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História

Do chão de fábrica à política

História de: João Avamileno
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2005

Sinopse

João veio para São Paulo ainda menor de idade porque precisava trabalhar. Seu irmão mais velho já estava na cidade, trabalhando na Pirelli, e conseguiu uma vaga para ele. Com o passar dos anos, João foi tomando consciência dos problemas dos metalúrgicos e do próprio país. 

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História completa

 

P/2 - Perguntando de novo: seu nome, lugar e data do seu nascimento.

 

R - João Avamileno. Nasci em 26 de junho de 44 [em] Sítio Taquaral, que pertence ao município de Boraceia.

 

P/2 - Esse município de Boraceia fica exatamente onde?

 

R - Fica na área central do estado de São Paulo. As cidades mais conhecidas em torno de Boraceia são Bauru, que fica a cinquenta quilômetros; Jaú fica a dezoito quilômetros de Boraceia, acho que [são] as duas cidades maiores que tem naquela área. Na época que eu nasci era a época do café, tinha muita plantação de café naquela área, [na] beira do Rio Tietê; a maior plantação lá hoje é cana. [Era] cafezal, hoje é só canavial.

 

P/2 - O café acabou.

 

R - O café, naquela área, praticamente… Não vou dizer que acabou, mas diminuiu acho que 80%.

 

P/2 - Eu queria perguntar qual o nome do seu pai e da sua mãe.

 

R - Meu pai, Salvador Avamileno. Ele veio da Espanha com oito anos de idade. Minha mãe, Regina Barbaresco Avamileno, filha de italianos, nascida aqui no Brasil.

 

P/2 - Vamos recuperar um pouquinho a história do seu pai. Você sabe o nome dos seus avós?

 

R - Meu avô se chamava Fabiano Avamileno. Acabei pondo o nome no meu filho, eu tenho um filho que se chama Fabiano.

 

P/2 - Em homenagem...

 

R - É, um pouco em homenagem ao meu avô e também porque a minha esposa gostou do nome. Fabiano Avamileno. A minha avó se chamava Maria Avarrobe, por parte do meu pai. Os dois eram da Espanha.

 

P/2 - Você sabe o motivo por que eles vieram, quando eles vieram?

 

R - Bom, eu não cheguei a conhecer o meu avô, infelizmente. Eu sou dos filhos mais novos do meu pai; quando eu era muito pequenininho meu avô morreu, então eu não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Mas o meu pai dizia que… Meu pai veio com oito anos da Espanha. Meu avô saiu da Espanha porque não concordava com a guerra, com a discussão política que tinha no país. Tinha mais ou menos um tipo de guerra civil lá na Espanha e meu avô não concordava com aquela situação na Espanha, então era uma país [em] que ele não via perspectiva. Como o Brasil, naquela época, era um país que estava em ascensão - [havia] muita migração, ouvia falar bem -, ele pegou a família: a esposa dele, que era a minha avó, o meu pai, mais uma filha que ele tinha. [Era] uma família pequena e veio embora para o Brasil. Pelo menos a história que o meu pai contava era essa.

 

P/2 - E isso foi mais ou menos em que ano?

 

R - Isso foi mais ou menos [em] 1912, por aí.

P/2 - Bem no início do século então.

 

R - É, no início do século. Meu falava pra mim que veio pra cá com oito anos; ele nasceu em 1904.

 

P/2 - E eles foram direto pra Boraceia?

 

R - Eles foram direto pro interior do estado de São Paulo, foram morar nas fazendas perto de Boraceia.

 

P/2 - Foram trabalhar no café.

 

R - Foram trabalhar no café.

 

P/2 - O seu pai também era lavrador do café?

 

R - Meu pai cresceu junto com meu avô e só trabalhou na roça, pelo menos enquanto o meu avô era vivo. Quando eu comecei a me conhecer por gente, meu pai era meeiro de fazendeiro. Naquela época, era quando o fazendeiro dava as terras; o meeiro cuidava da plantação, colhia, fazia tudo e ficava com metade do lucro das vendas daquela plantação, por isso que chamava meeiro. E meu pai tocava o cafezal lá na fazenda.

O fazendeiro, o nome dele era Juca Pereira, era um português. Meu pai trabalhou pra ele muitos anos; pelo menos desde a época que eu me conheci como gente até a gente mudar pra cidade meu pai trabalhou nesta fazenda. Lógico que ele contava pra mim que passou por outras fazendas quando era mais novo, com meus irmãos mais velhos.

Essa fazenda ficava numa área rural que tinha diversas fazendas, sítios. A gente chamava toda aquela área de Taquaral - juntava todas aquelas três, quatro fazendas e chamava de Taquaral. Era perto do Rio Tietê.

 

P/2 - Antes da gente continuar um pouco em como era essa fazenda, eu queria voltar pra família da sua mãe. Você conheceu seus avós de parte materna?

 

R - Também não conheci. Meu avô, pai da minha mãe, ele faleceu um pouco jovem; ele tinha uns sessenta, cinquenta e poucos anos. Eu não o conheci. Como eu te disse, eu sou o filho mais velho - aliás, o mais novo. O filho mais novo acaba deixando de conhecer ou conhece pouco os avós, então eu não conheci nem meu avô e nem minha avó. Minha avó faleceu em 1940, meu avô deve ter falecido em 1935, por aí; eu nasci em 44.

 

P/2 - E eles eram italianos?

 

R - Eles eram italianos. Vieram da cidade de Treviso, da área de Gênova, no norte da Itália. Eles vieram também na esperança de um país novo. A Itália atravessava naquela época certas dificuldades e vieram se aventurar aqui no Brasil numa nova perspectiva de vida. Meus avós, por parte da minha mãe, devem ter vindo para o Brasil entre 1895 e 1900; não tenho a data exata, mas era um pouco isso que a minha mãe me contava.

 

P/2 - Então a sua mãe casou com o seu pai lá em Boraceia?

 

R - Casaram-se na cidade de Itapuí. Itapuí é uma cidade próxima de Boraceia. Tinha o Sítio Taquaral, depois tinha a cidade de Boraceia - o sítio pertencia a essa cidade -, aí tinha o Rio Tietê.

A gente passava o Rio Tietê, aí tinha Itapuí. De um lado do rio ficava Boraceia, a uns quinhentos [metros] do Rio Tietê; do outro lado Itapuí, também mais ou menos a meio quilômetro do Rio Tietê. O Rio Tietê era onde a gente brincava, pescava, nadava.

 

P/2 - Limpo, então.

 

R - Até hoje, naquela área ele não é muito poluído. Tem prainha lá, o pessoal até hoje brinca, pesca, porque o Rio Tietê, pra chegar até lá onde eu morava, com as curvas que ele faz… Não é reto, deve ter... Daqui na minha cidade tem trezentos e poucos quilômetros, então o Rio Tietê, pra chegar até lá [dá] uns quatrocentos quilômetros, a água chega lá bem menos poluída. Mas certamente, naquela época ele era bem mais limpo.

 

P/2 - Quantos irmãos você tem?

 

R - Bom, nós somos em seis homens e uma mulher. Eu perdi um irmão, os demais estão todos vivos.

Perdi um irmão no ano passado, ele morreu com 65 anos. Eu nem gosto de falar muito dele porque foi um irmão muito sofrido. Ele tinha uma doença mental desde jovem e foi praticamente dos dezoito anos até os 65… Ele foi muito doente e na minha juventude eu cuidei muito dele. Eu o trouxe pra Franco da Rocha junto com meu pai em 1962, um pouco antes de eu vir pra São Paulo pela segunda vez. Ele ficou em Franco da Rocha internado durante treze anos.

Franco da Rocha, acho que vocês já ouviram falar a história do que que era aquilo no passado - ainda o que é hoje. É um manicômio. Hoje, os grupos de doença mental são contra os manicômios e o meu irmão ficou treze anos lá, sofreu muito. Eu lembro que ia visitar meu irmão com a minha mãe a cada quinze dias, isso nos anos 60. Eu encontrava meu irmão lá todo machucado - brigava muito lá dentro, todo judiado; e a gente era pobre, queria tirá-lo de lá, mas pôr onde?

A gente às vezes tirava uma licença dele e o levava pra casa, mas ele era muito violento. [Tinha] doença mental, então ele atacava meu pai, atacava minha mãe, brigava comigo, com meus outros irmãos.

Depois de treze anos que ele ficou lá, acho que o governo… Naquela época, [o governo] resolveu investir um pouco na doença mental porque viu que o manicômio estava crescendo muito. Meu irmão foi pra Valinhos, num outro manicômio do Estado e recebeu um tratamento melhor. Depois de um ano eles deram alta pro meu irmão. Eles falaram: “O seu irmão tem condições de ficar em casa com a família. Ele não vai ser normal nunca, mas vocês vão dar sempre esse tratamento, sempre consultando um médico do Estado ou do município, da saúde pública. Com certeza ele vai poder morar junto com vocês.”

Realmente, desde 74 ele ficou morando junto com a gente; um tempo com a minha irmã, outro tempo comigo. Ele veio a falecer o ano passado com 65 anos de idade, depois de sofrer muito. Achei até que ele nem ia viver muito, acabou vivendo até uma idade média do brasileiro, vamos dizer assim. Mas os outros estão vivos, ele era o terceiro.

Eu tenho um irmão com setenta anos que vai fazer cinquenta anos de casado esse ano, com a mesma mulher. Nós vamos procurar fazer uma festa pra ele. Eu tenho outro irmão com 68 anos vivo, casado também, [com] filhos; tenho outro, esse era solteiro, não casou, doença mental, já faleceu; depois vem um outro que é o Pascoal, esse tá com 64, 63 anos; depois vem José, com 60 anos, depois eu, que tenho 55; abaixo de mim só minha irmã, que tem 53 anos. Então já é uma família um pouco idosa.

 

P/1 - Seu pai e sua mãe são falecidos?

 

R - Minha mãe faleceu em 96, [com] 85 anos. Faz quatro anos. Meu pai faleceu há mais tempo, faleceu com setenta anos em 71, 72. [Tinha] quase setenta anos.

 

P/2 - Eu queria voltar um tempo atrás, lá pra Taquaral, e que você me descrevesse um pouco como era a casa em que vocês nasceram. Era uma casa grande, confortável ou era um barraco? Como é que era?

 

R - A casa que eu nasci, a gente chamava de colônia. Tinha duas colônias na fazenda, a colônia de baixo e a colônia de cima - eu nasci na colônia de cima. A casa que eu nasci era uma casinha muito simples - uma casa de tijolos, mas assentada com barro. Eu lembro até hoje que era muito pequenininho e brincava no chão. Todos os cômodos eram [de] terra dura, não tinha nem cimento. Eu lembro que vivi pouco tempo nessa casa.

Depois a gente mudou pra uma casa melhor que o fazendeiro fez e deu pro meu pai morar, então era uma casa um pouco mais decente. Casa de alvenaria, rebocada, tinha o piso cimentado no chão, tinha fogão a lenha bem feitinho - naquela época era fogão a lenha. Eu lembro até hoje que ficou mais perto da mina onde minha mãe ia buscar água, onde minha mãe ia lavar roupa - aproximadamente a uns cem metros da minha casa. Eu me lembro que a minha mãe vinha da mina até minha casa com a lata d’água na cabeça; lembro daquela música: “lata d’água na cabeça” e comigo no colo. Eu era molequinho, então pedia colo, não entendia que carregar lata d’água e levar moleque no colo é muita coisa, mas ela fazia isso.

 

P/2 - E o seu pai trabalhava então na lavoura?

 

R - Meu pai, naquela época, tocava cinco mil pés de café, ele e meus irmãos… Meu irmão mais velho, esse que tinha setenta anos. Trabalhar na roça sempre foi duro, difícil; naquele tempo era pior, a capinagem do mato nos cafezais era toda com enxada. Era terrível, debaixo de um sol muito forte.

Eu, como era molequinho, não cheguei a trabalhar muito na roça. O serviço que eu fazia: eu levava almoço pros meus irmãos. Minha mãe aprontava… Naquele tempo, não chamava marmita, chamava caldeirão de comida. Eram aqueles caldeirões, tinha uma alça, então ela enchia de comida, arroz, feijão, principalmente carne de porco. Naquele tempo ainda usava muito carne de porco; meu pai matava porco direto, aí punha a carne de porco naquelas latas de gordura pra conservar. O serviço que eu fazia era isso, levar almoço pros meus irmãos; no tempo da colheita, limpar tronco de pé de café. Isso era mais pra menor, era pra criança, porque quem era pequeno tinha agilidade pra entrar debaixo dos pés de café, pra tirar os restos dos...

 

P/1 - E nunca encontrou uma cobra, não?

 

R - Ah, encontrava. Às vezes cobra, lagarto, mas nunca levei picada, não. Limpava os pés de café, no terreiro eu ajudava os irmãos a esparramar mantimento pra secagem no sol, amontoar. Servicinho eu fazia, brincar na máquina de beneficiar café, beneficiar arroz. Eu tive uma infância muito gostosa, tenho saudades.

 

P/2 - Como era o seu pai?

R - Eu o achava um homem bom. Um homem que tinha pouca instrução, não teve oportunidade de ter um estudo melhor, mas era um homem que tinha a inteligência, até pela formação que ele tinha. Muito trabalhador, você vê que ele trabalhou muito na roça, ele conseguiu uma economia pra melhorar um pouco de vida.

Ele não queria mais trabalhar e viver na roça porque era uma vida difícil, dura. Ele trabalhava pros outros, meu pai sempre lutou pra trabalhar por conta própria. Ele trabalhava pro fazendeiro, ajudou muito fazendeiro; na verdade, ele só conseguia tratar da família, mas conseguiu uma economia e acabou comprando um comércio de secos e molhados, na fazenda mesmo. Chamavam de armazém, naquela época. Eu me lembro até hoje do armazenzinho que ele comprou e lá ele vendia pros outros colonos, principalmente bebida, um pouco de despesa que os colonos não tinham nas suas plantações - açúcar, farinha.

 

P/1 - Quando foi isso?

 

R - Ah, isso foi… Meu pai comprou o armazém na roça mais ou menos em 53, mas  mesmo assim ele continuou ainda fazendo plantação. Eu me lembro que ele fez plantação de algodão em 53, uma plantação muito grande e conseguiu arrecadar um dinheiro bom. O que ele fez? Ele vendeu o armazém, pegou mais esse dinheiro da colheita do algodão e comprou um bar na cidade próxima, que era Itapuí. Nesse bar ele ia bem, mas não era do gosto dele, aí ele voltou pro armazém, mas na mesma cidade; ele comprou um armazém de secos e molhados.

 

P/2 - Em Itapuí.

 

R - Em Itapuí.

 

P/2 - Aí já pro pessoal da cidade.

 

R - Isso, mas nesse armazém ele vendia muito pros colonos que eram do próprio Taquaral porque a distância era quilômetro e pouco, dois quilômetros no máximo. Meu pai era muito conhecido. Meu pai jogava bola, [era] um homem muito popular.

P/2 - Como era o nome dele conhecido?

 

R - No jogo de bola a turma chamava de Vaca Brava, porque ele jogava na defesa e a bola passava, mas o camarada não. Ele era muito conhecido pelo jogo de bola e até por contar piadas. Ele ria muito, era um homem alegre.

 

P/1 - Ele falava com sotaque espanhol?

 

R - Ele utilizava um sotaque espanhol, mas muito pouco. Ele veio pro Brasil, né? Mas eu lembro que ele usava um pouco de sotaque espanhol; quem usava mais era meus avós.

Meu pai então conseguiu uma economia, comprou o armazém na cidade. Isso acho que foi em 54 por aí, 55. Ele foi bem, vendia muito.

 

P/2 - E vocês mudaram com ele pra Itapuí?

 

R - Nós mudamos. Foi a família inteira, todos juntos.

 

P/2 - Pra cidade.

 

R - Pra cidade. O interessante é que meus irmãos já casados, o mais velho… Já tinha, nessa época, três irmãos casados com filhos e eles viviam junto com o meu pai, viviam da mesma renda.

 

P/2 - Do armazém? Eles iam trabalhar no armazém também?

 

R - Trabalhavam. Meu pai comprou um caminhão; eu lembro até hoje, [era] um Dodge, um ‘dodginho’. A gente lotava aquele caminhão pra levar despesa pros colonos da fazenda.

 

P/1 - Seus irmãos chegaram a frequentar escola, estudar?

 

R - Frequentaram escola menos que eu, até. Eu tenho um irmão que acho que nem diploma do grupo [escolar] tirou. Meus irmãos estudaram muito pouco; trabalhavam na roça, depois vieram pra Itapuí, trabalhavam o dia todo. Meu pai precisava do trabalho deles.

 

P/1 - Seu pai não incentivava muito a escola?

 

R - Pouco. Sabe o que é? Ele não estudou, é difícil incentivar escola. Meu pai sempre falava: “Meus filhos, se quiserem ser alguma coisa, tem que estudar.” Mas era pouco o incentivo dele. Não era aquele pai que ficava em cima, põe o camarada na escola. Meu pai era muito aberto nessa questão, ele orientava, mas meus irmãos estudaram pouco.

 

P/2 - Estudaram ainda na fazenda, tinha um Grupo [Escolar] na fazenda?

 

R - Tinha um grupinho na fazenda. O grupo que estudei na fazenda, na verdade, era uma casa antiga, tipo daquelas casas que a gente chamava de tuia. Tuia era onde [se] guardava os mantimentos.

Fizeram lá uma escolinha. Eu estudei um ano nessa escolinha. Nosso banheiro era o cafezal, não tinha banheiro: “Professora, eu preciso ir ao banheiro.” “Pode ir.” Ia lá no meio do café fazer xixi ou outras necessidades, mas eu lembro que depois o governo do Estado fez uma escola lá.

