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História

Educação com afeto e muito diálogo

História de: Sandra Mara Soares Longo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/03/2009

Sinopse

Sandra nasceu em 13/10/1959, em Cantagalo (RJ). Conta sobre sua grande família com 11 irmãos e as dificuldades financeiras que passavam, mas que nunca os impediram de serem felizes. Apesar do preconceito, o jeito alegre de sua família sempre atraía muitos amigos, fossem filhos de médicos ou engenheiros, todos gostavam de ir sempre à casa da família quando possível. Conta de suas muitas travessuras e de como sempre levou os estudos a sério. Agora, diretora da Escola Municipal Ewandro do Valle Moreira, conta sobre como é importante dialogar com os alunos e professores e do quanto se sente feliz com projetos como o TôNoMundo, que alimentam a coragem para sonhar através da escola.

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História completa

P/1 – Boa tarde!

 

R – Boa tarde!

 

P/1 – Pra começar a entrevista, gostaria que você falasse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Sandra Mara Soares de Longo, eu nasci no interior do estado do Rio de Janeiro, no município de Cantagalo, no distrito de Floresta, Santa Rita da Floresta, em 13 de outubro de 1959, só não sei a hora.

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Alberto Longo, era funcionário do DER, né, Departamento de Estradas de Rodagem, minha mãe era costureira, Marina Soares de Longo.

 

P/1 – E eles são de onde?

 

R – São descendentes de Italianos que vieram de Friburgo e foram para Cantagalo.

 

P/1 – Você sabe um pouco da história dessa imigração pro Brasil?

 

R – Um pouco, meu avô paterno, era de Nápoles, minha avó era neta de italiano, da cidade de Veneza, eles vieram pra cá, ela com oito anos e ele mais ou menos com doze anos. Agora como eles chegaram aqui, a gente tenta resgatar um pouco essa cultura, essa história, mas fica difícil pra gente por causa da dificuldade que a gente tinha por ser de família pobre, não ter tanto acesso a esse acervo deles, de vida deles.

 

P/1 – E você conheceu seus avós?

 

R – Conheci.

 

P/1 – Qual era o nome deles?

 

R – Meu avô paterno era Benjamin Longo e ela Maria Patti Longo.

 

P/1 – E qual é a lembrança que você tem deles?

 

R – A gente morava no interior, e eles moravam em Nova Friburgo e quando a minha mãe com nove filhos, mais dois de criação, pra gente poder ir vê-los, que era raro, porque não tínhamos condição, situação financeira que nos permitisse, ela alugava, pagava um caminhão, tipo boia-fria, nós íamos todos, era raro, mas a gente via. Ele era comerciante, lembro de muitas bexigas de salame que ele pendurava no armazém deles, chegava lá, nós partíamos a mortadela pra gente, ele tinha um sotaque bem carregado e ela também, eu lembro muito da minha irmã mais nova, muito parecida com ela, baixinha e eu tenho a voz deles até hoje, que eu não esqueço. Eu era pequena na época, mas ficou muito essa imagem deles com a gente, ele não andava, ele ficava em cima de uma cama, então a gente ficava muito perto dele. Era uma família pobre, mas aquela coisa gostosa, né? Típico do italiano mesmo, aquela acolhida gostosa.

 

P/1 – E você comentou que você tinha quantos irmãos?

 

R – Nós somos em nove, são seis homens e três mulheres. E minha mãe criou mais dois, ao todo onze.

 

P/1 – E como é que era o convívio de vocês quando criança?

 

R – Ah, só vou falar uma coisa, se eu tivesse que viver com toda a dificuldade que a gente teve na época, tipo de alimentação, de material escolar. Então a gente tinha tudo isso e a nossa vida era muito feliz, nós tivemos infância, então só tenho excelentes recordações que eu procuro passar muito para os meus filhos,  eu tenho três e essa história que eles fazem questão de ouvir, eles valorizam demais e eu acredito que o vínculo que existe com a gente hoje, mesmo nesse tempo passado, é poder levar essas histórias pra eles, passar isso pra eles.

 

P/1 – Então Sandra, conta uma história da sua infância.

 

R – Da minha infância? (risos) São tantas. Hoje, quando eles ficam reclamando, eu falo até para os meus alunos isso, quando eles ficam reclamando do ter, eu me lembro que o Natal me marcava muito, a gente não tinha nada, eu fui conhecer boneca, o objeto em si, de longe, me questionei por que aquela criança ficava parada e descobri que era uma boneca, uma boneca Amiguinha, eu nunca me esqueço disso. E nós, na época de Natal, a gente pegava algodão do mato e juntava carteira de cigarro que tinha aquele laminado, né, a gente pegava aquilo e ia juntando a partir de novembro para a gente fazer as bolinhas de natal, e o fato de poder ter a melancia, o abacaxi, que para mim e para os meus irmãos aquilo só existia no Natal. Então quando eu falo isso pra eles hoje, e eles curtem, a gente percebe que pra mim é nostálgico, mas ao mesmo tempo é prazeroso contar para eles também e aquilo marcava muito. A gente tinha brinquedo, meu pai pegava mesa, o pé de mesa antigo, fazia boneca pra gente e uma coisa que minha mãe me ensinou muito a questão do dividir, foi um exemplo que ela deixou muito forte pra gente, quando ela pôde nos dar uma casa assim, casa com teto mesmo, parede, que a nossa casa era de pau-a-pique. E no primeiro Natal que ela pôde comprar, a gente foi morar numa rua onde tinha muita criança e isso até hoje me emociona porque ela comprou, na época nove filhos, seis homens e ela fez questão de comprar uma bonequinha, uma para todas as meninas e um carrinho para todos os meninos, então pra mim ela foi o meu ídolo, ela e meu pai. Se eu pudesse viver tudo, com toda dificuldade, eu falei que não ia chorar, chorei, toda dificuldade que a gente teve, de fome. A gente pegava o prato de comida e dividia pra comer três horas, hoje a gente sabe que um adolescente perde energia, e com tudo ela foi aquela mãe, obrigava a gente a estudar, a gente tinha uns compromissos, as obrigações que era pegar lenha, que o nosso fogão era à lenha, mas era prazeroso. A gente subia o morro depois do colégio pra pegar lenha pra ter a lenha, né, o fogão, pra acender o fogão.

 

P/1 – E você era a mais velha?

 

R – Não, eu sou a quarta. São o Maurício, Márcio, a Márcia, eu e a gente ajudou a criar os outros, porque ela tinha que trabalhar. Ela era pai e meu pai era mãe, os papeis se invertiam, porque ele que dava colo pra gente, ele deixava a gente fazer tudo e ela que tinha que ser o sargento, a gente falava que ela era o sargentão. Ela que batia, ela tinha que bater, por que já imaginou? Onze pestinhas perturbando, minha mãe foi esse exemplo de mulher de fibra, e meu pai que botava no colo. Ele ficava o dia inteiro fora, quando chegava a gente ia reclamar com ele e eu acho que isso hoje, eu uso muito isso na minha profissão hoje, esse lado que ele fazia, de botar a gente no colo: “Tem que entender a sua mãe, sua mãe está nervosa...”, isso era legal, e a gente construiu isso juntos.

 

P/1 – E como era o relacionamento dos irmãos...

 

R – Você imagina nove, onze, meu irmão hoje está com 53 anos, o mais novo está com 40, uma escadinha, né? A gente brigava, (risos) mas éramos assim: um por todos e todos por um, de brigar na rua por um, a gente brigava em casa também, mas era uma coisa muito fraterna, literalmente falando, porque com todas as dificuldades que a gente tinha, a gente passava realmente, mas a gente nunca jogou na cara de pai: “Não tem isso, não tem aquilo”. Quando ia na rua, que é uma coisa que eu falo para os meus filhos até hoje, que meu irmão adorava chiclete e minha mãe era católica, você imagina, ela fazia a gente levantar, confessar toda quinta-feira do mês pra comungar em jejum toda sexta-feira do mês e isso pra gente era aquela via sacra, se saísse de casa, que ela fazia questão de arrumar todo mundo pra poder ir à missa e com isso a gente criou esse vínculo. Acho que até a questão da fé, da religiosidade, acho que firmou mais, veio confirmar mais nossa relação até hoje, nós somos nove vivos, meus pais já são mortos, a minha mãe faleceu, ela teve a doença de Alzheimer, e no período todo da doença os médicos acharam incrível a sobrevida que ela teve, durante nove anos, a gente abraçou ela com a doença e tudo. Então ela teve uma sobrevida de nove anos com a doença de Alzheimer, isso pra gente foi ali a presença da educação que ela deu, a gente pôde, no futuro dela, que ela não pôde conviver com isso, a gente poder mostrar para ela que vencemos com amor, como a gente estava conversando.

