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História

Educação não é só matéria

História de: Anna Karla Rodrigues Freire
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/01/2019

Sinopse

Anna nasceu em Niterói em 1988, teve uma infância muito humilde, junto dos seus dois irmãos mais velhos e sua mãe, que trabalhava como manicure para sustentar toda a família. Uma de suas lembranças da escola é de um lugar terrível, com professores que humilhavam os alunos e muitas brigas. Mas quando conhece a Fundação Gol de Letra, se apaixona por um novo jeito de aprender: brincando e sendo respeitada. Anna conta pra gente como foi essa transformação do seu mundo, que a levou a ser voluntária na Gol de Letra buscando multiplicar tudo que recebeu para outras crianças carentes e fala também de como viu outros jovens se transformando e trilhando um caminho semelhante.

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História completa

P/1 – Bom dia, Anna.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Obrigada por você ter aceitado o nosso convite, tá? Para começar eu gostaria que você dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome completo: Anna Karla Rodrigues Freire, eu nasci em 4 do 4 de 1988 em Niterói.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Minha mãe é Maria de Fátima Rodrigues e o nome do meu pai é José Ricardo Freire de Oliveira.

 

P/1 – Atividade dos seus pais?

 

R – Dos meus pais? Minha mãe é manicure e meu pai é padeiro.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Eu tenho dois irmãos, um de 26 e o outro de 32.

 

P – O nome deles?

 

R – O mais velho é Eduardo e o do meio é Felipe.

 

P/1 – Aí você é a caçulinha?

 

R – Hum, hum.

 

P/1 – E o que é que eles fazem?

 

R – O do meio, o Felipe trabalha em um supermercado e o mais velho tem uma oficina mecânica.

 

P/1/ - Você é nascida em Niterói, né?

 

R – Aham.

 

P/1 – A gente vai falar um pouquinho da sua infância, tá?

 

R – Tá.

 

P/1 – Você chegou a conhecer os seus avós por parte de pais?

 

R – Não.

 

P/1 – Seus pais nasceram em Niterói mesmo?

 

R – Não, meu pai não é de Niterói, meu pai nasceu na Paraíba e minha mãe nasceu aqui em Niterói mesmo, em Niterói.

 

P/1 – E você sabe por que é que seu pai veio da Paraíba...?

 

R – Para trabalhar aqui.

 

P/1 – E você sabe com quantos anos ele veio ou não?

 

R – Ah, ele veio ele já tinha uns 26, 27 anos já.

 

P/1 – E ele veio sozinho?

 

R – Não, veio ele e os irmãos dele, entendeu?

 

P/1 – E ele veio pra trabalhar já nesse ramo de atividade ou não?

 

R – Já, já como padeiro, já veio trabalhar como padeiro.

 

P/1 – E você sabe como é que ele... seu pai conheceu sua mãe ou não?

 

R – Na padaria (risos). É que na época ela não era ainda manicure, né? Aí ela trabalhava na padaria.

 

P/1 – Aí eles se conheceram lá?

 

R - É.

 

P/1 – E ela fazia o quê na padaria?

 

R – Ela era balconista.

 

P/1 – E você sabe a história deles como é que foi ou não?

 

R – Não, eu sei que ela conheceu ele na padaria e aí eles começaram a namorar, tá?

 

P/1 – Aí eles se casaram e foram morar em Niterói?

 

R – É, eles se juntaram, né? Aí eles começaram a morar junto.

 

P/1 – E aí já foram morar em Niterói?

 

R – É, por um tempo. Minha mãe é daqui, então ela conheceu ele aqui, né, e aí eles foram morar juntos por um tempo, né?

 

P/1 – E dessa casa em Niterói, o que é que você lembra da sua casa quando você era criança?

 

R – Eu moro nela até hoje, então entendeu, eu não tenho muitas lembranças assim, a lembrança que eu tenho é de hoje mesmo, né, que é a mesma casa.

 

P/1 – Teve alguma mudança que você lembra?

 

R – Ah, foi uma reforma só que ela fez na sala porque a casa era muito pequena, aí ela aumentou um pouco a sala, fechou um quarto pra mim, como só tinha eu e os meninos ela quis fechar um quarto só pra mim. Só isso.

 

P/1 – E como é que é a rua da sua casa?

 

R – Ah, a rua era de terra, né, e aí tinha uma árvore na frente do muro que a gente gostava muito de brincar e agora asfaltaram a rua, atrás tem um rio, né, que agora quase um valão, né? E aí dragaram o rio, limparam...

 

P/1 – Você lembra o nome do rio ou não?

 

R – São João, Rio São João, entendeu? Aí minha mãe diz que na época ela tomava banho no rio e pegava camarão e tal, só que agora a cidade cresceu e o rio poluiu, né, o rio poluiu.

 

P/1 – E você lembra quando... como é que era quando você era pequena, quem eram seus vizinhos, que brincadeiras que vocês faziam, se vocês brincavam na rua? Conta um pouquinho pra gente.

 

R – É, os meus vizinhos ainda moram lá, né, eu ficava muito na casa da minha vizinha porque ela tomava conta de mim quando a minha mãe estava trabalhando, né, e aí eu via muito... Quando não tinha criança ainda, eu via muita televisão na casa dela ou então brincava muito com meus irmãos, com os amigos deles, eu até brigava com a minha mãe que ela tinha que deixar eu brincar com eles porque não tinha menina na rua, e eu brincava com eles e com os amigos. Eu joga... todo tipo de brincadeira masculina, assim, eu brincava com eles. Aí depois apareceu uma menina na frente da minha casa e aí a gente ficou amiga e começamos a brincar, aí brincava com ela de boneca, de Barbie, desse tipo de brincadeira, né? Aí eu fiquei mais brincando de boneca assim.

 

P/1 – E quando eram os seus irmãos e esses amigos do que é que vocês brincavam? Qual é que eram as brincadeiras de moleque que você fazia?

 

 R – Ah, brincava de futebol com eles, ou então naquela brincadeira de jogar bola eu era sempre o bobinho ou então sempre o café com leite, a gente colocava... inventava o fantasminha que colocava na árvore, né, botava assim no meio das folhas e então quando passava gente a gente puxava, soltava a linha e aí o fantasminha caía e assustava todo mundo. Foi uma brincadeira que foi o barato da rua, né, que todo mundo, ficava todo mundo atrás do monte esperando as pessoas passarem pra gente assustar, né? E queimada, só que eu também eu sempre era café com leite, né, na queimada e essas brincadeiras mais de menino.

 

P/1 – Então, o pessoal brincava muito na rua?

 

R – Muito na rua. Aí quando eles foram ficando adolescentes também, eu ficava no meio das conversas deles, escutava as conversas das meninas e tal, era amiga dos amigos deles que tinha crescido comigo, né?

 

P/1 – Você falou que a sua mãe trabalhava, como é que era esse dia a dia na sua casa?  Como é que era, a sua mãe saía, o seu pai saía, como é que era?

 

R – É, ela não tinha muito... meu pai separou dela quando eu tinha dois anos, né? Então ela teve que me criar... me criou sozinha, eu e meus irmãos. Ela não tinha muito horário certo porque quando... eu me lembro assim, minha memória já é de quando ela já era manicure, né, porque quando ela engravidou, segundo ela diz, né, o dono da padaria esperou ela voltar, ela ter, né, ter e tal, esperar a licença gravidez dela pra poder demitir. E aí meu tio deu um alicate pra ela e falou: “Ó, você vai ter que ganhar dinheiro com isso, né, vai ter que fazer unha”, aí ela não tinha um horário muito certo, às vezes, ela saía de manhã e não tinha hora pra voltar e aí eu ficava com meu irmão mesmo, né, meu irmão não tinha... Ele só é cinco anos mais velho que eu, né, então ele cuidava de mim na medida do possível, a vizinha estava ali sempre olhando, quando dava alguma confusão, alguma briga a vizinha saía correndo pra ver o que tinha... o que estava acontecendo, a minha madrinha também morava do lado e ficava sempre de olho e meu padrinho também, né, mas eu fiquei... meu irmão tomou muito conta de mim, além dessa vizinha, entendeu?

 

P/1 – E aí como é que foi a sua ida pra escola, você lembra disso? A sua primeira escola?

