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História

Engenharia dos trilhos

História de: José Morais Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/06/2016

Sinopse

Em seu relato, José Morais Neto relembra momentos de sua infância no Ceará. Seu primeiro emprego como concursado no Detran e posteriormente seu tempo de estadia na Rede Ferroviária, onde começou como escriturário até chegar ao cargo de engenheiro residente, em Palmares na Via Permanente.

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História completa

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Eu vou fazer algumas perguntas que o senhor já me respondeu lá fora, mas é para deixar registrado. Qual é o seu nome, local e data de nascimento?

 

R – É José Morais Neto, Penaforte, Ceará, e 13 de abril de 1951.

 

P/2 – José Morais, qual o nome dos seus pais?

 

R – Antonio Morais dos Santos e Maria Dantas dos Santos.

 

P/1 – Onde eles nasceram e qual era a atividade profissional deles?

 

R – Comerciante de tecidos e doméstica, em Salgueiro, Pernambuco.

 

P/1 – Eles saíram de Salgueiro e foram para o Ceará, por quê?

 

R – Eu não sei dizer bem o porquê da mudança, mais por conveniência de negócios, família e tudo, porque meus avós tinham propriedade no Ceará e eles foram para junto deles lá.

 

P/1 – E o senhor chegou a conhecer os seus avôs?

 

R – Sim.

 

P/1 – Qual era o nome deles?

 

R – Era Francisco de Assis Dantas e Maria Gondim.

 

P/1 – Eram pais do seu pai ou pais da sua mãe?

 

R – Pais de minha mãe. Mas conheci também os meus avôs paternos: José Morais e Antonia Gondim.

 

P/1 – E eles tinham negócios... O senhor falou que eles tinham atividades no Ceará. Que tipo de atividades eram?

 

R – Atividade de comércio e agricultura.

 

P/1 – Agricultura era que tipo de agricultura que eles plantavam?

 

R – Agricultura de subsistência e para fornecimento local.

 

P/1 – Tipo o quê? Mandioca...

 

R – É. Mandioca, milho, algodão, cana-de-açúcar e outros.

 

P/1 – O senhor se lembra um pouco da casa onde o senhor morou quando era pequeno? Da cidade onde o senhor nasceu?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como é que era? Conta para a gente, senhor José Morais, por favor.

 

R – Uma rua de interior, casa de alvenaria; casa típica do interior.

 

P/1 – Essa rua como é que era? Tinham várias casas? Era uma rua asfaltada? Como é que era?

 

R – Era uma rua pavimentada com paralelepípedos.

 

P/1 – Na sua fase de infância, quais eram as brincadeiras preferidas do senhor? Com quem que o senhor brincava?

 

R – Brincava com os colegas da rua, com primos e as brincadeiras eram futebol, pião, aquelas brincadeiras da época. Não tinha televisão, não tinha vídeo game, não tinha internet, nada disso, né? Eram aquelas brincadeiras tradicionais do interior.

 

P/1 – E o senhor tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – O senhor brincava com eles também?

 

R – Também.

 

P/1 – Quantos irmãos são?

 

R – Onze.

 

P/1 – E o senhor...

 

R – Segundo.

 

P/1 – Ah, o senhor é o segundo, um dos mais velhos?

 

R – Era.

 

P/1 – Deixa só eu perguntar, o senhor falou de primos. Nessa rua moravam também outras pessoas da sua família?

 

R – Moravam. Moravam tios e primos.

 

P/1 – Do lado do seu pai ou do lado da sua mãe?

 

R – Do lado dos dois, porque meu pai tem um irmão que é casado com a irmã da minha mãe. São dois primos com duas primas, somos parentes muito próximos.

 

P/1 – Como era viver numa casa com 11 irmãos? Como é que era esse cotidiano? Conta um pouquinho para a gente.

 

R – Normal. Acordar de manhã, tomar café, se arrumar para ir para a escola; chegar, fazer as tarefas de casa, escutar rádio, brincar, estudar. Era isso.

 

P/1 – O senhor falou que sua mãe cuidava do lar e tal. Tinha alguma comida típica que se fazia na sua casa que o senhor gostava muito? Fala um pouquinho.

 

R – Sim. Baião de dois com carne de sol, carne de bode. Essas comidas típicas do sertão. Era o mais comum.

 

P/1 – O que é o baião de dois? Explica para a gente um pouquinho.

 

R – É uma mistura do feijão feito com arroz e manteiga e essas...

 

P/2 – Manteiga de garrafa?

 

R – É. Manteiga de garrafa.

 

P/1 – Nessa região que o senhor morava, tinha uma festividade religiosa que era muito famosa?

 

R – Festa da Padroeira, Festa Junina, as mais comuns são essas.

 

P/2 – Quem é a padroeira, senhor José?

 

R – Nossa Senhora da Saúde.

 

P/ – Isso tudo nós estamos falando de Penaforte, é isso? Nesse ambiente da sua infância toda em Penaforte?

 

R – É.

 

P/1 – Essa Festa da Padroeira, como é que era? Ela tinha missa e depois tinha alguma quermesse?

 

R – Missa e festa de rua, né? Festa de rua com aqueles brinquedos e aquela coisa toda.

 

P/1 – Que brinquedos que tinham, o senhor lembra?

 

R – Na época não tinha, assim, roda-gigante, essas coisas. Eram mais aqueles parquezinhos, aqueles balanços, aquelas brincadeiras mais simples.

 

P/1 – O cotidiano era ir para a escola. O senhor lembra a primeira escola que frequentou? Como é que era o nome dela? Como é que era essa escola? Conta um pouquinho pra gente.

 

R – A escola era uma escola particular na cidade. A professora era Dona Lili, eu não tenho muitas lembranças do ambiente da escola, mas eram as primeiras letras, alfabetização.

 

P/1 – Como é que era o nome da escola?

 

R – Não, não lembro. Era uma escola particular, mas não lembro não.

 

P/1 – E o senhor estudou nessa escola até que ano?

 

R – Eu acho que até 1960, mais ou menos.

 

P/1 – O primário o senhor estudou nessa escola?

 

R – Foi.

 

P/1 – E o senhor mudou de escola e como é que foi?

 

R – Não. Não tinha mais, só tinha acho que o primário. Depois, a gente mudou novamente para Salgueiro e lá foi concluído o primário e o ginásio.

 

P/1 – Por que a sua família mudou pra Salgueiro?

 

R – Por conveniência, para os filhos estudarem, porque lá não tinha escola que atendesse à necessidade dos filhos.

 

P/1 – Como é que foi essa viagem de Penaforte para Salgueiro? Vocês viajaram como?

 

R – Viajamos de carro e a mudança em caminhão.

 

P/1 – Vocês não fizeram a viagem de trem?

 

R – Não. Lá não tinha trem nesse trecho.

 

P/1 – Quando o senhor chegou em Salgueiro, o senhor lembra o bairro em que o senhor foi morar? Como é que era o local?

 

R – O bairro era uma rua comum de interior também, com calçamento, com saneamento, essa coisa toda.

 

P/1 – O que mudou, por exemplo, da paisagem de Penaforte para Salgueiro? Tinha uma diferença de paisagem? De plantações? Como é que era?

 

R – A região é muito parecida, né? O sertão de Pernambuco e o sul do Ceará são muito parecidos.

 

P/1 – E o que tem de paisagem, de plantação?

 

R – Cactos, caatinga, essa coisa toda.

 

P/2 – É perto, senhor José?

 

R – Trinta quilômetros.

 

P/2 – Ah, então é bem pertinho Penaforte de Salgueiro!

 

R – É. Não muda muito em termos de paisagem, não.

 

P/1 – Quando o senhor foi para essa cidade o senhor foi estudar. Foi fazer o ginásio...