 

P/1 – E quais eram as brincadeiras, o que é que vocês curtiam?

 

R – Brincadeiras? As piores possíveis, se meu filho fizesse metade do que eu fiz, metade da metade, eu acho que eu enfartaria, porque era assim, ovos de páscoa a gente pegava folha de coqueiro, sem noção nenhuma do perigo, deslizava, aquilo vinha, você sabe o que é, aquelas canoas? Cipó, pular de uma árvore pra outra, onde caía em vala, com grão de calo e a gente não podia se machucar, todo machucado era sinônimo de despesa e na época a gente não podia se machucar e quando a gente se machucava,  eu me lembro de uma cicatriz. (risos) Negócio de brincar de pique-esconde para poder pegar laranja do vizinho, esse pique fazia com vara de bambu verde, até que o cara resolveu colocar vidro no muro, e eu cortei o joelho, no que eu cortei eu falei “Ih, eu vou apanhar”, apanhava. Eu peguei aquela poeira da calçada, aquela nata amarela, que lembra pó-de-arroz, que ela falava, aí eu tapava aquilo e ficava quietinha pra camuflar o machucado, até que um dia o médico viu eu fazendo isso, um vizinho, ele me levou, me colocou um band-aid, um chumaço de band-aid, ficava aquilo. Ela me deu uma surra por causa disso, que não podia machucar, que tinha que comprar remédio, comprar antibiótico, naquela época tudo era antibiótico, dava antibiótico para tudo e isso aí, tomar banho de rio, fazer piquenique, a gente ia pro alto do morro onde cada um tinha uma cabana de folha de eucalipto, tinha delegacia, tinha prefeitura, cada um tinha a sua casa, limpava as trilhas todas com a mão, a gente tomava chá de eucalipto. (risos) Fazia chá de eucalipto, tomava, pegava milho dos outros, cozinhava milho lá, inclusive até frango de macumba a gente pegou uma vez (risos) pra assar no espeto, meu irmão falou assim: “Sandra, a cachaça a gente dá pro santo, o frango está vivo, a gente vai assar ele”, quando eu conto essas coisas eles morrem de rir, mas é verdade, meu irmão está vivo ainda, ele pode confirmar isso. Ruim é que o dedo ficava todo sujo de carvão, que assava o frango no espeto, né, frango de roça você sabe bem como é, carne dura, pena e aquilo, pra comer aquilo tinha que ser dente mesmo, e isso aí foi pique-bandeira, queimada, garrafão, um negócio que jogava com vergalhão, inclusive meu irmão meteu o vergalhão num pedaço de ferro que a gente marcava, inventava os passos pra gente brincar, peteca, isso.

 

P/1 – Deixa eu te perguntar, esse frango que vocês acharam como é que foi, vocês estavam andando?

 

R – A gente viu o cara colocar lá, tinha uma vala, a gente ficou de tocaia, aí ele acabou de colocar o frango, ele cortou o pescoço do frango e botou uma garrafa de cachaça e ele com o estilingue na mão, falou assim: “Ah!”, a gente tinha uma cabana, era perfeita a aldeia, aí ele falou assim: “O nosso jantar está garantido”, aí ele foi lá, acabou de torcer o pescoço do frango, falou assim: “A garrafa a gente dá pro santo e o frango a gente carrega”, e foi onde que a gente depenou o frango, tinha aquelas penas pretas, pretinhas mesmo, frango de macumba mesmo, hoje a gente sabe que é de macumba, não é?!

 

P/1 – Mas aí vocês que sapecaram ele e tudo?

 

R – Sapeca, enfiava, botava na fogueira por baixo, fazia um, aqueles ganchos, né com pau, colocava fogo e ficava rodando ali como hoje tem a churrasqueira (risos). Isso hoje eu não teria coragem de fazer isso nunca, né, tenho até medo de falar isso, mas a gente fazia, macumba pra gente não existia, né, católico de berço não sabia nem o que era isso, não sabia mesmo, abstraía totalmente.

 

P/1 – E como é que era a casa?

 

R – A primeira casa que a gente morou, que a gente era praticamente colono de um fazendeiro, minha mãe ainda não tinha o mais novo, a gente lá era praticamente colono, ela era costureira e era uma casa com uma sala, uma cozinha, um fogão a lenha, um banheiro pequeno que era aqueles banheiros de antigamente que não era vaso, era uma coisa de madeira tipo uma fossa, uma sala, um quarto dela e um onde dormia a filharada. Depois meu pai conseguiu, minha mãe também, conseguiram comprar um lote e foi onde ela construiu uma casa com parede de tijolo, telhado, chão de cimento, sem luz elétrica, eu acho que eu fui conviver com a luz elétrica eu deveria ter uns nove, oito pra nove anos. A gente usava lamparina, televisão não tinha, então quando a gente mudou pra nossa casa, a gente mudou, mas sem janela, a porta tinha que encostar uma madeira, mas ali pra gente era um palacete, não tinha chuveiro, era uma mangueira onde a gente tomava banho, primeiro de balde, depois veio essa mangueira e isso aí foi a vida da gente assim até uns bons treze, catorze anos e ninguém reclamava, adorava, muito tempo depois que minha mãe conseguiu botar uma laje, que teve que tirar o telhado todinho. E ao invés dos vizinhos oferecerem pra gente dormir, os filhos queriam dormir com a gente, porque lá em casa tudo era motivo de festa, chovia a gente tirava a poeira porque estava cheio de poeira, quando chovia, a gente pegava pra lavar tudo porque molhava tudo, mas tinha os cômodos que a gente guardava roupa, essas coisas e assim foi. Até eu sair de casa, com vinte e cinco anos para me casar era cimento ainda, aí depois que começaram a fazer os primeiros aprimoramentos básicos, e simples.

 

P/1 – É, esse lugar de eucalipto que vocês brincavam, como é que era, era perto? Vocês saíam?

 

R – Saíamos, é que lá era um vale, né, nossa região era muito montanhosa e a gente morava assim, tipo num vale mesmo, o morro. Era nosso templo aquele morro, hoje está tudo desmatado, dá uma tristeza, a gente vê isso, é a minha geração, até mesmo gente mais nova que eu, três, quatro, cinco anos, a gente lembra com muita vontade, esses momentos que a gente passou lá. Pegava folha de eucalipto, né e mantinha as cabanas, aí tinha delegacia, tinha prefeitura, tinha tudo, era o nosso parque de diversões, ali pra gente era tudo.

 

P/1 – Mas era muita criança que brincava lá?

 

R – Muita, muita criança. Era que, Nossa Senhora! Deveria ter mais que vinte, e todo mundo do mesmo nível social, então depois que começou a mudar, mudou um médico, um comerciante que foram misturando as coisas, mas eles também entravam na nossa dança, porque a gente liderava, a gente era dono da boca, como se dizia o zoio, lá ninguém entrava, lá, pra entrar era sério, eu falo isso com meus filhos, eles morrem de rir, quem mandava era a gente, tinha festa de gente que era um pouco melhor de vida, não convidava a gente aí acabava a festa. A gente cercava até entrar na festa, penetra, né, a gente participava de tudo até que eles ficaram amigos, começaram a respeitar a gente como pessoas integrantes da rua ali e a minha casa, por ser muita gente, era a casa mais frequentada e praticamente a mais pobre da turma, da minha turma depois do colégio, que saiu desse meio, a mais pobre era eu, mas era a casa onde todo mundo queria ficar pra fazer os trabalhos, que tinha vida, e isso foram durante muitos anos, muitos anos mesmo.

 

P/1 – O que mais que vocês brincavam lá nesse templo de infância aí?

