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História de: Mirian Regina Pereira
Autor: Mirian Regina Pereira
Publicado em: 26/04/2005

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História completa

Dizem as más línguas que bom escritor é aquele que consegue transmitir para o papel suas experiências de vida, então vamos lá. Eu nasci em Franca, no interior de São Paulo, no dia 31 de dezembro de 1974, minha tia escolheu o meu nome, Mirian, não tenho certeza, mas creio que a escolha foi feita em homenagem a uma irmã, que devido a um parto mal sucedido que minha mãe teve antes de mim, Palmira, nasceu morta.

Por causa dela, eu me chamo Mirian, Mirian Regina Pereira, mas costumo assinar apenas Mirian Pereira, sou descendente de uma família grande e muito querida, somos em seis, meus pais, Irineu e Odete, e dois casais, Sandra, eu, Ronaldo e Rodolfo, e muitos primos. Não tenho grandes recordações de quando era pequena. Lembro-me que sempre fui gorda, e pelas fotos confirmo que desde que nasci, faria parte do ciclo dos eternos regimes.

Conta minha mãe, que tirou minha chupeta cedo, por causa de minha irmã mais velha, pois ela tomava as minhas para chupar. Mas isso, eu não me recordo. Minha casa, meia água na época, casa pequena de três cômodos, morávamos nós e por lá passaram vários parentes, então sempre estivemos rodeados de gente. Meus avós morreram quando eu ainda era muito pequena, então não tenho muitas recordações, mas os irmãos caçulas de minha mãe foram criados por ela, então são para mim como irmãos mais velhos, Oracio e Silvana, todos juntos éramos osso duro de roer. Minha mãe sempre foi muito brava, controlava a todos com mão de ferro.

Certa vez, achamos uma moeda e pedimos para ir ao bar comprar bala, neste dia estávamos em 15 crianças em casa, e eu era a caçula, devia ter uns 5 anos. Minha mãe não autorizou, mesmo assim fomos, tios, primos e irmãos, para o bar no quarteirão da frente. Quando voltamos, encontramos minha mãe no portão, com chinelo na mão e fila para apanhar, em ordem de tamanho, eu a menor, era a última.Todos levaram uma chinelada na bunda e só, eu fugi, corri uns oito quarteirões, certa de que chegaria no serviço de meu pai, mas fui ludibriada pelo meu tio a voltar para casa, Orácio, mais conhecido como Dói, que foi ao meu encontro de bicicleta, convenceu me de que minha mãe não estava mais no portão, e que ela provavelmente viria atrás de mim, alcançaria me, e que o ideal seria voltar e esconder de baixo da cama, assim ela não me encontraria.

Eu inocente acreditei E conforme o combinado, ela realmente não estava no portão, e assim que entrei de baixo da cama, fui tirada de lá com varinha de marmelo, apanhei dobrado, por teimar e fugir. Mas não aprendi muito com isso. O meu pai, sempre trabalhou no setor de segurança, veio para Franca transferido pela Guarda Noturna do Paraná, para a Guarda Noturna de Franca, e neste período ainda funcionário, andava armado, e trabalhava a noite. Eu como toda criança acordava super cedo, e ia ao quarto de meus pais, e um dia encontrei sobre a penteadeira, a arma. Não sei o que pensei, sei que apontei para o meu pai e falei: "pa-pa". Minha mãe que acordou neste momento, obviamente, ficou desesperada. Ela diz que a salvação foi que o meu dedo não alcançava o gatilho e nunca mais nestes últimos 25 anos vimos uma arma em local de fácil acesso, e graças a Deus, minha família não foi mais uma vítima na extensa lista de acidentes domésticos que terminam em tragédia.

