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História

Despacho na ferrovia

História de: José Ramiro Fernandes Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2005

Sinopse

José Ramiro narra suas condições de vida em Funchal, Ilha da Madeira, a rigidez política, e as difíceis condições de trabalho. Relembra as brincadeiras de infância, como empinar pipa e jogar futebol e as festas da região: para os santos e para a colheita da uva. Na escola, teve dificuldade com matemática, mas muito gosto por línguas. Com o regime ditatorial de Salazar, passou a ter vontade de sair da Ilha da Madeira. Veio de navio para o Brasil; seu primeiro trabalho foi na Ferrovia Santos-Jundiaí. Descreve o trabalho como faturista, contabilista e chefe da estação, os acidentes ocorridos com trens e a vida boêmia de São Paulo.

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História completa

Identificação

José Ramiro Fernandes Rocha, 19 de fevereiro de 1934. Nasci no Funchal, Ilha da Madeira.

 

Família

Meu pai chama José Fernandes Rocha. E a minha mãe chamava Helena Edwiges de Gouvêa. Eu estudava um pouco e trabalhava na casa do meu avô. Era mais estudar e brincar. Não tinha outra atividade, não. Meu pai era contador, prática em contabilidade. E a minha mãe era do lar. Não tinha assim outras coisas que fizesse não.

 

O desejo de imigrar

Só para quem trabalhava no mercado era muito limitado, muito restrito. Não havia assim um mercado de trabalho, assim amplo, como tem em São Paulo. Era um campo limitado. Pode-se dizer limitadíssimo. Não havia assim empregos disponíveis, não. Quem tinha emprego segurava porque não tinha outro. Então eu cresci, fiquei lá até 18 anos. E com 18 anos vim para o Brasil. Que não aceitava, não me adaptava àquela imposição rígida de Portugal, de Salazar. Achava que tinha mais. Eu queria mais. Não tinha condições para mim. Eu na época ganhava, na época que eu comecei a trabalhar, ganhava 300 escudos por mês. Isso aí em 50, 52. Isso era insuficiente em 41. Já era insuficiente. Então, em 53 eu estava ganhando a mesma coisa. Qual era o campo que eu tinha pela frente? Nenhum. Qual era a perspectiva que eu tinha? Nenhuma. Eu ia ficar sempre naquilo, a vida inteira. Eu não aceitava isso. Vim para o Brasil. Cheguei no Brasil dia 26 de abril de 52. Entrei na Ferrovia em 26 de maio de 53. E fiquei até 83.

 

Infância no Funchal

A cidade era uma cidade muito turística. Era aquele trânsito de estrangeiro vindo, o mês inteiro. Uma cidade muito limpa, muito organizada muito. O ambiente da minha casa era o melhor possível. Só que os meus pais não davam moleza, não. Meus pais, mas principalmente a minha mãe. Minha mãe era enérgica para caramba. Mas, de bem. É só que eu não me adaptava àquela imposição. Aquele regime rigoroso. Eu queria algo mais. Eu queria mais liberdade. Alguma coisa para fazer, porque eu não tinha o que fazer na vida. Então eu parei o estudo com 14 anos. Estava no secundário. Aí, parei com tudo. “Eu vou estudar para quê? Não tem campo para eu poder desenvolver.” Eu estava assim trancado dentro de um casulo. Não podia sair fora. E aqui não. Aqui eu pude me expandir, pude ter outra atividade, mais progresso. Porque ninguém muda de um país para outro para piorar. É sempre para melhor. Então foi por isso que eu vim para cá. A minha vida lá em Portugal era brincar, empinar pipa, o dia inteiro. Era só. E jogar bola. Eu estraguei um sapato em 15 dias. Meu pai me comprou um sapato novo, e em 15 dias eu estourei jogando bola. Eu era louco por futebol. Falou que ia ter futebol, era comigo mesmo (riso) Então essa foi minha infância, minha adolescência. Estudei um pouco, brinquei bastante. Agora, o que eu gostava mesmo era futebol. Falou que era futebol, eu dizia para a mãe que ia para um lugar, e ia para outro, jogar bola. Quando voltava para casa era sempre 11 e meia, meio-dia. Até falava missa. Mas missa, até meio-dia não tem condições. É querer tapar o sol com a peneira. Que a missa não demora quatro horas. (riso). Essa foi minha vida. Eu jogava na turma da igreja mesmo. Era Colégio, como chama? Salesiano, parece que era assim. Onde eu morava, da minha casa na praia, dá 20 minutos a pé. Então, estava sempre assim, na beira de praia. Fui criado assim, na beira de praia comendo peixe. Só que passeei bastante. Mais diversão. A minha adolescência foi assim. Eu estudava, brincava e jogava bola. Meus pais eram católicos, mas não aquela coisa de ir na igreja todo dia. Uma vez ou outra eles iam na missa. Aos domingos, era missa. (riso). Não tinha outra ocupação paralela, não. No domingo, era levantar cedo, ir na missa, vir para casa. Aí passava o resto do domingo em casa. Antes ia visitar algum amigo do meu pai, alguma coisa. Mas sem maiores compromissos.

 

A cidade de Funchal

A cidade vivia em torno do turismo. Turismo, bordados, que são famosos no mundo inteiro, e exportação de vinhos e obra de vime. Isso é a vida da Ilha da Madeira. Mas o forte mesmo é turismo. Quando estava lá não tinha campo de aviação. O navio não atracava nas docas. Não tinha acostamento. Não tinha aeroporto. O transporte era feito de hidroavião. Hidroavião que amerrisava no mar, e navio. Não existia trem. Não conhecia trem, não conhecia rio, não conhecia nada. Porque lá não tinha essas coisas. Não tem isso aí. Não tinha e não tem até hoje. Trem lá não existe, não. Nunca saí para Lisboa, não. Portugal continental não conheço. Meus pais não tinham condição financeira para custear a viagem. E era assim, de navio, demorava um dia de navio. Então nossa vida era tudo na Ilha da Madeira. Não tinha conhecido, parente. Essa parte de Lisboa, não conhecia nada. Não podia ir de navio porque era um dia de viagem. De avião, eu tinha medo. (riso) Tinha e tenho medo até hoje. (riso) De avião não fiz menção de viajar, não. Então eu só conheci a Ilha da Madeira. Nunca saí fora. A não ser vindo para o Brasil, eu nunca saí fora da Ilha da Madeira. Da Ilha da Madeira no Brasil, eu gastei 11 dias viajando, 11 dias. Era dia e noite, céu e água. Mais nada. Você não vê mais nada. Agora, fora isso, eu não conheço outra coisa, não. 

Festas madeirenses

Nessa época, do período de maio até setembro, então tem aquelas festas regionais do Santo disso, Santo daquilo. Então tem aquelas festas regionais. E tem aquela festa da uva, colheita da uva, mês de outubro, não é? Então, todo mundo colhe as uvas. Para fazer o vinho. Então é sempre assim. Natal, por exemplo, é muito festejado. Primeiro de ano. Queima de fogos. O resto é tudo aquelas festas regionais. Mas não com a intensidade aqui do Brasil, que todo dia é dia de festa. Lá tem aquela época certa. Então assim em vários bairros. No caso seria, comparando com um bairro. Bonsucesso, São Martinho, enfim, têm aqueles santos das regiões. Então o Canal festeja numa época, uns mais, outros menos. Mas todo mundo faz. Há muita queima de fogos. Eles comem muito churrasco. Assim, a carne assada no espeto. Carne fresca. Mata no matadouro que fica distante, mais ou menos, meia hora, quinze minutos da cidade. Compra a carne fresquinha e assa na brasa. Eles tomam muito vinho. Aquelas comidas típicas de Portugal, que são violentas para caramba. (riso). Agora, vinho, eu fiz num dia mil e 400 litros de vinho, num dia. Tomamos tudo. Foi só consumido em casa, mil e 400 litros. (riso). Eu conheci só o meu avô materno, eu conheci. Paterno, não conheci. Eu lembro da minha avó paterna. Mas, tudo na Ilha da Madeira. Todos nascidos e criados ali. 