 

R – O que marca muito a gente é que às vezes, e é de tomar arrepio de medo, eram os piqueniques que a gente fazia, saía tipo seis, sete horas da manhã e andava oito quilômetros na mata adentro, aí lá pescava. Uma vez, quase foram seis da nossa turma que morreram no rio, porque mergulhava no rio de calça jeans, nadava-se cachorrinho, e a gente trazia os menores no raso, quando chegava no fundo a gente jogava pra margem, até que um dia houve um descontrole, e foram quase seis, quando um foi boiando de cabeça embora no rio, falei: “Ah, deixa ele morrer que eu não aguento mais, não”, que ele estava grudado em mim, isso nos piqueniques, que enfrentava, não tinha medo de nada, era rio, era correnteza, era tudo até que esse menino quase morreu, foi onde veio o freio pra gente, um garoto de sete anos, um pernambucano que estava passando férias, ele conseguiu mergulhar, que ele estava grudado em mim, dei um soco nele, ele se soltou e foi embora, mas lá na frente ele mergulhou e pegou de volta. Não morreu ninguém, graças a Deus, nunca. Meu irmão já levou um tiro de chumbinho na cabeça, tinha esse negócio de caça também, com estilingue e com espingarda de chumbinho, o outro pra não ver, para não espantar o passarinho, deu um tiro na cabeça dele pra chamar, pra falar que tinha o passarinho e ele chegava, “Olha, ele me deu um tiro aqui”, e pra chegar em casa pra falar com a mãe? Eu lembro direitinho como se fosse hoje, o chumbinho entrou no coro cabeludo dele, a gente pegou pedaço de pau, fazia tipo pinça, tirava os cabelos, tentava puxar o chumbinho, mas ele estava a dois centímetros do cérebro dele, teve que ir pro hospital tirar. Foram assim, brincar de pique, pular no quintal do vizinho, pulava laje, de uma laje pra outra, saía pulando até que uma vez um colega caiu dentro da casa da velha, pra sair da casa da velha foi uma coisa de louco, eu falo que hoje, eu acho que não existe isso. Essa brincadeira do vergalhão mesmo, jogava o vergalhão, tinha que ser, a gente não tinha, não era calçada, era terra, a gente marcava um circulo lá, você tinha que jogar o vergalhão e ir riscando até riscar o seu terreno e voltar, isso quando minha irmã jogou e enterrou no pé dela. Então, garrafão, brincava disso, essas brincadeiras de pique-bandeira, de piquenique, já ficamos perdidos na mata um dia inteirinho, quando a gente resolveu marcar um lugar pra dormir, comia moranguinho silvestre, comia broto de árvore pra matar a fome que você imagina aquele piquenique de criança, quando você sobe come tudo, quando chega no local já não tem mais nada e isso com o barulho do vento, enganou a gente que a gente achou que fosse rio, água, todo mundo com sede e nessa ilusão a gente se perdeu na mata, só conseguimos sair às cinco e meia da tarde e a mata escurece, três horas da tarde você já está, já tem que catar lugar pra dormir, senão é perigoso, mas graças à Deus a gente conseguiu, só Deus também, os anjos da guarda existem e eu acredito cada vez mais. (risos)

 

P/1 – E os seus pais ficaram...

 

R – A gente apanhava quando chegava em casa, mas todo mundo apanhava consciente, você imagina, a mais velha nessa época quando a gente se perdeu era eu, eu tinha catorze anos, mais de quinze crianças abaixo de mim, entendeu? Então a gente, e eu falo: “Eu apanhei muito, muito, muito”, mas foi bem merecido, eu não bato nos meus filhos, mas não fico revoltada com a minha mãe, nem traumatizada que tudo que a gente foi, em termo de perigo, não de ser mau filho ou não, de levado mesmo, bagunceiro, não sei, bem o termo indisciplinado que eles usam hoje, hiperativo, não é? Qualquer coisa o aluno é hiperativo, hiperatividade era a nossa, que não tinha televisão, não tinha nada. Pra ver televisão tinha que trabalhar durante o dia no quintal de um velho chato, tirar tiririca da horta dele pra ele deixar a gente ver o Jornal Nacional na época.

 

P/1 – E eram onze, né?

 

R – Onze, onze fora o pessoal da rua. Ele sentava igual cinema, a televisão dele abria, era um móvel, a televisão dele abria, a gente achava aquilo um máximo, via Repórter Esso, não era nem Jornal Nacional, Repórter Esso.

 

P/1 – E em casa, como que era a alimentação, quem cozinhava?

 

R – Ah, muito simples, a gente tinha três refeições, de manhã (risos), coitadinha da minha mãe, ela fazia uma broa que você não tem noção do que era aquilo, era um angu assado, no fogão à lenha, mas a gente comia. Angu com leite, que ela fazia os pratinhos, botava o angu com leite, café com leite e era aquele pratinho, onze pratinhos pra pôr, cada um tinha que comer e comia rindo, era melado com inhame, era farinha de mesa com açúcar, o almoço, a comida, né, hoje a proporção do prato é arroz, na nossa época era proporção maior de angu, uma colher, um pouquinho de arroz, um pouquinho de feijão e uma verdura e ela comprava toda semana um cento de banana, banana d’água, tem uns que falam banana nanica, que era o complemento que a gente tinha, ovo era raro, carne, nossa Senhora. Domingo tinha um frango, mas você imagina, dois frangos pra dividir pra quase quinze pessoas, fora os agregados que iam lá pra casa? E a alimentação era isso, pão só de domingo, dividia o pão, cada um comia seu pedacinho de pão, mas ninguém pedia mais, sabia que era aquilo e pronto, acabou. A gente não sabia o que era pedir, porque sabia que não podia pedir mesmo. Agora Natal era festa, meu pai já começava a criar porco, criar cabrito, frango, aí era aquela fartura e ela acolhia todo o pessoal da rua e isso foi até pouco tempo, quando ela tinha vida, vamos colocar uns dez anos atrás, da minha juventude, eu com vinte e um, vinte e dois, meus amigos, o Natal era lá em casa. Não tinha lugar nenhum, o Natal tinha que ser na casa dela, e ela não contava: ”Ah, você pode vir, você não pode”, quem chegasse ia comendo, então isso foi assim, um exemplo de vida pra gente, ela nos ensinou esse dividir, e foi muito bom, agora, alimentação precária, vamos botar assim precária, porque não tinha manteiga, leite era difícil e verdura também, a gente tinha hora, inhame, isso.

 

P/1 – E sua mãe sendo costureira, ela fazia roupas pra vocês?

 

R – Fazia.

 

P/1 – E como é que era...

 

R – Ela era considerada uma das melhores costureiras, né, ela era danada, costurava uma vez por mês, uma vez por ano ela vinha aqui pro Rio, meus tios moravam na Tijuca e ela içava um mês costurando aqui pra eles, era a nossa felicidade e quando ela voltava, ela voltava sempre com uma novidade pra gente, e ela costurava. Ela ganhava as roupas, ela transformava aquelas roupas todinhas que ela ganhava pra gente, eu adorava, minha irmã ficava meio ressabiada porque ela era meio orgulhosa. “Ah, eu quero, eu quero, eu quero.” Ela era uma fada madrinha, ela pegava aquelas roupas, transformava e fazia uma roupa nova. Sempre ela tinha uma novidade pra gente, ela nunca deixou a gente andar desarrumado.

 

P/1 – E vocês participavam da...

 

R - Da costura? Participava. A gente tinha que ajudar, fazia bainha, a máquina dela não tinha esses recursos que tem hoje, então a gente fazia todo o arremate, de pregar botão, de caseado, de churriado, de fazer bainha, tudo era com a gente, aí ela liberava a gente quatro horas da tarde, mais ou menos, para poder brincar. Mas a gente quando já tinha treze, catorze anos começou a ter esse compromisso de ajudá-la e costurava muito, ela atendia uma clientela muito grande, foi praticamente o que segurou a gente, porque o salário do meu pai não tinha como, não tinha mesmo.

 

P/1 – E você comentou que sua casa era muito frequentada, né?

 

R – Muito.

 

P/1 – E quem eram essas pessoas, qual era a frequência das pessoas irem à sua casa?

