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História

É preciso fazer o bem

História de: Francisco Aires Pedrosa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2017

Sinopse

Francisco conhece bem os males do mundo. Cearense, cresceu brincando no açude próximo do local onde vivia no município de Marruás e ainda preserva uma lembrança vívida da natureza e da fauna local. Aos dez anos migrou para São Paulo com a família, se estabelecendo na zona leste da capital paulista. Durante a juventude iniciou o tratamento de um cisto cerebral que alguns anos mais tarde veio a desencadear um AVC, após o qual Francisco passou a utilizar uma cadeira de rodas. Retornando à terra natal após quarenta anos em 2011, pondera o que mudou dos tempos em que brincava com os peixes até hoje, defendendo uma mensagem que prega a compreensão e bondade entre os homens.

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História completa

Meu nome é Francisco Aires Pedrosa. A data de meu nascimento é nove de agosto de 1961. Essa é a data, 61. No ano de 1971 nós viemos para São Paulo. Viemos para acompanhar os pais, eles vieram para cá e, como eu era pequeno, então eu vim junto com eles. Viemos porque, segundo o meu pai, lá já não tinha mais meio de vida. Ele achava que aqui teria mais meio. Ele plantava, eu me lembro que em 70 ele tinha uma plantação e essa plantação deu bem, mas o dono ficou com inveja, colocou olho naquela plantação e falou: “Isso aqui está nas minhas terras então é meu”. Meu pai pegou raiva daquilo, entregou tudo, deixou tudo com ele. Então meu pai arrumou dinheiro e veio para São Paulo, veio pela finalidade de ter mais condições de vida. Chegando em são Paulo, vim morar na Cidade Carvalho que é coincidentemente ao lado do metrô Itaquera, do lado direito de quem vai para lá.

O meu avô se chamava Pedro Aires de Araújo, a minha vó, falecida, Romana Aires. Eles ficaram morando lá, meu avô veio a falecer mais ou menos, eu não tenho muita lembrança pois eu era pequeno, mas mais ou menos em 67 foi que meu avô veio a falecer. Ele era uma pessoa que tinha muito dinheiro, mas nós viemos para São Paulo e depois desse tempo todo eu fiquei mais de 40 anos sem ver ninguém de lá. A casa dele era bem grande, bem grande mesmo. Inclusive onde é o açude, onde represou toda a água da região, a terra dele ia até lá. Ele recebeu, além da ajuda dos pais dele, ele recebeu mais herança dos avós e utilizou essa quantia para o benefício dele, mas era uma pessoa, assim, muito simples. Olha, eu não tenho muita lembrança do meu avô. A única lembrança dele que eu tenho foi quando ele começou a tossir, do som. Tossir e escarrar sangue. E eu me lembrei disso só porque a minha vó tinha muito cuidado com ele, só disso que me lembro. Mas me lembrar dele, como ele era, eu não lembro, porque a fisionomia me foge.

Com a família do meu pai eu não tive muito contato não, eu era pequeno quando tinha mais contato. Com quem eu tive mais contato foi com minha avó porque morava próximo. A família do meu pai morava à distância de uns cem metros de onde a gente morava, a casa de minha avó era um pouco para frente. Hoje em dia nada mais existe por lá, nem a casa dela e nem a nossa, da casa que a gente morava tá só o terreno.

Desde 71 até agora, o ano de 2011, eu nunca tinha voltado ao Ceará. Fui pela primeira vez pelo caminho de Fortaleza e já na segunda vez fui por Juazeiro do Norte, que é mais perto. Devido a todo esse tempo, o local que eu tenho guardado na mente, que eu conhecia antes, passaram por uma profunda transformação, diria uma destruição imensa. Aconteceu foi que a vegetação secou mesmo. Você pode rodar por lá que você vê tudo, uma área seca. Tudo está seco, seco, seco. Morreu muita vaca, morreram muitas pessoas. Eu tinha essa lembrança que eu tinha de quando eu era pequeno, que é pouca, e hoje eu fui até o local para ver pessoalmente.

