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Em busca da evolução do processo civilizatório

História de: Danilo Santos de Miranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/03/2018

Sinopse

O anúncio dizia: pessoas com capacidade de entendimento e com boa facilidade de relação para desenvolver um trabalho comunitário no interior de São Paulo. Danilo, recém-saído de uma experiência eclesiástica como jesuíta, logo se identificou com a proposta. Ele, que peregrinava em enfermarias de indigentes limpando chão, dando de comer, enfim, vivendo uma época de entrega a uma realidade altruísta total, enxerga ali uma nova possibilidade de ser útil. A dispensa ao noviciado já era uma certeza e o destino não mediu esforços para mantê-lo sempre perto de pessoas. Tanta entrega na Companhia de Jesus só poderia render, dali em diante, o encontro com bons anjos: um amigo despretensiosamente lhe oferece o jornal com a vaga de trabalho. E Danilo se vê passando de etapa em etapa no processo seletivo para o cargo de “orientador social” para o Serviço Social do Comércio (Sesc) de São Paulo. Do menino que sofrera a morte da mãe muito precocemente, do jovem que formava com os irmãos a banda Os quatro sujeitinhos atrevidos, do adulto que ali se formava, amante da cultura e sedento pela vontade de conhecer o mundo, ao Brasil nascia um mito, um gestor cultural e presença obrigatória nas discussões mais importantes que marcam principalmente a cena cultural do país: eis Danilo Santos de Miranda.

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História completa

Sou Danilo Santos de Miranda, nasci na Rua do Rosário, na cidade de Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio de Janeiro: sou fluminense, embora o nome popular de quem nasce no Estado do Rio de Janeiro é papa-goiaba. O nome do meu pai é Afonso Celso de Miranda e nasceu na cidade da região de Campos também; é dele a família Miranda  - com a qual não tivemos tanto contato quanto tivemos com o lado da minha mãe, Santos. O meu pai era um homem classe média, tinha vários irmãos e era de uma família de origem rural da região. Eram pessoas que batalhavam e trabalhavam em vários setores diferentes. Meu pai tinha uma profissão definida, era dentista, formado nos anos 30 do século passado. Curiosamente, tinha uma faculdade em Campos que tinha curso de Dentista e curso de Farmácia. E a minha mãe era farmacêutica e eles se conheceram num curso, meu pai era mais velho do que a minha mãe. O meu pai e a minha mãe eram tidos como um casal muito bonito.

 

A minha mãe era farmacêutica e meu avô Messias, pai da minha mãe, era paulista, do interior de São Paulo e foi tentar a vida em São Paulo, onde se desenvolveu ramo de farmácia. Em seguida, foi para o Rio de janeiro, se envolveu com a Drogaria Pacheco, uma famosa rede de farmácias. Ele era muito conhecido em Campos como um grande figura nesse campo. Era o vô Messias Urbano dos Santos, que vai se casar com Ana. A vó Donana.

 

A lembrança da minha mãe, Dalva, é rara, é pequena, porque ela ficou doente quando eu ainda tinha cinco anos. Ficou acamada com problema nos rins que, na época, era meio grave, porque não havia tantos medicamentos que combatem essas inflamações tipo nefrite. Ela era uma pessoa firme, uma mulher muito bonita, muito reconhecida. Quando minha mãe morreu, quem passa a cuidar da gente diretamente é a minha vó, a grande figura Donana. Meu pai ficou na casa que era dele, mas toda noite ele ia nos ver. Donana era uma pessoa de uma personalidade muito abrangente, muito forte, tomava conta de tudo. E a minha família era muito envolvida em tudo na cidade, na vida cultural, social e principalmente religiosa. Entre os sete e dez anos, você tem na cabeça uma crença de que o mundo é aquilo é que você tem notícias e até você descobrir o que tem fora, demora um pouco. Por isso, é muito importante toda a experiência que a gente tem posteriormente. No meu caso, a entrada no seminário abriu uma cortina que estava fechada. Botei batina e virei noviço.

