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História

Do estágio à direção

História de: Francisco da Costa e Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

O Leblon, as idas à praia e as travessuras com os amigos marcaram a infância e a juventude de Francisco. A responsabilidade aumentou por conta das dificuldades financeiras da família, então o vestibular e a universidade tornaram-se a saída. Cursando Direito em plena época de Ditadura Militar, teve forte engajamento político e participou da Passeata dos Cem Mil. Francisco conta como o BNDES norteou sua vida e carreira, e como foram imprescindíveis os aprendizados dentro do banco.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Francisco. Gostaria de começar pedindo que você dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Francisco Augusto da Costa e Silva, nasci no Rio de Janeiro. A data é seis de setembro de 1948.

 

P/1 - Qual é o nome dos seus pais e atividade?

 

R - Meu pai é Augusto Lima da Costa e Silva, advogado; e minha mãe Ilka Machado da Costa e Silva, aposentada, trabalhou em serviço público, foi funcionária pública.

 

P/1 - Eu queria que você me contasse um pouco como era sua família. Eles eram daqui ou vieram morar no Rio?

 

R - Meu pai veio para o Rio pequeno, a família dele tem origem em Belém do Pará. Meu avô fez concurso para juiz, ele era advogado lá em Pará, em Belém, veio ser juiz federal aqui no Rio de Janeiro. Meu pai veio para cá pequeno. A família da minha mãe é de Espírito Santo, e minha mãe veio para cá com... Em torno de 20 anos de idade também, para trabalhar. Ambas as famílias são de fora do Rio de Janeiro.

 

P/1 - Queria que você contasse um pouco da sua infância. Como foi crescer no Rio, como era o Rio naquela época?

 

R - Eu morei a vida toda no Leblon, foi uma infância muito tranquila. O Leblon, na época, era caracterizado por prédios baixos, prédios de três andares no máximo. Meu pai, com um tio meu, construíram o prédio que nós morávamos, um apartamento, um edifício de três andares, um apartamento por andar, prédios que hoje você ainda vê no Leblon, que agora foram recentemente preservados. Nós jogávamos bola na rua. O que é hoje o epicentro que se chama Baixo Leblon, eu morava na rua Aristides Espínola, exatamente o epicentro do Baixo Leblon. Não passava carro praticamente entre a Teófilo de Paiva e a DiasFerreira, e era muito tranquilo, a gente ia muito à praia. Nós, na infância, estudamos − eu e meus irmãos − em um colégio que era na Vieira Souto, chamava-se Escola Brasileira da Criança, primário, jardim da infância. Depois fomos para o Santo Agostinho, estudamos no Colégio Santo Agostinho, que também era no Leblon. Então foi uma infância muito tranquila, eu diria quase que comum, normal. Até em torno da terceira série ginasial, que papai teve dificuldades financeiras na profissão dele, e aí a minha mãe teve que começar a trabalhar, ela até então não trabalhava.

 

P/1 - Ela foi trabalhar onde?

 

R - Ela foi trabalhar na Cedae [Companhia de Águas e Esgotos] na Companhia de Águas aqui do Estado. Meu pai ficou doente, ele era profissional liberal, então isso impactou muito na nossa renda, tivemos um problema de padrão de vida, de cair de padrão de vida, aí que eu acho que acordamos para a realidade. Eu era o filho mais velho, então eu peguei um pouco mais de intensidade dessa carga, o que fez com que no meu clássico... Na época você tinha científico e clássico, eu, em 1966, tinha concluído primeiro o clássico. Em 1966 teve uma enchente no Rio de Janeiro que morreu muita gente. Foi a maior enchente do Rio de Janeiro, teve uma tromba de água, vários dias seguidos de chuva, e aí nós... Muitos desabrigados nas favelas, as encostas não eram escoradas, não estavam razoavelmente protegidas. E levas de desabrigados foram localizados em vários colégios, igrejas e tudo. E perto da minha casa tinha um colégio que havia recém ficado pronta a construção, que era o Colégio André Maurois, ali perto da Praça Sibelius, entre a Gávea e o Leblon. Esse colégio abrigou muita gente, e nós fomos para lá, alguns amigos meus, para ajudar, coletar alimentos... E nós trabalhamos um mês, dois meses, ficamos janeiro e fevereiro, praticamente as férias todas, a cidade toda se mobilizou muito naquele evento, ajudando os flagelados, aquela turma, buscando alimentos e fazendo coletas. E terminado aquele período crítico em que os flagelados foram todos concentrados no Maracanã, Maracanãzinho, provisoriamente. Eu me recordo que Henriette Amado, que era diretora designada para o colégio, nos chamou... Aquele grupo, uns 30 jovens quase adolescentes, e disse que queria agradecer, e não tinha como agradecer todo o trabalho que a gente tinha feito. E disse: "A única coisa que eu posso fazer por vocês é dizer que se vocês quiserem estudar no André Maurois, vocês estão com as portas abertas, vocês serão bem vindos aqui. Não só vocês, como as pessoas que vocês indicarem.” Eu me recordo que eu cheguei para a minha turma de praia... Naquela época era muito comum, ficava aquele monte de gente na praia e jogava buraco. O Rio de Janeiro é marcado por isso. E eu perguntei quem queria estudar no André Maurois. Uns 20 levantaram, eu levei uns 20 para o André Maurois.

 

P/2 - Seus irmãos também?

 

R - Meus irmãos também. Todo mundo que eu indiquei para a Henriette Amado. Então nós pegamos o início do André Maurois, em 66, que era uma experiência educacional nova, de liberdade, moderna. A Henriette Amado era uma educadora fantástica, a sala dela não tinha portas. Foi um colégio... Na época se falava muito em Summerhill, uma experiência escolar na Inglaterra. E ela tinha uma abordagem como educadora bastante moderna. E aí eu fui estudar em escola pública, foi muito interessante, foi fantástico, comecei a namorar minha mulher lá naquela ocasião.

 

P/1 - Isso você tinha quantos anos? Uns 19?

 

R - Isso foi em 66, eu sou de 48, 17 anos.

 

P/1 - E ela estudava também?

 

R - Estudava. Ela era da minha turma de praia, então também foi junto. (riso)

 

P/1 - Era uma das 20!

 

R - Acho que foi até mais de 20, uns 25. Todo mundo foi estudar no André Maurois, na época estava badalado, ia ser uma experiência diferente. Foi interessante. E aí eu caí na minha realidade. Como estava difícil pagar o colégio porque nós éramos três −, a solução para três filhos... Porque estava com dificuldade para pagar escola particular. Mas de qualquer maneira, no ano seguinte eu tive que sair do André Maurois, porque eu queria fazer vestibular para Direito, e o vestibular para Direito a gente tinha que fazer um cursinho, e o melhor cursinho era o Hélio Alonso. Na ocasião, no Rio de Janeiro, o curso para Medicina era o Miguel Couto, para Engenharia era o Bahiense, e para Direito era o Hélio Alonso. E o Hélio Alonso era particular, então eu fui para um outro colégio que tinha convênio com o Hélio Alonso para fazer o preparatório para o vestibular, que eu também precisava passar numa faculdade pública. E acabou que deu certo, eu passei para o vestibular na UERJ [Universidade do Estado do Rio de Janeiro], na época UEG, que ainda era Estado Guanabara.

 

P/1 - E por que a opção de cursar Direito?a, nos

 

R - Provavelmente por conta de meu pai ser advogado, meu avô ter sido advogado, juiz. O pai do meu avô também. Então isso obviamente influencia. Por outro lado, também não tive um bom professor de matemática no ginásio. Eu tive muita dificuldade para aprender matemática, e isso naturalmente faz com que as pessoas optem... Tudo aquilo que envolva matemática você fica um pouco infenso, reagente, então a questão da matemática me levou para as humanas. E em humanas eu estava em um ambiente que envolvia Direito. Agora, essa questão para mim sempre foi muito mal resolvida, porque eu não me conformava de não entender matemática, e eu acabei... Decidi depois de formado, muitos anos depois de formado, aprender matemática. E fui aprender matemática como autodidata, eu queria aprender, não me conformava por que tanta gente sabe matemática, eu não sabia. E hoje eu gosto muito de matemática, o que me faz concluir que na verdade o que eu tive não era uma incompetência nata, mas sim um mal professor. Ou maus professores que não conseguiram me ensinar direito, me abrir, porque em 90% dos casos não é o sujeito que não aprende, é o sujeito que é ruim mesmo, isso é matemático (riso). Realmente, quando você não aprende alguma coisa o professor é que não presta.

