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Dona Donzinha

História de: Dona Donzinha
Autor: Paula Rubens
Publicado em: 23/07/2017

Sinopse

Ela é  moradora de Petrolândia. Uma dona de casa dedicada. Através de sua história podemos perceber um pouco do que era viver em  Petrolândia  antes a cidade sofrer a inundação provocada pela construção da Barragem de Itaparica.

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História completa

Josefa Maria da Conceição – Donzinha ou Don, assim carinhosamente chamada pelos seus pais e irmãos, nasceu em 13 de abril de 1930, no Sítio Mata Velha, município de São Vicente Ferrer, em Pernambuco, era a segunda de sete irmãos, filha de Manoel Joaquim Pereira e de Delmira Maria da Conceição. Quando criança de 9 a 10 anos de idade, acalentava o sonho de estudar, aprender a ler,escrever e contar.  No Sítio Cajá, próximo de onde morava,havia uma sala de aula que funcionava na capela São Vicente. Seus pais eram analfabetos e a sua mãe dizia: “que diabo de estudar pra aprender a fazer carta pra namorado.”

O tempo passa, a criança cresce, torna-se uma linda jovem. Diziam até que ela tinha cara de artista de cinema. Certo dia, recebe o convite do irmão mais velho, Manoel, para com ele ir morar em Recife, seus pais concordam e ela aceita de bom agrado.

Lá chegando, começa os estudos em um convento de freiras, à noite. Uma bondosa senhora, Dona Carmem, recém-viúva, sem filhos, bem de vida, sozinha e muito conhecida do irmão de Donzinha, faz um convite para servir de acompanhante por apenas alguns dias, o irmão concorda e a jovem aceita. A senhora Carmem residia em frente ao escritório do DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas; local onde trabalhava o jovem petrolandense João Alencar Filho, conhecido por Didi, filho único do também funcionário do DNOCS em Petrolândia, João Alencar Feitosa, conhecido por Dodô e de Francisca Maria Feitosa (Chiquinha de Dodô).

Didi, jovem educado, inteligente e muito católico, já havia sido sacristão em sua cidade, auxiliando o padre Frederico, na Igreja São Francisco de Assis, logo conhece e se apaixona pela jovem Donzinha.

Alguns dias depois ela volta para a casa do irmão, bairro mais distante, mesmo assim o namoro continua e um dia, Didi vai ao sítio do pai da moça a fim de pedi-la em casamento. A jovem resolve abandonar os estudos para casar, quando certa vez, encontra-se com a sua professora do convento, a freira Carminha, que a questiona por sua ausência às aulas e esta diz que deixou de estudar porque vai se casar. A professora admirada exclama: – Mas Josefa! E alerta: “Vá se casar mesmo, não vá se amigar!” Donzinha respondeu-lhe:“vou me casar, professora!” E assim, no dia 31 de janeiro de 1949, na capela São Vicente, do Sítio Cajá, unem-se em matrimônio os jovens Didi, aos 22 anos e Donzinha, aos 19.

O casal continua morando em Recife e Didi segue prestando serviço como fotógrafo aéreo e desenhista cartográfico, nos levantamentos topográficos dos açudes do DNOCS, no Rio Grande do Norte e em outras regiões. Donzinha torna-se “dona de casa.”

Diante da ausência, da distância dos pais e como filho único que era, Didi anseia voltar à terra natal Petrolândia, a fim de lá casar civilmente, trabalhar e fixar residência. Sonhava com isso quando de repente, surge a oportunidade: um convite do primo Sipriano que trabalhava na CHESF – Companhia Hidrelétrica do São Francisco, em Paulo Afonso-BA. A felicidade do casal foi ainda maior, ao descobrirem, em fins de 1949, que Donzinha estava grávida.