 

A escola

Até 11 anos, dez anos, 11 anos, eu fiz o primário. Depois passei para um curso superior. Lá eu fiquei dois anos no segundo ano. Que eu também, eu perdi o interesse. Eu fazia parte de contabilidade. Mas eu ia na aula de matemática com o livro de inglês. Se vê que eu não gostava, bom aluno, não é? Aula de matemática com livro de inglês era bom para caramba. Eu gostava de estudar geografia, línguas. Eu era bom em francês e inglês. E só. Matemática eu era uma negação, desenho eu era uma negação total. Nunca soube fazer raiz quadrada. Nunca soube, nem aprendi até agora. Não sei fazer. Agora idiomas é bom. Geografia, eu gosto de geografia. Línguas. Fora disso, eu não estudei mais nada. Inclusive o francês eu tinha aulas na escola e aulas com uma francesa. Era casada, era mulher de um primo do meu pai. Lá só se falava francês. Então, na época que eu tinha 14, 15 anos, eu falava bem inglês, francês. Eu me dava bem. Depois, se você não exercita o idioma, você perde. Agora, o que eu era uma negação total - um professor me dava um zero é muito, nota máxima - matemática e desenho. Se me der meio, um zero, é muita nota. Tem que me dar meio zero. Zero vírgula, zero, zero(riso). Porque nisso aí eu sou uma negação mesmo. Eu fiquei dois anos no segundo ano. Porque na aula de matemática com o livro de inglês... (riso). Eu era uma negação total. Aquilo não me entrava, esse negócio de fração, equação. Esse negócio não era comigo. Aí vim para o Brasil depois, que eu tinha 17, 18 anos. Aí fui trabalhar na seção de cálculo. Brincadeira. Eu era negação em matemática, depois fui ser calculista na Ferrovia. E era bom, era bom. Eu cheguei na Ferrovia, aqui no Brasil, eu cheguei a fazer 3 mil e 500 cálculos num dia. 

 

Período Salazarista

Tudo era proibido. Você não podia ter um isqueiro na rua sem licença da polícia. Que tinha uma companhia chamada Companhia Neo Fabril, era CUF, né, que ela tinha o monopólio de fabricação de fósforo. Então, para ter um isqueiro tinha que ter uma licença da polícia. Se o policial te pegasse na rua sem licença, o isqueiro ia junto. Ia embora. Se rateasse muito, ia junto com o isqueiro. Não podia andar na rua na contramão. Tinha que atravessar naquelas faixas de segurança. Em cada cruzamento, tinha um sinaleiro, um policial, que fazia sinalização manual. E tinha que atravessar dentro da faixa. Se atravessasse fora da faixa era multado, que nem automóvel. Era aquilo e aquilo mesmo, e fim de conversa. Não se podia fazer rodinhas assim, grupos conversando, que na época de Salazar um era espião do outro. Era vetado pela Pide, que era uma polícia do Estado. Que era rigorosa para caramba. Você não podia falar bem do governo, nem falar mal. Só tinha que decorar aquilo, só o necessário. Não podia fazer muito comentário porque estava lascado. É, o regime era violento O regime era, como se diz? Era ditatorial. “Você tem que falar aquilo que eu quero, que me interessa. Se não for...” Na hora de embarcar para fora do país, se na sua ficha tinha uma manchinha vermelha, você não saía mais. Qualquer coisinha, qualquer observação, você não sai mais do país. Até para a África, que eram colônias portuguesas, não saía não. Lá tinha, na sua ficha constava alguma coisa, então não pode sair. Muitos anos atrás, houve um primo do meu pai que era despachante da alfândega. E me parece que ele tinha algum assim... algum contato com um espião alemão, sem ele saber. Não sabia quem era a pessoa, mas tinha contato com a pessoa, sem saber o que fazia. A polícia prendeu ele. Foi morto na polícia. Quando a viúva quis saber a morte do marido, eles tiveram pano para mangas. Ela foi chamada para saber por que ela queria saber da morte do marido. Ela quis saber, porque queria saber. “É um direto que eu tenho de saber.” Não podia saber, não. A origem, a causa real, não podia saber. Agora, o pessoal diz que lá é muito bom para quem tem dinheiro. Mas quem mora lá, que trabalha lá não presta. Eu até aconselho para hoje, para os que forem passear, tem que levar muito dinheiro. Porque o custo de vida lá é altíssimo. Então, não é com mil dólares, com mil e 500 dólares, com dois mil dólares que você vai ficar seis meses. Isso é para ficar poucos dias.

 

A decisão de emigrar

Inicialmente eles não aceitaram. Porque um dia eu expus para o meu pai o meu problema. Que eu trabalhava. Eu falei: “Eu saio daqui para qualquer lugar. Para Curaçao, para a Venezuela, para qualquer lugar do mundo. Eu vou embora. Aqui não fico.” Aí, tinha uma tia aqui em São Paulo, irmã da minha mãe. Ela escreveu para essa minha tia e pediu uma carta de chamada. Então foi assim que eu vim para o Brasil. Vim eu, meu pai e dois irmãos. Mas lá eu não ia ficar, não. Lá não ia ficar mesmo. Ou com carta de chamada, ou clandestino. Eu ia fugir de qualquer maneira. Não tinha trabalho. Eu vou pensar o quê na vida com 300 escudos por mês. Eu vou pensar na vida o quê com isso? Não tem condições. O meu pai ganhava assim para a despesa. Não é que ele ganhava bem. Para a despesa. Mas o que eu ganhava em 52 foi oferecido para mim em 41. Onze anos depois eu estava ganhando a mesma coisa que me ofereceram em 41. Pensei: “O que que eu faço na vida com isso? Não posso pensar nada.” Então eu falei para ele: “Pai, eu posso deitar hoje para dormir. Só que amanhã eu não vou tomar café aqui. Eu estou fora.” Eu ia embora. Eu não ia ficar de jeito nenhum lá. Muito bom, um lugar muito bonito, um clima saudável, muito organizado. Mas só que não tem poder aquisitivo. Não adianta você morar num lugar muito bonito, bom clima, boa alimentação e o seu poder aquisitivo? Vai comprar o quê? Com o quê? Você vai comprar o que com o quê? Com nada? Então.... Este foi o ponto de eu ter saído. Quando ele viu que eu estava irredutível na minha decisão, aí vim eu, meu pai e dois irmãos. Nós somos cinco. Vim eu, meu irmão mais novo e a minha irmã mais nova. Lá ficaram dois ainda. Vimos em três para o Brasil, meu pai, quatro. Depois de 12 anos que mandei buscar a minha mãe.

 

A viagem para o Brasil

Quando eu era pequeno, da casa do meu avô, eu avistava o mar todinho. Até o que a vista alcançasse. Aquele horizonte, você vê tudo. Eu via o navio, eu ficava assim... Ele ia sumindo, sumindo, sumindo... Eu ficava imaginando o que tinha depois daquela linha. Eu queira saber o que tinha depois do que minha vista alcançava. Eu queria saber o que tinha para a frente. E assim tive sempre a ilusão de sair. Sempre tive essa ilusão de sair. Até quando eu saí. Agora, quando eu embarquei no navio, eu saí nesse mundo afora. Não sabia como estava fazendo, não sabia nada. Eu só via céu e água, dia e noite. Só. Aí cheguei no Brasil. Depois de 11 dias de viagem cheguei em Santos. Foi uma viagem maravilhosa. Mas para mim era um mundo, eu estava indo para um mundo desconhecido. Agora é classe única. Mas naquela época havia três classes de passageiros. A primeira classe, a segunda e a terceira classe, que era a mais barata. Mas eu vim na mais barata. Mas o que que eu podia fazer? Agora, a alimentação era ótima. O navio tem piscina, tem salão de baile, tem médico, enfermeira, tem tudo que você pode imaginar tem no navio. Você recebe telegrama, passa telegramas. Troca dinheiro, faz câmbio. Assim eu levantava de manhã cedo, tinha um céu para me acordar para tomar o café da manhã. Que café! Aquele café da manhã. Meio dia, almoço. Das 9 ao meio-dia, tomava banho de piscina. Depois almoça, vai tomar banho de piscina das 2 até às 5 horas da tarde. Aí, a noite vai jantar. Aí você escolhe, tem cinema ou baile. Então, eu como não dançava, eu ia para o cinema. Eu, um dia sim, um dia não, estava no cinema. Não tive enjoo. Eu estava que nem aqui, a mesma coisa. Tranquilo.