 

P/1 - Mas você falou aqui que começou a namorar sua esposa nessa época. Conta como foi esse namoro. Você era muito menino?

 

R - Eu era menino...

 

P/1 - Quer dizer, a gente já sabe que você casou, o final da história, mas eu quero saber...

 

R - Casei. E o mais surpreendente: estou casado até hoje. Passaram 30 anos, você veja. Nós estamos juntos de 66 a 2002, isso é quanto? 36 anos. O que me faz concluir que eu sou um sujeito que tem imaginação, né?

 

P/1 - (riso)

 

R - Porque 36 anos com a mesma mulher você precisa ser criativo e ter imaginação, e ela também. (riso) Quando a maior parte dos nossos amigos e conhecidos... Os casamentos, na minha geração, a maior parte dos meus amigos é separada, está no segundo ou terceiro casamento. A gente namorou, namorávamos...

 

P/1 - Era ir ao cinema, namorar na casa da namorada?

 

R - Eu era muito duro, porque foi exatamente na fase que o papai começou a ter dificuldades financeiras, então eu ia muito à casa dela, a gente namorava muito na casa dela. O pai dela também era muito rigoroso, então a gente, naquela época... Eu não me conformo, porque eu não me sinto velho, falar naquela época” é danado, a gente olha para... Vocês devem estar achando coroa (riso), se bobear vão dizer: "A gente acabou de entrevistar um coroa." Mas era uma época diferente, a aproximação com a namorada era uma coisa bem diferente.

 

P/1 - Bem diferente.

 

R - Bem diferente. Você beijava selinho. Para você avançar no selinho você já tinha que preparar. Para você ter algum tipo de contato físico você tinha que ir aos pouquinhos. Para tocar nos seios tinha que... Botava a mão e aos pouquinhos ia... (riso) Aí tirava o dedo, tinha aquela coisa, demorava muito. E isto, associado ao fato de que meu sogro era um sujeito muito rigoroso...

 

P/1 - Ele ficava controlando?

 

R - Muito, demais da conta. Dez horas da noite tinha que estar em casa. Isso por um lado era ruim, mas por outro lado era bom, porque também dez horas da noite eu saía com os meus amigos, eu estava liberado, tinha um habeas corpus para poder ir para a noite.

 

P/1 - E essa saída com os amigos era para onde?

 

R - Ah, para a boate, ficar na rua jogando conversa fora... Homem é muito bobo, gosta de ficar conversando, já é um programa. Ficar na esquina, na esquina ali da Aristides Espínola com a Ataulfo de Paiva e conversando, falando de mulher, falando coisas que a gente não fazia de fato, contando vantagem. E encarnando nos outros, homem adora encarnar no outro, as turmas. E fazendo besteira. Dezessete, dezoito anos sozinho, vai fazer besteira.

 

P/1 - Que tipo de besteira?

 

R - Roubar um ônibus elétrico... Porque nós roubamos um ônibus elétrico.

 

P/1 - (riso) Saíram dirigindo?

 

R - Saímos dirigindo. O ônibus elétrico... Na época tinha ônibus elétrico, e o ponto final do ônibus elétrico era exatamente em frente à Pizzaria Guanabara, no Leblon. E tínhamos chegado de uma festa num clube daqueles, Federal ou campestre, e os trocadores, motoristas, ficavam ali comendo pizza, tomando café. E nós fomos fazer uma aventura, então colocamos as antenas no ônibus elétrico, um chifre no fio, ligamos. Não faz barulho ônibus elétrico, você liga e só acelera, é só acelerador e freio. Quando os caras realizaram que o ônibus elétrico estava saindo e conosco fazendo uma algazarra, foi uma correria danada. Nós fomos deixar esse ônibus elétrico em Ipanema, abandonamos lá na Praça General Osório. Então é isso, você faz bobagem. Nós tínhamos outra arte que nós fazíamos, um pouco antes até do que isso, não com 17, mas com uns 14, 15 anos. Na Visconde Albuquerque, no Canal do Leblon, eu não sei nem se existe isso, havia um inseticida chamado Gamexame. Era uma espécie de uma pastilha que você acendia e aquilo saía uma fumaça para matar mosquito. Mas aquele negócio fazia muita fumaça. Se eu acendesse um Gamexame aqui nesse ambiente, em três minutos, quatro minutos você não vê dez centímetros na sua frente. É uma fumaça muito densa, você não consegue ver nada. Então a graça nossa era ficar na Visconde Albuquerque... Ali no Canal do Leblon tinha um ônibus que passava ali, que era o São Salvador Leblon, ou Largo da Glória Leblon, um circular. Então um fazia um sinal, aí o outro que estava atrás de umas árvores grandes que tinham na Visconde Albuquerque acendia o Gamexame. O Gamexame no comecinho sai um filetezinho de fumaça, aquele negócio vai encorpando, vai queimando, é um negócio infernal. Então chegava por trás, jogava o Gamexame aceso dentro do ônibus, e quando o Ônibus ia chegando perto, que você fazia o sinal, aí fazia assim: o cara dava uma acelerada e nem parava. E ficava todo mundo esperando. Duzentos metros adiante o ônibus obviamente parava e abria a porta de emergência, saía todo mundo pela janela. Agora a graça não era fazer a graça, era ficar esperando que eles corressem atrás da gente, porque não tinha graça se não acontecesse uma emoção, que era a perseguição.

 

P/1 - (riso)

 

R - Você fazia a arte e saía motorista. Trocador e passageiro correndo atrás de para pegar você, essa era a graça. Você fazer a arte para fugir dos caras.

 

P/1 - E nunca foram pegos?

 

R - Fomos. Chegamos a ser pegos. Certa feita nós, correndo, os motoristas já estavam mais prevenidos, então foram mais rápidos. Aí nós saímos correndo, os caras no nosso encalço, e entramos num prédio que tinha mais de uma saída. Entramos numa lixeiraaquela época ainda se queimava lixo −, entramos numa lixeira, ficamos escondidos na lixeira. Aí o motorista e o trocador pegaram e seguraram um dos meus colegas e puxaram ele para fora. E esse amigo, por questão de solidariedade, chegou para a gente: "Vamos junto." E chamou a gente, dedurou onde nós estávamos, então fomos todos. Aí nossos pais foram chamados, era aquela espinafração. Mas era arte de garoto, uma coisa que não devia ser feita, mas com pouco excesso, no sentido que não... Fora isso, quebrar alguns vidros de ônibus a gente quebrava. Na época tinha aquele

cascalho na rua, aquela pedra pequenininha, aquela brincadeira boba de menino, menina não faz essas coisas. Pega a pedrinha e fica com peteleco jogando a pedrinha no outro, só para incomodar. E tinha um amigo nosso que jogava com muita força, ele tinha um jeito de jogar pedrinha, e ficava todo mundo incomodado. E nós, passando na Visconde Albuquerque, tínhamos um campo de futebol que nós jogávamos na Visconde Albuquerque, ele ficava jogando aquela pedrinha nos ônibus. Um dia ele jogou a pedrinha, pegou de jeito, e o para-brisa do ônibus esfarelou na hora. Fora isso... E aí sai correndo, a corrida é geral.

P/1 - Tinha campo onde na Visconde Albuquerque?

 

R - Você conhece a La Mole, onde fica a La Mole? A La Mole são dois prédios iguais. Atrás daquele prédio tem uma pracinha, chama Praça Rodolfo Albino, que era onde é o (Jinque?) hoje. Onde é o (Jinque?) era a Embaixada do Equador. Aquilo era uma pracinha, não tinha carro, na época não tinha tanto carro como é hoje. Hoje você chega lá, tem um mar de automóveis estacionados. Era naquela praça, jogávamos bola, fazíamos festa junina todo ano. E era muito prático, porque nós estávamos na Dias Ferreira, na Aristides Espínola, atravessávamos pela entrada de serviço do prédio, estávamos na pracinha, ou íamos pela Visconde Albuquerque. Não sei se você se localizou.                                                                         

 

P/1 - Me localizei, o (Jinque?).                                                                                                                                        

 

R - Exatamente. Atrás tem um larguinho, é a Praça Rodolfo Albino, não sei quem é o Rodolfo Albino.

 

P/1 - É um cantinho gostoso ali.

 

R - Era muito gostoso. A nossa turma era ali, a gente fazia as nossas farras, molecagens todas por ali.

 

P/2 - E sua esposa era do Leblon também?

