Busca avançada



Criar

História

Dom de receber

História de: Maria do Céu Ferreira Carvalhaes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/09/2018

Sinopse

Maria do Céu nasceu em em 1913 no bairro da Água Branca, em São Paulo. Sempre gostou de receber pessoas, sejam embaixadores, quando seu marido foi transferido a trabalho para a África do Sul, sejam seus sobrinhos, que vinham do interior para fazer faculdade em São Paulo. Nesta entrevista, dada em 2003, aos noventa anos, ela nos conta também sobre o período que estudou em um colégio interno e a fundação de um coral para casamentos que durou cinquenta anos.

Tags

História completa

P/1 - Bem, eu queria começar a nossa entrevista pedindo nos diga o seu nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R -  Maria do Céu Ferreira Carvalhaes. Nasci no dia 24 de julho de 1913.

 

P/1 - Aqui em São Paulo, Maria do Céu?

 

R -  Aqui em São Paulo, na Água Branca, na Rua Carlos Vicari, número 45.

 

P/1 - O nome do seu pai?

 

R -  Francisco Ferreira.

 

P/1 - E o nome de sua mãe?

 

R -  Beatriz dos Santos Ferreira.

 

P/1 - Eles nasceram aqui no Brasil?

 

R - Os dois nasceram em Portugal. Meu pai em Braga, minha mãe na cidade do Porto.

 

P/1 - Certo. Você sabe por que eles vieram para o Brasil?

 

R -  Meu pai veio para o Brasil com sete anos de idade, com o irmãozinho. Meu avô já tinha vindo pra fundar uma fábrica de cerâmica chamada Cerâmica Paulista, que foi fundada na Água Branca em 1886 ou 1888, não me lembro bem, ali onde é a estação [de trem] da Água Branca. Ele veio e depois veio a família.

Ali foi que ele se criou e com dezessete anos recebeu a cidadania brasileira, que foi dada a todos os portugueses que já estavam há algum tempo no Brasil. Ele ficou com cidadania dupla.

Ele estudou em São Paulo e mais tarde fez o curso de Oficiais do Exército. Ele não era obrigado, era uma espécie de preparação a mais. Tem as fotografias lindas dele e do irmão dele, tenho a espada dele.

 

P/1 - Mas ele conheceu sua mãe aqui no Brasil?

 

R -  Não. Eram contra-parentes. Minha avó paterna foi passear em Portugal e lá ela tornou a retomar o conhecimento com as primas do outro lado. E a família da minha mãe era prima por afinidade. E por acaso a minha mãe tinha... (risos) (cochicha) Interessa isso?

 

P/1 - Interessa.

 

R -  Ela tinha rompido um desses noivados do sepulcro de cinco anos porque o rapaz estava estudando Medicina. Não sei por que desmancharam o noivado e ela queria se jogar no rio. (risos)

 

P/1 - (risos) Nossa!

 

R - O Porto tem aquelas pontes maravilhosas, feitas pelo Eiffel, então de brincadeira ela dizia que queria se jogar de uma das pontes. Minha avó paterna, que achava o Brasil uma coisa linda, disse: "Não, vamos todos passear e assim ela esquece", então minha avó materna, com quatro meninas já mocinhas, veio para o Brasil. “Assim vocês conhecem o resto da família do lado de lá.”

Vieram em 1908. Quando chegaram aqui estava a família de cá, todos esperando já em Santos. E desceram aquelas moças, que eram lindíssimas. Eu tenho a fotografia em casa, minha mãe parecia uma grande artista com aqueles chapéus, com aquelas coisas de Paris. Muito bem; meu pai, diz-se que muito esperto, no trem do SPR que vinha pra São Paulo já queria segurar a mão da minha mãe.  Então [foi] aquele drama todo.

 

P/1 - [Ela] Se apaixonou.

 

R -  Três meses depois eles estavam casados.

 

P/1 - Nossa! Três meses?

 

R -  Três meses depois. Acho que ela fez assim: "Ah!"

 

P/1 - Que bacana! E aí se casaram...

 

R - E aí casaram. Minha avó paterna, com as outras meninas, voltaram para Portugal. [Foi] Natural, tinham vindo conhecer a família e acharam São Paulo um horror... (risos)

 

P/1 - E o seu pai continuou na atividade do seu avô, quero dizer, em cerâmica?

 

R -  Em cerâmica. Depois ele até inventou o primeiro torno elétrico de cerâmica, foi meu pai quem inventou.

Em janeiro de 1909 eles se casaram. Em 1911 já estavam morando em Paris porque precisava fazer a máquina que ele tinha imaginado, mas não havia quem fizesse nada aqui. Precisou ir pra a França pra fazer lá o protótipo da primeira máquina. Não é “máquina”... Como é?

 

P/1 - Torno.

 

R -  O torno cerâmico.

 

P/1 - Certo.

 

R -  Bom, então assim...

 

P/1 - Aí foram para Paris...

 

R -  Foram para Paris, ficaram um ano lá e trouxeram [o torno]. Só ele que podia fazer, mas como ele fez lá, todo mundo copiou. Aí acabou com o meu pai, que inventou isso. Depois... Estou contando a história de meu pai ou é a história de Carvalhaes?

 

P/1 - Já vamos chegar lá! Agora quero saber da sua infância, queria que você nos contasse.

 

R -  Eu nasci em julho, praticamente cinco anos depois que eles se casaram. Nisso eles ficaram meio abilolados: tudo eles queriam que eu fizesse. Com quatro anos eu já sabia ler, já sabia escrever, já tinha começado a tocar piano, vê se pode! (risos)

 

P/1 - Com quatro anos.

 

R -  É, tadinha... com cinco anos já era guerra, né, meu bem?

 

P/1 - Sim.

 

R -  Eu nasci em 1913 e a guerra começou em 1914. Teve um concerto de piano e até cantei alguma coisa, que já era para os soldados portugueses, porque estavam em guerra. A guerra só acabou no fim de 1918.

 

P/1 - Isso foi aqui em São Paulo?

 

R -  Aqui em São Paulo. Aí... Eu não estou entendendo, tanta coisa, eu estou falando da minha vida...

 

P/1 - Mas a sua vida é muito importante.

 

R - Com seis anos fomos passar um ano na Europa porque eu fui conhecer minha avó. Até aí não podia porque tinha guerra e Portugal também estava em guerra. Os empregados da fábrica... Eu me lembro do dia em que acabou a guerra: o sino da fábrica tocava, tocava e os empregados gritavam: "Portugal ganhou a Guerra, Portugal ganhou!" Os empregados e os artistas de cerâmica eram todos portugueses, vinham todos de Portugal, então eu me lembro como se fosse hoje. Esse sino está na fazenda de um sobrinho agora, esse sino que tocou quando acabou a Guerra em 1918.

 

P/1 - Vocês então foram para...

 

R - Portugal. Ficamos um ano lá. Quando voltamos, com sete anos de idade, era filha única, a tal porque tocava piano (risos). Minha avó disse para a minha mãe: "Olha, ela pensa que é a rainha pequena? (risos). Precisa pôr essa menina em contato com outras." Então, minha mãe o que fez? [Assim que] Nós chegamos aqui, com sete anos eu fui interna no [Colégio] Sion.

 

P/1 - Quando chegou aqui em São Paulo já era interna do Sion.

 

R -  Em janeiro, já era interna do Sion.

 

P/1 - E como era?

 

R -  Era uma coisa maravilhosa. Eu gostava demais porque não tinha crianças em casa, né? Eu achava aquilo o fim da picada. A minha mãe chegou chorando quando foi a primeira quarta-feira e disseram pra ela: "A senhora é quem está chorando. Ela está contentíssima." (risos)

 

P/1 - Você se adaptou bem ao colégio interno?

 

R -  Eu me adapto a todo lugar. E depois tinha criança pra brincar, né, meu bem? Era um regime fantástico: a gente só saía uma vez por mês, depois do almoço, no domingo. Uma vez por mês, quando íamos pra casa.

 

P/1 - Conte pra gente como era o cotidiano lá. O que vocês faziam de manhã?

 

R -  Nos levantávamos às seis, seis e meia, me lembro bem, e depois íamos pra missa. Eram aqueles dormitórios cheios de caminhas brancas. Tinha um criado-mudo com uma bacia, uma jarra de água e o copo pra lavar os dentes. Íamos até o banheiro e voltávamos já todas arrumadinhas. Era assim. E depois da missa a gente ia tomar café. Às sete e meia, mais ou menos, tomava-se café e às oito íamos para as classes onde entravam as externas também.

Eu fui interna por dois anos e meio. Só se falava e rezava em francês ou latim. Tinha uma coisa muito engraçada: as freiras liam todas as cartas que escrevíamos e que recebíamos. Tinha muita gente do interior e uma das graças do meu tempo é que uma menina escreveu assim: "Olha papai, eu gosto delas, elas são tão boazinhas, tão delicadas, mas tem uma coisa que elas fazem de manhã cedo que eu não me acostumo. Elas chegam no dormitório e dizem assim: “Surso, acorda” e a gente responde: “Adeus, Adão" (risos). Sabe o que elas diziam? “Sursum Corda” [“Elevemos o coração”] e tínhamos que responder “Habemus ad Dominum” [“Nós o temos no Senhor”].

 

P/1 - (risos)

 

R -  Já que você está perguntando como era...

 

P/1 - Isso! Ótimo!

 

R -  Essa é uma anedota por que era tudo em latim. E me lembro que teve um terremoto em São Paulo, e então as caminhas faziam “pu-pu-pu-pu-pu”. Isso foi quando eu tinha sete ou oito anos de idade.

Eu fiquei doente porque não queria comer, nunca queria comer. E eu achava lindo estar lá porque comia o que queria, quer dizer, não comia nada (risos). E aí fiquei muito doentinha, precisei ficar externa. Mas não gostava, queria ficar interna.

 

P/1 - Porque você estudou lá o tempo todo.

 

R -  Foi, o tempo inteiro. Tanto que eu fiz o “bacau”, né?

 

P/1 - Explica pra gente...

 

R -  Baccalauréat é o ginásio na França. Primeiro tem os quatro ou cinco anos de primário e depois então é o baccalauréat: o ginásio, que nós chamávamos aqui. Eram quatro anos de primário para nos prepararmos para o ginásio, aí entrávamos no ginásio e ficávamos mais cinco anos, por isso que estudávamos muito, tudo.

Lá tinham péssimas professoras de piano, mas enfim, como já estava lá, era piano, era desenho... Aprendi muito bem desenho, pintura, trabalhos manuais. E nos trabalhos manuais aproveitávamos pra dizer o terço enquanto os fazíamos. Rezávamos tanto, ajoelhávamos tanto que no fim eu tinha dois calos aqui no joelho. Minha mãe dizia [com sotaque português]: "Ai, minha filha, estás ficando com joelhos de cabra!" (risos).

 

P/1 - Maria do Céu, diz uma coisa pra mim: elas preparavam as meninas da sociedade pra serem, pra receberem...

 

R -  Ah, sim, maintien. Nas aulas de maintien aprendíamos como receber e nós todas fazíamos a reverência. Tanto que quando vieram os reis da Bélgica, por acaso pararam na minha frente no Jóquei [Clube] e eu fiz a reverência sem querer. Fiquei conversando vinte minutos ou quinze, sei lá, com eles em francês. Tem até um repórter do Globo que pegou esse pedaço que eles conversaram comigo porque nós sabíamos fazer reverência para as pessoas. Para as freiras fazíamos reverência pra "notre mère". Era uma educação que não precisa mais, não [se] usa mais nada disso.

 

P/1 - A sua juventude, como foi?

 

R -  Deixa eu ver... A juventude. Com dezesseis anos eu conheci o meu marido, em Santos. As férias eram em julho...

 

P/1 - Ah, então você vai ter que contar.

 

R - Junho. Agora no dia 30 de junho vai fazer setenta e tantos anos que eu o conheci o meu marido.