 

R – Ah, eu lembro. Eu lembro até da minha creche, né, que minha mãe ia me buscar sempre de bicicleta e tal, né, e era sempre a última a chegar e eu ficava morrendo de raiva, achava que ela não ia me buscar, né, e aí depois ela quando foi me passar pra escola, quando foi me botar na escola, ela esperou passar um ano porque ela queria me botar na mesma escola do meu irmão pra mim ir junto com ele, né, aí eu fiquei um ano atrasada por conta disso também. E ela me colocou nessa escola, né, que é a escola que meus tios estudaram, que ela estudou, entendeu, que meu irmão mais velho, todo mundo, a família inteira estudou e era a mesma diretora ainda, né, uma diretora bem velhinha quando eu entrei, depois ela acabou se aposentado.

 

P/1 – Você lembra o nome da escola?

 

R – Escola Estadual Alcina Rodrigues Lima.

 

P/1 – E como é que era essa escola, o espaço físico?

 

R – Ah, era uma escola pequena de início, né, tinha uma quadrazinha bem simples, as salas eram bem pequenas também, entendeu? O prédio antigo, agora que ela está diferente.

 

P/1 – E você tinha uma professora preferida? Uma matéria preferida?

 

R – Eu nunca... eu sempre gostei muito de português, mas eu tive uma professora que eu gostei muito que foi na Alfa, que foi a professora Kátia, que foi minha primeira professora de lá. Eu gostei muito dela, aí depois eu peguei ela na terceira série, na quarta, depois eu não vi mais.

 

P/1 – Era português, então?

 

R – É.

 

P/1 – Você lembra de alguma situação da escola, dessa época que você estudou?

 

R – Dos professores?

 

P/1 – É, uma recordação marcante pra você da escola.

 

R – Não, eu lembro que na escola também eu era sempre a última... eu sempre lembro que eu era a última a... eu era a última a sair da escola, né, e aí teve uma vez que a professora de... eu tinha muita... quando eu cheguei na quinta série eu tinha muita facilidade de inglês, né, também, aí eu não estudava, eu só assistia aula e a professora sabia que eu não estudava e vivia me chamando a atenção: “Você não vai estudar, você não vai passar na prova” e não sei o quê, e eu “Não, eu vou passar professora, eu vou passar”, então quando chegou na prova eu passei, tirei nota boa e aí um dia eu estava no supermercado com a minha mãe, aí minha mãe “Oi, tudo bom?” não sei o quê, aí encontrei com a professora e ela tinha tomado conta da professora quando ela era criança, né,  e eu fiquei morrendo de medo da professora contar pra minha mãe que eu não estudava assim, né, mas eu tirava nota boa, eu só não estudava em casa e tal. Mas, aí foi uma situação assim que eu fiquei meio tensa, um pouco tensa, sabe, mas deu tudo certo depois eu até contei.

 

P/1 – Você comentou dessa professora que você gostava. O que é que você gostava dela?

 

R – Eu gostava dela porque ela tinha o método dela de ensinar era assim, né, a gente tinha que ficar quieto na sala assim, tinha que se comportar, né, e eu não... eu não era uma aluna muito bagunceira, eu ficava ali no meio, né, e aí o aluno que mais se comportasse na sala, ela dava um chocolate no final da semana, entendeu? E além de ser muito carinhosa, né, que ela sempre quando chegava abraçava e beijava a gente e tal, eu gostava, era uma professora divertida, não era professora mal-humorada, frustrada com a profissão, ela dava aula com prazer assim, ela era divertida, eu gostava de assistir aula com ela.

 

P/1 – Você conseguia identificar algum valor que era importante pra ela?

 

R – Um valor que era importante pra ela... Ela eu acho que era incentivar a gente estudar, porque da maneira dela, de uma forma ou de outra, a gente estudava, entendeu?

 

P/1 – E aí você também conclui os estudos nessa mesma escola?

 

R – Não, como tinha muita gente conhecida, assim, na minha escola e tudo virava fofoca assim, tudo chegava na minha mãe diferente, né, tanto do meu irmão quanto de mim, aí eu falei “Não, eu quero sair dessa escola, eu quero ir para outra”, aí minha mãe me colocou em uma escola no centro de Niterói de formação de professores, né?

 

P/1 – É o nome da escola?

 

R – Instituto Educacional Professor Ismael Coutinho, né? Formação de professor. Aí eu fui pra lá na sexta série e terminei o Ensino Médio lá, né?

 

P/1 – E dessa época o que é que foi legal pra você?

 

P/1 – Nessa escola as crianças eram diferentes um pouco também porque, assim, a minha escola era mais de interior e essa escola era mais o centro, então as crianças tinham muito mais informações, as coisas que aconteciam assim eram muito mais de adulto, então eu tomei um baque assim, era cercada de comunidade, tinha dia que eu chegava não tinha aula porque invadiram a escola e mataram sei lá quem lá dentro, entendeu? Então, era um espaço assim, era violento assim. Então, eu senti um pouco, né, eu senti uma diferença.

 

P/1 – Um choque, né?

 

R – Um choque, é.

 

P/1 – Eu gostava mais... depois eu fui descobrir que eu gostava mais de estudar na outra só que eu já estava lá, eu não ia voltar, né, e aí continuei lá.

 

P/1 – E assim em casa a sua mãe, como é que era a relação com isso, sua mãe...

 

R – Ah, minha mãe tinha medo assim, mas ela não tinha muito o que fazer, ela falava que... minha mãe tinha... ela é evangélica e ela falava muito assim: “Você não vai andar pra trás, se você saiu da escola, você não vai voltar, você vai continuar lá, se você tiver que sair de lá é pra ir pra outra melhor”, porque embora fosse muito violenta, era uma escola muito conhecida por qualidade, entendeu, era muito boa, tinha professores muito bons na escola. E ela sabia disso tanto que ela falava: “Quando você estudava na outra eu não via você fazendo exercício em casa”, entendeu, “e, nessa não, todo dia você chega com alguma coisa pra fazer, fina de semana você tem um trabalho e tal, então você não vai sair”, embora fosse perigoso.

 

P/1 – E você tinha um grupo de amigos na escola?

 

R – No início eu tive um grupo de amigos muito grande, eram umas doze meninas juntas e depois a gente foi se distanciando e tal, mas só no último ano que eu fui fazendo amizades fixas, eu acho... aquela escola as pessoas não tinham muitos vínculos igual na outra que eu estudava, entendeu, a gente se conhecia, mas não era uma coisa... Ninguém formava amizade, achava estranho porque não era uma coisa que formava amizade fixa, entendeu? Porque eu só fui formar no último ano.

 

P/1 – Eu queria que você falasse um pouquinho, essa violência que tinha com relação dentro da escola, você consegue identificar ou você identificava na época por que é que ocorria isso, qual é que era... Por que ficava uma comunidade violenta, por quê é que era que tinha essa violência dentro da escola?

 

R – Assim, tinha umas três comunidades muito violentas em volta da escola e que vira e mexe apareciam no jornal.

 

P/1 – Qual é que era o nome das comunidades?

 

R – Morro do Estado, Morro do Palácio e a outra eu não estou lembrada agora. E aí, aquelas crianças das comunidades, elas iam todas... a maioria pra essa escola, entendeu, e tinham alguns professores que não eram muito compreensivos e tal. Eu tinha uma professora d

e História que ela, tipo, humilhava a gente, ela falava que o filho dela era mais inteligente que a gente que estava no Ensino Médio, o filho dela estava na terceira série, tinha mais interesse, quando começou aquele negócio, aquela... o pessoal falar: “É nóis, é nóis”, ela falava “É isso que vocês estão aprendendo mesmo, você não têm capacidade nem de passar em uma faculdade pública e nunca vão ter”, entendeu, ela falava “porque na época, eu estudei em uma escola pública boa, hoje a escola pública não... então vocês não têm capacidade mesmo de passar e não vão passar”, né, e por esse tipo de arrogância tinha muitos alunos que eram violentos com o professor, inclusive com ela, e dentro da escola como era um espaço grande, sem muitos funcionários pra tomar conta, a bagunça era imensa assim, entrava até gente estranha no colégio que a gente tinha, não sabia... de noite, entendeu? Aí era isso. Já era... eles já viviam em uma situação de violência e iam pra escola a professora não tinha o mínimo de consideração com a gente, o mínimo assim,  e aí quem já não tinha um.. já não tinha uma... não tinha uma mente muito boa, cabeça muito boa já estourava com o professor rápido assim.

 

P/1 – Você vivenciou alguma situação dessas?

 

R – Ah, vivenciei, aluno batendo porta, brigando com o professor, teve um aluno que jogou a cadeira no professor. Um grupo dessa comunidade, do Palácio, invadiu a escola pra pegar os do Estado e a gente estava na escola, estava tendo aula, eu estava na escola nesse dia e assim os meninos com pedaço de madeira, facão, uma confusão danada.

