/1 – Então, em 1988, o senhor resolveu se aposentar.

 

R – É, quando começaram a falar em privatização...

 

P/1 – Começou já naquela época?

 

R – Eu acho que começaram a falar em privatização. Eu não entendia bem como era essa privatização examente porque o maior patrimônio das empresas estatais brasileiras não era da Petrobrás, era da Rede Ferroviária Federal, exatamente por causa dos terrenos, dos imóveis, das áreas imensas que a Rede Ferroviária tem nesse Brasil inteiro. Mas, o processo começou, quando vem de cima vem tudo feito. Na realidade, não foi uma privatização, porque a privatização, como eu entendo hoje, é como a Companhia Energética de Pernambuco (Celp). A Celp foi privatizada, o que quer dizer isso? O prédio da Celp é da Celp agora, os postes são da Celp, tudo é da Celp, o Governo vendeu tudo. Na Ferrovia não foi assim, não. Ele vendeu a operação ferroviária. Os bens imóveis, terrenos, edificações, são da Rede Ferroviária Federal.

 

P/1 – Continua propriedade do Governo.

 

R – Continua propriedade da União.

 

P/1 – Aí, o senhor começou a ouvir falar, resolveu se aposentar, com 52 anos.

 

R – 52 anos. Nessa época, também adoeci, tive um problema de saúde sério, pronto, me aposentei. Tinha um colega meu, um primo: “Vamos montar uma firmazinha?” Fomos construir uns apartamentos. Eu ainda construí uns apartamentosinhos.

 

P/1 – Continuou trabalhando.

 

R – Continuei trabalhando.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor não acompanhou esse processo da privatização.

 

R – Não, não acompanhei. Nada, nada, nada. Como eu não entendia bem, fiz um artigo e publiquei no Jornal do Comércio na época perguntando pelos órgãos: “Cadê a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene)? O que a Sudene diz sobre a privatização? O que o Banco do Nordeste diz? O que os engenheiros, os ferroviários dizem?” Ninguém se manifestou, eu fui o único engenheiro ferroviário no Brasil a escrever um artigo, não digo contestando a privatização, mas pedindo: “Aquilo está sendo feito assim e ninguém diz nada? Como é?”

 

P/1 – E teve boa repercussão, como é que foi?

 

R – Não. Teve uma repercussão pequena.

 

P/1 – O que o senhor achava daquele processo naquele momento? Porque o senhor estava na Rede, né?

 

R – Veja bem, eu não entendia bem, nunca compreendi bem como podia ser esse processo de privatização que na realidade não foi privatização, foi concessão. Não me explicaram bem. Por causa da extensão territorial dos bens que a Rede Ferroviária tem nesse Brasil inteiro, desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão. Como é que vai privatizar tudo isso? Foi aí que fizeram esse negócio, essa licitação. Aí, eu disse, a privatização que não deu certo. Por quê? Porque dois anos depois de privatizada, a Rede deixou em cada regional um nucleozinho de dez empregados para ir acompanhar o tal contrato de concessão. Porque teve um contrato de concessão onde a firma que obteve, ganhou, a concessão ficava com certas obrigações. Então, está lá escrito no contrato, ela tem que mudar por mês, por ano, tantos dormentes; tem que aumentar o transporte tantas toneladas por quilômetros úteis (tku); tem que fazer isso. Então, na nossa regional Nordeste, da Bahia ao Maranhão, houve um acidente na linha lá perto de Aracaju e ficou sem tráfego, a água levou a estrada, ficou interrompido e a firma nunca consertou, parou o tráfego nessa região, parou tudo. Aí, o Ministério Público deu em cima do Governo, para o Governo tomar providências. Naquele tempo, o Ministério dos Transportes não queria nem saber de uma coisa daquela. A gente se revoltava. Eu fui no Ministério Público, saber, pedir. “Não, já temos feito carta aqui.” Vai no Ministério do Transportes, não querem nem saber, ordem do Ministro. A firma quer entregar de volta e o Governo sem querer receber.

 

P/1 – A empresa queria devolver?

 

R – É, queria devolver. Só tendo prejuízo, só tendo prejuízo, só tendo prejuízo, sem ter tráfego.

 

P/1 – Senhor Getúlio, não houve uma preparação da empresa para entregar para a privatização?

