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História

Educação que abre novos caminhos

História de: Cintia Cardoso da Silva de Vasconcelos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/03/2009

Sinopse

Cíntia cresceu cercada de tios e primos em um terreno íngreme que abrigava a sua casa e de outros membros da família. Brincava no barro, e na rua. Seu pai a incentivou a ler e ela realizou o sonho de ser professora, no interior do Rio. Conta como promove a autoestima dos alunos, respeitando os seus sonhos e desejos. Na sala de aula, valoriza o trabalho no campo, comum na região, mas luta para se adaptar às novas tecnologias, mesmo em escolas sem espaço para abrigar computadores. 

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História completa

P/1 – Diga o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Cíntia Cardoso da Silva de Vasconcelos. Eu nasci em Paulo de Frontin, uma cidade vizinha à Cidade de Vassouras, onde eu moro atualmente. Esqueci a outra pergunta.

 

P/2 – A data.

 

R – A data de nascimento. Eu nasci em janeiro, no dia doze de 1978.

 

P/1 – Qual a origem da sua família?

 

R – A minha família é da região, não exatamente de Vassouras, é de Paulo de Frontin que, na verdade, pertencia à Vassouras. Vassouras era grande demais na época do plantio do café e pegava muitas regiões. Depois que as cidades foram se tornando independentes – digamos assim – passou a ter Paulo de Frontin.

 

P/1 – Você teve contato com algum dos seus avós?

 

R – Tenho os meus avós paternos, são vivos até hoje, e a minha avó materna. O único que não conheci foi meu avô materno, morreu antes de eu nascer. Mas os meus avós foram bem presentes na minha vida, a gente morava no mesmo terreno. A minha mãe mora até hoje no mesmo terreno deles, toda semana a gente está se vendo. É uma coisa bem legal.

 

P/1 – Onde é esse terreno? Como é?

 

R – É bem interessante, porque até umas fotos que eu trouxe quando eu estava pequena, estavam uns primos meu juntos. A gente cresceu praticamente junto, na mesma idade. O terreno é um pouco íngreme, minha avó mora embaixo, tinha a minha casa, tinha uma outra casa e uma outra casa do lado. Então todo mundo no mesmo terreno, a gente brincava junto, andava na rua, que era muito mais tranquilo. Era uma coisa bem gostosa, bem diferente de hoje em dia.

 

P/2 – Vocês brincavam do quê?

 

R – Vixe, a gente brincava de muita coisa. Mas uma coisa que me lembro muito é essa questão do terreno ser íngreme. Criança se distrai com muita coisa. Eu lembro uma vez que a minha avó desmontou um colchão de mola e botou as molas na cerca. A gente achou muito legal. Pegou as molas, botou no pé, em cada sapato, e a gente brincava o dia inteiro de subir e descer o terreno com o pé de mola. Subindo, quicando, para parecer algo muito espacial. Era uma coisa que marcava muito. A gente brincava de barro, aquele vermelho tipo argila, a gente vivia brincando daquilo. Eram brincadeiras de criança, bem saudáveis, bem gostoso. Nossa eu sinto muita falta dessa época. Coisa que meu filho não tem hoje em dia. Não sei se é pelo tipo de criação, eu o protejo muito mais do que minha mãe protegia a mim. As brincadeiras dele são completamente diferentes das minhas. Às vezes eu fico falando: "Ai, João Pedro, vamos arrumar uma árvore para a gente subir, vamos brincar de barro" "Ah não, mãe, eu quero brincar no computador. Deixa eu ver não sei o que na internet." Mas eu ainda tento trazer para esse lado de brincadeira de criança, de rua.

 

P/1 – A gente estava falando da sua época no terreno.

 

R – Você perguntou quem era o cozinheiro da época. Isso me fez lembrar, porque toda criança brinca de fazer comidinha, não tem quem não brinque. Pega a latinha velha de alguma coisa, pega arroz, faz o foguinho com um negócio lá e bota fogo. E uma coisa agora, é interessante como vai puxando, a gente vai lembrando um monte de coisas. Eu lembro uma vez que nós fizemos um arroz, colocamos leite em pó nele. Ficou um troço muito horrível, mas era o seguinte, se fizesse, todo mundo tinha que comer. Essa era a regra, independente de como ficasse ou não. Eu lembro que era uma cara feia, a gente tinha que comer aquele arroz com leite em pó, depois deu dor de barriga. Por isso nós paramos de fazer experiências e passamos a fazer só as coisas que a gente via as mães fazendo. Sempre tinha experiência com alguma coisa.

 

P/2 – Cíntia, seus avós eles eram cariocas?

 

R – Não, eles são da região lá de Vassouras mesmo, de Paulo de Frontin, do interior do estado.

 

P/2 – Todos brasileiros?

 

R – Sim.

 

P/2 – O que sua avó e sua mãe, cozinhavam?

 

R – Em relação à cozinha, quando a gente fala de comida eu me lembro muito dos grandes almoços que a gente tinha no dia primeiro de janeiro, que é o aniversário da minha avó até hoje. Quando você fala de comida, a primeira coisa que eu lembro é isso: mesa grande. Todos os filhos se reúnem até hoje para comemorar o aniversário. Então a gente aproveita e come, cada filho leva o seu prato – vamos dizer assim – mais especial. Tem tutu com molho de linguiça por cima com cebola, a gente come aquilo. Tem a carne assada com a farofa. Então tem um prato específico. E a minha avó nesse dia não cozinhava, não fazia nada. Elas a botavam lá como aniversariante. A minha mãe cozinhava, confesso que o que eu mais lembro é das verduras e dos legumes que ela me obrigava a comer. Porque era aquela questão que eu não me alimentava direito. Eu me lembro da minha mãe sentada do meu lado com um chinelo na mão. Não comia, eu apanhava por causa disso. Um lado bom, quer dizer, é o aniversário da minha avó. Por outro lado, marca as questões com legumes e verduras que eu tinha que comer. Uma coisa que a gente observa muito quando é criança, a gente fala assim: "Ah, minha mãe me obriga a comer, minha mãe é ruim." E quando a gente cresce, a gente passa a fazer a mesma coisa com os filhos. Porque eu faço isso com o meu filho, não com o chinelo, mas eu o obrigo a comer a verdura e o legume. "Ah, coma porque é importante, é bom para a saúde. Vamos comer sim. Botei no prato, você tem que comer." A gente carrega muito essas questões de família com a gente.

 

P/1 – Tinham muitas festas de família?

 

R – Não, é mais específico em datas. No aniversário da minha avó, no Dia das Mães, Dia dos Pais. Porque eles moravam longe, ninguém morava lá perto dela. Eles tinham a vida deles, só se reuniam mesmo em datas assim. Até hoje se reúnem em datas importantes.

 

P/2 – Essa casa do quintal era próxima à cidade ou era afastada?

 

R – Não era afastada, mas também não era tão próxima. Deve ter uns oito quilômetros? Mas é cidade do interior, tudo muito calmo. Hoje em dia é que não está, mas na época era, vinte anos atrás. A maioria das ruas era estrada de chão, depois que foi botar o paralelepípedo. Vassouras, a maioria das estradas eram de paralelepípedo, não tem muito asfalto. É bem calmo. Dava para a gente ir a pé ao centro e voltar em meia hora. Tranquilo.

 

P/2 – E vocês iam para o centro?

 

R – A pé. ______

 

P/2 – Como era? O que vocês iam fazer lá?

 

R – No centro fica o jardim principal, onde fica o lugar de entretenimento da cidade. É um jardim onde criança vai brincar, os namorados vão namorar. Tem a sorveteria ali do lado. É a pracinha do interior da cidade mesmo, onde todos se reúnem para encontrar o outro, para encontrar o amigo. Até hoje ainda é assim, a praça é o ponto principal da cidade.

 

P/1 – O que os seus pais faziam naquela época?

 

R – O meu pai sempre trabalhou de forma autônoma. Ele foi caminhoneiro, foi pedreiro. E minha mãe sempre cuidou da gente em casa, nunca trabalhou fora. Somos duas em casa, eu e minha irmã.

P/1 – Quem era a autoridade da casa?

 

R – A autoridade da casa é relativo. Porque tem o pai que manda e que obedece, e a mãe que bate. Eu fui filha única durante seis anos. Muito mimada, o meu pai fazia todos os meus caprichos. Eu respeitava a minha mãe porque ela me batia, e tinha o lado do meu pai que era a questão do xodó. Lembro que eu apanhava muito, porque ela me batia, e eu falava: "Quando meu pai chegar eu vou contar para ele." Ela me batia mais ainda. Até que eu aprendi que eu não podia falar isso, podia até pensar, mas não podia falar. Então autoridade dividia um pouco.

 

P/1 – Quando vieram os irmãos, como foi?

 

R – Só tenho uma irmã, foi seis anos depois. Aquela questão assim: "Pronto, perdi meu trono, e agora o que é que vai ser? Todo mundo vai olhar mais a ela do que a mim." Mas eles tiveram o cuidado de dividir bastante a atenção. Pelo meu pai minha mãe tinha mais filhos, mas ela não quis. Só duas está bom, dá para criar. A única que tem muitos filhos é a minha avó, ela teve oito. Os filhos dela tem um, dois, três no máximo. Uma família que não cresceu muito com relação a filhos, não.

 

P/2 – Como chama a sua irmã?

 

R – Aline. As pessoas dizem que a gente se parece um pouco. Isso, de certa forma, há algum tempo até incomodava a gente: "Não, parece nada." Aquela coisa de irmã: "Não, você é diferente de mim." Mas hoje a gente está: "É, parece um pouquinho, sim, se a gente observar." Já está aceita essa questão.

 

P/2 – Vocês dividiam o quarto, quando ela chegou, como foi essa infância com a irmã?

 

R – Gente, a gente tinha que dividir tudo. É interessante você ter um irmão, porque você passa a dividir as coisas. No meu caso, tudo era só para mim e tinha que dividir agora com alguém. Isso foi importante, porque quando a gente cresce, observa que nem tudo é para a gente. Tem que dividir com o outro. Quando você casa, divide com o marido, quando vem o filho, você se divide mais ainda. Você vai para o trabalho, divide tudo. A gente sempre dividiu muito, mas é interessante porque essa diferença de seis anos de idade era muito forte. Enquanto eu tinha as minhas brincadeiras, os meus brinquedos, ela tinha outros. Até aquela coisa de cuidado: "Ah, cuidado com a minha boneca. Cuidado com isso, eu não vou te emprestar porque você vai quebrar." Mas depois: "Ah, é irmã; toma, quebra, brinca." Não adiantava. Por um momento eu fui resistente, mas depois: "Ah, toma, brinca, fica para você." A gente vai crescendo, vai passando a ter outros interesses.

 

P/1 – Você lembra alguma história na infância que te marcou muito?

 

R – Relacionada a ela?

 

P/1 – É.

 

R – Eu lembro que quando eu estava com ela no colo eu a deixei cair por duas vezes. Eu estava com ela, segurando, abraçando assim e andando. Eu tropecei e na hora que eu ia cair com ela, eu ia soltar. Ao invés de soltar eu segurei e me virei de lado para não deixar ela bater com a cabeça no chão. Na outra vez eu escorreguei. - sempre carregando ela no colo (risos) - mas aquela coisa de tentar proteger ela aqui, em cima do colo da gente para não machucar. Porque eu sabia, primeiro, que eu ia apanhar se eu machucasse a minha irmã mais nova e, segundo, pela questão de proteção. Até hoje, ela tem 24 anos, ainda a vejo muito como menina. Não a vejo como uma mulher de 24 anos. Ainda vai ser minha irmã nova, menininha, que a gente vai proteger.

 

P/2 – Cíntia, você começou a aprender a ler em casa? Como foi? Na sua casa você tinha algum contato?

 

R – Eu tinha contato com leitura. Ensinar a ler e escrever, a minha mãe não pegava para ensinar a gente, não. Mas meu pai sempre gostou muito de ler. Eu observava a noite, antes do jornal, que toda a família se sentava para assistir, ele tinha os livros dele. E aquela coisa de sentar: "Deixa eu ver como é que é a escrita." Não tinha figuras, vamos folhear junto. A leitura sempre foi muito presente na minha vida através do meu pai. Ele sempre leu muito, e isso vai incentivando.

 

P/1 – Lia histórias para vocês?

 

R – Ele não lia histórias infantis, não. Era mais específica dele. Ou então quando ele ia a algum lugar e achava algum livro interessante para mim, ele comprava e trazia. Ele ou lia uma vez, ou a gente ficava vendo as figuras e ele sempre falava: "Ó, vai à escola, presta atenção. Quando você voltar eu quero ver você lendo essa história para mim." Não tinha aquilo de você sentar e ler com a família. Era uma leitura que ele tinha dele. E aquilo chamava a atenção porque eu ficava: "Poxa, por que é que meu pai está lendo tanto aquilo? Deve ser uma coisa muito interessante. Porque parar antes do jornal para estar lendo." Às vezes mostrava uma coisa ou outra, mas era uma leitura mais adulta. Na maioria das vezes não entendia muito, e ele continuava lendo.

 

P/1 – Qual foi sua primeira escola?

 

R – É muito interessante, a minha primeira escola é onde eu trabalho hoje. Trabalho em uma escola do Estado, que é perto da minha casa. Era uma escola bem simplesinha, com chão de terra. A escola estava velhinha. As telas em volta estavam meio que caindo, bem velhinha. É uma escola que marca bastante porque é a primeira escola, aquela questão de você estar chegando, estar separando da sua mãe, da sua família. As outras pessoas a sua frente que você não conhece. Eu lembro que eu acho que eu chorei um bocado para ficar na escola, mas eu tenho muito carinho. Quando eu chego para dar aula a primeira coisa: eu me apresento aos alunos, e falo: "Essa escola é... Eu tenho um carinho por ela, por ser a escola onde eu estudei." Depois destruíram o prédio, construíram outro, porque estava bem velhinho, não tinha condições de continuar do jeito que estava. Eu trabalho com ex-professoras minhas. Elas olham para mim: "Nossa, eu estou ficando velha, porque você está minha colega de trabalho. Você era minha aluna." Mas é legal trabalhar com quem fez parte do seu passado.