 

P/1 – Eles entraram para pegar quem que eu não entendi?

 

R – Os meninos de outra comunidade, entendeu? E aí era isso, a gente teve que ficar na sala até a confusão abaixar pra gente poder ir embora. As meninas também eram muito violentas assim.

 

P/1 – E como é que você, uma adolescente que não tinha esse histórico, olhava pra isso?  Como é que você via isso? Você tinha, assim, uma visão crítica, você olhava pra isso? O que é que te trazia, entendeu? Isso tudo. Que tipo de reflexão fazia você na época, sabe, o que eu quero é que você volte um pouco no tempo e olhe pra isso, assim, com o olhar que você tinha na época.

 

R – Não, eu entendia que aquela violência era fruto do que eles viviam, né, porque sobe e desce polícia o dia inteiro, né, morre pai, morre mãe e eles estão presenciando o tempo todo, então eu entedia que aquilo era fruto disso porque embora a minha família.. eu sou... fosse de família humilde e tal, a gente não tinha... na minha escola que também era de crianças pobres não tinha esse tipo de violência, entendeu, que era mais interior. Lá tinha e eu entendia, dessa forma, que era fruto da realidade deles mesmo, mas não... Eu não tinha preconceito em fazer amizade com ninguém, eu tinha amigos que pareciam que eram envolvidos, eu nunca tive preconceito, sabe, eu gostava de me relacionar com eles, de ter amizade com as pessoas, né, e tinha algumas meninas que, inclusive quando a gente entrava porque a maioria dos alunos eram negros, então quando a gente entrava as meninas queriam bater na gente porque a gente era branca, porque achava que a gente morava em Itaipu, que era um bairro que tinha uma situação melhor, mas que não era, entendeu, então tinha... teve uma época que cinco meninas queriam me pegar na porta da escola porque eu era representante de turma e que a turma gostava de mim de verdade, entendeu, e as meninas tinham muita rivalidade com isso.

 

P/1 – E essas meninas que você tinha amizade eram meninas que moravam na comunidade. Você ia à casa delas, você subia, você ia até a comunidade? Como é que era?

 

R – Não, eu nunca cheguei a ir à comunidade dessas meninas, eu só conversava, brincava, eu só tinha relação com elas na escola mesmo, amizade com elas na escola mesmo. Agora nunca fui... nunca subi a comunidade não.

 

P/1 – Como é que era, vocês ficavam um período na escola e no outro período vocês estudavam na escola mesmo, você ia pra casa pra estudar?

 

R – Não, eu ficava um período na escola, de manhã, e de tarde eu ia pra casa, entendeu?

 

P/1 – E tinha um espaço assim de divertimento?

 

R – Na escola não. Na minha casa?

 

P/1 – E o que é que você fazia pra se divertir?

 

R – Não tinha. Na rua, no meu bairro, tinha uma quadra que quem ocupava eram os garotos que já tinham dezoito, dezenove anos pra jogar futebol, e a gente não podia acompanhar e não tinha nenhum lazer, sabe? A única coisa que a gente fazia era ir pra praia porque praia era o que não faltava, então a gente ia muito pra praia porque não tinha um parque, não tinha nada no bairro, entendeu?

 

P/1 – E aí você conseguiu terminar o colégio nessa escola?

 

R – Terminei o colégio nessa escola.

 

P/1 – Isso no bairro de Itaipu?

 

R – Não, no centro de Niterói.

 

P/1 – Centro de Niterói.

 

R – É.

 

P/1 – Tá. E você chegou a... você já chegou a trabalhar esse período alguma vez ou não, nunca trabalhou?

 

R – Eu tomava... às vezes, eu arrumava umas criancinhas, uma criança pra tomar conta, pra olhar assim, mas só de tarde, pouco tempo, entendeu, aí ganhava um dinheirinho.

 

P/1 – Como é que é assim... nessa sua fase da vida, como que... O que vocês... você falou que vocês iam à praia, mas você praticava algum esporte, você ia ao cinema, vocês tinham alguma...?

 

R – Não, cinema a gente não ia. Mas, a gente ia muito a... Eu não praticava nenhum esporte, né, porque nessa época eu parei de praticar, não fazia nada, eu só ia à praia mesmo, ficava pegando sol com as meninas e gente voltava andando, ia de ônibus e voltava andando ou então o contrário, né? Porque a gente não tinha o dinheiro de passagem pra ir todo dia porque era a única coisa que a gente tinha pra fazer, então a gente ia, né, e aí ficava pegando sol, conversando, né, com as meninas e aí a gente voltava andando pra conversar mais, mas não praticava nenhum esporte. Eu jogava, às vezes, jogava videogame com meu irmão que meu irmão tinha videogame e às vezes eu jogava, mas nenhum esporte assim.

 

P/1 – E esse negócio de você começar a trabalhar foi pra ajudar em casa, como é que foi isso?

 

R – Não, pra me... porque minha mãe tinha muito... como minha mãe tinha três filhos e ela tinha que sustentar a gente, fazer tudo para casa, ser manicure não era... o trabalho de manicure não era um renda que desse pra o que a gente quisesse, né, então quando eu comecei a tomar conta das crianças, aquele dinheiro eu podia comprar o que eu quisesse, eu não precisava ajudar em casa porque eu quase não preciso, aí o que você quisesse comprar eu comprava, eu ia para o shopping e comprava o que eu queria comprar pra mim, entendeu?

 

P/1 – E você lembra o que é que você fez com o primeiro dinheirinho que você conseguiu?

 

R – Não.

 

P/1 – Torrou tudo?

 

R – Torrei tudo. Não.

 

P/1 – E o que é que você tinha vontade? Qual é que era assim a sua... você falar: “Ah, eu quero ter dinheiro pra comprar isso”, que tipo de coisa você gostava, assim você pensava em ter?

 

R – Eu queria muito... meu sonho era ter um computador, né, mas aí eu não tinha dinheiro pra comprar um computador, mas eu consegui comprar uma bicicleta, um patins, entendeu, fui juntando.

 

P/1 – E aí como é que apareceu a história da Gol que você estava comentando?

 

R – Não, então, nessa época em que eu estava estudando lá no centro, nessa escola que era um pouco violenta, eu ficava à tarde em casa, era diferente da outra que eu estudava à tarde, né? Aí minha mãe ficava com muito medo que ela ficava o dia inteiro fora e eu já tinha treze anos, né, catorze, eu acho, aí ela ficava com medo que eu ficasse sozinha porque meus irmãos quando ficaram mais velhos não tinham mais responsabilidade comigo e não iam ficar em casa por causa de mim, né, eles saíam mesmo e me deixavam em casa. Aí ela ficava muito preocupada, ela trabalhava preocupada achando que podia acontecer alguma coisa em casa, né, aí ela foi fazer unha de uma freguesa dela, aí essa freguesa mostrou que ia abrir a Fundação Gol de Letra e tal, né, ali em Itaipu, aí minha mãe chegou com um pedaço de papel recortado, né, de jornal recortado com o anúncio da fundação Gol de Letra. Aí eu falei pra ela: “É, mas eu não gosto de futebol e se for só escolinha de futebol eu não vou”, e ela “Não, você vai, nem que seja só escolinha de futebol, em casa você não vai ficar”. Aí depois a gente foi ter mais informações que não era só escolinha de futebol e tal, não entrei no início, entrei uns dois meses ou três depois da inauguração, né, no início ela não... ela foi ver depois se já tinha conseguido, depois que já tinha inaugurado que tinha todo um processo de cadastro e tal de pesquisa e aí eu fui pra Fundação Gol de Letra e lá eu vi que não era, realmente, não era só escolinha de futebol. Tinha aula de dança que eu adorava na época dançar e eu dançava com as meninas de vez em quando em casa, né, de brincadeira, aula de Literatura, Educação Física, embora eu não fosse muito fã de Educação Física, eu gostava de ir porque era um espaço que tinha diversas coisas pra gente fazer, sem contar que a gente costumava sair, conhecer outros espaços que eu não tinha o costume, né, aí não tinha, no meu bairro não tinha nenhuma área de lazer, então abre uma instituição que tem quadra de futebol, informática, um monte de livro e tal, eu adorei, né? E voltando à dança, eu tinha muito um... gostava muito de pensar... quando eu era criança eu queria muito fazer balé, minha mãe não tinha dinheiro, né, então quando teve a oportunidade de participar da dança, eu adorei também, né, porque, poxa, minha mãe não teve dinheiro, mas agora eu vou fazer, vou dançar de qualquer forma, né? E aí eu gostei muito porque era um espaço assim único que tinha ali, entendeu, a prefeitura que proporcionava, era uma coisa assim muito legal.