 

P/2 - Dentro da fazenda?

 

R - Dentro da própria fazenda. Esta escola está abandonada até hoje; eu vou lá, ela está toda arrebentada, os vidros quebrados. Aquela escola foi feita quando eu era molequinho.

 

P/1 - Você chegou a estudar nela?

 

R - Cheguei a estudar um ano nela. O primeiro ano eu estudei nesta escola que era improvisada e o segundo ano eu estudei nesta escola nova.

Eu lembro até hoje da minha professora, D. Cristina. Não sei se é viva, mas foi a primeira professora que eu tive, eu lembro dela.

 

P/2 - Você lembra dela por quê? Ela era uma pessoa especial?

 

R - Eu achava que ela era ruim pra mim, ela me chamava muito a atenção. Não sei se eu era um aluno bagunceiro, não prestava atenção nas aulas, mas eu me lembro muito bem dela porque ela era brava. Embora eu fosse criança naquele tempo - talvez ela não fosse isso, mas a visão que eu tinha dela é que era uma pessoa muito brava. Eu tinha um medo dela muito grande; tacava giz na gente, dependendo da hora tacava até apagador.

 

P/1 - Você passou de ano, não?

 

R - Eu passei o primeiro ano pro segundo ano com ela, no segundo ano ela me reprovou. Acho que essa bronca foi maior, acho que é por isso que eu lembro muito bem dela. Enfim, era professora, lidar com criança não é fácil. Quando eu fui pra Itapuí eu continuei o segundo ano, aí passei pro terceiro, quarto, tirei o diploma. Até ganhei um livro de terceiro ano, eu o trouxe aí. Não sei, depois vocês veem, mas eu guardo até hoje o livro que ganhei.

 

P/1 - Terceiro ano do primário?

 

R - Terceiro ano, porque eu passei com uma nota, acho que foi 9, 9,5. Acho que fui o segundo colocado, então o professor me deu o livro pra ler.

 

P/2 - Que livro?

 

R - O nome do livro é “João de Ferro”. Livrinho muito estreito, um livrinho muito didático. Tem umas figuras, conta a história desse tal João de Ferro; uma história pequena, muito curta. Um livro que eu acho que hoje não existe mais, um livro pra criança mesmo. Era tipo um gibi naquela época, mas eu o guardei, eu o tenho até hoje.

 

P/2 - Então de repetir o ano você passou até a ganhar o livro. Você lembra se passou a gostar de estudar? Era bom, você tinha algum interesse por isso?

 

R - Infelizmente, eu não era um bom aluno pra estudar. Eu, pra estudar… Talvez até por falta de incentivo maior, fiscalização maior dos meus pais, dos meus irmãos, eu procurava mais as diversões da vida naquela época, [de] jovem no interior, do que estudar. Eu me lembro que dava cano na aula pra jogar snooker, gostava muito de jogar snooker. Eu era bom de snooker. Eu dava cano na aula pra jogar futebol; jogava futebol de salão, ia ao Rio Tietê arrancar cascudo. Eu não gostava de pescar, mas gostava de arrancar cascudo.

 

P/2 - O que é arrancar...

 

R - Cascudo é um peixe, ele dá muito nas tocas. Um peixe que tem uma casca grossa, machuca muito as mãos. Ele dá muito nas pedreiras dos rios, nas tocas das pedras.

O Tietê tinha as pedreiras, tem um local lá que tem muita pedra, água corrente muito forte, lá dava muito cascudo. Então a gente ia lá arrancar cascudo. Fazia churrasco de cascudo na beira do rio, então era uma vida…

Estudar? “Que estudar nada, eu vou me divertir.” Isso foi um período pequeno, mas eu arrependo até hoje de não ter estudado. Não sei, o divertimento foi importante.

 

P/1 - A sua irmã mais nova estudou também?

 

R - Minha irmã mais nova também estudava comigo.

 

P/1 - Estudou mais que você?

 

R - Não, estudou o mesmo período, porque na época que vim embora pra São Paulo ela veio junto. Com o negócio aqui em São Paulo de entrar em fábrica, trabalhar [em] três turmas… Minha irmã [na] segunda turma, naquele tempo tinha mais dificuldade do que hoje pra estudar. A gente acabou... A minha intenção era continuar os estudos, a sexta série que eu tinha feito, mas chegando aqui [e] trabalhar… A terceira turma acabou entrando num desânimo do estudo.  Passou o ano, comecei a namorar, casei e o estudo ficou pra trás.

 

P/2 - Então você estudou até que idade?

 

R - Eu estudei em Itapuí, depois vim embora em 60 e parei de estudar. Tinha dezesseis, parei com dezesseis anos.

 

P/1 - Você completou que série?

 

R - Fiz até a sexta série, estudei pouco. O que eu conheço na vida foi na prática mesmo, porque estudar...

 

P/1 - Quando você foi trabalhar com o seu pai, você ajudava no armazém, você tinha algum ganho? Ele te dava algum dinheiro?

 

R - Não. Tem até uma parte interessante da minha vida: eu fui até engraxate, eu engraxei mais ou menos um ano.

 

P/1 - Em Itapuí?

 

R - Em Itapuí, em 57, no tempo que eu ainda estava no Grupo.

 

P/2 - Doze anos?

 

R - Eu tinha doze pra treze anos. Eu via outros engraxates engraxarem e ganharem o dinheirinho deles. Lá tinha o cinema, eu gostava de ir no cinema; sempre tinha que pedir dinheiro pro pai e mãe: “Pai, me dá dinheiro”, “Mãe, me dá dinheiro”. Hoje a gente vê, quando os filhos pedem dinheiro pra gente: “Dá dinheiro”, você assim: “Vai trabalhar, rapaz! Precisa ganhar dinheiro!” Então eu peguei e comecei a...

 

P/1 - Iniciativa sua?

 

R - Iniciativa minha. Arrumei uma caixa de engraxate, aquelas caixas de madeira, meu pai comprou os aviamentos pra mim. Naquele tempo, tinha aqueles fazendeiros que usava botas grandonas, botas sanfonadas. Dava uma boa grana pra engraxar aquelas botas. A gente adorava pegá-las pra engraxar, porque era mais caro.

Virei engraxate, fiquei mais ou menos um ano engraxando, então ganhava um dinheirinho pra ir jogar snooker, pra ir ao cinema, comprar uma bala, um doce.

 

P/2 - Então quer dizer que você não ficava trabalhando no armazém do seu pai o dia inteiro.

 

R - Não, eu quase não ficava no armazém. Eu não gostava de ficar no armazém, no armazém ficavam mais meus irmãos mais velhos. Eu tinha o período de estudo.

 

P/2 - De manhã?

 

R - De manhã, depois teve esse período de engraxar. Depois larguei mão de engraxar também, aí o meu pai, com o pouco tempo que ficou no comércio - ele vendeu muito fiado… Teve um ano, mais ou menos 58, que o Brasil ganhou a Copa do Mundo. A plantação foi muito mal naquela área, não me recordo bem por que, mas os colonos que gastavam com meu pai compravam a prazo, fiado… Naquele tempo, meu pai vendia a prazo de seis meses. O camarada vendia um caminhão de despesa lá: açúcar, essas coisas básicas que não tinha na roça. Meu pai vendia um caminhão de despesa pra pagar em prazo de seis meses: “Quando você fizer a colheita você paga.” Aí teve um ano que foi mal, meu pai abriu falência. O armazém ficou ruim, meu pai não tinha mais dinheiro pra repor mercadoria no armazém, ficou devendo pros vendedores. Meu pai parou de pagar imposto, a fiscalização veio em cima, ele foi obrigado a fechar o armazém.

 

P/1 - Em 59?

 

R - Isso foi de 58 pra 59. Foi aí que o meu pai falou pros meus irmãos: “Olha, a situação está ruim. Nós vamos ter que voltar pra roça, começar tudo de novo.” Aí meus irmãos: “Mas voltar pra roça, carpir café outra vez? São Paulo está bom, vamos embora pra São Paulo.”

Naqueles anos, a Volkswagen era nova; estava bom de emprego, naquela época, [em] São Paulo. Meu pai falou: “Tudo bem.” Já tinha três irmãos casados nessa época, todos dependiam do meu pai; já eram casados, tinham filhos. “Tudo bem. Eu acho [que] vocês já têm sua família. Eu acho que tem que [se] aventurar, se vocês acham que devem ir pra São Paulo.” Foi aí que começou a migração pra São Paulo da minha família.

 

P/1 - Você falou que gostava de ir ao cinema. O que você assistia?

 

R - Naquele tempo assistia muito aqueles filmes [de] cowboy do Rocky Lane, Hopalong Cassidy, bangue-bangue. O que mais? “Cavaleiro negro”, aquele seriado do Flash Gordon, esses filmes.

Eram uns filmes saudáveis naquela época. Eu acho que aqueles filmes eram mais saudáveis que os filme de hoje, porque naqueles filmes de bang-bang você só vê aqueles caras correndo de cavalo: pá-pá-pá, o cara caía do cavalo, escorria aquele sangue onde o tiro pegou. Hoje, os filmes são muito violentos - os filmes mostram tiro na testa do camarada, o sangue correndo, aquele monte de bala. Acho que isso é mau pra nossa sociedade.

Mas eu assistia esses filmes, eu não lembro qual o filme mais importante. Ah, “Tarzan”. Antes era seriado: “Flash Gordon”, “Tarzan”, Rocky Lane… Tinha uns filmes interessantes, mas a maioria era tudo seriado, Bargas.

 

P/1 - E música, música de viola?

R - Eu gostava de música de viola, aquela música caipira, mas quando nós viemos pra Itapuí, nesses anos 58, 59, começou a estourar o rock, no tempo do Elvis Presley. A gente ouvia muito rock naquela época, twist.

 

P/2 - Dançava também, ia a baile?

 

R - Ia, tinha um clube lá. A gente participava dos bailes, carnaval.

Eu nunca fui muito de dançar. Gostava de ir no baile mais pra paquerar, paquera de jovem.

 

P/1 - Como era a paquera?

 

R - A paquera naquele tempo era muito ir ao cinema, Bargas. Tinha os bailes, a paquera, flertava, a gente ia conversar com a namorada. Tinha também o cinema, que era o local de paquera, era um local de namoro. E tinha o jardim: em Itapuí tinha um jardim muito bonito, não era tão grande, mas poucas cidade têm um jardim bonito como lá. Tem o jardim grande, igreja...

 

P/1 - Aquela história que os rapazes ficavam parados e as meninas ficavam dando volta?

 

R - Ficavam dando volta. Os homens andavam de um lado, as mulheres do outro. Hoje tem pouco isso lá; hoje não dá, naquela época lotava o jardim.

 

P/1 - O footing...  E ali se davam as paqueras?

 

R - E ali se davam as paqueras. A gente olhava, flertava na volta. Quando era para definir, era sempre o homem que tomava iniciativa; o homem vinha andando pra cá, a mulher pra lá e o homem saía andando com a mulher, então batia um papo. Se dava certo, já ia pra parte debaixo do jardim, que eram os bancos e os locais de namorar. A parte de cima era só dar volta e flertar, a parte de baixo era namoro.

 

P/2 - Namoro era o quê? Tinha beijo, até onde chegava o namoro?

 

R - O namoro era o beijo, tudo sarrinho, viu, porque o padre… Eu me lembro até hoje, o padre quando ia falar na missa... O padre ficava bravo com aquele jardim. Ele falava assim: “Eu estou desanimado com a população dessa cidade. Esse jardim aqui está uma pouca vergonha, porque se peito de mulher fosse buzina, ninguém dormia a noite aqui.” [risos] [Falava] desse jeito na missa! Eu lembro até hoje.

[Era] a parte de baixo lá. Mas isso era a coisa mais forte: era o beijo, o carinho no seio da mulher. Outras coisas mais pesadas, naquele tempo, era muito difícil. Não é que nem nos dias de hoje, mas tinha um pouco disso e o padre falava na igreja, rapaz.

 

P/1 - Ali que você aprendeu a fumar?

 

R - É, eu comecei a fumar cedo. Com treze anos eu comecei a fumar. Hoje, graças a Deus, não fumo mais. Já faz quinze anos que eu larguei.

 

P/1 - Escondido no parque?

 

R - Escondido no parque. Depois, devagar, fui perto do pai, meu pai ficou sabendo também. Mas eu comecei a fumar cedo, com treze anos de idade. Fumei uns cigarros que hoje não tem mais a marca: Sir, Beverly, Fulgor... Não sei se tem.

 

P/1 - Você se lembra de alguma menina que você namorou, que você gostou?

 

R - Rapaz, lembro. A primeira namorada minha se chamava Marli. Inclusive, eu conto isso pra minha mulher, ela fica até brava comigo. Minha mulher eu conheci em Santo André, essa Marli foi lá em Itapuí.

Como foi a primeira namorada, a primeira que eu peguei na mão, a primeira a sentar do lado, próximo… Rapaz, eu me apaixonei tanto por aquela menina que não dormia à noite. Eu saí com ela acho que umas quatro vezes, só. Acho que ela não gostou de mim, não topou e me largou, aí foi uma tristeza. Eu passei um período muito ruim. Eu tinha o quê, quatorze anos? Você acha, um moleque de quatorze anos se apaixonar dessa maneira? Mas foi passageiro, eu esqueci.

Tive outras namoradas lá no interior, mas já um pouco mais pacato, mais velho. Tive outras namoradas, mas nada firme, não. Namorar mesmo, firme, foi aqui em Santo André, quando eu casei com a minha esposa. Estou com ela até hoje.

 

P/2 - Vamos voltar pra esse tempo da migração. Quer dizer que os seus irmãos começaram a sair de lá todos juntos?

 

R - Não, veio primeiro o mais velho.

 

P/2 - E o seu pai então lá ficou?

 

R - Meu pai ficou. Como ele abriu falência e fechou o armazém, ele voltou a trabalhar na roça, mesmo morando na cidade. Tinha uma ilha lá que a gente chamava Ilha do Floro, no Rio Tietê. Hoje essa ilha está coberta pelas águas, porque fez-se a barragem de Barra Bonita, represou o rio e essa ilha ficou submersa. O rio lá tinha uns quatrocentos metros de extensão. Com essa barragem, ele passou pra mais de um quilômetro de extensão.

Meu pai voltou a trabalhar na roça, inclusive eu voltei a ajudá-lo.

 

P/1 - Na mesma fazenda?

 

R - Não, essa ilha pertencia a um comerciante.

 

P/1 - Ah, a fazenda era na ilha.

 

R - É. Não era praticamente fazenda, era uma ilha de pequeno porte, mas que dava pra plantar. Meu pai plantava na ilha milho e arroz. Essa ilha tinha um pouco de banhado, [um] banhado muito úmido; meu pai gostava de plantar arroz no banhado porque é um dos melhores arrozes que você colhe. Colhia pouco, mas era arroz de muita qualidade.

Meus irmãos vieram pra São Paulo, vieram os dois mais velhos. Vieram pra Santo André, arrumaram emprego rápido.

 

P/2 - Porque eles vieram pra Santo André?

 

R - Porque no tempo que nós morávamos na fazenda em Taquaral tinha um compadre do meu pai que já havia vindo pra São Paulo, uns quatro, cinco anos antes. Não sei por que esse veio pra Santo André, mas ele veio. Quando nós queríamos vir pra São Paulo, qual a indicação? “Pra onde vamos? Com quem vamos?” Tínhamos um contato com esse compadre do meu pai através de carta -  naquele tempo, o contato era muito [por] carta - e aí mandaram uma carta pra ele, [avisando] que queriam vir pra São Paulo. Ele falou: “Podem vir pra Santo André. Vou arrumar casa.”

Meus irmãos já vieram pra cá com casa arrumada, ele arrumou tudo. Emprego não foi difícil, naquele tempo foi o tempo que veio muita gente pra São Paulo, mas foi uma época boa. Foi a época do Juscelino Kubitschek, JK, a época [em] que ele abriu um pouco o mercado; vieram mais multinacionais pra cá, a Volkswagen e outras. Emprego estava bom naquela época.

 

P/2 - Eles já entraram direto nas montadoras?

 

R - Meus dois irmãos, por coincidência, quando vieram para cá entraram no Moinho São Jorge, que fazia a farinha São Jorge, [que era] famosa. O dono desse moinho era um itapuiense, um tal de Adib Chammas. Ele chegou a ser deputado federal naquela época. Ele era lá de Jaú, da Fazenda Verde.

Eles deram empregos para meus irmãos, meus irmãos trabalharam ali. Depois saíram dali, trabalharam em transportadora; hoje já estão aposentados. Depois dos meus irmãos vieram os demais.

 

P/2 - Eles escreveram dizendo que era bom mesmo, que era para vir?

 

R - Disseram que estavam empregados e com salário, que tinha emprego para os demais, [para] virem embora pra cá, já que a maioria não queria mais voltar pra roça. Meu pai, por ele não tinha problema voltar pra roça. Ele sempre trabalhou na roça, já estava com idade e achava que São Paulo, pra ele, não era bom.

 

P/1 - Você voltou pra roça com seu pai?

 

R - Eu voltei a trabalhar junto com meu pai, embora estudando. Um período eu estudava e ajudava meu pai na linha, colher e plantar o milho, colher arroz. Naquele tempo, a colheita de arroz não era com maquinário. Cortava arroz com o ferro, fazia um feixe, tinha o malhador e malhava o arroz pra ensacar e depois vender. [Era] mais trabalhoso, mas foi um período pequeno porque em 60 eu vim para São Paulo.

 

P/2 - Com seu pai e com a sua mãe?

 

R - Não, em 60 eu vim sozinho. Eu era menor, tinha dezesseis anos; todos os meus irmãos já tinham vindo, então fiquei só eu, minha irmã, meu pai e minha mãe no interior, lá em Itapuí.

