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História

Do sítio do pica-pau amarelo à família que emociona

História de: Eduardo Goldenberg (Eduardo Braga Goldenberg)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2019

Sinopse

Eduardo Goldenberg é carioca da Tijuca, nascido em 1969. Tem belas recordações da infância vivida no meio do matriarcado, das brincadeiras, mas, em especial, do afeto, do acarinhamento, do amor que cuida. E nesse ponto, inexcedível era a bisavó. Também guarda momentos do seu núcleo familiar – na praia, no Maracanã… Até que a escola serve para, também, oferecer-lhe uma consciência política. Nesse quesito estão presentes o Brizola, como ídolo; o ambiente estudantil como consequência da redemocratização. Faz, então, a sua opção pelo Direito; estrutura em seu pensamento a meta-síntese da advocacia como garantidora da Justiça e dos direitos fundamentais para toda gente. Vence até mesmo os desafios impostos pelo Destino para encontrar, em sua inteireza, uma família que possa chamar de sua. Encontrou. Vive a grandeza e a beleza desse momento.

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História completa

Eduardo Goldenberg é o meu nome. Carioca da Tijuca, 27 de abril de 1969. Entre aslendas e mistérios da família, estaria a de que o meu pai teria tido a visão de um índiona véspera do meu nascimento, avisando da minha chegada. Estou, portanto, àsvésperas de completar o meu primeiro meio centenário.Por toda a infância, lembro de ter morado a um passo de minha avó e minha bisa.Costumo dizer que minha memória assinala uma criação sempre “no meio domatriarcado”. Era uma vila, uma verdadeira comunidade. Ela existe até hoje e asrecordações dali parecem não desagarrar de mim – frequentemente me vejo em seuportão, procurando aquele menino que conheceu o carinho, o afeto, os cuidadosespeciais naquele lugar. Até hoje eu a comparo a uma espécie de Sítio do Pica-pauAmarelo, com direito a avó e bisa de mesmo nome: Matilde. Ali, todas as minhasvontades eram feitas, eu tinha colo e contação de histórias. Onde a gente soltava pipa,pulava amarelinha, jogava bola de gude. Passeava no táxi do “seu” Mário. Aliás, eraisso que eu queria ser quando crescesse: motorista de táxi, como o “seu” Mário. Até,em conexão com esse desejo de criança, um amigo meu, taxista, me deu de presente“um dia de táxi” quando eu fiz 40 anos. Juro que eu chorei, de emoção, do primeiro aoúltimo passageiro.Mas, voltando à infância, guardo na memória o contato com os avós. A história,contada entre dentes, de uma inicial rejeição à minha mãe por ser uma “goi” - nãojudia. De encontrar com o meu avô quase todos os dias, numa roda de aposentados,ele falando ídiche com os companheiros, me acarinhando e colocando uma moeda emmeu bolso. Nessa época, a “gói” já tinha sido aceita.Mas depois, com o tempo também, acho que isso foi esfumaçando, sabe? Eu tenho uma
memória do meu avô, de um homem muito terno…
Nós não participávamos – que eu me lembre – de cerimônias religiosas, mas meu painos colocou no Monte Sinai, o clube dos judeus por excelência, e eu fui circuncidadopor um rabino. Pago por meu avô. Na sinagoga, nunca faltava quem oferecesse um
dinheirinho às crianças para permanecerem e garantirem quorum para a reza. Agora,das lembranças de criança, a mais forte foi, sem dúvida, a do Maracanã. A famíliavascaína reunida vendo o Zico me pegar pela mão e dar com ele a volta olímpica. Foimeu primeiro ídolo. E o Flamengo, o meu clube dali por diante. Meu segundo ídolo foio Brizola. Desde o colégio, que eu o admirava. Pela mensagem, pelo carisma, pelocheiro de povo que ele exalava. Como eu, também, me identifiquei demais comanseios e necessidades populares. E como eu tinha uma forte ligação com a BethCarvalho, brizolista roxa, acabei protagonizando um episódio que significou desagravoa ela e homenagem ao Brizola candidato. Foi num festival promovido pela Globo,arqui-inimiga do meu ídolo. A repercussão foi tão grande, pela ousadia, pelo desafio àGlobo, pela fidelidade ao candidato, que dali por diante – e até sua morte – privei desua intimidade e de sua família – os netos são meus amigos até hoje – e recebiinúmeras demonstrações de consideração. Tanto que meu único filho chama-seLeonel. Meio que óbvio, não é? Então, o que mais me atraía no Brizola era suacapacidade de falar o que o povo queria ou precisava ouvir, era essa sensação depertencimento ao povo. Algo que eu, também, cultivava. Ser brizolista não era muitodo agrado da minha família, de perfil mais conservador, digamos assim. Mas…Aí chegou a época de decidir o que ser de verdade, além de taxista na fantasia. Estavaentre o Jornalismo e o Direito, optei por este último. E por quê? Porque eu semprepensei, sobretudo, na grandeza que haveria por trás de um trabalho em defesa doDireito para aqueles desamparados, desfavorecidos materialmente. E, de uma maneirageral, a beleza que seria fazer prevalecer, em qualquer hipótese, o justo, o correto, adignidade nas relações humanas. Fui privilegiado por estar na Faculdade num dosperíodos mais férteis do universo jurídico, que foi o período de redemocratização dopaís; Constituinte; desmonte dos mecanismos de exceção. Advogado, imprimi minhamarca: eu e apenas eu. Tocando o meu escritório com a preocupação de estar sempredisponível para os clientes. Em suas dúvidas, eles não tinham relatórios. Tinham aminha palavra, a minha orientação. Tive embates memoráveis, como os queenvolveram a causa de César Costa Filho e Aldir Blanc, este, meu cliente. Mas tambémaqueles mais marcantes, mais humanos, como o caso da faxineira Madá e sua pequenapoupança que o banco fez desaparecer. Ela chegou até mim através de uma pessoaamiga e, de pronto, eu redigi um texto reivindicando seu capital. Quando eu soube queela havia sido humilhada e ridicularizada, eu fui atrás de seus direitos como quem caçaum animal selvagem. A poupança era de mil alguma coisa. Ela recebeu quasecinquenta mil. A questão dos danos morais foi, naquele caso, plenamente atendida. Euchorava mais do que ela durante a leitura da sentença.Bom, aí eu dei conta de que tinha uma vida bem resolvida, exceto na parte afetiva – aconstituição de um núcleo familiar meu. Estava no segundo casamento, resolvemosengravidar – eu também, de tanto que eu queria uma família – quando o destino nosmostrou sua face mais perversa: levou-me a mulher amada, arrastando-a com umcâncer qualquer. Mas esse mesmo destino é caprichoso e surpreendente. Conheci umapessoa que significou o meu renascimento. A Phênix renascida da dor e do sofrimento.E aí veio Leonel. Só tem uma coisa: agora eu quero viver mais, e mais, e mais.
Acompanhar Leonel o máximo que puder. Aproveitar os momentos mais ternos davida – eu, minha mulher, meu filho, meus amigos. Até quando for possível, comqualidade. Porque, como diz uma amiga nossa: “Vocês são uma família queemociona”. E é isso que queremos ser.

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