 

R – Não tinha segundo grau, quando eu concluí, para o segundo grau, eu vim para Recife.

 

P/1 – Então, o senhor foi fazer o segundo grau...

 

R – Em Recife, já.

 

P/1 – E o senhor veio para cá como?

 

R – Eu vim de ônibus.

 

P/1 – E o senhor veio sozinho?

 

R – Não, eu vim com dois ou três colegas que também, na mesma situação, vieram estudar aqui em Recife.

 

P/1 – E o senhor foi morar onde aqui em Recife?

 

R – Eu morei na Boa Vista. Eu morava em república e fazia refeições na Casa do Estudante, ali no Derby.

 

P/1 – O senhor foi estudar em que colégio? O nome do colégio o senhor lembra?

 

R – Escola Estadual Historiador Pereira da Costa.

 

P/1 – E como é que foi para o menino chegar a Recife, vindo sozinho e chegar numa cidade como Recife? Qual foi o impacto?

 

R – O impacto foi grande porque até então eu tinha vivido no interior. Impactante. Mas como eu tinha muita vontade de prosseguir com os estudos... Era um mundo novo, diferente e de grandes expectativas para o futuro, porque eu queria realmente prosseguir nos estudos, me formar e tudo mais.

 

P/2 – Mas e ficar longe da mãe? Como é que foi isso?

 

R – Foi... Ela passou três dias de cama.

 

P/2 – É mesmo?

 

R – É, porque nunca nenhum filho tinha saído de casa. Eu fui o primeiro e foi, assim... Cortou o cordão mesmo. Foi impactante, né?

 

P/1 – Mas o seu pai apoiou a sua decisão? Como é que foi isso?

 

R – Totalmente. Aliás, ele não só apoiou, mas deu toda a força possível e me sustentou aqui por dois anos enquanto eu arranjava trabalho. Posteriormente, eu fiz concurso, comecei a trabalhar e não fiquei mais dependendo dele.

 

P/1 – O senhor já tinha vindo a Recife antes?

 

R – Não.

 

P/1 – E qual foi a primeira impressão que o senhor teve de Recife?

 

R – Foi muito boa porque era aqui que eu queria viver, era aqui. O meu sonho era vir para Recife, estudar, morar aqui e ficar o resto da vida aqui.

 

P/1 – Como é que era o bairro de Boa Vista nessa época?

 

R – Era ainda bem residencial, era tranqüilo. Não tinha muita violência, não tinha muita agitação. Era um bairro muito bom para morar.

 

P/1 – Era arborizado?

 

R – Era.

 

P/1 – Mais residências, não tinha comércio?

 

R – Já tinha bastante comércio, mas tinha ainda muita residência.

 

P/1 – E o comércio, basicamente, do que era? O senhor lembra?

 

R – O comércio? Tinham livrarias, tinham óticas, tinha... Não muito diferente de hoje, né?

 

P/2 – E o senhor estava mais ou menos com o que, uns 16, 17 anos?

 

R – Quando eu vim, estava com 17 anos.

 

P/1 – 17 anos. Então, era 1968?

 

R – 1968.

 

P/1 – Como é que foi viver em Recife? O que é que o senhor fazia além de estudar? O senhor tinha alguma atividade com amigos? O senhor veio com dois amigos para cá, né?

 

R – Era estudar, vez por outra, jogo de futebol, ver cinema, televisão. Mas era mais estudar. Quase 100% do tempo, era estudar.

 

P/1 – Quando o senhor terminou o colegial, o senhor tinha vontade de fazer faculdade.

 

R – Sim.

 

P/1 – E o senhor optou por fazer?

 

R – Fazer engenharia. Fazer engenharia era o meu projeto desde pequeno, desde 13, 14 anos isso já estava definido.

 

P/2 – Por que senhor José? O que lhe levou a isso?

 

R – Por que eu achava interessante e queria ser engenheiro. Queria construir, queria ver, acompanhar a construção de qualquer coisa e ver um projeto realizado.

 

P/1 – Teve algum incentivo por parte dos seus pais para que o senhor fizesse engenharia?

 

R – Teve. De pais, de tios.

 

P/1 – O senhor tinha alguém na família que era engenheiro?

 

R – Não. Não tinha.

 

P/1 – Esse interesse surgiu como? Para Engenharia Civil?

 

R – Surgiu naturalmente, porque eu via aquelas construções subindo, eu via prédios, eu via. Tudo aquilo me incentivava bastante.

 

P/1 – E o senhor fez faculdade onde, senhor José?

 

R – Eu fiz parte do curso da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e depois na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), onde eu terminei. Por questões de trabalho, né? Eu tinha feito vestibular nas duas. Comecei na Federal, era só um expediente de trabalho na época e eu passei a trabalhar dois expedientes, não tinha como continuar na Federal, aí, eu passei para a Católica.

 

P/1 – E esse seu primeiro emprego... O senhor começa a trabalhar quando?

 

R – Comecei a trabalhar em 1970, no Departamento de Trânsito (Detran). Através de concurso.

 

P/1 – Na verdade, o senhor já tinha entrado na faculdade nessa época?

 

R – Não, ainda não. Ainda estava cursando o Segundo Grau.

 

P/1 – E o que o senhor foi fazer no Detran?

 

R – Lá, eu fui trabalhar na parte administrativa, na implantação do cadastramento de veículos, na informática.

 

P/1 – O senhor ficou quanto tempo lá?

 

R – Dois anos.

 

P/1 – E o que aconteceu? Nessa época, o senhor trabalhava meio período, pelo que o senhor me falou. O senhor mudou de emprego? O que aconteceu?

 

R – Não, não. Meio período foi quando eu entrei na Rede Ferroviária, em 1972.

 

P/1 – Ah.

 

R – Aí, eram dois expedientes. Mas eu fazia o segundo grau e estudava à noite.

 

P/1 – Ah, desculpa, só para ver se eu entendi: no Detran, o senhor trabalhava dois expedientes e fazia o colegial, à noite?

 

R – Dois expedientes e fazia o colegial à noite, é. Isso.

 

P/2 – Implantar a informática nos anos 1970, no Detran, o que era?

 

R – É porque era cartão, não tinha, não era informatizado o sistema de licenciamento de veículos, de emplacamento dos veículos, então, eu trabalhava num setor que preenchia aquelas fichas. A gente coletava os dados dos veículos e preenchia umas fichas que iam para o setor de informática para serem jogados no computador. Não tinha microcomputador, nada disso, não. Era mainframe. Era um sistema de grande porte, onde aqueles dados eram jogados e os veículos eram cadastrados.

 

P/2 – Fazia aquele cartãozinho perfurado...

 

R – Aquele do vestibular da época e tudo. Era aquele cartão perfurado.

 

P/1 – E o que acontece? O senhor ficou trabalhando no Detran até quando, mais ou menos?

 

R – Até 1972. Aí, fiz concurso na Rede Ferroviária e passei a trabalhar na Rede.

 

P/1 – O senhor sempre ficou nessa função no Detran?

 

R – Sempre.

 

P/1 – Por que dessa busca de fazer um concurso na Rede Ferroviária?

 

R – Porque, a época foi muito favorável para concurso. Eu fiz concurso na Caixa Econômica, no Banco Central, no Departamento de Estradas e Rodagem (DER), na Rede Ferroviária. Passei em todos e optei pela Rede. Primeiro porque tinha perspectiva de ficar no quadro da Rede, no quadro futuro de engenheiros e, depois, porque, na época, era só um expediente, eu tinha a facilidade de estudar de manhã, trabalhar na Rede à tarde e estudar em casa à noite.

 

P/2 – E que função que era na Rede quando o senhor entrou?

 

R – Na Rede, quando eu entrei numa função administrativa.

 

P/2 – Administrativa? Tinha um nome?