 

P/1 – Era muita criança nessa escola? Era grande?

 

R – Era. Eu não tenho idéia de quantos alunos eram, mas era bastante gente. Era uma escola que tinha mais ou menos uns três prédios térreos. Pegava toda a criançada do bairro em volta. Todo mundo ia estudar lá. É uma escola ainda de nome em Vassouras. Todo mundo conhece a Escola Estadual Centenário, ou ouviu falar, ou esteve lá, por ser uma escola antiga, alguém sempre passou por lá.

 

P/1 – Mas era em Vassouras?

 

R – É, em Vassouras.

 

P/1 – Então era longe da sua casa.

 

R – Não, quando a gente fala Vassouras, eu falo Vassouras no geral. É no bairro da minha casa. No caso, da casa da minha mãe, que eu não moro mais no bairro que eu fui criada, mas é o bairro da minha mãe até hoje.

 

P/1 – Você ia sozinha para a escola?

 

R – Não (risos), minha mãe levava. Nunca que a gente ia sozinha para a escola. Eu passei a ir sozinha para a escola acho que na quarta série. Meu pai não ia deixar a gente ir sozinha para a escola. Minha mãe levava, minha mãe buscava, ou então combinava assim: moravam perto, então uma mãe ia, buscava três, quatro juntas. Um outro dia, ia outra mãe, buscava as mesmas crianças. Fazia tipo um rodízio para pegar as crianças.

 

P/2 – Vocês usavam uniforme?

 

R – Tinha uniforme, está na foto com a sainha, aquela coisinha maravilhosa (risos) que a gente tinha. Tinha uniforme direitinho e era cobrado na escola como identificação do aluno, como identificação da escola. Aquela sainha então, nossa.

 

P/1 – Algum professor te marcou naquele período?

 

R – Eu tenho uma professora que me marcou porque ela foi minha alfabetizadora. Ela deu aula para a gente durante três anos. Alfabetizou e ficou com a gente mais dois anos ainda. Dona Elza o nome dela, já faleceu. A gente a olhava, sabe, como: "Ah, nossa professora." Ela era muito vaidosa. Chegava no final da aula, ela se arrumava, penteava o cabelo, passava o batom, aquela coisa toda. E as menininhas ficavam olhando: "Ah, a minha tia”. Ela marcou por isso: por ser alfabetizadora, e por fazer parte da vida da gente durante bastante tempo. Ela conversava muito, várias coisas.

 

P/2 – Cíntia, o que você gostava de fazer na escola? O que é que você lembra que era uma curtição?

 

R – Uma coisa que a gente gostava na hora do recreio era de brincar de elástico. Sabe aquela coisa que a gente estica o elástico, as meninas ficam em pé e a gente fica pulando, fica fazendo desafios. De corda, a gente brincava bastante. Brincadeiras desse tipo. Não tinha muitas coisas, porque era uma escola que não tinha muitos recursos, até mesmo estrutura física. Então a gente buscava alternativas de como brincar. O elástico – eu lembro assim – foi uma geração toda que brincava com aquilo.

 

P/2 – Você comia na escola?

 

R – Comia quando agradava (risos). Porque nem sempre a gente comia. A gente olhava a comida, se achava que era legal, principalmente quando não tinha o legume nem a verdura, eu comia. Mas era muito gostosa. Eu me lembro da comida até hoje. Eu estou fazendo um trabalho com os meus alunos de História, e nós falamos um pouco sobre a nossa escola como era antigamente. Eles perguntavam um monte de coisas. Uma das questões era: "Era verdade que não tinha merenda? Vocês ficavam com fome aqui?" Assim: "Gente, é claro que não, tinha merenda igual vocês tem." Não é porque é há vinte anos, ou quem estudou antes, há trinta anos, que vai ser tão diferente. A estrutura de alimentação, de recreio, das aulas, continua a mesma. Eles: "Ah, nós pensávamos que vocês ficavam sem merenda." Eu falei: "Não ficava sem merenda, não."

 

P/1 – E como era, tinha o cozinheiro? Você se lembra disso?

 

R – Eu me lembro da cozinheira, era uma senhora bem gordinha. A filha dela trabalha na escola hoje também como cozinheira. Eu me lembro de uma cozinheira específica, não lembro o nome dela agora. Mas como se fosse a família toda que trabalhava na escola. O filho dela trabalhava, o esposo dela trabalhou na escola durante bastante tempo. Eu me lembro dele, o seu Eduardo, que era o porteiro e o faz tudo da escola. Tinha uma sala que ficava bem do lado da cozinha. Quando ela ia preparando a merenda, que chegava a hora, e que aquele cheiro ia, a criança fazia: "Ih, será que é de merenda? Será que é de merenda?" Para chegar o recreio e ver logo o que é que era. A maioria sempre comia na escola.

 

P/2 – O que tinha de comida?

 

R – Uma coisa de que eu gostava muito que eles faziam, a carne moída tinha um tempero magnífico. Eu não consegui ainda comer outra carne moída igual àquela. Não sei o que ela fazia. Às vezes, eu como uma, falo assim: "Ah, lembra quando eu comia na escola, mas não chega a ser igual, não." Isso é um gosto que fica na mente da gente.

 

P/1 – Você era aplicada nos estudos?

 

R – Ixe, demais (risos). Como eles chamam hoje de CDF [Cabeça de Ferro]. Sempre fui muito estudiosa, de caderno direitinho, de fazer os exercícios, de estudar para tirar as melhores notas, de não fazer bagunça nunca. Tem hora que eu penso: "Poxa, eu podia ter bagunçado mais, podia ter relaxado mais." Mas sempre fui muito certinha, porque meu pai sempre cobrou muito isso da gente. Ele sempre falava: "Vocês não fazem nada em casa, vocês não trabalham, então vocês tem que estudar e tirar boas notas."

 

P/2 – Quando você voltava para casa da escola, o que você fazia? Tinha uma rotina?

 

R – Deixa eu lembrar, mais ou menos assim, depende muito da idade. Eu estou falando disso tudo com relação até os meus dez anos de idade, que foi a época que eu estudei nessa escola. Eu lembro que a gente chegava, tinha exercício para fazer. Eu estudava de manhã, minha mãe me colocava para dormir à tarde. Porque tinha aquela questão de que ainda dorme à tarde. Depois ajudava em uma ou outra tarefa. Brincava com a minha irmã. Eram coisas bem simples.

 

P/2 – Quais tarefas sua mãe te pedia?

 

R – Recolher o lixo, varrer o quintal. Conforme fui crescendo as atividades foram mais complexas, mas coisas bem simples: "Recolhe o lixo, bota lá fora, varre o quintal. Tem alguma coisa fora do lugar, coloca." Principalmente os brinquedos da gente para não ficar jogado pela casa: "Arruma o quarto, arruma a caixa de brinquedos." Coisa de organização.

 

P/1 – Você conversava muito com a sua mãe, ou eram de poucas palavras?

 

R – A minha mãe sempre gostou muito de conversar, mas eu sempre fui muito quieta, nunca fui de falar muito. Aprendi a ser mais falante depois que eu me tornei professora. Falar de mim é muito difícil. Eu falo do que eu faço, do que eu já fui. Agora, falar de mim é difícil à beça. Poucas pessoas me conhecem tão bem, são pouquíssimas mesmo. Porque eu falo do meu trabalho, eu falo do que eu gosto, do que eu sei fazer diariamente. Quando a gente pergunta assim: "Ah, você tinha muita conversa em casa?" Minha mãe até que tentava conversar mais, mas era meu mesmo, não conversava muito. Sempre fui muito de observar e construir os meus conceitos. Hoje, agora, está falante, fica quieta um pouco senão as pessoas ficam: "Calma, não fala tanto. Você fala rápido demais." Porque a profissão exige isso, que seja comunicativa. Querer ser professor, chegar lá na frente e ficar falando baixinho, tímido, não dá certo. Você tem que falar mesmo.

 

P/1 – O que você gostava de estudar? Você disse que era aplicada nos estudos.

 

R – Ai, eu estudava tudo, não tinha uma matéria específica. Acho que eu gostava de estudar tudo. Eu sempre gostei muito da área de, na época, era Estudos Sociais, hoje é História. Sou formada em História. Desde o antigo primário, como se chamava, eu sempre gostei muito das Histórias.

 

P/2 – Depois dessa escola, você foi para onde?

 

R – Essa escola teve que ser derrubada para poder construir uma outra, e nós fomos estudar em uma escola mais longe. Foi aí eu passei a ir sozinha, porque também não dava para a minha mãe ir e voltar. E eu estava “grandinha”, mamãe levar... É aquela idade que a gente: "Não, sou independente. Minha mãe não precisa andar atrás de mim." Eu lembro que, no primeiro dia de aula, a minha mãe foi comigo. A gente usava o ônibus porque era um pouco distante. A minha mãe foi mostrando: "Ó, você sobe aqui, você presta atenção ali. Você desce aqui. Você anda por tal lugar, presta atenção nisso assim." Porque eu fui estudar em uma escola do centro. Lá eu fiquei até me formar no ensino médio.

 

P/1 – Como foi ir sozinha?

 

R – Nossa, no primeiro dia com a minha mãe aquela coisa, você está um pouco mais seguro. No segundo dia que eu fui sozinha, olhei aquela montoeira de gente que eu não conhecia; você começa a se aproximar daquelas pessoas que você conhece, que eram parte da minha turma e que continuava junto. Você vai se achegando um ao outro, tentando buscar algum local de apoio. Depois você começa a marcar: “Você vai de ônibus? Você vem com qual ônibus? Qual horário você vai?" para procurar. "Vamos no mesmo ônibus, tem que passar pela sua casa?" Mas foi muito desafiador chegar, porque a minha escola não era muito grande, mas também não era pequena. Todo mundo se conhecia. A diretora conhecia a mãe do Fulano. Se aprontasse alguma coisa todo mundo conhecia. E você vai para uma outra estrutura, onde você não conhece ninguém, ninguém te conhece. Lá você faz parte de um todo. Você não é alguém em particular, lá você é o todo. Na outra escola não, você tinha uma identidade, todo mundo te conhecia. Nessa outra escola, todo mundo querendo mostrar espaço, meio assustado. Porque tem aquela questão das pessoas falarem: "Ah, vocês estão vindo daquela escola que foi derrubada, da escola velha." Quando eles falavam com relação à nossa escola, a gente ficava um pouco chateado, mas não tinha como reagir, porque era muita gente. A gente ficava quietinha ouvindo, quietinha no canto lá, como se fosse um protegendo o outro, mas depois passou. Foi mais ou menos um ano assim. Depois de um ano a gente se sentiu integrante daquele grupo.

 

P/1 – Mas como foi que chegou essa notícia de que a escola ia ser derrubada?

 

R – Eles fizeram reunião, porque a escola, realmente, estava velhinha. Tinha rachadura no prédio, correu o risco do teto cair. A comunidade local não queria que a escola fosse demolida, queria que reformasse. Porém, não tinha como reformar. Ninguém queria aceitar. Mas veio a Coordenadoria do Estado, explicou, falou que eles iam construir logo em seguida, coisa que não aconteceu. A escola foi construída um ano depois. Quase que não se constrói essa nova escola. Foi uma resistência, porque é um ponto marcante da comunidade. Então a escola tinha que sair de alguma forma. Mas houve resistência, eles não queriam perder ela desse jeito, não.

 

P/2 – Nessa nova escola você era jovenzinha?

 

R – Já estava adolescente. Começava aquelas questões do menininho olhar, você olhava para o outro, tinha as paqueras. No entanto, eu sempre fui muito tímida, muito quieta. Enquanto as minhas amigas estavam se preocupando em passar batom, arrumar isso, ou ir com a calça mais justa, eu ficava olhando para elas assim: "Ah, não é isso. Não está na minha hora ainda. Vou estudar, não quero isso para mim." "Ah, você é uma boba." "Ah, não está na hora ainda, não."

 

P/2 – Você teve alguém se aproximando?

 

R – Eu tive. Engraçado paixão de infância. Desde a época da minha escola antiga, do Centenário, a gente tinha uma paquerinha com outro menino. E ele desceu para essa nova escola junto com a gente. Eu sempre falo desceu porque é mais ou menos assim, geograficamente, a escola fica mais alta, em um bairro mais alto e a outra fica mais embaixo, porque Vassouras fica em um vale. A gente costuma falar até em um buraco. Ou se você mora nesse vale ou você vai morar mais na parte de cima. E todo mundo tinha aquela coisa: "Não se aproxima porque a Cíntia é namoradinha do Fulano." Mas a gente negava até o fim: "Não, ninguém é namorado de ninguém." Mas aquela coisa de chegar próximo, de pegar na mão, porque na época era assim. Namoro bem de criança de pegar na mão, de dar beijinho no rosto. Hoje que é diferente. É interessante até hoje, a gente se conhece, mas nunca deu um beijo, nunca fez um nada. É aquela coisa de criança mesmo: "Você é minha namorada, eu sou seu namorado e, de nome." E isso bastava.

 

P/2 – Você lembra a sensação?

 

R – Ah, era uma sensação muito gostosa. Por um lado eu tinha muita vergonha quando alguém falava: "Ah, você é namorada do Fulano." Eu: "Não, não sou, não." E brigava. Teve uma vez que ele escreveu o meu nome no caderno dele. Eu olhava aquilo: "Apaga isso." Ele: "Não vou apagar, não." "Você apaga, sim." Até que eu briguei, catei o caderno e apaguei. Mas por dentro você ficava: "Oba, ele escreveu o nome no caderno." Por outro lado você não queria admitir de jeito nenhum. Porque eu fiquei pensando: "Gente, o meu pai vai descobrir. Já pensou meu pai descobrindo que eu estou namorando na escola?” Isso ia dar um rolo danado. Mas a gente vai crescendo. Ele mudou de escola, seguiu a vida dele. Eu segui a minha. Hoje a gente se encontra, conversa algumas coisas e fica legal.