 

Cheguei no seminário em janeiro de 1955, no Colégio Anchieta em Nova Friburgo, chamado popularmente de Chateaux. É um castelão do final do século 19, imponente! E era um colégio interno, onde você tinha hora pra ir na missa de manhã, a hora do café da manhã, a hora pra estudar, a classe de estudos, a hora de almoçar, voltar para as classes de estudo, a hora do recreio, hora de estudar de novo, hora de se preparar no fim da tarde para o jantar, jantava, voltava, estudava mais um pouco e se preparava para dormir. Tudo junto, tudo coletivo, o que significa dizer o seguinte: você sai de uma vida isolada onde você administra ou é administrado da forma familiar e vai para uma forma coletiva, profissionalizada, onde tem um padre que fica o tempo todo te orientando, sua vida passa a ser dependente do coletivo. A partir dos 11 anos de idade, minha vida passou a ser dependente do coletivo. Tinha saudades de casa, sentia vontade de estar junto com os meus amigos na cidade, tinha vontade de ter a minha cama, de arrumar do jeito que eu queria, claro, da minha vida anterior, mas tudo isso não era tão significativo, para falar a verdade, porque eu comecei a construir ali também um jeito de viver próprio. Eu estudava muito. Estudava Matemática em nível muito elevado. Eram questões que duravam dias, onde você ia buscando hipóteses e criando soluções e aplicando possibilidades e acertando aqui, errando ali, ia começando de novo, era um trabalho científico de formação mental, fortíssimo no clássico. Científico, mesmo. Latim a mesma coisa! Você pegava uma frase inteira, dissecava aquela frase, vendo tudo que tava naquela frase de regência, de complementação, de possibilidades, era quase Matemática aplicada à língua.

 

Tive percepção clara de que aquilo não era pra mim porque eu percebi que eu podia fazer uma ação mais abrangente, mais ampla do ponto de vista profissional, político e cultural fora dali. Me mudei para São Paulo, o centro da criação e da elaboração, e fui numa agência de empregos que me empregou lá mesmo! Acharam que eu tinha jeito para entrevistar as pessoas e comparar o que as empresas pediam com o candidato que estava na minha frente. Trabalhei na agência de janeiro de 1967 até julho de 1968, quando eu prestei o concurso para o Sesc. Em novembro de 68, fui chamado para o cargo de orientador social,  o equivalente a animador cultural, hoje: alguém que tinha um trabalho ligado à atividade cultural, esportiva, comunitária, social, dava curso, dava aula, animava em comunidades.

 

Naquele primeiro momento, me parecia um belíssimo emprego, que permitia, de alguma forma, realizar pelo menos parcialmente ou talvez superficialmente aquilo que de alguma forma tinha me motivado na vida até aquele momento. Pela formação, pelo vínculo familiar, depois na escola, no Colégio dos Jesuítas, lá no Colégio Anchieta de Nova Friburgo, mais tarde, entrando na Companhia de Jesus como um jesuíta, fazendo votos jesuítas e depois pedindo dispensa. Depois desse conjunto de ações para as quais você estava, de alguma forma, preparado, a ideia do serviço do outro, essa perspectiva de que você tem que contribuir de alguma forma para construir uma sociedade melhor, do jeito que for, seja como profissional, seja como político, seja como religioso, seja como for, não importa, mas que você tenha essa perspectiva introjetada na sua formação, no seu modo de agir, na sua perspectiva, quase no seu compromisso pessoal consigo mesmo, independente de outros compromissos com uma proposta política, com uma religião, com Deus ou com o que seja, mas você tem esse compromisso, fundamentalmente, consigo mesmo, você deseja de alguma forma continuar a permanecer nessa perspectiva. Mesmo que você mude de caminho, você vai para outro lado, você abandona um determinado caminho, mas você quer manter essa ideia, esse conteúdo essencial. Curiosamente, eu vislumbrei naquilo que estavam me oferecendo, naquilo que estava sendo dito que era o escopo, o objetivo da instituição, do ponto de vista do desenvolvimento comunitário, a relação com as pessoas, melhorando a relação das pessoas consigo mesmas, com o seu trabalho, com suas famílias, com a sociedade de modo geral, que era o que era colocado como objetivo daquele trabalho que estava sendo oferecido, eu achava aquilo extraordinário.

 

Eu pretendo ter futuro. Eu tenho uma visão muito objetiva, sei que na minha trajetória de vida eu já passei da metade faz tempo. Claro que eu pretendo ficar o máximo possível, mas não fazendo sempre a mesma coisa. Quero conviver com as pessoas queridas: minha esposa, minhas filhas, meus netos, muito família! Então, do ponto de vista pessoal, essa convivência, essa satisfação, esse gosto da convivência parece que ganha à medida em que você vai completando todas suas tarefas na vida. Vai ganhando uma dimensão cada vez mais forte. Então tenho esse desejo de uma convivência plena com todo mundo a minha volta. Pretendo, de alguma forma, organizada ou não, continuar batalhando nesse caminho, coisa que eu já faço hoje, mas que, talvez, eu terei mais possibilidades quando tiver completado as minhas tarefas mais diretas e necessárias nessa altura da minha vida. É isso!

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