Mas eu continuava peralta, e no fundo do quintal de minha casa, havia um poço onde minha família abastecia-se de água, quando esta faltava no bairro. Mas eu resolvi brincar de esconde-esconde e não comunicar para ninguém. Vou contar agora um segredo, que até hoje ninguém sabe, eu na verdade iria contar para minha irmã, mas minha mãe tinha acabado de lavar os meus pés, me colocado para dentro de casa e faria o mesmo com a minha irmã, pois iria começar um temporal, então resolvi brincar, corri para avisá-la, mas ela já estava vindo, e tinha o mal hábito de olhar onde estava me escondendo. Então para ser mais rápida que ela, eu me escondi, e não avisei, o segredo está em que todos acreditam que eu dormi debaixo da cama, e não ouvi eles me chamarem, mas isso não é verdade, eu ouvi, e no início, não sai porque estava brincando, e depois quando foi ficando sério a coisa, tive medo de apanhar, então rezei e pedi para Deus que alguém me achasse, mas ninguém me procurava debaixo da cama. Colocaram o bairro inteiro, loucos a minha procura, a vizinha Cida, grávida de 8 meses saiu no temporal e juntamente com o meu tio Geraldo, ficaram com uma peneira esperando que eu descesse pelas enxurradas, que eram imensas por causa dos inúmeros buracos que o bairro tinha, talvez grandes o bastante para que o meu pai caísse em um deles, certa vez com o fusca, mas esta é outra história, neste dia, todos os vizinhos, amigos e parentes, fizeram o possível para encontrar a garotinha sumida, minha mãe, tinha quase certeza de que o tempo que ela ficou de costas lavando os pés de minha irmã, eu teria caído no poço e chorava copiosamente de frente a ele, desesperada. Então Deus ouviu minhas preces e a Tata, Sandra, minha irmã mais velha, entrou no quarto e eu fingindo que dormia, estiquei as perninhas, como que espreguiçando, e eles me puxaram e até ontem todos ainda acreditavam que eu dormia, mas quando lerem isso, saberão que não, que foi mais uma das peraltices da Mirian.

Minha irmã também era triste, até jogar barro no carteiro, juntamente com minha prima Simone, que estava passando as férias em Franca, elas jogaram, e dizem as más línguas, que eu colocava os filhotes de minha cachorra querida na chapa quente, mas eu não acredito que fiz isso. Eu sempre amei animais. A Bali foi a primeira, linda Mentira Feia, uma vira - lata branca, peluda, mas bem cuidada, que foi a pupila de minha infância, mas ela teve que ir embora, meu pai soltou a na rua, quando ela o acordou latindo por causa dos seus filhotes. Mas eu nunca esqueci, para mim, ela era linda. E a casa foi crescendo conforme a família foi aumentando, ora por causa de novos filhos, ora por causa de parentes que viham do Paraná morar conosco por um tempo até ajeitarem a vida. Em determinado momento o meu pai passou de funcionário para sócio da guarda, e não pensem que foi fácil, pois ele deu a nossa casa na compra, e passou a pagar aluguel. A minha mãe trabalha para ajudar, ora como empregada doméstica, ora como costureira manual de sapato em casa, ramo forte na capital do calçado. Eu não recordo, mas ela conta que dez dos oito meses de minha vida ela deixava eu e minha irmã três anos mais velha trancadas em casa e ia trabalhar na vizinha como doméstica, e vinha apenas algumas vezes ver se estava tudo bem.

Sobre isso também tem história, até hoje minha irmã me zoa, pois diz que ela entreteu se diante da tevê, e eu caguei, comi, e ela não viu, só quando minha mãe chegou é que ele se deu conta do acontecido, mas já era tarde, também, ela era tão pequena, o que poderia fazer? E tudo isso porque minha mãe diz que eu e minha irmã não fomos levadas quando crianças, mas não podemos dizer o mesmo da dupla dinâmica Ronaldo e Rodolfo, esses sim deram trabalho. Subir na torre de energia, dormir no telhado, pintar a parede da sala que o pintor tinha acabado de reformar de grafite ou ainda transformar o tanquinho de lavar roupas em um carrinho de rolimã motorizado. Eles sim eram terríveis, aprontavam todas.

Eu no período de pré–escola estudei no colégio Pedro Nunes Rocha, onde passei a maior parte de minha vida letiva, e graças a um tamanho avantajado tanto de altura quanto de peso, tive grandes dificuldades de adaptação, mesmo assim, nunca chorei pedindo para não ir, ia em silencio e triste, mas ia. No pré sentava separada dos outros alunos, o que acabou com a minha auto-estima, pois eu era grande de mais, tinha que sentar em carteiras maiores, e nunca ninguém me explicou que eu não era mais velha, era maior que os demais, e que isso não tinha nada a ver com ser burra. Quem disse que ser grande é um mar de rosas, não imagina o trauma que isso provocou em minha vida. Ainda hoje tenho necessidade de me colocar a prova mais sou uma verdadeira covarde. E pior nem sou tão alta assim. No pré tive dois amigos, a Geléia Adriana, que era muito gordinha e também discriminada, e o meu primeiro amor, Romildo. Sim é verdade. Nessa época (coisa de criança) eu era apaixonada por ele. Mas também como toda criança tinha meus medos e atitudes inocentes, como o terrível medo da mulher de algodão, ou fazer cocô na calça algumas vezes. Na primeira série não foi muito diferente, continuava grande demais, gorda e burra. E tinha a queridinha da professora, Luciana, linda. Se você vê-la hoje, não acreditaria que ela era aquela princesinha.