Meu pai, o que ele ganhava era pouco nessa Ilha do Floro. Meu pai estava com muita dificuldade lá, a roça estava ficando ruim mesmo. Acho que o incentivo, naquela época, pra roça foi uma queda, nos anos 60, 50. Os anos 60 foi a época que a roça tinha muita gente, os anos 30, os anos 40… Foi a época que a migração começou a crescer e a perspectiva de ganhar dinheiro na roça foi caindo. Meu pai falou para mim: “Olha, filho, você vai para São Paulo. Eu vou [ficar] aqui ainda com a sua mãe, com a sua irmã. Se você conseguir ir bem lá, aí você vem buscar a gente.” Eu vim para São Paulo menor, trabalhei aquele período em uma fábrica de cola para móveis. Trabalhei uns sete, oito meses nessa fábrica.

 

P/1 - Era registrado ou não?

 

R - Era registrado, ganhava um salário mínimo. O salário mínimo, naquela época, era um salário até razoável, tinha um poder aquisitivo em 60.

P/2 - O que você fazia com o seu salário?

 

R - Eu dava tudo para o meu irmão.

 

P/1 - Você estava junto com o seu irmão?

 

R - Eu morava junto com o meu irmão. Eu morava em um quartinho muito pequeno, só cabia eu para dormir mesmo. Esse foi um dos motivos que eu voltei para buscar meus pais, por que meu irmão era casado, tinha dois filhos, tinha a família dele. Eu era solteiro, jovem; a casa era pequena, apertada. Eu achava que eu estava atrapalhando a vida do meu irmão, mas meu irmão falava: “Não, fica aí.”

Estava me sentindo demais lá, porque meu irmão tinha que criar a família dele. A casa era pequena, o salário que eu ganhava dava todo para ele; ele ia me dando um pouquinho para minhas diversões, que eu fazia naquela época. Eu lembro até hoje que eu já ia ao cinema; o cinema, naquele tempo, era muito movimentado.

 

P/1 - Você ia ao Carlos Gomes?

 

R - Ao Carlos Gomes, ao Tangará, Cine Santo André. Esses cinemas já existiam, eu ia neles. O Carlos Gomes, hoje, virou teatro; o Tangará está fechado até hoje. O Tangará, naquela época, era um cinemão, era um cinema novo. Você conheceu, né? A gente ia de gravata.

 

P/1 - Lá não podia entrar se não estivesse de paletó e gravata.

 

R - Ia de paletó e gravata para o cinema.

 

P/2 - Saía do cinema e ia fazer o quê? Tinha um lugar para lanchar, para paquerar? Como era o programa?

 

R - Naquele tempo [a gente] saía do cinema e ia para casa dormir. Só [no] fim de semana que tinha alguns locais que tinha bailinho. Você chegou a conhecer o bar do Santa? Eu ia muito àqueles bailes.

 

P/1 - Você foi morar onde?

 

R - Eu morava na Vila América. Vila América é ali perto do Bruno e Daniel.

 

P/1 - Mas como é que você ia até a Santa Terezinha para ir no Santa?

 

R - Tinha fama esse baile do Santa lá. Era um bairro de classe baixa, um forró daquela época, mas a gente gostava de lá porque tinha paqueras boas.

 

P/1 - Era como o São Jorge?

 

R - Não, no São Jorge era [classe] média para alta, era um salão mais requintado. Na verdade, eu não era um dançarino; o São Jorge era para quem sabia dançar mesmo. Eu ia a esses forrós da vida, mas por um período pequeno também, porque eu casei jovem.

 

P/2 - Mas aí o que aconteceu? Você quis ir embora da casa do seu irmão?

 

R - É. Eu era menor, quis ir embora. Pedi a conta na fábrica, falei: “Eu vou embora. Vou voltar aqui só com o pai e a mãe e quando eu passar [a ser] maior.” Naquele período, eu tinha dezesseis anos. Era difícil arranjar um emprego bom, porque era um período que eu podia ser chamado para servir em tiro de guerra - eu não tinha recebido ainda a carta de dispensa do alistamento militar. Então voltei para o interior, fiquei mais um período lá, passei a maior…

[Quando] voltei para o interior eu já tinha quase dezesseis anos. Nesse período, voltei a ajudar meu pai. Meu pai já ganhava mais a vida pescando do que trabalhando na roça, naquele tempo o rio era bom de pesca, então o meu pai pescava e vendia os peixes em Jaú. Pintado, dourado, esses peixes. Ganhou a vida, nesse período, só pescando.

Peguei meu pai e falei: “Olha, pai, vamos para São Paulo. Eu sou maior [de idade], os filhos do senhor estão todos lá. Eu acho que é uma oportunidade da gente, que é jovem, e de você ficar junto com a gente.” Seguiu-se que eu vim embora para São Paulo; nós viemos para a Vila América novamente, era onde meus irmãos moravam, ali perto.

 

P/2 - Arrumaram a casa?

 

R - Meus irmãos já tinham arrumado a casa antes da gente chegar de mudança. [Era] uma casinha de três cômodos; alugamos. Eu lembro [que] naquela época o aluguel já era pesado. Nós viemos para cá em primeiro de setembro; meu irmão trabalhava na Pirelli e ele já arrumou para mim. [No] dia dez de setembro eu comecei a trabalhar na Pirelli com apenas dois documentos: a dispensa do serviço militar, que era a reservista, e a [carteira] profissional. [No] exame médico, naquele tempo o médico mandava tirar a roupa e soprava a mão só para ver se tinha hérnia; só foi esse o exame, mais nada. “Você está bom, pode trabalhar.” E eu entrei na Pirelli.

 

P/1 - E o seu pai? Arrumou emprego também, não?

 

R - Meu pai não. Meu pai já estava nessa época com quase 60 anos, não arrumava emprego. [Com] essa idade já era muito difícil, então meu pai fazia bico, vendia carrinho de doce, vendia pipoca, fazia essas coisas. Depois meu pai entrou para trabalhar no comércio; a gente arrumou um boteco para ele, ele trabalhava no bar de garçom.

 

P/1 - Mas o boteco era de vocês?

 

R - O boteco era meu. Com o trabalho na Pirelli eu comprei um botequinho e o pus para trabalhar no boteco. Um barzinho de uma porta, de vender cachaça, essas coisas. Boteco de periferia.

Mas foi isso, nós viemos nos anos 60 para São Paulo, eu entrei na Pirelli. Eu estava dizendo que o aluguel era caro naquela época; metade do meu salário era para o aluguel, era muito caro. É um problema sério o problema habitacional no Brasil, mas eu pagava aluguel e morava junto com os meus pais; a gente ainda conseguiu algum dinheiro para comprar esse boteco [em] que o meu pai trabalhou durante um período. Depois ele ficou muito doente, veio a falecer; encerrei as atividades do bar, não quis. Preferi continuar trabalhando na Pirelli, mas aí foi o período do João Goulart, o período da saída do Jânio. Isso eu lembro muito bem.

 

P/2 - Você era envolvido então com política?

 

R - Em Itapuí eu já era envolvido com política, porque em Itapuí o meu pai era ademarista. Naquele tempo tinha o Ademar de Barros [do] PRP e o meu pai gostava do Ademar. Eu me lembro [que] em Itapuí, ainda na campanha, quando o Jânio Quadros ganhou a presidência… Acho que foi em 59. Eu lembro da campanha do Ademar de Barros que a gente fazia. Naquele tempo, a gente fazia muita pichação no meio da rua no interior, escrevia com cal: “Vote Ademar”; já tinha cartaz para colar nos postes, quando eu era moleque já existia isso.

O Ademar chegou a ir em Itapuí umas duas vezes, ele ia muito para o interior do estado. O Ademar chegou a ser governador de São Paulo, depois foi candidato a presidência da República em 59 [e] perdeu para o Jânio.

 

P/2 - Quer dizer então que você e seu pai votaram no Ademar.

 

R - Eu votei no Ademar de Barros. Eu não conhecia, eu seguia o meu pai.

 

P/1 - Você torcia para que time?

 

R - São paulino, Bargas. Fiquei são-paulino em 57. O meu pai era corintiano, mas ele não me ensinou a ser corintiano; me deixou, foi diferente de mim. Já eu dei duro, porque meus filhos são todos são-paulinos.

 

P/1 - E por que você era são-paulino?

 

R - Fui são-paulino porque eu não ligava muito pra torcer [pra] futebol, mas em 57 o São Paulo ficou campeão. Eu tinha treze anos, tinha muito comentário que o São Paulo ganhou a decisão do Corinthians de 3 x 1, então eu fiquei são-paulino. Eu lembro a escalação do São Paulo desse até hoje. A escalação do São Paulo de hoje eu não lembro, mas daquele ano eu lembro.

 

P/1 - Quem era?

 

R - Poy, De Sordi, Mauro, Lino, Vitor, Edilberto, Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhotinho.

 

P/1 - Você lembra quem marcou os gols?

 

R - Lembro. Um gol de Maurinho, um gol de Amauri e outro de Gino: 3 x 1 contra o Corinthians. O gol do Corinthians eu não lembro quem marcou, mas o do São Paulo eu lembro. O gol do Maurinho foi até aquela briga com o Gilmar, que é histórica até hoje. O Gilmar era goleiro do Corinthians. O Maurinho pegou a bola, driblou o Gilmar, jogou no fundo da rede e tirou sarro do Gilmar, aí o Gilmar correu atrás dele. Eu lembro, isso [eu ouvi] tudo pelo rádio, naquele tempo não tinha televisão. São Paulo tinha pouca televisão, a gente ouvia no rádio.

 

P/1 - Você era bom de bola?

 

R - Bom eu não era, mas eu tocava bem, porque mesmo quando era menor eu era encorpado, fisicamente bom. Eu cheguei a jogar na Associação Atlética Itapuí, que disputava o campeonato amador da redondeza.

Eu lembro até hoje: a gente ia jogar bola, naquele tempo era tudo estrada. A gente chamava de estrada, porque quase não tinha asfalto nas vicinais do Estado de São Paulo, tinha asfalto as principais, só. Naquele tempo não tinha [Rodovia] Castelo Branco, não tinha [Rodovia dos] Bandeirantes, a via principal era a [Rodovia] Anhanguera. Tinha algumas vias, por exemplo: de Itapuí a Jaú eram nove quilômetros, tudo [de] terra; Itapuí a Pedregueiras era tudo [de] terra, até Bauru era tudo estrada; tinha [a rodovia] Marechal Rondon, que já era asfalto - era pista única, ou melhor, mão dupla. Tinha a Anhanguera...

A gente ia jogar bola naquelas áreas. Não sei se você conhece essa cidade, tinha Torrinha, Igaraçu [do Tietê], Barra Bonita, Bariri, Pederneiras. [Em] todas essas cidades a gente ia jogar bola. Mineiros do Tietê… Eu ia junto com a Associação, a gente ia de caminhão jogar bola. O caminhão, quando chovia muito, usava aquelas correntes no pneu.

 

P/1 - Mas porque você ia lá, você jogava também ou não?

 

R - Jogava um pouco, ia mais por diversão. Não era um campeonato; era um campeonato, mas de sessão de fábrica. Eu cheguei a jogar bola nos anos 60, antes de casar. Até depois de casado, [no] time da sessão da fábrica.

 

P/2 - E a fábrica que você trabalhava era a Pirelli. Qual a sua primeira função?

 

R - A Pirelli, naquela época, era uma fábrica em que muita gente gostava de trabalhar, porque era uma fábrica familiar. Era uma fábrica que pagava para trabalhador operacional - vamos dizer assim, “para peão” - um salário razoável. A Pirelli, teve uma época que ela pagava salário melhor do que a Volkswagen.

Hoje, eu acho que a Volkswagen paga melhor que a Pirelli, mas naquela época a Pirelli, a Firestone, como a turma costuma chamar no Brasil lá de Santo André, a Rhodia - o Bargas acho que lembra disso - eram as fábricas que o pessoal procurava se empregar porque eram chamadas fábricas boas. Fábricas que tinham um convênio médico bom, tinham clube para você se divertir. Tinha bastante gente que trabalhava e tinha um salário razoável com o padrão de vida que você precisava como trabalhador.

 

P/1 - Como é que você arrumou emprego lá?

 

R - O meu irmão já trabalhava na Pirelli e arrumou para mim, por isso que eu falo que era fábrica familiar. Meu irmão entrou na Pirelli em 60, quando veio para cá. Foi um dos irmãos mais novos - mais velho que eu e mais novo que os mais velhos. Esse meu irmão entrou na Pirelli; quando eu vim para cá, ele falou com o chefe dele. Em dez dias eu estava empregado, estava trabalhando.

 

P/2 - A sua primeira função na Pirelli foi?

 

R - Foi de ajudante geral. Eu entrei como operador operacional e ajudante. Eu me lembro até hoje que na sessão [em] que eu entrei nós fazíamos artigos de borracha nas montadoras - aquelas borrachinhas que vão no amortecedor, aqueles tapetes...

 

P/1 - Você era solteiro?

 

R - Eu era solteiro ainda.

[Fazia] aqueles tapetes que vão dentro do carro, também aquelas correias que vão para o motor. Passei a trabalhar nas prensas, acabei virando operador das prensas. As prensas são onde [se] faziam as correias grandes.

 

P/1 - O primeiro salário da Pirelli era aquele salário grande...

 

R - O salário era pequeno, Bargas, porque tinha que pagar aluguel e ajudar o meu pai que morava comigo. O salário, não sei se era grande, mas para mim era pequeno. Podia ser grande para outros, que tinham menos necessidade. Como meu pai não trabalhava, veio sem nada para cá e os filhos solteiros eram eu e minha irmã, a gente tinha que cuidar do meu pai. O salário que eu recebia na Pirelli eu dava tudo para minha mãe; se [quando] menor [de idade] dava tudo para o meu irmão porque morava com ele, quando veio meu pai eu dava tudo para minha mãe porque precisava fazer compra da casa, precisava pagar aluguel. Minha mãe ia dando uns quebradinhos pra mim, na medida do possível.

 

P/2 - Sua irmã também começou a trabalhar?

 

R - Minha irmã, naquele tempo, começou a trabalhar. No tempo que eu trabalhava na Pirelli ela trabalhava numa metalúrgica, trabalhava na Phillips Constanta, lá em Ribeirão Pires. Não ficamos desempregados, esse problema a gente não teve.

 

P/1 - Tinha esse seu irmão também, que estava doente?

 

R - Tinha esse meu irmão que estava doente, mas ele estava internado em Franco da Rocha.

 

P/1 - Então quando seu pai veio ele já estava internado?

 

R - Nós o internamos quando morávamos no interior.

 

P/1 - Você tinha quantos anos?

 

R - Eu tinha quinze anos.

 

P/2 - Num dado momento ele passou a...

 

R - Ele começou a ficar ruim em 54, por aí, em 53. De repente, ele começou a ler muito a Bíblia, começou a se concentrar; ele tinha que ler a Bíblia, tinha que conhecer Deus, tinha que conhecer a vida do Espírito Santo e começou a pôr aquilo na cabeça.

A doença dele era muito esquisita, ele saía à rua e via coisas. Você olhava perto dele, não tinha ninguém, mas ele estava gritando: “Sai da minha frente.” O homem ficou doido com isso, aí nós o internamos em Itapira.

Naquele tempo, faziam um tratamento em Itapira que hoje em dia não se faz, davam choque na cabeça. Quando nós íamos visitá-lo, tinha até marca na cabeça de tanto choque. Eu acho que o deixou mais louco. Em Itapira nós o tiramos [do hospital]; minha mãe ficou com muito dó dele, do jeito que [o] tratavam. Nós o trouxemos para casa e foi justamente no período que meu pai abriu falência.

O problema de vida do meu pai, abrindo falência, fechando o armazém e ao mesmo tempo esse meu irmão ruim, doente da cabeça, os outros tinham vindo para São Paulo… Tudo isso foi um transtorno muito grande pra gente e foi aí que a gente não suportava meu irmão em casa. Não tinha dinheiro para tratar, o homem era doido, na rua ele agredia as pessoas, já estava levando processo porque agrediu fisicamente pessoas, deu murro, quebrou o dente. Meu pai não o aguentava.

O que vamos fazer? Foi aí que a prefeitura própria de lá que deu a ideia, falou: “Vamos levá-lo para Franco da Rocha. Lá que é lugar de doido.” [Era] assim [que se dizia]: não era uma deficiência mental, era “lugar de doido”. Aí o trouxemos em fim de 59, começo de 60. Eu lembro até hoje, dá até dó de lembrar porque ele viajou na camisa-de-força desde de Itapuí até Franco da Rocha. Foram seis, sete horas de viagem todo amarrado. [Quando] chegou ali deram um “amansa leão” nele, internaram e foi aquele sofrimento que eu já contei para vocês.

 

(PAUSA)

 

P/2 - Nós estamos em Santo André, você está trabalhando na Pirelli, no ano de 1961 - alguma coisa assim, não é?

 

R - A Pirelli foi em 62.

 

P/2 - Foi nessa época que você se casou, conheceu sua esposa? Como foi?

 

R - Não, eu entrei na Pirelli [quando] tinha dezoito anos. Eu era novinho, jovem, morava na Vila América.

Conheci minha esposa no fim de 63, por aí, porque no meu trajeto para ir trabalhar na Pirelli - eu ia a pé, era próximo da Vila América -  eu passava em frente à casa dela e comecei a vê-la. [A gente] sempre olhava um para o outro. Eu lembro até hoje que ia chegar no fim da rua, ia fazer a curva e olhava para trás; ela estava no portão olhando para mim.