As férias eram normalmente em Guarujá. Desde criança, ia sempre pra Guarujá. Até quando eu estava com uns quatorze anos, ia uma porção de meninas do Sion também pra Guarujá e ficávamos no Grande Hotel. Outras tinham casa ali, mas o Guarujá não tinha nada, era morto e só tinha um cassino onde as mães jogavam um bocadinho, uma coisa assim. E então nós começamos a conversar no Sion: "Ah, mas ir pra Guarujá outra vez? Lá não tem nada, o que é que a gente vai fazer no Guarujá?" Uma delas, cujo pai era Domingos Fernandes, muito rico, estava fazendo aquele Hotel de Santos... Como é o nome daquele hotel de esquina?

 

P/1 - Tinha o Parque Balneário e o Atlântico...

 

R - O Atlântico. Ele estava fazendo o Atlântico e a Mariazinha, a filha dele disse: "Ah, vamos para o Atlântico! Meu pai está fazendo um hotel bonito lá!" Convenci meus pais que não queria mais ir para o Guarujá, porque nós queríamos ir para o Hotel Atlântico, que era onde tinha as amigas, todas iam pra lá. Então foi assim, foi lá.

Eu tive primeiro um outro namorado. Nós dançávamos... No ano seguinte, em 1930, eu conheci meu marido num bailinho.

 

P/1 - Do Atlântico?

 

R -  Não, do outro hotel. Isso é uma história comprida...

 

P/1 - Ah, mas você tem que contar pra gente. Como é que você conheceu o Breno?

 

R -  Era assim: no Atlântico, o jantar era às 19 [horas]. Depois corríamos porque tinha uma orquestrinha boa no grande salão de baile no Hotel Atlântico. Dava praquela avenida ali de Santos...

 

P/1 - Ana Costa.

 

R -  Na [Avenida] Ana Costa. Mais ou menos [às] 21:30 começavam a tocar. Todas nós íamos, assim como os rapazes das redondezas e dos outros hotéis porque esse era o único hotel que tinha essa orquestrinha nessa hora. Aí até [as] 23, mais ou menos, nós dançávamos. Às 23h a orquestrinha ia para o parque, então nós todas íamos para o parque.  

 

P/1 - Às 23 horas? E seu pai e sua mãe deixavam?

 

R - Meu pai não, que estava trabalhando, mas a mãe ia junto. As mães todas. Ficavam as mães, as tias ali e nós também, cada uma com sua mãe. Então vinha o rapaz e dizia: "Quer me dar a honra desta contradança?" Eles ficavam na porta, todos juntos, então levantávamos e íamos. Acabava a dança e eles nos traziam pra cadeira. Quando eu começava a dançar mais de uma, duas vezes com o mesmo, minha mãe dizia: "Chega! Agora vai dançar com outro!" (risos).

 

P/1 - Então você saía do Atlântico e atravessava a rua para ir ao parque?

 

R -  E toda a mocidade...

 

P/1 - Toda a molecada junto...(risos)

 

R - Devia até estar também o Breno. Devia estar lá, mas eu não o conhecia. No fim dessa temporada teve uma grande festa no parque, no dia 29. Festa de São Pedro. Dançávamos quadrilha, dançávamos tudo, uma beleza! E no dia 30, uma porção de rapazes que dançavam conosco, que moravam aqui em um hotel que havia mais pra adiante, não me lembro o nome, acho que era Grande Hotel, qualquer coisa...

 

P/1 - Internacional...

 

R - Não sei. Era maior, até. Eles vieram nos convidar porque tinham feito uma festa pra nós.

 

P/1 - Hum!

 

R - E eu disse: "Eu não vou. Estou muito cansada, não quero ir!" A minha mãe disse: "Tu não vais? Vais e vai todo mundo porque eles vieram de lá dançar com vocês a temporada toda. Agora eles fazem festa e vocês não vão? Vai todo mundo!"

 

P/1 - (risos)

 

R -  É, a minha mãe não era biscoito! Então lá fui eu (risos). Minha concunhada Lourdes também estava ali e foi comigo. Ela se tornou depois madre superiora de um convento.

Bom, a Lourdes disse: "Vamos pra lá? Então vamos." Falou com a cara meio assim porque estávamos cansadas, não queríamos. Nós queríamos ficar do lado de cá. Então lá foi a meninada daqui toda pra lá. Chegando lá, essa irmã da minha cunhada me apresentou: "Olha, Breno Carvalhaes, ele é irmão do meu cunhado". Começamos a dançar. A minha mãe não me deixava dançar muito mesmo e ele disse assim: "Eu gosto muito de Portugal. Um dia eu vou ter uma quinta em Portugal". E lá começou o namoro que durou uns quatro ou cinco anos. Nós tínhamos dezesseis anos, ele é da minha idade.

 

P/2 - Mas eu quero entender -  ele falou que queria ter uma quinta e depois disso a sua mãe deixou a senhora...

 

R - Não, depois é por telefone, meu bem. Meu Deus do céu! Naquele tempo telefone funcionava. Como eu não tinha irmãos, os rapazes não iam à minha casa. Naquele tempo não ia um rapaz entrar na minha casa pra namorar. Era por telefone, era nas festas. Ele vivia de Santos pra São Paulo e gastava não sei quanto de telefone porque a minha mãe dizia que ele era um sombra.

 

P/1 - Por que? (risos)

 

R -  Porque estava sempre atrás de mim. (risos)

 

P/2 - Então ele sabia as festas que a senhora...

 

R -  É, e depois as festas de Madame Poças Leitão. Ouviu já falar nas festas de Madame Poças Leitão?

 

P/1 - Já ouvi falar...

 

R -  Era no Trianon...

 

P/1 - E você ia com ele...

 

R - Não com ele, imagina! Ia com a mãe, e era a mesma coisa: as cadeirinhas, todo mundo sentadinha. Era a mesma coisa pra todo mundo. Era assim, meu bem... O que é que havia de fazer, né? (risos). E telefone!!

Tinha festa e ele vinha por muitos e muitos sábados e domingos... Domingos, pois aos sábados naquele tempo [se] trabalhava até as 16 horas. Ele vinha de Santos e perguntava qual era o cinema em que nós íamos, então nós íamos ao cinema. Sabe que meu pai nunca o viu? Meu pai o viu pela primeira vez quando ele entrou em casa para me pedir em casamento, cinco anos, quatro anos depois. O negócio era assim. Pra mim era pior porque eu era filha única. O negócio já era ruim.

Há 62 anos que nós nos casamos. Mas eu não estou falando de quatro anos antes, eu estou falando de 1930, quantos anos! Veja...

 

P/2 - Como era? Ele perguntava: "Em que cinema vocês vão"?

 

R -  Isto, e eu dizia. E ele então ia também, ficava atrás. Por isso que minha mãe dizia: "Olha o sombra!" (risos)

 

P/2 - (risos)

 

P/1 - Não sentava junto?

 

R -  Não, nem me cumprimentava, nem nada!

 

P/1 - Nossa!

 

R -  Era de longe...

 

P/1 - Ficaram quatro anos assim, só se encontrando em festas?

 

R -  Só, só...

 

P/2 - Ou nas férias, quando você ia a Santos?

 

R -  Nas férias, quando eu ia a Santos. Senão, não.

 

P/2 - Como é que vocês combinaram o casamento? Ele a avisou que ia pedi-la em casamento?

 

R -  Não, a toda hora ele falava, desde que nos conhecemos, que queria casar comigo.

 

P/1 - Que bacana! (risos)

 

R - Eu até, nesse meio tempo, tive outros flertes - porque chamava-se flerte, não pegava nem na mão! Flerte vem de flirt, na França, os ingleses botaram flerte porque não sabiam falar "Je te le flirt". Pelo menos pra mim foi assim porque eu era filha única. Mas para as minhas amigas era assim também. E todo mundo casava, Graças a Deus, todo mundo ficava casado... Eu fiquei casada [por] 52 anos.

 

P/2 - Aí ele te pediu em casamento.

 

R -  Não, aí não. Era namoro, namoro. Até que uma hora que nós achamos justamente o Sr. Tiago. Naquele tempo era um dos grandes escritórios, como é que é...  Como é que era o lugar onde precisamos ir pra fazer escritura?

 

P/1 - Cartório?

 

R - Ele tinha um cartório, o Sr. Tiago Mazagão, o melhor cartório de São Paulo. O Breno era irmão do Nelson Carvalhaes, que era casado com a filha do Sr. Mazagão. Foi a irmã dela que tinha me apresentado. Então pediu pra meu pai falar com Sr. Tiago para ter referências, porque precisava ter referências antigamente.

 

P/1 - Ah, sei!

 

R -  E meu pai conhecia muito o Sr. Tiago Mazagão porque minhas tias, irmãs de meu pai, só viam Sr. Tiago Mazagão: pra vender, comprar qualquer coisa, era o Sr. Tiago. Meu pai também. As escrituras eram feitas no tabelionato, então era uma boa referência. Então meu pai foi perguntar pra Sr. Tiago quem era Breno Carvalhaes, que ele nunca tinha visto mais gordo!

 

P/1 - Sei! (risos)

 

R -  Então o Sr. Tiago deu referências: "Olha, tenho uma filha casada. A família é assim, assim e assim, uma família tradicional de Santos. Pode sossegar, o meu genro é muito bom..." Então la-ra-la-la e pronto! O Breno estava com 21 anos.

 

P/1 - E aí seu pai consentiu...

 

R -  Consentiu e então veio o Breno, coitado. Entrou em casa à noite, tudo foi marcado direitinho. Veio a família dele de Santos... Mas primeiro vieram de Santos o irmão mais velho dele e a mãe. Ele foi, coitado, sozinho entrar em casa. Meu pai os recebeu no escritório e ele dizia: "Mas a mão eu não peço!" (risos)

Olha quanta besteira que eu tô contando!

 

P/1 - Imagina, isso é ótimo!

 

P/2 - E a mão ele não pediria por quê?

 

R -  Ele achava feio negócio de pedir a mão "porque eu te quero inteira". Aquele negócio, aquelas bobagens! (risos)

 

P/1 - Que ótimo! Aí, seu pai consentiu...

 

R -  Ele dizia "Será que seu pai..." Eu disse: "Eu já falei com papai, ele vai deixar. Ele falou com Sr. Tiago, pode vir!" Dali a meia hora chegou o irmão mais velho dele, que o tinha criado, chegou minha sogra e então minha mãe serviu um vinho do porto com umas coisinhas e foi ficando noivo. E aí ela disse, acho que em uma segunda-feira: "Quarta-feira que vem você vem jantar". E ele ficou nervoso...

 

P/1 - Ele ficou nervoso!

 

R -  Aí eu disse: "Não, mamãe, vá, deixa vir amanhã!"  Ele já estava trabalhando em São Paulo e vinha quase todo dia jantar. Ficamos noivos [por] quase um ano, casamos em 1935.

 

P/2 - Como era o noivado?

 

R -  O noivado era isso: ele vinha de noite e ficava na sala. Era uma casa grande ali. Vendi [o terreno] e derrubaram a casa na avenida Água Branca. Uma casa de esquina em estilo português, toda em estilo português mesmo: telhas, veio tudo de Portugal! Enfim, tive que vender e derrubaram.

Ele vinha e tinha um escritório, tinha muito lugar, mas a gente ficava no hall e às vezes ficava um pouquinho conversando na sala de visitas. Era assim: ali com a sogra, com o sogro, tudo. A minha mãe ficava tomando conta ou então, se a íamos a algum lugar, ela ia junto. Se íamos ao cinema, ela ia também. Todo lugar em que íamos, ela ia junto. Era assim.  

 

P/1 - E como foi o casamento?