 

R - Também. Nós nos conhecemos no Leblon quando tínhamos 15 anos, 14 para 15 anos, nós temos mais ou menos a mesma idade. Ela namorava um amigo meu e depois ela se apaixonou por mim. (riso) Se ela ouvir eu falar isso ela me mata. (riso)

 

P/1 - E vocês casaram cedo?

 

R - Casamos. Em 72, eu tinha 23 anos quando eu casei, e ela também. Eu era estagiário do banco, absolutamente duro, mas muito duro. E ela...

 

P/1 - Não tinha nem se formado?

 

R - Não. E casamos porque quisemos casar, não houve nenhuma circunstância especial que nos tivesse impelido ou constrangido ao casamento. Nós casamos porque queríamos casar, e foi uma decisão que nós tomamos, porque na época eu já vivia na casa dela, e era um namoro muito intenso, nós já namorávamos desde 66, portanto há seis anos, e eu acho que se casava mais cedo também.

 

P/1 - Conta como foi o casamento.

 

R - Foi legal, foi um casamento na Santa Inês, foi religioso e civil.

 

P/1 - Santa Inês, na Gávea?

 

R - Na Gávea. Teve uma recepção depois na própria igreja, no salão da igreja. Tudo muito contido, porque na época meu pai estava doente, meu pai nem foi ao meu casamento. E meu sogro era uma pessoa que estava bem, mas não era uma pessoa rica, então eu me lembro que nós conseguimos sair para a lua de mel por conta do dinheiro que nós recebemos no dia do casamento,  porque o pessoal botava um chequinho no bolso. Então foi uma vida muito amarrada, muito apertada, tanto que o meu primeiro carro eu só comprei dois anos depois de casado, um fuscão amarelo horroroso, mas era... Foi uma vida de estudar de noite, ter que trabalhar, e tudo, que eu acho que testa você, faz com que você...

 

P/1 - Ela estudava também?

 

R - Estudava Direito na PUC e eu na UEG, na UERJ.

 

P/2 - Como era esse ambiente, um pouco, da sua universidade?

 

R - Eu entrei para a universidade em 68. Em 68 o ambiente era de uma efervescência política fantástica, e eu me engajei naquele ambiente político. Apesar de nunca ter sido comunista, eu simpatizava, era uma pessoa mais para à esquerda. Então participava, sempre gostei muito de política, eu gostava muito daquelas confusões, e a UERJ, na época a UEG, não era no campus, era na rua do Catete, onde hoje é a sede da UNE, depois deram aquele casarão rosa para a UNE. E nós fazíamos muito, tinha muita Assembléia, discussão, manifestação, passeata, de vez em quando parávamos o trânsito na rua do Catete para panfletar, pichar os ônibus, a polícia vinha... Então ficava um olheiro na Bento Lisboa. Foi uma época de muita efervescência, mas durou muito pouco tempo, porque logo depois veio o AI-5. Com o AI-5, teve-se assim, uma violência muito grande na liberdade universitária. A perseguição, de muita espionagem, foi a pior época da ditadura, foi 69, 70, foi a junta militar. Foi o Costa e Silva, com o qual eu não tenho nada a ver, não tem nenhuma relação de parentesco comigo, porque a família dele é do Rio Grande do Sul, ele é filho de mãe Costa com pai Silva, enquanto a gente, Costa e Silva há várias gerações do Norte. Mas com a morte do Costa e Silva, a junta militar e o Médici, a violência era muito grande na faculdade. Você tinha as pessoas que você sabia que eram espiões, eram militares que entravam para o curso, você sabia que eram informantes de SNI [Serviço Nacional de Informações], CENIMAR [Centro de Informações da Marinha], o ambiente ficou muito ruim. Os centros acadêmicos acabaram, a sede do centro acadêmico virou cantina. Então foi uma fase muito ruim para a participação estudantil, para a participação política. Mas em 68, com toda aquela emoção das confusões na França, passeatas, a Passeata dos Cem Mil...

 

P/1 - Você foi à Passeata dos Cem Mil?

 

R - Fui à Passeata dos Cem Mil, fui ao velório daquele Edson Luís que morreu no calabouço e fiz discurso. A gente participava muito. Pouco antes disso, que nós tínhamos... A juventude era muito mais engajada politicamente, e muito mais ligada em questões... Participava mais, ligada às questões do país e preocupada com as questões centrais, todo mundo com um viés muito à esquerda. Era a época de cinema, de arte...

 

P/1 - Paissandu?

 

R - Exatamente, eu sou geração Paissandu. E você tinha um uniforme: calça jeans, geralmente calça Lee, naquela época era calça Lee, com aquela camisa da aeronáutica, aquela camisa azul que você usava uma mescla na camisa azul e você ia para o Paissandu, anotava as coisas, aquele perfil típico. Então discutia política, discutia questões existenciais. E você não podia... Curioso, não podia dizer que não gostava, então eu vi todos os filmes do Godard.

 

P/1 e P/2 - (riso) Dormia, mas dizia que gostava.

 

R - Eu achava aquilo um saco, aquilo era uma tortura chinesa.

 

P/1 e P/2 - (riso)

 

R - O tal do Alphaville, que era um... Piscava uma luz, e o pior é que depois você ainda tinha que entender, explicar a simbologia daquela luz.

 

P/1 - Era tudo levado muito a sério?

 

R - Era tudo levado a sério, escrevia poesia, essas coisas. Era uma época diferente. Saiu dali para outro extremo, o extremo da não participação, da censura ao cinema, teatro, censura pesada e perseguição política mesmo. Eu me recordo que da minha turma no André Maurois, essa fase de participação já havia no André Maurois, não foi em 68, em 66 eu já peguei isso no André Maurois, já tinha muita participação estudantil, da AMES, muita discussão. A minha turma do André Maurois, trocado por embaixador, foram três, se não me engano. Dois com certeza, tem um terceiro que eu tenho a impressão que também foi trocado por embaixador naqueles sequestros que ocorreram subsequentemente.

 

P/1 – Embaixador alemão...

 

R - Embaixador alemão, americano, suíço. As discussões que nós tínhamos lá, do pessoal, da turma do Maurois era impressionante... Se a gente ia pegar em armas ou não, a discussão era essa.

 

P/1 – Te passava pela cabeça pegar em armas?

 

R - Passava, e muitos pegaram. Estou falando que foram trocados por embaixador, porque...

 

P/1 - Não, mas na sua.

 

R - Na minha não, eu nunca visualizei, eu não tinha uma percepção completa do que eu achava que deveria ser o modelo político brasileiro, mas definitivamente não me agradava o modelo político comunista, o modelo político socialista, não encaixava. E o curioso é que grande parte das pessoas que naquela ocasião eram engajadas, foram até presas, colegas até do banco, hoje não têm a mesma posição que tinham naquela ocasião. Tem que ter um modelo híbrido, ou alguma coisa que não seja o capitalismo exacerbado e que também não seja a ineficiência estatal, o estatismo puro. Acho que há um meio de campo aí, porque eu também não acredito em livre mercado para resolver o problema social. Eu acho que tem que ter uma intervenção estatal no mínimo aberta à fiscalização da sociedade, mas por outro lado eu não acredito no Estado como empresário. O empresário dilapida recursos, entra, transita num ambiente de corrupção, essa é a tradição histórica. Então eu vejo, às vezes, pessoas com um ideário socialista até respeitável, romântico, no sentido de achar que o Estado pode ser um bom gestor de empresas e defender a estatização, foram até contra a privatização. Eu acho que não, acho que o Estado tem que intervir como regulador, tem que intervir naqueles segmentos em que você precisa acelerar o processo de distanciamento, de diminuição do distanciamento, que é o processo social, que é o problema social brasileiro, o que portanto eu acho que é um meio termo entre uma intervenção estatal com um sistema de livre mercado, que é hoje, que foi o caminho que o banco trilhou até um tempo atrás. Hoje eu acho que o banco está muito livre mercado demais para o meu gosto, acho que está americano demais para o meu gosto.

 

P/1 - Vamos só retomar então sua trajetória, um pouco: você, então, entrou para o banco ainda estudante, estagiário?

 

R - Estagiário.

 

P/1 - Em que ano?

 

R - Em 1970, eu fiz o concurso. Eu nem sabia o que era o BNDES, eu estava trabalhando de madrugada, porque o trabalho que eu consegui era de madrugada.

 

P/1 - Seu primeiro trabalho...

 

R - Meu primeiro trabalho foi de madrugada, porque eu estudava de noite, precisava trabalhar, e o único emprego que eu consegui foi de madrugada. O que eu fazia?

 

P/1 - Aonde era?