 

A solução era migrar

Todos o mesmo motivo. Muitos foram para a Venezuela, fugidos. Não havia assim, como diz? Intercâmbio direto. Você ia para a Venezuela, fugia, e outros vieram para o Brasil. Agora se você procurava rapaz da minha idade, com 18, 19 anos, você não encontrava, muito poucos. O resto tudo tinha caído fora. Onde estava? Venezuela, Brasil, Curaçao. Só. Lá tinha um navio polaco, chamava “Jasielo”, num dia só fugiram 21. Que não atracava nas docas, então o embarque era feito através de canoas. Lanchas que transportam de um lado para outro. Aquelas canoas às vezes embarcavam no navio, depois abandonavam no mar. Num dia só saiu 21, tudo fugido. Lá é difícil viver lá. Lá é difícil. Você cresceu fica naquele tamanho. Você não passa daquilo. É sempre aquilo. Que coisa tem para fazer? As mulheres faziam bordados para as fábricas. Era só bordar. E fazia este artesanato de vime. E exportação de vinhos. E só, mais nada. E turismo. Então, quando chegava os turistas, ali era explorado. Ia pagar os olhos da cara. Pagava bem. O que me custava na época, vamos supor, um escudo, para você custava dez. Você não conhece o idioma, não conhece as moedas. Então, ali você dança. É nessa que você dança.

 

Trabalhos e alimentação

Eu trabalhava na lavoura, na quinta do meu avô. Trabalhei um pouco em papelarias, em balcão. Logo saí. Só que lá se trabalha das 9 às 18 horas, e parece que tem uma hora de refeição. Aos sábados faz das 9 às 22 horas. Feriado, folga só domingo. Só domingo que é a folga. Agora, quando é época de Natal, então fica 24, 25, 26, 27 e 28. Natal é quatro dias em casa. Depois tem o Ano Novo. Fica 31, depois das 10 horas, dia primeiro, dia 2. Algum lugar só volta dia 6, depois do Dia de Reis. Não são todos, mas algum lugar faz isso aí. O resto é só trabalhar, trabalhar. A comida, eu fui criado até os 18 anos, café da manhã, polenta no almoço e sopa de legumes à noite. E vinho durante o dia. Eu tomava uma média de cinco litros por dia. Não fazia mal nenhum. Só que o vinho lá não tem esse negócio de misturar assim álcool com água. O vinho é suco puro da uva. Então não faz mal, não dá muita dor de cabeça, não dá aquele enjoo. Você pode tomar um litrinho, não faz mal nenhum. Agora, almoço, polenta. Com verdura, com peixe. Mas polenta todo dia. Como aqui eles comem arroz, feijão, nós comemos polenta. A mesma coisa. Faz polenta na hora, come ela fria depois, ou frita, faz ela frita. Mas é assim, o almoço lá é polenta mesmo. Quando tem você come com algo mais. Se não você come assim, com açúcar, com um pouquinho de vinagre, só para dar aquele gosto. Molho de peixe, um peixe fresco assim. Porque o peixe lá é assim, você pesca o peixe hoje de madrugada, de manhã cedo chega no mercado. O que você vendeu, fresco, você vendeu. O que não vendeu fresco joga fora. O que está salgado fica para o outro dia. Mas nós comemos peixe fresquinho. Carne fresca. Não tem esse negócio de você comer carne congelada um mês. Matou o boi no matador, melhor estar no açougue. O gado está quente ainda. Eu comia carne crua, cenoura crua, batata-doce crua. Só que, quando é de manhã, eu levantava às 6 horas da manhã. A primeira coisa, tomava um copo de vinho para quebrar o jejum. Aí tomava o café da manhã, café com leite, pão com manteiga. Aí, eu tomava um prato de sopa que sobrou de ontem. Já me abastecia de manhã cedo. E para rebater aquele negócio, mais um copo de vinho em cima. Então já eram dois. E no almoço, então, tomava vinho à vontade. Me dava sede, ia na adega, destampava o tonel, e chupava na mangueira. Não tinha medida assim de tomar um copo de vinho. Não sei se tomava um copo, um litro, não sei. E frutas da época. Frutas, o que tivesse, eu comia. Ameixa, figo. Figo eu comia assim, melado no pé. Nascia, crescia, amadurecia no pé, melava no pé. Eu comia. Então, comia fruta o dia inteiro. Vinho, o dia inteiro. O almoço era polenta. À noite era sopa de legumes com carne de porco. Porque matava um porco, com 10, 15 arrobas de carne, salgava, e comia carne o ano inteiro. Carne de vaca, assim, uma vez ou outra que a gente sentia o cheiro da carne de vaca. Muito peixe. Só que eu não gostava de peixe. Não gostava de peixe. Até hoje eu como, mas não sou assim chegado em peixe, não. Não sou muito chegado em peixe, não. Agora, um peixe que eu gosto, e que é uma delícia, é atum. Atum eu como um quilo. De qualquer maneira. Enlatado ou fresco. Cru não. Cru não lá não tinha. Às vezes, sim, aparecia um peixe, um salmão, lula, polvo, e aqueles mariscos. Tem uns mariscos muito bons lá. Então, nossa vida era assim.

 

Primeiras impressões do Brasil

Olha, não sei nem explicar como foi, não. Cheguei num país estranho, costumes diferentes. A língua, mais ou menos o idioma é o mesmo. Só que há variação de palavras, no caso. Mas dá para a gente conversar bem. Mas o clima é diferente. Aqui agora é verão. Lá, agora, está chegando o inverno. Já está indo para o outono. São quatro estações diferentes. Quer dizer, até me adaptar ao clima do Brasil não foi fácil. Mas deu para acostumar bem. Só que aqui é que eu vim conhecer o que era um rio, o que era um trem. Eu não sabia. Eu via assim no cinema, quando eu ia no cinema. Fora disso, não conhecia nada. Vim conhecer o aeroporto de Congonhas na época. Que era famoso em São Paulo. E fui me adaptando. Porque eu acho o seguinte, eu tenho que me adaptar ao meio, não o meio a mim. Então, tenho que me adaptar. Já que eu vim para cá, eu tenho que me adaptar aos costumes. Enfim, tenho que me adaptar a tudo. E não me arrependo por isso, não.

 

São Paulo vista pela primeira vez

Olha, foi um impacto. Uma transformação do dia para noite. Esses arranha-céus fantásticos que tem aí. Vi toda essa grandiosidade. Que a minha cidade é assim ó, uma coisinha desse tamanho. Não é nada. Ilha da Madeira frente ao resto do mundo, é um pingo no oceano. Cheguei aqui vi aquele montão de prédios. Avenidas largas. Falei: “Puxa, mas...” Vim conhecer o rio Tietê. Falei: “Puxa” Fiquei admirado O rio Tietê hoje não é nada, mas para mim aquilo foi uma coisa grandiosa. Essas avenidas. Conheci a Celso Garcia, Rangel Pestana. Aquela imensidão, não chego mais nunca. E quando passava, que via aquele volume de pessoas para embarcar num ônibus. Eu falei: “Isso aí é loucura.” Na minha terra não tinha essas coisas. Eu achava que tudo era igual a lá. É tudo diferente. Mas foi assim, um impacto assim violento para caramba. Fomos morar na casa da minha tia, na Penha. Lá perto do Cemitério da Penha. Na época a Penha havia muitos cinemas. Aquela rua, Penha de França, continua sendo a mesma coisa. Alguma variaçãozinha assim, mas continua a mesma. Amador Bueno da Veiga continua a mesma coisa, não mudou nada. A periferia da Penha mudou muito. Agora, a Penha em si não mudou nada. Houve assim, algumas construções de prédios. A Igreja da Penha continua a mesma coisa. Todo aquele centro da Penha.