Tomei bomba. Bomba, para as novas gerações, é quando os professores acham que você não está apto para ir para uma nova série e ver novos assuntos, ou seja, não aprendeu. E dessa repetência as recordações que tenho são horríveis. Eu sentava na última carteira da fileira dos burros, sim, eu ainda peguei essa fase, que o professor dividia os alunos por ordem de tamanho e inteligência. Dona Terezinha, na época tia Terezinha, não gostava nadinha de mim, dava ditados que eu não conseguia acompanhar, e puxava me os cabelos próximos as orelhas, ora porque não escrevi, ora porque pedia para repetir para que eu pudesse escrever. Não lembro de ter tido amigos, só lembro da Luciana na primeira fileira do lado dela, linda, e paparicada; e do meu mais novo amigo, o inspetor de escola Wilson, e claro eu ara paixonada por ele, coisa de criança.

Na segunda vez fazendo a primeira serie, não apanhei, não sentei na fileira dos burros, mas fazia reforço, e não tinha muitos amigos, e passei de ano raspando. Segunda serie o drama se repetiu, não apanhei, mas repeti de ano novamente, e finalmente na segunda série conheci a professora que iria mudar a história de minha vida, Dona Mirian, agora sim maior e mais velha que a maioria, aprendi o que me serviu para o resto da vida, minha xará não só me ensinou português e matemática, mas me ensinou que eu era melhor do que eu imaginava. Colocou-me ao seu lado, fora da fileira, se não iria atrapalhar a maioria menor que eu. Estudava dois períodos, mas o reforço era com ela também. Na turma da quarta série. Na turma da segunda série reencontrei o Romildo, ficamos amigos, e dessa vez ele que se apaixonou por mim, com a liberdade que a professora me dava, tornei-me mais comunicativa, fiz amigos, e aprendi usar o meu tamanho a meu favor, ou os outros faziam minha vontade, ou sofreriam as conseqüências. Mas nunca precisei usar de força para conseguir, só ameaçava.

Na turma da quarta série, que tinha minha idade, acabei fazendo exercício deles e dei conta, e ai fiquei satisfeitíssima, nesta turma conheci o Didi, amigão e o Reginaldo, por quem fui apaixonada. Não sei quanto a vocês, mas minha vida sempre foi conduzida por amores, amei tantos, e sempre, que é impossível descrever. Dizem que as pessoas só amam uma vez na vida, mas a minha vida é uma prova viva que isso não é verdade. Não tenho como dizer quantos amei, e nem qual amei mais, mas amei cada um a sua forma, e sempre fui feliz assim, mas quanto ao Reginaldo, ele não se apaixonou por mim, mas não fez diferença, continuei crescendo e feliz, e autoritária. Passei a ser referência, ser respeitada, e como todo bem tem o seu lado ruim, tinham aqueles que não gostava nadinha de minha pessoa e minha turma.

Nesta época a Fabiana estava na quarta serie, e eu e a Gê na mesma sala na 3a., do nada a Fabiana passou ir embora chorando todos os dias. Nós perguntávamos o que estava acontecendo e ela nunca dizia. Até que um dia fazendo prova sai mais cedo da sala, e flagrei um rapazinho da sala da Fabiana batendo nela, e pior, dizia, se contar para suas irmãs amanha apanha dobrado. Gritei da onde estava mesmo, na saída eu te pego. Claro a escola inteira soube, finalmente alguém tinha me desafiado, e agora eu teria que me provar. Na hora da saída, eu e a Gê e a escola toda saiu correndo para pegar o menino, muitos amigos se ofereceram para ajudar, afinal éramos mulheres contra homens, eu dispensei, mas mesmo assim sabia que poderia contar. Alexandre e seu fiel escudeiro, que eu já nem recordo mais quem seja, saíram antes do sinal, num desespero só. Corremos atrás deles até a porta de sua casa, e sua mãe assustou com o tumulto de gente que parou a sua porta e veio ver o que estava acontecendo.