 

P/1 – E me fala uma coisa, como é que era? À tarde você ia pra escola e de manhã você ficava lá? Como é que era?

 

R – Não. Eu ia de manhã pra escola e à tarde eu ficava lá.

 

P/1 – Conta pra gente um pouco como é que era esse cotidiano dentro da Gol. Você chegava, você fazia... Como é que era, conta um pouquinho pra gente.

 

R – Tinha um ônibus da Gol de Letra que buscava a gente, né, nos pontos e aí a gente chegava e eles faziam uma roda enorme, né, com a gente, aí perguntava o que tinha acontecido durante a semana, na escola, uma conversa informal e depois falavam da proposta daquele dia, né, e aí a partir de então a gente ia para as nossas aulas, né, que era... que em cada horário a gente ficava em um espaço diferente, né, no início a gente ficava em Literatura, depois ia pra aula de dança e aí ia pra Educação Física. Aí no outro dia invertia a ordem, entendeu. Aí tinha Informática.

 

P/1 – E me fala uma coisa, conta pra gente um pouquinho, você falou que tinha uma questão metodológica, né, de que quando vocês chegassem vocês tinham uma recepção e tinha toda uma informação com relação à sua atividade do dia. Eu queria que você falasse um pouquinho como é que era primeiro assim, qual foi a sua primeira impressão quando você chegou na Gol?

 

R – Minha primeira impressão? Quando eu entrei, eu sem ter muita informação, vi aquele monte de quadra, né, aí eu falei “Pronto, só vai ter esporte aqui”, né, e eu não estava muito interessada, mas aí eu descobri as outras coisas, né, as outras atividades e eu não sei, eu achei as pessoas muito receptivas, muito carinhosas, professores diferentes daqueles que eu tinha referência antes, né, antes da Fundação Gol de Letra, que estavam interessados no que é que a gente tinha... vinha pra contar de novidade, eles perguntavam, se interessavam pela família da gente, das coisas que a gente fazia e foi uma primeira impressão boa, era um espaço que me deixava à vontade, entendeu?

 

P/1 – Deixa eu só... você então ia pra... você estudava e ia pra Gol, né? Você sentiu que depois que você começou a participar da Gol a sua relação na escola mudou, você sentia isso ou, sei lá, ficou mais tranquilo pra estudar, você sentia uma certa facilidade?

 

R – Eu... teve uma época que eu estava muito nervosa e tal, porque até pelo ambiente da escola, né, você acostuma a viver muito na defensiva, né, e aí quando eu fui pra Gol de Letra eles trabalhavam muito isso, né, até porque tinha a comunidade do lado da Gol de Letra, né? E a partir dali eu aprendi a ser mais calma, a não ficar tanto na defensiva como eu estava antes, entendeu, e o que mudou foi isso assim, né?

 

P/1 – E que tipo... conta pra gente... você falou que das atividades que eram proporcionadas, assim, como é que era a aula de Literatura, conta pra gente um pouquinho que atividade vocês desenvolviam em cada uma, entendeu? Pra gente entender um pouco do que de diferente, por exemplo, você tinha de uma aula de Literatura ou de Português na escola pra o que era dado na Gol de Letras.

 

R – A aula de Literatura na Gol de Letras era assim, a professora vinha com o livro, uma estória, né, contava pra gente e discutia sobre a partir daquele assunto, ou então um pedaço de jornal , né, uma reportagem e fazia uma discussão, uma interpretação, fazia a gente montar uma estória a partir do que a gente tinha lido e tal. Era isso.

 

P/1 – E a atividade de dança, que tipo de dança você aprendeu? Você falou que gostaria de fazer balé, mas lá o que...

 

R – É, não era um balé. Era, na verdade, não era um tipo porque quem criava os movimentos eram nós, era a gente, entendeu. Então a gente tinha um tema, vamos supor: Bumba Meu Boi, né, e a música, tinha uma música para aquele tema, tinha um professor de música que ele... quem gostava de tocar e tal, fazia e as meninas... quem quisesse dançar, dançava. Então a gente... tinha  a música, a professora falava “Ó, a partir dessa música a gente vai montar uma coreografia”, mas quem montava a coreografia eram os alunos, entendeu?

 

P/1 – E me fala uma coisa, dentro da Gol, qual foi a sua convivência, você conviveu com crianças das comunidades do entorno e também pessoas de outros lugares e assim, quem foram as crianças ou os adolescentes que te marcaram nessa época e por quê?

 

R – Foram os adolescentes da minha, assim, da minha turma, né, o Thiago que morava assim num bairro ao lado, assim, bem perto mesmo, né. A Michele que morava assim num bairro um pouco mais distante, em uma comunidade, o Diego que morava também no meu mesmo bairro. E a gente fez uma amizade muito legal que a gente mantém até hoje, amizade mesmo, sabe, eles me marcaram muito porque a gente o tempo todo, embora assim esse Diego ele não estudasse no mesmo período que a gente, eu estudava de manhã, eu tinha estudado com ele na escola, então a gente se reencontrou. Ele e uma outra, Priscila, que eu estudei com ela na creche, estudei com ela na escola, encontrei ela na Fundação Gol de Letra e depois fui encontrar com ela lá no centro de Niterói estudando, né, então eles me marcaram muito porque a gente seguiu o tempo... desde o início junto assim e até hoje tem amizade.

 

P/1 – E uma coisa que você falou antes, você falou que estando na Gol, deu pra conhecer outros lugares que você não imaginava que poderia conhecer. Que lugares foram esses que você pôde conhecer?

 

R – Eu nunca tinha conhecido o Museu da República, nem sabia que existia, entendeu, porque na escola... eu estava na escola, mas ninguém ensinava isso, ninguém fala que tinha um Museu da República e a gente foi conhecer, entendeu? Teve um curso de Contação de História proporcionado pela Fundação Abrinq que a gente foi para Xerém, que eu nem sabia que esse bairro existia também, foi pra uma fazenda, eu e Michele que era muito minha amiga e mais outros grupos de jovens. A gente foi no cinema, diversos espaços que a gente não... que eu não tinha a oportunidade de ir, entendeu?

 

P/1 – Dentro dessa fase inicial quem foi a pessoa que te marcou dentro da Gol de Letra como professor ou como instrutor, quem foi assim a pessoa que você tem como referência e por quê, que atitude que ele trazia, por quê é que te marcou?

 

R – Não, de verdade, olha, eu tive muitas pessoas que me marcaram, não tem como falar que tinha uma só. Porque o professor de música, por exemplo, era um paizão, muito companheiro ele, assim, conversava com a gente até as coisas de meninas ele compreendia, entendeu, a gente... namoro, a gente chegava pra ele e conversava e tal, muito carinhoso. A equipe era muito legal.

 

P/1 – Qual o nome dele?

 

R – Marciano. E aí tinha o professor Felipe de Educação Física que eu gostava muito dele também, né, gosto ainda, né, e ele assim, ele me marcou porque ele dava aula de Educação Física e eu não queria fazer atividade, né, eu não queria fazer Educação Física, e eu me negava mesmo, então quando ele me colocava pra defender porque eu não queria jogar, não queria fazer nada, aí ele me colocava pra defender, eu me escondia da bola e tal. Então era muito engraçado então por isso que ele me marcou, né? Era uma relação legal. O diretor Wilson também, apesar de ser diretor e não estar ali dando aula pra gente, mas ele era muito companheiro também, ele descia pra conversar com a gente, entendia, nossa, conversava com a gente. As professoras de Literatura, as duas que teve lá também. Então assim, foram diversas... cada pessoa deixou marcado uma coisa, entendeu, não tem como falar porque a equipe, assim, marcou muito. Toda a equipe.

 

P/1 – Anna, você pegou desde a inauguração, praticamente, da Gol, né? O que é que você sentiu que foi mudando, que foi acontecendo na Gol de Letra?

 

R – Que foi mudando?

 

P/1 – É. Você falou que teve uma biblioteca também.