 

Ingresso na Ferrovia

Logo que nós chegamos ao Brasil, eu cheguei em 26 de abril. Dia 26 de maio eu entrei na Ferrovia. Aí, por força da circunstância, eu fui me adaptando ao meio. A convivência com os colegas de trabalho, aquele negócio todo. Fui obrigado a me adaptar assim, de cara. Ou eu me adaptava ou dançava. Então eu tive que me adaptar logo. Olha, tinha um primo do meu pai que já trabalhava na Ferrovia. Então, através dele, me colocou lá. Mas eu fiquei assim, como diz? Eu trabalhava como contratado. Não sabia para quem, não conhecia o meu contratante. Mas fiquei assim um ano e meio contratado, ganhando, recebendo todo mês, mas quem era o patrão eu não sabia não. Aí depois, em 53 que eu fui efetivado na Ferrovia. Que eu entrei assim, entrei não sei nem como nem porquê. Não prestei concurso não. Sei que: “Amanhã você começa a trabalhar na Ferrovia. Entra às 8 horas da manhã.” Eu tinha que sair da Penha, num bonde, às 5 horas, para estar lá no Pari às 8 horas da manhã. Então, era bonde o dia inteiro. Não existia esse ônibus. Tinha uma linha só de ônibus, mas eu podia andar de bonde. Na época era 50 centavos. Então eu vinha de bonde. Descia na Paula Souza, atravessava a rua, estava lá no Pari trabalhando. Entrava 8 horas da manhã. Saía às 5 horas. E depois de um mês o chefe disse: “Ó, você vai trocar de serviço. A partir de amanhã você entra meio-dia e meio, e sai no fim do serviço.” Para mim foi melhor ainda. A adaptação foi mais fácil. Tinha mais gente para conviver, mais colegas. A gente saía todos juntos. Às 5 horas eu saía sozinho. Saindo mais tarde, então eu já saía com uma turma de uns 10 ou 12. Então: “Ô, vamos para cá, vamos para lá.” Então fui me encaminhando nos descaminhos da vida (riso). Eles foram me levando assim, para onde não deviam me levar. Foram me levando assim para bar: “Vamos conhecer, vamos aqui, vamos ali, vamos aqui.” E eu acompanhava eles. Os colegas mesmo me desencaminharam. Me encaminhou desencaminhando. Mas foi bom. Olha, onde você possa imaginar, eu frequentei. Onde você puder imaginar. Lugar bom, lugar ruim, eu conheço todos eles. De dia, de noite. Conheço uma porção de lugares. São Paulo eu domino assim, de ponta a ponta. Os bares que a gente ia, todos aqueles barzinhos do Mercado, São João, o Leão, Olido, Churrascaria do Ferramenta, na Duque de Caxias, que era nota 10. Aqueles bares do Brás, Belém. Todos eles. Bela Vista. Eu frequentei tudo quanto é lugar. Teve uma época que eu troquei o vinho pela pinga. Trocava o vinho pela pinga. Só que eu misturava tudo. Pinga, cerveja, caipirinha, rabo de galo. O que viesse eu tomava tudo. Não fazia exceção. E depois com o tempo, eu achei que não estava bom, não. Então eu parei. Hoje eu tomo uma cerveja, um vinho, assim, meio de leve. Mas tomo uns cinco litros de vinho, assim, só no fim de semana e à noite tomo cinco litros em 15 dias. Só isso. Não é beber muito. Tomar cinco litros em 15 dias? Tomar um vinho assim, um litro, na hora do almoço, é muita coisa? Acho que não é muito, não (riso). Agora pinga era demais, viu? Pinga era demais, viu? No tempo que São Paulo tinha bonde, meio-dia e 20 eu estava no Belenzinho, ali no Matarazzo. O bonde parou no ponto e eu não vi, de tão bêbado que eu estava. Assim que eu ia trabalhar. De um dia para o outro eu parei. Da noite para o dia eu parei de beber pinga. Tem dia que eu sinto o cheiro, me arrepia. Não suporto cheiro de pinga. E eu bebia pinga, viu? Nós chegamos num Carnaval, na Carlos de Souza Nazareth, ali perto do Mercado. Terça-feira de Carnaval. Acho que era uma turma de uns 10 ou 12, mais ou menos 9 horas da manhã. O português bebeu sabe quantas garrafas de pinga, às 9 horas? Meia dúzia. Para começar a brincadeira. Para começar. De um dia para o outro parei. Não bebo mais e acabou. 

 

Mudança para a pensão

Fomos morar numa pensão. Nessa pensão é que o negócio descambou para a violência, viu? Na casa da minha tia também era um regime rígido. Só que o ambiente na casa da minha tia não era adequado para mim. Porque meu tio não se dava com o meu primo. Então, entre eles era aquela briga todo dia. Falei: “Isso aqui não serve. Então vou morar na pensão sozinho, chego a hora que eu quero, saio a hora que eu quero. Eu pago para lavar as minhas roupas, pago tudo. Mas, nesse ambiente, eu não fico, não. Saímos todos. Só ficou a minha irmã. Que é mulher, sabe como é. Tem que ficar na casa da minha tia. Mas eu, o meu pai e o meu irmão saímos fora. O ambiente entre o meu tio e os meus primos era sempre aquele de discordância, de discussão, aquele negócio todo. Então achei que para mim aquilo não era adequado. Porque eu fui criado num ambiente familiar onde todo mundo se entende. Eu não gosto de discordância, não. Começava a conversar e dali já estava todo mundo brigando. Eu não gosto disso, não. Nós estamos conversando, estamos conversando, certo? Conversar é uma coisa, briga é outra coisa. Não gosto de misturar as estações, não. Aí fomos na pensão. Fui eu, meu pai e meu irmão. Aí, o chefe era o meu pai. Ele que determinava e nós obedecíamos. 

 

O despacho na Ferrovia

Inicialmente, eu fiquei um mês e meio olhando assim. Não sabia fazer nada. Eu só fiquei um mês e meio olhando para a sua cara, vendo você trabalhar. Às vezes fazia um lançamento de uma fatura, alguma coisa. Coisinha assim, muito simples. Aí depois passei para lojista e faturas. No faturamento. Aí, comecei a deslanchar no serviço. Aí quando foi um dia o encarregado falou: “Você sabe escrever a máquina?” Eu falei: “Sei. Aprendi, mas só que estou destreinado.” “Então vai treinando a máquina.” Aí fiquei lá, treinando na máquina. Faturamento simples. Aí fiquei um mês, mais ou menos. Aí depois ele falou: “Pode ficar aqui no lugar certo.” Quando eu fazia 100 faturas por dia, já era craque. Na época, 100 faturas por dia, já era bom. E eu comecei a caprichar. 80, 90, 100. Aí: “Vai ser efetivado nesse setor aí.” Aí depois passou para 200, 300, 400 por dia. Aí que a barba cresceu. De hora em hora, 50 faturas na máquina para fazer o serviço. De hora em hora, 50. Aí, eu fazia. 250, 300. Aí depois ele achou que eu tinha que ir para a seção de cálculo, que era mais, é, diferente. Então já fui para o cálculo. Éramos em quatro. Teve um dia que faltou três, eu fiquei sozinho. Num sábado. O armazém entupido. Quantas foram vendidas? Três mil e 500 faturas Dar conta de 15 máquinas trabalhando. Eu fui 8 horas sem parar, naquilo. Aquela maquininha de calcular manual. Aquela outra rendia muito mais serviço. Naquela maquininha eu fazia, deitava e rolava. Essa máquina se existe é só algum colecionador que tem. Você fazia as contas, as operações assim na máquina. Você multiplicava, diminuía, dividia. Era muito melhor do que essas digitais de hoje. Não tinha esse negócio de faltar pilha, ou faltar energia elétrica. Era manual. Mas a máquina fazia tudo sozinha. Eu fiz mais de três mil e 500 despachos. Na máquina de faturamento eu fazia 300, 350 faturas por dia. E tinha serviços específicos ainda para fazer. É só fazer despachos com fretes pagos e Docas de Santos. Só. Não fazia mais nada. E o outro despacho não fazia. A não ser que fosse frete pago. Despacho pequeno, grande despacho. Eu fiz despacho para tudo quanto foi lugar do Brasil. Vamos supor, se você tem uma caixa, vamos supor 50 quilos. Vai despachar para Manaus. Eu fazia. Eu tinha as tabelas de fretes. Fazia os cálculos. O faturamento fazia o despacho todinho, de São Paulo a Manaus. No Pari é só carga. A seção do Pari é só carga. Hoje está quase que abandonado. Mas na época, o que carregava por dia só no armazém, 36 vagões. Só no armazém. Fora a carga de grandes volumes, que era carregado no pátio. Mas só no armazém era 36 vagões por dia de carga. Já os ferros, tubos, volumes grandes, era carregado no pátio. Carregava com uns 20 vagões mais ou menos por dia.  Empresa era a Santos-Jundiaí. Tinha a estrada de ferro Santos-Jundiaí e tinha departamento rodoviário, rodo-ferroviário. Depois que fez a criação da Rede Ferroviária, ela ficou pertencendo à Rede Ferroviária. É a antiga São Paulo Railway. Aí depois, quando foi em 46, o governo encampou a Ferrovia. Então ela teve uma denominação, Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Como tinha Central do Brasil, Leopoldina, tinha Noroeste do Brasil, tinha assim várias Ferrovias. Aí, criou-se a Rede Ferroviária, então unificou todo mundo na Rede Ferroviária. 