Assim sendo, Didi tratou de providenciar todo o enxoval do bebê para então seguirem rumo à Petrolândia. Ao apresentar-se ao primo, em Paulo Afonso, o destino lhe prega uma peça, havia um surto de febre Tifoide ou Tifo, na região e Didi foi acometido pela doença, vindo a falecer no dia 06 de maio de 1950, aos vinte e três anos de idade; deixando uma jovem viúva de 20 anos, com sete meses de gravidez.

Donzinha continua a morar com os sogros, em Petrolândia, no Alto da Raposa (rua da cadeia pública) e no dia sete de julho, às 22 horas, sob os cuidados da parteira mãe Mocinha, nasce uma menina branquinha como a flor de algodão, muito parecida com o pai e com a avó paterna; sua mãe dá-lhe o nome de Adeilde Maria, em homenagem a uma grande amiga de Recife. Os avós paternos da criança passam a ser também os seus padrinhos de batismo e sua avó madrinha passa a chamá-la de “minha branca.”

Certo dia, os seus pais decidem deixar o sítio com um dos filhos, e vir morar em Petrolândia. Donzinha deixa a casa dos sogros, levando a filha e passa a morar com os pais, mas todos perto. Os sogros pedem para criar a netinha, Donzinha não concorda, embora alguns anos mais tarde ao ver a boa criação da neta chegaram ao arrependimento de terem tentado. O sogro tenta unir a jovem nora ao seu sobrinho Pedro, vereador da cidade de Recife, este também viúvo e pai de um casal de filhos, mas Donzinha não nutria simpatia pelo novo pretendente.

Aos dois anos de viuvez, Donzinha ganha uma nova amiga, Geni, essa que seria mais tarde sua cunhada, pois ao residirem nas vizinhanças, o jovem Odilon Miguel de Souza “Lon” rompe o noivado após apaixonar-se pela bela viúva e passa a namorá-la.Os dois jovens resolveram fugir levando a criança junto, para Governador Valadares – MG, surpreendendo a todos. A criança passa a chamá-lo de “Papai Lon.”

Em 1953, nasce em Governador Valadares, Adnilda (Nenem), a primeira filha do casal. Nesse mesmo ano decidem voltar para Petrolândia, levando as duas filhas e Donzinha novamente grávida. Alugam uma casa na travessa D.Pedro II, tudo volta a se normalizar, reinando alegria entre todos.Odilon Miguel era carpinteiro e mais tarde tornou-se relojoeiro, tornando-se um excelente profissional e Donzinha prossegue como dedicada “dona de casa.” O casal une-se civilmente e com isso Donzinha perde a pensão que recebia como viúva. Ela porém não teve com o que se preocupar, uma vez que sua filha passou a receber o benefício. Donzinha ficou como tutora da criança.

Mais filhos nascem dessa união: Jacy, Maria Selma, Maria Célia, Jacira (falecida), Jorge Luiz, Nivalda, Josivaldo (falecido), Josivaldo (que deveria se chamar Josinaldo, mas devido ao erro do cartório ficou com esse nome), Simone Gorete (falecida) e Solange. Vida de lutas, sacrifícios, mas também de grande carinho e honradez.

Certo dia, Donzinha vai procurar o Dr. Nelson, juiz de direito em Petrolândia, para se aconselhar. Queria orientação sobre como empregar em prol da filha, de forma segura,recursos recebidos de um atrasado da pensão paga pelo DNOCS. Ciente de que haviam lhe oferecido uma casa para comprar, Dr. Nelson prontamente orientou: “Compra a casa e coloca no nome da menina, assim ela terá a herança garantida na maioridade”. E assim foi feito. Donzinha compra uma casa na Av. D.Pedro II, nº 80, a mais importante avenida da cidade. À direita, morava o Sr. Zé Leite e Dona Clarinha e à esquerda, o Sr. José Dantas e Dona Zinha, em frente o cinema de Livino. A família se muda para lá, onde moraram até a transferência para a nova cidade, pois a filha, proprietária da casa, mesmo depois de constituir sua própria família, nunca quis usufruir dela em benefício próprio.