 

R – Não (risos), não tem as festas, antigamente era Hi-Fi. Os Hi-Fis eram lá em casa, fazia na casa de um, “Não, vamos fazer na sua casa”, lá tinha um caramanchão, aí a gente fazia a nossa discoteca, depois foi discoteca, e eram filhos de médicos, filhos de professores, porque na minha adolescência, adolescência pra mim acho que é meio vago falar, porque eu acho que passei da infância pra juventude, que a gente quase não teve essa questão de adolescência, como tem hoje, filho de professora, era status ser filho de professora. Existia uma discriminação muito grande, um preconceito, conosco, filhos de funcionários públicos, de costureira, de empregada doméstica, então só que os meus primos que moravam aqui eram filhos de médicos, eram filhos de engenheiros e eles ficavam na minha casa. Chegava Carnaval, nessa época que ficavam trinta e quatro pessoas dentro de uma casa de três quartos, a gente dormia até debaixo da cama, de tanto prazer que tinha de receber aquele povo todo e eram filhos de pessoas que tinham um poder aquisitivo mais alto. Quando íamos para o baile de Carnaval, que era em clube, desciam mais de vinte pessoas, mais de vinte e cino jovens que desciam em grupo. Então aquilo chamava atenção da comunidade local, e isso cada vez mais, o nosso temperamento, a maneira de viver com simplicidade, não dava motivo pra sair da linha, que lá pegava feio mesmo e isso era assim, direto. Me lembro da Copa do Mundo uma vez que sobrou para eu ir pra minha casa, eu tive que lavar, cimento, eu enfeitei com tijolo, ia no campo, pegava flor, botava jarrinha, pra gente poder assistir o jogo do Brasil, né e muito bem frequentado. Meu pai era aquele pai do amigo, aquele amigo, todo mundo adorava ele, aí minha mãe brigava: “Desliga esse som, essa música doida!”, começou a conhecer o rock, gostar do rock, colocava caixa de som. Meu irmão conseguiu, começou a trabalhar, comprar um aparelho de som, a gente colocava no telhado, você sabe como é que é casa de telhado, né? Não tem divisória, o telhado é alto, coitada, enlouquecia ela, porque era uns roques doido e ela, mas ela nunca privou a gente disso. Ela sempre deixou a gente viver esse lado e sempre presente.

 

P/1 – O que é que vocês gostavam de ouvir?

 

R – Na época? Ih, meu Deus! Tudo, Elton John, Pink Floyd, a gente ouvia, Black Sabbath, aí depois veio o Rick Wakeman quando veio ao Rio fazer um show, Rod Stewart. Meus filhos ficam bobos, que quando a gente fala isso (risos), que eles adoram porque muita coisa voltou, aí veio o Bill Haley mesmo sendo bem antes, mas a gente ouvia isso tudo, era uma mistura danada, Slaid, tudo o que você imaginar. Nossa Senhora, me voltou à cabeça, Pink Floyd, Slaid, Elton John, Black Sabbath, U2, eram muitos pra minha cabeça.

 

P/1 – Mas você comentou sobre Carnaval, que seus primos iam lá curtir o Carnaval, você gostava de Carnaval?

 

R – Sempre gostei.

 

P/1 – E as fantasias, sua mãe ajudava a fazer?

 

R – Fazia, mas ela não deixava a gente usar nada assim, naquela época era colant, a nossa fantasia tinha que ser de saia, shorts, fora isso, ela não deixava. Que as meninas faziam noiva com meia arrastão, com colant, na época. A gente não, tinha que usar marinheira, uma coisa que tivesse com saia ou shorts, mas era, ela fazia uma pra cada dia, eram quatro dias de baile, tinha quatro roupinhas que ela fazia pra gente, ou fazia um grupo, geralmente a gente fazia um grupo com a mesma roupa, aí já chegou a ganhar prêmio de originalidade, essas coisas que tem no interior, mas era legal, a gente curtia 24 horas o Carnaval e era uma choradeira quando ia embora, quando o pessoal ia embora, que vinha cada um pro seu lugar, era (risos) deprimente, como diz o pessoal. Meus primos que moravam aqui no Rio, eles choravam muito, choravam, mas compulsivamente. Porque eram praticamente cinco dias de festa, de folia mesmo, você imagina, numa faixa etária de dezessete até vinte e dois anos, só aí reunia mais de quinze pessoas e era muito gostoso, Nossa Senhora, muito bom mesmo! Sem comentários.

 

P/1 – E sua mãe sendo muito católica, vocês frequentavam a igreja?

 

R – Frequentava, tinha que frequentar.

 

P/1 – E como é que era, era todo domingo?

 

R – Todo domingo. (risos) Até que uma vez o padre começou a brigar com ela porque acabava a comunhão e a gente saía, não esperava a benção final, e ele gritava lá do altar: “Os filhos de Marina, volta, volta!”, ela começou a brigar. Porque a gente vai crescendo e vai relaxando um pouquinho, mas desde que eu me entendo por gente até acho que meus vinte e dois anos, era todo domingo. Fora o trabalho que fazia com ela de evangelização, saía com o padre de manhã, sem lenço, sem documento, sem nada pra comer pra pegar a zona rural do município de Cantagalo pra fazer o trabalho de evangelização. Eu acompanhava muito a minha mãe com a irmã de caridade, às vezes pegava carona, ela quase morria, parava caminhão, botava a freira com aquela sainha dela, coitadinha, colocava ela com a mulher do caminhão, trabalho social em morro a gente fazia muito. Minha mãe teve uma importância muito grande nesse sentido pra mim, ela mostrou muito o porquê é que ela veio pra cá, ela pegava na rua, ela levava pra casa, “Ah, está com fome!”, ela já pegou uma senhora, levou pra dentro de casa, tem até hoje um menino que mora na casa da minha mãe, a gente fala, que mesmo ela tendo morrido, que é a casa da vovó Marina e ele está lá até hoje e chora de saudades dela, é o Puti.

 

P/1 – E como foi a primeira ida ao colégio? Quando é que foi, você se lembra?

 

R – Eu aposto que eu não gosto muito de lembrar da minha infância mesmo porque eu acho que naquela época, eu acho que o profissional hoje, sabe muito o que a gente foi no passado, porque a gente sofreu lá atrás, na minha época a gente sofreu muito a discriminação no colégio, muita coisa mesmo e era muito ruim, hoje o aluno tem tudo dentro da escola pra estudar e não estuda porque não quer. A gente tinha que comprar, a gente tinha que comprar, ela tinha que comprar, imagina, onze pares de sapato mais o uniforme, porque era obrigatório o uso do uniforme. Ela perdeu um filho por causa de chateação, porque mandaram meu irmão voltar do colégio por causa de uma meia preta e ela estava grávida de três para quatro meses e a gente não sabia e ela era muito assim, caprichosa, fazia questão que andava tudo, ela tingia as nossas saias de um ano pro outro, pro azul marinho ficar mais vivo e quando meu irmão não pôde ir com a meia, não sei o porquê, mandaram ele voltar e nesse aborrecimento ela perdeu o bebê. Enfiamos dois pedaços de pau pra poder subir com ela até lá, foi onde a gente descobriu que ela tinha perdido o neném por causa de aborrecimento de escola. Então acho que hoje a gente, muita coisa do que eu sou hoje me reflete muito, a não ser aquele pessoal que foram comigo, então a gente fazia pra passar de ano porque era sofrível conviver nas escolas daquela época.

 

P/1 – Você lembra qual era o nome da escola?

 

R – Na verdade, não gosto nem de tocar por questão de ética profissional, mas no colégio, a gente sofria essa discriminação por ser pobre. O não ter influenciava muito e o “ser filho de” também influenciava muito, entendeu? Aí isso a gente tinha uma certa, mas eu lutava, eu sempre lutei, era assim: me deu uma reguada, levava um chute na canela, uma vez uma mulher me deu uma reguada na cabeça eu fui e meti uma bicuda na canela dela, eu nunca me conformei, ela: “Você não pode fazer isso!”, “Você também não tem o direito de me bater”. Eram umas réguas de madeira, ela me deu na cabeça e quantos atrás de mim não sofreram também esse tipo de coisa, mas a gente era feliz, com tudo, a gente era feliz, bagunceiro, fazia e provocava. Aí era uma atitude, a gente, hoje eu posso avaliar assim, era uma atitude de protesto contra aquele sistema que queriam que a gente convivesse com aquilo, com aquele preconceito, com aquela discriminação toda, mas sempre foi muito bom, porque minha mãe fazia questão. A gente não podia repetir de ano, repetir de ano era sinônimo de despesa, ela tomava a tabuada da gente costurando, aqui, ela mandava todo mundo estudar e ela tomava a tabuada, “Três vezes dois?”, se você falasse: “É”, ela pegava a tesoura, olhava a resposta e dava com o croc na cabeça da gente, ela tinha três vezes dois, seis, quatro vezes dois, oito, cinco vezes três, era assim, resposta imediata, porque ela falava: “Vocês precisam disso”, eu acho que ela estava certa, só ela sabia, estava sentindo na pele o que ela passava.

