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Ditadura e ilustração

História de: Elifas Vicente Andreato
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/03/2010

Sinopse

Eu seu depiomento, Elifas Vicente Andreato conta sobre sua infância difícil e pobre, além da difícil relação com seus pais. Fala sobre como começou a trabalhar cedo e conseguiu entrar no mercado das artes, ilustração, cenografia, televisão e música. Também aborda os jornais que organizou e criou contra a ditadura e as vezes em que foi torturado e até mesmo vítima de perseguição.

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História completa

O meu nome completo é Elifas Vicente Andreato. Eu nasci no dia 22 de janeiro de 1946 em Rolândia, uma pequena cidade próxima de Londrina, norte do Paraná. Meu pai se chamava José Vicente Andreato e minha mãe Alzira Gomes Andreato. A minha mãe e meu pai são aqui de Ourinhos. Eles migraram, foram pro norte do Paraná quando o norte do Paraná estava abrindo, havia já um grande boom ali na época com o café. Meu avô e o meu pai abriram um sítio para plantar café, e meu avô Juca enlouqueceu porque a geada acabou com o cafezal dele e ele perdeu as terras pro Banco do Brasil e morreu louco.

Eu fiquei mais interessado em descobrir a origem do meu nome porque meu nome quando eu era menino era uma coisa estranha. Se você considerar que eu morava no mato e me chamava Elifas, quer dizer, até hoje eu tenho problemas com isso. Com secretária: "Está bom, Seu Elias!" Você diz o nome, mas... Aí eu digo: "Olha, se você não disser que é o Elifas ele não vai me atender". "Então tá, estou anotando aqui. Seu Elias a gente te dá retorno." (risos) Então você imagina que foi um problema. Eu descobri que o meu avô materno era espírita, assim como a minha mãe ainda é. Eu fui saber que num livro que meu avô tinha, de ocultistas, uma coisa assim, meio fechada, escondida. Eu fui descobrir depois do falecimento dele - já tem muitos anos - que o meu nome saiu de um ocultista francês do século XIX chamado Elifas Levi. Meu irmão, o que faleceu também e que veio logo depois de mim, e que se chamou Eurípedes por conta de outro ocultista do mesmo livro. Então o nome veio assim! Eu custei para me interessar por essa história até que há uns 15 anos eu fui ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, porque o meu pai, coitado ele era alcoólatra e nos abandonou muito cedo e eu acabei assumindo como filho mais velho toda a responsabilidade de... Comecei a trabalhar muito cedo para ajudar a criar o restante dos irmãos. Comprei alguns livros, que são estranhíssimos, não dá para entender nada: é alquimia misturada com misticismo estranho, enfim. Mas ele era na verdade um alquimista, depois um pensador de um tipo de filosofia que para nós soa muito estranho.

Agora, eu queria dizer um negócio para vocês, é importante que fique registrado: que quando eu questionei meu pai sobre o nome, que eu não gostava dele, porque era uma coisa difícil você conviver com o sujeito que nunca sabe como é que você chama. Ele se chamava José, com o apelido Zé Vicente, Zé Vicente, tal. Um dia eu disse: "Pai, por que esse nome tão estranho?" Ele virou e disse pra mim, ele já estava embriagado: "Porque esse você vai ter que fazer, você não vai precisar ser um Zé ninguém como eu". Eu passei a achar que essa frase do meu pai talvez tenha sido a coisa mais importante que tenha acontecido na minha infância.

Nós fomos morar na Vila Brasil em Londrina e que tinha, próximo da gente, um puteiro. E as prostitutas andavam de charrete, todas elegantes, eu achava aquilo uma maravilha. A minha mãe, para a gente ter algum recurso, ela fazia empadinhas e salgadinhos e eu ia vender na zona à noite. As prostitutas obrigavam os coronéis a comprar o tabuleiro todo para eu ir dormir cedo. Ainda tinha um fator que pesava ainda mais para uma criança nessa idade, eu estou falando de dez para onze anos, outro emprego que eu tinha além de vender esses salgadinhos que era entregar leite de charrete com dois japoneses de madrugada.

Eu estava votando da roça, chegando perto de casa, estava minha avó na varanda. Ela se vestia de preto, ela gostava de parecer uma dessas beatas que frequentam igreja. Ela era portuguesa. Ela estava consternada e alguém perguntou: "O que houve?" "O Getúlio matou-se." Eu fiquei numa alegria: "Puta que pariu, desse eu me livrei! Porque teve um cara que matou o saci". A decepção foi descobrir que o cara tinha se suicidado, pô, matou-se, eu entendi que matou o saci. Eu pensei: "Ah, essa foi boa!" Eu fiquei frustradíssimo quando me contaram: "Não, o Getúlio, presidente da República, se matou". E o saci continuou o mesmo, assustando a criançada.

Quando nós chegamos a São Paulo a coisa ficou bem complicada, porque embora eu tentasse trabalhar, eu estava com 13 anos. Cheguei com 13. Eu arrumava uns biscates para fazer, para ganhar um dinheirinho. Ajudava a minha mãe até altas horas da noite a fazer colar, aquelas bijuterias vagabundas.

Ali que eu comecei a Sofunge, a fábrica de motores. Ela jogava na beira do rio, do rio não, corregozinho, aqueles blocos de gesso onde fundiam peças. Ali eu comecei a descobrir minha habilidade para fazer algumas esculturinhas, alguns santos. Ganhava algum dinheirinho. Até então eu não tinha estudado, não tinha como estudar.

Porque eu sou um escultor frustrado. Toda vez que eu pego essas grandes exposições para fazer, a primeira coisa que eu penso é encher de esculturas em tamanho natural e tal do Lobato, Ruy Barbosa, Juscelino. Faço minhas esculturas, meus trofeuzinhos de prêmio. Agora mesmo fiz o Prêmio Henri Nestlé, terminei esse fim de semana.

Até hoje eu me lembro perfeitamente. E da figura dele! Ele era mestre da Escola de Aprendizes de Mecânico da Fiat Lux. Ele me arrumou o primeiro emprego com carteira assinada, fui ser aprendiz de torneiro mecânico. Eu comecei a ilustrar um jornalzinho da fábrica feito em mimeógrafo ainda e eu fazia umas charges contra a fábrica.

Então eu já lendo um pouco melhor, eu recebi de um grande marginal ali da Vila Anastácio... Ah, eu vou dar o apelido dele, o Passarinho. Era um marginal, aliás, eu sempre tive proteção deles. E o Passarinho me deu um livro, um conto do Dostoievski, chama Noites Brancas. Foi o primeiro texto que eu li na minha vida, foi me dado por um marginal. E eu o que é que fiz? Fui lá e pintei Noites Brancas na tentativa de suicídio, aquelas coisas, sabe? As pessoas se chocavam, fundo do palco, neve, aquelas coisas... E fui fazendo, ao mesmo tempo fiz um baile no rio, uma noite no rio. Cruzei todo o salão de varais com roupa pendurada. Fui inventando: nas laterais dos barracos e fui ficando conhecido. As pessoas passaram a ir lá ver um artista, jovem artista. Fiz uma homenagem ao Ary Barroso logo depois que ele morreu. Até que um dia apareceu lá a Marli Medalha, irmã da Marília Medalha, cantora, que era crítica de cultura do Diário da Noite, do extinto jornal "Diário da Noite", que era um jornal de grande circulação. Foi lá, viu as minhas coisas, depois viu os meus quadros e virei menino prodígio. Assim, da noite pro dia descobriram um menino prodígio: 15 anos, o moleque pinta a favela, a miséria, a pobreza, etc.

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