Busca avançada



Criar

História

Do futebol ao bar

História de: Paulo César
Autor: Audrey Santos Barbosa
Publicado em: 15/06/2016

Sinopse

A história dos donos de um bar brasileiro que já viajaram o mundo em nome do futebol.

Por: Ana Juchen, Audrey Santos e Gabriela Carvalho.

Tags

História completa

-> O QUE? QUEM?
Paulo Cesar Fonseca Nunes (37 anos) é dono de um bar na universidade gaúcha UniRitter – Campus Zona Sul, junto de sua esposa Raquel (37 anos). Foi conversando com o casal de empreendedores que descobrimos que Paulo já foi um jogador de futebol profissional de atuação internacional e sua esposa (que hoje cursa ensino superior) decidiu abandonar os estudos para acompanhar seu marido nesta jornada. Foram oito anos de carreira profissional e quinze anos no total como zagueiro, com passagens em times brasileiros e internacionais. Paulo e Raquel deixaram para trás no Brasil família e estudos para seguir a carreira no futebol. Juntos, conheceram vários lugares mundo afora, como Alemanha, China, o Irã, Portugal (viagem “bate e volta”), Qatar e Honk Kong (litoral sudeste da China). Por terem conhecido tantos lugares e culturas, são donos de diversas histórias, algumas encantadoras e outras nem tanto.

-> COMO SE CONHECERAM?

Aos 19 anos, Raquel ia assistir com a irmã de um amigo dele, no Estádio Olímpico, os jogos “preliminares” do Grêmio - time em que Paulo jogava na época. Um dia ele a notou na arquibancada e perguntou para e perguntou pra tal irmã quem era, então Paulo e Raquel acabaram se conhecendo. 3 anos depois, em dezembro de 2000, eles casaram. Em janeiro de 2001 foram para a Alemanha. Raquel, que cursava Informática e trabalhava numa empresa multinacional, largou tudo para acompanha-lo nessa jornada.


-> AS VIAGENS E A VIDA LÁ FORA

Emprestado pelo time do Grêmio, a primeira parada foi no time Stuttgarter Kickers, na Alemanha, onde tiveram praticamente uma lua-de-mel. Eles não dominavam a língua local, Paulo até tentou ter aulas de alemão, mas acabou abandonando o curso para se dedicar ao futebol. Enquanto estiveram lá perceberam que havia um sutil preconceito racial, pois segundo eles, o preconceito não era notado de maneira explicita, com palavras e/ou xingamentos, mas sim com olhares e certa frieza para com o casal. Estes comportamentos eram notados nas ruas, mas não dentro do time, no qual Paulo era muito querido e valorizado pelos companheiros de equipe. Segundo eles, ninguém lá chama um negro de “negro”, como se assim pudessem estar “falando algo errado” ou coisa do tipo. Mesmo com essas situações, eles não se deixavam abalar. Em seguida – no mesmo ano, 2001 – voltaram para o Brasil, pois Paulo foi emprestado ao time do Joinville. Nessa mesma época, atuou também no Campinense e no Inter de Lages, todos em Santa Catarina. Morando em Florianópolis por quase 4 anos, descobriram um lugar que amaram viver e imaginam voltar um dia.

Em 2004 saíram do Brasil novamente, mas desta vez o destino era a China. Paulo foi emprestado para o Anxinyuan e atuou no time por uma temporada. Durante esse período o casal relatou como sendo o lugar mais fantástico e onde eles mais gostaram de conhecer e viver. Como praticamente não existe negros lá, o casal era bastante assediado pelos moradores, que por não estarem acostumados com a cor de pele deles, ficavam bastante curiosos. Paulo e Raquel contam que esse interesse dos chineses não acontecia de uma forma preconceituosa, mas sim carinhosa, tanto que muita gente pedia para ser fotografada com o casal. Não aprenderam o Mandarim, linguagem local da China, enquanto estiveram por lá. O casal se comunicava através de um pouco de inglês, sinais e mímica, o que surpreendentemente funcionava. Paulo muitas vezes passava até 5 dias viajando para jogar pelo seu time, e como Raquel se sentia muito sozinha durante esse tempo, resolveram ter o primeiro filho.