 

P/1 – Ô Sandra, conta um pouco mais como que era o dia-a-dia na sua casa, como vocês acordavam, os meninos dormiam aqui, vocês dormiam juntos...?

 

R – Depois que a gente mudou pra essa casa, ela fez o quarto para as meninas e um quarto pros meninos, aí separou, mas era muito bom, a gente não tinha energia elétrica e um dos momentos que me marcou muito também foi quando ela começou a colocar luz, que eram aqueles fios que caíam, aí veio a televisão, a gente ficava olhando, ficava curtindo aquilo, quando ela conseguiu comprar uma televisão, a televisão Zenith, nem sei se existe essa marca. A gente ficava alisando aquilo, quase lambendo aquilo ali, aí veio o sonho da geladeira, essa parte eu acho que marca muito todo mundo lá em casa, que meu irmão via, por causa de fotos, manchetes, a gente ia numa fábrica de papel todo domingo, o cara nos levava para pegar aquele monte de revistas e ele: “Um dia eu vou ter uma geladeira dessas! Um dia eu vou ter uma geladeira dessas!”, aí a minha mãe, com muito sacrifício, comprou uma geladeira vermelha, que era o sonho de todo mundo lá em casa ter uma geladeira vermelha, naquela época, tudo era vermelho. Olha, quando a gente chegou do colégio, nunca me esqueço disso: “Tem uma surpresa”, a geladeira. Meu irmão quando abriu a geladeira, ele meteu e fechou: “Não é essa que eu quero! Eu quero a da revista! Tem um monte de coisa dentro”, aí foi a maior frustração pra ele, (risos) ele chorou, ele ficou revoltado, ele foi lá, abriu: “É essa a geladeira que eu quero, com doce, com fruta, com tudo”, então que a gente começou a ver, porque não adianta ter lá, você tem que ter o miolo pra pôr lá, aí foi quando a gente fez a promessa de São Cosme e Damião de encher a geladeira, nós saímos de manhã cedinho e voltamos cinco horas da tarde, e enchemos a geladeira de doce, aquilo era festa. Era muito bom o nosso dia-a-dia, com todas as brigas que tinha, que é normal ter, né, a minha mãe, coitada, ela era nervosa, hipertensa, ela tinha angina e eu que tirava ela das crises de angina dela, que tinha de desenrolar a língua, mas depois a gente entrava na rotina, era maravilhoso, graças à Deus!

 

P/1 – E com a televisão em casa, quais eram os programas que vocês gostavam de assistir?

 

R – Ah, National Kid, repórter, (risos) a gente gostava de ver a imagem, aí tinha o Zorro, Sessão da tarde, quando eu já estava maior, na época de vocês não devem lembrar disso, fazíamos questão do Elvis Presley, cada dia passava um filme do Elvis Presley, na Sessão da tarde, também tinha Bonanza, Speed Racer. Mas a gente tinha um controle, ela tinha um controle pra ver a televisão.

 

P/1 – E era democrático? (risos)

 

R – Oh lá, ela está rindo lá! Não, vamos continuar. Onde você quer chegar?

 

P/1 – (risos) Ai, então, você comentou da sua formação em Letras e depois foi fazer pós-graduação em Gestão.

 

R – Em Gestão.

 

P/1 – E o que é que isso te agregou em termos de...

 

R - O que me fez buscar essa pós foi, porque eu me questionava muito: “O que é que é ser um gestor?”, até que comecei a ler um livro que falava sobre a gestão participativa, foi um curso à distância. Foi um curso de videoconferência, mas tinha aula presencial e me acrescentou muito, veio me confirmar a maneira de como a gente conduzia o trabalho de gestão na escola, e muita coisa você lida, passa a conhecer novas teorias que de repente você coloca em prática. E você pode aprimorar mais, mudar isso, mudar aquilo, a questão de lidar com as pessoas, a relação humana ajudou muito também e a gente vê tudo isso, não é? Eu já tenho uma facilidade de socialização, e me ajudou muito nessa questão, porque eu fui aberta, eu fui pra buscar, não busquei só um canudo, eu queria um aprendizado e recebi.

 

P/1 – E como foi esse interesse em ser diretora?

 

R – Não foi interesse, foi imposição. Foi imposição porque o prefeito da época, eu sempre gostei muito dele, sabe aquela paixão? Que no interior a gente tem acesso a eles. E ele era muito amigo da minha mãe e ele, quando ele me ofereceu a direção, eu estava casada ainda, uma imposição que eu falo, positiva, tá? Não no sentido pejorativo e eu não queria sair de sala de aula, aí quando ele resolveu criar essa escola no centro da cidade, porque ainda não tinha uma escola municipal no centro de Cantagalo. Aí abriu essa escola em 2000 e em janeiro, fevereiro, uma supervisora assumiu a direção e eu te falo que de abril a maio, não, início de abril até maio, foi a pressão para eu pegar e eu falava que eu não queria,  não queria largar a minha turma, eu era aquela professora que fazia as formaturas, eu fazia, eu gostava, fazia os painéis, enfeitava minha escola, essa comunidade onde eu comecei, dezenove anos trabalhando nessa comunidade era como me tirar do meu útero. Dezenove anos trabalhando e ele não queria admitir de jeito nenhum e ele falava: ”Sandra, mas eu preciso, eu quero que você assuma, eu quero, eu quero!”, até que meu ex-marido interferiu, meu irmão também, que era secretário na época dele, era secretário de planejamento: “Ah, ela está com medo!”, aí ele falou: “Não, medo não. Você vai ter todo o nosso apoio”, aí eu entrei, com a cara e com a coragem, nunca fui, nunca estive na direção e ali a gente está até hoje, já fazem dois governos que eu passei, vai fazer nove anos no ano que vem.

 

P/1 – E como você lida com a direção, é uma coisa positiva?

 

R – Muito, pra mim é. O que eu acho que me acrescentou muito é você buscar o saber ouvir, saber conhecer, lidar com situações que você tem que respeitar o pensamento também me ajudou muito. Você saber lidar com as pessoas, você saber ouvir, entender e ser rigorosa, você tem que ter um certo rigor, uma certa determinação, você não pode ser também à ferro e fogo.

 

P/1 – Teria alguma história que você teve de enfrentar assim, alguma dificuldade?

 

R – Dificuldade? Já tive. Já suspendi uma turma porque eles desacataram a coordenação. Foram duas vezes. Em oito anos, um menino fazia apologia à maconha dentro da escola, eu tive que suspender, era filho único, a mãe ficou meio chateada, mas hoje já fala comigo e o outro que eu suspendi da aula a turma toda e eles tinham prova e eu falei: “Vai ficar com zero a turma todinha!”, faltaram com o respeito com a coordenadora, a mãe falou que ia me botar no fórum, estou esperando até hoje o processo. Fez, tentou entrar com o advogado, tudinho, falei: “Não volto atrás, é zero e é zero!”, entendeu? “Não volto, não, ele vai ficar com zero! Manda ela me colocar no fórum!”, procura fórum, juiz, quem ela quiser e uma situação que também assim, que eu acho relevante, ponto positivo, que a gente tem muito na escola é a gente acolher a criança em todos os sentidos. Agressão física, a gente fez uma denúncia no ano passado, fui pra delegacia, é uma história de uma criança que foi agredida, na primeira vez um braço quebrado, a gente começou a observar, na segunda vez as duas orelhinhas dele quase cortadas aqui, na terceira vez a professora já entrou na secretaria chorando: “Sandra, eu não aguento ver isso!”, aí quando eu: “Me mostra tudo. Meu filho, o que é que te aconteceu?”, ele: “Minhas costas”, eu falei: “Deixa a tia Sandra ver”, quando eu levantei a camisa, fotografei e a gente já tinha comunicado o Conselho Tutelar disso, eu só não fotografei as partes íntimas dele para não constranger, tinha marcas de unha no testículo dele, aí eu falei assim: “Olha, a tia Sandra não quer que você mostre o rostinho” e liguei, disse: “Olha, se vocês não tomarem uma decisão agora, eu estou indo pro fórum agora”, só sei que foi assim: imediato. Levaram pra fazer Corpo de Delito, a juíza estava lá, tirou a criança deles, da mãe, que a mulher era viúva, o cara andava na cadeira de rodas e eu falei assim: “Tem um outro agravante, as meninas não vão. Se vocês não derem segurança, estou levando elas comigo, pra casa dele eu não vou deixar!”, que eram três irmãos, aí na mesma hora não, deram a guarda pro conselho ficar no abrigo, depois a avó paterna pegou as crianças, isso a gente não omite, não. O cara falou que ia me matar com espeto de churrasco, estou até hoje esperando, eu e a outra funcionária, então a gente sofre isso, a gente se não tiver amor, se a gente não tiver coragem de ajudar essas crianças, a gente vai ficar lá, recebendo seu dinheiro por nada, né e dá trabalho, envolve. (risos) Tem que se envolver. A gente tem que se envolver mesmo.