 

P/1 – O seu cotidiano mudou com ida para a escola mais longe?

 

R – Sim.

 

P/1 – Ficava menos tempo para brincar, como é que era?

 

R – Até porque a gente ia crescendo, não brincava tanto mais. O horário de estudar era diferente, nessa nova escola eu estudava à tarde. Tinha que acordar cedo para estudar, fazer alguma atividade de casa, ajudar minha mãe. E logo pegar um ônibus para ir. Mudou com relação a isso. Quando voltava à tarde, era hora de tomar o banho, de preparar alguma coisa, jantar e ir dormir. A gente sempre tinha o horário de ir dormir, porque não podia ficar acordado até tarde, criança. Eu sempre fui muito dorminhoca. Até hoje, dá o horário direitinho, fico igual criança, fico enjoada, tenho que dormir.

 

P/2 – Na cidade tinha coisas funcionando à noite ou toda a cidade era assim? Você se lembra?

 

R – Não tinha tanta coisa funcionando. Hoje tem uma parte da cidade onde tem a universidade, que é onde ficam os estudantes até altas horas da noite. Barzinho funciona de segunda a sexta, porque os estudantes estão ali de segunda a sexta. Sábado e domingo você vai lá parece um deserto. No domingo você passa na rua, hoje em dia mesmo, você escuta até o barulhinho do vento, porque não tem ninguém na cidade. Então não me lembro da noite da cidade. Eu me lembro dos dias. Minha mãe sempre levava a gente no jardim, nessa praça, para a gente brincar aos domingos. E sempre ali em volta da praça do jardim, que é o local de encontro.

 

P/2 – Nessa época você já pensava no que você queria fazer? Você tinha algum sonho?

 

R – Ah, eu sempre quis ser professora. Sempre, desde que eu me entendo por gente. A gente se reunia com os primos para brincar, tinha a escolinha, tinha diário, a gente tinha exercício, tinha prova. Os primos pequenos que sofriam, porque eles eram os alunos, a gente os obrigava a serem os alunos e a fazer os exercícios. Eles queriam brincar junto com a gente. Aquela coisa do maior, então você vai brincar do que eu quero. Sempre eu soube: "Eu quero ser professora." Ser professora de História surgiu depois. Eu tenho na minha cabeça que os professores são muito marcantes na vida dos alunos. Eu tive uma professora muito boa de História na minha escola. Então: "Eu quero seguir História." Talvez se eu não tivesse ela na minha vida, não sei se eu faria História. Poderia ir por outro caminho, mas ela marcou muito o fazer História. Eu ouvi isso ontem de uma ex-aluna minha. Nessa minha escola do Estado eu leciono tanto História quanto Geografia. Ela virou: "Cíntia, eu tive duas professoras de Geografia maravilhosas na minha vida. Uma foi..." Ela falou o nome de uma professora, "...e a outra foi você. Quando você deu aula eu falei assim: ‘Não, eu quero fazer Geografia'." Ela falou: "Eu quero fazer porque você deu aula muito bem para a gente, e eu me apaixonei pela Geografia." E eu lembrei de quando fiz História. Como os professores marcam. Você vai marcar tanto positivamente como negativamente na vida dos alunos. Eu tenho muito essa preocupação, do que a gente está ali na frente passando para eles, porque não é só conteúdo. Se fosse só conteúdo, hoje em dia na internet, o aluno abre, ele tem informação do que ele quer. Ele lê ali, ele tem um livro. A questão é como você vai formar aquela pessoa com relação ao conteúdo. Como é que você vai fazer a diferença na vida dele.

 

P/1 – Tem mais alguém que te marcou nesse período na escola?

 

R – Tinha uma professora de Ensino Religioso, Dona Alzira o nome dela. Ela sempre conversava muito aquelas coisas de, não religião em si, de religiosidade, mas de textos para conversar. A idade da adolescência. Então o cuidado com o namoro, os meninos não sei o que. E levava, a gente conversava. Aquilo era muito interessante, porque, eu ouvia, eu não falava; mas ouvia muito ela falando as experiências de vida dela, o que é que ela já tinha passado. Por um lado, eu tenho uma professora que me marca com relação a conteúdo, e por outro, tenho professoras que me marcam com relação a valores mesmo, à formação integral da pessoa.

 

P/2 – E fora da escola, tinha alguém que te marcava?

 

R – Mais velhas, que eu me lembre, que não seja da família, eu tinha amigos, amigas, vizinhas, que a gente ia crescendo junto. Aquela questão de brincar na rua, de brincar de vôlei. Chega uma hora que – pelo menos na minha cidade a gente observa que isso ainda é característico – chega uma idade, a menina vai jogar vôlei na rua. Nem que seja de dupla, jogando uma bolinha para o outro. Mas tem aquela idade dali. E eu tinha uma amiga, todo dia a gente marcava para jogar o vôlei, principalmente no verão. A gente ficava brincando até tarde na rua, era tranquilo. As outras crianças também brincavam muito disso.

 

P/1 – Tinha as festinhas de adolescente, aniversário?

 

R – Não, não me lembro de festinhas de adolescentes. Porque eu nunca tive grandes amizades, sempre tive poucas. Sempre daquelas pessoas que moravam ali a minha volta. De festinhas, a gente se lembra de final de ano, da sala, festinha de sétima, de oitava série, que sempre faz para encerrar o ano. Uma professora uma vez cedeu a casa dela para fazer festa. "Poxa, a professora está cedendo a casa dela. A gente não vai fazer festa aqui na sala de aula, com a diretora, com todo mundo de olho. Vai ser na casa dela." A gente achou isso superlegal, porque ela teve essa confiança, porque para você levar uma turma toda para a sua casa. Uma coisa é você convidar um, dois alunos para te visitar. Agora, você abrir a sua casa para uma turma de vinte e tantos adolescentes? Aquilo marcou muito a mim e a minha turma, pela confiança que ela teve. Ela comentou: "Se os pais não deixarem eu vou lá, escrevo um bilhete, a gente fala com eles". Porque foi à noite. Aquela coisa: "Nossa, na casa da professora à noite." Sabe aquela coisa meio fantasiosa que aluno tem?

 

P/2 – Quantos anos mais ou menos você tinha?

 

R – Uns treze, quatorze anos, bem pré-adolescente. Uma coisa que a gente observa que é diferente, que hoje em dias as crianças – tudo eu chamo de criança, mas eles não gostam. Os adolescentes de treze, quatorze anos estão com o pensamento muito diferente do que a gente tinha antes. O que eles pensam com treze a gente ia pensar com dezesseis, dezessete. Pelo menos eu lembro assim na minha época – falo minha época parece tão longe, mas não é, não. Mas eu gosto de falar assim: no meu tempo era muito fantasioso ainda. Tinha muito romantismo, aquela coisa de namorado, de dançar juntos. Hoje eu percebo que eles perdem muito isso. E, pelo menos, quando eu trabalho com os adolescentes da minha escola, eu converso muito a esse respeito com eles, de se valorizar. De um dia, fica com qualquer um, eles não tem. Eu falo com eles: "Vocês têm que se preservar. Tem que escolher uma pessoa com que vocês queiram realmente ficar ou não.” Eu digo: “Senão vai aparecer um cara legal..." eu falo muito com as meninas isso ". E o cara não vai querer ficar com você. Porque você já ficou com Fulano, com Fulano, com Fulano, com Fulano, você já rodou na mão de todo mundo." Às vezes, elas ficam me olhando com cara de assustadas. Eu falo: "Mas não é verdade?" Elas: "É." Eu falo muito abertamente com elas, porque coisas que elas não contam para as mães, vem contar, às vezes, para a gente. Como um desabafo, esperando ouvir alguma coisa. Porque sabe que a gente não vai brigar, a gente não vai chamar a atenção ou botar de castigo.

 

P/1 – Como foi aquela festa na casa da professora?

 

P/2 – Fiquei curiosa também.

 

R – (risos) A festa foi legal porque cada um levava um prato de salgados. Era sempre assim, típico: as meninas levavam os salgadinhos e os meninos levavam os refrigerantes. A professora rodou a casa toda com a gente, mostrou, deixou a gente super à vontade. Colocou música para dançar. O pessoal que dançava, dançava lá na frente. Eu sempre olhando muito, observando, porque as pessoas falavam: "Ah, você é muito triste, você não gosta de se divertir assim." Eu falei: "Não, cada um tem o seu jeito. Eu sentada olhando, observando, estou achando legal. Não tenho que estar lá no meio da muvuca, pulando para estar me divertindo." Depois todo mundo dançava. Para ter noção, a festa foi mais ou menos até dez horas da noite. Agora as pessoas falam: "Nossa, dez horas é a hora que a festa está começando." Mas, naquela época, para a gente ficar até dez horas da noite fora de casa, foi uma coisa bem legal. Todo mundo dançou junto, tocou musiquinha romântica, dançava musiquinha romântica. Os meninos dançavam com as meninas. Mas sabe aquela coisa bem gostosa mesmo? Sem maldade ou outra. Claro que tinha uns mais avançadinhos que pensavam em outras coisas já. Eu lembro que meu pai marcou a hora e foi me buscar, e a festa não tinha acabado ainda. Eu falava: "Ah, eu quero ficar, mas como é que eu vou falar isso para o meu pai?" Marcou, meu pai buzinou, eu fui lá: "Pai, deixa eu ficar mais um pouquinho?" "Não, porque você não vai ficar, depois como é que eu vou vir buscar você?" "Pai, deixa." Então a professora veio: "Deixa ela ficar, depois eu levo ela em casa, a gente leva." Quando a professora veio, que ele sentiu: "Poxa, eu não vou ter como dizer não. Se eu estava botando um argumento que ela não podia ficar, porque eu não podia buscar, e a professora falou: ‘Não, eu levo’." Pô, eu falei: "Oba, vou ficar mais um pouco aqui." Ele foi embora, depois a professora levou a gente em casa. Isso foi bem legal. E depois os filhos dela chegaram para participar junto com a gente, a irmã dela. Atualmente, a gente mora perto, a gente se fala.

 

P/1 – Que tipo de música se dançava?

 

P/2 – Você estava contando uma história sobre uma aluna sua, você quer contar para a gente?

 

R – Essas experiências de vida que a gente tem. Eu sempre preservei muito a questão de estudar. Acho que por eu ser muito estudiosa, não que as outras coisas não sejam importantes, mas acho que o estudo, principalmente agora, é fundamental. Ele não precisa ser, necessariamente, uma graduação, mas uma especialização que coloca você no mercado de trabalho legal. Teve uma vez que uma aluna, uma adolescente de uns dezessete anos virou para mim, falou: "Ah, Cíntia, eu vou parar de estudar." Eu falei: "Mas por que você vai parar de estudar? Você está indo bem, suas notas estão boas." "Vou parar de estudar porque eu vou casar." Eu falei: "Você vai parar de estudar porque vai casar? Por que é que você não espera o casamento um pouquinho? Ou você casa, mas continua estudando?" "Ah, não, eu vou parar." Disse: "Poxa, presta atenção, você vai largar seus estudos, sua possibilidade de ter uma profissão legal, você vai ficar dentro de casa trabalhando todos os dias." Ainda falei: "Vai ter um monte de filhos depois. Como é que você vai fazer? É isso que você quer para a sua vida?" Ela olhou para mim, muito séria, falou: "É, é isso que eu quero para a minha vida." Aquilo tocou por dentro, eu falei: "Poxa.” É a questão do respeito, por mais que eu saiba que estudar é importante, que isso vai ser bom para ela, mas tem a vontade dela ser dona de casa. Não que eu vá desmerecer, porque a minha mãe a vida toda foi dona de casa. Mas talvez por eu ter a minha profissão, trabalhar desde cedo e ver como essa independência da mulher é importante, às vezes, eu tenho que tomar cuidado para não botar os meus desejos nos desejos dos meus alunos. Mas depois ela não casou, também não voltou a estudar e trabalha na casa de um, na casa de outro, trabalha na lavoura; não tem emprego fixo. A gente sempre toma muito cuidado na comunidade onde eu trabalho, porque tem aluno que fala: "Ah, eu vou querer estudar para ser alguém na vida." Eu sempre falei: "Não, alguém na vida você já é. Então vamos mudar essa fala, vamos querer estudar para você ter uma profissão melhor." Porque como é zona rural, eles querem sair de lá para morar em outro lugar, vir para a cidade grande, conhecer Rio de Janeiro, aquele sonho que eles ainda tem. Só que eu sempre falo com eles: "Se todo mundo sair, quem é que vai morar aqui? Quem é que vai produzir para o outro? Porque se Rio de Janeiro, São Paulo, está comendo é porque alguém está no campo plantando." Eu tenho essa preocupação de estar instruindo com relação ao estudo, mas voltado também para a sua comunidade. Você pode estudar algo que você vá utilizar aqui na sua comunidade. Você pode ser um técnico agrícola. Lá eles plantam tomate, e os defensivos que eles chamam de remédios – que são os agrotóxicos – cada vez mais fortes. Tinha aluno que ia trabalhar com a mão inchada de agrotóxico, porque eles nem o equipamento que eles tem que usar, eles usavam. Então a gente procura trabalhar essa questão da conscientização. Você estuda, você busca uma alternativa melhor para a sua vida, mas você continua aqui melhorando a vida dos seus também, da sua família. Porque quando precisa de um técnico, eles contratam alguém que mora fora da comunidade deles, que não conhece o que eles estão passando ali, e é caro. São coisas que vão acontecendo que marcam a vida da gente. Uma foi a história dessa menina, dela falar: "Não, é isso que eu quero para a minha vida." E eu: "Então tá, então eu te respeito, se é isso." E outra é falar com o aluno isso: não é porque ele não tem estudo que ele não é alguém. Porque a maioria dos pais também não tem estudo. E a gente sempre fala: "Eles são pessoas tão importantes como a gente, que trabalham todos os dias, que acordam cedo. É um tipo de saber diferente.”