 

R - Foi um casamento bonito. Foi na [igreja de] Santa Cecília, em São Paulo, às dezessete horas, que era o último horário. Eu falo muito nisso porque depois sofri com os horários. Eu tinha esse coral de casamento em que eu ia, que fundei em 1948 e que era ótimo! Os casamentos eram [às] dezesseis, dezessete, dezoito horas. Depois começou [às] dezoito, dezenove, vinte, vinte e uma horas…

Quando começou a ter os casamentos às vinte e uma horas, há alguns anos atrás, eu disse: "Não é possível!". Em todo caso, cantamos durante cinquenta anos.

 

P/1 - Você vai contar depois sobre o coral pra gente...

 

R -  Eu trabalhei tanto, a vida inteira! Só você vendo!

 

P/1 - Mas teve festa?

 

R -  Teve uma festa só para a família, os amigos... Olha, o casamento foi em 1935, todas as famílias ainda estavam se refazendo da grande crise, uma crise tremenda, que começou em 1930. Para meu pai começou em 1931, 32, porque o mundo parou e São Paulo parou pior ainda. Eu sei que me formei em 1930 no Colégio Sion e anos e anos depois trabalhei muito no Sion. Eu era a presidente das ex-alunas do colégio e fazíamos festas, tínhamos uma escola com 1300 crianças. Trabalhei demais!

Eu me lembro que depois as irmãs me contavam que naquele ano meu pai, apesar de estar com dificuldades, foi um dos poucos que pagaram em dinheiro pra elas. Quase todos os fazendeiros mandaram sacas de café.

 

P/1 - Nossa!

 

R -  É, meu pai ainda não estava tão ruim. O casamento foi uma coisa normal, com festa dentro de casa...

 

P/1 - Mais simples...

 

R -  Um casamento bonito. Foi de noiva, tudo direitinho, mas tudo nos conformes porque as coisas não estavam brincadeira em 1935 ainda.

 

P/1 - O Breno trabalhava já. Ele era classificador de café...

 

R -  Ele começou mocinho. Começou com treze anos porque o pai dele morreu quando ele tinha quatro anos e a minha sogra ficou com aquela "montoeira" de filhos. Os mais velhos criaram os mais novos. E eu tinha profundo respeito pelos irmãos mais velhos: esse que foi lá pedir, o Leônidas, veio de Santos pra pedir a [minha] mão. Era uma família muito bem constituída, apesar de ter ficado sem pai muito cedo. Os mais velhos se sacrificaram a vida inteira pra criar os mais novos. Eram treze filhos.

 

P/1 - O Breno era o mais novo?

 

R - O mais mocinho de todos. Quando ele tinha treze anos ficou muito envergonhado de o mais velho pagar o colégio pra ele, em Santos. Naquele tempo, quando um ficava mais mocinho, punha uma calça comprida. Puseram uma calça comprida nele e ele disse: "Eu vou pra São Paulo". Tinha um concunhado meu que era jornalista e trabalhava no Diário... Como é que se chamava aquele diário do [Assis] Chateaubriand?

 

P/1 - Eram Diários Associados, não lembro o nome do jornal agora.

 

R - Bom, no jornal dos Diários Associados, que era ali no centro da cidade. E arranjou então pra Breno para trabalhar a noite fazendo revisão. Ele começou a trabalhar com treze anos, fazendo revisão, e ficou morando na casa de Bárbara Amaral Babica, que morava na Rua Aurora. Saiu de Santos, largou família, veio pra São Paulo trabalhar.

Ele estudava durante o dia, mas não tinha dinheiro pra fazer os exames, pra frequentar um colégio. Naquele tempo tinha os exames parcelados, que eram feitos na Secretaria de Educação. A pessoa pagava um tanto [para realizar], por exemplo, exame de português, exame de matemática; pagava-se uma taxa e marcavam lá um dia em que todos iam fazer aquele exame.

 

P/2 - Ainda existe...

 

R - Eu tenho guardadinhos os papeizinhos. Fulano-de-tal foi aprovado ou foi reprovado no exame de português. Assim ele estudou. Trabalhava à noite e estudava durante o dia com professora o que ele não pegava. Ele foi aluno de todos esses grandes professores de antigamente de matemática, de português,  então eles também estudavam bem, mas como podiam.

 

P/1 - Certo...

 

R -  Ele lia muito. Uma das coisas que ele trouxe pra casa quando nos casamos foi um armário cheio de livros, que andava com ele pra lá e pra cá.

Foi isso que você me perguntou?

 

P/1 - Isso. Depois de ser revisor do jornal, o que ele foi fazer? Você se lembra?

 

R - Depois os irmãos dele acharam que era melhor ele ir pra Santos, pra ter um emprego mesmo. Arranjaram um emprego pra ele no Departamento Nacional de Café, o DNC. Antes ele fez um curso de classificador, aquele que toma café e cospe. E ele, com a vontade que tinha de ir pra frente, de rapaz pobre, se especializou mesmo: com dezenove anos já era o gerente do DNC em Santos. Foi aí que, com vinte anos, resolveu que já estava na hora. Não tinha feito 22 anos de idade [quando] nós casamos.

 

P/1 - Então, Maria do Céu, ele pegou bem a crise.

 

R -  Sim. O pai dele justamente ficou pobre com outra crise do café, de 1919, tanto que a família era de Santos e meu marido nasceu em Jundiaí.

Eles eram uma das famílias mais importantes de Santos. O pai da minha sogra era o velho Rossman, se dizia dono de toda a ponta da praia; era a Chácara do Rossman. Diz-se que o estilo de vida deles era uma coisa, que ninguém pensava que eles estavam perdendo tudo. Domingo eram trinta, quarenta pessoas para jantar naquela casa imensa que eles tinham comprado da Veridiana. Já ouviu falar em Dona Veridiana?

 

P/1 - Lá de Santos?

 

R -  Não, daqui de São Paulo. A célebre Dona Veridiana [da Silva Prado], que é nome de rua.

Eles viviam assim porque ele era ship chandler. Você sabe o que é ship chandler? O homem que vende tudo o que é preciso pra navio. Tiveram que se mudar porque não aguentavam aquela vida. Eles precisavam fazer economia, não é?

 

P/1 - Os pais do...

 

R - Os pais do Breno - já acabei com a minha família. Os pais do Breno então foram morar em Jundiaí, mas lá também era uma casinha imensa que está lá até hoje. Depois foi o lugar onde os rapazes estudam pra ser padre, como é o nome?

 

P/1 - Seminário?

 

R - Seminário. Era uma casa tão grande que mais tarde foi seminário. Pra lá se mudaram e lá nasceram os dois últimos filhos da família, o Breno e a Laura.

 

P/1 - Quando eles mudaram pra Jundiaí?

 

R - Meu sogro viajava, então aos sábados de tarde ele viajava pra Jundiaí, pra ver a família. E aí ele morreu da grande gripe.

 

P/1 - Gripe espanhola?

 

R - Gripe espanhola. Minha sogra contava que ele não queria dar trabalho à família porque estava todo mundo de cama. Ele viu que ia morrer; se vestiu, pôs os sapatos e na hora em que estava puxando os cadarços morreu. E ela ficou com aquela filharada, o meu marido com quatro anos. Por isso que ele quis logo trabalhar. Com treze anos de idade disse: "Vamos logo trabalhar, vamos pra adiante, como é que é?" Sempre com muita vontade e sempre muito educado, sempre. Uma grande família.

 

P/1 - Quando eles mudaram pra Jundiaí, o que seu sogro ficou fazendo, o Leônidas?

 

R -  O Leônidas, não, era o irmão mais velho. Meu sogro se chamava...

 

P/1 - Era o Ildefonso Carvalhaes?

 

R -  Ildefonso Carvalhaes.

 

P/1 - O que ele ficou fazendo?

 

R - Continuou trabalhando com café porque eles perderam tudo. Eles eram grandes comerciantes de café e aí levou junto o sogro, o velho Rossman. Pagaram, pagaram... Tiveram que vender aquela casa imensa, toda a ponta da praia eles tiveram que vender. E o velho Rossman foi também com as duas filhas, que eram Dona Idilina e Amélia, Nhãnhã, que era viúva; a família se mudou toda porque aquele "trem de vida", como se dizia, não podia continuar conforme estavam acostumados. Eles eram milionários. Então todo mundo se mudou para...

 

P/1 - Você sabe por que eles escolheram Jundiaí?

 

R -  Não sei. Acho que foi porque tinha uma casa daquele tamanho...

 

P/1 - Pra morar tanta gente, né?

 

R - Pra morar tanta gente. Minha sogra dizia que assim mesmo, quando chegava domingo, chovia gente lá, então eles tinham que ter muitos empregados. Meu marido era o último e a minha sogra já nem tinha mais leite, mas dizia que tinha.
Havia uma negra na cozinha que tinha tido uma criancinha. Ele disse: "Eu vou levar pra Fulana dar leite pra esse menino, que ele está morrendo de fome". Diz-se que a minha sogra dizia: "De fome, nada! Sempre tive muito leite!" Mas na hora em que ela não estava olhando, ele pegava o menino e levava pra cozinha e o menino se atirava no peito da negra, como se diz em Portugal, "como Santiago aos muros"! (risos) Olha, eu contando umas coisas tão esquisitas!

 

P/1 - Ótimo! Maria do Céu, então o Breno aí era diretor...

 

R -  Gerente.

 

P/1 - Gerente do DNC. Casou com você e continuou no DNC?

 

R -  Sim, continuou no DNC.

 

P/1 - Vocês foram morar em Santos?

 

R - Fomos morar em Santos, numa casa muito bonita, na Rua da Paz. Até faziam caçoada: "O Breno trouxe a Maria do Céu pra morar na Rua da Paz" (risos). Ainda existe aquela Rua da Paz, só que a casa não existe mais, era uma casa que tinha acabado de ser construída. Não sei nem como ele podia pagar aquilo, coitado, mas ele fazia de tudo, me deu um anel de brilhantes tão lindo… Coitado! Ele se sacrificava! Mas ele não me deixou levar meu automóvel, porque ele dizia: "Eu sou pobre, não tenho automóvel!"

 

P/1 -Você tinha carro?!

 

R -  Eu tinha. Com dezessete anos, meu pai deu.

 

P/1 - Ele lhe deu um carro aqui em São Paulo?!

 

R - Meu Deus! Vocês viam aquela novela boba? Nós tínhamos carros maravilhosos, meu bem!

 

P/1 - Sim, mas costumava-se deixar as moças dirigirem?

 

R - Sim, senhora. Não eram todas, mas as moças com dezessete anos...

 

P/1 - Ah, isso que eu ia dizer!

 

R - Com dezessete anos eu já tirei a carta e meu pai ficou responsável. Então podia.

 

P/1 - O que espanta é isso: é o seu pai deixar você dirigir. É bacana, quer dizer, seu pai era um cara...

 

R -  Era uma "baratinha amarela".

 

P/1 - Quando você se casou, você não pôde levar o seu carro.

 

R - Não. Ele dizia que não tinha dinheiro pra ter automóvel, que tinha muito bonde, muito ônibus em Santos. Eu sei que eu pegava, tinha que pegar, três conduções pra ir pra casa da minha sogra, no Canal Cinco.

 

P/1 - Nossa! Três conduções!

 

R -  Mas eu achava tudo ótimo porque nós éramos tão apaixonados! Foi tão maravilhoso depois de tantos anos podermos estar juntos, estar casados, que tudo pra mim estava bom! Tudo!

 

P/1 - Fale dessa sua casa, como era?

 

R - A casa era boa, bonita, na Rua da Paz. Era a uns cem metros da praia. Tinha aquele jardim, tão bonito! Só sábado e domingo que tinha alguém ali.

Santos era vazio, era uma delícia. Tinha o bonde treze que ia desde a ponta da praia até São Vicente, ia e vinha. Eu nem sentia falta porque trabalhava, todo mundo trabalhava até às dezesseis horas aos sábados. Domingo, então, nos divertíamos... Íamos muito a cinema. Tinha cineminha ali, custava três mil-réis o cinema. Nós estávamos fazendo uma economia louca porque o Breno tinha gasto pra se casar; a casa era muito boa. Pagávamos 500 mil-réis pela casa; ele queria, pelo menos, que a casa fosse muito boa porque eu tinha saído de uma casa tão bonita... Bom, coitado, fazia o que podia e o que não podia!