 

R - Eu consegui ser contratado na Sunab − que nem existe mais – que cuidava do controle de preços... Superintendência Nacional de Abastecimento. E eles precisavam de pessoas que fossem de madrugada aos supermercados atacadistas do Rio de Janeiro, que tem três, que era o São Sebastião, na Avenida Brasil, São Cristóvão e Madureira, para anotar preços dos hortifrutigranjeiros. Engradado do alface, tomate, chuchu, cenoura, para acompanhamento estatístico. E eu ia para lá. Esses supermercados funcionam da meia-noite, uma hora da manhã, até três horas da manhã. Aquilo no primeiro ano da faculdade. Segundo ano da faculdade meu pai, apesar de advogado, teve que parar e encerrar as atividades por causa de doença. Eu não tinha, apesar de família de advogados, eu não tinha onde me escorar. "Eu preciso tentar me situar naquilo para que eu estou estudando." Aí eu vi na faculdade: "BNDES: concurso para estagiário." Não tinha ideia do que era BNDES, mas como era na área de Direito, me inscrevi. Acabou que eu passei, passei em segundo lugar no concurso de estagiário. Aconteceu até um fato interessante para caramba, foi uma das maiores emoções da minha vida. Quando eu fui ver o resultado no BNDES, eu olhei para aquele... Quando eu vi a lista dos que tinham sido aprovados, eu vi o meu nome em segundo lugar, eu fiquei muito emocionado, porque ali eu percebi que a minha vida ia depender de mim, se eu lutasse eu ia conseguir. Porque eu não tinha nenhum “peixe” no banco, não conhecia ninguém não, não tinha nada. Cheguei lá, fiz uma prova e passei. E eu chorei quando eu vi meu nome ali, me emocionei e chorei. E do lado tinha um pessoal também vendo o resultado: "Ah, marmelada! Está aqui, Costa e Silva, deve ser parente do Costa e Silva, desse cara que foi presidente. Isso aí deve ser uma tremenda marmelada, esse concurso!" Eu olhei para o cara. "O que eu faço?” “Não fala nada, porque o cara não vai acreditar." Então não falei nada, mas foi uma coisa que me marcou muito. E entrei para o banco. Me formei, o banco me admitiu como estagiário, como adestrando, foi uma coisa consequente.

 

P/1 - Você entrou para trabalhar em que departamento?

 

R - No Departamento Jurídico, fui trabalhar na Divisão de Contratos, fazendo contratos.

 

P/2 - Quais os contratos que você lembra, da época?

 

R - Na época o banco tinha uma estrutura diferente do que é hoje, mas hoje eu nem sei qual é a estrutura do banco, que acabou de mudar. Eu mesmo já participei de reestruturações do banco. Na época as operações eram contratadas em um departamento jurídico, era contratado numa centralização. Todos os contratos do banco eram feitos na Divisão de Contratos. Existiam advogados espalhados nas áreas operacionais, mas eles atuavam fazendo análise de operações, nos grupos de trabalho, porque o banco sempre trabalhou em grupo disciplinares. O analista, contador, engenheiro. Então participava o pessoal da análise, operação, dava uma assessoria às operações. À medida que essas operações tinham sido contratadas, orientava o pessoal local, mas o contrato propriamente dito não era feito nessas áreas. A contratação toda era centralizada no Departamento Jurídico, então todos os contratos que fazia na ocasião eram contratos que iam para a divisão de contratos. E nós, estagiários... Éramos um grupo de estagiários, nós tínhamos muita gana, muito espaçoso. Então nós ficávamos cercando a sala do chefe da Divisão de Contratos, que era o Alfeu Francisco Maciel Braga, para ver os contratos que entravam para serem contratados, dossiês que entravam para serem contratados e ficávamos disputando, os estagiários, a distribuição daquilo. E os advogados ficavam de frozô, vendo os estagiários querendo trabalhar e deixando os estagiários trabalharem. E chegou um momento... Uma vez eu fiz um levantamento entre os estagiários, os estagiários da Divisão de Contratos estavam com muito mais trabalho, com muito mais carga de trabalho e com contratos muito mais complexos do que os advogados estavam.

 

P/1 - Me conta de um projeto grande que você tenha achado legal o banco estar fazendo.

 

R - Era muito contrato. Lá atrás?

 

P/1 - Isso. Qual era o foco do banco nesse momento?

 

R - Isso foi década de 70. Nós estamos falando em 71, 72, foi quando o banco saiu, teve um presidente chamado Jayme Magrassi de Sá, que vocês devem ter que entrevistar. Já entrevistaram o Magrassi?

 

P/1 - Ainda não.

 

R - Então, o Jayme Magrassi de Sá, uma figura diferente, hoje ele deve estar bem velhinho, ele saiu... Não me lembro quem, entrou um sujeito chamado Marcos Pereira Vianna. Já entrevistaram o Marcos Vianna?

 

P/1 - Vai ser entrevistado.

 

R - O Marcos Vianna veio... Era um cara bem mais jovem, veio com uma visão mais aberta do banco. E logo depois surgiu, foi aprovado o segundo PND, Plano Nacional de Desenvolvimento. Então se começou a estimular a indústria de bens de capitais, de insumos básicos, e a indústria de bens de consumo, principalmente a política de substituição de importações. E naquela ocasião começou a ter esses projetos, Projeto de Polo Petroquímico,de Camaçari, que foram projetos grandes.

 

P/1 - Hidroelétrica nessa época também?

 

R – Não era mais a fase de hidroelétrica nessa época. A década de 70 foi uma fase de indústria de bens de capital e insumos básicos. Foram feitos os polos Copene, Copesul, depois o grande parque de bens de capital, Aço Villares, Vibasa um pouco depois, chegando perto da década de 80. Bardella, Zanini, Dedini... Indústrias pesadas, chamadas indústrias pesadas, e outras indústrias de bens de consumo também. Nessa década de 70, por conta do segundo PND, que era o projeto de desenvolvimento, foi na época do Geisel. E tinha coisas interessantes naquela época, a gente tinha uma visão muito desenvolvimentista, da missão do banco como instrumento de desenvolvimento econômico. O banco tinha 500, 500 e poucos funcionários, ficou muitos anos com 500 e pouco funcionários.

 

P/1 - Você presidiu a Associação dos Funcionários?

 

R - Presidi. Eu fui presidente da Associação dos Funcionários do BNDES em 78, 79. Fui o primeiro presidente da nova geração que estava entrando e que agora começa a se aposentar aceleradamente. Foi uma experiência ótima também, interessante, a gente conhece as pessoas, vive momentos pitorescos.

 

P/1 - Tem algum que você se lembra?

 

R - Vários.

 

P/1 - Conta algum que você se lembra.

 

R - A gente...

 

P/2 - Alguma negociação específica, por exemplo, reivindicação dos funcionários?

 

R - Tinha, eu lembro que tinha um problema de creche, pagamento de creche para os filhos dos funcionários, até nós conseguimos isso, uma reivindicação interessante. Agora, a Associação de Funcionários, na época, o banco... Nós estávamos em plena década de 70, em plena ditadura, então a liberdade sindical, de associação, era tudo muito restrita. O banco tinha representante de SNI aqui. Quer dizer, teve gente no banco que subsequentemente foi anistiado, mas teve gente que entrou no banco, fez concurso e o SNI vetava, não deixava entrar. Era a época da ditadura, a década de 70 foi o apogeu da ditadura, que você pega o Médici e o Geisel. Estava tentando abrir, mas ainda com a linha dura presente, então essa vertente da Associação de Funcionários somente começou a ser desenvolvida naquela ocasião, a Associação um pouco mais reivindicadora. Até então a Associação era estritamente ligada ao o lazer. Então a Associação tinha − ainda tem − uma colônia de férias em Itaipava, que agora, por uma questão de moda, passou a se chamar Pousada.

 

P/1 e P/2 - (riso)

 

R - Essas coisas têm moda. Uma autarquia agora está na moda chamar de Agência. Então virou Pousada. Tinha um clube na Barra, que é o clube que eu participei até da Comissão que acompanhou a construção desse clube. E a Associação tinha também um viés de dar suporte financeiro para os empregados, então tinha carteira de aval, carteira de empréstimo, consórcios... Quer dizer, era um abacaxi aquele troço. Mas foi quando nós começamos a ensaiar algumas reivindicações e talvez a reivindicação mais significativa na qual eu tenha me envolvido naquela ocasião e que foi um sucesso foi ter um tipo de apoio para creche, para escola dos filhos dos funcionários. Eu tentei me reeleger presidente da Associação, foi bobagem, perdi a eleição. E quem me sucedeu deu uma conotação política muito mais forte, e a Associação entrou nesse viés de ativismo...