 

P/1 – E sua juventude, como foi? A gente falou tanto da adolescência.

 

R – Minha juventude? É porque eu lembro mais de coisas da minha infância do que da minha juventude. A minha infância foi muito mais marcante, pela presença dos primos, das brincadeiras, do que a minha juventude. Eu me lembro da juventude das festas, porque Vassouras tem festas típicas. Em maio tem a festa da Igreja Católica de Santa Rita, que é em um bairro onde eu moro atualmente. É festa que todo mundo espera para poder ir. As meninas se arrumam, botam as melhores roupas, o salto alto. Todo mundo se encontra naquele ponto ali. É uma questão até que está se perdendo, nem todo mundo está indo mais como ia antes. Mas tinha esses casos das festas que a gente ia. Marcava sempre com um grupinho de amigas, para ir todo mundo junto que morava perto; para voltar era mais fácil. Ou voltava de ônibus, ou o pai buscava: um pai de uma buscava todo mundo. Ou voltava de táxi. Não lembro muitas coisas marcantes da minha juventude, não.

 

P/1 – Por que vocês perderam o contato com os primos? Como é que foi?

 

R – Porque eles mudaram, foram para outras cidades estudar outras coisas. A gente passava a se encontrar só nos momentos de festa da família. E os interesses começaram a ficar diferentes, porque nós éramos quatro primos da mesma idade. Uma prima que tem a minha idade, começou a se interessar por namoro muito antes do que eu. Então, o interesse dela era diferente do nosso. Enquanto, com dezesseis, dezessete anos, a gente ainda estava brincando de algumas coisas – claro que a brincadeira era diferente, não era mais a mola que a gente botava no pé para subir, ou descer o terreno. Ela estava preocupada porque tinha marcado com o namorado, não sei o que de chegar lá. A gente ficava muito pê da vida com ela. Porque nós éramos quatro, então se fizesse dupla, como é que ia fazer? Ia desfalcar alguém? Alguém ia ter que ficar do lado de fora para brincar? A gente não tinha muita paciência com relação a isso, não. Foi distanciando por causa disso: morava, passou a morar longe e interesses diferentes.

 

P/2 – E a festa como que era? A Rita, desculpa (risos), a festa de Santa Rita?

 

R – Eu acho muito interessante as festas em Vassouras porque é mais ou menos assim: tem os shows que são mais tarde. Mas o importante da festa era passear pela rua, andar de um lado para o outro. Porque andando você estava olhando tudo o que estava acontecendo, e todo mundo estava te olhando andar na rua. Às vezes a gente andava aquilo, chegava um ponto: "Ah, não, não aguento mais andar, agora vamos ficar parado”. Olhando quem está andando, mas sempre tem alguém andando. As pessoas formam grupinhos parados, quando cansam de andar e tem as pessoas que ficam rodando. Hoje em dia, a festa caiu muito de público, de como era antes. O bairro fecha as ruas para o dia da festa. Vão barraqueiros de todas as regiões para botar as coisas para vender. Só que agora está bem menor. Quem viu como era antes e viu como está, sente essa diferença.

 

P/2 – Você lembra alguma específica, de algum ano que você foi, alguma história dessa festa?

 

R – Não, dessa festa não lembro em específico, não. Tem festa por demais, eu me lembro de específicos, mas em outro tipo de situação. Quando eu levo meu filho a essa festa. Eu ia solteira, meu marido ia solteiro. A gente não conhecia, mas todo mundo ia na festa. E hoje a gente leva o nosso filho para brincar. Então tem a questão dos brinquedos que tinha na época, que tem agora também, de estar andando nas barracas para poder ver as coisas. Com menos paciência do que a gente tinha antes, porque antes era interessante andar pela festa. Hoje a gente não acha tão interessante mais. Acho que só essa questão mesmo.  Não me lembro de nenhum ponto específico da festa, não.

 

P/2 – Você falou que tinha outras também? Festas típicas.

 

R – Tem encontro de Folias de Reis, na minha cidade tem bastante. Tem o dia que todas as Folias se encontram. Também não vai muita gente, vai quem está envolvido nisso para ver, para assistir, quem gosta. Na verdade, Vassouras não tem lá muitos atrativos. É uma cidade que ficou meio que perdida no tempo, no período cafeeiro ainda. Não conseguiu progredir muito. O que tem: a gente passeia pelo Centro Histórico. Hoje as festas que tem: tem o Festival Vale do Café, que é um festival de músicas, de MPB. Tem apresentação na praça, nas igrejas, nas fazendas. É muito esporádico, não tem nada.  Não é uma cidade festeira. Embora o aniversário da cidade, de dois anos para cá que se comemora com festa. Cantores que vem de fora e chama a atenção, porque antes não tinha. As cidades vizinhas que tem festas. O pessoal de Vassouras sai para ir a outras cidades onde tem festas.

 

P/1 – Como você se vestia na sua juventude?

 

R – Ih, (risos) esse negócio de vestir não dá muito certo, não. A gente observa nas fotos como que eram esquisitas as roupas que a gente usava. Prefere nem trazer essas fotos para divulgar, não. Tinha a calça, que era aqui em cima, um período. Você olha aquilo, fala: "Cara, como é que eu tive coragem de usar aquilo na minha vida?" Os cortes de cabelo também. Era uma época que repicava o cabelo aqui. Meu cabelo sempre foi enrolado, mas teve uma época que ele ficou liso, igual na foto que mostra. Mas minha mãe cismava de cortar meu cabelo repicado daquele jeito. Enrolava, ficava um troço horrível, eu olhava aquilo e ficava com uma vergonha de olhar naquele cabelo. Mas vai passando. Depois a gente observa tudo, era todo mundo que tinha aquele tipo de cabelo, não era só você. Então eu penso: "Bom, não era só eu que era a ridícula da época, um monte de gente era também." (risos) Aí você olha a roupa: "Nossa, olha essa roupa, olha essa estampa." Mas você vai olhar as outras pessoas, todo mundo igual. Alivia um pouco essa questão.

 

P/1 – E música, o que vocês ouviam?

 

R – Em relação à música... A gente ouvia muito MPB, rádio. A gente ouvia muito isso. Não lembro um cantor em específico, não, porque era uma variedade grande. Eu lembro que minha mãe ligava o rádio de manhã e ficava ligado o dia todo. Desligava na hora de almoçar, sentar todo mundo, na hora de ver televisão. Mas fora isso ficava ligado o dia todo. Muito noticiário também se ouvia nessas rádios AM, que tinha música tocando nesse sentido. Não lembro nada específico. Claro que na juventude tem Legião Urbana, tem aquelas questões todas que, mesmo que você não ouça em casa, você está ouvindo na escola, porque os outros estão ouvindo isso. As letras são comentadas por todo mundo. Mas Legião Urbana acho que marcou bastante minha geração com as músicas deles.

 

P/1 – Você gostava de esportes?

 

R – Sempre joguei vôlei na rua, a gente vai para a escola com relação a isso. Participava de campeonatos interclasse, em que tinha rivalidade de uma sala contra a outra, para poder jogar o vôlei, para poder ganhar. Uma vez eu cheguei a torcer o pé e tudo jogando. E jogar até o final com o pé torcido, doendo. Não, mas você não pode sair, você tem que ficar lá. Teve uma época que nós chegamos a ganhar de toda a escola. Nós fomos campeãs: "Ah, campeã da escola." Como se fosse aquela coisa assim, sabe? No vôlei, mas foi legal. Nós tínhamos professores de Educação Física bons, que estimulavam o esporte. Todo mundo esperava a época do interclasse para todo mundo se reunir e ir jogar o vôlei. Tinha torcida organizada, musiquinhas, aquelas coisas de colégio.

 

P/1 – Vocês jogavam na rua?

 

R – A gente jogava na rua. Igual eu comentei, a gente observa que tem certas coisas que cidade do interior ainda carrega. As meninas jogam vôlei até hoje. Outro dia eu estava chegando em casa, tinham duas meninas jogando vôlei. Nem que seja assim de dupla, uma para a outra. Eu lembrei, falei assim: "É, já fiz muito isso na minha vida." A gente fica ali jogando uma para a outra. Cai, cata de novo. Vai contando quantos toques consegue dar. Essa brincadeira na rua era muito presente. Mesmo na minha juventude, com quinze, dezesseis anos a gente continuava jogando na rua até tarde.

 

P/2 – Na escola você jogava em que posição? Tinha uma posição?

 

R – Ih, eu não lembro direito posição não (risos), não lembro não.

 

P/2 – Você fez ensino médio nessa mesma escola?

 

R – Nessa mesma escola. Da quinta série, antiga quinta série, até o terceiro ano normal, mesma escola.

 

P/1 – E qual era o seu sonho naquela época? Onde você se imaginava assim?

 

R – Eu nunca imaginei muito futuro não. Eu sempre esperava para ver o que acontecia. Uma coisa que eu sempre pensava assim: "Não, eu não vou casar cedo, eu não vou ter filho cedo, eu vou querer estudar para depois pensar em casar, depois ter filho." E isso não, o que eu pensava não aconteceu exatamente. Eu casei cedo. Casei com vinte anos, tive meu filho com 21. Então eu pensava assim: "É, às vezes a gente pensa alguma coisa para a vida da gente e acaba não acontecendo". Eu até falo isso às vezes com alguém. Eu falo assim: "Eu falava que eu não ia casar tão cedo." Aí eu falei assim: "Mas a gente acaba, né? Conhece a pessoa, a vida da gente muda, escolhe outras questões que não eram importantes naquela hora, passam ser."

 

P/1 – Como você conheceu seu marido?

 

R – Meu marido era meu professor de Informática. Olha que sujeitinho? (risos) No primeiro dia de aula, todo mundo lá sentadinho, mexendo no computador. Qual o computador que dá defeito? O meu computador. Aí tem que chamar: "Professor, por favor, meu computador deu defeito, o senhor pode vir aqui arrumar?" Ainda pensei: "Pô, isso não vai dar muito certo. Logo o meu computador? Todo mundo junto, todo mundo, logo o meu computador?" Dali, a gente começou. Paquera, conversa dali, conversa de lá. Daqui a pouquinho a gente estava namorando. Mas era meu professor de Informática. Acho que por isso que eu continuei na área ainda, trabalhando com isso na escola.

 

P/2 – Era professor de Informática na escola?

 

R – Não, era em um curso. Era um curso que tinha e a gente fazia.

 

P/1 – Teve a febre de Informática?

 

R – Teve. Nossa, na época, os cursos de Informática apareceram. Lá em Vassouras isso tem onze, doze anos. Um curso que chegou em um preço acessível, porque eles queriam pegar muita gente. Era novidade: "Você tem que ter um curso de Informática, tudo exige informática agora." Os pais todos colocaram: "Vocês vão fazer informática. Os filhos vão fazer informática." Todo mundo foi fazer. Foi realmente uma febre. Muita gente em Vassouras passou a fazer. O curso funcionava de sete da manhã às dez da noite, com turmas seguidas e lotadas. Porque o que é que eles faziam? Eles aproveitaram um espaço de uma escola para poder montar o curso. Eles negociavam: os alunos dessa escola específica não pagavam o curso, tinham bolsa gratuita em troca do uso do espaço. Tinham os alunos da escola e os alunos da comunidade. Muita gente mesmo. A gente observou que, como eu comentei, era acessível o preço, os alunos daquele espaço podiam fazer, e era febre, todo mundo tinha que ter curso de Informática. As famílias falavam: "Meu filho tem que fazer curso de Informática. Tem que fazer." "Ah, o que seu filho está fazendo, curso de Informática?" "Meu filho está fazendo o curso." Até entre os pais conversavam sobre isso. Hoje não tanto quanto antes, porque a Informática passou a fazer parte do cotidiano, é normal, o aluno tem Informática na escola. É parte da vida deles. Mas na época ninguém tinha.

 

P/1 – E quando veio... Desculpa viu.

 

P/2 – Você namorou por quanto tempo? Era um namoro diferente agora?

 

R – Namoro muito diferente. A gente ficou junto mais ou menos um ano. Ele foi trabalhar em São Paulo. Eu fiquei noiva: "Não, antes de São Paulo a gente vai firmar um compromisso, porque eu estou indo, não sei que." Depois a gente casou, logo quando ele voltou de São Paulo.

 

P/2 – Vocês moraram um ano separados?

 

R – Foi mais ou menos isso.

 

P/2 – Como que foi essa experiência?

 

R – Ai, confesso que não foi muito legal. Esse negócio de distância, não gosto muito, não. Mas foi. Teve que ser daquele jeito, ele foi trabalhar lá e eu não podia ir, porque eu trabalhava em Vassouras. E nunca que meu pai ia me deixar sair daqui para ir para São Paulo com namorado ou com noivo. Nunca ia acontecer um negócio desse. Então, final de semana, de quinze em quinze dias, ele vinha. Tinha época, depois, que meu pai deixou eu ir, porque ele passou a morar com a mãe dele. Não era sozinha, eu ia para a casa da minha sogra. Era diferente, e ele deixava.

 

P/2 – Como vocês se comunicavam durante esse período, carta?

 

R – Carta (risos). A internet não era de tão simples acesso. Era carta ou telefone. Todo final de semana tinha ligação e tinha carta durante a semana.

 

P/2 – Interessante receber carta.

 

R – É, atualmente as pessoas não tem esse costume de esperar carta, mas é muito legal. Você esperar o Correio chegar, abrir a carta, ler. É muito legal.