Todo dia eu passava ali e olhava para aquela menina. Era mais nova que eu - no começo de 64 ela tinha dezessete anos ainda e eu ia fazer dezenove anos, mas eu não tinha coragem de chegar nela porque ela quase não saía de casa; só via no portão, mas chegar no portão da casa da menina é ruim. Um dia, conversando com um colega meu: “Aquela menina me dá uma bola, rapaz, mas eu não sei como chegar nela.”

Naquele tempo, a gente ia muito em parque, parquinho - não sei se o Osvaldo lembra, ou era cinema ou era parquinho. Naqueles terrenos vazios se instalava um parquinho, tinha a roda-gigante, outros brinquedos. Eu falava assim: “Mas ela não vai ao parque, não vai ao cinema, rapaz. Eu não vou chegar lá na casa dela para bater papo com essa menina, pelo jeito a mãe dela e o pai dela devem ser bravos.” Já os tinha visto com aquela cara.

 

P/2 - Ela era bonita?

 

R - Eu achava bonita, e acho até hoje. Eu a acho muito simpática, baixinha, mas olhos azuis, loirinha. Meu colega falou: “João, ela estuda. Eu já a vi ir ao cinema. Bom, eu tenho um pouco de amizade com ela. Eu vou marcar um encontro de você com ela.” Então quem acabou ajudando eu a namorar minha mulher foi um colega. Eu lembro até hoje a data, dia vinte de abril – opa, dia vinte de abril é amanhã, rapaz! Olha, não posso esquecer...

 

P/2 - Nós te salvamos.

 

R - Salvaram mesmo, mas eu sempre lembro, todos os anos. Teve ano que eu esqueci, mas foi vinte de abril. Eu lembro que foi véspera de Tiradentes, era um feriado. Eu falei: “Vê se ela não quer ir ao cinema comigo amanhã.” Meu colega falou com ela: “O João está convidando para você ir no cinema amanhã lá no Tangará.” Ela estudava, deu o cano na aula. Fingiu que foi à aula, levou as coisas, senão o pai dela e a mãe dela “já viu”. Naquele tempo, a mãe dela era muito rigorosa. Ela foi ao cinema, entrou primeiro que eu, sentou lá; eu entrei, procurei, a achei.   

 

P/1 - Ela estava sozinha?

 

R - Estava com uma colega dela. Eu a achei, o lugar vazio. Cheguei lá perto, foi a primeira vez que eu conversei com ela: “Posso sentar?” Aquele sorrisão: “Pode.” Sentei e estou até hoje nessa sentada. Daí para frente a gente se encontrou mais vezes; teve algumas dificuldades, porque a mãe dela veio do interior, era muito rígida com as filhas. Imediatamente, ela me levou para casa dela. Como eu comecei a gostar dela, simpatizar, demos o primeiro beijo, foi gostoso...

 

P/1 - Quando foi, demorou quanto tempo o primeiro beijo?

 

R - Não foi no cinema, Bargas, no cinema a gente só pegou na mão naquele dia. Eu me lembro, devagarinho ela pegou minha mão, pronto! Mas o primeiro beijo foi no fim do mês porque depois desse encontro no cinema a gente só conseguiu se encontrar mais uma vez. Ela marcou comigo [no] domingo à noite e depois que chegou em casa apanhou da mãe dela. Ela saiu umas sete horas, ficou comigo até umas nove horas; [quando] chegou em casa a mãe dela deu uma surra nela. Ela me contou isso só depois que nós casamos, mas apanhou para sair comigo a primeira vez. Foi aí que, como eu gostava dela, tive que ir para casa dela, namorar em casa. Ela falou: “Olha, minha mãe não deixa mais eu sair. Tem medo que você faça algum mal comigo.” Eu falei: “Tá bom, eu vou à sua casa.” Aí eu namorava só em casa.

 

P/2 - Sentava no sofá, como era?

 

R - No sofá da sala. Ela tinha já uma televisão, aquele televisão antiga RCA Victor e sentava no sofá. Os irmãozinhos [ficavam] sempre ali perto ou o pai dela; a mãe dela não vinha, ficava só lá [na] cozinha, mas mandava os filhos. Era um namoro difícil, rapaz.

P/2 - E ficava de mão dada na sala ou nem isso?

 

R - Ficava de mão dada. Às vezes coincidia de ficarmos sozinhos na sala por alguns minutos ou segundos, aí a gente desforrava. Um dia, o irmãozinho dela me pegou beijando ela. “Meu Deus, agora ele vai contar para minha mãe, e agora? Eu vou levar uma surra da minha mãe outra vez.” Felizmente, ele não contou.

 

P/1 - Você não fazia aquelas excursões para ir para Santos?

 

R - A primeira vez que eu fui para Santos, Bargas, eu já era casado, foi em 67. A mãe dela nem deixava. Eu não tinha nunca ido a Santos e já morava em Santo André desde 60, praticamente. A primeira vez que a gente foi a uma excursão para Santos, a gente já era casado e não tinha filho ainda; foi em 67. Tem até uma fotografia com biquíni daquela época, o short daquela época. Foi a primeira vez que nós fomos para Santos.

 

P/1 - Aí que você conheceu o mar.

 

R - Fui conhecer o mar. Eu já tinha 23 anos e ela tinha 21, dois anos mais nova que eu. Nós começamos a namorar em 64, firmamos, em 65 ficamos noivos. Namorar daquele jeito… A gente queria casar logo, se gostava muito. Vamos dizer assim, aquela tesão de jovem, “estamos perdendo tempo na vida”. Não tinha jeito, tinha que casar mesmo e a gente casou em 66, em setembro.

 

P/1 - Você tinha quantos anos?

 

R - Quando casamos eu tinha 22 anos e ela vinte.

 

P/2 - Vocês foram morar numa casa por ali?

 

R - Aluguei uma casa e era um grande problema porque meus pais ainda viviam da minha ajuda. Como casar e conciliar isso? Vou casar, formar família, então nós alugamos duas casas no mesmo terreno: eu morava na casa de cima e o meu pai e minha mãe na casa de baixo. Eu pagava aluguel das duas casas. Meus irmãos ajudavam um pouco porque, embora fossem casados, eles tinham a responsabilidade com o meu pai e a minha mãe.

Morei junto com o meu pai e minha mãe até 1970. Foi quando eu comprei um terreno porque minha mulher, quando nós casamos, ela trabalhava na Pirelli também, trabalhava no escritório da Pirelli. Ela tinha uma escolaridade melhor que eu - ou melhor, tem, né? Ela ficou grávida em 69 do meu primeiro filho. Ela falou: “Olha, eu não quero mais ficar na fábrica, eu quero cuidar do filho.” Naquele tempo não tinha creche, não tinha onde deixar a criança. Eu também [tinha] um pensamento daquela época: achava que a mulher que tinha filho não podia trabalhar, tinha que cuidar do filho. Visão machista.

 

P/1 - Você pensava assim?

 

R - Pensava assim. Logo que eu casei, eu queria que ela saísse do emprego. Ela falou: “Não, deixa eu trabalhar. Nós somos pobres, precisamos construir uma família, precisamos comprar uma casa. Nós pagamos aluguel, os seus pais dependem de você.” Para começar, quando eu casei, eu comprei móveis usados, não comprei móveis zero. Minha mulher topou naquele tempo porque gostava muito de mim. Comprei fogão usado, guarda-roupa usado, cama usada. Comprei tudo usado para montar minha casa, era mais barato e a gente queria mesmo casar, a gente se gostava.

 

P/1 - Casou na igreja, no civil?

 

R - Casei, tem as fotos aí. No civil foi sábado de manhã, [às] dez horas na Praça do Carmo. Casei na igreja à tarde. Alugamos um táxi, um DKV, que levou a gente. Casei naquela igrejinha da Santa Cruz - aquela antiga, que ficava lá na [Avenida] Perimetral, você lembra?

 

P/2 - E a lua-de-mel foi?

 

R - Hoje ela está montada lá no Parque do Pedroso.

A lua-de-mel, nós arrumamos uma economia [e] fomos passar a lua-de-mel lá em Poços de Caldas, que era chamado o “cemitério das virgens.” (risos) Eu lembro até hoje que a gente casou no sábado à tarde, [às] dezoito horas nessa igrejinha. Quando foi mais ou menos nove horas nós pegamos o subúrbio - o subúrbio era o trem. Saímos de Jundiaí, pegamos o subúrbio vazio, rapaz, só nós dois e eu doido para chegar lá. Aí fomos até a rodoviária, tomamos um ônibus e fomos para Poços de Caldas.

Ficamos lá só três dias, o dinheiro era pouco; ficamos num hotelzinho bem sem-vergonha, mas foi bom, foi ótimo. Chegamos lá [às] horas da manhã, ficamos três dias lá e depois viemos embora. Muito bom, dá saudade, três dias que...

 

P/1 - Você tirou férias ou tirou licença?

 

R - Não, peguei férias para casar e ela também, nós dois tiramos férias.

 

P/2 - Aí vocês voltaram e nessa época você continuava na Pirelli?

 

R - Sim, eu continuava na Pirelli e ela também. Isso foi em 67, 68. Eu me lembro que esse período foi um período difícil até porque estava a ditadura militar.

Resgatando, eu acho que é importante falar nisso: em 64, quando houve o golpe em 31 de março, rapaz, deu um fracasso nas fábricas. A Pirelli mandou muita gente embora. Eu escapei do facão porque era um cara novo, operava muito bem a máquina. A gente fala de redução de salário, redução de jornada: eu me lembro até hoje que em 65 a Pirelli aplicou aquela lei da CLT e reduziu [em] 25% a jornada de trabalho e o salário. Eu trabalhei dois meses assim. A gente folgava todo sábado, mas como eu era solteiro, reduzir o salário eu achava até bom porque eu não trabalhava mais de segunda a sábado. De sábado eu não trabalhava, mas houve essa redução.

 

P/1 - E o que você pensava que estava acontecendo no país?

R - Rapaz, eu ficava preocupado com emprego. Eu pensava o seguinte: “Podia me mandar embora e acabou.”

 

P/1 - Mas com o país você não tinha essa preocupação de saber o que estava acontecendo? Era militar, não era...

 

R - Naquele tempo, eu já tinha preocupação com os trabalhadores, com os pobres. A gente já via que tinha pobreza na rua, eu tinha vindo do interior e no interior eu tinha visto [que] o trabalhador rural não tinha mais aquele apoio. Na migração para São Paulo, como eu era jovem e tinha pouca formação de escolaridade, eu pensava o seguinte: “Mas como é que vai ser esse país? Será que vai ter sempre emprego, será que vai ter sempre serviço? Puxa, a gente faz tanto cabo aqui, será que vai ter tantos anos assim para ter tanto cabo, onde é que vão parar esses cabos?” Eu achava que aquela produção que a gente fazia era muita coisa, que um dia ia acabar. Aquilo lá ia ter fim logo e quando acabar, o que nós vamos fazer?

Eu tinha essas preocupações. Eu tinha uma visão de desenvolvimento da nação, desenvolvimento econômico; tinha preocupação porque tinha muito vai e vem, de repente tinha serviço e de repente fracassava. Eu tinha muita preocupação em perder o emprego e achava que o meu emprego, pela formação que eu tinha, a escolaridade, a responsabilidade que eu tinha, ia ser difícil achar outro emprego.  

Se em 62 eu tive facilidade para entrar na Pirelli, a partir de 64, quando teve o golpe, as coisas começaram a mudar. Em 67, 68 começou a desenvolver mais, acho que aí a ditadura militar começou a investir: novos projetos, aquela história do bolo crescer. Foi um período que tinha muito trabalho, muitos pedidos de cabos para energia elétrica, novas usinas, a usina de… Como é que chama aquela usina do interior de São Paulo? Não me lembro o nome agora, mas Itaipu foi uma delas, mais para frente. Muitos cabos nós fizemos para a usina de Itaipu, a usina de Ilha Solteira. Ilha Solteira tinha um projeto lá e fizemos muitos serviços para a própria Petrobrás. Começou a ter um incentivo e o governo pesquisar mais poços de petróleo, então a gente fazia cabos para Petrobrás, cabos para retirar petróleo. Houve uma evolução, bastante serviços, houve uma melhora.

Foi uma época que se comentava muito dentro da fábrica, alguns companheiros que tinham naquela época, [em] 68, uma formação política melhor. Eu era muito jovem, não tinha esse conhecimento, mas eu lembro de colegas meus que criticavam a ditadura militar, a falta de democracia, falavam muito disso na fábrica. Falavam [de modo] um pouco restrito, algumas pessoas, porque tinham medo de falar. Eu me lembro até hoje: o meu setor foi onde teve uns dois ou três companheiros que eram companheiros e foram perseguidos pela ditadura. Eles tiveram que abandonar o emprego e ir embora, e na fábrica a turma os chamavam de terroristas: “Aquele cara é terrorista, porque mete o pau no governo.”

 

P/2 - Quer dizer, o pessoal achava isso?

 

R - O pessoal achava isso, mas na verdade eles estavam tentando conscientizar a gente contra a ditadura militar. Eles falavam pra se organizar no movimento sindical, tinha gente que convidava para reunião aqui em São Paulo, eu não vinha. Pessoas me orientavam: “Olha, não vai na conversa desses caras não, são terroristas”, então a gente não se aproximava. Mas eram pessoas que estavam lutando naquela época… Chegou um período [em] que elas… [Em] 71, 72, a polícia foi até dentro da seção atrás deles, mas felizmente eles foram avisados antes e debandaram.

 

P/1 - Como era o ambiente na fábrica? Você tinha apelido, não tinha apelido?

 

R - Ah, tinha.

 

P/1 - Qual era o seu apelido?

 

R - Meu apelido era “João Coisa Boa”. (risos) “João coisa Boa” eu trouxe do interior, Bargas, porque quando eu entrei na Pirelli os caras… Como meu irmão já trabalhava lá os caras falavam assim... O meu irmão o nome dele é José, aliás, minha mãe pôs quase tudo nome de santo: Antônio, José, João, Joaquim, Maria - era a moda do povo do interior. Mas eu, os caras falaram: “Precisa pôr um apelido no irmão do José”, que era eu. “Não, não precisa não, eu já tenho apelido”, “Qual é?” Eu não vou falar aqui né, Bargas? “Ah, seu apelido é esse?” É um nome meio feio, sabe?

 

P/2 - Pode falar.

 

R - Aqui na câmara?

 

P/2 - É, o que é que tem?

 

R - (risos)

 

P/1 - Eu sei.... (risos)

 

P/2 - Não vão registrar para a história? (risos)

 

R - É um apelido feio - feio não, feio o nome... Escandaloso, vamos dizer assim. Eu não sei, tem tanta gente que tem o nome de Pinto, não tem? Mas era “João Buceta” meu apelido. Então eu falei para os camaradas e [eles disseram]: “Oh, isso não é apelido, João. Nós não vamos chamar você com esse nome. Aqui tá cheio de mulher que trabalha na seção.” Eu falei: “Mas esse é o apelido que eu trouxe do interior.”

“Por que você pegou esse apelido?” “Porque eu era bom de snooker.” Os caras começou a me chamar de “João Bunda”, “João Largo”... Falaram esse nome aí e pegou. “Mas tudo bem, é esse seu apelido.” “É.” “Nós vamos chamar você de João Coisa Boa.”

Pegou “João Coisa Boa”. Logo na seção todo mundo me conhecia por “João Coisa Boa”. Quando eu fui para o sindicato, em 81, concorrer a uma chapa, na minha trajetória estava lá: João Avamileno e entre parênteses “João Coisa Boa”. Pegaram voto porque na fábrica todo mundo me conhecia como “João Coisa Boa”. Mas foi isso. Esse o apelido que eu tinha no interior e trouxe para a fábrica e ficou até hoje.  

 

P/1 - Você se lembra de algum companheiro que era mais chegado a você?

 

R - Ah, lembro de muitos. O [José] Cicotti era um deles, que entrou também na Pirelli em 65; trabalhamos juntos e a gente acabou ficando operador na mesma máquina. O José Cicotti foi deputado pelo PT, estadual, federal, vice-prefeito de Santo André também, foi um homem que me trouxe pro sindicato. E nós o levamos para o sindicato também.

O Cicotti era do interior como a gente, dentro do grupo de pessoas que nós tínhamos na fábrica. A gente era um grupo de pessoas - eu, ele e mais alguns -, aqueles peões mais valentes. Aqueles peões que não gostavam de injustiça dentro da fábrica, que quando o chefe fazia uma repressão ou perseguia a gente chegava até ir conversar com a chefia por causa disso, mesmo naqueles tempos de repressão. Quando o sindicato foi ter eleições, em 72, pediram para a gente indicar uma pessoa do setor para ser diretor do sindicato, para compor a chapa do Marcílio...

 

P/1 - Você era sócio?

 

R - Era, entrei [como] sócio em 71. Entrei [como] sócio numa campanha de porta de fábrica. O sindicato, até 67, era morto; era o Casagrande, tinha sofrido intervenção.

O sindicato teve um papel importante, porque quando eu entrei na Pirelli, no começo de 62, meu irmão até falava para mim que tinha participado de uma greve de uns quatro dias; uma greve forte naquela época, por aumento de salário, e com o golpe militar o sindicato enfraqueceu muito.

Esse Casagrande era um pelego do tamanho de um bonde, o sindicato não tinha atuação nenhuma. Quando o Marcílio tomou o sindicato, em 67, eles começaram a fazer uma política um pouco diferente. Levavam jornalzinho na porta de fábrica, faziam sindicalização na porta de fábrica. A Pirelli já tinha três diretores lá dentro, era a fábrica que tinha mais sócios no sindicato naquela época, então era o ‘tchan’. O que é a Volkswagen hoje para os metalúrgicos do ABC, naquele tempo era a Pirelli para os metalúrgicos de Santo André.

 

P/2 - Na porta de fábrica você...