A cidade em que eu cresci você não vai localizar no mapa, você só localiza Marruás, é no caminho de Marruás. Aí só eu mostrando, porque é um lugar, pode-se dizer, que não teve grande conhecimento. Lá mesmo onde a gente morava, na Lagoa dos Cariolanos, é uma lagoa grande, com muita água, que era onde tinha a casa do meu avô, a minha casa e mais algumas casas, um total aproximado de cinco casas. Eu gostava muito daquele local, eu andava uma média de 11 quilômetros quando era pequeno, para fazer as coisas para a minha avó depois que o meu avô faleceu. Porque meu tio mesmo não queria fazer nada, só queria saber de beber. A minha infância no tempo que eu fiquei lá, eu brincava, mas também tinha as minhas obrigações, naquela época eu já estudava e tinha um trabalho. Eu me achava responsável que era o dono da casa por ser o mais velho dos filhos homens. Nós somos três homens e duas mulheres, estávamos empatados antes, mas faleceu uma mulher. Nesse meio tempo nós viemos para São Paulo em 71, ou seja, de 61 a 71 o que eu tenho de lembrança é de que eu via cobra, via animais lá, ferozes, e brincava com os peixinhos, porque eu via a água passando e os peixinhos pequenos na água, então era tão fácil de pegar. E essa mesma água saía da mina que tem lá atrás da casa e ia para o açude. Aquilo lá era uma coisa bonita, eu achava muito interessante porque eu via os peixinhos nadar e eu via a cobra comendo os peixinhos e eu tinha ciúmes. Achava que a cobra era má. Nesse local me lembro de brincar muito com os peixinhos do lago, isso me traz muitas lembranças, e eu via aquelas aves grandes, cheguei até a encontrar onça nesse local, as mais ferozes. Mas o animal mais feroz que eu encontrei foi o ser humano.

Desde 68 que eu sofro ameaças de morte, várias vezes. No ano de 69 o meu tio tentou me matar. Ele arrumou lá uma onça para a onça vir me comer, mas Deus arrumou outra onça para me defender e aquela onça divina acabou me defendendo do ataque. O meu tio quando viu a outra onça ficou com medo, se assustou, se apavorou e correu, me colocou em cima do cavalo e eu fui embora. Isso foi lá no Ceará. Quando eu vim para São Paulo eu me esqueci das coisas, esqueci completamente, e nisso aconteceu que o meu avô deixou uma herança para mim e eu esqueci disso também. Minha família ficou sabendo, mas eles acharam que deveria ficar com eles e não comigo.

Em 1977 eu comecei a tratar um cisto cerebral, por causa dele eu não tinha coordenação alguma, vomitava muito, mas aqueles vômitos não se sabe o porquê, o motivo. Este cisto acabou acarretando no que a medicina chama de um AVC. Eu tive um AVC em 88, embora tenha começado a tratar o cisto em 77. Então eu fui para o hospital, e lá eles fizeram o que fizeram e eu fiquei na cadeira de rodas. Então, estou na cadeira de rodas através disso, eu não estava na cadeira de rodas antes, e mesmo na cadeira de rodas sofro muitas perseguições. Mas a perseguição não é do ser humano. O ser humano faz o mal, às vezes, sem saber, porque quem faz isso é o inimigo nas nossas almas. As pessoas não se conscientizaram disso ainda. A criança briga com outro aí a pouco passa: “Vamos brincar. Vamos brincar”. E isso é o verdadeiro perdão. A criança perdoa o seu próximo e nós devemos perdoar para sermos perdoados. Nós não sabemos se estamos só nessa vida.

Agora, por isso que eu falo que nós não conhecemos, não sabemos. Nós temos dificuldade de amar ao próximo, nós precisamos fazer bem, não fazer mal. Porque fazendo o mal, nós vamos colher o mal. Isso quer você queira, quer você não queira, eu pego aquilo lá, esses folhetos que eu faço, tem o calendário, e vou distribuindo para a população. Vou distribuindo, entregando num lugar e outro, distribuindo. Fiz uma continha ontem de mil peças, vai dar uma caixa assim. Depois eu coloco imã para colocar na geladeira. Isso com a finalidade de dizer assim: “Não faça o mal. Faça o bem ao próximo”. Porque eu acho que fazendo o bem nós vamos conhecer coisas boas, coisas muito boas. Deus tem coisas boas para nós, muito, muito, muito boas mesmo. Deus nos dá um livre arbítrio, mas temos que fazer coisas boas porque se você pratica o mal, você vai receber o mal. Fazendo coisas boas, Deus vai acrescentar mais coisas boas e nós já temos conhecimento do que pode ser feito.

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