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História

Do alto da goiabeira ao ponto alto da história

Sinopse

Antônio Lino Pinto escreveu um livro. Memória das histórias de vida de pessoas, lembranças de lugares, resgates de compreensíveis emoções. Desde 1938. Desde a mineira Rio Branco até São Paulo. A saga de sua família – pais e irmãos, dez ao todo, e dele próprio. Gente humilde, trabalho pesado da roça, infância pobre de lavrador. As casas precárias, as mudanças em busca da sobrevivência, a chegada a São Paulo. A luta para estabilizar, para conquistar, para consolidar. O esforço como profissional compensando a formação escolar fragilizada. Por conta do livro, volta e meia volta aos cenários das dificuldades, um cenário também de saudade e muita emoção. Reconstitui a própria história, a própria caminhada, encontrando os vestígios do passado. E pode comparar com o quanto avançou, venceu, se transformou. Os filhos, nessa perspectiva, representam o tesouro maior.

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História completa

Meu nome, Antônio Lino Pinto. Sou de uma cidade mineira – Visconde do Rio Branco – onde nasci em 1951. Herdei do meu pai o jeito quieto, a timidez. Quase nada fiquei sabendo da história dele e da minha mãe; o que sei foi através da minha irmã Duduca. O meu pai pouco falou dele mesmo, ainda que fosse um contador de história, mas só quando cismava. Minha mãe era faladeira, mas nunca teve a iniciativa de contar, de mostrar. O que sei é que todos eram daquela região ali. E a minha mãe dizia que o meu pai havia se mudado quinze vezes em vinte anos. Só que eram distâncias muito pequenas, dependendo do fazendeiro a quem ele ia prestar serviço. E eu fiz um extenso trabalho de resgate de toda a história, contando com a memória de um, de outro, mas principalmente da Duduca, irmã mais velha. Isso resultou em livro. Foram algumas viagens, muito garimpo, muita pesquisa, persistência, sendo um grande fuçador. Lembranças desde 1938. Recordações bonitas, outras tristes, todas emocionantes. Em determinado momento, fomos para São Pedro dos Ferros – lá moramos em quatro lugares, cujos restos das casas eu encontrei. Depois, o retorno para Rio Branco, a ida para São Paulo, a ida para o Paraná, a volta para São Paulo novamente.

 

(A minha mãe)… O meu irmão, com sessenta anos, ela saía de casa e ia lá para saber se ele já tinha ido trabalhar (…) não era um domínio de possessão, era um domínio de cuidado, de carinho (…)

 

O relato acima é para concluir o retrato da mãe dedicada que ela foi, suportando o ônus de trabalhar na roça, costurando, cuidando da casa e dos onze filhos, nas situações mais adversas, e sem paradeiro. Mas, ainda falando dos meus pais e das recordações que eu trago da infância, nem tudo era harmonia. Havia uma situação de enfrentamento entre eles, muito motivada pelo álcool. De parte a parte. Era uma época em que a mulher existia para procriar, e só. E minha mãe tinha opinião, era despachada. Meu pai, não, era acomodado. E excessivamente ciumento. Tem até a história da gameleira, uma árvore da região, em cujos galhos ele se escondia para vigiar a minha mãe. De noite, escuro como o breu. Eu, nas minhas pesquisas, estive lá e encontrei o tronco da gameleira. E, ao lado, os restos da casa da minha mãe. Jogados no meio do pasto. Até a escadinha que ligava a cozinha à sala estava lá. Mas, voltando às brigas deles, nós, os menores, ficávamos em completo desassossego, amedrontados. Pois um dormia com a faca embaixo do travesseiro e a foice estava sempre pendurada na cabeceira da cama. Não obstante, nenhuma cena de agressão, só ameaças. E onze filhos em vinte anos. Eu, por exemplo, tinha sete anos e tinha irmão com vinte. Então, os mais novinhos se angustiavam, mas os mais velhos, calejados das surras que levavam, passaram a encarar aquilo com  naturalidade.

Dos onze filhos – um a cada ano e meio, em média – três morreram pequenos. Uma delas, a gente estava em São Pedro dos Ferros, o que fez com que voltássemos para a cidade natal. Mas por um ano só. Depois, fomos para São Paulo. Aí, fiz o registro desse vai e volta, inclusive foi na volta que eu levei uma surra memorável da minha mãe, por causa de uma agulha, algo assim. E a ida da gente para São Pedro foi para o meu pai trabalhar, porque lá é Zona da Mata, e o governo ia levar a ferrovia até lá. Então, tinha que desmatar. E eles deram casa novinha, com banheiro e tudo, e era só mato mas a gente ia plantar, que tinha água abundante. E nesse local, cada filho do meu pai “ganhou” cem mil alqueires mineiros. Que, no fim, eram as terras de um herdeiro do patrão, e nenhum de nós ficou milionário como estava imaginando. E lá eu ajudei muito, fui um decidido lavrador. Mas, pelo menos, moramos numa casa de alvenaria, com luz elétrica e banheiro. Fantástico!