 

R – Houve. Na Rede Ferroviária, para entregar a concessão da operação ferroviária, o que se fez? Ela deixou a Rede nos trinques, toda bonitinha, toda arrumadinha, recuperou locomotiva, recuperou via permanente, deixou tudo joinha, tudo funcionando belezinha, belezinha. Aí, veio o processo da privatização, a firma ganhou a privatização e pronto. Com esse acidente, parou o tráfego, acabou-se a ferrovia aqui no Nordeste, tudo aquilo que pelo contrato de concessão se comprometia a fazer, não fez nada. Eu ia lá ver nos locais, lia os relatórios lá. Só dava prejuízo, mas como é que pode?

 

P/1 – E o senhor ia por sua conta?

 

R – Ia por minha conta, ia lá com o engenheiro e tudo o mais, procurar saber. “Cadê você?” Porque, em cada regional, ficou um grupinho da Rede para fiscalizar. Eu ia junto com esse grupinho: “E como é, rapaz? Cadê?” “Não, estão aqui os relatórios.” Mostravam os relatórios, ainda hoje está assim.

 

P/1 – Nessa parte de saneamento, etc, estava ok e rentável?

 

R – Veja bem, a nossa regional Nordeste nunca foi rentável. Eu estava mostrando no gráfico do rapaz. Ela, como um todo, foi rentável. Quando foi fundada tinha 160 mil empregados e, em 1987, com 30 anos, tem um relatório de 30 anos, perto da privatização, ela estava com 60, pouco mil empregados, quase um terço e a produtividade, que transportava cem, passou a transportar 600. Então, ela teve um período de 30 anos que saiu de uma fase deficitária para uma fase superavitária como um todo, desde o Rio Grande do Sul. O Nordeste não. No Nordeste, o tráfego, a quantidade de transporte, a demanda, é menor, ela é mais espalhada, então, ela sempre foi deficitária. Realmente, já no final, estava menos deficitária, se apurava o dinheiro e dava para pagar a folha do pessoal, que era paga com dinheiro apurado aqui mesmo e as outras coisas, o Rio mandava. Mas, a folha, a gente já pagava. É impressionante você pagar um funcionário público que vende serviço, que era o caso da Rede Ferroviária Federal. O que era? Era uma empresa pública que vendia serviço, transporte e você dizer: “Rapaz, como é que é? O dinheiro do fim do mês, como é?” O cabra não está nem preocupado com o salário no fim do mês porque sabe que o Governo manda, ele não está nem aí: “Rapaz, vamos produzir mais, para apurar mais.” Ninguém se lembra de receita, só se lembra de despesa. Funcionário público de uma empresa como uma estatal só se lembra de despesa, só quer fazer despesa, e a receita? Não tem receita para ele porque vem, todo mês ele ficava tranquilo porque sabia que não dava para apurar para pagar a folha, mas sabia que a Administração Geral mandava porque quando ela apurava de lá, mandava.

 

P/1 – Nessas suas andanças durante os quatro anos, o senhor se relacionava com os outros ferroviários? Além do pessoal da Divisão? Por exemplo, estações, outros tipos de funcionários?

 

R – A minha área era mais ligada à área de Engenharia. Então, com esse pessoal eu me relacionava, por exemplo, o setor de obras da Bahia, daqui de Pernambuco, de Ceará, o pessoal mais ligado a parte de execução de Engenharia. Estações, não, estações tinha pouco contato.

 

P/1 – Mas o senhor ia às estações às vezes?

 

R – Eu sempre ia, sempre ia. Viajava muito. Por exemplo, a primeira providência da gente foi de criar essas residências, contratar os engenheiros residentes e procurar dotar as residências de uma certa estrutura, um bureau, um armário, uma máquina de calcular, enfim, que o engenheiro se sentisse bem. Eu fui na Bahia, numa residência que tinha um pedaço de madeira segurando o teto para não cair na cabeça do engenheiro: “Rapaz, vamos melhorar isso daqui.” Dar estrutura, depois dar apoio técnico. Nessa época, a Rede fazia as instruções técnicas que eram exatamente para poder fazer que todo mundo fizesse dentro daquela instrução técnica e aquilo eu ia lá, pegava, trazia, recebia, distribuía com os residentes, implantava as coisas, ia fazer lá com eles. Foi muito trabalho.

 

P/1 – Havia muitos engenheiros na Rede?