2005 foi diferente. O casal saiu da China, o primeiro filho chegou (nascido no Brasil), Paulo saiu do Grêmio de vez. O jogador foi vendido ao Esportivo, time do interior gaúcho, onde permaneceu jogando durante 1 ano. Em 2006 foi emprestado ao J. Malucelli, em 2007 ao Avaí, no qual atuou ao lado do jogador Paulo Turra por cinco partidas, até descobrir outra viagem que viria pela frente. O jogador e sua esposa foram parar no Qatar, pois Paulo estava sendo emprestado ao time Al-Shamal. A estadia no país foi bem tranquila, lá fizeram vários amigos e simpatizaram com o carisma da população, que os recebeu de braços abertos. Tanto nas ruas quanto no time em que Paulo jogava não houveram descriminações. A viagem, contudo, foi curta: logo o Esportivo vendeu Paulo para o Novo Hamburgo, em 2008. O segundo filho do casal surgiu nesta etapa da vida deles. A gestação de Raquel começou no Qatar e terminou no Brasil, com o nascimento de Israel.

Segundo Raquel, os filhos foram uma forma de não se sentir tão sozinha, pois Paulo vivia muito ocupado entre jogos e viagens e ela acabava ficando muito tempo sem ninguém por perto. Por mais que ela fizesse algumas amizades por onde passava, não era a mesma coisa. Como ambos sentiam muita falta de suas famílias, os filhos vieram no tempo certo. Em 2008 então estavam no Brasil até Paulo ser emprestado ao Shenyang, voltando então para a China em 2009. O filho mais velho, Nathan, teve que se adaptar a uma rotina exaustiva de estudos. Sua escola ficava há 1 hora e meia de onde eles moravam, e com aproximadamente 5 anos ele teve de se esforçar para aprender inglês. Mesmo tendo sido bastante difícil, ele teve maturidade para encarar esse momento difícil e conseguir vencer esta etapa.

Em 2010, Paulo e sua família foram para uma próxima aventura: conhecer o Irã. Shahdari Tabriz era o novo time para o qual Paulo era emprestado e Tabriz era a cidade na qual a família passou a viver. Segundo eles, foram bem acolhidos pelo povo de lá, que sempre os chamavam para festas e outros eventos. Relataram no entanto um pequeno incomodo em se adaptar com a cultura local, na qual homens e mulheres que não fossem casados não poderiam se falar e as festas eram separadas por gênero devido a questões de desvalorização para com a mulher. Raquel teve de usar burca para respeitar os costumes e poder conviver socialmente durante o período no Irã. Paulo nos contou que certa vez caminhando pela rua, foi abordado por duas mulheres que, sem jeito, se arriscaram a pedir desculpas pela cultura que a mulher dele teve de se adaptar e que elas se envergonhavam muito por isso. Em questão de preconceito racial, não houve nenhum caso, porém até o dia de irem embora, Paulo e Raquel haviam se convencido de que o pior preconceito é o de que vários outros locais do mundo viam (e veem) este povo apenas como “terrorista”, pois descobriram realmente que o país vai muito mais além do que este rótulo adquirido mundialmente por conta dos diversos acontecimentos terroristas noticiados na história.

Em 2011 Paulo foi vendido para o Santa Cruz, time pernambucano. No ano seguinte, ainda em Pernambuco, atuou no time Central durante uma temporada. A última viagem do casal foi em 2013, para Honk Kong. Paulo foi chamado para ser zagueiro do Sun Pegasus FC. Foi nesta experiência em que ele sentiu em alguns momentos preconceito pela sua cor de pele. Segundo ele, era preciso o dobro de esforço do que seus colegas de equipe para que a diretoria o valorizasse e, mesmo muitas vezes ele tendo um desempenho melhor, quem ganhava o reconhecimento era o outro zagueiro... mesmo que ele fosse visto como o melhor em campo, outros colegas do time acabavam ganhando os holofotes. O preconceito racial não era escancarado, mas era forte o suficiente para ser percebido. Procurava não se abalar com a situação, pois os colegas de campo o tratavam bem, como deveriam todos fazer. Mas infelizmente, o clube deixava de divulga-lo muitas vezes e isto era um problema para ele que tinha o futebol como profissão.