 

R – Era escriturário.

 

P/1 – E o que o escriturário fazia na Rede?

 

R – Na Rede, o escriturário fazia preparação de documentos, arquivo, essas coisas da área administrativa.

 

P/1 – E o senhor ficou nessa função até quando mais ou menos?

 

R – Eu fiquei uns cinco anos, mais ou menos. Quando eu passei no vestibular e entrei na faculdade, eu passei a estagiar na área de Via Permanente da Rede.

 

P/2 – Direto, assim, no primeiro ano?

 

R – Não, não. Eu passei a estagiar ali pelo quarto ano, mais ou menos. Terceiro ou quarto ano.

 

P/1 – O senhor trabalhou na Rede mais ou menos dois anos, como escriturário e depois que o senhor foi fazer estágio na área?

 

R – Não, foram uns quatro anos, de quatro a cinco anos mais ou menos.

 

P/1 – E onde era que o senhor trabalhava na Rede como escriturário?

 

R – Era lá na antiga Rua São João e no prédio sede da Rede, ali no bairro de São José.

 

P/1 – Quando o senhor entra na faculdade, como surgiu a oportunidade de se fazer estágio na Via Permanente como engenheiro?

 

R – A oportunidade foi convite mesmo, do pessoal da Rede. Eu busquei fazer o estágio, fiz uma solicitação, fui aprovado e passei a estagiar.

 

P/1 – E quem convidou o senhor para trabalhar como engenheiro na Rede?

 

R – Não, não lembro quem me convidou. Na verdade, eu fiz uma solicitação, depois, eu levei uma carta de apresentação na Via Permanente e fui aceito.

 

P/1 – O que era ser estagiário na Via Permanente? Quais eram as suas funções, o que o senhor tinha que fazer?

 

R – Acompanhar os programas de manutenção, ajudar o engenheiro residente na manutenção do trecho e preparar, basicamente, programas de manutenção da Via Permanente.

 

P/1 – O senhor trabalhava na manutenção de todas as vias, as da Linha Tronco Norte, Centro e Sul?

 

R – Não. Trabalhava no trecho de manutenção da residência de Recife, que, aliás, tinha um pedaço na Sul, na Norte e na Centro; mas era mais na área metropolitana de Recife.

 

P/1 – Era, basicamente, onde trafegavam os carros de passageiro?

 

R – Não.

 

P/1 – Tinha carga?

 

R – Passageiro e carga também.

 

P/1 – Onde dava mais problema, senhor José, quando o senhor trabalhou na Rede Central de Recife?

 

R – Mais problemas, assim...

 

P/1 – Que tipo de problema mais freqüente acontecia na via?

 

R – Ah, problemas, às vezes, de interrupção da linha por queda de barreiras, descarrilamento de trem, coisas comuns da...

 

P/1 – Quando acontecia um descarrilamento de trem, o que a Via Permanente tinha que fazer?

 

R – Tinha que acionar pessoal para promover a desobstrução da linha, carrilar os vagões e liberar o trecho para o tráfego, basicamente isso.

 

P/1 – Qual era o raio mais ou menos, em termos de quilômetros, que era ligada a essa rede central das linhas?

 

R – Era uma faixa de cem quilômetros mais ou menos.

 

P/1 – E o que ocasionava um descarrilamento? Que problema na via acontecia para que ocasionasse um descarrilamento de trens?

 

R – Às vezes, terra sobre a linha, desnivelamento, problemas de fratura de trilho, defeito, às vezes, no vagão.

 

P/1 – E a via tinha uma manutenção preventiva?

 

R – Tinha.

 

P/1 – E o que era essa manutenção preventiva?

 

R – Manutenção preventiva é fazer drenagem, roço, capinação, troca de dormentes, troca de trilhos.

 

P/1 – E os dormentes que tinham nessa região eram só de madeira?

 

R – Misto, concreto e madeira.

 

P/1 – E tinha um motivo para ser diferente, senhor José Morais? Para ser madeira ou concreto?

 

R – Não. À proporção que a empresa dispunha de recursos para trocar de madeira para concreto, ia sendo feita.

 

P/2 – Existia um plano para essa troca?

 

R – É, tinha um plano. Quando tinha recursos suficientes, ia sendo feita a troca da madeira pelo concreto.

 

P/2 – Ele é melhor, senhor José?

 

R – É melhor porque o dormente de concreto trabalha sob condições melhores, o trilho é soldado e ele mantém a bitola por mais tempo, a grade da linha fica mais firme...

 

P/2 – É a questão do desgaste que o senhor quer dizer? É isso? O tempo vai passando e ele não...

 

R – É, ele não sofre muito desgaste.

 

P/2 – Certo. Tem duas coisas que eu queria voltar, senhor José. Quando o senhor trabalhava no escritório, tinha muita gente? Que o senhor falou ali no prédio da São José; tinha bastante gente que também trabalhava no escritório da Rede?

 

R – Tinha. No meu escritório não tinha muita gente não, tinha umas cinco ou seis pessoas.

 

P/2 – Sim, mas no todo.

 

R – Cinco ou seis pessoas. Em outras áreas, tinha muita gente, mas na minha área mesmo não tinha muita gente, não. Só umas cinco ou seis pessoas.

 

P/2 – Era mais uma área de arquivo que o senhor disse. É isso?

 

R – É.

 

P/2 – E também com relação a esse trecho que o senhor fazia então esse trabalho como estagiário, de cem quilômetros, o senhor falou de queda de barreiras. Era um trecho que tinha muitas montanhas? Como é que era a característica das encostas?

 

R – É trecho de cortes, tem cortes, tem aterros. O trecho é misto: cortes, aterros e nos cortes, às vezes, acontecem quedas de barreiras, a obstrução de alguma drenagem e cai material sobre a via e, às vezes, provoca acidentes.

 

P/1 – Essa área de manutenção de via ela ficava aonde aqui em Recife?

 

R – Lá em Areias. No bairro de Areias.

 

P/1 – E tinha um depósito que se guardavam os dormentes? Era em Areias? Como é que era isso?

 

R – Não, os dormentes que vinham para serem trocados, iam direto para o trecho, para as sedes das estações, para os pátios das estações.

 

P/1 – Não tinha um lugar onde se guardava esse material de uso de vocês que era corriqueiro?

 

R – O material, os acessórios são guardados em oficinas, em garagens. Mas os materiais maiores ficavam nos pátios das estações ou nos armazéns, dependendo. Tinha estação que tinha armazém; guardava o material nos armazéns.

 

P/1 – Então, nas estações em que existia o armazém tudo o que...

 

R – O material era guardado lá, nesses armazéns.

 

P/1 – E não era material de transporte, mercadoria transportada. Tinha também um depósito de material de vocês, de uso?

 

R – É. É isso.

 

P/1 – O senhor estagiou quanto tempo nesse trecho? Ficou só nesse trecho quando o senhor estagiou?

 

R – Não. Depois, eu ainda fui para Natal, para João Pessoa, para Palmares, ainda passei um período até eu me formar.

 

P/1 – E o senhor lembra a primeira viagem de trem que o senhor fez para resolver um problema de via?

 

R – Não. Assim não, porque a gente andava muito em veículo auto de linha, essas coisas. A primeira viagem de trem eu não lembro.

 

P/1 – O que é um veículo auto de linha? Eu não sei.

 

R – É um veículo tipo uma Kombi, só que anda pela linha.

 

P/1 – É igualzinha a Kombi só que tem a...

 

R – Não, ele é bem parecido com a Kombi, só que é aberto, é um veículo pequeno, que pode ser retirado da linha para dar passagem ao trem, é um veículo de serviço, chama-se auto de linha de serviço.

 

P/1 – E como que retira? As pessoas mesmo levantam e retiram?