Departamento de coleta e entrega de mercadorias

Havia um sistema de coleta e entrega de mercadoria. A gente coletava mercadoria na casa do cliente. Tinha os caminhões de coleta. Então os caminhões chegavam no pátio e descarregavam no armazém. Cada volume com seu destino. E depois ia separando. No armazém era separado, carregado pela ordem de descarga. A primeira carga a ser descarregada é a última a carregar. A última a descarregar, a primeira a carregar. Mas é essa cota de avião de departamento de finanças, departamento de cobrança, departamento de coleta, departamento de reclamações, departamento de cálculo, de faturamento. Então havia toda aquela gama de serviços. No faturamento nós éramos em 15. Três calculistas. Três, quatro calculistas. Quatro calculistas. Tinha correspondência. Tinha um rapaz só para atender telefone. Tinha dois telefones para atender à coleta de mercadoria. E tinha assim, uma equipe de caminhões, uma frota de caminhões, só para coletar e entregar mercadoria. Quando eu comecei na Ferrovia era faturista. Depois passei a calculista. Depois passei a classificador de mercadoria, que era assim o cálculo. Aí depois eu fui para ser encarregado de serviço, aí já era o encarregado do faturamento, encarregado de tudo. Até da expedição. Eu trabalhei no Pari 14 anos. Aí passei para estação da Mooca. Na Mooca eu passei para encarregado de serviço. Aí depois eu passei para encarregado de chefia. Então, no encarregado de chefia, você é destacado para trabalhar em várias estações. Então o chefe chegava e: “Ah, hoje eu preciso de você em...” Vamos supor, Mauá. Você não pode dizer que não vai. Você é empregado da empresa. Então você vai chefiar Mauá. Aí passava um tempo: “Eu preciso de você em Santo André.” Aí você volta para Santo André. Com esse remanejamento de pessoas, você conhece uma série de estações, uma série de macetes, no caso. Porque no mundo inteiro tem coisa em cima de um trilho. E cada lugar tem o seu sistema de funcionamento. Então você fica conhecendo os lugares, o modo de operar da estação. Enfim, fica conhecendo uma série de coisas. Pessoas diferentes, equipes diferentes. Mas, tudo dentro da ferrovia, você faz uma série de coisas. Você tem que conhecer o departamento de pessoal, tem que conhecer correspondência, tem que conhecer mercadorias, tem que conhecer uma porção de coisas. Você é o chefe, e o chefe tem que saber tudo. É. Não vai dizer: “Ah, depois eu faço.” Na ferrovia não se faz depois, se faz agora.

 

O trabalho como calculista

É calcular o frete que vai ser pago pelo despacho que você está fazendo. Vamos supor, de São Paulo a Barretos. Tem uma quilometragem. Você vai entrar em duas ferrovias, que era a Santos-Jundiaí e a Paulista, de Jundiaí para cima. Então você tinha que fazer, vamos supor, na Santos-Jundiaí era 14, 10 por mil quilos. Na Paulista era 12, 20. Era um porcentual diferente para cada trajeto. Então você tem que fazer o cálculo até Jundiaí e depois de Jundiaí até o destino. Você calculava, fazia essas contas aí. O cálculo era mais simplificado. Agora, havia ferrovias, vamos supor, Araraquarense era uma, a Paulista era outra. A Sorocabana era outra, a Central era outra. Então cada um tinha o seu porcentual de quilometragem. Tinha, vamos supor, na encomenda, a Santos-Jundiaí cobrava por mil quilos. A Paulista também por mil quilos. Mas na Mogiana precisa fazer por quilo. Então você tinha que transformar quilo em tonelada. Tinha que transformar uma coisa na outra. Juntava tudo, somava, multiplicava, dava o frete certo. Havia um convênio. Depois havia uma distribuição para cada uma. Havia um faturamento, a gente já faturava em seis dias. Mas já especificava o que era contadoria própria, o que era própria da Santos-Jundiaí, e contadoria estranha. Que no caso envolvia a Mogiana, a Paulista, Araraquarense. Então depois fazia aquele acerto entre eles.  Eu cometi dois erros uma vez e paguei de bolso. Na época ficou em 110 reais, 110 mil cruzeiros, na época. E errei não foi por desconhecer, foi excesso de confiança. Confiava tanto no meu taco que eu vacilei. Na revisão eu cancelei o frete que estava indo certo e pus o número errado e mandei para a cobrança. Aí a contadoria já mandou a cobrança para mim. Para eu cobrar do cliente: “Você vê onde está esse cliente?” Um ajudante de pedreiro, com uma mala de ferramentas, em São Paulo. Eu vou procurar um pedreiro, em São Paulo? Paguei na época. Foi 66 reais, 66 mil cruzeiros, na época. Aí passou uma semana, veio um despacho de Marília. Um caminhãozinho que pesava meio quilo, sabe? E transporte de veículos, se for nacional é um preço, é um X. Se for estrangeiro, ele dobra o preço. E eu punha a tabela assim: “Bom, 40,10. O caminhão pesa meio quilo. Dá 40,10.” Mas eu não fui olhar a estação anexa. 40,10. Passou uma semana, mais 40 pau E não tem acordo, não. Errou, paga.  Eu tinha que entrar com o dinheiro. Não vem descontado em folha de pagamento. Tem que apresentar dinheiro. Aí os colegas: “Rocha, nós vamos fazer uma vaquinha e ajudar você a pagar.” Falei:“Eu não aceito.” “Mas por quê?” Eu falei:“Vocês não erraram, vocês copiaram o meu erro. Quem fez a revisão fui eu. Se eu dou o código certo, você copia certo. Se eu faço errado, você copia errado. Quem pôs o autógrafo? A assinatura é minha. Não é minha? Então eu pago. Quando você for encarregado de alguma coisa, você assuma o seu erro. Não queira repartir com terceiros um erro seu. Assuma o seu erro.” Eu pus do meu bolso, na época, 110 paus. Dois erros que eu fiz. Errei por excesso de confiança, não foi por desconhecimento. Por excesso de confiança. Primeiro faturamento, depois passei para calculista, depois passei para classificador. 