Eu apesar de arteira, não respondia os mais velhos, ela saiu e eu fui saindo de mansinho, mas a Gê foi logo dizendo “Se a senhora não dá educação para o seu filho em casa, nos daremos na rua" e foi embora, fomos embora, vitoriosas, mas eu um tanto aflita. Eu continuei ir na escola das 7h às 10h, para o reforço, depois ia natação no pole, a piscina ainda nem era coberta, e a tarde voltava para escola. E por causa de meu amor pela águas também apanhei algumas vezes, ora porque perdíamos o chinelo dos irmão mais jovens que iam conosco, e só preocupada em nadar, nunca prestava atenção nestes detalhes, ora por não ajudar em casa nas nos afazeres doméstico, só querendo ir para o pole nadar. Vivia duas fases em uma, coisa que sempre realizei com destreza. Pela manhã eu agia como pré-adolescente de 10 anos que acha que era moça e depois do almoço levava bonecas para escola, e agia como uma menininha de 8 anos, idade da maioria da turma.

Virei camaleoa, agia conforme o grupo, mas sempre autoritária. Saia desde os nove anos para vigiar minha tia e irmã para o meu pai, mas na verdade eu nunca fui dedo duro, elas faziam o que queriam e eu acobertava tudo. Já tinha minhas grandes amigas e companheiras Fá e Ge, então a noite eu acha que era adulta. No pole eu me encontrava, me esforçava ao máximo para ser uma campeã olímpica de natação, nas noites brincávamos de matança, um jogo com bola, quer esse, passa anel, e nos finais de semana íamos fingíamos ser adultas indo ao parque ou freqüentando as festa “discoteca” da Ana, irmã da Ge e Fabiana, lá aprendi a conviver e falar a língua dos adolescentes, 15, 16 anos, tinhamos vários amigos nesta faixa etária, e nos davamos muito bem, e ai se alguém não me tirasse para dançar, eu colocava a boca no trombone.

"Chegava a dizer que não tinha homens ali para dançar comigo". Esse comportamento me rendeu mais um trauma. Talvez o único com razão, meu primo, não sei o que estava pensando, mas um dia quando os meus pais viajava, ele veio para minha cama, eu achei que fosse minha irmã mais velha, coisa de criança inocente, ele me unhava tentando tirar minha calcinha, e minha camiseta, mas eu segurava com força achando que ela estaria tendo um pesadelo, venci pelo cansaço, ele finalmente dormiu, e eu também, quando acordei que já estava amanhecendo, foi que vi quem estava ao meu lado, não sabia o que fazer, se gritava, se só lhe acordava, fiquei em pânico, mas optei por lhe acordar com um beliscão, ele acordou assustado, não disse uma única palavra, pulou da cama olhou para um lado e para o outro e saiu correndo. Durante o dia eu fiquei me perguntando o que deveria fazer, como deveria agir, e optei por contar para as pessoas que estavam responsável por cuidar de nós, minha prima, não entrei em detalhes, apenas disse, o fulano amanheceu dormindo comigo.

Ela tomou as providencias seguinte, contou para o seu esposo, e para o meu tio que morava na casa do fundo. Eles foram ao plantão que ele estava trabalhando como guarda, para tirar satisfação, e ele mentiu, disse que era sonâmbulo, mas eu e ele sabemos que isso não é verdade, sonâmbula não iria tentar tirar minha roupa. Mas minha prima era nova e sem juízo, então ela ficou tirando sarro, dizendo que eu estava lembrando como era, zoando comigo. Quando chegou a hora dele voltar para casa, eu não sabia onde me esconder, eu estava morrendo de medo, escondi debaixo da cama, não me senti segura, fui para o banheiro, e nada, corri para casa de minha tia, no fundo, e ainda não estava segura, então quando fui saindo para correr para o meu quarto dei de cara com ele, meu coração disparou, meu ar não chegava nos pulmões, eu estava aterrorizada, voltei correndo para o quarto de minha tia, e lá fiquei, o meu tio Ge foi a salvação, ele conversou com o Osni e decidiram que era melhor ele ir para a guarda. Para o Dói ele disse que eu o seduzi, para os demais disse que ele era sonâmbulo, sei que era grande, mas eles tinham que analisar, mesmo que eu tivesse dado bola para ele, coisa que nunca dei, eu tinha apenas dez anos, e ele tinha mais que dezoito anos, ele não tinha o direito nem de tentar me beijar, imagina invadir minha cama. E o pior, anos depois soube que algumas tias minhas quando vinha algum rapaz morar em minha casa, alertavam. Cuidado com a Mirian ela costuma seduzir os rapazes e levar para cama dela, depois dizer que eles lhe atacaram. Nem imagina essa tia que esse episódio marcaria a minha vida para o resto da vida.

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