 

R – É, no início não tinha... era a sala da Literatura, quase uma biblioteca, mas aí não era uma biblioteca, e aí nós... o que foi mudando assim é que nós éramos alunos e tal, tinha aqueles professores que ensinavam a gente, depois teve um Projeto Aprendiz, daí a gente pode se envolver no trabalho como uma espécie de... assim, de ajudante do professor de alguma forma, a gente tinha os nossos, assim, esse Projeto Mudando a História, como aprendiz a gente podia fazer esse projeto com as crianças. Então assim os alunos passaram a fazer parte da Gol de Letra não só como alunos, entendeu, mas pra difundir, pra difundir ela de alguma forma, né, e aí foi tendo o FAC Comunicação [Formação de Agentes Comunitários] que foram outros jovens que entraram, então o trabalho da Gol de Letras foi se difundindo aos poucos entre os bairros não só através dos professores, mas dos alunos, entendeu, que isso mudou assim, foi uma mudança bem notória, bem legal, a gente participar da história.

 

P/1 – E aí que construiu a biblioteca também?

 

R – É, aí a gente não tinha biblioteca e com essa... a gente fez esse curso  de Contação de História pela Fundação Abrinq, né, mas dentro do espaço da Gol de Letra, junto com a professora de Literatura e uma professora que trabalhava no Museu da República e ela ensinou a gente a montar uma biblioteca, e a montar e a preservar e tal, e junto com a Fundação Gol de Letra nós começamos a ver o espaço para a biblioteca dentro da Fundação, idealizar o espaço junto com uma outra supervisora também, não só a gente sozinho, não só... a gente não estava sozinho, né? E aí a gente fez o espaço, né, montamos, colocamos os livros, conseguimos doação de brinquedos e a gente ia lá limpava os brinquedinhos porque tinha criança muito pequena, não podia botar na boca, e aí cuidava do espaço, né, a gente aprendeu a cuidar muito do espaço, aquele espaço erro nosso, entendeu, então a gente procurava mantê-lo assim da melhor forma possível.

 

P/1 – Você falou que tinha criança pequena, por quê?

 

R – Tinham as crianças de sete anos, né, e aí a gente tinha esse cuidado, né, de deixar tudo bem limpinho porque eles poderiam colocar na boca e tal, brincar de alguma forma que pudesse prejudicar, né?

 

P/1 – Você contou que, por exemplo, vocês começaram a se envolver dentro do processo no sentido de meio que ser assistente dos professores e tal e isso, essa oportunidade, era dada para todas as pessoas que estavam lá ou era pra quem queria, como é que era isso?

 

R – Não, era dada pra todas as pessoas, pra todos os adolescentes que já estavam na idade que supostamente teriam que sair como aluno, só quem ficava era os que realmente queriam, que realmente estavam interessados. Aí quem estava interessado participava de um projeto diferente, o primeiro foi o aprendiz, aí depois foi monitor, aí teve o FAC Comunicação que era Jornalismo e que era o FAC Esporte também, então teve diversos projetos para que os jovens pudessem se enquadrar, né? Esse FAC Comunicação e Esporte alguns alunos que já estavam dentro participavam, né, eu participei do Jornalismo, e outros também que entraram, né, aí ficava realmente quem queria.

 

P/1 – E como é que eram esses projetos, você lembra das atividades?

 

R – Olha, no aprendiz a gente tinha algumas aulas, tinha aula de Cidadania, Educação Física de novo, né, a gente tinha Educação Física, Literatura também, mas de uma forma diferente, né, mais de formação mesmo, né? O FAC Comunicação era mais voltado pra comunidade, então “vamos documentar o que é que Itaipu está vivendo, assim, que os jovens não têm lazer”, aí nós fazíamos um filme, não tem lazer e tal, então fazia um documentário, a praia de Itaipu está sendo poluída, a gente produzia, então era um projeto que voltava para a comunidade, né, e depois nessa época eu já não estava no projeto, no FAC Comunicação, eles apresentavam pra comunidade esses vídeos, né? E o Esporte era mesma coisa, eles proporcionavam pras crianças da comunidade um dia de esporte e tal mediado pelos jovens.

 

P/1 – Como é que era a interação com a comunidade? Como é que vocês faziam isso, como é que vocês envolviam a comunidade dentro desses processos, por exemplo, de você: “Olha, não tem lazer”, né? Era uma visão que a comunidade participava, ela se envolvia nesse processo, como é que era?

 

R – Não, a gente... a comunidade participava porque primeiro a gente fazia a pesquisa, né, “Vamos ver o que é que não tem ou o que precisa ser documentado”, então cada um fazia uma pesquisa onde morava, então a comunidade participava e a partir daí a gente fazia o documentário com as pessoas, algumas pessoas que tinham dado a entrevista, né, falando no documentário.

 

P/1 – Então, vocês iam lá na comunidade entrevistar?

 

R – A gente ia lá, se fosse “a Lagoa de Itaipu está poluída”, a gente ia lá, a gente mostrava, a gente pegava depoimento de pescadores, moradores em torno da Lagoa e falava.

 

P/1 – Como é que vocês eram recebidos pela comunidade?

 

R – A gente era recebido bem porque a Fundação Gol de Letra ela tinha um... era bem conhecida na comunidade porque as mães falavam muito bem, as mães estava muito satisfeitas com o trabalho, então a gente era muito bem recebido nos lugares, a gente nunca encontrou alguém que estivesse insatisfeito, que não quisesse responder ou que falasse assim de forma grosseira, sempre interessado em participar e perguntando em como fazia para botar o filho que não conseguiu colocar ainda e tal.

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – Deixa a gente voltar um pouco dessa relação da Gol com a comunidade, você pode falar um pouco mais pra gente como é que era essa relação, como é que é?

 

R – A Fundação, ela... é o que te falei, o que eu tinha falado, a Fundação ela era muito bem vista pela comunidade, entendeu, então assim, tudo o que era feito fora da Fundação Gol de Letra pra comunidade que não tinha, ainda não tinha tido acesso à Fundação era bem aceito até porque todo mundo queria ter o seu filho na Fundação Gol de Letra, entendeu? Até aqueles que nem... porque assim era pra crianças carentes, né, mas até aqueles que nem carentes eram queriam colocar seu filho na Gol de Letra, né? Então era muito bem recebido, todo mundo respeitava o trabalho, sabia que era um trabalho sério. As mães dos próprios alunos quando tinha algum evento ajudavam nos eventos, era uma relação amigável.

 

P/1 – Como é que... você falou que a Gol de Letra era bem vista, né, então assim vamos tentar concretizar isso no sentido assim da gente contar algumas histórias, por exemplo, as mães, elas percebiam a diferença assim, tinha casos na época quando você frequentava a Gol como aluna que assim tinha uma percepção de transformação, de mudança, como é que as mães começaram a chegar na Gol de Letra? Porque é muito diferente você ir e escrever um aluno, né, e deixar lá, como é que essa interação se faz nesse momento, como é que essa percepção é vista, entendeu, pra gente tentar concretizar.

 

R – Não, então, assim, as mães percebiam mudanças nos seus filhos, né, tinha muito aluno que ao entrar pichava muro, essa coisas, né, e depois que entrou na Gol de Letra com os professores conversando, parou de fazer essas... de fazer isso, né? Então as mães sentiam essa diferença, né, e procuravam ajudar de alguma forma, né, de contribuir com aquele trabalho, então às vezes, tinha dia, evento por causa do Dia das Mulheres, né, então as mães assim mais comprometidas, né, que não eram todas as mães que participavam, elas procuravam estar ali porque eu acho que é uma forma de retribuir pra Fundação o que ela tinha feito pros filhos, né? Crianças que eram muito agitadas, assim rebeldes, não agitadas assim de... de ser rebelde mesmo, que melhorava seu comportamento dentro de casa, junto com a mãe, ficava mais calmo, mais tranquila, mais compreensivo e a mãe nesses eventos ou... ajudava, assim, e procurava ajudar, participar, a gente fazia eventos na comunidade, nas escolas, às vezes, algumas mães participavam, era... tinham participação bem ativa.

 

P/1 – Você lembra de algum caso, assim, de alguma criança, que na época em que você frequentava enquanto aluna, que tinha um problema muito sério? Você pode contar para gente, é interessante a gente perceber.

 

R – A minha vizinha da esquina da rua, ela teve 22 filhos, né, então a maioria morreu, ficaram só nove e depois foram morrendo também, que entraram na vida do crime, praticamente a maioria dos filhos foram... os outros morreram porque... de criança, de desnutrição e outros casos. Então os que sobreviveram entraram na vida do crime, né, então foram morrendo, né, o mais velho morreu, depois foi os outros, os outros e aí quando sobraram só três, né, quer dizer, sobraram cinco, três entraram na Gol de Letra, né, e aí foram tendo um trabalho legal na Gol de Letra, foram se identificando e tal.