 

R – Tem um mecanismo de giro, são duas espátulas: o coloca sobre essas espátulas, dá um giro e tira da linha.

 

P/2 – Essas espátulas estão ao longo da linha?

 

R – Não, Não. Elas andam em conjunto, no próprio veículo.

 

 

P/1 – Quantas pessoas vão nesse auto de linha?

 

R – Em média, cinco pessoas.

 

P/1 – Como é que eram distribuídas as pessoas que trabalhavam na linha? O feitor de linha ficava nas estações?

 

R – Não, tem as sedes. Tinham as sedes das turmas. As turmas de vias são compostas de mestres, feitores e trabalhadores, em média, quinze trabalhadores por turma.

 

P/1 – Essas turmas eram distribuídas nas estações?

 

R – Ao longo do trecho, nas sedes; não é na estação. Tem as sedes de turmas, onde ali tem um escritório, tem uma garagem, tem um depósito de material, depósito de ferramentas.

 

P/1 – Então, necessariamente, ela não precisa estar próxima à estação, ela pode estar no meio da linha?

 

R – Não. Geralmente é nos pátios de alguma estação, a determinadas distâncias.

 

P/1 – Essas distâncias, mais ou menos, como é que eram? O senhor sabe?

 

R – A cada oitenta, cem quilômetros, mais ou menos.

 

P/1 – A cada oitenta, cem quilômetros, tem uma equipe que cuida daquele trecho de linha?

 

R – É, daquele trecho. O trecho é dividido em turmas.

 

P/1 – Da época que o senhor estava aqui na Estação Central, o senhor lembra de algum acidente que foi muito pesado e por que ocasionou o acidente? O que foi?

 

R – Acidente pesado não. Acidentes comuns, às vezes, tombamentos de trens, de vagões. Aqui, a gente nunca teve um acidente pesado, assim. Eu ouvia falar de acidentes lá pela Bahia, por outros lugares... Mas, na época de estágio, não me lembro de nenhum acidente grande, não.

 

P/1 – Era comum o senhor, como estagiário, se deslocar para vários lugares da linha?

 

R – Não, porque, como eu estudava, eu ia mais se fosse um problema em final de semana ou quando tivesse disponibilidade no meio da semana; mas, normalmente, o estagiário não viaja muito ao trecho por conta do estudo, né?

 

P/1 – Dessa época em que o senhor foi estagiário, quem foi a pessoa de referência para o senhor que lhe ensinou muitas coisas sobre as vias?

 

R – Nome?

 

P/1 – É.

 

R – Paulo Silva Araújo, José Estácio Bandeira, Ernane Mendonça.

 

P/1 – Eles faziam o que?

 

R – Eles eram engenheiros titulares da Residência, que é a área que faz a manutenção.

 

P/1 – Teve algum mestre de linha, ou um feitor, que também foi referência para o senhor?

 

R – Teve, João Cristóvão, tem João Panta e outros.

 

P/1 – Por que eles são referência para o senhor?

 

R – Porque eles tinham muito tempo de serviço e conheciam muito bem o trabalho.

 

P/1 – Quando o senhor deixa de ser estagiário, o senhor, logo em seguida, foi efetivado na Rede?

 

R – Não. Não. Eu esperei para ser enquadrado no quadro de engenheiros seis anos. Mas, a partir desse momento, eu fiquei trabalhando já como engenheiro, embora não sendo do quadro.

 

P/1 – O senhor ficou como um prestador de serviços?

 

R – Não. Eu era funcionário da empresa.

 

P/1 – Ah, o senhor ficou como...

 

R – Não, eu mudei de função...

 

P/2 – Ah, mudou de função...

 

R – Não para engenheiro.

 

P/1 – Qual era a função?

 

R – Era a função de analista. Analista.

 

P/2 – Justamente para esperar esse período da efetivação.

 

R – É. Porque eu tive que fazer um curso interno para entrar no quadro. Fiquei esperando que houvesse concurso interno, mas fiquei prestando serviço em diversos locais, em João Pessoa, Natal, fazendo levantamentos, já como engenheiro, formado, embora não sendo do quadro.

 

P/1 – Esses deslocamentos que o senhor fazia para várias outras cidades, como o senhor citou agora, como é que era o trabalho de campo? Como é que o senhor se deslocava para lá? Quanto tempo o senhor ficava?

 

R – De carro, passava vinte dias, um mês. Dependia da necessidade.

 

P/1 – Geralmente, que tipo de problemas o senhor encontrava na linha?

 

R – Esse tempo que eu passei era para fazer remodelação de trechos e manutenção da via.

 

P/1 – O que é fazer remodelação de trechos?

 

R – É mudar as características da linha, por exemplo, você tem um trecho que é de dormentes de madeira e muda para concreto, muda o perfil do trilho, muda o tipo do lastro; enfim, mudar o padrão da linha, a característica da linha.

 

P/1 – Nessa época, como é que era feita a capinação da linha?

 

R – Manual. Capinação manual, depois, veio a química.

 

P/1 – Quando o senhor se deslocava para essas regiões, nesse período, onde o senhor ficava? Tinha um hotel?

 

R – Hotel. Hotel.

 

P/1 – Que era próximo das estações?

 

R – Sim, em alguns lugares sim, em outros não, dependia. Mas, normalmente, era próximo às estações.

 

P/2 – Deixa-me entender uma coisa senhor José, o senhor ia para um trecho, vamos pegar como exemplo o de João Pessoa, aí o senhor ia para João Pessoa, fazia a análise do trecho e, depois, o que o senhor fazia? O senhor fazia um relatório e encaminhava? Como é que era?

 

R – Normalmente, a gente já ia sabendo o que ia fazer. Os engenheiros e o Departamento de Obras, por exemplo, vão fazer uma obra em tal quilômetro, fazer a manutenção em tal quilômetro e a gente ia. Normalmente, era serviço contratado e a gente ia fiscalizar a execução.

 

P/1 – Então, pegando um gancho nessa pergunta, como a extensão da Rede, dessas linhas era muito grande, vocês ficavam sabendo desses problemas que aconteciam na linha como? Era através do mestre de linha da região?

 

R – Do mestre de linha e do engenheiro, porque tinham as Residências. Tinha a Residência de Recife, tinha a de João Pessoa, a de Natal, a de Mossoró, a de Serra Talhada, de Palmares, Arapiraca. Em cada sede dessas, tinha um engenheiro residente. A mesma estrutura daqui.

 

P/1 – Você tinha um engenheiro residente, um mestre de linha, o feitor...

 

R – O mestre de linha, o feitor e os trabalhadores.

 

P/1 – Eles passavam as demandas?

 

R – É. Passavam as demandas para a chefia, que deslocava o pessoal daqui para ir para lá ajudar a fazer essas obras.

 

P/2 – E o senhor disse que fazia algumas análises. O senhor também participava, vamos dizer, desse levantamento?

 

R – Às vezes, sim.

 

P/2 – Então, quando o senhor fazia esse levantamento como é que era? Era passado para quem?

 

R – Para chefia de cada área. Em Recife, tinha a sede da Via Permanente, onde tinha a chefia e várias áreas. Tinha a sala de desenho, a sala de obras, a sala do setor industrial, que é a parte de manutenção de veículos, de autos de linha. Tinham diversas áreas e cada área entrava com a sua cota de demanda de serviço para ser feito.

 

P/2 – E entrava no orçamento.

 

R – É no orçamento, contratava uma empresa para fazer o serviço e a gente ia fiscalizar.

 

P/1 – Mas como o senhor tinha uma estrutura nos locais, tinham manutenções que eram feitas por esse grupo de engenheiros permanentes, pelo mestre... Só algumas obras...

 

R – Não. Tinha a manutenção feita por eles, tinham algumas obras pontuais que eram feitas pelas empreiteiras, a gente ia para fiscalizar e também ajudar na Residência local.