R - Eu me sindicalizei. Foi uma campanha de sindicalização em 71. Teve uma em 70, eu não tive a oportunidade de ficar sócio; em 71 fiquei.

 

P/1 - E qual foi o argumento que o convenceu?

 

R - Foi o argumento dos diretores na porta da fábrica, naquela época, para ficar sócio do sindicato. Era a luta pelo aumento de salário. Era isso.

 

P/1 - Isso foi em 74?

 

R - Não, foi antes, em 71, 70. Era o aumento de salário. Eles explicavam para nós: “Quem negocia com a Pirelli o acordo é o sindicato, quem negocia o aumento de salário é o sindicato, quem negocia as condições de trabalho é o sindicato.” Com essa explanação, com esse convencimento eu fiquei sócio do sindicato.

Foi em 72 que se pediu para escolher um diretor da seção. Já tinha diretores do sindicato, mas em outros setores, no nosso setor não tinha. Foi aí que indicamos o Cicotti para entrar no sindicato, pelo jeito dele, pelo comportamento dele, pela amizade que a gente tinha. “Você quer?” “Não!” “Você quer?” O outro: “Não!” “E você, Cicotti?” “Não sei, se me apoiar eu vou!”

Ele foi, participou [como] diretor de base, e Cicotti começou a ter uma atuação boa dentro da fábrica. Mas o diretor do sindicato naquela época era assim, para resolver as picuinhas: “Porque o chefe está me perseguindo, porque eu perdi a hora e o chefe está me dando gancho, está me dando advertência.” Era [pra] esses negócios, então o Cicotti era o esteio que ia lá conversar com o chefe: “Por que deu essa repressão? O camarada perdeu a hora. Tira isso dele, isso vai para a ficha dele”, essas coisas. Mas tinha também… O sindicato acatou a luta, para mim parece que foi em 74 ou 75, dos 34.1...

 

P/1 - Foi 77.

 

R - Foi 77? Para mim parece que foi antes, Bargas. Eu sei que em 75 nós tivemos aquela votação no MDB muito grande...

P/2 - 76.

 

R - 76? Foi o Quércia senador e tudo?

 

P/1 - 74.

 

R - 74, né? O Franco Montoro já era senador e entrou o Quércia. Foi 74. Foi esse ano aí que a gente sentiu a oposição crescer e dentro da fábrica todo mundo falava: “Não, vou votar no MDB. É o MDB que é contra essa ditadura, que está arrochando nosso salário”, porque naquele tempo já tinha discussão do arrocho, quando chegou nos 34.1%.

Votamos em massa no MDB e o Quércia estourou a votação para senador naquela época. Eu me lembro até hoje, acho que o Lauro Natel era governador do Estado, ele até reclamava que ficou surpreso. Eu lembro do Laudo Natel, porque ele era era são paulino; o Laudo Natel ficou decepcionado com o povo que votou contra a Arena [e] votou no MDB, no Quércia. Nós criamos todo aquele ânimo: “Oba, agora nós vamos mudar esse país. Nós vamos ganhar melhor, vamos ter aumento.” Peão só pensa em ganhar melhor. Mas foi uma época muito interessante, muita discussão política dentro da fábrica.

 

P/2 - E a discussão centrava no problema do salário?

 

R - O problema maior era o salário.

 

P/2 - E nessa época era ruim o salário?

 

R - Não, a Pirelli era uma fábrica que oferecia condições de trabalho razoável. Ela tinha uma assistência médica boa, era uma fábrica que muitos trabalhadores gostariam de estar trabalhando; o problema era salário, porque [com] o salário que a gente ganhava você não crescia na vida. Era para você ter aquela vidinha, criar a sua família, com muito sacrifício talvez fazer uma casa. Eu, que era operador de máquina, tinha um salário melhor.

A gente pensava no futuro, queria condições de vida melhor, queria estudar os filhos, queria as ilusões que começaram a aparecer muito nos anos 60 e 70. Eu, por exemplo, fui comprar uma geladeira com cinco anos de casado, casei em 66 e comprei minha geladeira em 71. Hoje, a pessoa casa e tem que ter tudo: tem que ter geladeira, televisão. Minha televisão eu comprei um ano depois que eu casei, a primeira televisão...

 

P/1 - Você comprou primeiro a televisão e depois a geladeira?

 

R - Eu comprei primeiro a televisão e depois a geladeira, é verdade. A televisão eu comprei, em fins de 67, um ano depois de casado… Porque tem a Jovem Guarda, né? A televisão era distração: Jovem Guarda, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, aqueles programas do show de domingo, as comédias, era atrativo. Os jogos que passavam… A gente ia assistir televisão nos bares, não sei se você lembra. Saía à noite de casa para ir assistir televisão no bar.

Pouca gente tinha televisão, então para mim a televisão era mais interessante de ter em casa do que a geladeira. A geladeira, eu não sabia a utilidade dela. Então a geladeira, a primeira, eu fui comprar só em 71.

 

P/2 - E carro?

 

R - Meu primeiro carro eu comprei no fim de 75. Lógico que foi um Fusca. Aliás, eu trabalhava… Quando eu morava na Vila América eu morava perto da fábrica, ia a pé. Quando eu comprei meu terreno, fiz dois cômodos e entrei para [me] livrar do aluguel, aí eu fui morar quatro quilômetros longe da fábrica.

Comecei a tomar ônibus, que tristeza! Não gostava de tomar ônibus, aquele ônibus lotado de madrugada. Além de tomar ônibus, eu tinha que andar ainda mais de um quilômetro a pé, que era ali da [Metalúrgica] Guazerri até a Pirelli, ou tinha que tomar dois ônibus. Não compensava dois ônibus, aí eu comprei uma bicicleta, inventei de trabalhar de bicicleta. Fiquei 5 anos trabalhando de bicicleta, aí sim era só alegria, pegava a magrela lá e...

Fui comprar um fusca em fins de 75. Eu comprei um Fusquinha 72. Na verdade, eu não tinha dinheiro para comprar carro, mas meu sogro tinha uma economia, ele me emprestou dinheiro: “Eu empresto dinheiro para você comprar um carro.” Ele emprestou dinheiro, eu comprei o carro, depois fui pagando [para] ele, devagar.

 

P/1 - Aí você ficou sócio, ________ do Cicotti?

 

R - É. Nós apoiamos o Cicotti, o Cicotti entrou para o sindicato, aí vieram aquelas eleições. A política diante da fábrica teve outra discussão, não era mais aquela [do] fim dos anos 60, que não tinha discussão política ou que chamava algumas pessoas que queriam discutir de terroristas. A gente foi criando outra consciência, o sindicato começou a ter uma atuação melhor, o MDB começou a crescer.

Vieram as eleições de 76 para prefeito, o sindicato apoiou o Grilo, na porta da fábrica levaram o Grilo. Apoiamos o Grilo, derrotamos o Brandão, que já tinha sido prefeito, até com duas gestões.

Pusemos o Grilo na prefeitura de Santo André, ele tomou posse em 77, então foi uma fase de crescimento da esquerda, nesses meados para o fim dos anos 70. Aquilo cresceu tanto que surgiram as greves, porque esse mesmo trabalho que nós tínhamos em Santo André, São Bernardo e Diadema também tinha já com o Lula. Eu não conhecia o trabalho lá porque a comunicação naquele tempo era difícil, a gente tinha comunicação só ali, naquele lugarzinho.

 

P/2 - A sua participação foi aumentando, você foi se envolvendo mais?

 

R - Sem dúvida, foi aumentando, até que em 75… A Pirelli tinha uma data-base diferenciada da categoria, era em junho e da categoria era em abril, então nós tínhamos uma negociação separada da categoria. A Pirelli negociava diretamente com o sindicato, não negociava pela Federação dos Metalúrgicos do Argeu, que era o pelegão da federação aquela época - o Argeu Quintanilha.

Como era uma empresa democrática, o sindicato pedia para escolher um trabalhador para participar da negociação e a Pirelli deixava. Em 75, eu fui eleito cipeiro dentro da fábrica e fui convidado para participar da comissão de negociação naquela época pelo sindicato. Eu fui.

O que a gente fazia? A gente só ficava lá olhando o que os caras conversavam. Não falava nada, tinha até medo de falar. “Se eu falar alguma coisa aqui contra a Pirelli eu vou perder o emprego.” Mas a gente ia lá mais para isso mesmo, para ver a transparência da negociação, [a] dificuldade. Quem negociava era os dirigentes, era o Marcílio, o advogado do sindicato. Participei em 75, em 76 voltei a participar na comissão de negociação, em 77 participou outro companheiro da sessão e [em] 78 nós engrossamos aquela greve que estourou em São Bernardo. Na Pirelli também nós paramos.

 

P/2 - Porque vocês pararam? Qual foi o trabalho que levou vocês a parar?

 

R - Paramos porque já vinha um crescimento político dentro da fábrica. Já vinha uma discussão do arrocho do salário, vinha uma participação política no MDB [na] eleição do Quércia, eleição do prefeito. Em 78, quando a gente ouviu falar que a Scania tinha parado, o sindicato levou aquela notícia para nós: “A Scania parou, vamos parar aqui também.” Imediatamente. Parou uma, então vamos parar.

A gente tinha medo de fazer greve até que ninguém não fizesse. A partir do momento que vimos uma parada, tivemos coragem. Se parou uma, nós podemos parar também e paramos.

A gente conquistou um acordo sindical que teve críticas por parte dos trabalhadores, porque nós fazíamos naquela época assembleia dentro da fábrica.

 

P/2 - Você falava na assembleia? Qual era o seu papel?

 

R - Não, meu papel era só boca a boca, dar informações. Eu não falava na assembleia, mas eu me lembro até hoje que a gente fez assembleia no restaurante. Quem ficou na mesa foi o Cicotti, o Marcílio e eu fiquei do lado da mesa, eu ficava dando as dicas.

Eu não tinha ainda aquela prática, aquela experiência de falar em assembleia. Eu dava as dicas para o Cicotti, para o Marcílio, falava: “Os trabalhadores querem isso, os trabalhadores estão desconfiados disso.” Aquela assembleia dentro da fábrica, os trabalhadores não gostavam porque a gente não podia se expressar. Quem falava era o sindicato e a fábrica, o advogado estava lá junto na assembleia, então a gente tinha medo de chegar lá e expressar alguma coisa.

Eu me lembro que nós ficamos quatro dias só parados e a Pirelli fez uma proposta de... Aí foi um ponto que a gente não gostou que o sindicato fez. Talvez a estratégia do sindicato tenha sido importante porque nunca tinha tido greve e a estratégia do sindicato era sair vitorioso. Eu acho que foi correta, mas eu, como trabalhador naquele tempo, que tinha consciência de um peão dentro da fábrica e queria aumento de salário, nós criticamos a atuação do sindicato porque o sindicato acabou fazendo uma assembleia de aprovação da proposta da empresa às onze horas da noite só para o terceiro turno. Nós tínhamos três turmas: a maioria trabalhava na primeira, depois vinha a segunda e depois a minoria, na terceira. Eles fizeram na terceira turma e aprovaram a proposta.

No outro dia cedo chegamos na fábrica bravos para caramba: “Quanto?” “Mínimo de dez [por cento].” “É pouco.” “Mas ela vai dar mais, é só o mínimo de dez. ”  “Mas esse sindicato devia ter falado com a gente, nós não íamos aceitar essa proposta. Só falou com a terceira turma.” Quando foi dez horas da manhã, a empresa pôs um papel lá: 10,5%. Melhorou mais meio por cento, aí que a peãozada ficou doida: “Não falamos? Mínimo de dez, só deu mais meio enquanto teve fábrica que pegou 15.” Teve fábrica que tinha feito acordo com 15 [por cento], nós ficamos doidos com esse sindicato por causa disso.

Na verdade, hoje eu entendo. O sindicato viu as dificuldades na negociação com a empresa e se não pegasse os dez as coisas iam piorar. Estavam com quatro dias de grave dentro da fábrica, a pressão estava aumentando. A Pirelli é uma empresa que conhece, uma empresa italiana… O sindicato, acho que ficou com medo também da greve ter um fracasso, então acabou aceitando. E outra, a Pirelli tinha vantagens de outras fábricas da categoria com relação à convenção coletiva, ao próprio salário, ao convênio médico, condições de trabalho. Era uma empresa que, comparando com outras, tinha um acordo melhor.

Nós, trabalhadores da empresa, ficamos bravos com o sindicato, nem por isso deixamos de participar.

P/1 - Depois dessa greve, teve uma eleição no sindicato.

 

R - Teve eleição em 75. Eu fui convidado para entrar na diretoria e não quis. Teve 78...

 

P/1 - Ah, você foi convidado em 75? Por que você não quis?

 

R - Porque eu achava que… Tinha um chefe nosso, um italiano - o nome era Antico, eu lembro até hoje -, ele falava para mim: “Não entra nessa de sindicato não porque é complicado. Você vai entrar bem. Sindicato é máfia, você não vai mais ter sossego na vida, vai ser perseguido.” Ele me pôs medo, o próprio chefe meu pôs medo em mim. Ele sabia que estava sendo convidado. Eu já tinha sido cipeiro, comissão de negociação, então eu não fui.

Em 78, me convidaram outra vez; eu estava com aquele mesmo pensamento, não fui. Só fui entrar no sindicato em 81 porque a diretoria foi cassada, não podia mais se candidatar, aí o Cicotti veio falar comigo: “João, agora você tem que ir. Precisa [de] alguém [pra] me substituir e o nome é você. Você é confiável, o pessoal gosta de você.” O pessoal já gostava da minha atuação dentro da fábrica. Eu falei: “Tá bom, Cicotti. Apesar do Antico ter posto medo em mim de entrar no sindicato, eu vou entrar.” Entrei e aí teve uma história longa do sindicato.

 

P/1 - Mas aí teve um _______ da junta governativa, não tem o….?

 

R - É, o sindicato de Santo André, como o de São Bernardo, até hoje... Hoje é dezenove, dezessete de abril...

Bargas, você deve lembrar: [em] dezessete de abril de 80 foi a cassação da diretoria, a intervenção do sindicato, tanto de Santo André, como de São Bernardo. Entrou um interventor e este interventor, através do Ministério do Trabalho, decidiram... Futuramente, mais para frente, depois que acomodou a coisa, voltou tudo a normalizar: os dirigentes cassados saíram da cadeia. Esse interventor, o Ministério do Trabalho, o Murilo Macedo resolveu pôr uma Junta Governativa para fazer eleições. Essa junta era indicada pelas empresas e até por trabalhadores.

Isso aconteceu em São Bernardo. Eu me lembro até hoje que no começo de 81 foram à minha casa Dr. Maurício, que hoje é do PT de São Bernardo, Dr. Telles, o Cicotti e o… Como é que era o nome dele, Bargas? O Cruz, Afonso da Cruz era o nome dele?

 

P/1 - Afonso Monteiro da Cruz.

 

R - Afonso Monteiro, que era um homem que tinha um trânsito bom no sindicato, tinha um trânsito bom na política. Foram todos à minha casa para pegar meu nome como Junta Governativa para o sindicato de Santo André. Eu falei: “Tudo bem. O Cicotti já tinha falado comigo que era minha vez de entrar no sindicato.” Já me puseram na Junta Governativa, só que [houve] a Junta Governativa que o Monteiro indicou, as empresas indicaram outra e houve uma mistura.

O que o Ministério fez? Acho que foi através do sindicalista Marquesin, de Santo André, que era ‘assim’ com o Ministro do Trabalho, dos bancários, foi lá e mesclou a Junta Governativa: pegou alguns indicados pelos trabalhadores - acho que pegou dois - e pegou três indicados pelo Marquesin com as empresas. Um deles era inclusive da Pirelli, era um tal de Morales e eu fiquei de fora. A Pirelli falou: “Esse aí não. Esse aí já foi comissão de negociação, é amigo do Cicotti, é amigo dos cassados. Esse tem a mesma política dos cassados, esse põe fora.” Acabaram pondo esse tal de Morales, que era um pelego sem-vergonha dentro da fábrica.

Você vê que a Pirelli tinha influência no sindicato, muita influência. O Morales convocou as eleições em 81 como aconteceu em São Bernardo, só que em São Bernardo a Junta Governativa foi aquela que realmente o Monteiro indicou, que era Paulo Caboto e mais alguns companheiros - não, Paulo Caboto não estava...

 

P/1 - Era o Afonso e Janjão...

 

R - Era o Afonso, Janjão e mais alguns companheiros lá. Esses fizeram as eleições, bonitinho. Jair Meneghelli, que cabeceou a chapa, ganhou do alemãozinho, tranquilo.

[Em] Santo André, esse Morales fez uma safadeza, rapaz. Ele inchou a lista de associados: era oito mil, ele pôs quatorze mil para contar. Pôs sócio que já tinha morrido, que tinha saído, inchou a lista e fazia as eleições... Em vez de fazer as eleições das oito da manhã até as 22 para pegar todos os turnos - porque nossa categoria, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Aldeir da Serra trabalhava muito em três turnos - ele pôs o horário de eleições das quatorze às 22, só.

 

P/1 - A Junta também fez chapa, não é isso? Teve uma chapa da Junta...

 

R - Tinha uma chapa da Junta, tinha a chapa da diretoria cassada, que era a nossa, era a chapa três. Eu tenho até a cédula da chapa aí. Tinha a chapa dois, que era do Zé Maria. O Zé Maria era da categoria, era da Convergência Socialista, era uma cara mais politizado do que nós, sem dúvida nenhuma. Ele participou do Congresso de Lins. E tinha a chapa do Timóteo, que era a chapa quatro, aquela do partidão.

 

P/1 - Eram quatro chapas?