 

P/1 – Você escrevia bastante?

 

R – Eu gosto muito de escrever. Até hoje a gente ainda tem guardadas as cartinhas de correspondência, com as datas. Vou fazer onze anos de casada. De vez quando a gente pega para ler. A gente observa no início de namoro: "Nossa, que coisa melada. Eu escrevi isso? (risos) Não sei o que. Cheio de coraçãozinho." "Pois é, é a época." Eu disse: "Não, é porque tudo muda." No início, é mais pela maturidade. Era mais romântico, aquela coisa de menina que está namorando. Primeiro namorado firme, que vai em casa.

 

P/2 – Você costumava escrever outras coisas? Tinha um diário?

 

R – Eu tinha, não necessariamente, diário. Às vezes dava vontade de escrever, eu pegava o papel e escrevia muitas coisas. Guardava, tudo guardava. Nessas arrumações de finais de ano, que todo ano a gente faz, eu olho: "Ah, isso aqui não, não vou importar mais, não." Jogava fora. Depois falava: "Poxa, mas por que é que eu joguei aquilo fora? Queria tanto ler aquilo de novo." Eu sempre gostei muito de escrever poesia. Aquilo de estar apaixonada. Sempre escrevia muito. Mas eu joguei muita coisa fora do que eu escrevia na minha época de juventude. Não guardei muita coisa. Uma ou outra coisa mais significativa, uma data mais significativa que a gente guarda. Mas, interessante, as cartas de correspondência que nós fazíamos eu guardei todas. Tanto eu, quanto ele. Os cartões de Dia dos Namorados, a gente tem guardadinho em uma pasta lá. E meu filho gosta de ver. De vez em quando ele abre, fica lendo as coisinhas, pergunta como que era. É legal contar a história de vida da gente para os filhos.

 

P/1 – Você se lembra de alguma carta que te marcou mais?

 

R – Deixa eu ver.

 

P/1 – Alguma coisa que você colocou para ele ou que você recebeu?

 

R – Lembro uma letra de uma música. A gente estava longe há um tempão e estava com muita saudade. Ele estava muito tempo em São Paulo. Eu lembro uma música, uma tradução, era uma música em inglês. A tradução dela agora eu não lembro. Mas era alguma, o Frank Sinatra cantava. Não lembro se era My Way, Minha Vida. É mais ou menos essa música que fala muito do que a gente vive, das esperanças que a gente deve ter. Essa carta está guardada até hoje, com os corações dourados de purpurina, aquela coisa toda. Tinha todo um esquema de como fazer a carta, para se fazer mais presente.

 

P/1 – Você trabalhava antes de se formar?

 

R – Eu me formei no ensino médio, em Formação de Professores, logo comecei a trabalhar. Comecei a trabalhar desde os dezessete anos em uma escolinha particular. De lá até hoje eu trabalho em escolas. Trabalhei com curso de informática, trabalhei com turma de alfabetização. Hoje eu trabalho com ensino de jovens e adultos. Já rodei muita coisa. Na minha escola, no município, fui coordenadora de turno, diretora, professora. Eu passo vários segmentos. Sempre trabalhei, nunca fiquei parada. Sempre tive uma vida muito ativa com relação a isso. Agora eu quero diminuir o meu ritmo de trabalho. A gente vai criando outros valores. Trabalhar, a gente trabalha sempre. Ganhar dinheiro, a gente vai ganhar sempre. Gastar, a gente vai gastar sempre. Então: "Não, eu vou dar uma diminuída no meu ritmo de trabalho, para me dedicar mais ao meu filho, ao meu marido, à minha família." Vou continuar trabalhando, mas de forma mais calma. Porque eu sou muito dedicada a tudo que eu faço. Se eu estou naquele local, quero fazer o melhor de tudo. Quero buscar aula melhor para o meu aluno, quero trazer a informação para ele mais recente. Nisso, alguma parte fica prejudicada. Eu observei que a minha família sempre ficou prejudicada um pouco em relação a isso, porque você sempre espera. Eu não quero chorar, não, eu vou acabar chorando (choro). Toda vez que eu falo na família, eu choro. Você sempre espera da sua família que ela te compreenda (choro). Mas você fala: "Até quando?" Eu trabalho o dia todo. Saio de casa sete horas da manhã, tem dia que eu chego dez horas da noite. Meu filho está com dez anos, tem coisa que está passando da vida dele que eu não estou vendo. Eu paro para pensar: "Até quando isso é válido?” Daqui a pouco ele está grande, não vai me chamar mais para deitar na cama com ele. Não vai me chamar mais para, ele vai tomar o banho e me chama: “Mãe, você fica aqui sentada comigo? Vamos ficar conversando?” Há algum tempo eu decidi, eu falei: “Eu vou diminuir o meu ritmo de trabalho, porque não vale a pena.” A minha família, meu marido me ajuda muito. Ele compreende muito essa questão. Mas chega um momento que eu mesma estou me cobrando isso: "Não, acabou, não dá mais." Gosto muito do que eu faço. Nossa, gosto muito. Quando eu chego na minha escola, tanto a minha escola do município quanto a do estado, o problema que eu tiver com relação a qualquer coisa, chegando ali, desaparece. Porque você vê um aluno fazendo uma pergunta, um aluno mexendo no computador. Você vê possibilidades que ele tem de ver várias coisas. Quando fala de trabalho, eu falo: "Não, não que eu não goste do que eu estou fazendo, mas eu vou diminuir o ritmo por outros valores que eu estou passando a ter".

 

P/1 – O que te fez decidir pelo mundo da Educação?

 

R – O que me fez decidir, assim, desde nova eu sabia que queria ser professora. A questão de você estar com o outro, de lidar com as pessoas. É muito fantástico você entrar em uma sala de aula, e você ter vinte, em algumas salas trinta pessoas te olhando e esperando você fazer alguma coisa diferente. Porque você entrar ali, dar o conteúdo e sair, todo mundo faz isso. Mas eles querem um algo a mais. Eles querem que você os marque de alguma forma. Trabalhar com Educação é bom por causa disso: você consegue formar – eu não gosto muito dessa palavra de formar mentalidades – mas você direciona alguns valores, e eles vão escolher se eles querem ou não esses valores. Porque você pode passar o ano todo falando alguma coisa e, no final do ano, eles não se modificarem, não acrescentarem nada para isso. Mas é como se você fosse plantar, você tem essa possibilidade, porque você está lidando com gente. Principalmente com criança, com adolescente. Você planta a sementinha de uma idéia, se for legal para ele naquele momento, ele vai absorver. Se não for legal, ele pode até pensar: "Para o que é isso?" Mas mais para frente ele vai: "Poxa, a Cíntia falou que era aquilo, daquele jeito, ela estava certa." Ou: "Não, a Cíntia não estava certa. Eu provei que não é assim, que é de uma forma diferente." Trabalhar com Educação eu acho mágico pelo fator que tem de transformação. Não é questão de jingle, nem nada, mas a Educação é capaz de transformar. Eu vejo isso nas minhas salas de aula, na minha escola em Massambará, em Abel Machado. Eu trabalho com crianças de quatro anos a dezesseis, dezessete anos. Eu vejo o desenvolvimento deles desde que eu cheguei lá. Estou lá vai fazer dez anos. Eu vi criança que entrou na pré-escolar se formando agora no nono ano de escolaridade. Como eles se modificaram, como que o comportamento deles foi diferente. É gostoso fazer parte disso, fazer parte da vida de alguém. Igual, alunos que me convidaram para ser madrinha deles de formatura. Tinha o pai, tinha a mãe, tinha um monte de gente, mas escolheu a mim para entrar com ele na formatura. Eu achei o máximo, nossa! Aquela coisa: "Você se arruma mais caprichado ainda. Mais bonita ainda, para você estar com o seu aluno do lado, que te escolheu." Ele se sentindo o máximo, porque: "Minha professora está do meu lado." Você sabe do reconhecimento quando eles saem da escola e depois voltam para te ver, "Ah, estou com saudades. Queria voltar para cá. Não tem como você colocar de alguma forma?" Eu tenho alguns alunos, ex-alunos, que me ajudam no laboratório de informática, que a gente fala que são os alunos monitores. Metade deles não são mais da escola. Estão em uma outra escola, mas que voltam para Abel Machado para poder estar contribuindo de alguma forma. Eles gostam de estar ali. Isso para mim é assim: é gratuito, eles não recebem nada por isso, eles estão lá pelo prazer de estar lá. Eu não sei, talvez se eu os tivesse tratado de forma diferente, não sei se eles voltariam para lá. Possivelmente eles iam querer distância de mim. E eles voltam. Isso é muito gratificante. Não há dinheiro nenhum que pague isso.

 

P/1 – Você com dezessete anos entrou em uma escola para…?

 

R – Para lecionar em uma turma de alfabetização. Que responsabilidade! Eu ficava pensando: "Nossa, seis..." é uma turminha pequenininha "...seis alunos, mas seis alunos que dependem de mim." É uma coisa muito interessante, porque hoje eu falo ainda. Eu tive uma professora no ensino Normal que virou para a minha turma toda – que era muito bagunceira, eles não eram muito dedicados – virou e falou: "Deus me livre, um dia que meu filho tiver como professora uma de vocês." Aquilo ficou marcado, falei: "Poxa, menosprezando nosso trabalho." No meu primeiro dia dando aula, na primeira carteira, quem eu vejo? O filho da professora. Eu falei: "Ih, caramba (risos), agora eu quero ver o que é que vai dar. Ela falou que não queria a gente como professor do filho dela." Então, aquela coisa de conversa, primeiro eu fui ter certeza se era ele ou não. Depois que eu descobri que era, na reunião de pais, eu cheguei perto dela: "Ah, eu sou professora do seu filho. Você está lembrada daquilo que você falou em sala de aula? Você falou mesmo de verdade? Falou mesmo de coração? Porque a gente vai ter que resolver isso." Ela: "Não, não foi para você que eu falei isso, não." Eu: "Ah (risos) tá bom." "Foi para as outras que não estudavam, não sei o que." Sabe aquela coisa, você trabalha, mas pensando sempre: "Poxa, eu tenho que fazer o meu melhor, porque eu tenho que mostrar para ela que o que ela falou não é verdade." Chegou no final do ano, ela falou: "É, Cíntia, você me surpreendeu, porque eu pensava que a situação não ia ficar muito legal. Mas o meu menino... " ela falou assim "...independente se ele aprendeu a ler e escrever ou não, mas o meu menino gosta muito de você. Então, se você soube cativar ele, isso para mim já está legal." Claro que ler e escrever importa, porque o menino estava sabendo ler e escrever. Acho que, se ele não tivesse, a conversa seria diferente. Mas a questão dela ter reconhecido, porque ela falou: "Não, você chegou e você trabalhou." E hoje o menino está enorme, um rapaz, está na faculdade. E me chama de Tia Cíntia até hoje, onde eu estou, no meio da rua: "Oi Tia Cíntia, como é que você está?" E ela fala até hoje: "Ah, o meu menino Paulo Anísio gosta muito de você, e a leitura que ele faz hoje em dia, o gosto da leitura foi você que incentivou." Porque colégio particular também é muito cobrado. Como eu gostei muito de ler, eu sempre coloquei isso para eles, que é importante ler. Todo mês tinha um livrinho para ler, eles comentavam sobre o livro, de fazer tipo círculo de leituras, eles falavam. Essa prática de leitura, a gente observa como que é importante desde pequeno. Se, na alfabetização, com seis anos de idade, eles já começaram assim, carregou isso para a vida toda. Ela fala: "O Paulo Anísio gosta de ler porque desde pequeno você incentivou essa leitura”. É aquela coisa que a gente carrega. Talvez, porque eu aprendi isso com meu pai, a gente acabe passando isso para os alunos e depois para os filhos da gente. Mas foi um desafio muito grande você trabalhar e pensar no outro que está de olho em você, na mãe de um aluno que está de olho em você. A responsabilidade pesa em dobro.

 

P/1 – Como era a sensação quando você via que eles estavam começando a aprender a escrever?

 

R – Ah, criança quando está aprendendo a ler e escrever é muito gostoso, porque tudo eles querem ler. Tudo que chega ali: "Olha, tia, aquilo ali é do meu nome. Aquilo ali é do nome do Fulano. Olha, eu já sei ler isso." Eu observo algumas questões de quando eu alfabetizei os alunos e de como os alunos estão sendo alfabetizados hoje na escola. O uso da tecnologia favorece essa questão. Você abre na página do jogo, eles querem logo jogar e clicar: "Mas não, espera lá, vamos ler o que está escrito aí. O que é para fazer no jogo?" "Ah, não tia, lê para a gente, fala para a gente." "Não, ué?" Eles começam a soletrar e a ler devagarinho: "Ah, eu já descobri o que é que é." E já clica. O outro que não leu ainda, não sabe o que é para fazer porque não acabou de ler, vê o outro jogando. Procura ler mais atentamente para saber o que é que é para fazer. Então, essa questão da escrita e da leitura passa a ser social, porque ele vai ser um letrado, mas também para o próprio prazer dele. Porque para ele jogar, ele tem que saber as regras, saber onde clicar, senão não vai saber fazer nada. Eu me lembro dos meus pequenos que não tiveram esse acesso à tecnologia. Fico pensando como que seria a alfabetização deles. Bem diferente, se fosse hoje em dia. Eu acho que facilita mais.

 

P/1 – Como você preparava as suas aulas naquele período?