 

P/1 – Certo. Que empreiteiras, nessa época foram contratadas, o senhor lembra? Que prestavam serviços para a Rede Ferroviária.

 

R – Eram empreiteiras pequenas, não tinham grandes empreiteiras. Eu não lembro o nome.

 

P/1 – O senhor trabalhou em algumas estações que essas manutenções foram feitas em que o trecho da via ficava muito distante da estação ou do trecho?

 

R – Não. A estação sempre está à margem da via. A via sempre passa ao lado, na frente, da estação.

 

P/1 – Então, me deixa ver se eu consigo explicar, por exemplo: teve algum momento, nessa época que o senhor estava fazendo manutenção, em que o problema de manutenção aconteceu muito distante da estação? Como é que era feito esse deslocamento para fazer essa manutenção?

 

R – Depende, se tiver acesso rodoviário vai de carro, se não, é pela via, se desloca pela via.

 

P/1 – E tinha acampamentos? Ficavam em acampamentos ou voltava todo dia à equipe? Como é que era?

 

R – Não. Normalmente, voltando todo dia para a sede.

 

P/1 – Mesmo que fosse muito longe.

 

R – Dependia, às vezes, você podia passar três, quatro dias ali, dependendo da necessidade, da urgência de liberação daquele trecho, você podia ficar. Mas se conseguia uma pousada ou um hotel próximo e ali ficava.

 

P/1 – Senhor José Morais, depois desses seis anos, quando o senhor foi efetivado, para onde o senhor foi? O senhor continuou...

 

R – Eu continuei na Via Permanente. Fui trabalhar em Palmares. Tinha uma residência em Palmares, Pernambuco. Passei oito anos lá.

 

P/1 – Como é que era essa região? Conta para a gente um pouquinho.

 

R – Região de cana-de-açúcar. Área de cultura, praticamente, de monocultura da cana. É o que predomina lá.

 

P/1 – Tem muitas usinas próximas.

 

R – Tem. Tem várias usinas.

 

P/1 – E o senhor foi morar na vila da Rede Ferroviária?

 

R – Não. Na casa do engenheiro residente que tinha lá.

 

P/1 – E ela não ficava próximo da vila dos ferroviários?

 

R – Ficava próximo sim. Próximo da estação e próximo da vila ferroviária.

 

P/1 – Como é que foi essa fase de trabalhar lá? Quais foram as maiores dificuldades que o senhor encontrou sendo engenheiro permanente, nessa nova fase sua profissional?

 

R – Dificuldades, às vezes, de aquisição de material para trabalhar, às vezes, acidentes, é uma região que chove bastante, acidentes da natureza; arrombamentos na linha. Dificuldades normais de manutenção da via.

 

P/1 – O senhor falou que acontecia muito? Arrombamento das linhas? O que é isso?

 

R – É quando chove bastante e obstrui uma obra, um bueiro, por exemplo, o aterro, forma uma barragem ali ao lado do aterro, o aterro não resiste e vai embora.

 

P/2 – E aí tem que...

 

R – Recompor. Contratar máquinas, contratar pessoal e recompor o aterro para liberar a passagem do trem.

 

P/1 – O senhor falou da dificuldade de aquisição de material. Por que dessa dificuldade, senhor José Morais?

 

R – Dificuldade porque o sistema ferroviário já vinha bastante deixado de lado pelo Governo e a Rede passava por dificuldades de recursos para fazer manutenção.

 

P/2 – Senhor José, e a sua casa, como é que era? A residência, do engenheiro...

 

R – Lá? Era uma casa grande num terreno grande, era tipo chácara. Dezessete cômodos, um terreno grande, muita fruteira, muito plantio de macaxeira, batata, essas coisas.

 

P/2 – Que frutas que tinha?

 

R – Manga, jaca, laranja, tangerina, banana...

 

P/2 - O senhor já era casado quando o senhor foi?

 

R – O ano que eu fui para lá, foi o ano que eu casei.

 

P/2 – Que ano que foi?

 

R – 1985.

 

P/2 – E a mulher dele deve ter ficado danada, 17 cômodos para limpar! Como é que era isso, hein?

 

R – Ah, sim! Ela disse que nunca mais quer morar numa casa daquele tamanho! (risos).

 

P/2 – Como é que é o nome dela?

 

R – Bernadete.

 

P/1 – Quando o senhor se propôs a mudar, ela topou na hora?

 

R – Ela morava em Caruaru. Ela estudava e trabalhava lá em Caruaru e deixou tudo para viver comigo. Mas lá ela passou a trabalhar, ela é da área da educação. Ela passou a trabalhar e tocamos a vida para frente.

 

P/1 – E como é que era estação de Palmares nessa época?

 

R – A estação? Em termos de quê?

 

P/1 – Era grande? Pequena?

 

R – É grande, uma estação grande. Nosso escritório funcionava lá na estação. Tinha um primeiro andar, tinha a sala do agente de estação, sala de segurança, sala de serviço social e a sala nossa, da residência.

 

P/1 – E tinha armazém lá em Palmares?

 

R – Tinha. Tinha armazém.

 

P/1 – E tinha próximo também a rotunda?

 

R – Não, lá não.

 

P/1 – E, nessa região, o que tinha mais, carros de passageiro ou vagões de carga?

 

R – Não. O trem de passageiros, na época, ia até Ribeirão, só. Palmares não tinha trem de passageiros.

 

P/1 – Então não tinha.

 

R – Não. Tinha um trem de passageiros para Maceió, mas, pouco tempo depois, acabou.

 

P/2 – Passava por lá ou saía de lá?

 

R – Passava por lá. Saía de Recife e ia para Maceió.

 

P/2 – Saía de Recife, passava...

 

R – Passava por lá e ia para Maceió.

 

P/2 – Ele parava quando ele passava por lá?

 

R – Ele parava nas estações.

 

P/2 – Tinha aquela coisa de venda, comércio na estação, para esse trem?

 

R – Sempre tinha pequeno comércio: água, lanches, para as pessoas que iam viajando no trem.

 

P/2 – Lanche o que era, senhor José? Sanduíches, frutas? O que era?

 

R – Sanduíches, pipoca, essas coisas assim.

 

P/1 – E os vagões de carga que carga, basicamente, se transportava lá?

 

R – Açúcar, álcool. Era o predominante.

 

P/2 – Senhor José, eu queria voltar na casa porque eu estou impressionada com o tamanho da casa (risos). Era comum que a casa dos engenheiros fosse assim grande ou isso era uma característica de Palmares?

 

R – Não. As casas dos engenheiros residentes eram casas boas, mas não eram todas assim desse tamanho. É porque variava de local para local. Essa casa tinha sido do pai de um ex-prefeito lá de Palmares. Ele construiu e depois a Rede Ferroviária comprou para ser a casa dos engenheiros, dos residentes.

 

P/2 – Mas em geral eram casas confortáveis, com...

 

R – Casas boas. Em geral, eram casas boas, com boa manutenção e tudo.

 

P/1 – Depois de Palmares o senhor vai para aonde?

 

R – Para Recife.

 

P/1 – Ah, o senhor já vai para Recife.

 

R – É. Em 1993, eu vim para Recife. Eu vim trabalhar na sede do Departamento de Via Permanente.

 

P/1 – E o que mudou no seu trabalho, do que o senhor fazia em Palmares pra cá?

 

R – Lá a atividade era como engenheiro residente e aqui já era uma espécie de supervisão a todas as residências. Eu vim para cá para chefiar a Unidade de Conservação e Manutenção, que era uma das áreas do Departamento, aí, eu visitava todas as residências. Ou seja, em Palmares era restrito àquela residência e aqui já era um âmbito mais abrangente.