Um se identificou mais, né, que ele é meu amigo e ele, exclusivamente, assim, não entrou na vida do crime, os irmãos... e só sobrou ele, na verdade, porque morreu um que... os outros dois que eram... não, um morreu que era da Fundação que realmente ele não se interessou e tal porque era muito trabalhado isso, né, então ele realmente não se interessou e nada e acabou se mudando e depois se envolveu e morreu muito jovem, era mais novo que eu, devia ter uns dezessete anos de uma forma muito brutal. O outro já está enveredando também pela vida do crime e esse, exclusivamente, não, esse, o meu colega, né, ele viajou pra França e tal e ele era um garoto que ele queria mudar, a gente via isso nele, então a Fundação foi uma oportunidade que eu acho assim pra mudar essa visão. E ele mudou porque depois que ele... é um dos... eu acho que o único homem que... não, tem ele e mais outro, mas ele assim está trabalhando, está estudando, ele se interessa e se vocês conversarem com ele, ele tem bem essa visão, assim, de quem passou por lá, entendeu?

 

P/1 – Como é que é o nome dele?

 

R – José. Ele é bem bacana, ele também passou por lá. E a história dele era muito complicada.

 

R – Você falou que vocês faziam atividade, vocês iam nas escolas? Como é que era isso?

 

P/1 – Tinha um evento, aí nós íamos pras escolas, a gente tinha... aí nas escolas a gente fazia atividade de biblioteca, educação física, dança com a comunidade, entendeu, e ia um monte de gente, lotava. Tinha... eu me peguei uma vez contando estória, aí eu contava estória... era um livro do saco, né, Brinquedo de Saco, Saco de Brinquedos, e eu contava estória e montava assim.... “Ah, tem um barquinho, então vamos montar um barquinho de papel?” e quando eu olhei, que eu estava nervosa, mas quando eu olhei que eu fui perceber quem estava assistindo, tinha assim as mães junto com os filhos aprendendo a montar o barquinho de papel, entendeu, então era muito legal, todo mundo ia.

 

P/1 – A sua mãe chegou a participar também de atividades da Gol?

 

R – Não, minha mãe não participou das atividades da Gol de Letra, não. Minha mãe não era... ela não tinha tempo de ir, mas também ela não ia mesmo, entendeu?

 

P/1 – E dessas atividades pra comunidade, que atividades que você... que foram marcantes e que você lembra? Você falou do Dia da Mulher, né, que atividades mais que tinham?

 

R – Ai, tinha diversos assim dias, assim, que eram voltados pra algum tema, mas não teve nenhum assim que tenha me... que me faça lembrar como especial, entendeu?

 

P/1 – Era por um período? Como é que era definido?

 

R – Era por mês, uma vez no mês tinha um evento, aí nós íamos.

 

P/1 – E tinha uma expectativa, as pessoas já estavam esperando uma atividade da Gol?

 

R – Tinha escola que pedia, que a comunidade estava pedindo para Gol de Letra voltar, inclusive uma escola de Piratininga, pra fazer as atividades lá e era bem bacana.

 

P/1 – Me fala uma coisa, nas atividades que você desenvolveu, você falou de contador de estórias, você fazia algumas atividades, você falou também na coisa da comunicação. Quais que eram os desafios, os principais desafios que você encontrou pra executar essas atividades?

 

R – Ah, os principais desafios foi perder a timidez, entendeu, e acho que foi o desafio de muita gente porque era muito difícil, você chegar lá que era uma comunicação, por exemplo, aí você tinha que mexer com a câmera, tinha que se fazer de repórter e era assim muito difícil a gente perder a timidez e também na Mudando a História que a gente tinha que pôr o público, no meio de um evento, sentar no chão com as crianças e começar a contar estória, foi muito difícil. O maior desafio foi perder a timidez.

 

P/1 – E você pegou... isso tudo foi quando você estava atuando ali na Itaipu, né? Depois mudou a unidade, como é que foi?

 

R – Depois a Fundação foi para uma escola, a Escola Eulália, né, foi para o espaço da escola, ela foi atuar dentro de uma comunidade, né, ali no Jacaré. E aí o espaço da escola era bem pequeno, bem diferente do espaço que a gente tinha, mas era uma condição que a gente ficava bem mais próximo dos moradores, da comunidade mesmo, bem perto da realidade porque a gente procurava entender melhor. E foi um desafio, né, porque uma escola pequena com professores supertradicionais, super-resistentes, né, não tinha espaço pra nada na escola, mal tinha para os alunos, para a Fundação Gol de Letra menos ainda, mas no final deu tudo certo, nós montamos uma biblioteca, né, a gente fez, tinha biblioteca, a gente tinha a biblioteca da escola, a gente juntou os livros lá e organizou, com o tempo os professores falaram “Ah, pode organizar aí do jeito que vocês aí quiserem os livros” né, não estavam muito interessados em ter esse trabalho, aí não tinha brinquedoteca, a brinquedoteca a gente fez dentro de um container, né, pras crianças usarem, não, mas as crianças não ficavam dentro do container não, elas pegavam os brinquedos e brincavam fora, né? Mas, eles gostavam à beça, né, porque era uma realidade que eles não tinham brinquedo, entendeu, era muito difícil eles terem assim... uma criança  que tivesse bastante brinquedo, então ali naquele espaço tinha diversas coisas que eles pudessem brincar, além das atividades que a gente pudesse propor, né, e assim, eu lembro que uma vez eu abri a brinquedoteca e saí de perto assim, quando eu voltei, mas tinha tanta criança, tanta criança que eu falei “gente, como é que vou tirar essa criançada toda daqui?”, porque era um espaço assim, que eles realmente não tinham, entendeu?

 

P/1 – A Gol funcionava ali dentro da escola?

 

R – Funcionava ali dentro da escola.

 

P/1 – E o que é que você percebeu nessa mudança? Primeiro, eu quero te fazer uma pergunta anterior. Você sabe por que a Gol... da saída desse espaço para a escola?

 

R – Olha, exatamente eu não sei por que foi pra essa outra escola. Eu entendi que foi porque a Fundação ia aproximar, que ia ser bom pra Fundação Gol de Letra, pra conseguir mais patrocínio se a Fundação Gol de Letra estivesse dentro da comunidade, porque lá onde a gente ficava as crianças eram carentes, mas o bairro não era, entendeu? Então quem ia patrocinar via casas bonitas, né, de classe média, podia pensar outra coisa, né? Então, eu entendi dessa forma, não sei se foi realmente isso.

 

P/1 – E você consegue perceber uma transformação dentro da Gol de Letra, a maneira como ela... assim os processos dela, as ações dela quando ela muda, quando ela sai desse lugar e ela vai pra dentro da escola, bem próximo da comunidade?

 

R – Olha, o trabalho ficou mais difícil até porque pelas condições era difícil você desenvolver um trabalho tão bem elaborado como elaborado na outra Fundação Gol de Letra.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Pela falta de estrutura porque não tinha, realmente a gente estava com uma falta de estrutura bem séria, né, mas não perdeu sua qualidade, continuou de muita qualidade, a gente transformou as dificuldades, a gente usou a criatividade, a dificuldade pra ter criatividade,e aí...

 

P/1 – Conta um caso pra gente. Tipo o quê? Que dificuldade que vocês... o que vocês tiveram que fazer pra ficar criativo e resolver o...?

 

R – Bom, o container não estava dando muito certo pras crianças, né, não estava legal. Teve um incidente e nós “Poxa, não está dando esse container pra fazer brinquedoteca, então o que é que nós vamos fazer”, aí a gente tinha um espaço que era emprestado, né, que era o Dornas, então a gente resolveu montar a biblioteca, a brinquedoteca dentro desse espaço e a brinquedoteca era feita daquelas divisórias de compensado, né, a gente fez, pintamos, os meninos, os próprios meninos amigos nossos pintaram a brinquedoteca, a gente arrumou da melhor forma que a gente podia ter arrumado, a gente imprimia enfeites assim para caracterizar bem como brinquedoteca, entendeu? É isso.

 

P/1 – E a comunidade começou a participar mais, né, das atividades da Gol? Você sentiu isso?