 

R – Olhe, não havia muito engenheiro, não. Sempre tem em órgão público, principalmente nas administrações, um excesso de pessoal. Tanto que esse Presidente Carlos Aloysio Weber, passava numa sala assim, abria, não tinha ninguém: “O que é isso aqui? Funciona aqui? Manda fechar. Se não tem ninguém é porque não precisa.” Era assim, radical demais. Então, para cada supervisor, ele dizia o seguinte: “Você é supervisor, você tem que ter pelo menos oito subordinados. Você é supervisor de quê?” “Sou supervisor.” “Mas você está supervisionando quem? Você tem que ter pelo menos oito subordinados.”

 

P/1 – Tirava da cabeça dele?

 

R – É, tirava da cabeça dele, mas foi quando se reduziu o quadro de pessoal, viu? Porque tinha muita gente, tem aqueles que vão para a praia, chegam dez, 11 horas, você não pode fazer nada. O que você vai fazer com um colega que chega dez, onze horas? Não tem jeito. Tem um que nem ia, foi transferido lá para São Luís, Maranhão, arranjou na Justiça para voltar. Sempre tem grupinho, né? Eu nunca tive grupo.

 

P/1 – Senhor Getúlio, desses anos todos, acompanhando todas essas obras, que histórias o senhor poderia contar para a gente? Histórias engraçadas, ou pitorescas? O senhor disse que andava de avião, mas tinha algum trecho que o senhor ia de trem?

 

R – Não, andava de avião.

 

P/1 – O senhor se hospedava em hotéis?

 

R – Quando eu fui fazer um curso de tratamento de dormentes em Belo Horizonte, interior de Belo Horizonte, ia ser instalada uma usina lá no Ceará e outra em Pernambuco. O engenheiro daqui se chamava Murilo Guimarães, faleceu um dia desses, pessoa adorável, eu entrei no avião, Murilo também: “Eu vou pelo Ceará” “Eu vou por Pernambuco fazer o treinamento lá.” Fomos nós dois no avião. Quando chegou no Rio de Janeiro, o avião, modelo Douglas DC-3, começou a: “Suuu pirururu...” Fazer assim para voar, um gaiato levantou e disse: “Está vendo, esse avião não presta não. Ele não vai levantar vôo, não” e eu com um medo lascado, porque tenho um medo de viajar de avião, ainda hoje tenho. Eu vou na marra para Fortaleza de avião. Vou na marra e esse Murilo Guimarães, rapaz, impressionante a tranquilidade dele, nada, nada. O fato é que quando o avião foi realmente sair não chegou a decolar, parou na ponta da pista. Aí, o cabra levantou-se lá de cima: “Eu não disse, eu não disse?!” (risos).

 

P/1 – E pra quem não conhece, são aqueles aviões ainda à hélice, né?

 

R – É, aquele DC-3 velho, dois motores.

 

P/1 – Que época que foi essa?

 

R – Isso foi em 1963, 1964.

 

P/1 – E era comum a Rede mandar os engenheiros para cursos?

 

R – Ah, tinha muito treinamento. A gente fazia treinamento fui fazer um treinamento sobre a mecanização da via. Porque, antigamente, os mestres andavam empurrando os carros, aí, comprou-se um motorzinho pra mecanizar a via e o Paraná era muito adiantado, em tudo o Paraná se sobressaía, em tudo. Eu fui lá, recém-casado, você veja, me mandaram para Ponta Grossa fazer um treinamento de 15 dias, numa região fria, sobre a mecanização da via. A gente treinou muito, tenho um calhamaço desse tamanho só de treinamento.

 

P/1 – Eram em vários lugares?

 

R – Vários lugares.

 

P/1 – Eu queria voltar também na questão da usina que o senhor foi tomar conta depois, lá em Fortaleza.

 

R – Essa usina, eu não sei que fim ela levou, não sei se ela existe ainda hoje, não. Talvez exista, mas não sei se funciona lá.

 

P/1 – Era uma usina de...

 

R – Era uma usina de tratamento de dormentes. Porque o dormente de madeira, começou a ficar difícil de arranjar as madeiras boas que não apodreciam na linha e o tratamento era exatamente a colocação de um produto que dava vida ao dormente. Colocava-o dentro da autoclave, metia um óleo nele, tirava e colocava na linha. Esse tratamento foi feito durante muito tempo em Fortaleza, todos os dormentes dessa firma, Vale do Rio Doce, são tratados assim, mas não sei se tem mais.