Domingo era um passeio maravilhoso: pegávamos o bonde treze e iamos até São Vicente, voltávamos, íamos até a ponta da praia, voltávamos e descíamos na Rua da Paz. Olhe que lindo domingo que a gente passava!

 

P/1 - Mas como era a casa? Conte o que tinha, os móveis, onde é que você comprou...

 

R -  Ah, os móveis. Meu pai deu a mobília de quarto que eu tenho até hoje, uma mobília de jacarandá, daquela toda de torneado, uma beleza! Posso até te mostrar quando você for lá. E o Breno comprou uma sala de jantar, comprou o estofado, a mobília estofada. Era uma casa muito bem arrumada, uma casa grande! Eu me lembro que a copa tinha seis metros! Era uma casa muito bonita, com grande quintal. Ele fez o que pôde e o que não pôde, coitado!

 

P/1 - E como era o cotidiano de vocês? Vocês acordavam, ele ia trabalhar, você cuidava da casa...

 

R -  Casamos, não teve lua de mel. Foi muito bonito porque nós… Eu não conhecia a casa porque a gente não viajava com namorado; ele a alugou, mandamos os móveis todos, uns que ele comprou, outros que meu pai comprou, tudo arrumadinho. No dia do casamento, à noite, meu pai alugou um automóvel e fomos. Cheguei em casa, na Rua da Paz - não sei se era 1018 [o número]. Fui conhecer a minha casa na noite de casamento.

 

P/1 - Que bacana!

 

R - Não é? E no dia seguinte foi a empregada, que tinham tratado. A casa estava muito bonita, cheia de flores, de frutas... Eu tinha mandado as roupas e as cunhadas tinham arrumado tudo, pendurado as roupas... Tudo. No dia seguinte, às oito, eu me levantei pra receber a empregadinha que estava lá. Nem precisou fazer comida porque minha mãe tinha feito uma porção de comida que sobrou da festa do casamento. Era só pra ela fazer qualquer coisa, não me lembro bem. Às onze tocou a campainha. Era um irmão de Breno, que foi almoçar conosco. Eu ainda estava de penhoar! (risos)

 

P/1 - Que irmão era?

 

R - O Nelson Carvalhaes. "Vim almoçar com vocês!" Não é interessante esse pedaço? Parece que nunca acontece, né?

 

P/1 - Muito interessante! E aí você...

 

R - Almoçamos todos juntos. Ele teve oito dias de férias, então estávamos na nossa lua de mel. Nós tomávamos o bonde e íamos passear aqui ou íamos passear ali. Fomos à missa domingo e foram-se oito dias, pronto. No fim de oito dias ele teve que voltar a trabalhar; no fim de quinze dias viemos em um sábado à noite pra São Paulo, pra visitar meus pais. Foi assim, simples, simples.

 

P/1 - Você disse que ia à casa da sua sogra. Como era?

 

R -  A casa da minha sogra era no Canal Cinco. Para visitá-la tinha que tomar três bondes. Só se eu esperasse o treze. Mas eu achava tudo lindo, tudo bom, imagina, estar casada com o Breno depois de tantos anos!

 

P/1 - Mas que paixão, não é, Maria do Céu?

 

R -  Não era?... Eu acho que todo mundo que casa é assim, não é assim?

 

P/1 - É, bacana isso...

 

R -  O que fica, fica; e o que vai, vai. (risos)

 

P/1 - Vocês iam no cinema ali no Gonzaga?

 

R - Não, não, nós íamos no cinema ali no...

 

P/1 - Você se lembra dos cinemas?

 

R -  Lembro demais! Era ali no Miramar, o Gonzaga era caro!

 

P/1 - Na Avenida Conselheiro Nébias.

 

R - Da Conselheiro Nébias. Nós íamos no Miramar, que era mais barato. Era três...

 

P/1 - Três mil-réis...

 

R -  Três mil-réis.

 

P/1 - Lembra dos filmes que viam?

 

R -  Ah, meu bem, não lembro. Íamos muito ao cinema ou íamos tomar uma cervejinha num barzinho que tinha. Taí, lua de mel é assim, né, meu bem? Tão boa, tão sossegada!

 

P/1 - Que ótimo! E os irmãos, a sua cunhada, como era?

 

R -  Eu tive um pouco de dificuldade porque [era] sozinha e de repente cheio de gente... Eu respeitava todos! O Leônidas, então! O mais velho, o que ele dizia pra nós, fazia caçoada… Eu ficava com cabeça baixa, imagina! Ele ajudou a criar meu marido. Era assim, éramos muito... Não sei...

 

P/2 - Sim, mas o que a senhora lembra deles? Como é que era?

 

R - Era gente muito boa, moravam todos juntos ali. Cada um morava numa casa no Canal Cinco. A minha sogra morava no Canal Cinco, um dos cunhados morava apegado à Leonor, atrás morava o Leônidas, o Álvaro ainda morava junto com minha sogra. Na frente morava Nelson. Era gostoso! Todos se dando muito bem, Graças a Deus!

 

P/2 - Quantos irmãos o Breno tinha?

 

R -  Bom, a família [era] de treze irmãos. Um eles não contavam porque morreu com quatro anos e meio. Eu sei a idade dele, mas eu não sei quando ele morreu. Sei que minha sogra sempre contava que ele foi a última pessoa que morreu de febre amarela em Santos. Então é fácil de saber a idade, com quatro anos e meio. Ela até me mostrava um sapatinho que ela tinha guardado dele.

Mas ficaram doze. Então, sempre diziam: "Somos doze, somos doze". Esse primeiro chamava-se Amintas. Mais tarde nasceu um outro menino, que eles puseram [o nome de] Amintas, porque então ficaram seis homens e seis mulheres. Todos se davam muito bem... Moravam alguns ali e era uma vida...

 

P/2 - Você se dava bem com as suas cunhadas?

 

R - Sempre me dei bem com todo mundo! Mesmo que fizessem um pouco de caçoada de mim por alguma coisa, porque às vezes eu me enganava, falava alguma coisa francesa, sabe? Coitada de mim! (risos). Dez anos de falar francês, escrever francês; pra escrever em português, eu precisava pensar... Eu era a primeira da classe, meus pais não eram brincadeira.

Eu levei o piano de cauda. Era uma casa grande, tanto que cabia piano de cauda. Passado um ano, estava naquele tempo que era da guerra, que tinha comunista, que tinha gente do lado nazista. Tinha em Santos um amigo, um grande amigo deles, um advogado que morava no Canal Cinco, um pouco mais adiante, uma casa muito boa!

 

P/1 - O Ariosto.

 

R - Ariosto Guimarães. Eles precisavam alugar a casa e alugariam por quatrocentos reais. Era uma bela casa. Nós estávamos já há um ano... Acabou nosso contrato de um ano na Rua da Paz e como era 400, e era perto da minha sogra, não ia precisar de pegar mais bondes. Nos mudamos no fim de um ano para a casa de Dr. Ariosto Guimarães. Muito bem, estávamos muito satisfeitos ali. Quatro meses depois, ele foi solto. Ele morreu há pouco tempo, sabe disso?

 

P/1 - Eu sei...

 

R - Ele foi solto e Breno… Breno é uma pessoa extraordinária, meu marido, nunca vi! Além de ele ser santo, era assim uma retidão de caráter, uma coisa... sabe? Podem todos da família ser, mas como Breno não tem, até se prejudicou muitas e muitas vezes por ser assim.

Ele disse: "Eu, ficar na casa de Dr. Ariosto? Ele, procurando casa? Não vou fazer isso pra ele! Como eu faço isso?" E eu, meio chateada porque estava só há quatro meses. No fundo da casa de Dona Idilina também tinham duas casas que faziam parte, que eram da família; faziam parte daquele terreno que ia de rua a rua, e se desalugaram. E [o aluguel] era também quatrocentos mil-réis. Então nos mudamos para a casa, que também era muito boa, aquelas casas que tem a garagem embaixo, que tem a escada e depois tem os dois andares.

 

P/1 - Tudo ali na região do Canal Cinco, não é, Maria do Céu?

 

R - É, sim, a paralela. É o mesmo terreno do Canal Cinco com... Como é que se chama aquela rua?

 

P/1 - Sampaio Moreira?

 

R - Sampaio Moreira. Eram duas casas pegadas porque a casa da minha sogra era maior, então no fundo eles fizeram duas - Leônidas e Álvaro fizeram duas casas. Mas eram boas porque tinha garagem embaixo, cabia o piano de cauda, carregando o piano de cauda pra cá e pra lá. Ai, meu Deus do céu! Então ficamos ali.

Em Santos eu mudei para três casas, mas depois a minha mãe não se conformava e estava ficando doente, estava difícil lá, mãe com uma filha única,  então viemos pra São Paulo. Breno continuou trabalhando em Santos.

 

P/1 - Você morou por quanto tempo em Santos?

 

R -  Dois anos e meio.

 

P/1 - Então não frequentou a sociedade porque a família...

 

R - Não, porque a família era tão grande! Eram sempre trinta pessoas na mesa. Não precisávamos frequentar nada. Acabávamos de conhecer...

 

P/1 - Toda a família.

 

R -  A família!

 

P/1 - É verdade... Então você voltou pra São Paulo e o Breno ficou em Santos...

 

R -  Voltei pra São Paulo. Fiquei morando... Nós ficamos morando em Perdizes, na Rua Homem de Melo, [na] esquina da [Rua] Monte Alegre. Agora vendem coisas sírias naquela casa...

 

P/2 - Mas ele ia e voltava todo dia?

 

R -  Ah, meu bem, não. Não podia, ele trabalhava. Naquele tempo não era assim, nem nós teríamos dinheiro pra isso, não. Ele vinha aos sábados. Mas fez o sacrifício por causa da sogra.

Não era brincadeira, minha mãe não foi brincadeira. Tinha muita coisa que fazíamos que não gostávamos. Não era aquele tempo em que a gente faz só o que gosta. Ele fez o sacrifício e eu também. Ficava sem o marido. Até comecei a estudar alemão porque eu não tinha ainda formado. Fui outra vez para o Sion, fui presidente das ex-alunas e comecei a trabalhar outra vez de voluntária, porque eu sempre trabalhei de voluntária. Mas na hora em que eu cheguei, disse "O que é que eu vou fazer?" A família do meu marido era alemã e, muitas vezes, os alemães falavam e eu não entendia nada do que eles falavam. E eu disse assim: "Como eu não entendo o que eles falam?"

 

P/1 - É uma parte de Alemanha...

 

R - Porque inglês eu já sabia, minha mãe me obrigou a estudar inglês, você vê que coisa boa? E você sabe que depois eu aproveitei porque fui morar na África?

 

P/1 - É, eu quero que você conte isso...

 

R -  Pois é, eu tinha que aprender tudo, coitadinha. Graças a Deus que ela fez isso. Bom, então fui estudar alemão e ele só vinha aos sábados. Aí ele conseguiu ser transferido para São Paulo. Ele veio como chefe do DNC aqui em São Paulo, era ali na Barra Funda.

 

P/2 - Que ótimo! Por quanto tempo?

 

R - Ficamos uns dois anos e meio, mais ou menos. Um dia, no sábado, estávamos almoçando - naquele tempo eu me lembro que eu fazia macarronada no sábado -  e telefonou o presidente do DNC querendo falar com Breno. Breno foi falar, fazia: "Sim, sim"; eu via ele dizer "falo, fala, sim". Diz-se que ele perguntou: "Breno, você fala inglês?" Ele disse: "Falo." Ele não tinha podido estudar muito; quando estávamos em Santos, vinha quase toda noite um inglês pra ensinar inglês e eu ajudava também. E ele dizia: "The best cake to be had in Santos", que eu fazia o melhor bolo de Santos. Atualmente era o único que ele comia! (risos).