 

O trabalho como faturista

Você tinha que copiar o despacho todinho, com procedência, destino, endereço do remetente, endereço do consignatário, espécie de mercadoria, quantidade de volumes, valor de cada um, o peso de cada um. Aí, depois você completou isso, você fazia a parte de classificação, a tabela do frete e calculava o frete. Isso era feito em seis vias. Tinha duas partes, uma parte de conhecimento, duas vias acompanhavam a nota fiscal, uma parte era contadoria própria, outra parte era contadoria estranha, e mais o conhecimento. Quando estava no faturamento, já estava em fase final. Primeiro passava no calculista, depois passa no classificador, passa no calculista e depois que passava para o faturamento. Faturamento é a base final. O calculista era um cargo acima do faturista. E o classificador era acima do calculista.  Eram 15 faturistas. Chegou uma equipe nova, que nós éramos em poucas pessoas. Alguns já estavam se aposentando. Outros estavam se transferindo. Então houve uma renovação. Nessa renovação o pessoal chegou pensando que era tudo um mar de rosas. Era tudo beleza. E começaram a fazer 300, 400, 500 faturas por dia. Se você começa a manter seu ritmo de produção, 400, 500 por dia, você vai cansar. Porque isso aqui cansa. E, quando você reduzir, você vai ser chamado: “É você faz assim porque você é vagabundo Já está acomodado. Dez anos de casa.” Então continua. Aí quando foi um dia cansou, como todo mundo cansa. Aí cansou, o chefe, pau nele “Puxa acostuma. Você vai ter que manter essa produção.” Amanhã vão chamar a atenção porque mantém sempre aquela, 250, 300, uma coisa assim. Mas eu vou até 9, 10 horas da noite. Você faz mais em menos tempo, ou vai estranhar. Você vai fazer 350, vai precisar de uma hora a mais. Não te chamam a atenção, não. Porque se você faz mais em mais tempo de serviço, não tem problema, não. Mas você faz mais serviço, em menos horas trabalhadas, o homem vai reclamar. Que negócio é esse, ontem você fez 500, hoje faz 400. Fiquei dez anos como faturista. Mais uns 4, 5 anos como calculista, mais ou menos. No faturamento eu fiquei dez anos. Depois fiquei o resto do tempo entre calculista e classificador. Mais seis anos, entre classificação e cálculo. Depois eu fui transferido para Mooca, como faturista. E calculista. Aí depois eu assumi o cargo de encarregado de serviços. 

 

Carreira na ferrovia

Havia o seguinte, você tem a sua qualidade, tem o seu esforço, então você tinha promoções de nível. Você estava na mesma função, mas num nível superior. Vamos supor, uma certa estação terminava no nível 17 ou 19, alguma coisa. Daí para cima já era chefia. A chefia inicial era número 25. Então, de acordo com a sua capacidade, seu esforço, você galgava níveis maiores. Então, vamos supor, faturista de nível 14, 16. Mas tem um faturista de nível 17 que era mais capacitado. Era mais caprichoso no serviço, mais assíduo. Era mais tudo. Aí você ia galgando até chegar no limite daquela categoria. E você passava depois para outra carreira dentro da empresa. Passei de faturista para calculista. Depois passei para classificador, já era um nível maior. Aí quando eu cheguei no limite de classificador, já passei para chefe. Havia uma seleção, entre nós, havia uma seleção. Ninguém queria ficar sempre naquele nível inicial. Todo mundo queria subir. Então vai subir como? Através da sua capacidade, de seu esforço. Não era através de apadrinhamento. Através do seu esforço você subia. A gente fazia a seleção entre nós mesmo. Todo mundo se esforçava para ser melhor. Ninguém queria ser inferior ao outro. E quando eu comecei no faturamento, como se você chegasse a fazer 100 faturas por dia, você já era bom. E todo mundo fazia 100. Ou mais. Você faz 100, eu faço 120. Sempre fazendo mais, e melhor. Tinha que fazer assim, mais e melhor. Existia esse controle aí. Você, no faturamento, cada cinco erros era um dia de punição. Isso no faturamento todinho. Vamos supor, você faz 300 despachos por dia. No final são nove mil, não é isso? Você fez cinco erros, de qualquer natureza, é um dia de punição. Então ninguém quer alcançar cinco erros dentro de um mês.  Ficava suspenso. Então, ninguém queria atingir o limite, ou ultrapassar o limite. A turma caprichava para evitar. Era controlado. Não tinha esse negócio de dar moleza para ninguém. Se errou, pune. Errou, paga. Então eu sempre primei por isso aí. Tanto que o meu faturamento eu fazia tudo. Podia pôr uma régua que estava tudo no alinhamento. Não tinha palavras ou nomes fora de alinhamento. Era tudo no alinhamento. Eu fui considerado o faturista número um do Pari. 

 

Movimentos grevistas

Havia esses movimentos grevistas. Só que eu nunca participei disso, não. Eu era contra pelo seguinte, quando um empregado entra numa empresa ele sabe quando está ganhando. Ninguém entra sem saber quanto vai ganhar, nem a escala desse trabalho. Todo mundo sabe as normas da empresa. Depois vai reclamar o quê? É muito mais fácil você ir procurar outro do que estar fazendo greve, enchendo o saco. O senhor não quer trabalhar, ou quer trabalhar? Agora, quando você entrou você sabia o seu salário quanto que era. Então não vejo porque fazer esse negócio de grevista, não sei o quê. Está ganhando pouco. Na época se fazia greve para saber quando ia fazer greve. (riso) Olha, houve uma greve que era assim na época do Jango Goulart, que era o Presidente da República. Então se fazia greve para fazer greve. Então, o pedreiro fazia greve na Bahia, São Paulo parava. Enfermeiro fazia greve, ferroviário parava. Aderindo ao movimento. Quando a ferroviária fez uma greve para ela mesma, a Paulista pôs as máquinas para funcionar. A Santos-Jundiaí aderia a tudo quanto era greve. E quando ela fez uma greve da Santos-Jundiaí, ninguém aderiu. Não houve assim aquela paralisação total. Quando era o inverso, todo mundo parava. Um trem, se estivesse na estação que estivesse, o trem parava ali. Até entre estações. Vamos supor, está entre Mooca e Ipiranga, vai parar às11 horas, ele para no Ipiranga. Próxima parada é Ipiranga ele vai parar ali mesmo. Maquinista parava o trem: “Estou de greve.”  Nunca participei de greve. Tinha várias entradas para mim. Então, bloqueavam a entrada principal, eu entro pelo fundo. Nunca participei de movimento grevista, não. Tinha piquetes. Mas meu setor nunca parou, não. Nós nunca paramos. Nunca participei desse movimento. Nada de política. Sou alérgico a política. Tenho alergia por isso aí, que não leva a nada. Ninguém faz um negócio para o seu benefício. Ele faz em benefício próprio. Então não vou apoiar vantagem de ninguém, não. Cada um defende os seus interesses, mas eu não apoio nada. Posso até apreciar política pelo modo de administração. Mas não vou assim diretamente no negócio, não. Não vou em política de jeito nenhum. 

 

Trabalho como encarregado de serviço

Depois passei a ser encarregado de serviço. O encarregado de serviço ele é responsável por um determinado setor. Eu era responsável pelo departamento de cargas. De despacho de cargas. Eu era o encarregado, tinha dois, três funcionários. Tinha um cobrador de frete e tinha dois funcionários auxiliares. Só que quem dava as ordens era eu, que fazia revisões de frete, negócio de cálculos de frete. Quem fazia era eu. E os dois rapazes faziam lançamento nos livros contábeis. E o cobrador de frete então fazia a parte final. Ele recebia os fretes, depois prestava conta na chefia. Passei para chefe. Na Mooca mesmo eu passei para chefe. Eu tinha que coordenar todo o serviço. Manobras de vagões, saída de vagões, chegada de vagões, expedição de cargas. Todo o pessoal na estação. Eu era responsável por tudo. Era mista: carga e passageiro. No embarque, a gente controla até a catraca de ida, pela virada da catraca. Onde o passageiro paga a passagem. Então já na catraca você faz o controle de quantas pessoas embarcaram no dia.  Aí você era responsável pelo pessoal da manobra, pelo pessoal que era do armazém, dos conferentes, bilheteiros. Todo pessoal inerente à estação. Falta de funcionários, quem faltou, quem não faltou. Olha, na Mooca, mais ou menos, assim entre tudo, acho que daria uns 100 funcionários. Não tem assim um número exato de funcionários. Na manobra havia três turnos. Das 6 às 2 horas, das 2 às 10 horas, das 10 às 6 horas. Tinha mais o corpo de bilheteiro, que também fazia oito horas. De 4 às 12 horas, de 12 às 20 horas, e alguns faziam das 14 às 22 horas. Mas é muito pouco. Assim, em média, calculo umas 100 pessoas, mais ou menos.