 

R – Eu senti que a comunidade, ela... aquela comunidade, ela começou a participar bem, entendeu, quando a gente foi pra lá porque assim tinham muitas comunidades que eram envolvidas quando era em Itaipu, eu não lembro se aquela comunidade tinha muita gente, mas eu tinha uns colegas que eram de lá também, mas a comunidade participava, participava bem, tinha muitas mães que eram interessadas.

 

P/1 – E você lembra das atividades com a comunidade?

 

R – Lembro, nós fazíamos a escovação, ensinava a escovar o dente com as crianças, essa mediação de leitura, informática, entendeu?

 

P/1 – E aí você ficou nessa unidade... que período é esse mais ou menos, só para gente  se localizar?

 

R – 2006, eu acho.

 

P/1 – 2006 no Jacaré, né?

 

R – Isso.

 

P/1 – E aí continuou no Jacaré até?

 

R – 2008, início de 2008.

 

P/1 – Aí você não pegou essa outra fase?

 

R – O início de 2008?

 

P/1 – É.

 

R – Peguei.

 

P/1 – Pegou?

 

R – Peguei, eu fiquei até o fim.

 

P/1 – E teve muita mudança? Porque vocês pegaram desde o início, vocês começaram a pintar, arrumar o container e não sei o quê e como é que foi mudando...?

 

R – Ah, teve porque a gente foi tendo mais colaboradores assim, então a gente... a cada dia a gente estava arrumando mais espaço pra gente trabalhar, entendeu?  E aí a mudança foi nesse tipo, a gente mudou... a quadra era toda deteriorada, a quadra da comunidade era uma situação, assim, difícil pra você trabalhar com as crianças, perigosa, que atrás da quadra tinha uma... que a gente trabalhava na quadra da comunidade, tinha um córrego que caía a bola direto lá, as crianças de sete anos queriam buscar a bola dentro do rio, entendeu? E aí depois a gente foi mudando, colocamos grade na quadra, um quartinho pra bola, um portão e tudo e ficou legal. E os moradores depois ajudaram a manter porque eles sabiam que aquilo não era só pra gente porque o dia que a gente não... a gente usava, mas era da comunidade, entendeu?

 

P/1 – Eles usavam também para eles?

 

R – Usavam pra eles porque a quadra era deles, a gente só... com alguns patrocínios a gente melhorou a quadra.

 

P/1 – E como é que era... quando vocês foram para dentro da comunidade aumentou o número de procura de crianças que gostariam de participar da Gol de Letra? Como é que vocês lidavam com essa coisa assim, dessa demanda, se é que existia, como é que vocês faziam com isso?

 

R – Não, é porque quando a gente trabalhava na outra, a gente... a demanda de criança, pelo espaço ser maior, a gente tinha mais criança, entendeu? Tinha umas trezentas e poucas crianças, não sei se era isso mesmo.

 

P/1 – Mas, tinha criança que estava querendo entrar e não conseguia ser atendida?

 

R – É. Então, quando a gente foi pra essa comunidade o número de crianças diminuiu, foi pra cento e pouco assim, então tinha muita gente querendo entrar, mas não tinha como a gente colocar esse público todo, né, dentro daquele espaço, então a gente... Eu acho que por meio desses eventos a gente podia de alguma forma incluir as crianças no trabalho, entendeu?

 

P/1 – Então assim, algumas eram inscritas mesmo, agora tinha atividades abertas pra envolver a comunidade?

 

R – Isso. Depois teve até meninos que eles ficavam na grade da escola vendo o trabalho que a gente realizava, os meninos adolescentes já, querendo ajudar e aí a gente acabou incorporando esses meninos à Gol de Letra.

 

P/1 – Ah, voluntários?

 

R – Voluntários.

 

P/1 – Ah, fala um pouco mais sobre os voluntários pra gente.

 

R – Não, é porque a gente via... foi um interesse assim que era visível porque a gente ficava, a gente trabalhava e eles ficavam na grade olhando, né, as atividades sendo desenvolvidas e aí a gente estava precisando de gente pra ajudar com as crianças e eles como moravam na comunidade tinham uma relação muito mais próxima com as crianças do que nós, né, conheciam a história de cada criança de verdade, e aí a gente chamou cada um pra uma área e eles começaram a trabalhar com a gente como aprendiz, tinha uma ajuda de custo pequena, entendeu? Era só uma ajuda de custo simbólica pra eles poderem trabalhar e eles adoravam.

 

P/1 – Era uma forma, por exemplo, do braço, né, se a gente fizer aqui uma metáfora, vamos dizer assim, a Gol de Letra a cabeça do polvo e os braços, os tentáculos desse polvo indo pra dentro da comunidade. Fala um pouco desses tentáculos assim, de como a Gol entra dentro da comunidade através de outras atividades, pra gente compreender um pouco, inclusive, essa relação da comunidade com a Gol, tendo uma demanda muito grande e não conseguindo ser atendida.

 

R – Como é que ela entra?

 

P/1 – É.

 

R - Então, ela entra justamente por esses jovens que... e pais que se interessavam pra dentro da comunidade.

 

P/1 – E o trabalho com os pais como é que era feito, você sabe?

 

R – Trabalho, como assim?

 

P/1 – Porque você falou que esses pais, eles tinham interesse. Como é que a Gol trabalhava pra ajudá-los inclusive dentro...

 

R – Então, esses pais que tinham interesse em ajudar, de nos ajudar, eles participavam dos eventos que a gente proporcionava, entendeu?

 

P/1 – Mas, tinham atividades específicas pros pais? Existia?

 

R – Ah, por exemplo, a gente ia fazer o evento do Dia da Mulher, por exemplo, que é o que veio na cabeça agora, então tinha uma mãe que ela sabia fazer artesanato, então aquela mãe ia ensinar a comunidade, ia pra Gol de Letra oferecer aquilo como atividade naquele evento, então naquele evento ela tinha uma banquinha e ensinava as mães a fazer artesanato. Uma outra mãe que fazia bijuteria, ela ensinava, entendeu?

 

P/1 – E nesse meio tempo em que você foi atuando na Gol, você sentiu que você começou a se apegar a uma determinada área, um caminho pra...

 

R – Eu comecei a me pegar na Educação, na área de Educação, porque eu não queria antes de estar na Gol de Letra, eu não queria atuar na área de Educação, não era uma coisa que passava pela minha cabeça e depois, como eu participei do aprendiz, do projeto de monitores que a gente passou a ajudar melhor a Fundação, então aí eu comecei a gostar da área de Educação, mas tanto que eu faço faculdade de Pedagogia, entendeu, pela Fundação Gol de Letra porque se não fosse ela, certamente eu não estaria fazendo a faculdade de Pedagogia, teria escolhido outra área.

 

P/1 – É essa a ideia de multiplicação que é colocada na Gol? De multiplicar proposta...

 

R – É, é essa ideia mesmo. Tanto que eu tenho um prazer imenso em trabalhar com projetos com crianças carentes e poder fazer um trabalho que foi feito comigo, então quando eu... como estudante de Pedagogia, quando eu vou em uma escola ou em qualquer instituição que seja um trabalho muito mecanizado, muito assim tradicional, eu me sinto assim fora, entendeu, eu não fiz Pedagogia... Eu não estou na Educação pra isso, não é pra isso que eu quero trabalhar, eu quero fazer um trabalho diferente, né, da forma que eu vi na Fundação Gol de Letra, entendeu? Hoje eu trabalho em escola, né, e a relação... Meus alunos só têm dois anos, né, mas a relação que eu tenho com eles, eu, assim, eu tento aproximar o máximo do que eu tive com os professores da Fundação, às vezes podada, né, pela escola, assim, em algumas atividades, mas a relação eu tento aproximar.

 

P/1 – Metodologicamente, o que diferencia a Gol das escolas? Você consegue trazer isso pra gente?

 

R – Olha, o que diferencia é que nas escolas é aquela coisa, o professor vai mesmo e faz o seu papel de dar aula e “É essa, essa e essa a matéria que eu tenho que dar hoje, é isso que eu vou dar, se aprendeu ou não o problema é de vocês, se passaram mal, estão doente, não me interessa”, entendeu. Na escola de Educação Infantil é falta de interesse, entendeu, com a realidade da criança, quais dificuldades, eu tento... a minha obrigação é ensinar a falar, ler, a entender cor, a saber cor, essas coisas, né, não é melhorar a sua pessoa, não é fazer você ser uma pessoa melhor ou te... sabe, ensinar a ser cidadão ou ser solidário, “Meu trabalho não é esse, meu trabalho é ensinar você  as coisas... matérias de... as matérias que eu sou obrigada, né, que está escrito lá na lei e é isso que eu vou dar”. Na Fundação, não. Na Fundação a ideia era diferente, a ideia não era muito escola, a ideia era entender a realidade do aluno, ver... Além de você ensinar algo, você à partir do que ele vive, você passar o que você conhece, entendeu, compreender, estar mais próximo, ter uma relação mais de amizade com o aluno, entendeu?