 

P/1 – O senhor já pegava todas as linhas.

 

R – É.

 

P/1 – E a manutenção da casa? O senhor fazia a manutenção? O senhor supervisionava a manutenção das vias permanentes ligadas a essas diversas vias e também a manutenção das casas dos engenheiros era feita pelo senhor?

 

R – Não. A manutenção das casas era local. Por exemplo, lá em Palmares, se eu precisava fazer alguma manutenção da casa, eu conseguia o recurso suficiente com a chefia, que era em Recife. Era um trabalho um pouco à parte a manutenção de imóveis, essas coisas, já era praticamente ligado direto do residente à chefia de Departamento.

 

P/2 – Tinha uma coisa tipo “patrimônio”? Tinha algum departamento assim, de patrimônio?

 

R – Tinha, na Rede tinha o Departamento de Patrimônio, também para supervisionar a manutenção.

 

P/2 – Essas casas estavam ligadas a isso.

 

R – A isso, ao patrimônio.

 

P/2 – E quando o senhor assume essa manutenção da via como um todo, da Via Permanente, em relação às linhas tronco Norte, Sul e Centro quais foram...

 

R – Não. Eu não assumi a Manutenção toda. Eu assumi a Unidade de Conservação. Porque tinha a Unidade de Conservação, a Unidade de Mecânica, a Unidade Industrial, várias unidades. A que eu vim tinha o chefe do Departamento e tinha essas unidades. Eu vim para chefiar uma dessas unidades, que era a Unidade de Conservação.

 

P/1 – Da conservação da Via Permanente?

 

R – Da Via Permanente.

 

P/1 – Aí, as outras áreas, do que elas cuidavam?

 

R – Cuidavam de capina química, de manutenção da frota, de fabricação de autos de linha, de pedreiras, as diversas áreas da manutenção.

 

P/1 – E tinha um chefe. Quem era o chefe geral nessa época?

 

R – Nessa época era o engenheiro João Luis Lessa.

 

P/1 – Senhor José Morais, qual foi a dificuldade que o senhor encontrou quando assumiu essa chefia de manutenção da Via Permanente?

 

R – Não. Não teve tanta dificuldade não. Foi um trabalho tranqüilo.

 

P/1 – O senhor viajava muito por essas várias regiões?

 

R – Sim, viajava muito. Normalmente, dez a quinze dias do mês eram em viagens.

 

P/1 – Qual é a diferença dessas, por exemplo, paisagens da Linha Tronco Norte, para a Linha Tronco Centro e para a Sul?

 

R – Até certo ponto, na zona da mata, não tem muita diferença. Depois, a paisagem do agreste, a vegetação já é diferente; no sertão, não chove muito, as obras têm uma característica um pouco diferente, há uma diferença no sistema das obras de acordo com a região.

 

P/1 – Que diferenças são essas?

 

R – Por exemplo, a bacia hidrográfica é bem maior na região norte. Aqui tem que ter mais obras, obras com vãos maiores, muita ponte e tudo. Já no Sertão, elas são mais esparsas, são mais distantes umas das outras. A diferença é essa.

 

P/1 – Na região sul, qual é a diferença? Na região central é um pouco mais esparsa e no sul também ou não?

 

R – Não. No sul, como é uma região que chove muito, em quase toda a região sul, você tem bastante obras, mas a vegetação também nasce mais rápido. Você tem que ter uma frequência maior de manutenção.

 

P/1 – Qual foi o avanço que trouxe a capinação química para esse seu trabalho?

 

R – Ela é mais efetiva para limpar a linha porque você coloca aquele produto e, com uma semana, o mato já está amarelando. O gasto de mão de obra é bem menor para você manter a linha limpa de mato.

 

P/1 – Nessas ocasiões em que você viajava muito, como é que era a comida e a cozinha? Por exemplo, nesses deslocamentos que você ia para o trabalho de campo, como é que era a comida e como é que era a cozinha? Como é que vocês se alimentavam?

 

R – Teve um período que a gente ficou na turma mecanizada. Essa turma mecanizada era uma composição ferroviária com vagões: vagão-cozinha, vagão depósito de combustível, depósito de material, vagões-dormitório. Então, lá a comida era preparada na cozinha, naqueles caldeirões enormes para 50 homens, mas uma comida de boa qualidade, carne de primeira, verdura, fruta, com nutricionista, com tudo.

 

P/1 – Como é que era esse vagão-cozinha?

 

R – Fogões industriais e grandes caldeirões para preparação da comida.

 

P/1 – Quantas pessoas trabalhavam nessa cozinha?

 

R – Quatro pessoas. Três, quatro pessoas, mais ou menos.

 

P/1 – E o vagão-dormitório, como é que ele era?

 

R – Beliches e corredores no meio.

 

P/1 – E o banheiro também era nesse vagão-dormitório, ou não?

 

R – Não. Os banheiros eram instalações físicas na estação onde aquela composição estivesse.

 

P/1 – Todas as pessoas que estavam trabalhando dormiam lá nesse vagão?

 

R – É.

 

P/1 – Quantos beliches tinham nesse vagão, você lembra?

 

R – Ah, não lembro não. Dormia umas quinze pessoas em cada vagão mais ou menos.

 

P/1 – Durante esse tempo em que o senhor trabalhou na via, na manutenção de linha, teve algum acidente que o marcou muito em função do trabalho que teve para manutenção da via?

 

R – Não. Grandes acidentes não. Às vezes, tinha acidente com trem de combustível, trem de álcool, alguma fagulha, às vezes, no descarrilamento provocava. Mas assim, acidentes com vítimas eu não lembro de nenhum marcante, não.

 

P/1 – Mas em termos de destruição da própria via permanente, teve algum que precisou ser refeita a própria via?

 

R – É. Acidentes de arrombamento, da natureza, nos invernos rigorosos sempre acontecem, sempre acontecem. Teve acidente da natureza, por exemplo, ali na área de Escada, na área de Quipapá. Os mais marcantes foram esses.

 

P/1 – Ficou muito tempo parado, senhor José?

 

R – Tivemos uma destruição de uma ponte lá em Alagoas, em 1989, passou um ano com a linha interditada; mas os outros era coisa de uma semana, dez dias no máximo.

 

P/2 – Como é que resolveu esse um ano interditada? Vocês fizeram uma linha paralela?

 

R – Não. O trecho ficou interditado mesmo, sem transporte nessa linha, era na Linha Tronco Sul.

 

P/2 – Era uma linha bastante usada?

 

R – Era bastante usada.

 

P/2 – Então, causou um problema lá?

 

R – Foi. Causou um problema porque era falta de recursos mesmo, já na pré-privatização.

 

P/2 – Ah, então ela demorou muito por falta de recursos mesmo?

 

R – É. Foi.

 

P/2 – E para que servia o horto, senhor José?

 

R – O horto florestal? Para tirar madeira para fazer dormentes.

 

P/1 – E tinha muitos hortos aqui nessa Região Nordeste?

 

R – Tinha um em Goianinha, lá no Rio Grande do Norte e, se não me engano, tinha horto em Barreiros, mas não foi da minha época não. O que eu lembro, marcante, foi o de Goianinha, no Rio Grande do Norte.

 

P/1 – E por que ele foi marcante para o senhor?

 

R – Não, porque era o maior, era o mais expressivo nessa área de madeira.

 

P/1 – O senhor ficou quanto tempo aqui em Recife trabalhando como...?

 

R – Até hoje.

 

P/1 – Então, mas na Rede o senhor ficou...

 

R – Quando eu vim para cá, em 1993, eu fiquei até a privatização. Depois de um ano mais ou menos, eu saí da Unidade de Conservação e assumi a Chefia do Departamento da Via, já no final do processo de concessão. Fiquei de 1995 a 1997. 1994, final de 1994 a 1997, na Chefia do Departamento.