 

Mudanças ao longo da carreira

Eu saí da Mooca, fui embora para a Luz. Fiquei na Luz seis meses, depois fui para a Lapa, fiquei mais quatro meses. Na Luz não me adaptei, não. Era muita fofoca, muita burocracia, muita fiscalização. Eu gosto de trabalhar assim, se é minha responsabilidade, eu gosto de liberdade com responsabilidade. E não liberdade vigiada, certo? Eu gosto de liberdade que tenha responsabilidade com liberdade. Aí fui para a Lapa, fiquei quatro meses. Aí depois fui para o Brás. Fiquei um ano, mais ou menos, no Brás. Depois eu fui transferido para Capuava. Fiquei lá, mais ou menos, um ano. Também carga e passageiro. Depois de Capuava, fui morar para Mauá. Aí só passageiro, não tem mais carga. Aí de Mauá eu me indispus lá com o chefe, porque saiu um boletim de informações. E ele fez uma sacanagem comigo. Me cortou uma promoção. Ele fez de vingança. Aí depois de uns 15 dias mais ou menos que tinha saído esse boletim, veio um boletim num malote de correspondência. Era eu que abria o malote. Então não está envelopado, não está lacrado, nem nada, eu fui ver minha informação. Já estava assinado por ele, fui ver minha informação. É quando eu vejo minha folha informando que eu não tinha capacidade para ocupar outro cargo, que eu não cooperava com a Estação, que eu não cooperava com a chefia. Aí eu fiquei doido. Aí veio um chefe que era na Luz. Eu falei: “Olha, eu nunca lhe pedi nada aqui nada, hoje eu quero.” “O que você quer?” Eu falei: “Eu quero sair de Mauá hoje. E se for possível, agora”. Eu não trabalho assim. “Mas por quê?” “Acontece assim, assim, assim, assado.” Aí entreguei a Estação para ele. Aí eu não sei o que que ele fez, ele estava me acusando parece que era uma falta de dinheiro. E que no meu caixa, naquela época, faltou 300 mil cruzeiros. Falei: “Não é possível” E o regulamento mandava que qualquer coisa referente a dinheiro tinha que ser comunicado na hora. Aí ele não comunicou, e a coisa foi rolando assim. Quando estourou o pepino, que eu ia informar o que estava dando, aí eu entreguei para ele. Falei: “Você está encobrindo alguém, e não sou eu, não. Você tem rabo preso, ou está encomendado de alguém. Problema dele. Não está faltando é de hoje. Faz mais de 90 dias. Agora, se for aberto inquérito, eu quero inquérito. Se for por causa disso aí eu quero inquérito.” Aí ele falou: “Não, então eu vou precisar de você em Campo Grande.” Eu falei: “Vou agora mesmo.” Não sabia nem onde ficava Campo Grande. Aí ele falou: “Você vai para Mauá hoje, amanhã você folga e depois de amanhã, Campo Grande.” Mas assim que eu saí da sala dele ele já começou a propor outro para chefe de Mauá. Que eu tinha ameaçado ele. Que que ele fez? Eu tinha contado aquela história. Ele na hora cobriu o dinheiro, quer dizer, e quando foi a fiscalização não tinha mais falta nenhuma. Que o dinheiro que estava faltando ele cobriu com a renda de hoje, e assim ele ia transportando. E a de hoje ele ia cobrir com a renda de amanhã. Mas está sempre em aberto. Ele estava levando assim 90 dias. E nunca me falou nada. Então o responsável não sou eu, não. Aí fui para Campo Grande, fiquei um ano em Campo Grande. Aí retornei a Mauá de volta, com outro chefe. Aí depois de uns tempos voltei a Campo Grande de novo. Quer dizer que Campo Grande fui duas vezes. Aí de lá fui para Paranapiacaba. Eu fiquei três anos e meio em Paranapiacaba. Voltei a Rio Grande da Serra. Aí do Rio Grande da Serra eu fiz, eu vim para o Brás. De volta no Brás. Pela segunda vez. Aí também chegou lá um chefe metido a gostoso. Metido a besta. Não se apresentou, não disse quem era quem. Sentou na cadeira e ficou lá: “Eu sou o chefe”, assim. Muito mais bobo do que eu. Eu não vou cagar pedra para ninguém, não. Então eu pedi para sair. Achei que não tinha mais ambiente com ele. Aí eu pedi para sair e fui embora para Mauá, de volta. Não, fui para São Caetano, eu fui. Aí de São Caetano eu fui encerrar a carreira em Mauá. Pela terceira vez. Aí em Mauá eu encerrei a carreira e me aposentei. Tinha até três chefes. Que tinha o chefe dos chefes e tinha os chefes auxiliares. 

 

Trabalho por turnos

Tinha chefe que entrava às 4 horas da manhã para abrir a estação. Então fazia o plantão das 4 horas ao meio-dia. Meio-dia entrava o segundo chefe. De meio-dia às 8 horas. O primeiro chefe entrava 8 horas. O chefão, o chefe da estação mesmo, o chefe geral, entrava 8 horas. Fazia das 8 às 17horas. O segundo do meio-dia às 8 horas, e o terceiro entrava das 15 às 23 horas. Agora eu nunca quis ser o primeiro chefe pelo seguinte, porque o nível do chefe principal era menor que o meu. Eu ganhava mais que ele. Eu ganhava, cada domingo que eu trabalhava, eu ganhava duas vezes: oito no cartão e oito extra. Trabalhava no feriado, eu ganhava oito mais 16. Então tudo quanto é domingo e feriado eu trabalhava. No fim do mês eu tinha outro salário. Meu nível era 26, e o chefe era nível 20. Ele ganhava menos, tinha mais responsabilidade, certo? Que vantagem que eu tenho nisso aí, ser o primeiro chefe? Não tenho vantagem nenhuma. Hoje eu estou ganhando, como chefe da estação, agente da estação, está ganhando em torno de 650 reais, mais ou menos. Mas o primeiro chefe, que era nível 20, ele deve estar ganhando assim em torno de 400, mais ou menos. 400 brutos. Ele pode ter outras vantagens, cargo de comissão, outras coisas, mas não compensa o que eu ganho não. Hoje seria em torno de um mil e 500 reais. Mas o chefe ganhava mil e 20 Ele estaria ganhando assim, com toda a vantagem que ele possa ter, estava ganhando em torno de 800 reais, por aí. Agora eu ganhava domingo e feriado em dobro. Ganhava hora-extra, que ele não ganhava. Teve um mês que eu fiz 180 horas extras. Eu estava de chefe em Campo Grande. Eu era chefe da estação. Não pagaram nenhuma, porque alegaram que eu era chefe, não ganhava hora extra. Mas o meu restante ganhava. Era o caso que acontecia comigo nas outras estações. Disse: “Você é o chefe e eu que ganho o dinheiro? Então eu não quero ser o primeiro chefe, não.” 