 

P/1 - Aí já tinha tido abertura?

 

R - Foi “par e passo”. Acho que foi em... Eu não me elegi em 78, 79. E nós ainda estávamos na ditadura. Quer dizer, o Figueiredo depois assumiu, depois do Geisel veio o Figueiredo. Na verdade o Sarney, que era o Tancredo, foi em 85, né? Ele se elegeu em 84, tomou posse em 85, o Sarney tomou posse em 85, não foi? Então só aí que você teve uma abertura efetiva, porque com o Figueiredo ainda estava a coisa um pouco amarrada.

 

P/1 - Mas na época da sua gestão na Associação dos Funcionários, quer dizer, qual era a reivindicação maior dos empregados do BNDES? O que era talvez a questão mais importante para eles, naquela época, de se ter de uma empresa, de um empregador?

 

R - Isso até é curioso. Para mim eu não tenho presente, a não ser outra coisa mais pontual, como era a questão da creche. O banco... Naquela época a percepção, de um modo geral, era de que o banco era muito bom empregador. Hoje talvez não seja, não por conta do banco, mas por conta das circunstâncias que limitam o banco, mas eu me lembro que quando eu fiz o concurso para advogado eu era estagiário, me formei em 72, em abril de 73 fui contratado para um tal de adestramento. E o meu contrato de adestramento tinha uma cláusula que dizia... Esse contrato era de um ano, prorrogado por mais de um ano, o banco até então não admitia estagiário, então era mandado embora. Mas o meu contrato dizia que se, na fluência daquele contrato, o banco abrisse um concurso público − e o banco não abria concurso público há muitos anos −, eu estaria inscrito, que nós chamamos “ex officio”, automaticamente, se não passasse no concurso, o contrato era abreviado. Então eu me lembro que eu fiquei feliz da vida quando, em abril de 73 eu fui admitido, tive meu primeiro contrato como advogado, embora com esse rótulo de adestrando. Mas três meses depois o banco abriu concurso e me inscreveu para o concurso. Eu já estava casado, pensei: "Se eu não passar nesse concurso eu estou liquidado, vou perder o emprego." Eu não podia perder o emprego, aí estudei feito um alucinado. Estudei, estudei, estudei e passei em segundo lugar, concurso nacional. Aí fiquei super orgulhoso de mim mesmo. Eu olhava para o espelho, a imagem não cabia no espelho, de orgulho. E eu me recordo que naquela ocasião o salário de admissão nosso era altíssimo, era como o equivalente a 2 mil e poucos dólares, o que equivaleria hoje a um salário admissional talvez na ordem de 1.500 a 6 mil reais. Para uma pessoa que era recém formada, era, na ocasião, um salário alto. E com uma série de vantagens: plano de saúde, assistência médica, horário de trabalho de sete horas... Então eu me recordo que na época o pessoal técnico achava que estava tudo bem, não havia uma conotação política. E todo mundo muito envolvido no trabalho, achando que estava cumprindo um papel muito importante. Era um lugar fantástico para se trabalhar, porque você ganhava bem e estava cumprindo um papel que você sabia que era importante para o país, quer dizer, todo mundo no banco sabia que aquilo era importante.

 

P/1 - Francisco, eu queria também que você contasse um pouco da Embramec, quando você foi consultor jurídico na Embramec.

 

R - Foi quando o banco entrou nesse processo de financiamento...

 

P/2 - O que era a Embramec?

 

R – O banco entrou nesse processo de financiamento segundo o PND, desenvolvimento da indústria de bens de capital, indústria de insumos básicos e indústria de bens de consumo, o banco empresta dinheiro e as empresas podem tomar dinheiro emprestado até um determinado limite. Quer dizer, existe um limite para o endividamento das empresas. Chega um momento, a empresa não pode executar um projeto só com dívida, só tomando dinheiro emprestado, ela tem que ter capital próprio. Ou seja, os seus donos têm que colocar algum capital em ações, que não seja esse capital exigível, exigibilidade, que ela tenha que pagar sob a forma de juros e prestações. E se percebeu naquela ocasião que se se quisesse levar adiante o processo de substituição de importações, de fortalecimento da indústria nacional, não bastava só o BNDES estar emprestando, financiando as empresas, financiando os projetos, era importante que você criasse um mecanismo de subscrever capital nas empresas, colocar também dinheiro sob a forma de ações, e o banco não tinha tradição para isso. Então o que fez o BNDES? Criou três subsidiárias: uma subsidiária chamada FIBASE, uma subsidiária chamada Embramec e uma subsidiária chamada IBRASA. Essas subsidiárias tinham por objetivo a FIBASE subscrever capital nas indústrias que estivessem situadas no setor de insumos básicos. Mineração, metalurgia, tudo aquilo que envolvesse insumo. A Embramec faria a mesma coisa para o setor de máquinas e equipamentos, e a IBRASA àquelas empresas que não fossem nem de insumos básicos nem de bens de capital. Com isso, colocando capital nessas empresas, você conseguiria alavancar o financiamento do banco para os projetos. Então era uma forma de você viabilizar que o banco financiasse novos projetos. Os empresários desses projetos não eram capitalizados, e por não serem capitalizados, ou não quererem colocar capital nesse projetos, são os riscos associados aos mesmos, impunha que houvesse algum outro tipo de mecanismo em que o Estado colocasse capital. Aliás, disso resultou o sucesso do programa de substituição de importações, o processo de implantação das indústrias de base no Brasil e de insumos básicos, mas também resultou uma brutal concentração de renda, por conta do fato de que o banco, naquela ocasião...  Eu subscrevia capital através da FIBASE da Embramec e da IBRASA e financiava. E você tinha todo um esquema de subsídios associados a isso. Quer dizer, um projeto que tomava dinheiro emprestado do banco, ele tinha... Sofria correção monetária limitada a 20%. Com essa correção monetária de 20%, a expectativa na época era de que a inflação estava sob controle. O que eu quero dizer com isso? O sujeito contratava com o banco e o banco no contrato dizia: "Você vai pagar correção monetária, subsídios sociais. Entretanto, você só vai pagar correção monetária até 20%.” Isso quer dizer: se a inflação for 200%, você vai pagar 20. Se a inflação for 70%, você vai pagar 20, se a inflação for 10%, você vai pagar 10. Até 20% era o máximo que tinha que pagar de correção monetária, e a expectativa era de que a inflação estava sob controle e que não ia ultrapassar os 20%. Isso acabou não ocorrendo. A inflação explodiu, e acabou que isso se transformou em um brutal subsídio. Por quê? Porque se eu tomei 100 mil reais hoje, 100 milhões de reais hoje, estou pagando a correção, 10%, 15%, 20%, a inflação vai para 30, 40, 100, 200, 300, 400, 500%, e eu continuo corrigindo o meu saldo devedor por 20, obviamente que chega um momento que eu, com o dinheiro que eu estou no bolso, pago aquela prestação. O que significa, no frigir dos ovos, uma doação do setor público para o setor privado, um perdão dessa dívida. Tem uma colega nossa aqui do banco, chamada (Sheila Nasberg?), ela tem uma tese de mestrado muito interessante, em que ela procurou calcular isso. Então o que ela fez? Todas as operações financeiras que foram feitas o ano passado ela converteu para dólar, tudo ela converteu para dólar e trouxe ao valor presente esse dólar. Então, se tudo aquilo fosse dólar, teriam sido não sei quantos bilhões de dólares, as prestações teriam que representar tantos bilhões de dólares, os juros seriam de não sei quantas centenas de milhões de dólares, contratos... E a conclusão que ela chega, verificando aquilo que foi efetivamente pago, convertido em dólar o que foi efetivamente pago, é que, por exemplo, uma empresa como a Copene: os donos da Copene pagaram, se não me engano, algo em torno de 3% do valor da Copene para ter a Copene.

 

P/1 - E na época vocês não se davam conta disso? Como era?

 

R - Eu, pelo menos, não me dava conta, primeiro porque eu era jovem, eu não tinha uma percepção exata... Nós estamos falando da década de 70, 80, então era uma época que você come pela mão dos outros.

 

P/1 - Esse processo se deu mais no início, na Embramec, ou quando...