 

P/1 – Conta pra gente, Sandra, como é que é a escola, a sua escola e como é o aluno dela?

 

R – A minha escola, parte física, é precária, feia, mas eu falo com meus alunos o seguinte: “Nem tudo na vida é um ovo de páscoa, às vezes está lá bonito por fora e oco por dentro, o nosso é o contrário, a gente é feio por fora, mas a gente tem um recheio maravilhoso.” Eu falei para eles quando eu fui viajar agora pra Natal, eu vou sala por sala me despedindo deles, “Olha, quando a mãe sai, a gente entrega a casa à família, então eu espero que vocês tomem conta da casa de vocês!”, aí um fala assim: “Também, você não vai voltar mais!”, eu: “E se eu morrer no avião, vocês vão lá no meu velório e vão ter que me beijar, vou ficar pretinha”, então a gente tem essa relação muito amiga. Os alunos mudaram o perfil deles, a gente faz um trabalho de integração, de escuta, de entender, de ouvir, você escuta cada situação que acontece e eles choram, você vê um adolescente, quase um metro e oitenta que chora, porque ele está brigando com o padrasto, eles contam, eles têm a liberdade, o perfil deles é esse. Ao mesmo tempo que ele se revolta, ele se abre com a gente, a gente consegue fazer esse trabalho aí com eles. Claro que o professor reclama da disciplina e às vezes eu sou um pouco radical quando o professor coloca o aluno pra fora de sala, “Oh meu filho, o que é que você fez?”, “Tia, eu fiz isso, isso e isso”, eu chamo o professor: “Não quero o seu aluno aqui, esse problema não é meu, isso aí é do mínimo do professor, jogar bolinha de papel? Não tem por que”, “Ah, vou dar advertência!”, “Não vou dar advertência aí. Advertência é agressão física, é falta de respeito oral ou verbal, pô, xingou o professor. Agora, não está deixando eu dar aula, não está deixando eu fazer isso, não está deixando eu fazer aquilo, cadê o domínio de turma?” Às vezes eles esquecem, fazem de propósito pra ficar lá comigo, eu falo: “Vamos lá embaixo comigo, você vai ajudar a tia Sandra à fazer isso”, eu vou brigar com o menino? Não vou brigar com ele, não. “Mas não adianta!”, mas eu não estou estressada com eles. Eu vou chegar aqui, vou criar um personagem diretor que vai brigar? “Meu filho, o que é que está acontecendo?”, “Pô, Sandra, desculpa!”. Tem um garoto nosso que a gente pegou com seis anos, estrutura familiar totalmente arrebentada, sete anos fazendo trabalho com o moleque, ano passado, ele já está um homem. Aí a professora chamou porque ele se revoltou lá, um homem, quase um metro e oitenta! Quinze anos. Botou ele pra fora de sala, ele foi pra minha frente, aí ele começou a rir, “O que é que você está rindo?”, disparei a rir, falei: “Didi, você se lembra quando era o contrário? Eu ia na frente e você atrás, pequenininho? Agora você está um homem na minha frente”, “Pô, Sandra, peguei pesado, desculpa, eu vou pedir desculpa à Luciane”, “Vai lá, meu filho, pede desculpa à ela!”, aí ele me conta que saiu da escola e está arrependido, queria voltar, mas eu não posso mais aceitar por causa da idade. Nossa, a nossa clientela é essa, tratar eles com carinho, tratar, procurar ouvir, conversar, muito diálogo, muito diálogo mesmo, você tem tudo com eles, muita coisa.

 

P/1 – Quais são os recursos que vocês têm no colégio?

 

R – A nossa escola, com toda essa parte física desestruturada, porque a gente tem salas que não tem porta, e não é a culpa assim, governamental, porque é uma situação difícil. Essa escola, o governo anterior fez a adaptação de uma clínica, Adecur, então o prefeito hoje não tem onde colocar essa escola e ao mesmo tempo ele não quer acabar e pra fazer uma obra implica em parar com o processo, entendeu? Então é uma situação que eu sonho pro ano que vem, que eles ofereçam à escola Evandro, em termo de prédio melhor. A gente tem salas que não tem porta, mas tem o laboratório de informática, do projeto “TôNoMundo”, tem uma biblioteca que através do projeto eles começaram a se interessar mais pela leitura, a gente vê a rotatividade da biblioteca, eles têm acesso mais à livros, estão querendo ler mais, teve a questão da curiosidade, agora não, vem a questão da pesquisa, da curiosidade de ver coisas que vão acrescentar pra eles.

 

P/1 – Já seria um resultado.

 

R – É, a gente não tem uma quadra assim, o professor, coitado, de educação física me pede pra comprar, eu compro: “Rafael, estão aqui, quinze bolas”, porque se cair no rio, é bola de dois reais, coitadinho, porque não tem estrutura pra ele trabalhar, os jogos a gente participa por participar, porque a gente fica sempre no último lugar. Não tem uma quadra, não tem um lugar pra treinar, a escola é feia, a parte física dela, mas eu acho que o recheio dela vale à pena a gente continuar. Vale a pena a gente continuar lutando e a gente tem certeza que a gente vai conseguir.

 

P/1 – E como o projeto “TôNoMundo” entrou no colégio?

 

R – Então, entrou quando a gente estava numa escola que é o sonho nosso voltar pra esse prédio, foi onde a gente começou. Na Escola Cenecista Cantagalo que era o nosso patrono, professor Evandro, ele foi um professor e sensacional, desse prédio. Quando criou-se essa escola, o pessoal da escola que escolheu o nome, em homenagem à ele que era um professor muito dedicado à educação em Cantagalo, então a gente colocou como patrono ele, e ali a gente tinha o nosso prédio. Depois tiraram a gente dali e colocaram nesse prédio que funciona uma faculdade de curso à distância. Que hoje é até onde a Rafaela se formou, que é UFF, UNIRIO, funciona tudo ali. Então a gente não tem autonomia sobre o nosso prédio e o projeto veio a convite em 2001, quando a gente estava lá no Cenec ainda, que era onde o professor Evandro trabalhou e começou mesmo a ser desenvolvido na escola onde a gente está hoje, em 2001.

 

P/1 – E como foi a capacitação dos profissionais pra lidar com esse novo projeto?

 

R – Então, quando a Sâmara ligou, na época, ela me deu praticamente um dia pra eu mandar uma pessoa pra São Paulo, eu não podia ir porque tinha o marido que não ia deixar, tinha filho pequeno, eu coloquei uma professora, falei: “Márcia, vai você”, “Sandra, eu não tenho roupa!” No interior é bom por causa disso, um emprestou a mala e eles mandaram um e-mail, um fax, a roupa que tinha que levar. Ah meu filho, cada um emprestou uma peça, um pra cá, outro pra lá, a secretária de educação na época pegou 200 reais do bolso dela e colocou na mão dela e a gente mandou ela pra São Paulo, com a cara e a coragem. Ela ficou nove dias em São Paulo, na capacitação na FML [Formador Mediador Local], e o meu envolvimento no projeto foi porque eu, sempre me chamou atenção o projeto, e eu sempre estive lado a lado com ela, com a FML, tanto é que quando ela saiu pra ter os filhos dela, que foram gêmeos, eu assumi o projeto, assumi a direção, aí tivemos um problema com a secretária da educação: “Ah, eu não preciso colocar a massa no laboratório porque você dá conta”, eu falei: “Não dou conta, não. Estou segurando a onda dela porque ela está de licença”, mas sempre me envolvi muito com o projeto, porque eu sempre gostei do projeto.