 

R - Quatro chapas, eleições das duas horas da tarde até [as] dez horas da noite; meu amigo, não dava quórum de jeito nenhum. O quórum era dois terços dos associados. Tinha que votar de quatorze mil dois terços; dava uns oito mil, mais ou menos, que tinham que dar voto. Oito, nove mil sócios.

Não chegava nem a quatro mil. A gente batalhava. O pessoal da primeira turma não votava, você levava para o sindicato, mas levava pouco. Chegamos até a contratar ônibus. A chapa contratou ônibus, punha na porta da fábrica para levar para o sindicato. Fizemos de tudo. Não deu quorum a primeira, queimou voto, não deu quorum a segunda, queimou voto, não deu o quorum a terceira.

O Ministério do Trabalho tirou a Junta, porque aí nós brigamos; saiu tiroteio, saiu briga, gente presa, quebramos o pau mesmo. Acampamos no sindicato. Naquele tempo, o Suplicy era deputado estadual; levamos o Suplicy lá, o Suplicy até comprou pãozinho para nós na hora de sair, em 81. Comprou lanche para gente ficar a noite inteira no sindicato, aí o Murilo Macedo tirou a Junta Governativa e pôs um interventor. Ele nomeou o “Cabeça” Filho, que é de São Carlos. Dizem que está vivo até hoje lá. Esse “Cabeça” chegou lá, pegou o sindicato falido.

 

P/1 - Cabeça era o apelido dele, não?

 

R - Cabeça era o apelido, acho que [era] José Carlos o nome dele. Pegou o sindicato falido, ferrado. Fez o levantamento e falou: “Olha, eu vou embora daqui, eu não aceito ser interventor.” Foi embora, largou o sindicato, aí nós pegamos o sindicato e ficamos tomando conta lá, o sindicato abandonado.

O Ministério pôs outro interventor, aí ele pôs o Guaraci de volta. Esse Guaraci era um funcionário do Ministério Público. O Guaraci foi legal. Chamou os políticos, chamou a diretoria cassada e falou: “Eu vou fazer eleições legais, a lista de associado completa. Como é que vocês querem que faça eleições?”

O Marcílio e o Cicotti deram todas as dicas, fizeram uma eleição democrática. Inscreveram-se duas chapas, a chapa da diretoria e uma chapa com um cara que se chamava Fosco Menalli, que era da Pirelli também, era um pelegão. A Pirelli montou a chapa também outra vez, mas nossa chapa ganhou tranquilo, em votação democrática.

Isso foi em abril de 82. No dia dezessete de abril fizemos a apuração - coincidiu dois anos da intervenção, certinho: dezessete de abril de 80 - dezessete de abril de 82, um sábado. O Marcílio até falou: “João, hoje faz dois anos que nós fomos presos...” Aliás, o Marcílio não foi porque era deputado… “mas a minha diretoria foi presa e interveio no sindicato. Eu falei: “Então vamos festejar duas festas, ganhamos...” Fizemos até uma faixa escrito assim: “[Em] 80 fomos cassados, [em] 82 cassamos o governo.” Retomamos o sindicato, fizemos passeata na rua, enterramos a chapa dois. Aquele tempo foi muito bom.

 

P/1 - O cabeça da chapa de vocês, quem era?

 

R - O Miguel Rupp era o encabeçador. O Rubão era o vice-presidente, o João Isildo [era] secretário geral, o Esmeraldo [era] primeiro secretário, eu era o primeiro tesoureiro, Manuel da Cunha era o segundo tesoureiro. Era essa a executiva, aí tinha os diretores de base: estava o Saulo na diretoria, estava o Marquinho, que hoje ficou no racha… Quem mais?

 

P/1 - O Mané.

 

R - O Mané era o segundo tesoureiro.

Retomamos o sindicato, tomamos posse em maio. O sindicato [estava] falido, mas falido mesmo. O sindicato não tinha dinheiro, a categoria [estava] desorganizada porque muita gente foi demitida. A categoria não acreditava no sindicato porque [depois] daquela greve de 80 voltou todo mundo a trabalhar sem acordo, fizeram acordo depois. Aqueles dias de trabalho, perderam todos, descontados um pouco cada vez. E o sindicato sem diretoria. Eu acho que aconteceu a mesma coisa em São Bernardo e Diadema, só que São Bernardo e Diadema [se] recuperaram antes, em 81.

 

P/2 - Nessa época, vocês tinham uma relação muito grande com o sindicato de São Bernardo e Diadema. Como era?

 

R - Tinha. A nossa diretoria era bem amiga da diretoria do Lula, do Marcílio, Cicotti; pelo menos as lideranças, eles participavam muito com o sindicato de São Bernardo, tinham uma política em conjunto. Aliás, tinha uma política naquela época dos sindicatos que queriam [se] separar da Federação dos Metalúrgicos da CUT - da CUT não, [da] Federação dos Metalúrgicos. Da CUT foi depois, porque tinha o Argeu que negociava pelos sindicatos, era um pelegão e tanto o Lula como o nosso sindicato e outros queriam uma política diferente.

Então tinha o sindicato de Santo André, tinha o João Lins de São Caetano, tinha o Lula em São Bernardo, tinha o sindicato do Arnaldo, dos metalúrgicos de Santos que participava junto, que era do Partidão. Tinha quem mais? Não sei se São José dos Campos, acho que já participava junto.

O sindicato mais forte do estado de São Paulo era o metalúrgico, que queria criar uma política diferente, não aguentava mais aquele tipo de sindicalismo. Foi por isso que os trabalhadores começaram a acreditar e ser o que foi nos anos seguintes: foi a greve de 78, 79, 80… Foi essa liderança, através do Lula, que começou organizar os trabalhadores de um modo diferente e levantou os trabalhadores. Um novo sindicalismo: os trabalhadores acreditavam no sindicato, contra o arrocho salarial, contra a ditadura, mais liberdade dentro da fábrica. Cresceu o nome do sindicato, porque o sindicato era conhecido aquele tempo como de carimbo, como uma entidade ligada ao Ministério do Trabalho.

 

P/1 - Quem era o sindicalista que você tinha como referência, que você se espelhava?

 

R - Sem dúvida nenhuma, era o Lula.

 

P/1 - Em Santo André?

 

R - Mesmo em Santo André era o Lula. Tinha o Cicotti, que era a maior liderança. A gente considerava mais o Cicotti do que o próprio Marcílio, porque o Marcílio pisava na bola, não individualmente, como pisou comigo nessa época. O Marcílio vacilava nas assembleias na porta de fábrica, não era aquele homem que tinha aquela coragem que o Lula tinha. Quem demonstrava coragem aqui era o Cicotti, então o Cicotti acabou sendo a maior liderança de Santo André, mas logicamente a liderança nossa mesmo era o Lula.

Em 79, quando o Lula determinou a zero hora parar, São Bernardo parou. Eu até pensei comigo: “Pô, mas zero hora? Isso é hora de parar? Porque que não marca a hora que vai entrar a primeira turma? Zero hora é terceira turma, é hora que os caras estão trabalhando, vai parar?” Ele marcou a greve zero hora, eu não concordei com aquele horário, mas realmente muitas fábricas pararam nesse horário.

Santo André acabou parando nas entrada dos horário dos turnos, porque tinha aqueles piquetões fodidos, né, Bargas? Você lembra. Em Santo André, por exemplo, as mulheres iam fazer piquete na porta de fábrica. Sem dúvida nenhuma, São Bernardo e Diadema, naquela época, eram mais organizados que Santo André, até porque tinha uma política mais unificada da diretoria do sindicato. Santo André tinha uma política, mas tinha uns diretores que eram muito, vamos dizer assim, devagar. As fábricas mais organizadas de Santo André eram a Pirelli, a Philips; a Cofap, que era a maior fábrica, não tinha organização nenhuma.

 

P/1 - E foi nessa época que você também começou… Você militava na diretoria do sindicato, também no partido, como era?

 

R - Como eu participava já da comissão de negociação, no fim de 78 o Cicotti me convidou para participar de um congresso dos metalúrgicos. Foi pela Federação dos Metalúrgicos. Isso foi quando eu conheci o Lula, porque como Santo André tinha poucos delegados, nós fomos no ônibus que foram os delegados de São Bernardo. Acho que saíram dois ou um ônibus de São Bernardo, nós fomos todos juntos. Em 79 já tinha essa unidade.

Em Santo André acho que foi só meia dúzia de delegados, eu e mais alguns. Eu, o Zé Maria, não me lembro os outros delegados. Acho que os outros delegados inclusive eram de diretoria, em base eu fui um dos únicos. Era difícil catar delegado naquela época. Como sempre era um cara da Pirelli, eu fui como delegado. Eu tenho a pasta daquele congresso até hoje.

Fiquei no mesmo quarto que o Zé Maria e o Cicotti. Foi aí que eu conheci o Zé Maria. Eu achava a política do Zé Maria muito doida; ele, em 79, já era um cara formado politicamente. Eu não tinha formação política nenhuma, eu era aquele peão chucro da fábrica que queria lutar, queria mudar as coisas. Aquele peão que não tinha muita consciência, mas que gostava de participar do sindicato, acreditava no sindicato; o Zé Maria escrevia muito e eu tocava barco dentro da fábrica, eu ia pensar em ficar escrevendo tese?

No quarto, rapaz, enquanto eu e o Cicotti íamos dar umas voltas na cidade nas horas vagas, o Zé Maria ficava lá só escrevendo. “Zé Maria, mas que tanto você escreve?” “Tese, estou escrevendo tese.” “Caramba, hein?” Acho que ele já era de uma tendência naquela época da convergência e foi aí que nós tivemos essa tese da criação do Partido dos Trabalhadores. Eu me lembro até hoje, lógico, é difícil a gente...

 

P/2 - Foi daí desse trabalho?

R - É, eu me lembro até que o Marcílio, por exemplo, não defendia a sigla PT, Partido dos Trabalhadores. Ele defendia a sigla PTB, Partido Trabalhista Brasileiro, porque era uma sigla já conhecida no passado, então ele achava que essa sigla era melhor para os trabalhadores. Mas o mesmo sindicato nosso, no qual ele era presidente, estava com uma tese do Partido dos Trabalhadores.

 

P/2 - Quem lançou? Quem defendeu mais esse nome?

 

R - Olha, eu acredito que o Zé Maria, esse próprio que escrevia essas coisas, o Cicotti, o próprio João Albuquerque, que era da diretoria. Eram algumas pessoas que defendiam mais essa tese, de criar o Partido dos Trabalhadores com a sigla PT.

 

P/2 - E o Lula participava muito?

 

R - Ah sim, o Lula defendia isso também em conjunto com os esses companheiros. O Lula já era uma liderança já em 79 e eu não tive muito oportunidade de conversar com ele naquele momento, mas eu me lembro que nas falações de algumas plenárias a discussão partidária ficava para trás, até porque o congresso era da Federação dos Metalúrgicos. Argeu Quintanilha era um pelegão e eles achavam que discutir política partidária dentro de um congresso era complicado, por isso essa tese de partido ficou por fora.

Eu tenho as resoluções desse congresso; a resolução não fala nada de partido político. Na verdade, quem levou em discussão no congresso foram só Santo André e São Bernardo do Campo; morreu ali, porque a maioria que participava no congresso era do Argeu Quintanilha, era dos pelegos. Quem foi encerrar o congresso naquela oportunidade foi Arnaldo Prieto, que era ministro… O que ele era? Ministro do Trabalho. Depois que entrou o Murilo Macedo.

 

(PAUSA)

 

P/2 - Nós paramos quando ele estava falando do congresso, da criação do Partido dos Trabalhadores.

P/1 - Como é que você entrou no PT? Você ia falar isso.

 

R - Pois é. Na verdade, Bargas, a minha maior trajetória nessa época foi no sindicato, apesar de eu ter participado do congresso de Lins, da criação do Partido dos Trabalhadores, aquela luta dos anos 70, MDB... Eu fui um companheiro que acabou até vindo para a luta porque eu via aquelas injustiças que estava acontecendo já nos anos 70 - aquelas mortes, esquadrão da morte. Eu achava que isso era uma coisa que tinha que acabar, aquilo a gente não admitia naquela época. Como eu entrei para o sindicato, o partido ficou em segundo plano.

Lógico que eu participava das atividades do partido, as primeiras eleições em 80 e... Eu me lembro até hoje que o Cicotti me filiou dentro da fábrica - isso deve ter sido [no] começo de 81, pouco antes da gente começar a concorrer a chapa do sindicato. Ele me filiou, tanto eu como outros companheiros dentro da fábrica, o Cicotti que veio nos filiar: “João, nós precisamos filiar gente para fundar um partido”, que é o PT, tinha sido criado em 80, mas tinha que filiar gente para formalizar em Santo André. Eu me filiei dentro da fábrica, mas, na verdade, o PT... A gente teve pouco acompanhamento, a não ser nos períodos de mais necessidade, que eram os períodos eleitorais.

Minha grande participação no PT foi em 82, na campanha para governador, para prefeito nas cidades, vereadores; aquelas eleições [em] que o Lula foi candidato a governador, Celso Daniel já foi candidato em Santo André, acabou perdendo para o [Newton da Costa] Brandão. O Brandão se reelegeu, mas tivemos votações expressivas e elegemos em Santo André seis vereadores, inclusive um deles companheiro [com] que eu trabalhei e que era funcionário do nosso sindicato já em 82. Nós o admitimos porque as eleições foram no fim de 82 e ele ganhou para vereador; foi o companheiro Granado. Eu votei nele, trabalhei para ele e elegemos seis vereadores, tivemos uma atuação boa na câmara, de oposição naquela época.

No PT, minha grande participação foi essa. Em 82, 83 entrei no Diretório em Santo André; em 86 nós tivemos uma boa campanha, trabalhamos para o Lula, que teve a maior votação como deputado federal. Em Santo André, nós apoiamos o Lula e o Luís Eduardo Greenhalgh; o Miguel gostava muito do Luís Eduardo, mas ele acabou não ganhando e o Lula, que foi o homem mesmo que puxou o voto naquela oportunidade.

Só acabei indo para o partido mesmo quando eu decidi sair do sindicato em 92, quando foi a unificação do sindicato. Eu achava que era o momento de dar espaço para outras pessoas do sindicato. Meus próprios companheiros, que eram mais próximos de mim, falaram: “João, acho que é o momento de você partir para a política partidária.” Então fui candidato a vereador em 92, me elegi e fiz o mandato de 93 até 96.

 

P/1 - Depois desse primeiro mandato no sindicato você também foi candidato na CUT, não foi?

 

R - Ah, sim. Quando fui diretor do sindicato, [na] primeira gestão, em 82-85, eu fui tesoureiro. [Em] 83 a gente fundou a CUT.

Eu lembro ainda daqueles CONCLAT [Conferência Nacional da Classe Trabalhadora] que a gente fazia; teve um CONCLAT que eu não esqueço até hoje, deve ter sido [no] começo de 82, logo que nós ganhamos o sindicato. Esse encontro estadual foi realizado ali naquele salão dos metalúrgicos de São Paulo, onde é a escola hoje, naquele salão lá embaixo. Eu me lembro até hoje da briga que tinha o Luís Gushiken de um lado e aquele deputado do Partidão agora que é médico. Como é que ele [se] chama? Não lembro o nome dele, rapaz, ele é médico e é do PCdoB.

 

P/1 - Ah, Jamil.

 

R - Jamil! Era o Jamil de um lado e o Gushiken do outro. O Gushiken queria fazer o congresso e fundar a CUT em 82. O Jamil, [do] PCdoB, defendia que o congresso tinha que ser no ano seguinte, em 83. Ali houve um racha tão grande que nós, se eu não me engano, perdemos por um voto. Eu não sei se alguém tem na história anotado isso, mas foi trezentos e pouco. Acho que foi 368 a 367, foi incrível; houve a recontagem de voto e perdemos por um voto. Com o boicote do PC do B a gente acabou fundando a CUT só em 83 mesmo, não aconteceu em 82. Mas eu entrei na direção da CUT já em 84.

 

P/1 - Da CUT estadual?

 

R - Da CUT estadual. Entrei na primeira direção, acho que foi em 84. Tenho até uma foto da direção, foi do Sindicato dos Químicos de São Paulo. Entrei na direção, depois tirei junto com o Bargas -  o Bargas era da direção também.

 

P/2 - Nessa época que você entrou na direção da CUT, o que a sua visão do papel como dirigente tinha mudado daquela quando você começou a participação no sindicato? Pelo que você estava lutando já nessa época?

 

R - A fundação da CUT veio da necessidade de uma central que unificasse os sindicatos e que tivesse uma política diferente. Era isso que eu pensava, porque nós tínhamos a Federação dos Metalúrgicos e a Confederação dos Metalúrgicos e era tudo dirigido por pelegos sob as regras do Ministério do Trabalho. A gente queria uma central autônoma, que realmente atendesse os trabalhadores, e um novo sindicalismo.

Por isso, já em 81… Eu me lembro até hoje, não participei, mas meus colegas foram. Eu não quis ir naquela oportunidade porque eu estava trabalhando na Pirelli. Eu me lembro até hoje do CONCLAT que foi realizado em Santos, que foi o primeiro encontro das classes trabalhadoras, onde participaram os dirigente sindicais mais avançados, os combativos, que acreditavam na união do sindicalismo, mas também houve uma mistura, com a turma de pelegada participando também, porque tinha outra política, diferenciada. Foi aí que veio essa discussão do racha em 82, principalmente do pessoal do PC do B, que dirigia alguns sindicatos que tinham uma outra linha de trabalho, mas o grande pensamento da gente, a esperança naquele momento era alguém que realmente unificasse a classe trabalhadora.

Eu entendia naquele momento, como trabalhador que tinha saído da fábrica, que a CUT era importante para unificar os trabalhadores em nível nacional. Era esse o grande objetivo que a gente pensava na fundação da CUT.