-> MUDANÇA DE PLANOS

Paulo sabia que a carreira de jogador de futebol terminava cedo e começou a pensar seu futuro e em sua aposentadoria. Nas palavras dele, “carreira de futebol é curta” e seu desejo era parar de jogar enquanto ainda tinha um rendimento bom para a faixa etária. Assim, ele decidiu se aposentar e pendurou as chuteiras em 2014. O casal decidiu ficar no Brasil pela família, pois sentiam saudades e necessidade deste vínculo familiar principalmente por causa das crianças, que cresciam longe dos parentes. Com Paulo aposentado de sua carreira e de volta a Porto Alegre, Raquel resolveu voltar a estudar e começou um curso de Processos Gerenciais - EAD na Ulbra. Para recomeçarem a vida profissional no Brasil precisavam de algo novo. A ideia inicial era comércio, franquias, negócio próprio, mas achavam um passo muito grande e arriscado a ser dado. Foi então que uma amiga do casal soube que havia um espaço disponível na UniRitter (Campus Zona Sul) e os indicou. Não foi uma oportunidade projetada e não possuíam experiência no ramo, contudo apostaram na ideia e assim surgiu no prédio C da universidade o bar “Empório 555”.


-> EMPÓRIO 555

No ano de 2015 investiram neste novo projeto, que tem dado resultados bastante positivos para o casal, não só economicamente mas também pela experiência gratificante. O nome “Empório” foi pensado para trazer a ideia de armazém, onde pode-se encontrar de tudo um pouco. O número “555” foi escolhido por ser o endereço da faculdade e o saleiro no logotipo passa a ideia de algo “caseiro”, bem como os salgados que eles vendem. O bar se destaca entre os outros da faculdade por ter uma decoração mais aconchegante e gourmetizada. Cada detalhe foi pensado por um arquiteto amigo do casal, com o intuito de transmitir um conceito mais acolhedor. Para seguir coerente com a proposta do local, eles apostam na simpatia para atender os clientes, não como sendo uma obrigação mas sim por prazer em trabalharem. Por conta disto a experiência se tornou mais do que vender ou obter lucros: eles procuram ter um relacionamento diferente com o público, os tratando sempre com muita simpatia e cordialidade.

Os alunos também demonstram estar gostando do diferencial do atendimento deles, tanto que o casal conta que já se tornou amigo de muitos que frequentam o bar. Apesar da maioria dos comentários serem positivos, já houveram situações em que alguns alunos e professores chegavam ao estabelecimento com um ar de desprezo. Aconteceu já de um desses perguntar com tom pejorativo: “vocês são os donos do bar?”, e ao responderem que sim, o tratamento para com o casal mudou de forma radical. São casos incomuns de acontecer pois felizmente as maiorias dos comentários são do tipo “a comida é sensacional”, “melhor atendimento dentre todos os bares da faculdade”, “quem atende sempre está com um sorriso no rosto”, entre outros elogios. Eles dizem não perceber preconceito forte dentro da faculdade, mas quando acontece de maneira sutil, eles não se deixam abalar e continuam atendendo de modo respeitoso e atencioso.


-> VÃO VOLTAR A VIAJAR?

O casal conta que pensa em viajar futuramente e talvez até voltem a morar na China, onde eles dizem ter sido um lugar que deixou muitas saudades. Voltaram e ficaram no Brasil mais por conta de terem ido viajar muito novos e terem passado muito tempo longe de suas famílias. Apesar de a afetividade brasileira fazer falta lá fora, o casal mostra muito carinho por cada pessoa e lembrança dos diferentes lugares que conheceram. Por hora, eles estão felizes e satisfeitos morando aqui, mas pode ser que, no futuro, o ex-zagueiro internacional e sua fiel companheira de vida façam toda a simpatia do bar Empório 555 conhecer novos horizontes – o que não seria nada mal para o resto do mundo, ainda mais se levarem por aí seus largos sorrisos, enormes corações e as diversas delícias do Empório que já tivemos a oportunidade de provar.

Por: Ana Juchen, Audrey Santos e Gabriela Carvalho.

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+