 

P/1 – Que madeira usava para fazer dormente, em geral?

 

R – Era madeira de lei, madeira boa.

 

P/1 – Depois, com o tratamento, já podia ser uma madeira mais...

 

R – Com o tratamento, já podia ter uma certa tolerância.

 

P/1 – Tinha um prazo estimado para duração desses dormentes?

 

R – Tem, esses dormentes geralmente duravam de oito a dez anos. O de madeira de lei mesmo, o cerne da madeira, chama-se o miolo da madeira, esse não tem fim.

 

P/1 – É mesmo? Puxa vida, que beleza. Vamos falar um pouquinho de quando o senhor casou. Como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Olhe, como eu disse a você, eu vim estudar aqui em Recife. Naquela época, os encontros de rapazes e moças se davam ou no Parque 13 de Maio ou ali no Gemba, que tinha ali, naquela avenida, em frente ao São Luís, Bem me Quer, Mal me Quer. Geralmente, o estudante do interior ia para lá sábado e domingo, ou para o Parque 13 de Maio, arranjar namorada ou naquela faixa do São Luís. Tinha uma sorveteria Gemba que era muito conhecida e nos clubes tinha umas, lá no Ceará chamava Tertúria, aqui tinha um outro nome, não me lembro bem. Mas lembro que frequentava muito o Clube Náutico Capibaribe, sempre às sextas-feiras, tinha o encontro de “brotos”, um negócio assim. O que era? Era uma ceia lá e também as faculdades promoviam muitas festinhas: “Onde é hoje?” “Na faculdade de Arquitetura.” “Onde é hoje?” “Na faculdade de Odontologia.” Foi na faculdade de Odontologia que conheci a minha esposa. Um amigo meu, lá do Crato, Chico Parente, colega dela, disse: “Rapaz, tem uma alagoana bonita, danada, lá na minha escola. Vou te apresentar.” Daí eu fui, conheci a moça e acabei casando com ela.

 

P/1 – Como ela se chama?

 

R – Maria de Lourdes.

 

P/1 – Era uma alagoana bonita, mesmo?

 

R – Alagoana bonita, ainda hoje é uma mulher bonita, cuidadosa.

 

P/1 – E estava estudando Odontologia?

 

R – Estava estudando, formou-se em Odontologia. Formou-se no ano que me formei. Aí, a gente passou uns anos assim, de 1960 até casar, em 1965, a gente passou uns anos meio afastados, mas quando foi para casar a gente casou.

 

P/1 – Vocês casaram onde?

 

R – Na terra dela, Viçosa do Alagoas.

 

P/1 – E a sua família foi para lá também?

 

R – Minha família foi para lá.

 

P/1 – O casamento foi bonito?

 

R – Foi normal, lá no salão de festas, um casamento normal.

 

P/1 – Vocês viajaram na lua-de-mel?

 

R – Viajamos para Garanhuns. Cemitério das virgens, né? Famoso Cemitério das Virgens.

 

P/1 – Por quê? Todo mundo passa a lua-de-mel lá?

 

R – No hotel de Garanhuns, o famoso cemitério das virgens.

 

P/1 – Todo mundo ia pra lá?

 

R – Todo mundo ia para lá passar a lua-de-mel em Garanhuns, um hotel novo que tinha lá, bonito, bom.

 

P/1 – Ela sempre o acompanhou nessa...

 

R – Sempre me acompanhou. Ainda hoje ela se arrepende dessa viagem no Paraná porque ela não me acompanhou: “Vamos, minha filha, ficar lá no Paraná e tudo o mais?” Mas não, do Paraná, ela não acompanhou.

 

P/1 – Seu Getúlio, o senhor tem filhos?

 

R – Quatro. Dois nascidos no Ceará.

 

P/1 – Dois rapazes...

 

R – São dois rapazes e duas moças. A minha mais velha é uma moça, nascida no Ceará. O segundo é um rapaz nascido no Ceará. Esse rapaz veio pra cá com seis meses, novinho, no braço da empregada e aqui nasceram dois, uma moça e um rapaz. Quatro filhos.

 

P/1 – E eles são formados?