P/1 - Esses dois primeiros mandatos que você participou, qual foi o fato que marcou sua vida, que redirecionou sua vida e que você acha que teve um significado?

 

R - Rapaz, a minha vida [se] transformou. Eu saí daquele trabalhador do chão da fábrica, aquela rotina do dia-a-dia, fábrica-casa, casa-fábrica. Minha vida mudou, eu fui para o sindicato. Para o sindicato eu fui como tesoureiro - um sindicato falido, desorganizado, desacreditado, [com] dois anos de intervenção, mas eu tive um novo ânimo na minha vida. Eu senti uma vida nova, me senti renovado. Mas também já estava com o saco cheio da fábrica. Vinte anos dentro da fábrica, trabalhando ali, não saía daquilo; aquela discussão política só dentro da fábrica.

Quando eu fui para o sindicato achei uma coisa diferente, eu falei: “Bom, aqui eu vou lutar. Se lá eu sentia injustiça, aqui eu vou batalhar por isso.” Eu também achava que aqui eu ia resolver todos os problemas, né? “Nós vamos tomar conta das fábricas aqui”, mas é muito diferente.

Quando eu entrei para o sindicato eu entrei com esse ânimo. Trabalhamos muito, organizamos o sindicato. A gente ia em porta de fábrica levar os boletins e aquele monte de boletim no chão, ninguém lia. Eu ficava doido com aquilo. “Não é possível, todo dinheiro jogado fora! Notícias importantes para os trabalhadores e ninguém lê!” A gente começou a fazer um trabalho de cultura com o pessoal, para os peões lerem aqueles boletins, então a gente ia, insistia. Começamos a ver a categoria se organizar e acreditar na gente, a ver o sindicato lotar e surtir efeito, porque começamos a fazer muita greve na categoria: greve por condições de trabalho, por aumento, contra a política econômica do governo, contra aqueles decretos - não sei se você lembra, 2024, 2045. [Em] 83 aquele monte de greve, passeata, aquela greve geral que fizemos.

Eu não esqueço a data até hoje, dia 21 de julho de 83. Tivemos aquela greve [nos] dias sete e oito de julho, quando vocês sofreram intervenção e nós não. Vocês estavam no Congresso em Piracicaba; houve a intervenção nos petroleiros de Campinas e da Bahia e aí vocês pararam, em solidariedade contra essa intervenção do Governo Federal. Nós também paramos, só que decidimos parar só sete e oito, dois dias; vocês pararam por tempo indeterminado. O Ministério foi lá e ‘pimba’. A nossa estratégia foi meia pelega, mas foi bom. (risos)

É interessante, né, Bargas? Sabe por quê? Porque em 83, quando fundamos a CUT, São Bernardo estava sob intervenção e Santo André garantiu uma grande parte daquela estrutura da fundação da CUT, Santo André e os bancários de São Paulo. Vocês na política, porque tinha política, tinha Meneghelli, tinha Lula e nós na estrutura - as pastas, o dinheiro para realizar o congresso, Santo André e Bancários.

Eu era tesoureiro; eu lembro até hoje, nós investimos porque vocês estavam sob intervenção. Teve companheiro em São Bernardo naquela oportunidade que chegou até a chamar a gente [de] pelego, porque o sindicato não sofreu intervenção, mas foi uma estratégia nossa de parar dois dias e voltar ao trabalho. Foi aí que o Ministério falou: “Esse parou só dois [dias], não vamos intervir. Esse parou por tempo indeterminado, vamos intervir.” Não sei se foi a gente que prejudicou vocês, mas acabou sendo isso.

 

P/1 - Depois desse mandato, você esteve na CUT estadual?

 

R - É, depois eu entrei na CUT estadual, fiquei em 84, 85. Voltei a ficar na CUT estadual, aí me parece que eu fui para a executiva junto com você. Em 86, eu fui presidente da CUT regional do ABC, que agora é uma sub-sede, não tem mais CUT regional. Acho que foi o caminho correto. Fui presidente da CUT regional e em 88 eu fui eleito presidente do sindicato, [no período de] 85-88 [como] secretário geral. Não quis mais ser tesoureiro, achava muito burocrático, muita preocupação com as finanças do sindicato; embora, como tesoureiro, meu papel tenha sido fundamental  para recuperar a situação financeira do sindicato. [Fui] mão-de-vaca, mão dura mesmo, ali, administrando, mas eu queria fazer mais política, eu queria sair mais para porta de fábrica.

 

P/1 - Nesse período, você chegou a viajar para o exterior ou não?

 

R - É, em 87 eu fui para Bulgária. Fiz poucas viagens para o exterior, mas eu fui para o Paraguai em 86. Fui fazer um debate com o Luís Antônio Medeiros no Paraguai. Eles convidaram, o sindicato dos Bancários convidou a mim, o Medeiros e aquele do [Sindicato dos] Eletricitários, Magri. Nós três fomos para o Paraguai para conseguir...

O Paraguai, naquele tempo, também vivia numa ditadura, mas conseguiram juntar umas cinquenta pessoas e conseguimos fazer um debate.

Depois, em 87, fui conhecer a Bulgária, um país socialista, [ver] como é que funcionava. Eu estranhei muito a Bulgária porque eu vi que era um país muito atrasado. Visitei as fábricas lá, eu vi que era um país...

 

P/1 - Para você foi uma decepção? Como é que foi?

 

R - Foi uma decepção. O jeito do país, comparando com o Brasil… Por aqui é aquela liberdade que você sai às ruas, pelo menos aqui é um país que estava mais avançado na tecnologia daquela época do que a Bulgária. Muitos bares, restaurantes, porque no Brasil tem isso; cheguei na Bulgária e estranhei. [Em] Sófia, a maior cidade, você não via bar, restaurante, não via quase ninguém na rua. Fui participar de um congresso deles: aquele congresso totalmente burocrático, só um cara falava e aquele monte [de] trabalhador só ouvindo falar, com uma pasta na mão. Achei muito esquisito aquilo lá, não gostei, não. Falei: “Se isso aqui é um país socialista, não é o socialismo que eu quero, não.”

 

P/2 - Mas você se considerava nesse momento socialista, você tinha uma visão socialista?

 

R - Eu não conhecia bem o que era socialismo. Eu sabia o que era uma sociedade justa, então eu lutava por qualidade de vida para todos. O que eu tinha em mente era acabar com a pobreza do país, todos terem uma casa para morar; era ter um emprego, ter condições de estudar, condições de criar sua família - aquela utopia que a gente tem e luta até hoje. Mas [sobre] o regime socialista, o modo que eles atuavam, eu tinha informações, não conhecia bem. Fui conhecer um pouco na Bulgária como era.

Na verdade, a gente percebeu que o socialismo na Bulgária ou na Rússia era uma luta contra o capital, mas que ainda não tinha transformação socialista, de forma nenhuma. Tinha ditadura de quem governava e uma política contra a exploração do capitalismo. O investimento deles era um grande investimento para se resguardar do grande capital, se resguardar da potência que tem os Estados Unidos, isso realmente a história acabou comprovando.

 

P/1 - Diz uma coisa: você estava na fábrica, você é um peão de fábrica. Você vai para o sindicato, começa um contato com outro tipo de pessoas, começa a andar de avião… Tem coisa que ficava muito distante do peão que trabalha na fábrica. Quais são as gafes que você cometeu, você se lembra de alguma?

 

R - Na verdade, eu não cometi muita gafe, porque eu não fazia as coisas primeiro, eu olhava como os outros faziam.

 

P/1 - E quais são as gafes que você viu?

 

R - No avião, por exemplo. Na primeira vez que eu andei de avião eu olhava o que os outros faziam, eu ia fazendo também. Quando vinha a alimentação, eu olhava como os outros faziam [e] eu fazia.

Mas eu me lembro muito bem que quando estive na Bulgária nós tínhamos um tradutor, uma pessoa que falava em português para nós. Eu notei que ele conhecia a língua portuguesa realmente como se deve conhecer, ele não conhecia as gírias e muita coisa que eu falava ele não sabia o que era, não conseguia expressar na língua portuguesa o que era para mim. A gente tem um linguajar aqui no Brasil muito popular e ele tinha aprendido, estudado realmente o que é a língua portuguesa. Por exemplo, falava de inflação, ele não sabia o que era inflação. Perguntava para ele qual era a inflação na Bulgária; precisei explicar o que era economia para ele me explicar o que que era questão inflacionária, embora lá não tivesse inflação naquela época. Acho que isso era um dos pontos positivos, o Brasil tinha uma inflação muito grande no ano de 87. Era aquela época de plano atrás do outro para quebrar a inflação que era muito grande no Brasil. Mas gafe, assim, Bargas...

 

P/1 - Você é que contou aquela do Miguel Rupp?

R - É, o Miguel Rupp teve gafe. Estava acho que na Alemanha, perguntaram como era o nome dele, ele falou: “Michael Rap.” (risos) Ele foi dar uma de metido de falar inglês: “Michael Rap.” Devia falar o português, né? Eu dou risada.

Quando ele chegou de uma viagem falou que tinha tirado um monte de fotografia, emocionado com a viagem que estava fazendo. Aquela tampinha da frente da máquina fotográfica ele esqueceu de tirar, então queimou todas as fotos, não aproveitou nenhuma.

Mas eu, felizmente, não cometi grandes gafes, não, Bargas.

 

P/1 - Não tem coragem de contar...

 

R - Não, não aconteceu comigo mesmo.

 

P/2 - E na sua vida familiar? Esse envolvimento com o sindicato, sábado, domingo, à noite, o que mudou?

 

R - Ah, houve uma mudança muito grande. Minha mulher estranhou porque eu era muito ligado à família, aquele cotidiano do trabalhador da fábrica; fim de semana almoçar na sogra, visitar um irmão, parente, isso acabou.

[Quando] entrei no sindicato foi uma vida de louco. Por exemplo, quando eu estava na fábrica eu levantava às cinco horas da manhã para ir trabalhar. [Na] primeira turma, às duas horas estava livre, ou na segunda turma de manhã estava livre em casa. A partir do momento que eu entrei no sindicato eu levantava às quatro horas da manhã para ir fazer porta de fábrica, para ir preparar carro de som etc. Aí minha mulher falava: “Escuta, você entrou no sindicato para melhorar de vida ou para piorar?” Eu falei: “Olha, mulher, eu entrei no sindicato para a política.” A mulher não entendia isso, achava que eu ia para o sindicato e ia melhorar de vida, ia ganhar mais, trabalhar menos. Na verdade, eu entrei no sindicato para trabalhar muito mais do que na fábrica, não talvez fisicamente, como você prepara e toca uma máquina, mas eu tinha mais horas de trabalho. Eu levantava às quatro e pouco da manhã, ia até as dez horas da noite.

Nós passamos um período… Acho que talvez isso ajudou a organizar - reorganizar a categoria, naquele momento que nós trabalhamos muito, mas muito mesmo. Era de madrugada até à noite. Acho que o peão ficava com o saco até cheio de tanto ver a nossa cara, acho que ele vinha ao sindicato ou assumia a luta de ver como a gente trabalhava, como a gente procurava conscientizar o trabalhador da necessidade de lutar.

Nós tivemos grandes conquistas, grandes conquistas mesmo. Transporte, quase nenhuma fábrica de Santo André tinha. Essa foi uma questão que nunca tiraram, não é que nem salário. Hoje, muitos trabalhadores talvez não saibam o transporte que usam, o comunitário que eles têm. Eu, por exemplo, na Pirelli ia trabalhar de bicicleta; ia de carro depois, quando comprei o carro. Quando eu fui dirigente do sindicato nós conquistamos o transporte na Pirelli, que dura até hoje. Hoje passa um ônibus da Pirelli a trinta metros da minha casa, no tempo que eu trabalhava na Pirelli não tinha isso.

Acho que o transporte foi uma grande conquista, eu acho que o avanço da consciência do trabalhador foi uma grande conquista, embora isso seja preocupante porque existe muito revezamento de trabalhador na fábrica. Isso tem que ser sempre renovado, é uma coisa que você não pode largar. Os aumentos salariais foram conquista, mas hoje, na verdade, existe o arrocho ainda. Em uma economia de um país de terceiro mundo, que nem o nosso, com o real, sempre existe o salário arrochado, o trabalhador lutando por salário. Mas [com] as nossas lutas, naquela oportunidade, quebramos muitos decretos do governo.

Acho que outra conquista importante foram as direções de base, comissão de fábrica. Hoje tem os conselhos que os metalúrgicos do ABC já estão pondo.

Eu acho que nos anos 60, nos anos 70 e até no começo dos anos 80 as condições de trabalho dentro da fábrica eram muito piores do que hoje. Hoje você tem mais responsabilidade do seu patrão na questão da sua audição. Muita gente ficou surda, perdeu a audição naquele período e o empresário não dava importância para isso, não dava aparelho. Hoje tem-se mais cuidado com isso, em virtude do sindicato atacar e também, além do sindicato, as mobilizações das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes, que são as CIPAs.

 

P/1 - Quantos mandatos você teve? Você teve o primeiro, já foi ser tesoureiro?

 

R - Tive o primeiro: tesoureiro, segundo: secretário geral, presidente e fui reeleito presidente, então foram quatro mandatos - com um mandato menor, que foi o último, quando eu me afastei para ser candidato a vereador.

 

P/1 - O mais marcante foi a presidência?

 

R - Todos mandato foi marcante, porque eu sempre fui um dirigente bastante atuante. Mesmo como tesoureiro foi marcante, porque foi o primeiro mandato. O sindicato falido, foi quando nós organizamos a categoria. O segundo foi marcante porque já foi uma organização mais ampliada: a fundação da CUT, a participação na CUT estadual, a CUT regional. Como presidente acho que para mim foi um prêmio, foi gratificante naquela oportunidade, quando os próprios companheiros da diretoria acharam que eu devia ser o presidente do sindicato.

O Miguel Rupp era um camarada politicamente muito capacitado, mas não tinha aquele jeitão de presidente democrático, mais atencioso, mais sério, que dirigia o sindicato. Miguel Rupp era mais doidão, ele era meio ditador, o pessoal achava. Já em 85, no segundo mandato que Miguel Rupp foi [presidente], alguns companheiros, como Martin Saulo, queriam que eu fosse o candidato e apoiavam minha candidatura a presidente do sindicato. Eu não quis, falei: “Não, eu acho que o Miguel Rupp merece continuar mais um mandato. Ele foi presidente [por] um mandato, então eu [como] secretário geral está muito bom.” Mas em 88 acabei assumindo.

Eu, na política, fui assim. Eu não sei, não me acho com tanta qualidade assim, mas na política eu fui assim, o pessoal foi me empurrando. Eu nunca: “Eu quero ser isso, eu vou brigar para ser isso.” Tem político que é assim.

 

P/1 - Houve um atrito entre você e o Miguel Rupp quando você saiu, não?

 

R - Houve um atrito, porque quando eu assumi, o próprio Miguel me apoiou para ser presidente. O Miguel achou que ia me pôr de presidente e mandar no sindicato...

 

P/1 - Ele passou para que cargo?

 

R - Ele passou para diretor de base, mas afastado da fábrica, porque ele tinha intenção de ser candidato a vereador, como foi. Mas ele pensou que ia mandar em mim. Eu assumi a presidência e assumi de verdade, com o apoio da diretoria; ele queria mandar no sindicato, nós não deixamos e aí começou o atrito.

Ele foi eleito vereador, foi o mais votado, nós o apoiamos. Em 90, ele queria ser candidato a deputado estadual. O partido em Santo André não queria e nós acatamos a resolução do partido da cidade. Achamos que ele não devia ser, porque o partido não queria, queria outro, aí [se] criou uma briga séria com ele, uma divergência muito grande. Ele montou uma chapa contra mim em 91.

São coisas gozadas da história. Retomamos o sindicato juntos. Em 88, o secretário geral João Isildo montou uma chapa contra nós, perdeu. Em 91, Miguel Rupp, que foi um grande nome na presidência de 82-88, montou uma chapa contra mim em 91 e perdeu feio, porque a maioria da diretoria estava comigo. E aí na unificação do sindicato eu achei que devia...

 

P/1 - Depois ele também se candidatou a vereador?

 

R; É. Aí Miguel Rupp foi expulso do PT por algumas acusações que aconteceram contra ele dentro da câmara, acusações de voto comprado. Ele foi expulso do PT, se candidatou à reeleição em 92 e pegou só quinhentos votos, sendo que quando ele foi eleito pegou mais de quatro mil votos, então se apagou da política. Em 96, ele nem se candidatou.

Mas são passagens interessantes, né? Eu me afastei do sindicato porque achei que estava na hora de me afastar, vim para o partido e foi justamente na unificação do sindicato que tanto batalhamos. Nós aprovamos em congresso, já em 87, a unificação...

 

P/1 - Essa bandeira da unificação era uma bandeira de Santo André, não é?

 

R - Era uma bandeira de Santo André, foi ideia do Miguel Rupp, que nós apoiamos. Tiveram essa resolução do congresso em Cajamar em 87 dos metalúrgicos de Santo André, renovamos isso no congresso da Praia Grande em 90, reafirmamos isso com os metalúrgicos de São Bernardo do Campo, acho que em 91.

Unificamos o sindicato a partir de muita discussão em 92, aprovamos na categoria. Eu achava que o sindicato tinha que unificar porque a categoria nossa estava caindo e a unidade da região do ABC seria muito mais importante para fortalecimento do sindicato, até para a vivência de estrutura financeira etc. Em 92 a gente trabalhou para essa unificação, [em] 93 unificou, aí eu saí do sindicato, me afastei. Participei do sindicato, mas os momentos mais importantes só, era vereador e aí passei a ser ser tesoureiro do partido, [do] PT de Santo André. Em 95, passei a ser presidente do partido; [em] Santo André acho que é o único caso, eu já sou presidente do PT pela terceira vez.