Sempre esforçado. O que é que eu estava mesmo contando?

 

P/1 - Da pessoa que ligou...

 

R -  E ele disse: "A sua mulher fala inglês?” Ele respondeu: “Fala.” “Bom, então, quarta-feira vocês vão pra África do Sul. O que é que você acha?”

 

P/1 - Nossa!

 

P/2 -  Quarta-feira!

 

P/1 - De sábado pra quarta! Maria do Céu, como foi isso?

 

R - Era ditadura naquele tempo. A gente...

 

P/1 - Ah, já era o governo do Getúlio...

 

R - Quem pode manda... como é?

 

P/1 - Quem tem juízo obedece...

 

R - Quem tem juízo obedece.

 

P/2 - E a sua mãe?

 

R - Ela quase ficou louca. Bom, era sábado. Na segunda, fui feito louca... Ela não queria, não queria. Apelamos até para o Eurico Penteado, que era grande lá da polícia do Getúlio, mas eu tenho a impressão de que ele não falou nada. Ele disse que pediu pra Oswaldo Aranha que disse que não, que tinha que ir mesmo, a não ser que quisesse perder o emprego. Não ia perder o emprego, né, meu bem?

 

P/2 - E também não ia sozinho, não é?

 

R - Eu não ia deixar ele sozinho! Imagina!

 

P/1 - (Risos)

 

R - Não, não! O meu marido não era de andar atrás de mulher. Não, não é por isso!

 

P/1 - Não, não por isso! É pelo amor...

 

R - Eu sofri tanto com ciúme na casa de meus pais que nunca tive ciúme de meu marido. Olhe, ele vivia indo para o Rio de Janeiro para o trabalho dele. Ele ia para o interior... Nunca perguntei onde ele ia. Sim, ele telefonava pra mim... Nunca fui ver no bolso, nada. Sofri tanto com ciúme de pais que Deus me livre de ciúme!

 

P/1 - Então na segunda-feira você estava contando...

 

R - Fui correndo pra Madame Rosit. Naquele tempo era muito caro pra eu ir com vestidos de baile e sabíamos que os ingleses são todos bem vestidos. Na quarta-feira à noite embarcamos para o Rio de Janeiro, no trem. E qual era a nossa...

 

P/1 - Missão.

 

R -  Não, nós ficamos assustados quando chegamos ao Rio de Janeiro… No Rio, não...

 

P/2 - Na estação de trem...

 

R - Na estação de trem do Brás. Íamos de trem para o Rio de Janeiro, fotógrafo, flores! Tinham feito uma propaganda - que nós nem sabíamos - que ia uma grande missão comercial pra África do Sul e íamos vender milhões.

 

P/2 - Venderam?

 

R -  É, uma grande missão... A grande missão era o Breno, com 26 anos, e eu também.

 

P/1 - (risos) A grande missão eram vocês dois?

 

R -  Só nós dois. Mas, então, flores, flores, flores! E aquela gente toda. Queriam falar e nós, meio tontos, com vinte e poucos anos; não sabíamos de nada, indo para o Rio de Janeiro... Puseram aquelas flores todas e quando o trem ia saindo, minha mãe “ploct”: desmaiou!

 

P/1 - Desmaiou? Nossa!

 

P/2 - Mas ficou lá desmaiada e a senhora foi de trem?

 

P/1 - Não tinha jeito, né?

 

R - Não tinha jeito, o que é que havia de fazer? Bom...

 

P/1 - E aí foram para o Rio, pegaram o navio...

 

R - Do Rio era pra pegar na quinta-feira o navio japonês. Metade carga, metade passageiros - oito mil toneladas. O navio, por alguma circunstância, não saiu, ficou uns dois dias no Rio de Janeiro, então era um tal de telefonarmos pra São Paulo... Aí os amigos do Rio de Janeiro que nós tínhamos - eu tinha muitas amigas no Rio de Janeiro… Foi uma festa a bordo também. O mais engraçado: [quando] chegamos ao Rio de Janeiro, tínhamos amigos nos esperando porque eu tinha dito que nós íamos para o Rio. Então uma das amigas disse assim: "Escuta, Maria do Céu, quem vem nesse trem aí? São flores, flores saindo..." Eu disse: "Nós!” (risos) "Quem vem de importante?" (risos)... Mas eu não sei bem o motivo pelo qual ganhamos todas essas flores. Até pegamos um automóvel pra nós e outro automóvel para as flores, pra deixar tudo numa igreja. O que é que a gente ia fazer com aquilo? Naquele tempo, quem viajava ganhava flor, agora não. Imagina! (risos)

 

P/1 - (risos)

 

R - Ficamos aqueles dois dias no Rio de Janeiro ainda. Embarcamos, chamava-se Arizona Maru.

 

P/1 - O navio que vocês foram?

 

R - O navio era o Arizona Maru. Estava um dia lindo! Eu não enjoei e até sai à barra. Quando saí à barra começou uma tempestade e eu já fiquei enjoada porque mesmo quando eu era criança e ia pra Europa com meus pais, eu já enjoava, sempre enjoei. Eu tenho labirintite. Então, já fui pra cama.

Mas o navio levou dezoito dias, sabe por quê? Primeiro porque pegamos uma tempestade no meio do oceano. Uma tempestade tão grande que eu não sabia que podia acontecer. O navio era de aço e uma das ondas amassou o navio de um lado. A água do mar entrava na nossa cabine.

Não sei se você conhece navios antigos. Tinham as camas no meio, uma coisa de lavar o rosto, uma garrafa de água e uns copinhos: aquilo tudo caía. O navio tinha uma chaminé feito um cachimbo e por ali entrava o ar, mas a tempestade foi tão grande que entrava água por ali e caía em cima da gente. E o esforço pra me segurar na cama, porque eu estava de cama, enjoada, e o médico precisava tratar. O médico era japonês e não falava uma palavra em inglês. Tinha uma enfermeira que falava alguma coisa em inglês, ela sabia dizer sick, que quer dizer enjoada. Então o médico vinha quando eu estava muito ruim e me dava injeção. O Breno queria saber que injeção que era; ele dava a caixa do remédio em japonês e dava pra Breno e era assim que ficávamos informados sobre o remédio que estávamos tomando...

 

P/1 - (risos)

 

P/2 - E rezava pra não ser um remédio ruim, né?

 

R - (risos) Foi assim. Graças a Deus não morremos. Não sei como, naquela tempestade que foi uma coisa. Não foi a do Cabo, porque sempre falam que as do Cabo... Não. Bom, aí chegamos ao Cabo. Não pudemos desembarcar porque os submarinos alemães estavam ali pondo tudo a pique.

 

P/1 - Porque isso é 1939. Quando você vai pra...

 

R -  Sim, 1940 era o auge da guerra.

 

P/1 - O auge da guerra.

 

R - Como os alemães estavam ali, tivemos que atravessar o Cabo da Boa Esperança, ou das Tormentas. Fomos para o Oceano Índico e entramos pelo lado de lá na África do Sul. Nós entramos pelo Porto Elizabeth.

 

P/1 - Ah, tá... Do outro lado.

 

R -   Do outro lado. E tem uma coisa engraçada: meus pais, naturalmente, ficaram desesperados e achavam que íamos precisar de dinheiro. E o Breno dizia "Não, não" porque fomos ganhando uma fortuna. Não fomos com assistentes, nós tínhamos passaportes diplomáticos, nós éramos... Como é que era?  Não é assistente. Como é que se diz quando...

 

P/1 - Adido.

 

R -  Adido! Fomos como adidos comerciais.

Muito bem, o Breno não queria aceitar nada. Meu pai chegou aqui em São Paulo, me pôs um maço de libras na mão e Breno disse: "Não precisa, não precisa". Mas meu pai dizia: "Leva, filha, tempo de guerra, ninguém sabe..." Não chegava dinheiro lá porque o dinheiro ia para o banco na Inglaterra. A Inglaterra estava sendo bombardeada dia e noite, e alguém iria pensar de mandar pra África do Sul o dinheiro? Não, porque naquele tempo não havia nem telefone direto para o Brasil. Para telefonar para o Brasil era por intermédio de Londres. Telefonar, não! Não tinha telefone, era telegrama. Tínhamos o direito de mandar telegrama uma vez por semana, vinte palavras só.

 

P/2 - Eu queria perguntar uma coisa.

 

R -  Fale.

 

P/2: - Sei que o assunto já está na África do Sul...

 

R -  Estamos na África do Sul....

 

P/2 - Em uma guerra no Barclays Bank?

 

R -  Não, o Barclays Bank é que mandava o dinheiro...

 

P/2 - Eu entendi... Porque o Barclays Bank é um dos bancos mais antigos da Inglaterra. Mas agora eu quero entender o seguinte: quando a senhora foi pegar aquele trem e teve aquela despedida com a sua mãe desmaiando e tudo mais, os irmãos do Breno também estava lá?

 

R - Não, não estavam. Os que estavam em São Paulo, sim. Os outros, não.

 

P/2 - E o Breno foi indicado por causa de influências da família dele?

 

R - Não, eu acho que não. Ele foi indicado porque era muito bom funcionário. Era funcionário exemplar, sempre foi. Ele trabalhava dia e noite, sabe funcionário trabalhando dia e noite? Eu ficava dando café pra ele muitas vezes em Santos e muitas vezes em São Paulo também. Ele fazendo as coisas, escrevendo, escrevendo... Ele era funcionário exemplar, por esse motivo que com dezenove anos de idade já era chefe. Imagina ele ser chefe aqui, com vinte anos.

 

P/2 - Então não foi o Leônidas que conseguiu esse emprego pra ele...

 

R - Não, o Leônidas não tinha nada a ver com café. O Leônidas nem trabalhava em café. Ele trabalhava era [com] escritural, outras coisas.

 

P/2 - Então quem começou da família no café? O Breno?

 

R - Não, já tinha o Álvaro que já tinha fundado um... Como é que se diz? Uma  corretagem de café. Um deles já era corretor de café. Pode acabar?

 

P/1 - Não, vamos continuar. O Álvaro já tinha fundado...

 

R -  Sim, porque o pai deles investiu tudo em café e eles trabalhavam em Santos. Em Santos, todo mundo trabalhava pra café ou no escritório.

 

P/2 - O Álvaro era o irmão do Breno....

 

R - Um dos mais velhos também, que ajudou a criá-lo. Ele era corretor de café.  O Nelson também era.

 

P/2 - O Nelson e o Álvaro eram corretores de café.

 

R - O Leônidas trabalhava em firma de café.

 

P/2 - Mas como escriturário?

 

R - Como escriturário, como gerente de uma firma de café. Mas não tinha nada com café.

 

P/2 - Então, temos três e com o Breno, quatro...

 

R -  O Amintas, mais velho que o Breno, esse era comprador de café.

 

P/2 - Certo, e o sexto? São seis, né?

 

R - Zezé, trabalhava numa grande firma de café.

 

P/2 - Então, no final, toda a família...

 

R -  Sim, meu bem.

 

P/2 - Só o Escritório Carvalhaes é que foi fundado pelo Nelson e pelo Álvaro.

 

R -  Pelo Álvaro, mas já estava fundado quando eu casei.

 

P/2 - Já estava fundado?

 

R -  Já, já.

 

P/2 - Mas o Breno não foi trabalhar com eles?

 

R - Não, o Breno não. Não podia, não dava pra tanta gente. Um escritório não dava pra sustentar tanta família. Eu estou dizendo que o Breno não queria. Com treze anos, ficou com vergonha de receber dinheiro e não queria mais... E veio trabalhar.

 

P/2 - Por isso ele veio. Então o Breno, quando foi indicado para a África do Sul, foi indicado pelos méritos dele...

 

R - Nada, muito pelo contrário. Nós telefonamos para o Eurico Penteado, que era cunhado dele e que era o grande… Tanto que ajudou até nos negócios da ONU porque era íntimo do Oswaldo Aranha. Ele estava em São Francisco naquele tempo. Depois que acabou a guerra, ele foi pra São Francisco e ajudou até a ver aquele negócio da ONU. Por isso que o Brasil até hoje é o primeiro citado nas reuniões da ONU. É o Brasil porque Oswaldo Aranha é que conseguiu reunir tudo. Muito bem...