 

R – Ah, na época eram os livros, não tinha internet, nem nada. Nós tínhamos os livros de base para apoiar e a escola adotava um tipo de cartilha. Hoje, acredito eu que nem todas as escolas tenham esse tipo de cartilha, porque a metodologia mudou muito. Mas nós tínhamos a cartilha, então tinha que seguir. Até por ser escola particular, você não podia inovar muito. Você trazia uma ou outra experiência, a diretora achava legal, mas lembrava: "Ó, mas você segue a cartilha." "Então tá." Com dezessete anos eu não era questionadora, era obediente ainda. Ainda. Hoje eu não sei se eu faria da mesma forma, acho que não. Se ela falasse: "Tem que seguir a cartilha." Eu saberia justificar: "Eu sigo a cartilha, mas eu também vou usar esse outro tipo de metodologia porque pode funcionar, a gente pode testar assim." Mas tudo é experiência. Tudo é maturidade. Você tem que, por um tempo, passar por isso para você ter seus argumentos, para você justificar. Em História, a gente trabalha muito com argumento e justificativa.

 

P/2 – Entre os educadores, vocês faziam algumas coisas conjuntas?

 

R – Nós fazíamos, na época de escola. Porque era pequenininha. Nós éramos três ou quatro professoras só. Tudo era organizado para a escola toda, que também era pequenininha, tinha no máximo cinquenta alunos. Então era uma festa, todo mundo se reunia para planejar como era a festa. Nós fazíamos muito teatro, os alunos gostavam muito de teatro. Montava peça junto, todo mundo assistia junto, e se fantasiava junto. Era bem legal. Fazíamos as reuniões, se alguém tinha alguma coisa de interessante que achava, trocava com outro. Mas tudo tinha que passar primeiro pela Direção, para depois chegar à sala de aula. Isso tem o que, uns treze anos? Não, tem mais. Isso deve ter uns quinze anos, mas tem escola que ainda segue a mesma metodologia. Ela não te permite muito inovar. Você tem que seguir aquele padrão de escola. Tem gente que faz a comparação da escola que não modificou em nada. Você vai á um hospital, vê um monte de tecnologia, aparelhagem nova para operar, isso e aquilo. Tudo digitalizado. Você chega a uma escola, ainda tem mimeógrafo, o quadro de giz, ainda tem o professor lá na frente dando aula. Então não mudou muito. Eu acho que a mudança começa de dentro da pessoa. Ela tem que querer mudar, se apropriar dessas novas tecnologias. Se a pessoa não quiser, não tem Direção que vá impor, não tem ninguém que vá impor. O professor tem que sentir essa necessidade, mas ainda tem escolas que seguem esse padrão do modo que eu comecei a trabalhar quinze anos atrás, é complicado.

 

P/2 – Você usava outros espaços que não fossem a sala de aula?

 

R – O pátio da escola, na época, porque era tudo assim.

 

P/2 – Para dar aula?

 

R – É, porque essa minha primeira escola que eu trabalhei era uma casa alugada. Era pequenininha, nós tínhamos um pátio. Eu lembro que tinha uma árvore, a gente gostava muito de sentar em volta da árvore. Os alunos gostavam muito disso, de sair daquele ambiente. Como não tinha muito espaço, o que tínhamos era só esse mesmo. Tudo muito pequenininho.

 

P/1 – Mas depois você fez História?

 

R – Ih, a História apareceu depois. Eu fiz concurso para Prefeitura de Vassouras. Passei, fui trabalhar numa escolinha três dias só. Uma escolinha longe. A gente ficava uma hora dentro de um ônibus andando, em estrada de chão. Depois eu vi para Massambará. Sempre trabalhei lá com alunos de quarta série em sala de aula. Minha sala era superlotada. Quando eu cheguei para trabalhar lá o meu menino tinha dois meses e meio, era novinho. Eu o deixava na minha mãe e ia trabalhar. Eu olhava aquela sala cheia de crianças e adolescentes, porque lá tem ainda esse problema, às vezes, de distorção idade/série. E eu pequenininha, menor do que eles. A diretora outro dia, uma vez falou para mim que pensou que eu não fosse aguentar a turma, porque ela estava esperando a cada final de aula eu chegar para ela e falar: "Não quero mais, estou saindo." E que ela surpreendeu porque eu resisti até o final. Eu chegava para dar aula, a sala imensa, enorme, e eu nunca fui de gritar. Primeiro, porque eu não tenho voz para isso e, segundo, que eu achava que eu não tinha que gritar, você não tem que gritar com ninguém para escutar. Você tem que falar baixo. Aos poucos fui conversando, mostrando para eles o que é que era certo o que não era. Isso demorou mais de cinco meses para eles começarem a entrar em um ritmo que dava melhor de aprendizado. A escola de Massambará nessa época era menor do que é atualmente. O chão também era de terra, era um prédio só. Na hora do recreio eles rodavam aquela terra toda, jogavam bola, levantam aquela poeirada toda. Depois chegava à sala de aula todo cheio de poeira para jogar. Em 2000, quando o projeto... Era o Projeto Telemar, e agora é o Projeto “ToNoMundo”, foi para a escola, foi bem interessante como é que as coisas acontecem. Porque assim: "A escola vai ganhar computadores com um projeto novo que vai chegar." Igual eu estava falando em relação ao meu trabalho em Massambará, aconteceu uma coisa bem interessante, quando foi anunciado para a escola que ela receberia um projeto que teria computadores, a escola não tinha onde colocar as máquinas. É uma escola pequena, todas as salas ocupadas. "E aí, o que fazer?" "Não, o projeto a gente tem que receber. Claro que não vamos dizer: “Ah, não, não temos espaço”. “Se vira em espaço." E a sala escolhida para receber os computadores foi a minha sala. Então tiraram-me da minha sala, a sala dos meus alunos, a gente tinha tudo organizado, tudo arrumadinho, armários, espaços, os cadernos, para ir temporariamente para um galpão da igreja. Quando eu cheguei na escola, mal coloquei o pé dentro da escola, os alunos vieram correndo: "Cíntia, Cíntia, tiraram a gente da nossa sala." Eu falei: "Como assim tiraram a gente da nossa sala? Ninguém pode tirar isso da nossa sala, não. A gente está lá, aquele espaço é nosso." "Tiraram, Cíntia, a gente reclamou, mas ninguém fez nada. Vai lá e dá um jeito nisso. A gente quer voltar para a sala." Cheguei, conversei com a diretora, perguntei o que tinha acontecido: "Ninguém me avisou nada, tiraram a gente da sala desse jeito, meus alunos estão chateados lá, meio até com raiva. O que é que aconteceu que você me tirou da minha sala”. Ela: "Não, Cíntia, é que está chegando um projeto novo, os computadores, e a gente precisou de uma sala”. Eu falei: "Poxa, mas justamente a minha? Porque você não escolheu uma outra, a minha sala?" "É, porque é uma das melhores salas, não sei o que." Eu falei: "Ah, então tá bom. Não tem como voltar atrás?" Ela: "Não, Cíntia, não tem como voltar atrás." A escola precisou passar por uma reforma para ter um espaço especial para receber o laboratório. Quando eu falo isso as pessoas até falam: "Tá vendo, se você criasse muita resistência com relação a isso, hoje você trabalha no laboratório, aqueles computadores que te tiraram da sala de aula, do seu espaço, dos seus alunos, é um espaço agora que você trás para dentro da sala, para dentro de uma sala de aula diferente." Mas, nossa, eu lembro a imagem até hoje: eu descendo do ônibus, os alunos vindo correndo. Porque para eles foi uma agressão, de uma hora para a outra tirar você do seu espaço. Aquilo é seu espaço. Você está ali todo dia, suas coisas estão ali. Porque estava chegando computador? É aquela ideia: "Poxa, mas o que é o computador? O que é que ele vai fazer aqui? Quais as possibilidades?" Ninguém parou para pensar quais as possibilidades que ele pode trazer para a gente. Naquele momento ninguém pensou, pensou na questão de ter tirado a gente da sala para colocar os benditos computadores. Hoje ninguém quer que o computador saia mais de lugar nenhum: "Não, deixa o computador aqui com a gente, e vamos desenvolver projetos, e vamos fazer as coisas." E os alunos amam de paixão. Esses alunos que foram deslocados da sala de aula não estão mais na escola, porque já se formaram. Mas muitos voltam para fazer pesquisa, para enviar currículo por e-mail para trabalho. Alguns fazem curso de informática também. Então, reconhecem o que essa mudança provocou na vida deles.

 

P/1 – Como se deu o convite para você trabalhar como professora de informática?

 

R – Foi assim, eu trabalho no Projeto “ToNoMundo” desde que o projeto chegou à escola, porque agora nem é mais projeto, é programa. É o Programa “ToNoMundo”. Como professora em sala de aula a gente desenvolve os projetos comunitários com os alunos para a comunidade. Desde cedo eu comecei a trabalhar com relação a isso. Depois, em coordenação de turno era um tipo diferente porque eu não tinha mais os meus alunos, a minha sala de aula para trabalhar. Participava de reuniões, de estudos. Quando eu vim para a Direção, eu fiquei três anos na Direção, isso tem cinco anos, eu falei: "Não, agora é a oportunidade que eu tenho de eu me interar mais, saber o que acontece. O que esse programa tem de tão especial, porque envolve tanta gente." O Projeto Piloto, que a gente chama Projeto Sementeira, tem 68 escolas distribuídas no Brasil todo. Fora as políticas públicas que tem. É muita gente, eu pensava comigo: "Alguma coisa tem de especial nisso, eu quero saber o que é que é." Eu comecei a fazer os cursos, entrei em contato com as pessoas responsáveis. E passei a ter a responsabilidade de desenvolver o projeto junto com os professores. Eu quis saber o que era, porque máquina por máquina não faz nada. Máquina por máquina é lan house. Você tem que ter algo diferencial para fazer esse programa funcionar. E o que faz funcionar? Primeiro, são as pessoas. Se você não tem pessoas à frente do programa, do projeto, não adianta você ter máquinas maravilhosas, ter um programa pedagógico maravilhoso, mas não ter a pessoa que está ali envolvida com aquilo. A gente sempre fala que para você vender seu peixe você tem que acreditar nele. Como é que você vai convencer o outro daquilo de que você não está convencido. Então primeiro eu procurei saber o que é que era, eu me capacitei para isso, para depois começar a conversar com os professores a respeito do projeto. Fiquei na Direção três anos. Geralmente, em troca de prefeitos troca-se a Direção dos municípios porque não é eleição, é indicação. Saí da Direção: "Para onde eu vou? Vou voltar para a sala de aula?" A própria Secretária de Educação falou: "Não, você não vai voltar para a sala de aula, você vai trabalhar no laboratório. Você não estava à frente da Direção trabalhando? Agora você vai trabalhar mais diretamente nisso." Ela me fez o convite, eu falei: "Então tá, legal. Então eu fico na Direção, na frente do laboratório de informática." Isso tem dois anos à frente do projeto. É uma coisa assim que todo mundo fala: "Falou no Programa “ToNoMundo” em Massambará, logo associa o meu nome, porque faz parte." Acho que isso faz parte de mim. A gente estava comentando isso, nós tivemos um encontro agora em setembro em Natal. Quando eu cheguei as pessoas estavam reunidas. A gente um ano sem se ver. Um comentou com o outro, falei: "Olha como é que o olho das pessoas brilham. A gente olha no olho de cada um que está ali, está vendo, primeiro a felicidade de estar encontrando o outro, e segundo, por estar fazendo parte de uma coisa que a gente vê acontecer." Não é demagogia, se você está ali trabalhando, você está vendo os resultados. Você está vendo as histórias de vida dos alunos, como que modifica, como que ele tem oportunidade de estar ali mexendo. Eu tenho um aluninho da pré-escolar, que ele não tem esse pedacinho do dedo aqui, do indicador. Como que ele vai clicar no mouse se ele não tem isso? Aí ele fica cutucando assim, eu falei: "Meu filho, vamos arrumar uma alternativa, a gente chega para o lado e você fica clicando com esse dedinho aqui. Porque você tem que apertar de alguma forma." Ele falou: "Tia, mas eu não consigo. Ó, meu dedo não vai." Ele vira a mãozinha dele para se adaptar e estar usando aquela tecnologia. E são alunos que, às vezes, não tem direito à água encanada em casa, tem, às vezes, um ou dois pontos de luz dentro de casa. A gente sabe que a alimentação não é muito adequada, que eles deveriam ter. Mas eles têm acesso a uma tecnologia que criança de escola particular tem, que escola nenhuma ali de Vassouras funciona do jeito que a gente funciona. Porque a questão não você ter o laboratório montado, é você ter alguma coisa que o faça render, que o faça produzir na vida da pessoa. Na hora que eu vejo esse aluninho chegando, porque eles ficam animadíssimos. Se eu chego à sala, eles sabem que é para eles irem para o laboratório. Eu posso, às vezes, até chegar para dar um recado ou não, mas eles já sabem: "Nós vamos para lá hoje? Nós vamos para o computador hoje?" "Vamos.” Levanta todo mundo, a professora separa, eu subo com eles, eles sentam, pegam no mouse. E esse aluninho especial vira a mãozinha para começar a clicar no botãozinho. Às vezes eu sento, fico olhando, se cada criancinha daquelas fosse, é a oportunidade que eles têm de crescer de uma forma diferente. Eu sempre falo: "A gente que é mãe quer o melhor para o filho da gente." Quando a gente passa a ter o filho da gente, e observa o desenvolvimento dele, quer que os filhos das outras pessoas tenham a mesma oportunidade. A oportunidade que meu filho tem de acessar a internet, de fazer qualquer coisa dentro da minha casa, os meus alunos em Massambará tem lá. Eles tem autonomia de sentar e rodar pela internet sabendo que ele pode ou não acessar. Porque, da mesma forma que tem coisas que são boas, tem coisas que não são tão legais. Os pequenos comovem muito a gente, mais do que os maiores. Eles têm essa capacidade de sentar em frente ao computador, mexer no que ele quer, e o sorriso que eles têm. E aquela agitação. Outro dia eu liguei a webcam e estava mostrando para um amigo meu, da Escola do Futuro da USP, como que era. Ele falou: "Nossa, Cíntia, eles entram correndo no laboratório para sentar logo." Eles não querem perder um minuto. Não adianta falar: "Não corre." Porque claro que criança vai correr. Então correu, sentou, é automático: sentou, botou a mão no mouse. E fica esperando o que é que é para fazer com a mão no mouse. Isso faz parte, como faz parte da minha vida, faz parte da vida deles também.