 

P/1 – E como você já falou, que o projeto só veio a somar, mas você teria outra abordagem sobre essa dinâmica, do projeto com a estrutura do colégio?

 

R – Eu acho que ele com toda essa parte precária, acho que é o ápice pra gente hoje é o projeto estar na escola, é o que nos motiva, ter um algo mais, não que o aluno não mereça um tratamento diferenciado, mesmo estando num prédio, a gente tem escola lá que funciona desde curral, mas pra gente é uma grande motivação estar com esse projeto na escola, porque todas as propostas que a Escola do Futuro nos apresenta, eles abraçam a causa. Então são as atividades lúdicas que vem pela Escola do Futuro e as atividades são aceitas, os alunos participam e através da participação deles que a gente vê a mudança de comportamento deles. O fato de eles quererem, de você conversar e ele saber te ouvir, “Pô, você está deixando a desejar, porque é que gente fez isso, a gente fez aquele trabalho em Caringana. Agora a gente vai entrar em outro projeto também, que vai além, pra gente é um desafio. Um projeto do pessoal do Canadá. Então, onde que uma escolinha do interior ia ter essa ousadia de querer, ia ser interação, seria aonde o primeiro contato com eles? Mas eu não pude participar, mas a gente vai estudar a questão climática, do aquecimento global, a gente mete a cara nessas questões todinhas. A gente faz parcerias com os grupos,  por exemplo a Lafarge, o grupo Lafarge de cimento, a gente tem um projeto com eles de trilho interpretativo pra gente explorar o jardim de Cantagalo, porque a nossa escola nunca teve pátio, então o sonho que eu falava com os professores: “Não precisa de espaço, o jardim lá é lindo! A praça lá é maravilhosa!”, a gente: “Leva os alunos pro jardim!” Então o nosso projeto hoje é o nosso jardim e suas fontes de riquezas, então os alunos fazem, tem uma trilha interpretativa que eles explicam para o pessoal da comunidade, o que é que tem ali no jardim. Nós fizemos uma exposição agora de fotos antigas, de 1920, que eu consegui da praça de Cantagalo, fizemos um paralelo, então a gente explora, tudo isso aí vem com o projeto “TôNoMundo”, essa coragem que nos dá da gente abraçar os projetos e a vontade de fazer acontecer.

 

P/1 – Você comentou comigo que vocês fazem umas festas na escola...

 

R – Festas?

 

P/1 – É, umas festas pra arrecadar verba, festa junina...

 

R – Ah não, a gente fazia. Até que a nossa escola, por ser de centro, foi um pedido assim, muito consciente, a gente aceitou do secretário de defesa civil por causa do trânsito, que as nossas festas ficavam muito cheias, nós fazíamos festa junina, as crianças participavam, mas a gente fazia assim para comprar coisas não necessárias. Porque a prefeitura dá um suporte muito bom pra gente, os alunos tem lápis, caderno, livro, uniforme, uniforme completo: casaco, tem uns que não gostam de usar, aquela coisa de adolescente, merenda, então às vezes a gente fazia umas festas pra arrecadar fundos, tipo comprar uma digital. Agora com o dinheiro do PDDE, Programa de Dinheiro Direto na Escola, a gente ainda recebe essa verba do Governo Federal. Então é legal, a gente só está fazendo um prédio, esse prédio acho que era o sonho de todo mundo lá, ter a nossa identidade, ter só a Escola Evandro, não dividir com mais ninguém. A princípio a gente dividia com o Cenec, já ouviu falar do? Era um colégio do Governo Federal, depois quando a gente achou que ia ter o nosso próprio lugar veio esse curso à distância, entrou também. Então a gente nunca teve um ambiente assim, só da Escola Evandro, que é o sonho de todo mundo que trabalha ali e voltar pra esse antigo prédio nosso.

 

P/1 – Esse coração gigante que você tem, todas as histórias que você acolhe os alunos e tal, o que é que você gostaria de falar assim, para as pessoas, para deixar uma mensagem sobre a forma que você lida com...

 

R - É, isso aí eu acho uma coisa que me deixa apreensiva e eu tenho medo dos futuros educadores. Eu penso que a gente não tem objetivos de ser psicólogo, a gente não é formado nisso, mas a cada dia que passa, a cada dia que chega uma criança na escola, ela chega mais machucada, eu falo isso com uma certa autoridade porque eu só paro de trabalhar no dia em que Deus falar assim: “Pára!”, porque eu não tenho pretensão de me aposentar, porque meus filhos estão morando aqui em Niterói, mas eu percebo que eu vou fazer falta se eu sair agora. Eu poderia sair, mas eu não quero parar, porque eu me preocupo, porque você vai ouvir depoimentos de profissionais mais novos, eu tenho quarenta e oito anos e eles precisam da gente, eles precisam de um educador, de uma pessoa que ame, que bote eles no colo, porque é difícil. Você vê histórias de crianças que eles querem aprender, mas não conseguem, porque a fome não deixa, eles querem aprender, mas eles não conseguem porque levou uma surra, então eles precisam botar pra fora isso. Então se a gente não tiver esse tempo, eu falo com os professores o seguinte: “A gente não vai perder dez minutos, a gente não vai perder quinze minutos, a gente vai ganhar. Para um pouquinho, vamos ouvir o que é que está acontecendo, que eles não tem esse tempo de ouvir em casa”, então eu me preocupo muito com essa parte do aprendizado das crianças, se está difícil hoje, né, eu acho que muitos buscam parte financeira. Eu não sou forte, pra ser sincera pra vocês, eu fui casada com um dentista que intimidava tudo, eu poderia muito bem ter largado a minha profissão,  mas eu sempre gostei, eu amava o que eu fazia e mesmo depois da dificuldade financeira da minha vida, aí eu tinha a recompensa maior que era ter essa liberdade com os meus alunos, poder dividir com eles. Eu falo com eles, da minha vida com eles, abertamente, quando uma criança não entende um pai que está separado, que o pai vai conversar comigo, quando eu falo da minha vida pra eles, eles choram e eu choro junto com eles, entendeu? Um aluno está com câncer que a mãe falou assim: “Eu preciso que você passe para turma que meu filho está condenado”, então se a gente não se envolver nisso, quem vai se envolver? Se a mãe está te pedindo, ao mesmo tempo tem família que te pede socorro, eu tenho o Pedro Henrique que foi Deus que tirou ele de mim, porque o pessoal falou assim: “Se esse cara morrer, você vai morrer junto com ele”, ele saiu da minha escola, porque tipo assim, ele ficava em coma no INCA [Instituto Nacional de Câncer], quando ele chegava, a primeira coisa que ele fazia era me implorar pra eu deixar ele estudar, então é sinal que ele gostava daquilo ali e eu quando fui contar pra turminha dele que ele tinha câncer, ele ajudou, “Cara, você vai me ajudar!”, eu fiz todo o preparo com ele, “Quando eu falar de pedrinhas você vai falar que a quimioterapia é uma pedrinha, que a gente vai ter que tirar...” Então foi toda uma história que a gente construiu juntos e esse construir com o aluno hoje acho que é tudo, se a gente não construir junto com ele, a gente não vai conseguir nada, não vai ter rede privada, não vai ter a melhor escola estruturada, a escola pode ser folheada a ouro, ela pode ter a quadra mais linda, a piscina mais linda, mas se não houver aquela vontade de abraçar essa turma, de ouvir essa turma, acho que seja em qualquer escola, a gente não vai conseguir, não, porque está cada vez mais complicado. O sistema, não sei que sistema é esse, mas o nosso sistema vai ter que ser trabalhado aí, vir acolher eles primeiro, não vai ter aritmética, não vai ter fórmula nenhuma que vá colocar isso na cabeça deles. Então acho que é isso, a gente continuar amando e vivendo e isso se aprende a cada dia que passa, que a gente vê hoje pessoas que estão chegando, na educação, já desanimadas, aí culpam o salário. Eu falo lá no colégio: “Gente, não está afim, vai vender calcinha e sutiã, que na nossa região dá um dinheiro bom, vai vender, vai ser ambulante, então larga a educação. Larga, larga! Deixa as crianças então!”, porque é complicado, eu acho que nós, tanto os pais, quanto os educadores. Essa questão de falar de amor, mas a gente tem que ter amor à nossa profissão, àquilo que a gente faz, ter vontade de se envolver, não ter medo de se envolver, não ter medo de se machucar, que é machucando, é quebrando a cara que a gente vai subir mais um degrau da escada da vida da gente, é isso.