 

P/1 – Então a gente poderia fazer uma diferença entre o educador e o professor, seria mais ou menos essa questão que você vê?

 

R – É, porque a Fundação Gol de Letra ela é muito voltada pra pessoa, o cidadão, entendeu? E nas escolas não, nas escolas ela quer... em algumas escolas, não são todas, claro, querem simplesmente, se detêm simplesmente na função dela.

 

P/1 – Tá. Você ficou na Gol até?

 

R – Início de 2008.

 

P/1 – Por que é que você saiu?

 

R – Porque essa... a gente nessa escola não estava tendo muito patrocínio, não estava tendo muito retorno, a Fundação não estava conseguindo se manter com os próprios recursos, né, a Fundação de São Paulo estava tendo que mantê-la, então por isso a gente acabou tendo que fechar, né, mas aí já existia, acho que há uns seis meses antes já tinha aberto, um núcleo, que na época era o núcleo da Fundação, no Caju, né, que algumas pessoas... Como tinha muito funcionário, né, quando a gente foi pra esse outro espaço, e o espaço era pequeno, não iam ser todas as crianças, uma parte desses funcionários foi para o Rio e lá eles foram montando o projeto, então como a gente não estava recebendo muito patrocínio, foi para o Caju.

 

P/1 – Lá você não chegou a participar?

 

R – Não, não cheguei a... não cheguei nem a visitar.

 

P/1 – Você sabe como é que está a comunidade hoje depois do fechamento da Gol em Niterói? Como é que... se ficou alguma coisa dessa ideia, dessa filosofia dentro da comunidade apesar da Gol ter saído?

 

R – Olha, a comunidade ela fica um pouco distante da minha casa, né? Mas, eu não tenho... eu não tive muita informação do que está sendo.. do que é que está acontecendo ali, entendeu, eu sei o que ficou no meu grupo de amigos, o meu grupo de amigos que participou da Gol de Letras, eles reproduz, tanto que a maioria foi para a área de Educação, não que seja obrigatório ir para a área de Educação, teve outros que foram ser advogados ou querem fazer outra coisa da vida, entendeu, mas eles gostam, eles pretendem, eles mostram uma pretensão de dar continuidade de alguma forma, então tem gente que trabalha e ajuda em algum tipo de projeto, em alguma creche, em algum evento, de alguma forma está ajudando, está propagando esse trabalho.

 

P/1 – Tá, isso no bairro de Niterói, mas esse da comunidade também você tem notícia?

 

R – Esse da comunidade eu não tenho notícia, não tenho, eu tenho assim, às vezes, eu encontro às vezes algumas pessoas que fizeram parte, então as pessoas chegam e falam com saudade e tal, com boas lembranças, até os meninos que foram voluntários e tal, não foi uma coisa que passou em branco porque marcou, né, a comunidade com certeza.

 

R – Anna, se você pudesse traduzir a Gol de Letra em algumas palavras, como é que você traduziria?

 

P/1 – Em algumas palavras? Ela... aí não sei, a Gol de Letra me ajudou a... me ajudou a ser o que eu sou hoje, entendeu, porque, de repente, se eu não tivesse conhecido a Gol de Letra, com certeza a minha vida seria diferente, mas assim, ela me ajudou a ser uma pessoa melhor, ser uma pessoa que ela olha pra pessoa, pras outras, né, com interesse, entendeu, com solidariedade. Eu não vejo ninguém... eu sou muito humana, assim, com meus alunos, com todos assim, eu vejo muito o que está atrás da pessoa, eu vejo muito assim... antes de ver a reação dela, como a pessoa age, né, eu vejo muito o que ela... como ela.. assim, o que está por atrás dela, entendeu, pra não julgar, eu procuro entender primeiro para depois tirar alguma lição, ter alguma... julgamento, alguma coisa daquela pessoa, né, mas primeiro eu tento entender. Eu sei que... eu acho que eu sou mais humana, que eu sou mais assim... é isso. E ela é... ela foi uma instituição que marcou a vida dos jovens de forma positiva nesse aspecto.

 

R – Se você conseguisse apreender um valor que você não tinha e que a Gol de Letra fez você adquirir, qual seria esse valor?

 

P/1 – Que eu não tinha? Ai gente... não sei, eu acho que... eu acho que é isso mesmo é você... que eu não tinha, é você não ver a pessoa só pela capa, entendeu, é você olhar dentro e tentar entender o que a pessoa está passando, o que a pessoa está vivendo pra depois você tirar alguma conclusão daquilo, não você julgar a pessoa só pela capa que ela tem, entendeu, é isso.

 

P/1 – Se você pudesse imaginar o futuro, porque a gente chegou a dez anos de Gol de Letra, né, e você viveu bastante tempo aqui do Rio com a Gol, como é que você vê o futuro da Gol de Letra aqui no Rio?

 

R – Olha, eu não sei muito do que está acontecendo no Caju, mas eu acho que é um futuro próspero assim porque ela fez um trabalho muito legal em Itaipu que marcou muito, ela não está mais lá, mas o trabalho dela com certeza está sendo difundido de maneiras diferentes, mas está, ficou, tanto que eu estou aqui, eu já saí da Fundação tem dois anos, né, e aí eu ainda tenho muita recordação boa e muitas coisas que ela trouxe pra mim, e eu acho que o futuro é esse, entendeu, que é deixar mais jovens transformados dessa assim... muda... transformados nessa maneira, nessa perspectiva, nessa a visão que eu tenho.

 

P/1 – Deixa eu te fazer uma pergunta, vou pedir pra você fazer um exercício de abstração, se você pudesse traduzir a Gol de Letra em uma figura ou em uma imagem, que imagem seria essa?

 

R – Ai meu Deus! Que imagem? Eu acho que seria aquela imagem de duas mãos assim, entendeu, como se fosse uma corrente, não tem? Como se a pessoa estivesse apertando a mão da outra? Eu acho que essa seria a imagem da Gol de Letra na minha cabeça.

 

P/1 – E você falou que você está fazendo faculdade de Pedagogia, você está fazendo aonde?

 

R – Na UFF [Universidade Federal Fluminense], entendeu?

 

P/1 – Eu queria te fazer algumas perguntas já pra ir finalizando. Qual é o seu sonho hoje?

 

R – Meu sonho, né? O meu sonho é eu me formar e conseguir, né, ser uma educadora que não multiplique esse modelo das escolas atuais, eu quero ser uma educadora diferente, entendeu, não quero ser como todas, eu quero ser como aquilo que eu aprendi na Gol de Letra, é pra isso que eu fiz Pedagogia, é pra isso que eu estou fazendo Pedagogia. Se não for pra fazer... pra atuar assim, eu não quero fazer, entendeu, porque eu acho que essa atividade é uma atividade muito importante, né, a educação, então tem quer bem feita. E eu entendo que seja bem feita como... o modelo da fundação seria uma coisa bem feita. Então, o meu sonho é me formar uma profissional desse tipo, entendeu?

 

P/1 – Tem alguma coisa que você gostaria de deixar registrado, assim que nós não perguntamos?

 

R – Não, eu acho que vocês perguntaram tudo (risos).

 

P/1 – Deixa eu te fazer mais uma outra pergunta. Pra você qual era a importância de um trabalho como esse de se registrar a memória da Gol de Letra? Qual que é a importância disso?

 

R – A importância é fazer com que aqueles que têm condição de poder patrocinar a Fundação Gol de Letra, conheçam o trabalho a fundo, entendeu, conheçam assim não só a proposta porque quando você monta um projeto você tem uma proposta, mas conheça os resultados. Então, eu acho que isso é importante.

 

P/1 – E o que é que você achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Eu achei bacana porque a Fundação fez tanta coisa por mim, me motivou a fazer tantas coisas que quando ele me chamou eu falei “Não...”, eu topei na hora porque, assim, a gente não pode fazer muita coisa pra retribuir e é uma forma de retribuição, entendeu, de tudo o que ela fez.

 

P/1 – Eu queria agradecer em nome da Gol de Letra e em nosso nome do Museu da Pessoa. Muito obrigada.

 

R – Obrigada.

 

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