 

P/1 – Como é a dinâmica do projeto?

 

R – Lá na escola? O Programa “ToNoMundo” ele tem algumas frentes de trabalho. Uma das frentes é a atividade lúdica, que são, ou são anuais ou são semestrais. A Escola do Futuro que organiza toda essa parte. Acho legal que eles dão abertura para a gente opinar o que é legal ou não desenvolver nas escolas. Porque não adianta você programar algo que é diferente da realidade que você tem. As atividades vão acontecendo semanalmente. E o formador, mediador local, que é, no caso, quem trabalha no laboratório, que é o FME, vai direcionando. Ele vai convidando os professores: "Ó, tem uma atividade assim, assim, você quer participar? Tem como você participar no seu conteúdo? Você não precisa parar de dar aula para você participar disso, tem como encaixar." A última que nós participamos agora foi de Língua Portuguesa. Os professores de Redação, de Língua Portuguesa, tem como estar trabalhando isso. E os alunos gostam dessa forma diferenciada de trabalhar. Tem a outra frente que são os cursos, alguns cursos específicos para Direção, para Coordenação Pedagógica, outros para professores. Eu sinto ainda um pouco de resistência com relação a fazer cursos, porque depende de tempo para você estudar. Os professores, alguns fazem faculdade, não tem como conciliar a faculdade mais os cursos que eles fazem. E tem os projetos que a gente resolve, às vezes, pela própria comunidade virtual: "Ah, minha escola está desenvolvendo isso, você quer desenvolver junto comigo?" "Ah, eu estou fazendo isso assim, vamos colocar os nossos alunos para conversarem um tema específico? Ou então vamos deixar só eles trocarem as ideias, para ver como é que é, como é que tudo funciona?" Procura muito aproximar, mesmo através das atividades lúdicas, a gente divide por equipes. Os meus alunos têm contato com crianças lá de Cordisburgo, do interior de Minas Gerais. Eles conversaram com crianças de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Amazonas. Conversaram com crianças de Portugal, em uma atividade que nós tivemos. É legal porque aproxima muito, e a gente começa a observar que as realidades são diferentes, mas são muitas vezes, iguais, de um aluno e do outro. A dificuldade que ele tem o outro também tem. O problema, às vezes, que ele passa com a família em casa, o outro, do outro lado, também pode estar participando. Da mesma forma, em situações diferentes, em lugares diferentes, mas o sentimento é o mesmo. Em algumas atividades, nós conseguimos trazê-los aqui ao Rio de Janeiro, no Pan-Americano. A Oi cedeu para a gente uns ingressos, um ônibus. Eles amaram: "Nossa, eu vou no Pan." Era uma coisa assim, se não fosse dessa forma eles não viriam, porque é muito diferente da realidade deles. Sair de Massambará aqui para o Rio de Janeiro, tem criança que nunca veio, que nunca viu o mar. Chegar, descer a serra, ver o mar, ir no Maracanã, assistir um jogo, fazer um lanche em um restaurante legal. É como se fosse um prêmio para eles. Nós também os trouxemos ao Museu das Telecomunicações. Eles amaram, nós acabamos de sair do Centro Cultural, eles perguntaram: "Quando a gente vai voltar?” A gente não tinha nem passado uma hora nem nada, eles passaram por todo o percurso já queriam voltar. E aqueles que não vieram ficaram falando: "Ah, eu também quero ir, como é que é?" Eu vejo como possibilidade de mudança de vida, o programa.

 

P/2 – Falando em mudança, antes dos computadores do Programa da “Oi Futuro”, quais eram os recursos pedagógicos que vocês tinham na escola, que vocês utilizavam? Tinha TV, tinha vídeo?

 

R – Nós tínhamos uma televisão pequena que nem sempre funcionava; um vídeo cassete que nem sempre funcionava, por causa da poeira também; um mimeógrafo; quadro de giz; uma máquina de datilografar da Secretaria. Radinho era um para todo mundo. Não tinha muita coisa em relação à tecnologia. Embora nós trabalhássemos com projetos, não na dimensão que nós trabalhamos hoje, mesmo trabalhando com projetos, era diferente. Porque, dentro do “ToNoMundo”, a gente vê a grandiosidade de tudo. Uma coisa que eu faço passa a ir à internet, pessoas de outros estados, de outros países podem estar em contato com a gente através disso. Como se eu estivesse conversando com você, e você está no Canadá, mas você está muito próximo a mim. No início do ano, nós recebemos uma premiação de um projeto que nós desenvolvemos: a gente faz um trabalho voltado para o adubo orgânico. Por ser uma comunidade que usa muito agrotóxico, a gente procura mostrar essa alternativa do produto orgânico. Tem uma fazenda na região que ajuda a gente com relação a isso. A gente está tentando chegar através da família.

 

P/2 – Você estava falando um pouco de como funcionava o programa na escola. Eu fiquei pensando: como que é a interação entre o laboratório e as outras disciplinas? Os professores vão lá, como que é?  Usam os recursos?

 

R – Ainda há resistência com relação a alguns professores. Quando a gente fala em geral, um monte de professores, eu não posso englobar todo mundo, porque tem gente que vai, que procura, que leva os alunos, mas tem professor que prefere ainda ficar na sua sala de aula, com seu giz, com seu quadro. Não se abriu ainda a essa nova tecnologia. Embora a gente faça convite, esteja sempre expondo nas reuniões pedagógicas a importância. Às vezes, eu entendo assim, eles sabem que é importante levar o aluno lá. Os alunos gostam de ir lá para aprender. Mas eu não sei qual é a barreira que o professor tem de levar um aluno ao laboratório. Às vezes, eu penso que pode ser também a questão do aluno saber mais do que ele. Porque tecnologia eu falo que está na veia dos alunos: eles entram, mexem, sabem mexer as coisas muito mais facilmente do que o professor. E ele tem que romper um paradigma primeiro dele também, dele saber que não é o dono do saber, que o aluno sabe mais do que ele, e naquele momento, ele vai aprender com ele. Não sei se alguns tem esse problema, ou se é mais fácil você manter uma sala de aula ali dentro, controlada dentro das quatro paredes, com giz e você falando daquela forma tradicional. Por outra forma, os professores que levam os alunos lá para ter aula falam que é superlegal. Os alunos rendem. Essa troca, o aluno, o professor que fala: "Ah, não levo." A outra: "Ah, mas eu levo e é legal." A última aula que uma quarta série teve lá, com o quinto ano, foi sobre vegetação no Brasil. A professora escreveu no quadro: vegetação no Brasil, “eu quero que vocês olhem esses tipos de imagem". E os alunos iam, viam, navegando na internet, tinham autonomia de escolher o que é que ele queria ver. Qual a imagem que ele queria ver. É interessante que os computadores ficam um perto do outro. Um aluno vê uma imagem legal no outro computador: "Ah, como é que você chegou até aí? Ah, eu também quero ver isso." Eles começam a construir entre eles. Eu percebo assim, os que levam, os que têm acesso a esse tipo de conhecimento, de comportamento de levar o aluno lá, acham legal, estão sempre marcando, estão sempre levando. E há aqueles que não tem interesse ainda. Mas eu acredito que tudo é um trabalho, a gente fala que é um trabalho de formiguinha. Convence um hoje aqui, ele vai ver. Eu trabalho muito com os alunos, para eles conversarem com os professores. Tipo assim, força conjunta: "Ah, professor, vamos lá, vamos levar. Eu vi isso lá. A gente pode ver dessa forma." Os alunos têm acesso direto. A hora do intervalo, do recreio deles. Estava comentando com você que uma aluninha ontem virou para mim, assim que eu cheguei, falou: "Tia Cíntia, hoje eu não vou nem almoçar." Eu falei: "Mas por que é que você não vai almoçar?" "Porque assim que bater o sino do recreio eu vou subir para marcar logo o meu computador que eu quero passar o dia todo lá." Eu falei: "Ah, mas almoça um bocadinho, depois você sobe." "Não, eu quero ir lá." Assim foi, bateu o sino ela subiu lá. E fui ver o porquê que ela queria fazer isso. Ela tinha trazido, em um pedacinho de papel anotado, um programa que tem na televisão que reforma a casa e reforma o quarto em especial. Ela queria escrever para esse programa, porque quer que a casa seja reformada e o quarto dela “igual passa, parece um quarto de princesa.” Ela estava me explicando isso. Porque como são dez máquinas só e são muitos, eles tem que dividir. Fica um período um, fica o outro período o outro. Ela queria, naquele momento, se dedicar aquele, chama A Realização de um Sonho, o nome do quadro do programa. Eu entendi o porquê dela não querer almoçar, mas querer fazer algo significativo para ela. Levou documentação da mãe, sabe? Tudo em um pedacinho de papel muito simples, mas ela sabia o que queria naquele momento. Aquele objetivo para ela se inscrever ali, a possibilidade dela ser sorteada era grande. Sentamos do lado dela. Os outros começaram a ver o que ela estava fazendo: "Que é que você está fazendo? Como é que é isso?" E ela explicou. As outras: "Ah, eu também quero." Um falou: "Cíntia, na semana que vem a gente vem também com um papelzinho, com a documentação, que todo mundo quer fazer." Eu achei isso bem legal, um observa muito o que o outro está fazendo para aprender junto. É uma construção coletiva.

 

P/1 – Qual o significado da escola para você?

 

R – O significado da escola para mim? Eu vejo a escola como a minha segunda casa. Tenho a minha família, tenho a minha casa, eu tenho a minha escola como a minha família também. Tenho os meus alunos como a minha família. Eu chego lá e me sinto à vontade. Tenho vontade de estar com eles. Tenho vontade de estar na escola. O meu filho estudou nessa escola durante dois anos. Era bem interessante que eu ia e voltava, a escola estava muito próxima a mim, como estava próxima a ele. Quando saiu de lá, ele sentiu muita diferença por causa disso, porque era uma escola maior para onde ele foi. Quando eu penso assim: "Ah, é dia de trabalhar." É igual segunda-feira, acordar cedo, vamos pegar ônibus para ir trabalhar. A gente vai dormindo no meio do caminho, mas chega lá, sabe? Sem demagogia nenhuma, eu abro a minha sala, eu vejo os alunos entrando. É uma possibilidade que eu vejo. Eu tenho possibilidades que os outros professores não tem. Eu me sinto privilegiada por causa disso. Eu lido com pessoas que os outros professores não lidam, por causa da questão do CFML, eu tenho oportunidade de estudos, de lidar com os alunos de uma forma que o professor em sala de aula não tem. Porque ele tem aquele compromisso de dar conteúdo, de dar currículo. Ele tem que seguir aquilo. Eu lido com os alunos de uma forma mais leve. Eu faço meu trabalho com eles, tenho um planejamento com relação às aulas de informática, como que a gente faz, mas eu consigo chegar a ele mais fácil do que às vezes se eu estivesse em sala de aula. Eu me sinto uma pessoa privilegiada. Por isso que a escola faz parte de mim. Eu estou lá vai completar dez anos, tem escolas perto da minha casa. Eu não tenho vontade de sair de lá para ir para essa escola perto da minha casa. A Comunidade Massambará fica a dezoito quilômetros da onde eu moro. A gente pega a BR, é perigosa. Mas eu não tenho vontade de sair de lá. As pessoas falam: "Ah, vai virar patrimônio, você não sai daqui." "Por que você não sai de lá?" Eu falo: "Porque não chegou a hora ainda. Eu ainda me identifico muito ali. Quando chegar a hora eu saio, mas não chegou ainda. Eu espero também que não chegue tão cedo.

 

P/2 – E Cíntia.

 

P/1 – Não, eu só queria que você... É SFIML?

 

R – É FML.

 

P/1 – O que é que é isso?

 

R – É Formador Mediador Local. É a pessoa que trabalha no laboratório.

 

P/2 – Falando ainda um pouco de uso do laboratório, a comunidade não escolar acessa esse laboratório? É com você que ela vem falar? Como que é essa relação com essas pessoas que participam desse processo?

 

R – Eles tem acesso, sim. Nós temos uma programação com horários específicos para as turmas, para a comunidade: tanto em pesquisa como outras questões. Por exemplo, eles querem a segunda via de uma conta de luz que eles perderam. Eles vem até mim, já me procuram. Às vezes, alguns não me conhecem pessoalmente, mas sabem quem eu sou pelo nome: "Ah, eu estou procurando a Cíntia, quem é?" "Ah, sou eu." O nome Cíntia é um pouco comum quando fala com relação a laboratório. Eles pegam segunda via, quando tem que fazer aquela declaração de isenção do CPF, eles vão fazer lá porque pela internet é gratuito, você não tem que pagar. Eles não tem que sair de lá para ir a Vassouras e voltar. E eu ministro o curso de Informática Básica para eles, de Inclusão Digital. Eu acho interessante que as mães dos alunos voltam à escola para fazer o curso de informática. Às vezes elas estão lá digitando, fazendo os exercícios que eu faço, o filho vem para ver a mãe digitando. "Ah, mãe, o que é que você está fazendo com isso? Como é que é aquilo?" "Ah, mãe, não faz assim, não, faz desse jeito que assim é mais simples." Esse contato que eu tenho com a comunidade é bem interessante, porque eles reconhecem o meu trabalho, embora não saibam, às vezes, quem eu sou, mas sabem que sou a pessoa responsável pelo laboratório. Sabem que eles tem esse espaço. E sabem que lá é para fazer algo produtivo, não é para ficar... Às vezes, quando eu falo produtivo não é que vai lá para entrar onde não deve, em sites inadequados, porque jogar eles jogam, eles sabem o tipo de jogo que pode ir, que não pode. Eu falo muito para eles,eu sou muito chata, sim: que não pode jogo de matar, de atropelar, de sair sangue. Eles falam assim: "Ah, Cíntia, a gente vai jogar o que então?" (risos) Eu falo: "Ah, procura outro jogo. Gente, já pensou? A gente vê tanta violência na televisão. Vocês chegam aqui pegam um joguinho desse de ficar atirando no outro, isso não é jogo. Tem outras coisas melhores para vocês verem na internet. Você pega um carrinho desse, sai atropelando todo mundo e você ganha pontuação por você atropelar as pessoas? Olha que jogo é esse?" Eu converso muito com relação a isso. No início eles tinham essa resistência, virava: "Vou jogar o que, então? Vou jogar dama?" Eles buscam na internet outros jogos, de lógica, de construção, tipo civilização, que um invade o terreno do outro. Jogam xadrez on-line. Eles sabem a parte que a Informática pode acrescentar a eles com relação a isso.