 

P/2 - O Oswaldo Aranha era o quê para a família Carvalhaes?

 

R -  Não era nada, era amigo. Ele era ministro.

 

P/1 - Ministro do Exterior.

 

R - Ministro do Exterior e era muito amigo de Eurico Penteado, cunhado de Breno. Casado com a irmã mais velha de Breno, a Filoca, a mais velha daquelas que viveram muito tempo nos Estados Unidos, [que] vieram da Europa.

Fez uma carreira fantástica, Eurico Penteado. Ele nem era da diplomacia, mas era daqueles que entravam por cima.

 

P/1 - É, isso mesmo.

 

R - Ele esteve trinta e tantos anos fora.

 

P/1 - A Filoca...

 

R -  Ela chamava-se Amélia Penteado.

 

P/2 - Amélia Penteado. Ela era da família Carvalhaes?

 

R - Era a mais velha de todas. Minha sogra teve dois abortos e ela nasceu de sete meses.

 

P/2 - Certo, entendi. Ela era a mais velha e era casada com...

 

R -  Eurico Penteado.

 

P/2 - Com Eurico Penteado que era parente do...

 

R - Não, não era parente de ninguém.

 

P/1 - Ele era da mesma missão do Oswaldo Aranha, que era Ministro do Exterior.

 

R -  Ele entrou no...

 

P/1 - No Itamaraty.

 

R -  No Itamaraty. Entrou por cima, já. E depois ele tinha Legião de Honra, até da França.

 

P/2 - E as outras irmãs do Breno? Todas casaram bem?

 

R - Não, teve uma que ficou solteira, Laura, a mais moça, logo acima de Breno. Uma que nasceu em Jundiaí, ela não se casou. Ela tinha um pequeno defeito no pé, mas não é por isso. Era uma moça bonita, até. Não casou. As outras cinco casaram.

 

P/2 - As outras cinco casaram...

 

R -  Casaram.

 

P/2: Casaram bem?

 

R -  É, casaram bem. Ninguém se divorciou. (risos)

 

P/2 - Não? Mas a minha questão é: todos os maridos foram trabalhar com café também?

 

R -  Não. Não, mais ou menos, porque se não trabalhava com café, trabalhava com escritórios em negócios de café. Depois eu precisava ver de um por um... Vendo fotografias eu me lembro...

 

P/1 - Poderemos completar isso depois quando eu for à casa dela. É bacana...

 

R -  Estamos na África do Sul?

 

P/2 - Estamos na África do Sul.

 

P/1 - Aí você chegou lá. Onde você foi morar?

 

P/2 - Como foi a chegada?

 

R - Ah, a chegada. Eu precisei tomar uma injeção de óleo canforado, que davam antigamente. Agora ninguém usa. (risos)

 

P/2 - Por quê?

 

R - Para me levantar. Porque eu fiquei dezoito dias na cama vomitando feito louca. Não comia. A única coisa que eu comia, que agora tem aqui em São Paulo, eram peras japonesas.

 

P/1 - Sei!

 

R - Essa parava no estômago. Eu não conhecia. Como sofri. Como o Japão não tinha entrado na guerra, ele viajava iluminado dos dois lados com grandes faróis, pra verem que era japonês. Foi um ótimo navio que saiu; não tinha mais navio nenhum, era o último. E aí nós íamos vender coisas, milhões de coisas. Não teria navio nunca mais pra lá. Ai, como o governo do Getúlio...

 

P/1 - Que ideia, não? Que governo...

 

R -  Não, meu bem. Nós tínhamos um ministério de propaganda...

 

P/1 - É verdade, é o DIP...

 

R - É o DIP. Por isso que eu tenho diário, que escrevi na África do Sul. Mas o diário quase não diz nada porque eu tinha medo de que quando eu chegasse aqui vissem o meu diário. Então o diário dizia: "Fiz isso, fiz aquilo, fui convidada pra isso, pra aquilo". Mas as coisas mesmo que eu via lá, e que não gostava nada, do Brasil e de tudo... Ó, "boca de siri", sabe? Porque ninguém é besta, né?

 

P/2 - Depois temos que fazer uma entrevista só sobre o que a senhora viu lá. Mas vamos lá...

 

P/1 - Então. Chegando lá...

 

R - Aí chegamos lá. Que lindo era o Porto Elizabeth! Um porto muito bonito. Fomos para o hotel e eu ainda sentia a cama balançar, mas logo melhorei, naturalmente. Era lindo o Porto Elizabeth! Aliás, eu fui agora... Há seis anos atrás eu voltei e até chorei.

Ficamos ali uns dias porque tínhamos que ir para Cape Town, porque Porto Elizabeth fica no Índico...

 

P/1 - Teria que ir para o Atlântico de volta.

 

R -  É. Então nós viajamos pra lá com duas pessoas muito importantes: o Conde de Billiet, um francês que já estava aqui, que não queria saber do [Phillippe] Pétain. Já tinha combatido na França, tinha acabado a guerra na França.

 

P/1 - Não, ainda estava começando...

 

R -  Não, a França tinha perdido.

 

P/1 - Ah, sim.

 

R -  A guerra na França tinha acabado...

 

P/1 - O [Phillippe] Pétain entregou a França pros nazistas.

 

R - É. Então ele veio. Ele não tinha nada pra fazer, tinha coisas aqui no Brasil, então esse conde de Billiet, homem muito simpático, veio pra cá. Como ele já tinha trabalhado no Brasil, ele falava bem o português, ele falava assim [imita sotaque]. E pra mim foi ótimo porque podíamos falar francês sobre tudo: da história da França…

Foi uma maravilha! Então ele foi conosco e foi o Roberto Sagiri também porque pediram pra que ele fosse. O pai desse Roberto foi o presidente de uma firma de seguros, então também o Roberto, que tinha dezoito anos, [era] francês… O pai ficou com medo dele ser chamado [para a guerra] e pediu para levá-lo conosco nessa viagem. Íamos nós quatro nessa viagem: nós, o conde e o Roberto.

 

P/2 - Quatro de Porto Elizabeth... Pra quê, então?

 

R -  Não, do Brasil para...

 

P/1 - Ah, desde o Brasil...

 

R -  [Nos] Encontramos no Rio de Janeiro, fizeram até uma festa pra nós, sei muito bem. Fomos esses quatro. Os pais disseram: "Olha, trata bem do meu filho". Mas nós tínhamos vinte e poucos anos... (risos)

 

P/2 - E o filho tinha dezoito anos?

 

R -  Não, ele tinha já vinte, ele fez 21 lá. Foi ótimo porque fomos com gente pra lá. A primeira coisa que Breno fez foi comprar um automóvel para atravessarmos a ponta toda da África. E eu gostei porque era tão lindo... Era tão lindo aquele pedaço! Agora está feio, não é tanto, mas é tudo florido! Era primavera, era tudo florido... Que lindo! Eu já fiquei gostando da África do Sul.

O Breno não sabia guiar automóvel porque ele nunca quis que eu tivesse automóvel, então [era] o conde Billiet que guiava; eu ao lado dele, porque senão eu enjoava. E com o mapa fomos, porque eu sempre fui muito boa de mapas, e atravessamos toda a África do Sul.

E os costumes? Uma maravilha! Então fomos para Cape Town. Chegando lá, fomos para um hotel maravilhoso!

Que beleza! Cape Town é lindo, é o Rio de Janeiro do lado de lá! Tem aquelas aquelas doze montanhas, The Twelve Apostles, Table Mountain! É uma ma-ra-vi-lha! Era porque agora... Hum, hum, hum, hum! Só a natureza, porque o resto os negros levaram. Eu falo isso, mas eu não posso...

 

P/1 - Aí vocês foram para um hotel...

 

R - Fomos para um hotel. Nós não gostávamos da comida. A comida era péssima - comida de inglês, né? Como tínhamos obrigação de morar lá, fomos procurar apartamento, casa... E alugamos um apartamento muito bonito na montanha, em frente ao mar. Que coisa maravilhosa! E dessa vez que eu fui agora, o Ritz Hotel, que foi feito muitos anos depois, era exatamente em frente à rua onde nós tínhamos morado!

 

P/1 - Vocês foram pra lá com um tempo determinado pra ficar, Maria do Céu?

 

R -  Não, era pra ficar a vida inteira. A vida inteira, não, mas pelo menos durante a guerra.

 

P/2 - Quanto tempo vocês ficaram lá?

 

R -  Nós ficamos menos de um ano porque o Japão estava pra entrar na guerra. Quando caiu Cingapura, Breno disse: "Nós não podemos ficar aqui de jeito nenhum!" E olha, eu estive em Cingapura. O que eles fizeram em Cingapura com os brancos! Nossa senhora! Com os ingleses, com os holandeses, com tudo! Deus me livre e guarde! E agora é tudo amigo japonês, né? Que safados! (risos)

 

P/1 - (risos)

 

R -  Eu fiz questão de ir à Cingapura pra ver tudo!

Muito bem, então o Breno disse: "Não, não podemos ficar mais aqui!" E telefonávamos… Telefonávamos, imagina! Mandávamos telegrama: "Queremos ir embora". Mas isso foi depois, já no fim de uns meses.

Não fazíamos nada lá. Aprendemos a jogar golfe, aprendemos a jogar aquela porcaria de... Como é?

 

P/1 - Bridge?

 

R -  Bridge. E não tinha nada pra fazer...

 

P/1 - Então, era isso que eu ia te perguntar:  não tinha nada pra fazer? Não tinha um escritório?

 

R - O Breno foi lá pra fazer o escritório, então tínhamos que viajar toda a África primeiro pra ver onde ia ser o escritório. Foi ótimo porque viajamos o sul da África inteirinho! Só não nos deixaram ir a Moçambique. Eu sou filha de português e  tinha parente lá; queria ir a Moçambique. O Brasil estava pra entrar na guerra ao lado dos alemães, então não pudemos entrar em Moçambique. Nunca disseram que não podia entrar, mas nunca deixaram, então ficamos uns oito dias no Limpopo River, cheio daquele bicho gordo que...

 

P/2 - Hipopótamo.

 

R - Hipopótamo. Aí fiquei conhecendo a vida dos hipopótamos! (risos). Esperamos pra passar e eles diziam que não, que era feio, que nós éramos diplomatas, não podia. Eles não diziam que não, mas não deixaram passar para Moçambique, então Moçambique nós não vimos, mas toda a África do Sul nós corremos.

Ficamos conhecendo a África do Sul, acho, como pouca gente, mas Breno viu que era besteira porque era tão longe! Era melhor ficar em Cape Town, que era porto. Joanesburgo, naquele tempo, já parecia uma pequena Nova Iorque. Muitos arranha-céus, mas muito desagradável porque as minas eram dentro da cidade. Agora não, aquelas minas não funcionam mais. Tinha aqueles montes de areia que pareciam uns montes subindo. E quando ventava? Era aquela areia na boca! Olha, era uma cidade grande, mas ao mesmo tempo muito feio. Um frio danado! Caía neve lá quando nós estivemos.

 

P/1 - E vocês, como vocês viviam no apartamento? Vocês tinham empregados?

 

R - Ah, nós tínhamos que ter. Pagavam aquilo que pagavam pra termos representação. Eu tomei uma empregada, mas eu tinha que tomar uma empregada mulata porque os pretos não podiam entrar dentro do apartamento, só fora.

 

P/2 - Por quê?

 

R -  Por causa das leis lá.

 

P/1 - O apartheid.

 

R - E nem podiam comer dentro de casa. Imagina! Aliás, os empregados não comiam dentro de casa, comiam fora, tinham o lugar certo. Todos os prédios eram grandes e bonitos, como os nossos. Tinham no fundo um lugar onde os pretos iam fazer a comidinha deles porque era proibido dar comida de casa pra eles senão eles acostumavam com aquela comida. As leis deles eram uma coisa, viu?