 

R - Não, isso era no banco todo. A Embramec era uma empresa que subscrevia capital. Comprava ações dessas empresas. Ali até que o nível de perda foi menor, porque você, quando subscreve a ação, depois essa ação não é resgatada, então você vira um acionista do empreendimento. Fora o aspecto de alguns contratos mal feitos que haviam sido feitos na FIBASE, talvez a nível de prejuízo para o cofre público, o prejuízo nas subsidiárias, foi muito menor.

 

P/1 - Quais foram as principais participações dessas subsidiárias nesse período?

 

R - Antes disso eu fui convidado para ser consultor jurídico da Embramec, se eu não me engano acho que em 78, 79, por aí, pelo Roberto Lima Netto, que era o diretor da Ibrasa e da Embramec, diretor do banco que cuidava dessas áreas. E lá nós analisávamos a participação dos funcionários, eu fazia os acordos de acionistas, analisava as operações e tudo. Quando o Marcos Vianna saiu, no começo da década de 80, se não me engano, 79, se não me engano, veio um outro presidente chamado Luís Sande, que já morreu. O Sande, por qualquer circunstância que eu não sei qual é, premido lá pelo governo, decidiu fundir as três, a Ibrasa, a Embramec e a Fibase, que eram as três empresas de (patriação?) separadas por setor. E aí que surgiu a Bndespar, a Bndespar resultou da fusão dessas três subsidiárias, para fazer a mesma coisa que as três faziam, e era racional, não tinha muito sentido ficar as três empresas separadas.

 

P/1 - E você ficou como?

 

R - Como eu cuidei da parte jurídica da própria fusão das três, eu fiquei como superintendente jurídico da Bndespar, fui o primeiro superintendente jurídico da Bndespar. E cuidava daquilo que era o espólio das três subsidiárias.

 

P/1 - Quais eram as principais participações?

 

R - Você tinha participações muito grandes, por exemplo, na Caraíba Metais foi uma participação onde o BNDES perdeu muito dinheiro. O BNDES teve que fazer um write-off.

 

P/1 – Caraíba Metais foi privatizada, reprivatizada?

 

R - Foi privatizada... Reprivatizada depois. O BNDES fez um write-off na Caraíba Metais de eu não me lembro exatamente quanto, mas muitas centenas de bilhões de dólares, que perdeu naquele projeto. Outro que tinha: Companhia de Celulose da Bahia, também foi um projeto que foi vendido depois, perdeu muito dinheiro.

 

P/1 - E no que ele ganhou dinheiro? Teve muitas perdas, dessas que foram reprivatizadas, né?

 

R - Ele ganhou ao parar de perder. (riso) Porque a experiência do BNDES como gestor das empresas, que as empresas ficaram sob controle do banco, foi muito ruim. Com exceção daquela empresa que fazia roda de trem... Como é o nome? Que também foi vendida, me fugiu da cabeça o nome. A Fersa, que era a única lucrativa na ocasião. As empresas que o BNDES tinha controle acionário, controle acionário este que resultou de um projeto que não deu certo e que o banco estatizou, como Caraíba Metais, como Companhia de Celulose da Bahia, Máquinas Piratininga, Nova Américo, vários projetos. O banco, toda vez que se meteu a administrar esses projetos sob o pretexto de que eram projetos importantes para o país, não podiam parar, e que o banco ia assumir, sanear e depois vender, foi um desastre. Toda vez que isso aconteceu foi um desastre. Só que a nossa ficha caiu em relação a esse assunto anos depois, na década de 80. A gente viu: "Esse negócio não está dando certo, o banco perde em todas”.

 

P/1 - Caiu com que? Com planejamento estratégico?

R - Caiu com toda a percepção de que nós amadurecemos. Acho que a tecnoestrutura do banco amadureceu, pessoas que antes eram estatizadoras viram: "Olha, não dá." Muita discussão em planejamento estratégico, foi quando surge toda a discussão da integração competitiva.

 

P/1 - Fala um pouquinho disso.

 

R - Eu não sou a pessoa mais adequada para falar. Vocês já entrevistaram o Júlio Mourão? O Júlio Mourão... Já entrevistaram o Luiz Paulo, aquele que veio de Vitória?

 

P/1 - Ainda não.

 

R - Eles falam isso, mas o que é relevante... É que eu não vou falar com propriedade, porque eles já devem ter falado. O que é relevante é que a nossa geração percebeu que a questão ideológica não podia se colocar na gestão da empresa. A empresa é a empresa, ela tem que ser administrada com liberdade, com eficiência, com padrões éticos diferenciados do que aqueles que nós... Botava lá um burocrata do BNDES para tomar conta da empresa, era um desastre. Primeiro porque do outro lado o credor achava que porque era o BNDES tinha um saco sem fundo de dinheiro para cobrir todo e qualquer prejuízo, segundo que o próprio gestor ficava leniente, porque sabia que tinha um saco sem fundo por trás. Quer dizer, não dava certo, nós não somos empresários.

 

P/1 - Foi uma mudança de mentalidade?

 

R - Foi. Sem sombra de dúvida foi. Em alguns momentos até com muita briga interna, porque...

 

P/1 - Essas discussões movimentavam?

 

R - Ah, movimentavam. Eu me lembro que eu tive discussões, um quebra-pau com um colega nosso, mais velho, chamado Armando Alencar, eu não sei se vocês já entrevistaram o Armando Alencar.

 

P/1 - Não, mas talvez seja.

 

R - O Armando, em relação a um projeto chamado Pisa Papel de Imprensa, em que ele defendia... Eu era diretor da Bndespar na época, eu defendia... Aí um pouquinho depois eu acabei saindo da Bndespar... Eu defendia que nós devíamos, com base em análise que havíamos feito, bastante aprofundada da situação, das dificuldades que a empresa estava vivendo, eu defendia que nós fizéssemos uma operação, mas não assumíssemos o controle da empresa, que a empresa tinha o empresário. O empresário da empresa, na ocasião, era o pessoal do Estadão, os Mesquita, do Estado de São Paulo. E eu acha que se nós assumíssemos a empresa, essa empresa iria ser mais uma estatal nossa, e nós não conseguiríamos marcar os gols que precisam ser marcados, do tipo: a Pisa fabricava papel de imprensa e tinha uma dificuldade grande, porque ela competia com papel importado. E pela Constituição, o papel de imprensa é imune, qualquer jornal podia importar papel de imprensa, o papel de imprensa chegava aqui sem um centavo. A Pisa ia fabricar papel de imprensa. Ia falar assim: "Mas você não paga ICMS [Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços], não paga IPI sobre o papel de imprensa." "É que a empresa vende." "Ah, mas ela está consumindo energia elétrica, sobre a energia elétrica está pagando imposto. Ela está consumindo uma série de insumos, todos eles pagam imposto." Então o que pesa o fato de que na ponta você não tem imposto, e ao longo da cadeia produtiva você tira uma carga tributária, isso tirava a competitividade da empresa. Então... Eu estou simplificando aqui tremendamente a discussão, mas eu entendia que para enfrentar toda a discussão no âmbito do governo, para que nós conseguíssemos obter as mesmas condições de produção que os importados tinham, quem deveria estar à frente da empresa não era o BNDES, que era governo, mas sim um empresário privado de prestígio, que tivesse um jornal. Eu acho que seria mais fácil chegar a esse objetivo. E o Armando Alencar, por exemplo, ele achava que não, que eles eram uns incompetentes, que eram empresários incompetentes, e que o BNDES deveria converter os seus empréstimos em ações, assumir o controle da companhia e então administrando a companhia... Aí volto ao capítulo anterior: concluir o projeto, sanear a companhia, porque a nossa administração seria melhor. Eu me lembro que teve um quebra-pau na diretoria do banco, que ele e eu, contra ele... Um quebra-pau que durou horas, típico marco de uma geração que achava que nós não devíamos mais ter essa visão. Isso foi com o Marcos Vianna, essa discussão até de Pisa o Marcos Vianna já havia saído do banco, estava o André Franco Montoro Filho aqui presidindo a diretoria do banco. Houve uma mudança na década de 80 muito grande de mentalidade, foi muito em função da discussão do planejamento estratégico, do próprio amadurecimento de todos nós no trabalho, vendo as besteiras que nós estávamos fazendo e que estava dando errado. E nesse ponto eu acho que o Júlio Mourão cumpriu um papel muito importante.

 

P/1 - Eu queria pedir para você falar. Você foi diretor do Bndespar, eu queria que você me dissesse... A gente esta com o tempo um pouco... Já terminando, dissesse da sua trajetória...