 

P/1 – Tem outros programas da escola para a comunidade?

 

R – Relacionado ao Laboratório de Informática?

 

P/1 – Não só.

 

R – Ao Laboratório de Informática só. A gente tem o projeto que eu falei do Adubo Orgânico, que foi assim: o ano passado a professora desenvolveu na escola a produção do adubo, como que é, nós fizemos uma horta escolar. Esse ano nós estamos fazendo a horta na casa das famílias. Tem cinco famílias que se propuseram a fazer horta, a usar o adubo orgânico para ver como é que é. Uma, inclusive, usava o adubo químico. Eles tinham um pouco de resistência: "Mas é a mesma coisa? Como é que vai ser você usar um inseticida natural? Mas eu uso outro?" Eles começaram a observar que muita atitude que eles tem já é algo bem natural. Eles fazem a mistura do fumo na água para poder jogar. A gente foi conversando. O ano que vem a gente quer cadastrar mais famílias para eles terem mais hortas na sua casa. A gente observou que tinha família que tinha um espaço grande em casa e que não tinha uma horta, não tinha um espaço para nada. Nós propusemos de eles estarem preparando esse material. A muda nós damos, ensinamos a fazer o adubo. A gente procura chegar através da comunidade, através desse projeto. Foi um projeto até reconhecido, a gente recebeu um prêmio internacional de uma empresa canadense. Recebemos como premiação a lousa digital, um notebook, data show. Quando o rapaz foi instalar em fevereiro lá na escola ele falou que escola nenhuma da região tinha, nós éramos as primeiras a estar recebendo uma tecnologia nova, lá para a gente, aqui no Rio e lá em São Paulo vocês tem acesso. Mas lá a gente não tinha isso.

 

P/1 – A aceitação foi boa da comunidade?

 

R – Foi, e aquela coisa do reconhecimento do trabalho. Tanto da comunidade como dos alunos, que chamam de computador grande: "Ah, tia, hoje eu quero brincar no computador grande. Hoje eu não quero brincar nesse computador aqui, não." Tem uma aluninha que fala: "Ah, tia, eu não gosto desse computador pequeno, eu gosto do computador grande." Com a caneta é mais fácil. O que eu percebo, às vezes, com relação à aceitação da comunidade do Projeto do Adubo Orgânico, porque eles têm a cultura deles de usar o agrotóxico e um produto químico. É deles isso. Eles aprenderam assim, eles vivem disso. Eles são plantadores de tomate. Só que eles percebem que cada vez mais a praga está sendo mais forte. Então o defensivo tem que ser mais forte ainda, para você romper com certos paradigmas, certas tradições, demora um pouco. Você tem que mostrar para ele, não é simplesmente: "Você não pode usar isso, você usa isso." Ele vai falar: "Mas eu quero ver resposta, quero ver como que é." Porque, para você fazer algo orgânico, é custoso, é demorado. Você talvez não vá ter uma produtividade no início como eles tem agora. Tem ainda a questão da queimada. A gente trabalha com relação a isso. É cultura, varreu alguma coisa, juntou um lixinho, taca fogo. Lá a gente tem muito pasto. Vai renovar a pastagem, taca fogo no pasto. A escola procura trabalhar nesse sentido, de conscientização, mas também mostrar para eles outra alternativa.

 

P/2 – Você lembra alguma história que você viveu, seja nesses projetos que envolvem as pessoas que não estão na escola, que participam de outra forma do laboratório?

 

R – Que não sejam da escola? Da comunidade em si?

 

P/2 – É, de tudo isso que você estava me contando agora, contando para a gente. Se você lembra algum episódio em que isso ficou marcado?

 

R – Uma coisa que marcou muito, em relação ao projeto, foi a vinda dessas pessoas que fizeram a premiação na escola. A vinda deles significou muito. Porque, uma coisa é você falar com eles pela internet, outra coisa são essas pessoas chegarem até a sua comunidade e te respeitarem pelo que faz. Nós recebemos canadenses, ingleses, argentinos, mexicanos. Eles chegaram à nossa escola. Nossa escola não é, assim, razoavelmente pequena. É a maior escola que a gente tem do município, mas fica em uma zona rural de difícil acesso. As pessoas chegam com um tipo de preconceito de como vai chegar lá e como que vai ser? "Ah, vai ser uma casinha assim, não sei o que." Quando eles chegaram lá, eles tiveram a surpresa, primeiro, da estrutura que nós temos, segundo, de como que a gente se organiza. Mesmo longe, mesmo no interior, como que a nossa escola é organizada. Eles passaram a respeitar mais ainda a gente por isso. Então a proposta que vinha de trabalho, não vinha mais imposta. Ela agora passa a ser compartilhada. Eles mandam uma proposta e falam: "O que é que vocês acham? O que seus professores acham?" Eu acho que a maior história que a gente tem de contar é com relação a essa questão da amizade e do respeito pelo trabalho da gente. Não é pelo fato da gente estar no interior, da gente estar em algum lugar, que não vai merecer respeito pelo trabalho que a gente faz. Tanto quanto as escolas canadenses que eles tem lá. E a vinda deles foi muito interessante porque, primeiro, ninguém acreditava que eles viriam. Quando a gente foi de sala em sala apresentá-los, os alunos olhavam para eles com o olho arregalado, tipo assim: "Será que é verdade? Será que eles estão ali?" E o inglês que eles falavam? Teve um aluno que virou para a tradutora e falou: "Eu não queria perguntar nada não, mas eu queria ouvir ele falar. Eu quero ouvir ele falar qualquer coisa. Como é que é ele conversar? Como é que é? O que ele está achando da gente?" Aquilo o tocou muito, porque não é: "Eu quero conhecer você pelo que você tem para me oferecer." Foi mais ou menos isso que o aluno falou. Ele falou alguma coisa, não lembro exatamente o que. A tradutora traduziu. E na hora do intervalo desse aluno, sem ninguém, nada, ele chegou e pediu licença: "Eu queria conversar com você agora." E ele começou a conversar. Era muito interessante que esse argentino é que fazia a tradução para o canadense. Você imagina um argentino ouvindo português, traduzindo para o inglês, e depois voltando a resposta para o menino. Era um troço meio de doido, mas que todo mundo entendeu. Essa vinda e esse reconhecimento do trabalho deles foi muito legal. Porque não era um projetinho da escola somente. Essas coisas: você planta feijão no algodão e deixa ali crescendo. Era uma coisa que você fez, que é legal, que teve reconhecimento, as pessoas vieram até você. Eu estava falando com vocês da questão de quando a gente visita algumas casas, quando eles oferecem alguma coisa, se você não aceita eles se sentem ofendidos. O receber a pessoa é muito importante. Se a pessoa vem até a nossa escola, vem até a nossa casa, a gente se sente valorizado por causa disso. E sentava junto com os professores para poder almoçar. Sentava na hora do recreio. Andava com os alunos pela escola para poder conhecer. Eu tenho algumas histórias específicas de alunos, que não são minhas, mas são experiências de vida de alunos. Igual esse aluno que falou: "Ah, eu queria ouvir você falar." Esse menino tem dezesseis anos, mas repetiu bastante, então está um pouco atrasado. Ele tem uma história de vida muito complicada. A família dele é meio que desestruturada, porque a mãe separou do pai. O pai está vivendo com outra menina muito mais nova do que ele, que tem idade para ser filha. Ele teve que morar na casa da avó. Morando na casa da avó, ele tem que trabalhar para ajudar. É meio complicado. Quando nós fomos levar o pessoal que veio para ver a horta, ele foi junto, participou de tudo, ele se interessou mais do que antes, ele queria participar. Teve um dia que a gente estava na horta, não sei o que ele viu, ele falou: "E aqui, Cíntia, não quero me intrometer, nem falar que vocês estão errados, mas vocês estão bem errados. Vocês estão plantando uma coisa que não pode plantar assim." Eu falei: "Ah é, Jonathan? Por que você não vem à tarde para a gente conversar para você me ensinar como é que é isso?" Na hora que eu falei: “para você me ensinar", você sente o olhinho brilhando, alguma coisa assim: "Nossa, eu vou ensinar alguma coisa para ela. Ela que é minha professora, que me ensina um monte de coisas, eu vou ensinar?" Ele veio à tarde: "Ó, não pode ser assim. Você tem que fazer assim, você tem que fazer não sei o que." Passou a se interessar mais por causa disso. Mas ele teve que sair da escola e estudar à noite para poder trabalhar e ajudar a avó. De vez em quando ele aparece na escola: "E aí, Cíntia, e a horta? Você está fazendo direitinho igual eu te ensinei? Você está fazendo não sei o que?" Eu falo: "Tô, Jonathan." Às vezes, não dá nem tempo, eu falo: "Não, Jonathan, você chega lá que a gente vai conversar melhor." Mas essa troca de experiência quando eles entendem que eles ensinam para a gente também é muito gostoso. Eu comentei com relação a mães que fazem o curso de informática. Eles saem, às vezes, à noite para estudar, o antigo supletivo, que hoje a gente chama de EJA. Então enche de trabalho, tem um monte de trabalho para fazer, eu acho muito interessante quando o filho vai com a mãe fazer o trabalho da escola da mãe. Não é dele. Naquele momento, é a mãe dele que está estudando, mas ele vai junto para ajudar a mãe a pesquisar na internet. Eu acho muito bonitinho. Tem duas lá que sentam, mãe e filha, de um lado. A mãe com um caderninho, e ela vai pesquisando, vai olhando, e ela vai fazendo o trabalhinho dela. Então, a Educação aproxima muito as pessoas, porque a vida toda foi a mãe que ensinava o filho, mas, naquele momento, o filho que está ensinando a mãe. Nossa, se a gente for contar, vai ter um baú de histórias de alunos. É muito gostoso. Por isso que é bom trabalhar com Educação, é gratificante por causa disso. A gente vê esses laços se envolvendo cada vez mais.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você gostaria de dizer ainda que a gente não perguntou?

 

R – Ah, eu não sei, falei bastante coisa. Uma coisa assim que eu sempre observo é a questão do reconhecimento. O trabalho que vocês fazem é muito legal. Mesmo aqui nos Mestres do Brasil, um no outro projeto que você falou, contar a vida da pessoa é muito interessante. Você valorizar o outro. Saber da história de vida dele. Nós fizemos algo menor um pouco, mas um pouco parecido, na nossa comunidade há uns cinco anos. Nós reunimos toda a comunidade escolar, os pais, e perguntamos quais deles indicavam cinco pessoas para a gente contar a história de vida deles através de fotos e de relatos escritos. Eles citaram vários nomes. E nós pedimos por que é que aquela pessoa seria indicada. Aquela pessoa tinha que ter algo significativo na comunidade. Eles foram levantando os nomes, foram falando. E as turmas iam de casa em casa entrevistar essas pessoas. Tirar foto. Eles se sentiram muito valorizados por causa disso. No dia da exposição, que cada pessoa tinha seu banner, com a história de vida, com as fotos, o que tinham feito. Nós conseguimos juntar tipo em um informativo em um folder. Eles se sentiram muito importantes. Então esse trabalho que vocês fazem é magnífico. Você ouvir a história do outro. Não somente o que ele tem, mas o que ele é. O que ele representa para ele, para a sua comunidade, para a sua família. É fabuloso. Quando nós ficamos sabendo que nós íamos participar, eu, por dentro, vibrei, porque eu conhecia, mais ou menos, como que funcionava. Fiquei um pouco nervosa com relação à entrevista, ou não, mas é fabuloso. Eu agradeço muito a oportunidade. Como eu falei, eu tenho oportunidade que outras pessoas talvez não tenham. Eu agradeço muito a Deus por isso.

 

P/2 – Agora nesse final, depois que você passou por esse processo, o que você achou? Como você está se sentindo?

 

R – Eu? Como eu estou me sentindo? Como se tivesse contribuído para mais uma coisinha. Como aquela história da semente que eu falei. Como se tivesse, a minha experiência de vida pode levar alguém a mudar de hábito, ou posso contribuir com alguma coisa com o outro. Como se fosse sementinha mesmo, você vai lá, joga, conta o seu depoimento. Você faz alguma coisa. O outro pode se identificar, ou não, com a sua história de vida. Eu acho essa questão de identificação muito legal. Faço isso com os meus alunos. Eu tenho um pouco receio de falar de mim, não gosto de falar muito de mim, eu sou muito reservada com relação a isso. Mas eu achei legal que vocês respeitaram isso também. No momento da emoção a gente deu uma segurada. Eu achei legal. Mas é formidável. Eu estou me sentindo assim: uma pessoa privilegiada e que pode contribuir com a minha experiência de vida, ou com alguma coisa para alguém, nessa internet louca da vida que acessa tudo.

 

P/1 – Obrigado viu, Cintia.

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Acabou? Ah, não foi tão... Só teve um momento de emoção. Mas é muito complicado mesmo a gente falar da vida da gente.

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