 

P/1 – Quando o senhor assume a Chefia do Departamento, o senhor cuidava de toda a limpeza de carros, tudo?

 

R – Todas as áreas. Todas as áreas: a área industrial, a área de... Se bem que já tinha muita coisa desativada: as pedreiras já estavam desativadas, algumas linhas já não tinham mais circulação de trem, como a Linha Tronco Centro, até Salgueiro. A área para cuidar já estava um pouco mais restrita do que no passado, né?

 

P/2 – Como é que foi, senhor José, esse período da privatização? Foi muito ruim isso?

 

R – Foi. A empresa teve que ser preparada para a privatização. Algumas obras de remodelação da linha tiveram que ser feitas. Foi um processo bastante desgastante.

 

P/1 – E quais linhas tiveram que passar por o processo de remodelação?

 

R – Todas. Em todas tiveram trechos remodelados. Embora nem sempre todos foram usados depois da privatização.

 

P/2 – Porque já vinha um período, pelo que o senhor contou, lá por metade dos anos 1980, já havia um problema de ela já ir se deteriorando, não é isso?

 

R – É. Por falta de investimentos do Governo.

 

P/2 – Quer dizer, metade dos anos 1980 até mais ou menos metade dos 1990, é isso?

 

R – É.

 

P/2 – E aí vocês tiveram que remodelar?

 

R – É.

 

P/2 – E como é que foi para os funcionários, o pessoal recebeu bem?

 

R – Houve uma redução drástica de funcionários e esse trabalho de remodelação foi feito por empresas contratadas, empresas privadas.

 

P/1 – Que trechos que foram eleitos para serem remodelados e por quê?

 

R – Foram estudos feitos pela Rede Ferroviária lá na Administração Geral que determinaram que trechos deveriam ser remodelados, tanto na Linha Tronco Norte, como na Linha Tronco Centro e Linha Tronco Sul. Em todos os trechos teve remodelação.

 

P/2 – Depois eles não foram usados?

 

R – Alguns, porque o tráfego ficou suspenso. Depois da privatização, o tráfego ficou suspenso lá no trecho de Rio Grande do Norte e na Linha Tronco Centro.

 

P/2 – Por que, senhor José?

 

R – Porque não interessava aos arrendatários, aos concessionários.

 

P/1 – Esse estudo que foi feito tinha a ver com a questão econômica desse trecho?

 

R – É, com a situação econômica. O estudo foi determinado lá no Rio de Janeiro, a gente não tem muito conhecimento. Mas eu acho que foi feito um estudo de viabilidade econômica de cada trecho e privilegiaram-se aqueles que tinham condições de transportar mais carga.

 

P/1 – Nesse processo de privatização, o senhor chegou a se aposentar também, é isso? Pela Rede?

 

R – É. Eu me aposentei quando, justamente, no período da concessão, da privatização, em 1997.

 

P/2 – Mas o senhor voltou para trabalhar na...

 

R – A concessionária me convidou para continuar. Onde eu estou até hoje.

 

P/1 – O senhor se aposentou por quê? O senhor teve um convite?

 

R – Houve um incentivo para a gente aposentar porque a empresa estava sendo concessionada, arrendada, e muita gente saiu da empresa e outros, que reuniam condições para aposentar, aposentaram.

 

P/2 – Senhor José, foi doído para vocês funcionários deixarem a Rede?

 

R – Muito. Muito.

 

P/2 – É? Como é que foi esse momento, senhor José?

 

R – Muita angústia porque a gente via muita gente que tinha muito amor à empresa saindo assim, às vezes, forçado mesmo. Foi muito choro, muita angústia, mas não tinha como voltar atrás, não tinha como reverter. Era uma decisão de Governo, né?

 

P/2 – Teve alguma mobilização dos sindicatos na época?

 

R – Teve, teve mobilização, mas sem resultado.

 

P/2 – O senhor chegou a participar dessas mobilizações?

 

R – Não. Eu nunca participei de mobilização nenhuma nesse sentido não. Porque eu fazia parte da administração da empresa e não ficava bem estar participando desses movimentos, né?

 

P/1 – Tiveram algumas linhas que foram privatizadas por esse Brasil, senhor José, nesse período de privatização, teve até uma coisa assim, um funcionário levou um sino de presente, o outro levou alguma coisa. Aqui também teve isso, ou não?

 

R – Possivelmente, sim. Mas eu mesmo nunca me interessei por levar as coisas da empresa não, mesmo que fosse uma recordação. Eu nunca me interessei por isso não.

 

P/1 – Quando o senhor se aposenta, logo em seguida, o senhor é convidado para trabalhar...

 

R – No dia seguinte. No dia que eu me aposentei, eu já estava na concessionária.

 

P/1 – Que era a...?

 

R – Essa, a Transnordestina Logística, hoje. Na época era outro nome, né.

 

P/1 – Como é que ela chamava?

 

R – Era Manor, Malha Nordeste; depois, veio a Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN) e, hoje, Transnordestina.

 

P/1 – E quem pegou esse trecho, quem é o concessionário desse trecho?

 

R – No início foi um consórcio, Vale do Rio Doce, Bradesco, Grupo Taquari (Taquari Participações S/A) e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Hoje é a CSN.

 

P/1 – Como é que foi feita essa concessão? O senhor sabe o processo de como foi feito isso e para que eles usavam esse trecho da linha?

 

R – A concessão foi feita para eles operarem. Para o novo concessionário operar a linha sob condições, tem um contrato de arrendamento por trinta anos, renovável por mais trinta, dependendo do interesse de ambas as partes.

 

P/1 – O senhor disse que na época era um consórcio de várias empresas e hoje só está a CSN.

 

R – É. A CSN e Grupo Taquari.

 

P/1 – A Vale do Rio Doce saiu e quando que foi isso? E o Bradesco também...

 

R – Logo, acho, que no segundo ano de operação, mais ou menos.

 

P/1 – E o que é transportado hoje nesse trecho?

 

R – Ah, transporta-se açúcar, álcool, calcário, combustível...

 

P/1 – Tem algum minério, alguma coisa?

 

R – Teve um transporte de minério da Paraíba. No momento, está parado, mas tem perspectivas de se transportar.

 

P/1 – E esse trecho vai de Recife até?

 

R – Vai de Recife até São Luis. E agora vai operar o trecho de São Luis até Propriá, na ligação com a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).

 

P/2 – Esse Grupo Taquari, que o senhor disse, é um grupo aqui da Região?

 

R – É de Fortaleza.

 

P/1 – Qual que é a atividade dele?

 

R – Tem a atividade fabril. Têm diversas, tem na área da CSN, siderurgia, diversas empresas nesse Grupo.

 

P21 – Esse prolongamento da linha, que o senhor está dizendo, é uma coisa para acontecer num... Em qual período, senhor José?

 

R – Agora tem a Nova Transnordestina que está para operar. Até 2012, deve estar operando e trechos que estão sendo remodelados também daqui para Propriá estão em fase de conclusão.

 

P/1 – Esses trechos foram construídos novos ou foram remodelados?

 

R – Não. Trechos remodelados. Agora, a Nova Transnordestina são trechos novos.

 

P/1 – E a Transnordestina está fazendo que pedaço?

 

R – Está fazendo Eliseu Martins-Salgueiro, Salgueiro-Suape, vai ser praticamente um trecho novo. Tem Salgueiro-Missão Velha, tem a renovação de Missão Velha a Fortaleza, são vários trechos. Alguns estão sendo remodelados e outros...

 

P/1 – Sendo construídos. É carga e passageiros também?

 

R – Carga, só carga. Pode até haver concessão depois de passageiros.

 

P/2 – É uma intenção, será? O pessoal quer transportar passageiros?