 

R – Uma mora no Rio de Janeiro, a mais velha, é empresária lá, professora da trabalha na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Sandra Regina, e tem umas firmas que ela faz consultoria, vive trabalhando, trabalha demais, escreve e publica livro, o diabo. É o cão a mulher, vixi. O segundo, Sérgio Renato, esse mora aqui, casado, quatro filhos, está aí na luta, engenheiro, fazendo casa em Caruaru. A mulher é funcionária da Receita Federal, muito bem casado, graças a Deus. Depois tem a moça, a moça não casou, é professora universitária em Caruaru, fez concurso há uns dois anos, passou. Trabalha nessa área de lixo, meio ambiente e o caçula, Eduardo, esse casou novo, só teve uma namorada, o casamento não deu certo, ele tem uma filhinha de sete anos que vive para lá e para cá, entre a mãe e o pai. Ainda hoje trabalha com o sogro, ele se dá muito bem com o ex-sogro, vive aí na luta.

 

P/1 – E senhor Getúlio, nessas divisões, nesses escritórios, havia mulheres nessas décadas de 1960, 1970?

 

R – Havia, havia.

 

P/1 – Mas não em funções técnicas, né?

 

R – Administrativa, técnica também. Tinha muita arquiteta, engenheira. Muita engenheira competente, boa.

 

P/1 – O senhor chegou a trabalhar com mulheres?

 

R – Não tenho nenhum preconceito, muito pelo contrário.

 

P/1 – As mulheres desempanhavam bem esse papel?

 

R – Desempenhavam muito bem, tem mulheres muito competentes. Eu confio muito no talento da mulher, dou muito valor.

 

P/1 – E senhor Getúlio, o que significou pro senhor ter trabalhado na Rede Ferroviária Federal?

 

R – Minha vida, né? Minha vida. Trabalhei muito. Acredito, tenho certeza, que realizei muito, não fiz nenhum inimigo, graças a Deus. Eu nunca fui assim, de proteger ou perseguir, nunca, nunca. Nunca tive dois pesos e duas medidas assim. Eu sempre procurei ser justo naquilo que eu pensei. Se alguma vez, deixei de ser não, foi consciente, foi inconsciente. Mas as pessoas que eu encontro hoje, também quem não gosta de mim não vai me dizer, né? (risos) Mas gozo de um bom relacionamento no meio ferroviário. Por exemplo, você viu o exemplo ali do Zé Carlos? Um dia vieram fazer aqui um negócio de Associação. Porque aqui tem um negócio de Associação dos Ferroviários Aposentados do Nordeste (AFAN), uma associação que a Rede Ferroviária fez. Sabe como é, aí, lá no Rio aparece uma dissidência, que quer formar outra associação. Eu não entro nessa, nunca entrei nesse negócio. Vieram me chamar para eu fazer parte exatamente de uma dissidência com outro camarada lá, na outra federação, outra associação. Eu nunca entrei nesse negócio, não sei se foi bom ou ruim para mim, mas eu nunca me envolvi nesse negócio assim, de liderança dessas coisas, eu sempre fui: o meu trabalho ali e pronto.

 

P/1 – O que o senhor mais gostou de fazer? Dessas coisas todas que o senhor fez, uma coisa que o senhor tenha gostado mais de fazer?

 

R – No meu tempo na Rede Ferroviária Federal, eu gostei de tudo, gostei de ser Engenheiro Residente, jovem, trabalhador, lá tomando sol. Ainda hoje, eu tenho problema de pele do sol que eu tomava, branco, saía tomando sol demais. Gostei do tempo que fui chefe porque, graças a Deus, dignifiquei o lugar, sempre me comportei decentemente, sempre tive prestígio lá na Rede Ferroviária. Uma vez quiseram tirar a tal da... Veja bem, o que aconteceu lá, uma época, quando eu saí aqui do cargo comissionado eu ganhava “X”, desse “X”, a metade era comissão, o resto era salário. Aí, me tiraram da comissão, eu digo: “Não.” Aí, veio uma norma lá que só poderia incorporar comissão se estivesse há cinco anos na função, aquelas histórias. Aí, eu fiz um relato pra Diretoria, para toda Diretoria da Rede Ferroviária, para todos os diretores, dizendo que aquilo não estava certo, que eu era um engenheiro, fui residente, tinha 30 e tantos anos de serviço. Por que agora que passei nesse cargo comissionado um ano, vou sair e vou perder a minha comissão? E os 30 anos que eu passei aqui, não voga não? Eu sei que eu fiz um blábláblá bem feito e cancelaram. Foi como eu consegui ficar com meu cargo de comissão e com a comissão incorporada, aposenta e dá para você ir levando a vida.