 

Acidente na ferrovia

Aconteceu um acidente assim sem maiores consequências. Descarrilhou um trem, devido à neblina. A sinalização era feita automaticamente, era tudo eletrônico. Aí, deu pane na sinalização, eu tenho que fazer as chaves manuais. Chaves quem opera é o chefe da estação. A neblina era tanta e rasteira que não enxergava, andava dois metros não estava enxergando mais nada. Aí eu cheguei no local da chave, que chama chave 17. E me confundi com a posição da chave. Não estou vendo vagão nenhum, não estou vendo trem nenhum. Aí eu fiquei naquela indecisão e combinei com o maquinista: “Quando a chave estiver pronta, eu vou chamar você no apito.” “Tudo bem” E naquela indecisão eu não operei a chave. O trem tinha que ser numa chave, numa linha, e depois tinha que remeter para outra linha. Mudava o trilho do trem. Aí não fiz a chave e chamei no apito. Na máquina confirmou que tinha recebido o aviso. Aí recuou o trem. Parece que uma máquina e mais três vagões. Aí quando eu vi o vagão se aproximando, não tinha mais condição de fazer nada. O trem ia passar com chave reversa, com chave contrária. Ele ia passar numa linha que a chave estava fechada para ele. Aí vem vindo. Quando eu vi aquele vulto se aproximando, não tinha mais condição de fazer nada. Falei: “Deixa assim mesmo. Vamos ver o que acontece.” Aí começou a torcer vagão para lá, para cá, aí descarrilhou. Descarrilhou um vagão. Aí fiquei com a máquina presa entre vagões. Não posso fazer isso. Aí tive que sair com a máquina, jogar em cima de 14 vagões de sal lá em Campo Grande, fazer mais três pontas de chapa para o trem poder sair do pátio e eu botar na linha de tráfego, desviar o trem para outro pátio de manobra da Cosipa. Isso com a máquina disponível. A máquina já estava liberada. Aí não tinha mais cruzamento de trem. O trem que estivesse passando, passava, porque não tinha mais jeito de estacionar. Aí, de repente chegou o engenheiro, doutor Valdir, e o mestre da linha para apurar a responsabilidade. “Ô, Rocha, o que aconteceu?” Eu falei: “Aconteceu que o trem descarrilhou lá em cima, na chave 17.” “Mas como foi?” “Descarrilhou.” “E o responsável?” “O responsável sou eu.” Eu vou acusar esse ou aquele? Não. Quem tem que fazer a chave sou eu, eu não fiz. Eu falei: “Eu combinei o serviço com o maquinista e não fiz o serviço, e ele recuou o trem. Não tem culpa nenhuma. O responsável sou eu.” Mas não aconteceu nada. É mais fácil eu assumir o meu erro do que estar terceirizando o meu erro, jogar para esse ou aquele a responsabilidade do meu erro. Quando eu erro eu assumo o meu erro. Não tem problema. Quando eu errei, eu assumi. E não me arrependo por isso. Que eu acho muito mais fácil, eu acho que é bonito, é mais humano você assumir o seu erro do que estar atribuindo a responsabilidade do seu erro para outros, para terceiros. E depois, no fritar dos ovos, vai aparecer que você é o responsável. Vai dar mais trabalho, papel que sobe, papel que desce, em função. Aí ia demorar muito para depois dizer que eu sou o responsável. Então eu já acuso logo. “Eu sou o responsável e acabou-se.”

 

Casamento e filhos

Eu sei que já faz tempo que eu casei. Agora, o dia certo e o ano, eu não sei. Não testou lembrado, não. Que são datas que não guardo assim no meu arquivo, não. (riso) Mas vivo bem com a minha mulher. Conheci trabalhando, na rua assim. Olhei. Aquele amor à primeira vista. Olhei, gostei e casei. Não fiquei. embaçando muito tempo, não. “Quem muito escolhe, escolhe porcaria”. Então, já que você gostou, case logo. Depois se você se arrepender, quando você se arrepender, já é tarde demais. Mas na hora você gostou, então faz. Mas não me arrependo não, viu? Casei bem, vivo bem. A mulher me trata bem para caramba. Me pajeia 24 horas por dia. Não saio com roupa suja, com roupa rasgada. Eu tenho que estar em casa sempre barbeado. Tenho que estar sempre nos trinques. E vivo bem, graças a Deus Me alimenta. O que ela faz de comida é excelente. Tudo que ela faz é perfeito.  Foi sempre dona de casa. Eu tenho um casal de filhos.

 

Reflexão sobre o trabalho na ferrovia

Olha, hoje, a ferrovia é que nem aquela peça de teatro: “Quem te viu e quem te vê.” Dá pena, viu? Quem conheceu a ferrovia há 40 anos atrás, vê hoje. Não dá pena, dá vergonha. Que mudou assim uma mudança tão radical, mas nada para melhor, tudo sempre para pior. Em lugar de progredir, regrediu. Não tem mais manutenção, não tem mais hierarquia, não tem mais nada. Hoje não tem mais nada. Então, a ferrovia hoje está um caos. O trem da Fepasa, que antigamente chegou uma época que era separado vagão para homem, vagão para mulher, o trem que vai de São Paulo a Osasco... Houve uma época que era separado, vagões para homem, vagão para mulher. Não podia viajar os dois juntos. Hoje está ótimo. Esse trem aí que era modelo, hoje está um lixo, está um lixo O trem vai com porta aberta. Tem surfista no trem. No trem acontece de tudo. Ainda mais na Zona Leste acontece de tudo que você possa imaginar. Tudo. O que você possa imaginar dentro de um trem, acontece. Tráfico de drogas, assalto, enfim, acontece de tudo, tudo. Até relação sexual dentro do trem eles fazem. Ainda mais na parte que vai estudantes, que sai do Brás, do Parque às 6 horas, 6 e pouco da tarde, e volta de lá meia-noite, isso é uma vergonha.

 
Um sonho

Olha, o sonho que eu tenho é conhecer o Brasil. Viajar bastante, conhecer o Brasil, mas com excesso e não de passagem. Você ficar assim uma semana, um mês, em cada região, para você sentir a cidade, ou a região. Eu vou sair do Brasil para quê? São costumes diferentes, língua diferente, dinheiro diferente. Não falo mais inglês, francês. Eu vou fazer o que nos Estados Unidos? Nada. Aqui tem coisa melhor que lá. Aqui eu tenho liberdade, tenho fartura. Lá não tem fartura. Lá tem economia. Eu vou te contar um caso seguinte. Eu tinha um tio, ele morou nos Estados Unidos, parece que 36 anos. Veio passar o Natal com a gente, no Brasil. Eu tinha, naquele dia, acho que umas 25, 30 pessoas em casa para comer e dormir. E beber à vontade. Não era para beliscar. Era para comer à vontade. Coma quanto quiser. Aí meu tio chegou assim e falou: “Escuta, aqui é sempre assim?” “Como, sempre assim? Como assim?” “Vocês têm sempre essa fartura de carne na mesa?” Eu falei: “É. Aqui eu tenho dinheiro, vou no açougue, escolho a carne que eu quero e vou comprar quanto que eu preciso.” Ele me respondeu na época assim: “O que você tem nessa mesa hoje não é qualquer americano que pode ter. Aqui compra a peça inteira. Lá é uma porção de carne por semana. Aquela porção de carne e acabou. Não tem mais. Não tem esse negócio de ir na feira e escolher as frutas. Lá é por quilo. Pega a embalagem e compra assim. Leva se quiser.” Aqui eu escolho laranja, maçã, figo, morango. Eu compro à vontade. Lá é tudo assim, na embalagem. Quer comprar, quer levar, leva. Então aqui eu tenho fartura, tenho liberdade. Não tem país no mundo igual o Brasil, não. Não existe. A turma gosta de dizer que os americanos... Tudo mentira isso aí. Inclusive, eu falei com um cidadão essa semana que me disse o seguinte, que em valores morais nós estamos mil vezes acima dos Estados Unidos. Valores morais. Lá ninguém respeita ninguém. A moça com 10, 12 anos, sai de casa a hora que quer, chega a hora que quer, sai com quem quer. Aqui não. Aqui ainda se conserva aqueles valores familiares. Lá não tem essas coisas, não. A televisão, então? Disse que lá, ainda a nossa que está ruim. Mas lá ainda acho que é pior. O nível. Quem está passando bem é a Cultura. Às vezes a Globo também passa algumas vezes alguma coisa que aproveita. Mas o resto... É melhor a Cultura. O resto é tudo abaixo de zero. Imagina que lá ainda está pior. Imagina como é que é. O valor de família não existe. Lá não se respeita ninguém. Pai não respeita filha, tio não respeita sobrinha, irmão não respeita prima. Ninguém respeita ninguém. Ainda aqui está se respeitando, por enquanto. Vamos ver daqui mais uns anos.

 

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