 

P/1 – E você, fora da vida profissional, quais são as suas atividades, o que é que você gosta de fazer?

 

R – Eu gosto de, como eu falei, eu ouço funk com os meus filhos, eu não tenho convidados de aniversário, eu tenho, amigos dos meus filhos são os meus amigos, se querem ficar lá em casa, se tem uma exposição eu vou chegar com eles de madrugada em casa, às vezes eu estou cansada, “Manda, vamos nas férias! Manda, vamos sair?”,  “Me dá só quarenta minutos que eu vou dormir um pouquinho”, aí saí eu com meus três filhos, aí encontra num bar, com aquela turma toda e ali fica, se deixar vai ficando, porque lá no interior a gente não tem muita opção de lazer, então é sentar, é conversar, é rir e quando se reúne, é lá em casa que vai. Então eu acho, eu penso que isso foi muito da minha mãe, não que eu seja centralizadora com eles, eles que querem ir pra lá, “Tia, a gente pode fazer um churrasco aí?”, vão pra lá, sabendo que eu vou enfrentar problema com a polícia, com som alto e lá tem os grupos, um que escuta MPB, o outro gosta de rock, o outro já gosta de um funk, o outro já gosta de pagode, a gente: “Cada um”, que nem eu falo: “Cada um no seu quadrado.” Então cada um vai ouvir um pouquinho e eles respeitam isso. Eu hoje vivo nessa do trabalho, mas “Ah, você não vive a sua vida!”, a minha vida por enquanto está sendo isso, por questão de opção minha. Porque eu me sinto bem nesse meio em que eu estou vivendo agora, é um lado social que eu gosto, eu venho pra Niterói, eu saio com a minha filha, eu sento no bar com ela, a gente toma cerveja, a gente briga, a gente discute, a gente bate boca, a gente se abraça, a gente se diz “Eu te amo, você me ama” e isso aí, a minha vida é isso aí. “Ah, está faltando?”, está, claro que está, existe um lado mulher que por enquanto eu não tenho como viver agora, meu filho de treze anos, ele é muito, houve um problema de separação, aquela coisa de criança, meio pegajoso, mas pela primeira vez, eu estou aqui e vocês não sabem como é que está a minha cabeça. Primeira vez eu mandei ele vir sozinho de Cordeiro pra Niterói, com treze anos, “Cara, se vira!”, ele estuda em Friburgo, foi com a namorada do meu outro filho, quinze anos, eu fui no comissário, vim com o telefone do comissário, ele me autorizou ele a vir, falei: “Rapaz, você quer vir morar em Niterói? Então você vai ter que começar a se virar”, aí eu estava lá na pensão, ali não pega celular, eu falei: “Meu Deus do céu, eu vou pedir pro cara pra eu entrar no MSN rapidinho”, entrei em contato com a diretora de Junta, pedi à ela pra ligar pro meu filho, “Mãe, já estou em Friburgo na rodoviária” e ia chegar agora na rodoviária, às cinco e meia. É isso aí.

 

P/1 – Com quem você mora hoje?

 

R – Moro com, morava com ela no ano passado, eu, Olívia, Danilo e o João, Olívia e Danilo vieram pra cá e eu moro com o João, o João ano que vem diz que vem também, eu vou ficar sozinha, acho que estão com saudades de mim, agora vão começar a olhar um bocadinho? Mas nada, a gente se fala todo dia, todo dia. Quando não é via MSN é por telefone, direto. A gente tem uma relação muito boa, muito forte.

 

P/1 – Você tem algum sonho? Algum projeto a se realizar?

 

R – Acho que vivência, ter condições de viver, mais nada. Não sou materialista, não tenho, viagem, eu gosto de viajar, agora assim, sonho, profissional eu tenho, de poder ter essa escolinha que a gente sempre sonhou, uma escola bem legal, estruturada, agora eu acho que o sonho de toda a mãe, que a gente quer primeiro é ver os filhos da gente formados, realizados no que eles escolherem pra eles, né? Poder viver, ser uma pessoa sempre pra somar na vida das pessoas, nunca pra diminuir, porque a gente vai ficando, vai envelhecendo e isso aí viram certos tabus, não é? Então eu acho que eu quero ser sempre uma pessoa alto astral como eu sempre fui, a cabeça da gente consegue fazer esse trabalho e não ter medo.

 

P/1 – E você teria alguma história, algum comentário que você gostaria de deixar registrado?

 

R – É, (risos) como assim?

 

P/1 – Alguma coisa que a gente não tenha perguntado e que você lembrou?

 

R – Acho que tudo que eu tive vontade de falar eu falei, da minha infância querida, maravilhosa, falei do Natal, que é uma coisa que marcou muito e meus filhos sabem que eu ia falar isso, eu tenho certeza, das peraltices de infância, da nossa relação de irmãos, que mesmo hoje a gente não ter pai e mãe, a gente consegue ainda manter um vínculo. Acho que falar isso está, da relação que eu tenho com os meus filhos, com os amigos deles, com os profissionais, com os alunos, acho que deu pra sintetizar bem mesmo, isso é um pouco de tudo que eu já vivi até agora, não tenho mais o que, é, acho que é só isso.

 

P/1 – O que é que você achou, Sandra, de ter participado dessa entrevista? O que é que você...

 

R - Fiquei super tranquila, não sei se vocês perceberam, estava ansiosa. Cara da roça, falaram que vocês iam pro estúdio, fica se pensando o que é que vai acontecer lá, Meu Deus do céu! Como as meninas estão ansiosas? Eu acho que foi prazeroso trabalhar com vocês, perceber que vocês escutam a gente em todos os sentidos, né, que de repente pode se falar: “Ah, é o lado profissional”, mas eu vejo que vocês se tocam, vocês se emocionam com as palavras, vocês vivem o que a gente está falando, isso pra gente é prazeroso, é o feedback , não é? A gente sente também e acho que por isso que vocês deixam a gente à vontade nessa questão, até ele mesmo, coitado, ele fica ali, olha, só mexendo nessa paradinha aí.

 

P/1 – E você já conhecia o Museu da Pessoa?

 

R – Eu conheci na Itacuruçá, mas lá era uma cabine, o encontro de todo mundo foi na Itacuruçá, aqui no Rio, em Mangaratiba, a gente teve a primeira experiência lá, era uma cabine, chegava, entrava lá, falava, nem sabia aonde ia passar aquilo, né? A questão do vídeo eu fiz lá, mas eu nem sei se foi pro Museu ou se foi pra outra, o mesmo esquema assim, não é? Mas foi mais depoimento. Foi lá e eu acho que a experiência foi essa mesmo, na Itacuruçá e agora aqui. Foi muito bom, eu achei ótimo, vocês deixaram a gente muito à vontade. As meninas, coitadas, dava um apoio “Fica tranquila, vai valer à pena!” (risos), eu acho muito gostoso. E deixar a gente à vontade de falar que a gente, porque você fica pensando, o que é que você vai falar? “Eu não vou falar nada!”, a Leila está assim: “O que é que você vai falar?”, “Ih, na hora vem. Na hora vão te perguntar lá e vai ajudar”, e eu achei legal, muito bom mesmo.

 

P/1 – Então Sandra, é isso, obrigado pela...

 

R – Eu é que agradeço a oportunidade, de estar aqui, é raro a gente ouvir falar tanto, mas vou te falar, eu tenho alguém pra ouvir, se interessar pela história de vida da gente, isso é muito bom! Achei muito interessante. Sucesso pra vocês!

 

P/1 – Ok, obrigada.

 

R – Posso tomar um pouco de água?

 

P/1 – Pode.

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