Dona Donzinha viveu sossegada em sua casa, de onde quase não saia, a não ser para a igreja. E nem precisava. Da porta de casa , além do movimento do cinema cuja fila, em dia de "casa cheia" chegava à sua porta, podia acompanhar todos os principais acontecimentos da cidade. O desfile de Sete de Setembro tinha parada obrigatória na avenida. O Corso (desfile em carro aberto) trazendo os foliões de Barreiras no carnaval desfilava por lá também. A malhação do Judas, o carnaval com Zé da Cruz e Pedro Mestre e suas máscaras engraçadas, a procissão de São Francisco e o parque de diversões na festa do padroeiro, tudo podia ver da sua porta. Até a passagem do trem podia ser visto cruzando o começo da rua. Além disso, nas noites de verão as cadeiras eram colocadas na calçada e os vizinhos, amigos e conhecidos sempre paravam para prosear enquanto apreciavam o movimento dos jovens na praça em frente.

Dona de casa exemplar, D. Donzinha traz no rosto as marcas de sol do tempo em que a cidade não tinha água encanada e ela, após o almoço, lavava a roupa da família no rio São Francisco, que ficava a poucos metros dos fundos da sua casa. Essa era uma tarefa comum à maioria das mulheres.

Mas a barragem chegou. Sem escolha, a família mudou-se para a nova Petrolândia. A casa foi indenizada à sua real proprietária que agora finalmente se apropria de sua herança, mas só depois de garantir que Donzinha e Lon receberiam terreno correspondente na nova cidade, onde construiriam sua nova casa.

Já na nova cidade, Frei Damião fazia missões em Petrolândia, e Donzinha manifesta o desejo de receber a comunhão pelas mãos do missionário. No entanto, o mesmo afirmava que só os casados no religioso e não os civilmente podiam comungar. Então o Sr. Lon, fala com a comadre Bezinha. Esta organiza com o padre Antônio a cerimônia na Igreja Matriz e o enlace acontece no dia 09 de julho de 1994, tendo como padrinhos dos noivos a filha Adeilde Maria e o genro Alberto Celso, Dona Hermínia e o Sr. Manoel Dantas.

No ano 2010, em abril, a família comemora os 80 anos de Dona Donzinha e em julho do mesmo ano, é também comemorado os 80 anos do Sr. Lon, com a família reunida os filhos, netos, bisnetos, genros e noras, numa grande alegria pela celebração da vida.

Em 2011, fevereiro, o Sr. Lon sofre um infarto e após vários dias na UTI do hospital em Serra Talhada, veio a falecer no dia 15 de fevereiro, aos 80 anos e 7 meses de idade.

O “Mestre Lon”, carinhosamente chamado pelos amigos, era um cidadão inteligente, trabalhador, alegre, alto astral, digno, honrado, de muita fé e positividade, um grande amigo de todos.

Donzinha, essa mulher guerreira, trabalhadora, cuidadosa, zelosa e protetora dos seus filhos, que amava a antiga Petrolândia, sempre afirma que se fosse um pássaro, as águas da barragem secassem e a antiga cidade voltasse, para lá ela voaria, pois de coração, lá é o seu lugar.

O sonho almejado por Dona Donzinha, ao contrário do pensamento de sua mãe, era que os seus filhos estudassem. Para isso ela até impedia que as filhas lhe ajudassem nos serviços domésticos, para que a atenção fosse apenas voltada para os estudos. Tamanha era sua preocupação nesse sentido que Adeilde, sua primogênita, foi alfabetizada aos cinco anos e meio, antes de frequentar a escola oficial. Teve a ajuda da mãe em casa e nas aulas particulares de Dona Istró.

Dos doze filhos, três faleceram ainda bebês ou crianças. Dos nove filhos vivos,sete mulheres e dois homens, todos estão formados, isso é motivo de grande orgulho e um sonho concretizado.

Dona Donzinha, hoje aos 87 anos e 3 meses, possui 18 netos e 8 bisnetos. É uma “senhorinha” realizada e feliz!

Petrolândia, 23 de julho de 2017.

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