Eu peguei uma empregada mulata que poderia então arrumar casa, arrumar cama, cozinhar, senão, não podia. Tínhamos um chofer preto, que era o preto mais importante de Cape Town. Ele era o único deputado preto que tinha na África.

 

P/1 - E era seu chofer?

 

R - Era meu chofer. Quando ele entrou a primeira vez na cozinha, a empregada disse assim: "A senhora está com o homem mais importante da África aqui!" (risos) Coitado! Como era o nome dele? Tô tentando...

 

P/1 - Eu só queria entender uma coisa: o seu chofer era o único deputado negro da África do Sul?

 

R - Era o único representante que eles tinham pra qualquer coisa que quisessem reclamar. O único negro que podia falar alguma coisa era ele.

 

P/1 - Descreva pra mim um dia na sua vida em Cape Town.

 

R - Nesse apartamento, [em um] prédio grande, embaixo tinha bem escondido, que ninguém via, um açougue. Uma espécie de supermercado bem reduzido, em que as pessoas dos apartamentos podiam comprar. Eu estava acostumada aqui a fazer compras. “Não precisa, pede por telefone.” Então eu pedia assim: “Me manda dois quilos de carne.” Respondiam lá debaixo: “Quantas pessoas são aí? “Somos eu, meu marido e dois empregados.” “Então a senhora precisa de dois bifes”.  

 

P/1 - Eles não vendiam?

 

R - Não porque ficaram com medo que a gente fosse dar pros empregados. “Então a senhora precisa de dois bifes”. Eles, naturalmente, já sabiam lá embaixo que o apartamento tinha sido alugado para um casal, que estava morando lá. Aí depois eu fui lá embaixo, conversei e disse que eu ia receber gente. Tanto o Billet  quanto o ‘coiso’ almoçavam todo dia lá na minha casa ou jantavam.  

Minha casa logo ficou o consulado porque o nosso cônsul era bêbedo, praticamente não podia receber. Era casado com uma senhora finíssima, belga, de família muito boa, falava um francês maravilhoso. Ele não falava uma palavra de inglês, falava um pouquinho de francês e bebia, fazia escândalos, então eu recebia. Logo, logo a nossa casa ficou [o lugar] para receber gente. Era gente de todo… Todos os cônsules, primeiro todos os cônsules de fala portuguesa, espanhola, sul-americanos… Meu marido logo alugou um piano, era uma graça o apartamento. Alugamos o apartamento com tudo, com a mobília toda, então comprei umas peças bonitas pra pôr lá, ele alugou um piano pequeno e começamos a receber.

Então eu fui lá embaixo e disse assim: “Não pode, eu recebo. Tem mais dois que almoçam praticamente todo dia…” Pois veio gente até de… O Neto de Santa Helena, veio até um brasileiro de Santa Helena que vinha almoçar todo dia lá em casa.

Minha casa virou um centro. Eu sempre gostei de receber; acabei de criar um monte de sobrinhos na minha casa. A minha casa sempre era a ‘pensão da Dona Maria’, virou também na África do Sul. Eu nem comprava mais lá embaixo; eu saía com o chofer e ia comprar onde eu quisesse, principalmente no mercado... Não era o indiano… É porque tinham os nossos temperos. Ninguém olha alho na África do Sul, eu precisava de alho, dessas coisas todas. Nesse mercado, daquele povo das ilhas…

 

P/1 - Ilha da Madeira?

 

P/2 - Filipinos? Tailândia?

 

R - Daqui a pouco eu me lembro. Eu ia a esse mercado e comprava tudo o que eu queria. Uma coisa que eu tinha todo dia em casa era lagosta, que lá não chamavam de lagosta. Tem variedades de lagosta - quanto maior, mais barato era; eu comprava cada lagostão desse tamanho e todo dia na hora do almoço… Quase todo dia tinha gente pra almoçar. Vocês perguntaram como era a vida: era uma vida muito alegre.

O Breno se recusou a abrir o escritório. ”Eu vou gastar todo esse dinheiro pra abrir um escritório só pra mim?” Não vinha ninguém!

Tinha dois brasileiros lá quando chegamos, eram dois rapazes que tinham ido à África pra caçar. Também se aboletaram, almoçavam todo dia lá em casa.   

 

P/1 - Mas não tinha pra quem vender? A ideia não era que o Brasil fizesse...

 

R - Nunca mais teve navio que viesse da... O último que veio foi o tal navio japonês [em] que nós viemos. Acabou, meu bem, não tinha navio!  

 

P/2 - Aí já tinha começado a guerra…

 

R - Ninguém conseguia passar no Atlântico, os alemães não deixavam.

 

P/1 - Como foi que vocês voltaram?

 

R - Ficamos lá uns meses nessa vida, como eu disse. Aprendi a jogar golfe - alguma coisa eu tinha que fazer - e recebia gente pra burro. Quanto caiu Cingapura, o Breno disse: “Não podemos ficar aqui de jeito nenhum!”

Tinha passado por lá um iate argentino do José Menendez, que era um grande milionário da Argentina e tinha mandado buscar juta em uma daqueles países do Índico, não me lembro de qual era. Quando [o iate] passou, foram conversar no Consulado Brasileiro.

O Breno todo dia ia ao consulado, de dia e de noite ele ia lá. Breno, naturamente, convidou o comandante pra ir lá em casa. Eles então nos convidaram, iam até o Quênia e na volta, se nós quiséssemos, podíamos voltar… Um iate maravilhoso, chiquérrimo! Vinha vazio mesmo, [então] nós podíamos voltar para o Brasil.   

 

P/1 - Com eles.

 

R - Então o Breno começou… Nós estávamos há alguns meses lá. O Breno disse: “Eu estou ganhando dinheiro aqui e não estou fazendo nada! Isto é uma vergonha!” Ele era dos tais. “Estou gastando dinheiro do meu país e não estou fazendo nada!” Iam as tais “___ letters” pedindo pra gente sair. “Não, fiquem!” Ele também mandava [telegrama] pro meu pai, que dizia: ‘Volta!” Aí a gente tinha que esperar oito dias. Foi muito difícil.

Quando voltou o iate e tinha caído Singapura, eles mesmos disseram: “Venham!” Meu pai também: “Venham de qualquer jeito!” Breno estava certo de que, se voltasse, perdia o emprego, mas e se eles interviessem [em Cape Town]?

Estando em Cingapura, eles não iam entrar na Índia pra nada; era só vir pelo mar e num instantinho pegavam Cape Town, então nós viemos embora com esse iate.

 

P/1 - Todos o brasileiros, os dois também? O conde também?

 

R - O conde já tinha arranjado um navio que não vinha pra cá, ia pra Inglaterra. Ele desceu num desses países da África e de lá pegou um navio para o Brasil. O outro, o rapaz, veio conosco.      

 

P/1 - Aí vocês voltaram e o Breno continuou trabalhando no DNC?

 

R - O Breno voltou já com uma carta pedindo demissão.

 

P/1 - Nossa! O país precisa de homens como o Breno… (risos)

 

R - Sim. [Ele disse] “Já vão me mandar mesmo embora, então deixe-me já pedir [demissão]”. Viemos primeiro pra São Paulo, ele foi para o Rio de Janeiro com o pedido de demissão, com a carta e não deixaram ele sair. Apesar de terem dito “não venha, não venha”, não deixaram ele sair.

 

P/1 - Nesse tempo a família dele falava com vocês, Maria do Céu?

 

R - Falava como?

 

P/1 - Por telegrama…

 

R - Algumas cartas só, que iam pra Londres e voltavam, mas levava um mês, sabe, meu bem? Era tudo por intermédio de Londres porque não tinha nada.

Tem um negócio muito triste que até tenho vontade de contar, mas ficamos com medo de contar naquela época, tanto que nem pus no meu diário. Um navio brasileiro chamado Atalaia chegou em Cape Town; tinham-no mandado praqueles países da África por ali, pra buscar qualquer coisa. [Era] um navio de carga.  O comandante e o imediato, naturalmente, foram almoçar em casa. Levaram arroz, feijão… A gente ficava tão contente porque o arroz de lá era horrível; era um arroz que vinha da Birmânia e tinha um cheiro! Acho que até escrevi no diário. Levaram farinha de mandioca…

Eles se queixaram que não podiam viajar porque o navio estava perdendo as placas. O comandante era daqueles antigos - isso era em 1940 -, ele ainda usava aqueles colarinhos… Ele dizia: “É um perigo nós voltarmos para o Brasil. No navio a carga não se segura, faz ‘assim’: Meu Deus! Meu Deus! [imita o som de algo que balança]” E eu só escutando aquilo. O almirantado dizia que eles não saíssem, porque estava tudo em guerra. Se eles saíssem, os barcos não podiam ir a socorro deles. Estavam proibidos de sair, o nosso governo mandou dizer, mas eles saíram de qualquer jeito.

Eles saíram e era inverno. O mar da África do Sul não é brincadeira: aquelas ondas, aquele frio! Eles saíram e passados dois dias começou a chegar por rádio [a notícia de que] o navio [estava] afundando, perdendo as placas… Eles pedindo: “Avisem a minha família.” Fico arrepiada até hoje! “Perdemos os barcos salva-vidas, o mar levou”.

 

P/2 - Ninguém ajudou?

 

R - Não podiam, como iriam sair? Estavam em guerra, não podiam por navios no [mar]. O Brasil sabia disso, mas mandaram sair. Sabe que [quando] chegamos aqui, eu perguntei: “E o Atalaia? Como foi?” Ninguém nunca soube do Atalaia aqui. A gente vivia assim: tudo muito lindo com o Getúlio, mas… Nós não sofremos nada, mas “boquinha fechada” também!

Eu não tive coragem… Quando eu cheguei, quiseram demais que eu escrevesse um livro sobre as coisas… Eu disse: “Eu não vou escrever esse livro.” Pra escrever: “Fulano me convidou, hoje teve concerto” - nós íamos demais a concertos, lá tem balés maravilhosos - “hoje teve balé, hoje foi a consulesa tal que eu fui…” E não falar nada? Não escrevi, nem no diário tem porque eu não era besta também. Esse negócio do Atalaia está até hoje entalado aqui…

 

P/1 - Maria do Céu, então o Breno continuou no DNC?

 

R - Sim, continuou no DNC em São Paulo, no mesmo lugar que tinha deixado.

Nós tínhamos trazido um pouco de dinheiro, porque ganhava… Fizemos um pouco de economia, aí construímos. Eu vou contar essa: naquele tempo a gente podia pedir dinheiro... Dos funcionários públicos. Emprestaram uma parte, cem mil, nós tínhamos quarenta mil; o meu pai tinha me dado um terreno antes, eu não queria, então vendi o terreno e fizemos essa bonita casa em que eu moro até hoje. Breno também, com Amintas, irmão dele que já estava ganhando bastante, abriram uma firma de café.

 

P/2 - O Breno também abriu uma firma de café.

 

P/1 - Aí foi quando eles foram para o Paraná?

 

R - Primeiro eles ganharam bastante dinheiro, depois é que fomos para o Paraná.

Nós vimos derrubarem as árvores para fazer Maringá.

 

P/1 - Essa firma do Amintas com o Breno era do que? Porque o café tem várias...  

 

R  - Era comissária de café. Foi aí que ele ganhou bastante.

 

P/2 - Era o mesmo tipo de empresa que o Álvaro e…?

 

R - Não, era diferente, o Álvaro era corretor. Não tem nada a ver. Comissário compra e vende café. Breno, graças a Deus, fez um bom pé de meia.

 

P/1 - Essa firma era aqui em São Paulo?

 

R - Sim, na Rua Líbero Badaró.

 

P/2 - Comissário vende papéis do café, é isso?      

 

P/1 - Não, comissário negocia num outro nível. O corretor só leva o café no interior e leva pro porto, vê se ele é bom. O comissário é que faz os grandes negócios.     