 

R - Eu fui diretor do Bndespar numa época que, assim, na época do Sande presidente do banco, tinha uma grande figura que já morreu, chamava-se Albérico Spina Barbosa, que era o meu chefe, que me chamou para ser superintendente jurídico da Bndespar, e subsequentemente a isso... Como superintendente jurídico da Bndespar, eu sofri muito naquela ocasião, porque eram três empresas, juntaram, mas não juntaram, pegaram as diretorias das três, botaram em volta de uma mesa e disseram: "Isso aqui agora é uma empresa só." Então o pau comia, as percepções do papel da Bndespar eram diferentes, tinha um pessoal que vinha da Fibase que pensava uma coisa, tinha um pessoal que vinha da Ibrasa que pensava outra, era um ambiente muito ruim. Eu diria que não foi um bom ambiente no banco naquela época. O banco funcionava muito com base em pressões externas, operações... Foi criado um tal de FUNPAR  naquela ocasião, que era um fundo para saneamento financeiro, sob o qual pairavam dúvidas, suspeitas, uma conversa muito esquisita, para efeito de BNDES. O BNDES, diferentemente da maior parte dos órgãos públicos − isso é uma coisa da qual nós sempre nos orgulhamos muito − sempre foi um órgão muito íntegro, porque deu condições de trabalho aos empregados. Isso me preocupa hoje, porque os empregados tinham clareza de que estavam cumprindo uma missão importante, uma coisa que era importante para o país, vestiam a camisa, e isso fazia com que houvesse um caldo de cultura dentro da organização de muita integridade. Integridade sob todos os aspectos. Integridade ao nível da honra pessoal, você não tinha: "Sujeito, fulano de tal". Você apontava "Sicrano e beltrano, essas pessoas estão na dependência que o banco tinha na rua da Matriz, porque certa vez insinuaram para o empresário que queriam alguma coisa..." E as pessoas ficavam estigmatizadas para o resto da vida, então era uma coisa que sempre foi muito importante no banco, essa questão da integridade, o que não é o padrão do serviço público brasileiro. Agora também, se todo mundo estivesse aqui morrendo de fome, pode ter certeza que fome e integridade não se coadunam. As pessoas viviam decentemente, tinham condições de viver com dignidade e tudo, viviam bem. Obviamente cometiam erros bárbaros, que podiam gerar prejuízos, como foi todo esse processo de desestatização das empresas, mas é aquela história do momento político, do momento econômico que nós estávamos vivendo. Mas essa fase do Sande não foi uma fase muito tranquila em certos aspectos, havia muita influência política. E eu e outras pessoas sofremos muito na Bndespar, nessa época, apesar do Spina nos dar todo apoio. Era um sujeito muito correto, muito íntegro, mas existiam influências negativas pairando sobre a gente.

 

P/1 - E o senhor foi ser diretor quando?

 

R - Aí aconteceu um fenômeno interessante, que foi... Quando o Sande saiu de presidente, de repente, porque ele resolveu apoiar o Maluf e o Antônio Carlos Magalhães, que havia indicado o Sande, chegou para o Figueiredo, presidente, e disse: “Presidente, quem nomeia e desnomeia?” “Desnomeia” “Então eu quero desnomear o doutor Sande.”  Veio para cá um sujeito, designado pelo próprio Antônio Carlos Magalhães, muito sério, muito correto, que era o Jorge Lins Freire, que chegou e, em função do respeito que tinha por nós, ele era um sujeito também profissional. Nos chamou, a mim e ao pessoal que brigava muito naquela ocasião, para defender o que nós entendíamos que eram os direitos do banco e do Bndespar, e nos deu todo apoio. Subsequentemente ao Jorge, porque aí mudou o governo, veio o Dilson Funaro para ser presidente do banco, com quem nós tínhamos também uma enorme relação. E o Dilson, o Jorge Freire... Foi o Dilson, depois o Zé Carlos Perdigão Pereira da Fonseca. O Zé Carlos um belo dia chegou para a gente e disse: "Olha, eu quero que vocês sejam diretores." Eu, o (Amin?), o Edgar Lacerda. Vocês entrevistaram o Edgar Lacerda?

 

P/1 - Não.

 

R - E algumas pessoas que eram os técnicos. Nós viramos diretores do Bndespar, ficamos bastante tempo como diretores do Bndespar.

 

P/1 - Você se aposentou como diretor?

 

R - Não, eu fiquei bastante tempo, fiquei até 86, quando um belo dia o Gros, que na época era presidente do Banco Central, me liga dizendo que precisaria de mim, e o Funaro era ministro da fazenda. Ele disse que ia haver uma intervenção no BANERJ [Banco do Estado do Rio de Janeiro] e que precisava montar uma equipe de primeira linha, aquelas conversas quando querem te levar para algum lugar. Então aí é o canto da sereia. "Não, porque você vai ser o vice-presidente da parte de operações do banco de investimento..." Vieram com uma conversa mole para cima de mim, e perguntaram se eu toparia ir para o BANERJ, na intervenção, para reestruturar o BANERJ. A primeira intervenção do BANERJ eu: "Não, estou muito bem no Bndespar, não quero." O Funaro me ligou − e eu admirava muito o Funaro, ele era um espírito muito puro − "Não, precisamos de você, é uma missão." Eu topei. Fui ser interventor no BANERJ, junto com um grupo de pessoas, de mercado. No BANERJ, quando eu cheguei, em 15 dias, 20 dias, eu disse: "Aqui eu fico maluco ou viro ladrão. Eu tenho que sair daqui, senão não dá." Um negócio horroroso as coisas que nós víamos no BANERJ, eu vi que eu tinha errado. Acabei ficando lá seis meses, louco para voltar. Nós concluímos uma fase do trabalho, fizemos um relatório para o Banco Central, aí eu voltei para o BNDES. No BNDES voltei, o cargo de diretor do Bndespar estava ocupado, não tem esse negócio de guardar cargo para os outros, e o Marcos Vianna era presidente do banco. Aí o Marcos Vianna... Não, o MárcioFortes. O Márcio disse: "Eu tenho uma missão para você." "O que é? Ninguém chama amigo para missão” “Para ser superintendente da área administrativa do BNDES.” Na época o banco estava conflagrado, tinha uma confusão, um rolo. Meu colega, que era superintendente, uma excelente figura, o José Adauto... Estava um rolo, um questionamento. Aí eu fui Superintendente da administração do banco, mas disse para o Márcio: "Fico aqui dois anos, em dois anos eu quero sair daqui. Não vou ficar de Superintendente da administração” É muito chato, porque todo mundo olha para você e reivindica, quer aumento, salário... É só abacaxi.

 

P/1 - É mais difícil administrar o pessoal do que o material?

 

R - Com certeza. Administrar pessoa é a coisa mais chata que tem, mais delicada. Tem gente que gosta. Eu confesso a vocês que não é das coisas mais prazerosas. Aí completei dois anos, cheguei para o Márcio: "Chegou o prazo." "Que prazo?" "Dois anos." "Que prazo?" "Não vem com essa história não. Quero ser superintendente financeiro, da área financeira internacional, e eu quero ser supervisor financeiro da área internacional" − na maior cara de pau − "Como?" "Quero ser, porque você me prometeu..." Daí acabou que ele topou, e eu fui ser superintendente na área financeira internacional. Depois disso acabei sendo diretor do banco, no governo Sarney. Aí mudou o banco, veio o Collor e nós fomos devidamente escorraçados. Eu me candidatei deputado federal nessa ocasião, em 1990.

 

P/1 - Mas com o Collor você se licenciou?

 

R - Não, eu me licenciei para me candidatar como deputado federal pelo PSDB em 1990. Saí da diretoria e me candidatei. E não me elegi, porque o PSDB era o Ronaldo Cezar Coelho candidato a governador, e foi um desastre. Depois eu voltei para o banco, o pessoal do Collor aqui, com quem não me entrosava bem, o Modiano... Não eram pessoas do meu grupo, e eu fiquei um ano num ostracismo, quando fui chamado para ser diretor da CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. Fiquei um ano e meio na CVM, fui presidente da CVM quatro anos e meio e reuni condições para me aposentar, cheguei para o Malan e disse: “Ministro, eu quero me aposentar, quero sair da CVM” “Ah, por quê?” “Porque eu quero conseguir me aposentar no BNDES, quero sair do setor público. Fiquei no setor público 30 anos, agora eu quero montar o meu escritório de advocacia”, onde estou hoje. Em termos de trajetória, assim, sumarizando. Agora o banco é uma fantástica escola, em termos de ambiente de trabalho, em termos de ambiente intelectual, desafios intelectuais, dá muitas oportunidades para você, você conhece o Brasil, participa das discussões nacionais.