 

E tinha, inclusive, banheiro (…), que era um quartinho (…) melhor do que ir para o matinho (…) a turma levava uma espiga de milho, sem o milho, para limpar.

 

E, junto dessa casa, nos fundos, havia um goiabal. A lembrança do goiabal me provoca uma outra memória do primeiro porre que eu tomei. É que, de vez em quando, eu tinha que ir comprar a cachaça dos meus pais. E, na volta, eu virava assim a garrafa e lambia a rolha, que ficava cheia de aguardente. Aí, um dia, me pegaram, rindo à toa, nos galhos de uma goiabeira. E com um bafo...  E, como uma história puxa a outra, eu me lembrei, também, das idas para a cidade. A gente ia a pé e, chegando lá, limpava os pés e calçava a sandália. Principalmente quando meu irmão passou a ser garçom lá e a gente ia tomar água mineral no restaurante. E, com base nessa lembrança, a minha irmã Duduca lembrou de uma ida de nossa mãe para a cidade e havia uma pedra enorme lá, onde descansava. E justo ali, ela começou a vomitar. É que ela estava, novamente grávida. Desta vez, de mim. E assim, foram todas essas recordações, as dezenas de histórias que me levaram a escrever o livro. A partir da constatação de que tudo isso pode se perder; uns não lembram mesmo e outros, por quantos anos estarão aí para lembrar?

E aí eu vim para São Paulo. Eu comecei a trabalhar vendendo doce que a minha mãe fazia; meu pai foi ser ajudante de poceiro e eu também o ajudava – era um serviço pesado para uma criança, e sobretudo, perigoso. Vendia, também, cheiro verde e salsinha. Engraxava sapatos. Aí, fomos para o Paraná. Eu, com quatorze anos. Voltando para São Paulo, que lá não deu certo, fui trabalhar em uma mercearia. E aí foi. Uma série de ocupações, entre escritórios, bar, buscando aqui e ali. A verdade é que eu, então, não tinha uma profissão. Aí tive uma oportunidade melhor, um salário mais digno, cheguei rápido a chefe, fui para outro emprego, estava bem lá, o antigo patrão pediu para eu voltar e me deu o que, na época, eu nunca pensei ganhar. Mas segui batalhando, cheguei e um lugar melhor, um salário ainda maior, e assim foi. Assim começou tudo. Fui trabalhar num grupo de Comunicação, passado um tempo virei sócio de lá.

Na vida pessoal, dois casamentos, um deles com duas separações, o outro que já dura vinte e dois anos. Três filhos, o mais novo com sete anos.

 

De acordo com a minha mãe, eu fiquei rico, não é?  (…) mas sempre tive um cuidado, comprei casa para todos.

 

Mas foi muito difícil, o meu pai não tinha profissão, São Paulo foi um sacrifício enorme para nós. Eu, de início, não tinha estudo – depois, sim, depois fiz o supletivo; com isso, percorri o longo caminho – ginásio, colegial – até à Faculdade. A verdade é que aprendi pouco, não tinha base, não tive propriamente uma formação. Então, a questão de estudo para mim foi crucial. De péssimo aluno quando eu cheguei em São Paulo – não era uma escola formal onde eu me alfabetizei – eu resolvi cumprir o figurino à risca. E principalmente lia, lia tudo, adquiri o hábito da leitura. Com isso, procurei compensar uma formação muito, muito frágil. E a ida para o Paraná interferiu negativamente nos meus estudos. Em seguida, a luta desesperada pela sobrevivência, também. A ideia de crescer sempre foi natural em mim – e para mim. Mas, foi acontecendo. E numa velocidade espantosa. Eu fui pulando de atividade em atividade, de desafio em desafio – desafiando o improvável - de salário em salário, com competência – modéstia à parte – firmeza e facilidade de relacionamento. E fazendo questão de sempre agir com profissionalismo. Hoje, resolvido em muitas frentes, mesmo na questão material, eu sonho ter uma vida mais longa, em especial porque o meu filho ainda é muito pequeno.

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