 

R - Milhares de sacas, é pra exportação. O corretor vê se o café é bom, se é ruim.

 

P/2 - Então vocês chegaram em São Paulo, o Breno não foi demitido. Continuou a vida, juntou um dinheiro, construíram uma casa…

 

P/1 - Ele abriu uma empresa…

 

R - Ele saiu então do DNC. Tenho a carta em que dizem que ele era um funcionário muito bom, que têm pena dele ter pedido demissão, tudo direitinho. Breno tinha medo que dissessem “ele roubou alguma coisa e saiu”, ainda mais que estávamos construindo. “Vai ver que roubou alguma coisa”.  

Começamos a nossa vidinha e eu com um medo louco porque tínhamos ainda de pagar um conto de réis por mês para aquele empréstimo que nós tínhamos feito. Às vezes eu nem dormia à noite, pensava: “Será que eles tiram a casa se a gente não pagar?”

 

P/1 - Você sabia de todos os negócios do Breno, ele nunca teve segredo de negócios com você?

 

R - Nós não tínhamos segredos. Por que, meu bem?

 

P/2 - Você era uma espécie de consultora?

 

P/1 - Ele te ouvia?

 

R - Não, eu não sabia de nada de negócios de café. Eu não podia dizer “faça” ou não faça”. Nunca me meti.

 

P/1 - Mas ele te contava tudo que acontecia. Que ótimo.

 

R - Ah sim, ele só não me contava o que ele dava, porque a vida inteira... Que homem mão aberta! Imagine que eu soube, depois que ele morreu, por um cunhado advogado, que ele não esperava que as pessoas lhe pedissem. Quando ele sabia - isso depois de ter ganho bastante - quando ele sabia que uma pessoa estava com necessidade, ele procurava e perguntava: “[De] Quanto você precisa?” Acho que ele tinha passado por tanta coisa na infância que ele não podia ver uma pessoa precisando, ele ficava aflito.

 

P/1 - Você estava dizendo que essa sua casa foi a “pensão da Dona Maria”, quer dizer, a família... O seu Eduardo morou...

 

R - O Eduardo foi o primeiro. Quinze dias depois [da mudança], ele já estava lá.

 

P/1 - Seu Eduardo é o pai do Duda…

 

R - Ele morou muito pouco.

 

P/1 - Quinze dias depois que vocês mudaram, ele já estava lá?

 

R - Ele logo veio. Depois o irmão dele, o Zé Teodoro esteve [por] dois anos e meio...

 

P/1 - O José Teodoro era o que estudou Medicina?

 

R - Não, o Zé Teodoro não estudou nada. Ele veio pra trabalhar em café também, com o Breno.    

 

P/2 - Isso em São Paulo?

 

R - Em São Paulo. Teve alguns que ficaram sete, oito anos porque vieram para se formar em Medicina, em Direito. A meninada vinha e eu gostava. Eu não tinha filhos, infelizmente. Eu [era] filha única, imagine como eu gostaria de ter tantos filhos. Você vê que eu gostava de estar interna porque tinha gente. Eu sempre gostei de ter gente [em volta]. Nossa casa era a pensão da Dona Maria, todo mundo almoçava, todos os amigos de Breno, então era casa aberta.

P/1 - O seu Eduardo contou pra mim que o Breno recebia todas as grandes famílias do café, você recebia.

 

R - Recebíamos, sim. Éramos amigos de todo mundo.

 

P/1 - O pessoal que vinha do interior, você se lembra de alguém mais importante?

 

R - Não, era tanta gente passando na nossa casa! E naquele tempo eu não escrevia diário. Eu comecei a escrever diário com sessenta anos porque estava ficando muito esquecida e queria marcar o que eu pago, o que eu não pago. Não tinha nem tempo, eu levava uma vida tão… Com a casa cheia daquele jeito!

Eu era presidente das ex-alunas do colégio Sion; tínhamos uma escola grátis de 1300 crianças. Eu tinha que arranjar dinheiro pra isso, né? O que a gente trabalhava...

 

P/1 - E como era a estrutura? Os empregados que você tinha…

 

R - No começo, naquela casa imensa e com rapazes, eu só tinha uma empregada! Como era difícil! Tinha uma cunhada que era muito limpa, a casa toda arrumada. Ela estava com o filho lá...        

 

P/1 - Qual cunhada?

 

R - Dadô. Maria das Dores, concunhada, mãe do Tuca. Ela dizia: “Essa casa está suja. Está precisando de limpeza”. Como eu podia?

 

P/2 - Com tanta gente entrando e saindo...

 

R - “Então precisamos comprar uma máquina de lavar”. Uma primitiva, era uma coisa! Era uma ‘roupaiada’ de rapaz!   

Nunca quis ficar com sobrinhas. As sobrinhas podiam almoçar e jantar, mas na minha casa, não, porque eu não queria tomar conta de sobrinhas. Dos sobrinhos eu tomava bem conta. Eu não dormia antes que entrasse o último [em casa].

 

P/1 - Você tomava conta do que eles estavam estudando, não é?

 

R - Teve um que pra passar do ginásio… Ele estava na casa de uma outra cunhada, mas era uma farra, ninguém estudava nada. Veio lá pra casa; ele ficava com as pernas pra cima numa vitrolona que nós tínhamos e eu lendo as lições pra ele porque ele se recusava a pegar os livros.

 

P/1 - Quem era esse sobrinho?

 

R - O José Carlos, filho de Leonor. Filho único, não queria fazer nada. Já morreu, coitadinho, morreu de Alzheimer. Eu consegui fazê-lo passar, se formar no ginásio, mas assim: ele escutando música e eu lendo pra ele.

 

P/1 - O Duda também ficou um tempinho na sua casa, não é?

 

R - O Dudinha?

 

P/1 - O Dudinha não, o Duda pai…

 

R - O Duda só ficou uns seis meses porque veio estudar Engenharia e depois não quis.

 

P/1 - E o Duda de vez em quando ficava por lá também...

 

R - Não, o Duda nunca ficou.

 

P/1 - Bárbara, vamos terminar?

 

P/2 -  Não, não… A senhora não falou do coral.

 

R - Ah, isso é da minha vida. Depois eu volto a falar [dos outros]…

Em 1948 eu fundei um coral pra casamentos porque tinha uma ‘desinfeliz’ que cantava uma “Ave Maria” muito mal cantada e ganhava cinco mil-réis. Não tinha nada pra canto de igreja, mas eu estava cantando muito, estava cantando no [Teatro] Municipal com a Orquestra Sinfônica. A freira chegou um dia [e me disse] assim: “E pra Deus, nada?”  

 

P/2 - Foi a freira que deu a ideia?

 

R  - Do coral de casamento, não, pra eu cantar lá no Sion. “Pra Deus, nada, né? Anda pelo teatro, canta tudo…” E eu não podia porque já tinha a escola, eu tinha… Comecei cantando uma vez por mês pras mães cristãs, uma missa, mas… [A pianista] Era uma freira que tinha sido uma grande pianista, mas ela não sabia ensinar, não sabia ensinar canto. Breno me deu um órgão muito bonito, então eu disse pra ela: “Deixe a gente ensaiar em casa?”

Éramos quatro. Ela ensaiava com a gente uma vez por mês; depois, [quando] chegava na hora [dizia]: “Essa música eu não gosto, vamos cantar outra.” A outra a gente não tinha ensaiado! Eu sempre fui assim, [gostava de] tudo direitinho.

Começamos em casa, essas quatro: duas sopranos e duas segundas. Começaram a gostar, as mães cristãs, as avós [diziam] “Você não quer cantar no casamento do meu neto?” “Sim, vamos cantar no casamento do neto. Tão bonito”.

Começamos assim, e [foi] entrando mais gente. Eu estudava canto com a de Andrada, boas vozes. Uma delas até hoje - a neta do Gomes Cardim, comecei a pegar gente de música. Começamos a cantar mais, todo mundo pedia e não cobrávamos nada, até um dia em que houve um casamento grande lá no Sion. Naquele tempo tinha muitos casamentos no Sion, foi lá que começamos. Depois, porque não era paróquia, não pôde mais, mas os casamentos chiques eram lá.

Era um casamento daqueles, tinha até uma banda por fora, que era [de] um general. Nós cantamos e nem [recebemos] “obrigada”, sabe? O que eles estão pensando da vida? Nós saímos de casa, temos trabalho e nem “obrigada”? Não senhora, agora só vamos cantar se me pagarem quinhentos mil-réis para o pão dos pobres. Foi assim que começou.

Tem o pão dos pobres na igreja de Santo Antônio. As minhas promessas, em vez de fazer promessa boba, eu prometo para o Pão dos Pobres. Você já viu às seis da manhã o número de gente pedindo pão lá?

E cada vez cobrávamos mais, mas sempre para os pobres. Pra nós, nunca.

 

P/2 - Nunca pra vocês. Só pra doação.

 

R - Só pra doação, durante cinquenta anos. Quando fizemos cinquenta anos, isso há uns cinco, seis anos atrás - foi [em] 1948 [que começou o coral] -, cantamos uma linda missa no Sion, que tem agora um grande órgão; foi uma beleza, num sábado. No fim, ninguém tinha falado nada, foi aquela salva de palmas na igreja.

Eu disse: “Agora chega”. As vozes já começaram a não ser tão boas e eu não aguentava mais. Os casamentos começaram a ser às oito, nove horas da noite. É bom fazer caridade, mas chega uma hora que precisa fazer caridade pra gente também. (risos)  

E Breno sempre achando tudo lindo, meu marido sempre achando tudo lindo.

 

P/1 - Eu ia lhe perguntar.

 

R - Acabava e eu chegava às nove, dez horas em casa. Estava aquele santo me esperando sem jantar. “Eu espero você. Foi bonito? E a noiva?” Era como se fosse a coisa que ele estivesse mais aproveitando na vida.

Marido assim não existe! Tudo o que eu fazia ele achava lindo.

 

P/1 - Então ele sempre deu força pra você.

 

R - Sempre achando lindo. Nos grandes concertos que eu dava no Municipal, tem aquele último ensaio no dia que a gente quer estar sossegado, mas tem que ir lá por causa da orquestra.  

Ele subia tudo aquilo e ficava lá em cima. Descia todo contente, dizia: “Não perdi nem os pianíssimos, a orquestra não abafou nem o pianíssimo”. Porque é a voz que tem que chegar. “Não perdi nenhum pianíssimo, que bonito que estava.” Como ele gostava. Tudo que eu fazia ele gostava; também tudo que ele queria eu fiz, nem levei o automóvel...

 

P/1 - Então tá bom.

 

R - Falei demais!

 

P/1 - Pra gente encerrar, o que você achou dessa entrevista?

 

R - Coitadas de vocês, que ouviram tanta bobagem.

 

P/1 - Não. Uma avaliação da sua vida? Mudaria alguma coisa?

 

R - Eu gostaria de ter tido filhos, uma dúzia. Antes de casar, nós tínhamos escolhido nome para doze filhos. Não vieram.

 

P/1 - Mas foi tudo bem, fora…

 

R - Graças a Deus, uma vida maravilhosa, meu bem. Eu não me metia nas coisas dele, ele não se metia nas minhas. Tudo o que eu fazia ele achava bom, porque eu era uma ótima dona de casa.

Não era a minha família, porque eu não tinha família. Era a família dele. Eu fui uma boa tia pra toda essa meninada. Tá vendo como eles gostam de mim? E eu sou a última velha da família. Já morreram todos - é verdade que eu era a mais moça. Agora estou eu aqui com noventa anos, sempre homenageada pelos meus sobrinhos todos. Quase todos ficaram lá em casa.

 

P/1 - Está bom. A gente agradece a sua entrevista, Maria do Céu.

 

R - Desculpe ter falado tanto. Vocês é que me fazem falar! (risos)    

 

 

 

   

 

 

         






                       

  

                 




        






       

      

 

     











Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+