 

R – Não. As comunidades solicitam, o Governo analisa e o contrato de concessão permite que isso aconteça.

 

P/1 – Hoje, qual é a sua função?

 

R – Eu sou engenheiro.

 

P/1 – E o senhor cuida da manutenção da via?

 

R – Da manutenção da via. Quer dizer, hoje, eu estou mais na parte de remodelação. De acordo com a necessidade, eles vão me colocando na função cabível.

 

P/1 – E manutenção de carros, de vagões...

 

R – Não, aí é outra área.

 

P/2 – Uma remodelação o pessoal fala assim, “Senhor José, vai lá para tal lugar”. É isso?

 

R – É.

 

P/2 – E o senhor chega lá, o que o senhor faz?

 

R – Tem as empreiteiras que fazem o serviço...

 

P/1 – Isso é o senhor quem determina ou já vem determinado?

 

R – Não, são estudos feitos na sede da empresa em Fortaleza e a gente vai para acompanhar a execução.

 

P/2 – Como era antes.

 

R – É.

 

P/1 – Já para ir finalizando, houve muitas mudanças na sua atividade profissional de manutenção de linha no decorrer da sua carreira? O senhor percebeu muitas mudanças?

 

R – Não, não tem muita mudança não. Praticamente, o serviço é o mesmo.

 

P/1 – Não houve nenhuma mudança tecnológica significativa que...

 

R – Não. Não.

 

P/1 – O que o senhor mais aprendeu no seu trabalho durante esse tempo todo?

 

R – Uma das coisas que eu aprendi muito foi lidar com gente. Assim, tratar as pessoas igualmente desde lá de cima até lá embaixo. Eu tive muita experiência. Experiência de novos serviços. Quer dizer, não com muita tecnologia, com muita novidade, mas sempre acrescenta algo à gente a execução de algumas obras, de alguns serviços. Sempre a gente adquire mais experiência com o tempo.

 

P/1 – Tem algum caso que o senhor acha engraçado ou mais significativo para contar para a gente?

 

R – Assim, em termos de quê?

 

P/1 – Qualquer coisa que o senhor ache que aconteceu no seu trabalho que o marcou, que deixou uma marca muito profunda no senhor no sentido ou de aprendizado ou de que foi engraçado.

 

R – Fatos, por exemplo, de, às vezes, você ir ao longo do trecho de auto de linha e, aí, o auto de linha quebra e você tem que ficar lá esperando que outro venha. Dormir ali, em acampamentos, em barracas. Às vezes, quase pisar numa cobra e você se assustar. Uma pedra rola de um corte em cima da linha e você tem que parar o auto de vez, e, assim, histórias que o pessoal conta ao longo da ferrovia, né? Tinha um engenheiro, que não foi da minha época, mas a gente se divertia muito com o pessoal contando. Era um engenheiro, da Great Western of Brazil Railway, na época, um engenheiro inglês, ele era apelidado de “A Onça” porque ele era muito rígido. Então, ele viajava no trecho e, numa certa estação, ele visitou a estação e seguiu a viagem para a próxima. O agente passou pelo telégrafo para o colega: “A Onça acaba de sair agora para aí”. Ele entendia de telegrafia, voltou e disse: “A Onça vai começar a beber água agora”. Ele demitiu o agente (risos). E outros fatos assim. Tem uns casos...

 

P/2 – É, o senhor não chegou a pegar nenhum engenheiro americano antes do senhor...

 

R – Não. Nessa época já era tudo daqui mesmo.

 

P/1 – E o senhor chegou a conviver com pessoas que trabalharam na época da Great Western e trabalhava na Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA)?

 

R – É, que contavam essas histórias, né?

 

P/1 – Eles comentavam se era mais rígido, se era mais organizado na época dos ingleses do que na época nacional, ou não? Tinha algum comentário?

 

R – Não. Eles comentavam muito mais sobre a rigidez do sistema, do sistema inglês, porque na Great Western eram engenheiros ingleses que comandavam aqui. Eles falavam mais sobre a rigidez.

 

P/1 – Eu vou pedir para que o senhor faça um exercício de abstração, se hoje nós fossemos retomar a Rede Ferroviária brasileira o que precisaria ser feito, em sua opinião? Em relação ao transporte de cargas e passageiros, o que seria necessário ser feito pra que isso fosse possível?

 

R – O sistema teria que ser repensado. Tem que melhorar a frota de vagões, de carros de passageiros, melhorar a via permanente. Olhar para a ferrovia como um fator de progresso, de desenvolvimento, de integração, de diminuir o custo do país. O sistema teria que ser repensado.

 

P/1 – Essa coisa que se fala das diferentes bitolas no país como um todo, isso é realmente um problema? Ele é um dificultador para a integração?

 

R – É. A unificação das bitolas facilitaria bastante a integração, com certeza.

 

P/1 – Eu vou lhe fazer outra pergunta que é mais analítica e de visão pessoal mesmo, se o senhor fosse comparar, qual é a diferença do sistema ferroviário brasileiro com o europeu? Em termos de processos de trabalho, qual é a diferença que existe?

 

R – A diferença que existe, no meu ponto de vista, é que lá se vê com outros olhos a ferrovia. Consequentemente, você tem mais investimentos, tem mais manutenção, tem mais qualidade, os trens são mais modernos, tanto de carga quanto de passageiro. É como eu vejo, é outro enfoque.

 

P/1 – Faltou alguma coisa que a gente não perguntou para o senhor e o senhor gostaria de comentar, senhor José?

 

R – Não. Acho que está bem abrangente.

 

P/1 – Eu vou lhe fazer uma pergunta agora meio de ordem pessoal, o que significou para o senhor trabalhar na Ferrovia?

 

R – Significou um crescimento pessoal e o prazer de trabalhar, principalmente, pelo amor que aquelas pessoas têm à ferrovia. A gente percebe como o ferroviário, a maioria dos ferroviários, é como se você adquirisse um vírus que ele não largasse mais, entendeu? A maioria sai, mas existe um saudosismo muito grande das pessoas que fizeram a história da ferrovia. As pessoas têm um carinho e falam com muito, com muito amor, da ferrovia. E isso aí até me atingiu e está até difícil de largar.

 

P/1 – E agora o senhor ainda continua trabalhando na ferrovia. O que difere hoje? Qual a diferença de se trabalhar pra RFFSA e de se trabalhar pra Transnordestina hoje? Tem alguma diferença?

 

R – Os processos são diferentes. Tudo tem a sua particularidade. Na empresa privada, há uma liberdade maior para adquirir materiais, para realizar determinadas tarefas; na Rede era mais burocrático. Por outro lado, na Rede, a questão de patrimônio, o pessoal zelava mais pelo patrimônio. Existem diferenças mesmo de ordem de sistema mesmo de trabalho de cada uma.

 

P/1 – Para finalizar, qual a importância, para o senhor, de um trabalho como esse de registrar a memória da Rede Ferroviária?

 

R – É importante porque eu vejo a ferrovia como solução para o transporte de cargas no país e até de passageiros. E o registro da memória vai influenciar novas gerações a conhecerem e também a se interessarem pelo sistema, não é? Porque o futuro está nas mãos de quem hoje é adolescente, criança e de quem vai nascer e um país com as nossas dimensões não pode prescindir do transporte ferroviário. Essa é a importância que eu vejo desse trabalho de memória, eu gosto e admiro o trabalho de preservação da memória ferroviária.

 

P/1 – Para finalizar, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista?

 

R – Interessante. Provocante, para gente pensar mais em outras ideias e alternativas também.

 

P/1 – Eu queria agradecer em nome do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Museu da Pessoa sua participação. Muito obrigada, senhor José.

 

P/2 – Muito obrigada, senhor José.

 

R – De nada.

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