 

P/1 - Você viajou muito?

 

R – Viajei, viajei pelo Brasil todo, a gente conhece muito o Brasil. Poucas viagens para o exterior, mas uma boa parte mesmo... Mas é mais do que viajar, você participa de discussões importantes sobre o país, sobre a economia brasileira, sobre os caminhos em desenvolvimento, sobre a questão social. Quando eu fui diretor do banco, fui diretor da área social também. Por uma infelicidade, um erro, uma das primeiras medidas que foram feitas no governo Collor foi acabar com o social, que depois foi retomado Luís Carlos Mendonça de Barros.

 

P/1 - Nesses anos, o que você acha que mudou no banco desde que você entrou até quando você saiu? O que foi a grande mudança?

R - Acho que o banco mudou em muitos aspectos para muito melhor, passou a ter uma visão muito mais pragmática das coisas, ideológica... O pessoal do banco se instrumentalizou com técnicas mais modernas financeiras, de análise e gestão financeira, de análise de projetos, uma visão mais holística da empresa, mais integrada da empresa, e não só a visão do projeto. Porque eu peguei a fase do projeto, se via o projeto, não se via a empresa. O banco hoje tem, com certeza, a percepção de que um projeto não vai bem sem empresa, se é uma empresa eficiente, se ela tem empresário... Eu diria que o banco abriu bastante a sua frente, a sua atuação, hoje em dia ele está presente em vários segmentos. Aquela fase que era muito de ferrovia, energia elétrica, em que ele era quase que monosetorial, e depois bens de capital, indústria básica, ele superou. Hoje o banco analisa bons projetos de uma maneira bastante abrangente, passou a perceber que isso é relevante principalmente no setor de serviço, para o desenvolvimento de algumas regiões − o Nordeste, por exemplo − em vez de ficar com aquele viés industrialista que era o banco. O banco gostava de indústria, as pessoas achavam que o desenvolvimento era indústria. Hoje não, a visão do que é importante em termos de desenvolvimento é uma visão mais aberta, acho que esses são os pontos positivos. Tem pontos negativos. Eu acho que o banco está hoje com uma preocupação muito grande de ser um banco de investimento eficiente, com um modelo muito americano de gestão. Eu acho que isso é um desastre numa perspectiva de médio e longo prazo. Você ter técnicas bancárias que sejam modernas eu acho perfeito, agora, você achar que o banco deixou de ser uma empresa pública, com um papel público a ser desempenhado, para querer ser uma empresa privada, um banco privado, de investimento privado, isso para mim é o caminho mais curto para dar errado, porque nós continuamos sendo um banco público, um banco estatal com uma função pública. Para ser um banco de investimento privado existem outros que são melhores do que a gente. Eu tenho um pouco de receio desse viés muito privatista que o banco está. Agora, tem gente que defende o processo. Como se diz, faz parte.

 

P/1 - Finalizando, o que significa o BNDES para você?

 

R – Significa, na minha vida, a coisa mais importante que aconteceu, em termos profissionais, e em grande parte em termos pessoais. Com certeza a minha trajetória de vida foi determinada pelo meu concurso de estagiário, com certeza. O que eu tenho, do ponto de vista material, eu consegui no BNDES. Minha mulher também é do banco, isso também ajudou muito.

 

P/1 - Sua mulher trabalha em que setor?

 

R - Ela trabalha... É responsável pela parte jurídica das operações internacionais. Eu não sei nem qual é o título disso hoje.

 

P/1 - Qual é o nome dela?

 

R - Imaculada Costa e Silva. Ela também é advogada, ela fez concurso subsequentemente ao que eu fiz, anonimamente. Você veja como são as coisas: "Ah, conheceu no banco?" Não, não conheci no banco, nós já éramos casados.

 

P/1 - Vocês trabalharam juntos aqui?

 

R - Não, nunca trabalhamos juntos. Mas só para dizer como era a cultura do banco: quando a minha mulher resolveu fazer concurso para estagiária do BNDES, eu combinei com ela que ela deveria abreviar o nome. Era Imaculada Passarelli C. e Silva. Eu disse: "Porque se descobrirem que você é minha mulher, é capaz de você não ser aprovada só por isso na entrevista." Então ela teve que ficar “na moita”. Para você ver como era a preocupação do banco com essas questões da integridade. Era uma coisa que a gente tinha uma preocupação danada.

 

P/1 - Era o contrário da carteirada.

 

R - Era o oposto da carteirada. Depois que ela foi aprovada as pessoas obviamente souberam, mas nós nunca trabalhamos sequer no mesmo segmento de elevador. Quando eu estava na zona alta ela estava na zona baixa, quando ela estava na alta eu estava na baixa. Eu fui ser superintendente da área financeira internacional do banco e ela era gerente. A primeira coisa: eu fui superintendente, ela saiu. Gozado, talvez por isso a gente esteja casado há muito tempo. Eu conto nos dedos de uma mão quantas vezes eu saía para almoçar com ela por ano. A turma dela era a turma dela, a minha turma era a minha turma, era como se nós trabalhássemos em empresas completamente diferentes.

 

P/1 - Francisco, o banco está fazendo 50 anos. O que você acha desse projeto de memória e de ter dado o seu depoimento?

 

R - Eu acho muito interessante, muito bom. Eu não sei se alguém vai ler isso ou vai ouvir isso lá no futuro, mas quem sabe se vocês botam isso num lugar, numa coisa vedada, com metal, num bloco concreto, daqui há 500 anos descobre-se essas fitas aí, alguém vai achar isso aí. Mas eu acho extremamente positivo, eu só lamento não ter tido tempo para contar as histórias sexuais que envolvem...

 

P/1 - (riso)

 

R - Para qual de vocês eu contei?

 

P/1 - Foi para mim.

 

R - Foi para você que eu contei. Aquela ali... Vocês chamaram o Cássio França?

 

P/1 - Conta agora, rápido.

 

 R - Posso falar isso? Essa precisa ficar para a posteridade. Você conhece essa história? Essa merece ficar para a posteridade. Eu era superintendente da área de projeto (5?) do BNDES, e um belo dia o coronel Oliveira, que é o responsável pela segurança − se bobear ele está aqui até hoje − ele me procura e diz: "Aconteceu um fato gravíssimo." "O que houve, coronel?" "É que ontem à noite, no quinto subsolo, as luzes já estavam meio apagadas, tinha um fusca no canto mais escuro, balançando. E o segurança me ligou, fomos lá, os cinco seguranças, e de repente nós demos o flagrante." "O que houve, coronel?" "Tinha um casal tendo relação sexual no banco de trás do Volkswagen" "Um casal tendo relação sexual?" "Um absurdo! É, uns jovens." Aí ele me falou o nome das pessoas, estão até hoje no banco, por isso eu não posso falar o nome. Mas são pessoas grandes, a moça é muito grande, deve ter 1 metro e 75, aqui a minha altura, e o rapaz 1 metro e 85. Isso num banco de trás de um fusca...

 

P/1 e P/2 - (riso)

 

R - Aí... "E o que o senhor fez?" "________, é um absurdo, levei lá para a sala da segurança. E o senhor sabe o que me deixou mais decepcionado, doutor Costa e Silva? Foi ele me dizer que... porque eu perguntei 'Não tinha outro lugar para fazer isso?' Aí ele disse: 'Não, é que ela tinha que ir embora cedo para casa." Veja a desculpa que ele deu. "O que o senhor me sugere? Vamos punir?" "Não, já repreendi." Aí eu fui ter um despacho com o meu diretor, o Cássio França, que é uma figura antológica no banco, e relatei: "Cássio, aconteceu um fato desagradável." E relatei o que o coronel me relatou. O Cássio, circunspecto, cara fechada, disse: "Francisco, nós temos que demitir." "Como assim?" "Eu não admito isso, não posso aceitar isso, temos que demitir. Eu não aceito isso, acho isso um absurdo, isso não pode ficar assim, temos que demitir, Francisco, não vou tolerar isso." "Calma Cássio. Se eu soubesse, eu não te contava." "Não, eu não vou aceitar isso, temos que demitir, isso não vai ficar assim." "Espera aí Cássio, os dois são jovens." "Não, Francisco, demitir esse coronel filho da puta! A foda não se interrompe por nada nesse mundo! Esse coronel pode ter transformado esse rapaz em impotente. Já imaginou, Francisco? Está ele lá no maior amor, o susto que ele não levou com esse troço!" (riso)

 

P/1 e P/2 - (riso)

 

P/1 - Francisco, obrigada pela sua entrevista.

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