 

P/1 - Unanimidade?

 

R - Unanimidade não, sempre teve disputa. Em 95 fui eleito presidente com 70%, o mesmo em 97 e agora em 99 outra vez, com 70%, logicamente com o apoio da maior militância, da articulação, do Celso Daniel. Mas é isso, eu estou no PT até hoje, sou vice-prefeito agora. Mas o Miguel Rupp se acabou na política por isso, ele era ditador, era um camarada que não sabia unificar a diretoria.

 

P/1 - E a sua indicação para prefeito, como é que foi? Para vice-prefeito.

 

R - Para vice-prefeito.

Em 92, nós tivemos uma disputa muito grande no PT de Santo André. Naquela oportunidade houve até um racha com o Cicotti, porque o Cicotti queria ser candidato a prefeito. Nós do sindicato, como o Celso, que era o prefeito naquela oportunidade, achávamos que o Cicotti não era o perfil para vencer as eleições em Santo André; o Celso apoiava outro nome, que era o Granado, o secretário do planejamento que tinha sido vereador já em 82-88. Nós, junto com o Celso, apoiamos o Granado.

A gente não sabia que ia dar a confusão, a briga que deu. O PT perdeu as eleições, perdeu a prefeitura; o Celso saiu, o Granado não ganhou a convenção. Ficou o Cicotti candidato, pegou até uma votação expressiva - levou mais de cem mil votos naquela oportunidade. Parece que isso significou 35%, quase 40. Mas eu fui eleito vereador, a gente fez oposição e voltou em 96.

A minha candidatura a vice foi um apoio do movimento sindical. Algum sindicalista achou que - isso existe em diversas cidades -, o movimento sindical, onde puder, candidata o prefeito, onde não puder pelo menos ter candidatura [candidata] o vice. O pessoal me apoiou, o movimento sindical, já [como] metalúrgicos do ABC, apoiou a minha candidatura e acabei - não teve nem disputa, foi consenso - candidato a vice-prefeito em 96. O Celso Daniel ganhou as eleições e agora o partido aprovou novamente a nossa candidatura para eleição.

 

P/1 - Qual a diferença de ser vice-prefeito e ser sindicalista?

 

R - Ah, tem muita diferença, da água para o vinho. [De ser] sindicalista eu tenho saudades, é um outro perfil o sindicato. Você administra o sindicato, atua para uma categoria, para beneficiar uma categoria contra a exploração, defender o salário. Melhor trabalho, qualidade de emprego.

[Como] vice-prefeito você está numa máquina, você está dirigindo, administrando uma cidade, então a gente foi obrigado a fazer coisas que no sindicato eu era contra. Tivemos que reduzir o salário do funcionalismo público para não deixar faltar pagamento. Você imagina deixar fazer isso no sindicato!

No sindicato nós tivemos a fase do Collor [em] que as empresas, naquela política do Collor de abertura do mercado… Nós tivemos muito fracasso das empresas e elas quiseram reduzir o salário. Não concordamos, fomos à luta, fizemos greve, fizemos o diabo para que as empresas não reduzissem o salário. Como administrador público eu tive a compreensão de que a gente tinha que fazer alguma coisa para sobreviver a prefeitura e os empresários. Naquela oportunidade, a gente pedia para abrir o livro; ninguém abria. Eles queriam reduzir, mas não queriam mostrar as contas para nós. Os donos das fábricas tinham suas regalias, que não queriam misturar com as empresas e que tinham conquistado com as empresas, então lógico que é coisa diferente. Mas você administrar uma cidade é um trabalho muito diferenciado.

Eu tive uma experiência de vereador que eu não gostei, porque saí do executivo como dirigente sindical de uma categoria e fui ser vereador legislativo, onde você vai fiscalizar o executivo, vai produzir leis para o município. Eu saí de uma atividade muito agitada, de muita luta e fui para vereador, num negócio muito burocrático, muito centralizado, muita máfia, sabe? Eu não gostei. Fiz um mandato de vereador, francamente não gostei e foi por isso que quando o movimento sindical me convidou para ser apoio, ser candidato a vice, eu fiquei muito contente. Fui logo, eu falei: “Vamos, eu quero sair daqui. Não quero mais ser candidato a vereador, pelo amor de Deus. Vamos para o executivo, vamos ver lá.” Achei muito melhor administrar a prefeitura como vice-prefeito. Achei muito mais importante, me senti mais útil para a cidade do que como vereador.

 

P/1 - E sua família?

 

R - A família achou [que], na oportunidade, ser vereador era um status, um crescimento político, assim como vice-prefeito. Eu sempre tive bom entendimento com a minha família, não deixei de ser aquele trabalhador humilde que eu era. Moro no mesmo lugar, na mesma casa, convivo muito bem com a mesma família, então não houve grandes mudanças.

Melhorei um pouco a minha qualidade de trabalho, hoje eu trabalho bastante, mas não [se] compara com o tempo do sindicato, que era das quatro horas da manhã às dez da noite. Hoje eu já fui para a prefeitura, às sete, oito horas da manhã. Atividades da noite tem muito, mas não é sempre, trabalha também, mas é um trabalho mais agendado; não é aquela loucura, agora [é] por agenda. Todos os trabalhos que você tem na prefeitura - reuniões, saída, solenidade -  são todos agendado, [tudo] mais organizado, mais controlado.

O sindicato era uma loucura, pelo menos naquele tempo; hoje também, o sindicato trabalha com mais agenda. Naquele tempo era muita greve, muita luta, muita negociação.

 

P/2 - Hoje então, que você é vice-prefeito e que já estamos aí no ano 2000, o que você considera então como os principais desafios, como você vê o seu papel agora?

 

R - O meu papel? Eu lutarei muito para crescer o partido na minha cidade, porque acho que o PT teve um bom crescimento na cidade de Santo André. Eu fiquei contente com o Frateschi, foi sábado lá em Santo André, e no discurso ele falou que o PT de Santo André é o partido mais forte e mais organizado do estado de São Paulo. Não sei se é mesmo, mas eu fiquei contente dele dizer isso. Não é dizer que o PT é o maior de Santo André, é como o partido é, porque na pesquisa que nós realizamos lá o PT tem preferência de 30, 35% da população. O partido que vem a seguir como preferência partidária tem 4%, é uma distância muito grande em matérias percentuais.

Eu tenho uma visão que eu carrego ainda, apesar de todos esses anos de luta e de experiência. A gente vê um grande avanço político, mas não vê um avanço na sociedade. Estamos hoje num Brasil difícil, num Brasil que tem muito excluído, muito sofrimento.

Eu, ontem mesmo, tive uma reunião com a comunidade e me senti muito chateado, me senti com os braços amarrados e como um político do poder público eu me senti sem ação. Foi uma comunidade de umas vinte pessoas ontem reivindicar melhoria, é uma comunidade que ocupou uma área em Santo André, uma comunidade muito pobre. Montaram barracos, são 315 famílias; tem outras em Santo André dessa maneira, mas ali são 315 famílias que moram em barraco, luz, tudo com gambiarra, água só tem com gambiarra, esgoto a céu aberto. Os caras querem qualidade de vida, querem melhorar, querem asfaltar, fazer casa de alvenaria, querem o terreno. Eles vieram reivindicar na prefeitura e a gente não tem como melhorar a vida daquelas 315 pessoas. Nós estamos pedindo um financiamento para o Governo Federal para investir naquela área, estamos dependendo disso.

Igual a essa área tem muitas em Santo André, tem muitas em São Bernardo, então a gente está batalhando, estar nessa política é pensar que um dia isso vai melhorar. A gente está com essa utopia ainda, eu ainda não desanimei e a gente governa uma cidade como Santo André com dificuldade, mas a gente quer ver aquilo crescer, quer ver o Partido crescer, quer mostrar que a gente é bom de governo e eleger o Presidente da República, porque só dessa maneira a gente pode começar a mudar. Com muitos anos ainda - talvez quinhentos anos, porque essa que está levou quinhentos anos. Talvez a sociedade que nós vamos querer vai levar quinhentos anos, não sei, mas não podemos desistir, temos que batalhar, então é nessa perspectiva que eu atuo ainda na política.  

 

P/1 - João, imagina o seguinte: você veio do interior, deixou pessoas que você conhece lá. Você tem uma família grande. Como é que essas pessoas que viveram a sua vida de uma pessoa comum, seja no campo, seja na fábrica vê que o amigo, o colega, o irmão chegou a ser vice-prefeito de Santo André? Como é que você acha que eles te veem ?

 

R - Foi interessante, quando eu fui candidato a vice-prefeito em 96, algumas pessoas de Itapuí que moram em Santo André - tem diversas, hein? Eu não sabia que tinha - me acharam. Não acreditavam, viram aquele nome: “Não, esse cara eu conheço. Será que é ele?” Encontraram comigo, foram até à prefeitura depois que eu fui eleito e nos encontramos. Acho que foram quatro, cinco pessoas, foi interessante: “Pô, João, você é vice-prefeito de Santo André? Você é aquele pescador, arrancador de cascudo lá em Itapuí?” Eu falei: “Pois é, rapaz, o tempo passou rápido. Eu vim para cá, fui peão de fábrica, presidente do sindicato, vereador, hoje sou vice-prefeito. As coisas deram certo para mim.”

É com muita alegria que meus companheiros se encontram comigo e falam isso. Eu vou passear de vez em quando em Itapuí, em Boraceia e sou bem recebido; o pessoal lá sabe que eu sou daquela terra, que eu fui nascido e criado lá e que hoje eu sou vice-prefeito de Santo André. Eu não trouxe, mas eu tenho até um jornalzinho de Itapuí, o nome dele [é] “Bica de pedra” porque ‘ita’ quer dizer pedra. Itapuí é um nome secundário, o primeiro nome daquela cidade foi “Bica de pedra”. Tem um jornalzinho lá que [se] chama “Bica de pedra” e fez uma reportagem comigo, falando que eu era de lá, que sou vice-prefeito de Santo André, puseram minha foto. Pegou quase uma página inteira de reportagem. A gente fica contente...

 

P/1 - A banda de música vai esperar você na estação?

R - Não, não chega a isso, mas [quando] eu chego lá todo mundo vem conversar comigo nos bares. A cidade é muito pequena. No jardim onde o pessoal me encontra: “Como é que é, como é que está Santo André?” Cheguei a encontrar até gente que morou em Santo André e agora está em Itapuí, que me conheceu aqui, e outros que eu conheci lá e estão [lá] até hoje, eram jovens como eu na minha época e não saíram de lá. Inclusive alguns que estudaram comigo e hoje foram prefeitos lá: “É João, você é vice em Santo André, mas eu fui prefeito aqui em Itapuí.” Interessante a história da gente, muda em pouco tempo.

 

P/2 - João, deixa eu lhe perguntar. Analisando o passado, se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, teria alguma coisa que você mudaria?

 

R - Não, eu não mudaria nada, apesar de eu ter nascido num berço pobre. Mas eu só tenho a agradecer, porque a vida foi, pelo menos até agora…

Eu não posso reclamar da minha vida, não. Eu tenho uma família que gosta muito de mim, meus filhos, minha mulher. A minha trajetória, a trajetória que eu tive como trabalhador, como dirigente sindical, hoje vice-prefeito, eu não mudaria, não.

Eu vivo com a mesma mulher há 34 anos, conheço ela há 36, guardo os versos que ela me deu quando era solteira até hoje, eu tenho os versos dela, ela tem os meus versos. Eu acho que é um amor brilhante até hoje. Vivo bem com ela, me dou bem, passeamos juntos. Tenho quatro netos, três netas e um neto, três filhos meus e um adotivo, [são] quatro, então eu não mudaria.

Não tenho do que reclamar da vida, continuo. Acho que hoje eu não sou rico, continuo pobre, tenho uma vida de classe média, vamos dizer assim. A turma me preza muito, as vezes até alguns da minha família falam que eu sou bobo porque acham que eu devia ter aproveitado melhor esse período de político. Muitos falam que sou honesto demais, alguns falam: “Você é muito honesto para o meu gosto.” Mas é meu jeito de ser, eu sempre me prevaleci pela honestidade, então acho que isso é um ponto alto que eu tenho. Eu não mudaria, acho que estou satisfeito com a minha vida.

 

P/2 - Em termos de futuro, qual é o seu maior sonho?

R - Olha, eu não tenho grandes ambições. Eu penso em ter uma velhice com tranquilidade, é isso que eu penso. Penso em parar, eu não penso em ficar na política até morrer. Não penso isso, apesar de eu gostar. Eu não sei se vou sentir falta se eu sair. Eu gosto, sou candidato a vice-prefeito novamente. Se ganharmos vai até 2004, mas sempre penso em ter uma tranquilidade, ter uma chácara no interior, voltar ao interior, viver nessa chácara com a esposa.

Eu penso nessa tranquilidade, não sei se é o certo. Muita gente acha que não pode parar, eu também não quero parar, mas eu queria ter uma tranquilidade de interior -  talvez porque eu fui criado no interior. Embora eu adore Santo André, goste… Sou vice-prefeito de lá, foi lá que eu construí minha vida, minha família, tudo que eu tenho foi construído em Santo André, mas eu gostaria de ter uma chácara, ter um sitiozinho. Não comprei ainda, mas quem sabe mais para frente eu possa ter isso.

Eu não penso em ficar na política até morrer, não porque eu não gosto, porque para ser sincero eu já estou um pouco cansado. Mas vamos ver o futuro, nem sempre que a gente pensa no futuro... Eu nunca pensei em ter um futuro do jeito que eu tenho e está aí. Vamos ver mais para frente, quem sabe, talvez não aconteça nada e eu continue na política até morrer, né, Bargas?

O Bargas já pensou muitas vezes em largar e sair e está aí até hoje; ele, como eu, como outros. Isso eu já ouvi até do Lula, tinha hora que o Lula falava: “Estou cansado. Vou largar tudo isso, vou cuidar da minha vida.” São momentos que a gente passa.

Ontem mesmo eu tive um pouco de depressão [por] fazer a reunião com esse povo, mas isso é normal para quem está sob uma responsabilidade pública. Essa depressão eu tive quando eu estava no sindicato. Teve greves fracassadas, então: “O que eu estou fazendo aqui? A greve fracassou.”

Ao mesmo tempo, a gente tem momentos de alegria, quando numa plenária de orçamento participativo você escuta uma cidadã [que] vem lá elogiar o governo; falar que a reivindicação dela, [que] fazia dez anos que estava reivindicando e não faziam, agora aprovamos o orçamento e foi feita. É uma satisfação.

Então é isso, teve momentos bons e momentos ruins, mas isso faz parte de quem atua na política, principalmente [pra] quem administra uma área pública hoje aqui do Brasil - ainda mais [em] cidades complicadas como essas aqui da grande São Paulo, onde a exclusão é muito grande. [Para] nós, que somos do Partido dos Trabalhadores, que temos essa política de melhorar a qualidade de vida, é difícil e gente no sindicato sempre teve essa intenção, [de] melhorar a qualidade de vida. A gente ainda chega na prefeitura, não dá para investir só na pobreza, você tem que investir em toda a cidade. Tem que investir na área da indústria, na área do comércio, você tem que revitalizar centro da cidade, tem que investir na educação, na saúde.

Ontem mesmo uma das mulher que veio reclamou, falou: “Puxa, vocês gastam dinheiro para cobrir a [Rua] Coronel Oliveira Lima e não resolvem o nosso problema.” Então é difícil você fazer uma pessoa pobre entender que você tem que investir em toda a cidade e que [ao] investir numa cobertura da Coronel Oliveira Lima você está procurando desenvolver a cidade para ter um futuro melhor para todos. É difícil, você não consegue nem dar a resposta porque a pessoa não vai entender nunca.

 

P/2 - Para terminar o depoimento, eu queria perguntar o que você achou de contar essa história e para que você acha que pode servir o seu depoimento para a história do sindicato, para as futuras gerações?

 

R - Eu gostei. Eu sempre fui um camarada que gostaria de contar minha vida e até isso na minha vida apareceu, por isso que eu falei aqui que não tenho do que reclamar na minha… Eu já pensei, desde o tempo que eu estava no sindicato: “Puxa vida, a gente precisava escrever a história.” Mas ao mesmo tempo eu pensava um pouco: “Mas isso também é muito orgulho próprio.” A pessoa escrever a sua própria história ou dar seu depoimento, da prática que ele teve, do conhecimento que ele adquiriu, fora a trajetória da minha vida, que é uma coisa muito pessoal… Eu gostei aqui das perguntas e de contar para vocês.

Eu acho que a participação na política foi uma escola muito grande para mim; foi uma faculdade, sem dúvida nenhuma. Aprendi muito no sindicato, aprendi muito nas lutas sindicais. Aprendi muito dentro do PT. Se eu não tive oportunidade quando era mais jovem de estudar - e até com mais idade, a gente está vendo dirigente sindical estudar, o Vicentinho está se formando… Incentivo eu até tive, mas nunca tive essa opinião de chegar lá, entrar na escola novamente e estudar. Mas tive essa faculdade, que foi essa prática, essa trajetória minha.

Esse depoimento, para muitas pessoas eu acho que tem validade, porque é resgatar não só a minha vida, mas resgatar uma história que eu ajudei, como muitos outros, a construir. Eu sou mais um dentro desse monte de gente como o Bargas, [que] ajudou a construir essa história do novo sindicalismo, da CUT, do Partido dos Trabalhadores. Eu espero ter uma cópia desse depoimento, que com certeza vai ser bom até para minha família.

 

P/1 - Você não pode falar só do seu apelido.

 

R - Essa parte é bom vocês cortarem, viu? (risos) Embora minha mulher saiba, viu, Bargas? Ela sabe do meu apelido, ela já acostumou também. (risos)



 

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