 

P/1 – E de todas as obras, teve alguma que foi mais desafiante?

 

R – Não porque, veja bem, a minha parte não era realizar uma obra.

 

P/1 – Sim, mas acompanhar.

 

R – Era acompanhar, conservar, tudo o mais. Eu diria que não, nunca teve uma que fosse um desafio. Só teve um arrombamento. Tinha um negócio de arrombamento, sabe o que é, né? Quando chove muito, a água vem, leva terra, o trilho fica suspenso: “Arrombou em tal quilômetro, o trem não passa, vai lá.” Eu tinha impressão que tinha um engenheiro lá que, ou tinha muita raiva de mim, ou gostava do meu trabalho, porque todo arrombamento ele mandava eu ir resolver. E, graças a Deus, eu resolvia.

 

P/1 – Como é que resolve?

 

R – Normalmente, quando há um arrombamento em que o trilho fica suspenso, fica aqui, terra de um lado, terra do outro e fica suspenso, a gente faz a chamada “gaiola de dormente”, coloca uns dormentes assim, um em cima do outro, até chegar ao trilho, bota outra gaiola, até chegar o trilho. O trem vai passar naquele trecho, enquanto a chuva passa, enquanto a gente recupera com material sólido, pedra, barro, terra, aquelas coisas, vai passar em cima daquela gaiola. E aquilo é um trabalho difícil, penoso, difícil de fazer.

 

P/1 – Faz manualmente?

 

R – Faz manualmente. Um dormente em cima do outro, um em cima do outro, e faz aquela grade. Sei que teve um trecho grande lá, de cem metros, você batia fotografia, o trem passa, você pensa que ele vai cair e tudo, mas não cai não, pode ir devagarzinho mas não cai, não. Muita responsabilidade.

 

P/1 – Que trecho foi esse?

 

R – Foi lá no Ceará, numa chuva muito grande que deu.

 

P/1 – Muita responsabilidade mesmo. Mas o senhor fazia bem isso?

 

R – Fazia, eu era bom nisso, eu era bom nisso.

 

P/1 – Senhor Getúlio, o que o senhor acha dessa idéia de contar a história da Rede por meio de vocês que trabalharam durante tantos anos?

 

R – Olha, eu, sinceramente, isso nunca me passou pela cabeça. Sempre é bom ficar, a história é a mãe de todos nós. Você vai buscar muita coisa, ainda hoje, na história dos homens do passado, que se comportaram. Você pega hoje um Graciliano Ramos, está certo? Foi prefeito de uma cidade lá de Alagoas. Andei lendo umas coisas sobre Graciliano Ramos, do tempo que era prefeito, se a senhora tiver ideia, escandaliza qualquer político brasileiro de hoje. O caráter, a honestidade, a maneira dele conduzir as coisas, impressionante! Ele foi prefeito lá, não sei se foi Palmeiras dos Índios, uma cidade daquela por lá. Procure saber uma história de Graciliano Ramos. Então, tudo o que você faz, se você trabalhar, se tiver uma equipe homogênea, porque hoje os conceitos estão muito mudados, politicamente, então, você não sabe o que é que faz. Você vê as bandalheiras, todo dia porque, antigamente, você ouvia falar. Eu sou do tempo do chamado Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Denocs). A Sudene tinha aquelas frentes de serviço, todo mundo sabia. O que eram as frentes de serviço? Era o Governo, naturalmente, na seca e tudo o mais, ele chamava ali dois ou três correligionários dele, mandava botar um armazém, empregava mil pessoas e o cabra ia no armazém, era assim que funcionava. O cabra ia no armazém, comprava, no fim do mês: “Você está devendo.” Era assim.

 

P/1 – E o senhor gostou de dar a entrevista?

 

R – Gostei. Gostei porque é uma oportunidade que a gente tem de mostrar o que a gente procurou fazer, o que a gente foi, até que ponto. Eu me sinto um pouco decepcionado com essa politicagem de hoje, não sei por que os homens, aqueles camaradas que estão nesses cargos tão importantes já tem tanto prestígio, mordomia, se deixam levar por essas coisas tão baixas que a gente vê hoje.

 

P/1 – Senhor Getúlio, obrigada pela sua entrevista, muito bom poder entrevistar o senhor.

 

R – Muito obrigado pela oportunidade, viu? Qualquer coisa estou a seu dispor.

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